domingo, 31 de maio de 2026

Homelander, o herói dos fracassados

Poucos fenômenos da cultura pop recente são tão reveladores sobre o nosso tempo quanto a popularidade de Homelander, personagem central da série The Boys.

Embora seja apresentado desde o primeiro episódio como um assassino, manipulador, narcisista e aspirante a ditador, uma parcela surpreendentemente grande do público não apenas torce por ele, mas também demonstra indignação diante da possibilidade de vê-lo derrotado no desfecho da história.

À primeira vista, o fenômeno parece contraditório. Como alguém pode admirar um personagem que reúne praticamente todas as características associadas ao abuso de poder?

A resposta talvez diga mais sobre a sociedade contemporânea do que sobre a própria série.

Homelander representa uma fantasia de poder absoluto. Ele não presta contas a ninguém. Não responde à Justiça. Não teme instituições. Não aceita limites morais. Em um mundo onde milhões de pessoas sentem-se impotentes diante de governos, empresas, crises econômicas e problemas pessoais, a figura daquele que pode fazer qualquer coisa sem sofrer consequências exerce um fascínio quase primitivo.

Existe também o chamado "efeito carisma". O personagem é cruel, mas é inteligente, eloquente e, muitas vezes, mais interessante que os próprios heróis.

O público frequentemente confunde protagonismo com admiração. Quanto mais tempo passa acompanhando um personagem, mais tende a enxergar o mundo através dos olhos dele.

É o mesmo fenômeno que ocorreu com personagens como Breaking Bad e seu protagonista Walter White, ou com The Sopranos e Tony Soprano.

Mas há algo mais profundo acontecendo.

Nas últimas décadas, a cultura passou a valorizar excessivamente a ideia do indivíduo forte que desafia todas as regras. O sucesso é frequentemente associado à capacidade de impor sua vontade sobre os demais. Nessa lógica, a empatia é vista como fraqueza, enquanto a brutalidade pode ser confundida com liderança.

Homelander encarna exatamente essa fantasia. Ele é o homem que nunca pede desculpas. Nunca admite erros. Nunca recua.

Para parte do público, especialmente em uma época marcada pela polarização política e pela exaltação de figuras autoritárias, isso se transforma em um símbolo de força, mesmo quando a narrativa deixa claro que se trata de um monstro.

Há ainda outro fator: muitas pessoas passaram a enxergar a série como uma disputa ideológica. Em vez de acompanhar a história como uma crítica ao poder sem limites, transformaram a experiência em uma batalha de torcida organizada.

Quando isso acontece, o personagem deixa de ser avaliado por suas ações e passa a ser defendido porque representa um grupo, uma identidade ou uma visão de mundo.

É por isso que um eventual final em que Homelander seja preso, derrotado ou morto tende a gerar rejeição entre seus admiradores. Não porque a punição seja injusta, mas porque ela destrói a fantasia construída ao longo dos anos.

O que incomoda não é a derrota do personagem; é a derrota da ideia de que alguém poderoso pode permanecer acima de qualquer consequência para sempre.

Talvez o maior mérito de The Boys seja justamente esse: expor como a sociedade frequentemente se apaixona por figuras autoritárias enquanto condena apenas os seus adversários. O desconforto de parte do público diante da possível queda de Homelander não revela uma falha da série. Revela o sucesso dela.

Porque, no fim das contas, a pergunta mais interessante nunca foi por que Homelander é tão cruel. A pergunta realmente perturbadora é por que tanta gente continua torcendo por ele mesmo sabendo disso.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Uberização empreendedora: a domesticação do trabalhador brasileiro

O camarada fez 40 anos, era concursado da BR Distribuidora com salário de 18 mil.

Quando a empresa foi privatizada em 2019, tomou um pé na bunda, pegou o dinheiro da indenização e começou a vender bolo com a esposa. Veio a pandemia, teve que parar de vender bolo e usou o dinheiro para sobreviver.

Hoje, com 46, está desempregado, faz bico como Uber e já enviou currículo até para trabalhar como porteiro, pra ganhar um salário mínimo, pois sua idade também virou um empecilho no mercado de trabalho.

Quando uma estatal é privatizada, essa realidade acaba sendo comum. Nós, da geração Y, filhos do Consenso de Washington, crescemos ouvindo em TVs e rádios que o serviço público não presta.

E isso é não apenas verdade, como também proposital. O sucateamento de estatais sempre foi um projeto político do país, sobretudo a partir dos anos 1990, em que os acordos econômicos Brasil-Estados Unidos com o Banco Mundial visavam desestatizações em massa em troca da transferência de riquezas ao setor privado, dependência do capital estrangeiro e a consequente precarização da mão de obra, tudo para atender a financeirização e a desregulamentação total da economia através da captura do Estado.

O resultado disso, na prática, é um grande volume de mão de obra barata. O papel do Estado é atuar nos projetos do Congresso que garantam a flexibilização das leis trabalhistas e austeridade fiscal. O primeiro é a garantia de maior lucro aos setores empresariais e, o segundo, reduz propositalmente investimentos nas estatais, visando seu sucateamento como justificativa para as privatizações.

Isso significa maior concentração de renda nas mãos de poucas pessoas, que é o principal fator da pobreza e, consequentemente, um estimulador da violência urbana.

Dados de 2024 da Oxfam apontam que 1% da população brasileira concentra quase 70% de toda a riqueza do país. São bilionários.

Bilionários não mantêm suas riquezas trabalhando, mas vivem do rentismo, da não tributação de suas fortunas, das grandes remessas de dólares a paraísos fiscais, das aquisições e fusões empresariais e da especulação no mercado que conseguem fazendo lobby na Bolsa e com o Estado. E também, não por menos, do grande volume de mão de obra barata em seus conglomerados.

Para que isso tudo passe “despercebido” pelo povo, é necessário convencimento de massas. E para haver convencimento de massas é preciso muita publicidade e muita domesticação, que vêm através de meios de comunicação, no trabalho e até em igrejas. O pobre é aculturado a demonizar a ideia de ser empregado e romantizar o objetivo de se tornar “seu próprio patrão”.

Programas de TV como “Pequenas Empresas, Grandes Negócios”, “O Aprendiz” e outros realities do mundo corporativo sempre moldaram na figura do executivo o fetiche das camadas mais populares em corporificar a ascensão de classe, a tão desejada mobilidade social.

No imaginário popular, a ideia de que a riqueza vem pelo trabalho tem a ver com a fantasia calvinista de que o acúmulo de capital é uma resposta positiva de Deus pelo esforço individual. A pobreza, nesse caso, não é mais vista como fruto de uma ampla desigualdade social, mas culpa do próprio indivíduo que não se esforçou o suficiente para sair daquela condição.

Quando um engenheiro com doutorado reclama do seu baixo salário de 4 mil reais mensais e o empregador o demite dizendo: “Não quer? Tem quem queira”, o pobre despolitizado, que não tem a menor ideia de sua estratificação social, entra em defesa do empregador como resultado de sua própria domesticação, reforçando no senso comum a noção de que a precarização da mão de obra nas relações de produção é um resultado individual, fruto da “escolha” de quem “não quer trabalhar”, isentando o empregador e, por consequência, o sistema econômico em que ambos estão inseridos.

Um engenheiro com doutorado, concursado da Petrobrás até a década passada, ganhava um salário inicial de aproximadamente 15 mil mensais. Nada mais justo, pois o profissional passou pelo menos 10 anos em uma universidade se qualificando para isso.

Em uma empresa privatizada, seu salário cai pela metade e seus benefícios são cortados. Isso garante maiores dividendos aos acionistas majoritários.

Mas por que não há uma mobilização de trabalhadores para reivindicar melhores condições? Porque o senso comum foi forjado para fazer o empregado dar razão irrestrita ao empregador. Porque o senso comum ridicularizou a luta por direitos e domesticou o trabalhador a demonizar o serviço público. Porque a igreja convenceu a massa trabalhadora de que ser workaholic é o caminho para a riqueza, elevando o excesso de trabalho e o lucro a uma dimensão sagrada. A ética calvinista como mola propulsora do Burnout...

