Poucos fenômenos da cultura pop recente são tão reveladores sobre o nosso tempo quanto a popularidade de Homelander, personagem central da série The Boys.
Embora seja apresentado desde o primeiro episódio como um assassino, manipulador, narcisista e aspirante a ditador, uma parcela surpreendentemente grande do público não apenas torce por ele, mas também demonstra indignação diante da possibilidade de vê-lo derrotado no desfecho da história.
À primeira vista, o fenômeno parece contraditório. Como alguém pode admirar um personagem que reúne praticamente todas as características associadas ao abuso de poder?
A resposta talvez diga mais sobre a sociedade contemporânea do que sobre a própria série.
Homelander representa uma fantasia de poder absoluto. Ele não presta contas a ninguém. Não responde à Justiça. Não teme instituições. Não aceita limites morais. Em um mundo onde milhões de pessoas sentem-se impotentes diante de governos, empresas, crises econômicas e problemas pessoais, a figura daquele que pode fazer qualquer coisa sem sofrer consequências exerce um fascínio quase primitivo.
Existe também o chamado "efeito carisma". O personagem é cruel, mas é inteligente, eloquente e, muitas vezes, mais interessante que os próprios heróis.
O público frequentemente confunde protagonismo com admiração. Quanto mais tempo passa acompanhando um personagem, mais tende a enxergar o mundo através dos olhos dele.
É o mesmo fenômeno que ocorreu com personagens como Breaking Bad e seu protagonista Walter White, ou com The Sopranos e Tony Soprano.
Mas há algo mais profundo acontecendo.
Nas últimas décadas, a cultura passou a valorizar excessivamente a ideia do indivíduo forte que desafia todas as regras. O sucesso é frequentemente associado à capacidade de impor sua vontade sobre os demais. Nessa lógica, a empatia é vista como fraqueza, enquanto a brutalidade pode ser confundida com liderança.
Homelander encarna exatamente essa fantasia. Ele é o homem que nunca pede desculpas. Nunca admite erros. Nunca recua.
Para parte do público, especialmente em uma época marcada pela polarização política e pela exaltação de figuras autoritárias, isso se transforma em um símbolo de força, mesmo quando a narrativa deixa claro que se trata de um monstro.
Há ainda outro fator: muitas pessoas passaram a enxergar a série como uma disputa ideológica. Em vez de acompanhar a história como uma crítica ao poder sem limites, transformaram a experiência em uma batalha de torcida organizada.
Quando isso acontece, o personagem deixa de ser avaliado por suas ações e passa a ser defendido porque representa um grupo, uma identidade ou uma visão de mundo.
É por isso que um eventual final em que Homelander seja preso, derrotado ou morto tende a gerar rejeição entre seus admiradores. Não porque a punição seja injusta, mas porque ela destrói a fantasia construída ao longo dos anos.
O que incomoda não é a derrota do personagem; é a derrota da ideia de que alguém poderoso pode permanecer acima de qualquer consequência para sempre.
Talvez o maior mérito de The Boys seja justamente esse: expor como a sociedade frequentemente se apaixona por figuras autoritárias enquanto condena apenas os seus adversários. O desconforto de parte do público diante da possível queda de Homelander não revela uma falha da série. Revela o sucesso dela.
Porque, no fim das contas, a pergunta mais interessante nunca foi por que Homelander é tão cruel. A pergunta realmente perturbadora é por que tanta gente continua torcendo por ele mesmo sabendo disso.

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