sexta-feira, 29 de maio de 2026
Uberização empreendedora: a domesticação do trabalhador brasileiro
quinta-feira, 28 de maio de 2026
André Fernandes "se raspa" de raiva do trabalhador
A degradação do debate público brasileiro não acontece apenas nos grandes escândalos institucionais.
Ela também se revela nos personagens que ascendem politicamente não pela elaboração intelectual, pela capacidade administrativa ou pelo compromisso republicano, mas pelo espetáculo grotesco da vulgaridade convertida em capital eleitoral.
O caso do deputado André Fernandes (alcunhado Raspa Cu) é quase um resumo em caricatura do bolsonarismo enquanto fenômeno político-cultural.
Trata-se de um parlamentar que ganhou notoriedade nas redes sociais ensinando a depilar o próprio ânus na internet (sim, este é o nível da tragédia nacional), e que posteriormente converteu a estética do constrangimento em plataforma eleitoral.
Não estamos diante de um acidente de percurso. Estamos diante de um método.
É quase poético, no pior sentido possível: o sujeito sai do tutorial de "raspa cu" para a Câmara dos Deputados sem precisar atravessar o deserto do pensamento.
Entre um vídeo grotesco e outro, constrói-se uma carreira baseada não na elevação do debate público, mas na degradação deliberada dele.
E então chegamos ao episódio envolvendo a deputada Erika Hilton durante o debate sobre a escala 6x1.
Em vez de apresentar argumentos sólidos sobre relações trabalhistas, produtividade ou impacto econômico da jornada exaustiva imposta a milhões de brasileiros, o parlamentar recorre ao velho método bolsonarista: o insulto, a provocação pueril e a tentativa permanente de humilhar o adversário diante das câmeras. Chegou a chamar trabalhadores que se encontravam nas dependências da Câmara de vagabundos.
Perceba a lógica da coisa: quando falta densidade intelectual, sobra performance agressiva. O bolsonarismo produziu uma geração de políticos cuja principal habilidade não é legislar, mas viralizar.
O Parlamento vira cenário de TikTok; a tribuna se converte em ringue de quinta categoria; e a política passa a funcionar como reality show de ressentimento moral.
No caso de Erika Hilton, há um componente ainda mais grave. Mulher trans, negra e oriunda das periferias, ela simboliza exatamente tudo aquilo que a bolsonarismo aprendeu a transformar em alvo preferencial: diversidade, ascensão social de minorias e ocupação de espaços historicamente monopolizados por homens brancos conservadores.
Não basta discordar dela. É preciso tentar desumanizá-la publicamente para alimentar a militância do ódio.
E aqui reside uma das marcas mais tóxicas do bolsonarismo: a destruição sistemática da ideia de adversário legítimo.
Na democracia, divergências são naturais; no autoritarismo cultural bolsonarista, o outro precisa ser ridicularizado, esmagado e tratado como inimigo moral da nação. O argumento perde importância; o que importa é a humilhação performática.
Tudo isso ocorre enquanto milhões de trabalhadores brasileiros enfrentam jornadas brutais na escala 6x1, vivendo para trabalhar em vez de trabalhar para viver. Mas discutir seriamente as condições materiais da população exigiria estudo, responsabilidade e capacidade de formulação, atributos pouco compatíveis com quem ascendeu politicamente ensinando procedimentos íntimos de depilação do cu, nas redes sociais.
Há algo de simbolicamente devastador nisso tudo: um bolsonarismo que se apresenta como defensora da “moral” e dos “bons costumes”, mas que ajudou a transformar a política brasileira em uma mistura de algoritmo, grosseria e espetáculo degradante.
O resultado é um Parlamento cada vez mais parecido com um feed de rede social tóxica: muito barulho, pouca inteligência e nenhuma grandeza republicana.
A democracia não morre apenas quando tanques ocupam as ruas. Ela também apodrece quando o grotesco vira virtude política e quando figuras que deveriam honrar a representação popular preferem atuar como influenciadores de baixíssimo nível travestidos de estadistas.
No fim, o deputado qhe se elegeu por "raspar o cu", teve de asssumir a "cara de cu" ao ae ver derrotado na votação da escala 6x1.