O alto índice de pejotização da classe trabalhadora – pra cortar custos ao empresário – significa maior informalidade no mercado e prejuízo não apenas ao empregado, que deixa de ter seus direitos trabalhistas, mas também ao próprio Estado, que deixa de arrecadar impostos. É uma transferência de renda do Estado para o setor privado.

Quanto mais “empreendedores” e pejotas home office, mais dinheiro aos empregadores. O Estado aumenta o lucro de empresários e, o trabalhador despolitizado, mergulha na fantasia do “patrão de si mesmo” enquanto trabalha por mais tempo e empobrece ainda mais.

Nessa distopia pós-neoliberal, a uberização dos empregos foi o que restou à classe trabalhadora. O Consenso de Washington produziu no Brasil funcionários públicos a favor das privatizações, classe trabalhadora defendendo a própria precarização e, concurseiros, torcendo pelo enxugamento do Estado.

O neoliberalismo trouxe uma racionalidade irracional ao senso comum, a desregulamentação irrestrita de mercado e a regulação mercadológica da desumanidade.

O que vem depois do absurdo? 
É possível não privatizar a última trombeta do Apocalipse?

TEXTO DE:
Bruno Freixo

quinta-feira, 28 de maio de 2026

André Fernandes "se raspa" de raiva do trabalhador

A degradação do debate público brasileiro não acontece apenas nos grandes escândalos institucionais.

Ela também se revela nos personagens que ascendem politicamente não pela elaboração intelectual, pela capacidade administrativa ou pelo compromisso republicano, mas pelo espetáculo grotesco da vulgaridade convertida em capital eleitoral.

O caso do deputado André Fernandes (alcunhado Raspa Cu) é quase um resumo em caricatura do bolsonarismo enquanto fenômeno político-cultural.

Trata-se de um parlamentar que ganhou notoriedade nas redes sociais ensinando a depilar o próprio ânus na internet (sim, este é o nível da tragédia nacional), e que posteriormente converteu a estética do constrangimento em plataforma eleitoral.

Não estamos diante de um acidente de percurso. Estamos diante de um método.

É quase poético, no pior sentido possível: o sujeito sai do tutorial de "raspa cu" para a Câmara dos Deputados sem precisar atravessar o deserto do pensamento.

Entre um vídeo grotesco e outro, constrói-se uma carreira baseada não na elevação do debate público, mas na degradação deliberada dele.

E então chegamos ao episódio envolvendo a deputada Erika Hilton durante o debate sobre a escala 6x1.

Em vez de apresentar argumentos sólidos sobre relações trabalhistas, produtividade ou impacto econômico da jornada exaustiva imposta a milhões de brasileiros, o parlamentar recorre ao velho método bolsonarista: o insulto, a provocação pueril e a tentativa permanente de humilhar o adversário diante das câmeras. Chegou a chamar trabalhadores que se encontravam nas dependências da Câmara de vagabundos.

Perceba a lógica da coisa: quando falta densidade intelectual, sobra performance agressiva. O bolsonarismo produziu uma geração de políticos cuja principal habilidade não é legislar, mas viralizar.

O Parlamento vira cenário de TikTok; a tribuna se converte em ringue de quinta categoria; e a política passa a funcionar como reality show de ressentimento moral.

No caso de Erika Hilton, há um componente ainda mais grave. Mulher trans, negra e oriunda das periferias, ela simboliza exatamente tudo aquilo que a bolsonarismo aprendeu a transformar em alvo preferencial: diversidade, ascensão social de minorias e ocupação de espaços historicamente monopolizados por homens brancos conservadores.

Não basta discordar dela. É preciso tentar desumanizá-la publicamente para alimentar a militância do ódio.

E aqui reside uma das marcas mais tóxicas do bolsonarismo: a destruição sistemática da ideia de adversário legítimo.

Na democracia, divergências são naturais; no autoritarismo cultural bolsonarista, o outro precisa ser ridicularizado, esmagado e tratado como inimigo moral da nação. O argumento perde importância; o que importa é a humilhação performática.

Tudo isso ocorre enquanto milhões de trabalhadores brasileiros enfrentam jornadas brutais na escala 6x1, vivendo para trabalhar em vez de trabalhar para viver. Mas discutir seriamente as condições materiais da população exigiria estudo, responsabilidade e capacidade de formulação, atributos pouco compatíveis com quem ascendeu politicamente ensinando procedimentos íntimos de depilação do cu, nas redes sociais.

Há algo de simbolicamente devastador nisso tudo: um bolsonarismo que se apresenta como defensora da “moral” e dos “bons costumes”, mas que ajudou a transformar a política brasileira em uma mistura de algoritmo, grosseria e espetáculo degradante.

O resultado é um Parlamento cada vez mais parecido com um feed de rede social tóxica: muito barulho, pouca inteligência e nenhuma grandeza republicana.

A democracia não morre apenas quando tanques ocupam as ruas. Ela também apodrece quando o grotesco vira virtude política e quando figuras que deveriam honrar a representação popular preferem atuar como influenciadores de baixíssimo nível travestidos de estadistas.

No fim, o deputado qhe se elegeu por "raspar o cu", teve de asssumir a "cara de cu" ao ae ver derrotado na votação da escala 6x1.

Agora, sigamos ao Senado, outra cloaca do sistema.

Boa sorte aos tranalhadores.

Marcha Sem Jesus

A Marcha para Jesus no Rio de Janeiro escancarou uma cena velha da política brasileira: a fé no palco, o voto no bolso e o pastor no microfone fazendo o serviço que o candidato, prudentemente, preferiu não fazer.

Flávio Bolsonaro faltou.

Malafaia compensou no gogó. A ausência do candidato não despolitizou o evento; apenas mostrou que, quando a engrenagem já está montada, o ungido nem precisa aparecer. Basta deixar o sacerdote da campanha falar em nome do céu.

O problema não é religioso participar da política. Isso é democracia. O problema é transformar púlpito em comitê, fiel em eleitor cativo, Bíblia em santinho, culto em comício e divergência política em pecado.

A operação é conhecida. Primeiro, politiza-se a religião: o pastor organiza medos, ressentimentos e lealdades eleitorais como se estivesse apenas defendendo valores espirituais. Depois, religiosiza-se a política: o adversário vira inimigo de Deus; a eleição vira batalha espiritual; investigação vira perseguição; derrota vira fraude; Constituição vira obstáculo à profecia.

A , que poderia elevar a vida pública, vira instrumento de captura. A política, que deveria discutir governo, economia, saúde, educação, corrupção e instituições, desfila fantasiada de cruzada moral.

O político precisa do pastor para falar com milhões. O pastor precisa do político para ampliar poder, acesso, proteção e influência. É bênção por palanque, voto por acesso, moralidade pública por poder privado.

O resultado é ruim para a democracia e péssimo para a religião. A política empobrece. A se apequena. O cidadão vira rebanho. O pastor vira cabo eleitoral com microfone sagrado. O candidato vira ungido de ocasião.

E Deus, que deveria ser grande demais para caber em partido, acaba sequestrado por gente pequena o bastante para achar que o céu tem diretório eleitoral.

https://www.facebook.com/arandunoticias

TEXTO DE:

Julio Benchimol Pinto

domingo, 24 de maio de 2026

Virgínia na Globo


Todo veículo; seja no digital ou TV aberta, necessitam produzir conteúdos que atraiam públicos e consequentemente audiências na qual são ferramentas de argumentação para trazer anunciantes. E quando traz público e anunciantes, o veículo fecha a conta e a possibilidade de se sustentar financeiramente se torna gradativa.

Grupo Globo historicamente por si só demorou em muito enfatizar a parte digital, usava a plataforma do Globoplay como um mero reprodutor de seus conteúdos porém nos últimos anos ela tem sido explorada melhor. Mas ainda não caiu nas graças do público, principalmente entre os 20-30 anos, muito atuante nas redes sociais.

Virgínia Fonseca atualmente possui mais de 50 milhões de seguidores somente no Instagram, fora as outras plataformas. Atualmente é um ativo extremamente valioso, gera valor na publicidade e agrega em vendas.

Globo enxergou valor em trazer a Virgínia para a cobertura da Copa do Mundo. Não enxergo que ela será uma repórter como muitos jornalistas estão afirmando, vejo que ela será uma produtora de conteúdo, principalmente para trazer um público que desconhece a Globo num todo no âmbito digital.

O foco será em aumentar a audiência, principalmente em relação a seus grandes concorrentes no streaming. A Globo quer fidelizar um público altamente potencial e de real consumo. Decisão mercadológica, somente. 

TEXTO DE:
Thiago Muniz

sábado, 23 de maio de 2026

Moro exposto à luz mesmo sob a sombra

A Operação Lava Jato começou como investigação de lavagem de dinheiro num posto de gasolina em Curitiba e terminou quebrando empresas e colocando a economia brasileira num beco sem saída.

No centro do processo estava um juiz federal de primeira instância, sem mandato popular nem cargo executivo, com jurisdição sobre contratos da Petrobras e com talento para tramoias, coações e descumprimento do devido processo legal.

A corrupção que investigava precedia Moro por décadas. O que ele construiu foi o modo de apresentá-la e de usá-la em proveito próprio.

O jogo jogado com o MP, as conduções coercitivas filmadas pela Polícia Federal, conversas telefônicas vazadas às redações na véspera de decisões críticas — o calendário de prisões tinha uma sensibilidade e seletivismo para momentos eleitorais que nenhum critério processual explicava. Era uma narrativa, com protagonista definido e roteiro chapado.

A prisão de Luiz Inácio Lula da Silva, em abril de 2018, foi o capítulo que organizou retrospectivamente todos os anteriores. Condenado em segunda instância por um colegiado que Moro havia preparado, Lula foi para Curitiba com o campo eleitoral ainda aberto e saiu de lá inelegível.

O que se seguiu dispensava comentário. Sem o candidato que liderava todas as pesquisas, a eleição de outubro produziu Jair Bolsonaro.

O voto, para Moro, era desnecessário. Ele havia preparado o terreno, e o convite viria.

O convite veio em novembro, quando o presidente eleito anunciou o nome do juiz para o Ministério da Justiça.

Moro aceitou. A sequência era tão direta que qualquer leitura sofisticada seria um excesso e tautologia.

O magistrado que havia condenado o principal adversário eleitoral do presidente eleito tornava-se ministro de Bolsonaro. A toga foi pendurada, e com ela a ficção de que tudo havia sido apenas direito penal aplicado com rigor.

A saída do ministério, em abril de 2020, chegou acompanhada de uma acusação grave e específica: interferência política na Polícia Federal e uso do aparato de segurança para fins pessoais. Moro apresentou a ruptura como ato de consciência. O clássico: rato pulando do barco.

O problema é que as acusações, se verdadeiras, descreviam um governo que ele havia ingressado de olhos abertos. A candidatura presidencial própria não decolou. Migrou para o Senado pelo Paraná e foi reabsorvido, sem cerimônia, pelo campo que nunca havia de fato deixado. Atua como ajudante de ordens do bolsonarismo. O resultado foram oito anos de senador medíocre e, como sempre, inescrupuloso.

Hoje compõe o palanque de Flávio Bolsonaro, o herdeiro medíocre de um pai golpista, candidato que não existiria sem os destroços que Moro ajudou a produzir. A toga foi desacreditada pelo Supremo Tribunal Federal. As condenações foram anuladas. Lula voltou ao Planalto e briga cotidianamente com essa lógica destruidora e suas próprias contradições.

Moro sobreviveu assim, uma paródia de si mesmo, maltratando a língua portuguesa e colecionando situações constrangedoras, enfileirado atrás do filho do golpista que ajudou a fabricar, num país que ainda paga a conta.

TEXTO DE:

Ricardo Queiroz Pinheiro

Voz do que Clama no Deserto, não se cale

Quero expressar minha profunda solidariedade ao nosso querido Dom Limacêdo Antônio da Silva, bispo da Diocese de Afogados da Ingazeira, no Sertão de Pernambuco, que vem sofrendo ataques e ameaças por defender aquilo que é justo e profundamente evangélico: a dignidade do trabalhador e o direito do povo ao descanso, à convivência familiar e à vida humana acima do lucro.

Dom Limacêdo nos recorda, com coragem profética, que “a Palavra de Deus vem combater as injustiças” e que a Igreja não pode se omitir diante do sofrimento do povo.

O verdadeiro profeta não é aquele que se cala para agradar os poderosos, mas aquele que ergue sua voz em defesa dos pobres, dos cansados e dos explorados.

Foi assim com os profetas bíblicos. Foi assim com Jesus Cristo.

Em uma sociedade marcada pela exploração do trabalho, pela exaustão física e mental e pela retirada de direitos, defender a redução da jornada de trabalho e lutar pelo fim da escala 6x1 não é ideologia: é compromisso com a dignidade humana.

É defender que trabalhadores tenham mais tempo para suas famílias, para o descanso, para a saúde, para a oração e para a própria vida.

Jesus nunca esteve ao lado dos que exploravam o povo. O Evangelho não combina com jornadas desumanas, com trabalhadores adoecidos e com a naturalização da exploração.

Quando a Igreja se coloca ao lado do povo sofredor, ela está sendo fiel à missão de Cristo. Por isso, Dom Limacêdo nos representa.

Sua voz ecoa o clamor de milhares de trabalhadores e trabalhadoras que vivem sufocados por um sistema que valoriza mais o lucro do que a vida humana.

Que sua coragem profética continue inspirando todos aqueles que acreditam numa sociedade mais justa, fraterna e verdadeiramente cristã.

Toda nossa solidariedade e oração a Dom Limacêdo Antônio da Silva. Que Deus o fortaleça na missão profética de anunciar a justiça e denunciar tudo aquilo que fere a dignidade do povo.

TEXTO DE:
Roni Hernandes

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Deolane é tão perigosa quanto tentam pintar?

A régua da Justiça brasileira parece feita de borracha: estica para alguns, encolhe para outros. E é impossível ignorar como a família Bolsonaro, cercada há anos por investigações graves, mantém um tratamento institucional muito diferente daquele dispensado à influenciadora e advogada Deolane Bezerra.

Quando Deolane foi alvo de operações policiais, vimos espetáculo. Helicópteros, cobertura em tempo real, vazamentos seletivos, programas policiais transformando investigação em entretenimento. Antes mesmo de qualquer condenação definitiva, parte da imprensa já a tratava como culpada consumada. O tribunal das redes e o tribunal midiático funcionaram em velocidade máxima.

Agora compare com o tratamento dado à família de Jair Bolsonaro.

São joias sauditas, cartões de vacinação, tentativa de golpe, minuta antidemocrática, interferência na Polícia Federal, rachadinhas, ligações com personagens obscuros do submundo político do Rio de Janeiro, e ainda assim uma parcela significativa da imprensa e das instituições continua tratando tudo com uma cautela quase aristocrática. Não raro, os envolvidos aparecem mais como “personagens de crise política” do que como suspeitos comuns.

E dentro desse cenário surge outra questão inevitável: as relações políticas e financeiras do senador Flávio Bolsonaro com o banqueiro Daniel Vorcaro geraram muito menos indignação pública do que as acusações lançadas contra Deolane.

A pergunta que muita gente faz é simples: por quê? Afinal, quando figuras centrais da República mantêm proximidade com personagens envolvidos em controvérsias financeiras e investigativas, não seria isso politicamente mais grave do que os escândalos atribuídos ao universo das celebridades digitais?

O contraste chama atenção porque o impacto institucional é completamente diferente. Uma influenciadora pode movimentar manchetes e alimentar programas policiais; já um senador da República, filho de um ex-presidente, possui influência direta sobre estruturas de poder, decisões nacionais e articulações políticas. Ainda assim, a cobertura frequentemente parece menos agressiva, menos espetaculosa e menos moralista.

A pergunta inevitável é: por que a mão pesada do Estado parece encontrar tanta coragem diante de figuras sem capital político institucional, mas se torna hesitante diante de sobrenomes poderosos?

No Brasil, o problema nunca foi apenas corrupção ou ilegalidade. O problema central é quem pode ser humilhado publicamente e quem recebe o privilégio da liturgia do cargo, da presunção social de inocência e dos intermináveis recursos políticos e jurídicos.

A diferença de tratamento revela algo profundamente brasileiro: a seletividade penal. A Justiça brasileira frequentemente não opera apenas baseada nos fatos; opera baseada em classe, influência, utilidade política e capacidade de mobilizar poder. Uns são transformados em exemplo. Outros, em exceção.

E há um agravante perverso: a imprensa. Parte dela age como força auxiliar do sistema punitivo quando o alvo é conveniente. Em certos casos, celebra operações como reality show moral. Em outros, adota tom solene, quase acadêmico, preocupado em “não precipitar conclusões”. Curiosamente, essa preocupação costuma aparecer quando o investigado possui aliados poderosos, influência econômica ou relevância eleitoral.

Isso não significa defender impunidade para Deolane ou para qualquer celebridade. A questão é outra: se a lei deve valer para todos, então que valha para todos com o mesmo rigor, a mesma velocidade e a mesma exposição. O Estado democrático não pode funcionar como instrumento de intimidação para uns e almofada institucional para outros.

A sensação popular de injustiça nasce justamente daí. O cidadão comum observa que há operações cinematográficas para determinados alvos, enquanto figuras centrais da política nacional parecem atravessar escândalos sucessivos protegidas por um labirinto de privilégios formais e informais.

No fim, talvez o maior escândalo nem seja apenas o que investigam contra a família Bolsonaro ou contra Deolane. O maior escândalo é a desigualdade do tratamento. Porque quando a Justiça perde a aparência de imparcialidade, ela deixa de parecer Justiça e começa a parecer apenas disputa de poder usando toga, microfone e distintivo.



quarta-feira, 20 de maio de 2026

Tristirinhas do Thiago Muniz edição Pré-Copa do Mundo 2026

1) Duas dúzias de torcedores na praça Mauá gritando pelo nome do Neymar. Isso não é clamor popular, isso é tráfego pago em tempo real pra alimentar mídia digital. Clamor popular foi em 1994 pra convocar o Romário no último jogo das Eliminatórias; o Parreira sabe bem o que foi pressão popular. Assistir um monte de pseudo-jornalistas e influencers-torcedores gritando pelo Neymar dentro do Museu do Amanhã foi uma cena deprimente.

2) O Paulo Vinicius Coelho fez uma pergunta que deixou o Ancelottide joelhos” sobre a não convocação de João Pedro e a convocação de Neymar, mas o italiano é raposa velha soube dar uma resposta sem perder a postura.

3) O pão e circo da CBF só entreteu aos bobos da corte; traduzindo: celebridades, influenciadores e pseudo-jornalistas, talvez alguns deles dentro da folha de pagamento da confederação.

4) Com a renovação de contrato para o ciclo 2030 fechado, muito provável que Ancelotti tenha cedido a convocar o Neymar. Quem pressionou? Não posso apontar ninguém sem provas, mas o italiano cedeu a pressão, com certeza. E teve que sacrificar alguém, e esse alguém foi o João Pedro, isso é um fato. João Pedro por sinal na semana anterior fez um golaço de bicicleta na Premier League, o Neymar mostrou o comprovante de substituição na frente da câmera. Prioridades!

5) João Pedro, que declarou publicamente que gostaria de ver o Neymar na seleção. Pois bem; vai assistir na TV. Cuidado com aquilo que desejas.

6) Gostei das convocações do Danilo, Endrick, Igor Thiago, Rayan e Luiz Henrique. São jogadores que tem fome e sangue nos olhos; não sentem a pressão, tem o espírito de jogador brasileiro ainda correndo em suas vêias. Prestemos atenção neles.

7) Já que o Neymar dará “pano pra manga”; torço para que ele não exija titularidade; mas acho que isso será muito difícil de acontecer.

8) O meu palpite hoje será de no máximo chegar nas quartas de final, com muito esforço podendo chegar a semifinal. Hoje tem seleções em nível superior ao Brasil: França, Portugal e Espanha; com Argentina, Holanda e Inglaterra um degrau acima. O Brasil vai ter que se encontrar durante a competição e mostrar o peso da camisa.

9) E vagabundo tá lá…

10) Vai Brasil! 🇧🇷

🇧🇷 4 x 1 🇮🇹 (México 1970)

O quarto gol marcado contra a forte seleção da Itália na Copa 1970, no México, foi o gol que consagrou a seleção brasileira.

Na final o Brasil já dominava e vencia por 3x1 quando protagonizou uma obra-prima coletiva: toques de primeira, inteligência tática, harmonia em movimento… até Pelé deixar a bola rolando suavemente para Carlos Alberto Torres chegar batendo com perfeição. A Seleção de 70 não foi só campeã — foi poesia em forma de futebol. Cada jogada era arte. Cada passe, história.

Naquela época, não era comum como é hoje, de um lateral subir ao ataque para tentar marcar um gol. Os homens daquela posição se limitavam a marcar na defesa e se alguém ousasse subir até o tento adversário, a bronca do técnico era mais que certa.

Mas Carlos Alberto Torres não respeitava muito essas limitações, em toda sua história, ele sempre dizia que os técnicos ficavam loucos quando ele subia ao ataque. Essa era uma de suas características, ele sempre contava isso quando falava com a imprensa sobre um dos gols mais belos da história das Copas do Mundo.

TEXTOS DE:
Thiago Muniz

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Neymar é um tapa na cara dos brasileiros

Em um país que transformou a meritocracia em religião de mercado, embora a realidade social desminta diariamente esse sermão neoliberal, a convocação de Neymar para a Copa do Mundo surge como uma espécie de parábola cruel do Brasil contemporâneo: aqui, o discurso do mérito vale apenas para o pobre anônimo.

Para os ídolos milionários, para os protegidos do espetáculo, para os ativos comerciais da indústria do futebol, sempre haverá uma exceção conveniente.

O cidadão comum ouve desde cedo que precisa “merecer” cada espaço. Dizem-lhe que fracasso é culpa individual, que ascensão depende apenas de esforço, disciplina e performance.

Mas basta olhar para a Seleção Brasileira para perceber que o país nunca acreditou verdadeiramente nisso.

Neymar, há anos mais relevante como celebridade digital do que como atleta decisivo em alto nível, segue tratado como patrimônio intocável da pátria.

Pouco importa sequência física irregular, pouco importa o futebol intermitente, pouco importa o histórico recente de lesões e ausência competitiva. O marketing pede sua presença. E, no Brasil do espetáculo, o marketing costuma derrotar o mérito.

Não se trata aqui de negar a importância histórica do jogador. Neymar foi um dos maiores talentos de sua geração. O problema é justamente outro: a imprensa esportiva brasileira se recusa a tratar o tema no tempo verbal correto.

Falam dele como se ainda estivéssemos em 2015. Como se bastasse pronunciar seu nome para que o campo se iluminasse automaticamente. Há uma infantilização permanente da cobertura esportiva nacional, incapaz de separar memória afetiva de análise objetiva.

E então começa o ritual da encenação coletiva.

Programas esportivos transformam a convocação em clima de réveillon patriótico.

Ex-jogadores agem como relações públicas emocionados. Narradores vendem esperança em tom messiânico. Repórteres sorriem diante das câmeras como quem anuncia a volta de um salvador nacional. A crítica desaparece. A análise tática desaparece. O debate físico desaparece. Some até mesmo o mínimo constrangimento profissional.

Em vez de perguntar se Neymar ainda entrega, discutem apenas como será “bonito” vê-lo novamente de amarelo.

Em vez de avaliar rendimento, intensidade, capacidade competitiva ou encaixe coletivo, preferem transformar o telejornal esportivo em peça publicitária emocional.

O telespectador não recebe informação; recebe torcida organizada travestida de jornalismo.

A imprensa esportiva brasileira, em muitos momentos, abandonou a função crítica para atuar como departamento de promoção do entretenimento futebolístico.

E talvez esteja aí o ponto mais vergonhoso de toda essa história. Porque não é apenas sobre Neymar. É sobre um sistema inteiro que protege celebridades enquanto exige brutal competitividade dos demais.

Quando um jovem jogador oscila durante três partidas, é massacrado em rede nacional. Quando um atleta menos midiático perde rendimento, logo surgem discursos sobre renovação, meritocracia e “fim de ciclo”. Mas Neymar habita outra categoria: a dos intocáveis do mercado. Sua convocação deixa de ser questão esportiva e passa a ser questão econômica, televisiva e simbólica.

O futebol brasileiro, que já produziu debates profundos sobre tática, formação e identidade de jogo, hoje frequentemente se rende à lógica rasa do engajamento. O que importa não é quem está melhor; importa quem gera clique, audiência, patrocinador e nostalgia.

E assim o país segue encenando sua grande mentira nacional: a de que acredita no mérito.

Não acredita. Nunca acreditou.

A meritocracia brasileira funciona como instrumento moral para disciplinar pobres, jamais como princípio real para distribuir oportunidades. No topo da pirâmide, o sobrenome, a fama, o capital simbólico e o interesse comercial continuam pesando mais do que desempenho concreto.

Neymar foi convocado apenas pelo que representa fora de campo e não pelo que entrega dentro dele, será mais um capítulo dessa velha tragédia brasileira: um país que exige excelência dos invisíveis enquanto transforma privilégios em espetáculo patriótico para consumo popular.

Seleção Brasileira Copa 2026

O Brasil vacila entre o pessimismo mais obtuso e a esperança mais frenética.

Nas esquinas, nos botecos, por toda parte, há quem esbraveje: “O Brasil não vai nem se classificar!”.

E no ciclo para 2026 eu pessoalmente tive o receio que o Brasil não se classificasse para a Copa; mas ao mesmo tempo eu analisava as circunstâncias e via que isso seria muito difícil, afinal serão 48 seleções, as vagas correspondentes na América do Sul tornam potências como Brasil, Argentina e Uruguai favoritas sempre numa das vagas.

Convocação feita por Carlo Ancelotti, um dos maiores técnicos do cenário mundial. Acho que o maior acerto da CBF foi na renovação de contrato com Ancelotti, mostra a confiança plena em seu trabalho e tira um certo peso na obrigatoriedade em conquistar a taça, e isso pode facilitar em muito o trabalho de ciclo de quatro anos para 2030.

Óbvio que a torcida será já para 2026, mas devemos saber que o ciclo 2022-2026 foi uma catástrofe na falta de planejamento, o Ancelotti chegou não tem nem 1 ano e não teve tempo suficiente para montar por completo o seu grupo de confiança.

Gostaríamos talvez de acreditar na seleção. Mas o que nos trava é o seguinte: — o pânico de uma nova e irremediável desilusão. E guardamos, para nós mesmos, qualquer esperança.

TEXTO DE:
Thiago Muniz

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Dark Horse, o cavalo de Troia do jornalismo brasileiro

A velha imprensa brasileira adora um tribunal, desde que ela escolha o réu, o promotor e o momento do vazamento.

Quando o alvo era Luiz Inácio Lula da Silva, houve reportagem performática, “powerpoint” messiânico (outra vez), trilha sonora de indignação moral e um telejornalismo que parecia disputar prêmio de dramaturgia.

Lembram do vergonhoso espetáculo do procurador Deltan Dallagnol transformando suspeitas em convicções televisivas? Lula virou o “comandante máximo” de tudo, mesmo quando as provas eram menos sólidas do que a retórica inflamada dos procuradores.

A Globo repetiu de maneira despudorada o mesmo tipo de ataque, só que sob o comando de Andreia Sadi. A jornalista tentando encontrar uma ligação entre Lula e Vorcaro, foi um show de bizarrice. O pedido de desculpas dias depois sobre a exibição de "material incompleto e errático", foi a cereja de um bolo podre, confeituado com canalhice.

Agora, o roteiro muda. E como muda.

A revelação de relações financeiras e políticas envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro expôs um curioso campeonato nacional de amnésia seletiva.

Entre entrevistas constrangidas, explicações burocráticas e análises cuidadosamente anestesiadas na GloboNews, instalou-se uma disputa de narrativas sobre “culpa”, “proximidade” e “responsabilidade”.

E aí surge Flávio Bolsonaro tentando posar de vítima de perseguição — logo ele, herdeiro político de um grupo que transformou associação indireta em sentença definitiva quando o alvo era adversário ideológico.

Ver Malu Gaspar acusar Flávio Bolsonaro de receber dinheiro de Vorcaro e ser lembrada por ele, de que a Globo através de Luciano Huck também recebeu grana do banqueiro, foi ao mesmo tempo constrangedor e cômico.

Duas caras de glúteo ao vivo, se encarando.

O mais fascinante é observar o desconforto da bancada jornalística diante do espelho. Porque, desta vez, o dinheiro não passou perto apenas de um campo político. O banqueiro circulou com desenvoltura entre ministros, parlamentares, figuras do Centrão, integrantes do mercado e personagens da República inteira.

Aparecem nomes ligados ao governo anterior, ao atual, ao Congresso e ao Judiciário em eventos, reuniões, negociações ou relações institucionais.

A elite brasileira sempre teve um talento extraordinário para transformar banqueiros em “visionários” até o minuto em que a fumaça começa a sair do cofre.

Mas há um detalhe inconveniente para os profissionais da indignação seletiva: entre todos os nomes arrastados para a arena das suspeitas e insinuações, justamente Luiz Inácio Lula da Silva é aquele sobre quem não apareceu recebimento de dinheiro de Vorcaro, direta ou indiretamente.

O que não impediu parte da imprensa e das redes de tentarem encaixá-lo no enredo a qualquer custo — afinal, certos setores do jornalismo brasileiro desenvolveram uma dependência química de associar Lula a qualquer escândalo disponível no mercado.

E então fica a pergunta inevitável: onde está o powerpoint?

Cadê a animação em 3D? Cadê as setas vermelhas? Cadê Andréia Sadi diante de um telão explicando que “no centro de tudo” existe uma “organização criminosa financeira interplanetária”? Onde estão os comentaristas convertendo ilações em certezas morais antes mesmo da investigação amadurecer?

Curiosamente, agora prevalece um tom mais sofisticado, mais cauteloso, quase acadêmico. Descobriram, de repente, o valor da prudência jornalística, da presunção de inocência e da necessidade de “contextualizar”.

Que avanço civilizatório extraordinário.

O problema é que o público tem memória. E memória é fatal para narrativas construídas na base do casuísmo.

Quando Lula era o alvo, relações indiretas bastavam para manchetes condenatórias. Quando figuras do bolsonarismo, do mercado financeiro ou da elite institucional aparecem no mesmo tabuleiro, surgem nuances, mediações, ponderações e longos debates semânticos sobre o que significa “receber”, “intermediar”, “aproximar”, “investir” ou “manter relação”.

No fundo, o episódio revela menos sobre Daniel Vorcaro e mais sobre o jornalismo brasileiro. Um jornalismo que frequentemente abandona o compromisso com a coerência para aderir ao conforto ideológico do momento. Porque a credibilidade não morre apenas quando a imprensa mente; ela também apodrece quando aplica pesos morais diferentes conforme o sobrenome do investigado.

E talvez seja justamente isso que mais incomode certos comentaristas na atual disputa narrativa: desta vez, o personagem que eles gostariam de colocar no centro do diagrama simplesmente não recebeu o dinheiro.

E os outros bolsonaristas passados para trás, que ansiavam pelo filme biográfico de Bolsonaro, o Dark Horse, por enquanto terão de se contantar com o Cavalo de Tróia que Flávio Bolsonaro deu para eles.

Parece ironia, mas até em Jesus (Jim Caviezel), a família Bolsonaro deu golpe...

A Falácia do 13 de maio de 1888

A data, marca apenas o fim jurídico da instituição da escravidão; na prática, a população negra continuou sob o jugo de uma sociedade excludente. A própria Lei nº 3.353/1888, que decretou o fim da escravização, não trouxe uma insígnia sequer acerca da reparação às pessoas que enfrentaram mais de três séculos de trabalho forçado e não remunerado.

Tirem do imaginário a benevolência colonial. Quem violenta, não ama.

Note o que dizia o texto legal:
Art. 1º: É declarada extinta desde a data desta lei a escravidão no Brasil.
Art. 2º: Revogam-se as disposições em contrário.

O Estado brasileiro tinha como objetivo varrer a população negra da sociedade. Não oferecer políticas públicas reparatórias era a forma mais rápida de fazê-la desaparecer: sem acesso à saúde, moradia, educação e trabalho, acreditava-se que essas pessoas recém-libertas morreriam à míngua, leia o “Genocídio do negro brasileiro” de Abdias Nascimento.

Não alcançando esse objetivo nos anos subsequentes, implantou-se a política de eugenia e branqueamento. A eugenia deu-se através de diversos mecanismos de animalização, alçando esses corpos à condição de “não humanos” e instrumentalizando o Judiciário para contê-los através do Código Penal e de leis como a da vadiagem.

Já o branqueamento operou por meio de políticas de imigração voltadas exclusivamente para corpos brancos europeus.

O 13 de maio foi fruto de uma conjuntura política e de uma pressão exercida durante séculos pela resistência negra: dos corpos que se lançavam ao mar aos quilombos; dos levantes e fugas constantes aos movimentos de industrialização de países como a Inglaterra, que desejava comercializar suas mercadorias com o Brasil.

Foi a luta de Luiz Gama, Luiza Mahin, Maria Felipa, Rebouças, Malês e tantos outros.

O 13 de maio de Isabel não teve nada de bondade; foi apenas mais um estratagema da branquitude a fim de evitar um motim e preservar a elite e seus bens. São 138 anos de uma abolição inconclusa. Como diz o samba da mangueira: “não veio do céu nem das mãos de Isabel…”.

TEXTO DE:
Thiago Muniz

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Xandão, herói da Lei não da nação

A chamada Lei da Dosimetria acaba de encontrar o seu primeiro obstáculo sério: Alexandre de Moraes suspendeu sua aplicação em pedidos de condenados do 8 de Janeiro até que o STF julgue as ações diretas de inconstitucionalidade contra a norma.

O caso concreto envolvia uma condenada que pediu revisão da pena com base na lei recém-promulgada. Moraes entendeu que a existência dessas ADIs é fato processual relevante e que a suspensão se impõe por segurança jurídica.

E aqui começa a gritaria de sempre.

Dirão que Moraesrasgou a lei”. Não rasgou.

Suspendeu a aplicação enquanto o Supremo decide se a lei passa ou não pelo filtro constitucional. Isso se chama controle de constitucionalidade. Existe antes de Bolsonaro descobrir o Pix, a cloroquina e o cercadinho.

Dirão que o Congresso é soberano. Também não. Congresso não é imperador de toga parlamentar. Lei aprovada pelo Legislativo pode ser questionada no STF, ainda mais quando nasce com cheiro de anistia disfarçada e endereço político anotado na testa.

Dirão que é perseguição aos patriotas. Patriotas que invadiram sedes dos Três Poderes, depredaram patrimônio público, pediram intervenção militar e agora querem desconto penal com nome técnico. A embalagem mudou, mas o conteúdo continua sendo o velho jeitinho golpista de pedir clemência sem perder a pose de mártir.

A lei foi promulgada por Davi Alcolumbre após a derrubada do veto de Lula e, segundo o próprio Senado, pode reduzir penas e facilitar progressão de regime para condenados pelos atos de 8 de janeiro. Ou seja, ninguém está inventando destinatário oculto: o destinatário saiu do armário legislativo acenando bandeira.

O bolsonarismo tentou transformar dosimetria em lavanderia: pegou condenação por ataque ao Estado Democrático de Direito, passou um sabão parlamentar, borrifou perfume de “pacificação” e achou que sairia tudo limpo.

Moraes apenas fechou a máquina antes da centrifugação.

Agora o STF decidirá se essa lei é instrumento legítimo de política criminal ou anistia envergonhada para quem tentou arrombar a democracia e depois descobriu, comovido, que Código Penal também serve para eles.

TEXTO DE:
Julio Benchimol Pinto

sábado, 9 de maio de 2026

Te dá Aaaaasas...

A Red Bull é uma marca que ultrapassou o conceito tradicional de bebida energética e se transformou em um fenômeno cultural, esportivo e de marketing global.

Criada com foco em performance e energia, a empresa construiu sua identidade associando o produto a limites extremos, superação, velocidade e desafio constante.

Diferente de marcas que apenas patrocinam eventos, a Red Bull passou a criar, controlar e desenvolver seus próprios ecossistemas esportivos e culturais.

No esporte, a presença da Red Bull é estratégica e profunda. A marca investe em modalidades de alto risco e alta intensidade, como automobilismo, esportes radicais, aviação, esportes urbanos e eSports.

No automobilismo, sua atuação redefiniu padrões ao formar equipes próprias, desenvolver talentos desde a base e dominar categorias de elite. O foco nunca foi apenas vencer, mas construir narrativas de ousadia, inovação e quebra de expectativas.

Do ponto de vista de marketing, a Red Bull revolucionou a forma de comunicar. Em vez de anúncios tradicionais, ela produz conteúdo, histórias e experiências. Eventos como saltos estratosféricos, competições inéditas e desafios extremos criam impacto emocional e viralização espontânea.

A marca vende uma ideia de estilo de vida: quem consome Red Bull não compra apenas energia, compra pertencimento a um universo de atitude e movimento.

Financeiramente e estrategicamente, o modelo é preciso. A marca entende que visibilidade associada a emoção e performance gera valor de longo prazo. Cada atleta, equipe ou evento carrega a identidade visual, o discurso e os valores da empresa. Não há improviso: tudo é alinhado para reforçar a imagem de ousadia controlada, risco calculado e excelência técnica.

Mais do que uma bebida, a Red Bull se consolidou como uma plataforma de influência global. Ela mostra que, quando marketing, esporte e narrativa caminham juntos, o produto deixa de ser o centro e passa a ser consequência.

A Red Bull não acompanha tendências — ela cria.

TEXTO DE:
Thiago Muniz

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Trump estende tapete vermelho para Lula

A reunião entre Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva, realizada nesta quinta-feira na Casa Branca, teve um detalhe que desmonta parte da caricatura política criada no Brasil nos últimos anos: Trump tratou Lula como um estadista experiente, não como um adversário folclórico.

Chamou o presidente brasileiro de “dinâmico” e definiu o encontro como “muito produtivo”, após horas de conversa reservada sobre comércio, tarifas, segurança e geopolítica.

E isso não aconteceu por gentileza diplomática. Trump pode até transformar a política em espetáculo, mas não costuma desperdiçar pragmatismo quando enxerga poder real diante dele.

O presidente americano sabe que Lula chega à mesa carregando décadas de experiência internacional, trânsito global e capacidade de negociação construída desde o início dos anos 2000.

Enquanto muitos líderes surgem e desaparecem ao sabor das redes sociais e das guerras culturais, Lula atravessou governos Bush, Obama, Sarkozy, Merkel, Putin, Xi Jinping e agora volta a negociar diretamente com Trump.

Há uma diferença importante entre propaganda doméstica e percepção internacional.

Parte da elite econômica brasileira ainda insiste em enxergar Lula pela lente do preconceito social: “o pernambucano de nove dedos”, o retirante que ousou ocupar espaços historicamente reservados aos sobrenomes tradicionais do poder.

Mas o mundo não funciona segundo os ressentimentos da Casa Grande brasileira.

Lá fora, Lula continua sendo reconhecido como um dos políticos mais influentes do Sul Global e um dos líderes mais conhecidos da história contemporânea da América Latina.

Gostem ou não seus adversários, Lula se transformou num personagem histórico. Não apenas pela origem improvável ou pelas vitórias eleitorais, mas porque construiu relevância internacional duradoura.

Poucos líderes latino-americanos conseguiram dialogar simultaneamente com Washington, Pequim, Bruxelas e Moscou sem desaparecer politicamente no meio do caminho. Menos ainda conseguiram retornar ao poder depois de tudo o que viveu a política brasileira na última década.

Trump percebe isso. E talvez por isso tenha evitado qualquer confronto performático. O presidente americano entende linguagem de força política, de liderança popular e de sobrevivência institucional.

Lula representa exatamente isso. São dois líderes radicalmente diferentes em visão de mundo, mas semelhantes num aspecto essencial: ambos entendem a política como disputa de poder real, não como teatro para redes sociais.

No Brasil, porém, continua existindo uma dificuldade quase patológica de reconhecer a dimensão histórica de Lula.

Há quem prefira reduzi-lo a apelidos ou caricaturas porque admitir sua estatura política significaria aceitar algo intolerável para certos setores: o maior líder político da história brasileira nasceu pobre, nordestino, operário e sem diploma universitário.

E a história, cruel com os arrogantes, costuma rir desse tipo de preconceito.

Enquanto alguns ainda repetem insultos de WhatsApp, Lula segue sendo recebido na Casa Branca como interlocutor estratégico dos Estados Unidos.

segunda-feira, 4 de maio de 2026

O Fariseu Malafaia

(por Antonio Gonzalez)

Diziam “mis abuelos” na Espanha: “Éramos pocos y parió la abuela”.

Do nada, o FARISEU MALAFAIA — que de pastor não tem nada — resolve atacar a Igreja Católica, a Teologia da Libertação e as Comunidades de Base, dizendo que foram tentáculos do nascimento do PT.

Não passa de um fanfarrão disseminador de ódio. Sim, seu otário, eram tempos de Ditadura Militar, e era preciso enfrentá-la. Ou você, FARISEU MALAFAIA, acha que Cristo andaria com torturadores? Ou você escolheria um tirano como Herodes, o Grande, conhecido por mandar matar inocentes tentando eliminar Jesus?

QUE CONSTE: nada tenho contra a Igreja Evangélica. Tenho amigos pastores, amigos cristãos que rezam por mim. Também não tenho contra religião alguma. Sou católico e estou estudando crenças de matrizes africanas.

Mas já que o FARISEU MALAFAIA quer descer pro play, vamos aos fatos.

A chamada “Igreja Evangélica” nasce do movimento da Reforma Protestante do século XVI, que  envolve Lutero, Calvino e outros Teólogos e pensadores

Em 1517, Lutero criticou abusos como a VENDA DE INDULGÊNCIAS da então Igreja Católica, defendendo a , a Bíblia e a relação direta com Deus. Daí surgiram várias correntes protestantes.

Calvino organizou uma teologia forte, baseada na soberania de Deus, predestinação e disciplina moral. O evangelicalismo, portanto, é um conjunto amplo dessas tradições.

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Já a Teologia da Libertação surge na América Latina (anos 60-70), dentro da Igreja Católica, focada nos pobres e oprimidos.

Entre seus principais nomes estão: Gustavo Gutiérrez, Leonardo Boff, Dom Hélder Câmara, Jon Sobrino e Dom Pedro Casaldaliga.

Seus princípios: a opção preferencial pelos pobres; combate à miséria, fome e injustiça;  com compromisso social.

A leitura da Bíblia parte da realidade dos oprimidos: Êxodo, profetas, ensinamentos de Jesus. Pergunta central: o que o Evangelho diz a quem sofre?

Também denuncia o “pecado estrutural”: sistemas injustos que produzem desigualdade. Incentiva as Comunidades de Base, com participação popular e leitura coletiva da Bíblia.

A libertação proposta é integral: espiritual, social, econômica e humana.

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Voltemos à Reforma de Lutero: a VENDA DE INDULGÊNCIAS era, na prática, a comercialização do perdão, usada inclusive para financiar obras como a Basílica de São Pedro. Esse abuso motivou Lutero.

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E o que faz o FARISEU MALAFAIA?

O FARISEU MALAFAIA, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, foca na arrecadação de dízimos e ofertas, frequentemente ligando dinheiro a bênçãos. Vende livros pela Central Gospel e pede doações para bens caros, como avião.

Há registros de pedidos públicos para aeronaves, “ofertas de bênção” com valores definidos, uso de recursos para manutenção de patrimônio e problemas com dívidas e multas.

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Onde o FARISEU MALAFAIA se encaixa no Novo Testamento?

a) “RAÇA DE VÍBORAS”: usada por João Batista e Jesus contra líderes hipócritas — aparência santa, interior corrupto;

b) “SEPULCRO CAIADO”: bonito por fora, podre por dentro — crítica direta à hipocrisia religiosa;

c) VENDILHÕES DO TEMPLO: expulsos por Jesus por transformarem em comércio, explorando o povo e profanando o sagrado.

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Portanto, FARISEU MALAFAIA: “a tua piscina está cheia de ratos”.

E essa sessão termina com a cereja do bolo:

Ô Malafaia, vai procurar uma rola, vai. Não me enche o saco. Você é um idiota, um paspalhão. Um pilantra. Tomador de grana de fiel, explorador da alheia.
(Ricardo Boechat)

TEXTO DE:
Antonio Gonzalez

domingo, 3 de maio de 2026

Carta aberta de um Católico à Frei Gilson

Estimado irmão na ,

O senhor, Frei Gilson, se dispôs a servir o Reino de Deus por meio do ministério sacerdotal. Essa escolha nasce, em geral, de um ardente desejo de imitar a Cristo e servir, sobretudo, aos pobres.

Não o conheço, nem sei de sua história, mas conheço esse chamado: ele acende uma brasa no peito e, como diz a canção, move-se como uma flecha na alma. É como o primeiro amor. Inesquecível, não é mesmo?

Se me permite um conselho fraterno, diria: vá ao encontro daquele menino e daquele desejo inicial. Talvez o homem que o senhor é hoje precise escutar o adolescente que um dia foi — e, com honestidade, responder a si mesmo: ainda há sintonia entre os sonhos daquele rapaz e a forma como o senhor vive o seu ministério?

Como nos recorda Santo Ambrósio, “a honra do sacerdócio não é para proveito de quem a possui, mas para o serviço daqueles que a contemplam”.

Tenho certeza de que o senhor estudou isso. Mas será que compreendeu essa mensagem? E mais: há coerência entre o que o senhor é, e o que um dia pensou em ser?

O sacramento da ordem, meu irmão, não o coloca em um patamar de superioridade ontológica (lembra o que é isso, né?), mas o mergulha na responsabilidade do serviço. Não basta usar o verbo “servir” para compor belas frases.

O Evangelho é categórico: quem deseja ser o maior deve ser aquele que mais serve. Compreender isso — e, mais ainda, viver isso — muda tudo. 

Por isso, o verbo servir precisa estar inseparavelmente ligado ao substantivo serviço. Servir a Deus não é massagear o próprio ego nem buscar status; é deixar o “eu” de lado para dar lugar ao próximo. Se é feito para aparecer, não é serviço — é vaidade.

Não há contradição maior do que um cristão que, durante o dia, diz desejar a salvação do próximo, mas à noite constrói regras para condená-lo ao inferno.

Do poder que corrompe à vaidade que seduz

Não por acaso, servir é o oposto dialético de mandar. O filósofo Aristóteles advertia, em sua obra "Polítiká", que o poder se corrompe quando deixa de buscar o bem comum e passa a servir aos interesses de quem o exerce.

E aqui não falamos apenas de política institucional ou eleitoral, mas, do poder exercido por homens que utilizam a para manipular consciências — e, muitas vezes, a do povo — em favor de ideologias travestidas de orientação religiosa.

A que Senhor o senhor serve quando fala mais sobre pecado do que sobre misericórdia? No contexto eclesial, servir sem serviço transforma-se em poder disfarçado.

Santo Agostinho nos lembra, em suas "Confissões", do perigo do “apetite de louvor”. Para ele, o ser humano se perde quando se coloca no centro, acreditando que a glória de Deus é apenas o reflexo do próprio brilho. Isso tem nome: vaidade.

A vaidade, Frei Gilson, não grita; ela sussurra em nome de uma suposta “verdade” e se veste de “zelo”. O religioso vaidoso deixa de olhar para Cristo e passa a olhar para o espelho, exigindo admiração sob o pretexto de um discurso de pecado e piedade, piedade e pecado — repetido, insistente, vazio, resultado de muito ego e pouco Cristo.

O clericalismo e o controle do corpo

Frei Gilson, o Papa Francisco — a quem o senhor parece citar com uma parcimônia que beira o desconforto — diagnosticou o clericalismo como o “câncer da Igreja”. 

O clericalismo é, em última análise, a vaidade institucionalizada.

Pior: é a tentativa de controlar o mistério de Deus. Cuidado, meu irmão. A nenhum homem foi dado penetrar plenamente nos desígnios de Deus.

A que nasce de Cristo é libertadora. Mas, quando passa a vigiar corpos, julgar aparências e regular o comportamento — especialmente o das mulheres — corre o risco de se tornar instrumento de controle.

Onde deveria haver o bálsamo da misericórdia, instala-se o chicote da norma — e as vítimas, quase sempre, são os mais frágeis.

Falo disso porque algo me inquieta profundamente: quando a é reduzida à forma como alguém se veste, sem caridade, escuta e orientação, o que resta é uma distorção do Evangelho. E essa distorção não recai sobre quem é julgado — mas sobre quem julga.

Falo com a humildade de quem reconhece a própria fragilidade. Sou pecador.

Mas há uma lógica perigosa sendo reforçada: a obsessão pelo controle do corpo feminino. A história nos mostra que o moralismo religioso sobre roupas, tatuagens e comportamentos costuma ser o primeiro degrau de uma escada que leva à desumanização.

O senhor já refletiu sobre as consequências disso? Sobre quantas jovens e mulheres se afastam da vida da Igreja e da participação comunitária por causa desse tipo de abordagem?

Muitas chegam à Igreja carregando histórias de dor, desinformação, abandono. A busca delas é por um pouquinho de paz, acolhida e escuta. E o que encontram é apenas julgamento.

Tenho para mim que, nesses casos, o pecado está muito mais no olhar de quem julga do que no coração de quem veste. Quando a religião se torna vigilante do vestuário, ela flerta com uma cultura de posse que, em seus extremos, alimenta a violência — inclusive o feminicídio.

Se o nome de Deus é usado para subjugar a liberdade feminina, não estamos diante de missão, mas da idolatria do patriarcado.

Jesus e o escândalo da misericórdia

Jesus nunca começou pela aparência. Ele acolheu a samaritana, que sequer era vinculada à sua religião. Defendeu uma puta ameaçada de morte por apedrejamento — “prostituta” é um nome mais palatável, não é? — e, curiosamente, não trouxeram o homem que com ela pecava.

Em outro episódio, também com uma mulher "suspeita", Jesus foi convidado para jantar na casa de um homem rico, e ali, surgiu uma mulher que Jesus a acolheu e permitiu que a mesma lhe lavasse os pés com perfumes e bálsamos e os enxugasse com os próprios cabelos.

Enquanto os “puros” de seu tempo viam pecado e impureza, Jesus via dignidade e . E mais do que isso: acusavam o próprio Jesus por não reconhecer “quem era aquela mulher” e por se misturar com pecadores.

E olha só que triste, Frei Gilson: é muito fácil imaginar o senhor, nessa cena, ao lado dos doutores da lei e fariseus — não apenas julgando a mulher, mas também questionando o próprio Cristo por acolhê-la.

Mas Jesus respondeu. E respondeu olhando para o fariseu — o religioso julgador das vestimentas e até do provável decote dela — e não para a mulher: “Vês tu esta mulher? […] Os seus muitos pecados lhe são perdoados, porque muito amou.” (Lc 7,30-50).

Ou seja: enquanto o senhor via pecado, Cristo viu amor. Enquanto o senhor julgava, Cristo perdoava. Enquanto o senhor afastava, Cristo acolhia.
Essas respostas de Jesus não lhe inquietam, Frei Gilson?

Santa Teresa d’Ávila dizia: “O Senhor não olha tanto para a grandeza das nossas obras, mas para o amor com que são feitas”. Onde está o amor no julgamento da aparência?

A perseguição e o falso martírio.

Tenho acompanhado suas falas, nas quais o senhor interpreta críticas como “sinais de perseguição”, chegando a comparar-se ao próprio Cristo.
Peço-lhe, com caridade: tenha cautela. 

Questionamento não é martírio.

Muitas vezes, é apenas a realidade batendo à porta. Definitivamente, Jesus não foi perseguido por moralismos de sacristia, mas por romper estruturas injustas, colocar o ser humano acima da lei e denunciar a hipocrisia dos que impunham fardos aos outros sem ajudá-los a carregá-los.

Interpretar toda discordância como perseguição é cair no narcisismo espiritual. Comparar-se a Cristo para se blindar de críticas é uma forma de autolatria.

E causa estranheza  seu silêncio diante dos poderosos — como Donald Trump — quando este ataca, covardamente, a figura do Papa Leão XIV e chega ao ponto de se associar à imagem de Cristo, enquanto sua voz se levanta com tanta firmeza para criticar jovens, mulheres e suas escolhas.

Por que o silêncio diante dos poderosos e o grito diante dos pequenos? Isso diz muito sobre sua pregação — e sobre suas escolhas.

O lava-pés como único caminho

Na Última Ceia, Jesus não fez um discurso moralizante. Ele tomou uma bacia e uma toalha. O lava-pés é o antídoto contra a vaidade clerical.

São João da Cruz nos lembra que, ao entardecer da vida, seremos julgados pelo amor. Não pelos seguidores, não pelas visualizações, não pelo rigor das proibições.

A verdadeira liberta do medo e da culpa.

Se a sua pregação gera mais medo do que esperança, mais exclusão do que acolhimento, talvez seja hora de voltar ao Cenáculo.

E, se há acolhimento em sua pregação, por que permitir que o medo também fale?

O acolhimento é a parte de Deus em você. A falta dele — talvez seja apenas você mesmo.

Permita-me um último conselho: conserve o que vem de Deus e desapegue-se do que não vem. Abstenha-se daquilo para o qual não foi chamado —  especialmente quando isso fere mais do que edifica.

Que o Espírito Santo lhe conceda o dom da humildade, para que o senhor diminua e Cristo cresça.

Fraternalmente,

Toninho Kalunga

Um irmão na

Toninho Kalunga participa da Paróquia Santo Antônio, na Comunidade do Santuário São Luís Orione — o Pequeno Cotolengo Paulista, em Cotia. Também é da Fraternidade Leiga Charles de Foucauld e do Núcleo Nacional da Teologia da Libertação Política e Religião.