Agora, sigamos ao Senado, outra cloaca do sistema.
Boa sorte aos tranalhadores.
segunda-feira, 25 de maio de 2026
Marcha Sem Jesus
A Marcha para Jesus no Rio de Janeiro escancarou uma cena velha da política brasileira: a fé no palco, o voto no bolso e o pastor no microfone fazendo o serviço que o candidato, prudentemente, preferiu não fazer.
Flávio Bolsonaro faltou.
Malafaia compensou no gogó. A ausência do candidato não despolitizou o evento; apenas mostrou que, quando a engrenagem já está montada, o ungido nem precisa aparecer. Basta deixar o sacerdote da campanha falar em nome do céu.
O problema não é religioso participar da política. Isso é democracia. O problema é transformar púlpito em comitê, fiel em eleitor cativo, Bíblia em santinho, culto em comício e divergência política em pecado.
A operação é conhecida. Primeiro, politiza-se a religião: o pastor organiza medos, ressentimentos e lealdades eleitorais como se estivesse apenas defendendo valores espirituais. Depois, religiosiza-se a política: o adversário vira inimigo de Deus; a eleição vira batalha espiritual; investigação vira perseguição; derrota vira fraude; Constituição vira obstáculo à profecia.
A Fé, que poderia elevar a vida pública, vira instrumento de captura. A política, que deveria discutir governo, economia, saúde, educação, corrupção e instituições, desfila fantasiada de cruzada moral.
O político precisa do pastor para falar com milhões. O pastor precisa do político para ampliar poder, acesso, proteção e influência. É bênção por palanque, voto por acesso, moralidade pública por poder privado.
O resultado é ruim para a democracia e péssimo para a religião. A política empobrece. A Fé se apequena. O cidadão vira rebanho. O pastor vira cabo eleitoral com microfone sagrado. O candidato vira ungido de ocasião.
E Deus, que deveria ser grande demais para caber em partido, acaba sequestrado por gente pequena o bastante para achar que o céu tem diretório eleitoral.
https://www.facebook.com/arandunoticias
TEXTO DE:
Julio Benchimol Pinto
domingo, 24 de maio de 2026
Virgínia na Globo
sábado, 23 de maio de 2026
Moro exposto à luz mesmo sob a sombra
A Operação Lava Jato começou como investigação de lavagem de dinheiro num posto de gasolina em Curitiba e terminou quebrando empresas e colocando a economia brasileira num beco sem saída.
No centro do processo estava um juiz federal de primeira instância, sem mandato popular nem cargo executivo, com jurisdição sobre contratos da Petrobras e com talento para tramoias, coações e descumprimento do devido processo legal.
A corrupção que investigava precedia Moro por décadas. O que ele construiu foi o modo de apresentá-la e de usá-la em proveito próprio.
O jogo jogado com o MP, as conduções coercitivas filmadas pela Polícia Federal, conversas telefônicas vazadas às redações na véspera de decisões críticas — o calendário de prisões tinha uma sensibilidade e seletivismo para momentos eleitorais que nenhum critério processual explicava. Era uma narrativa, com protagonista definido e roteiro chapado.
A prisão de Luiz Inácio Lula da Silva, em abril de 2018, foi o capítulo que organizou retrospectivamente todos os anteriores. Condenado em segunda instância por um colegiado que Moro havia preparado, Lula foi para Curitiba com o campo eleitoral ainda aberto e saiu de lá inelegível.
O que se seguiu dispensava comentário. Sem o candidato que liderava todas as pesquisas, a eleição de outubro produziu Jair Bolsonaro.
O voto, para Moro, era desnecessário. Ele havia preparado o terreno, e o convite viria.
O convite veio em novembro, quando o presidente eleito anunciou o nome do juiz para o Ministério da Justiça.
Moro aceitou. A sequência era tão direta que qualquer leitura sofisticada seria um excesso e tautologia.
O magistrado que havia condenado o principal adversário eleitoral do presidente eleito tornava-se ministro de Bolsonaro. A toga foi pendurada, e com ela a ficção de que tudo havia sido apenas direito penal aplicado com rigor.
A saída do ministério, em abril de 2020, chegou acompanhada de uma acusação grave e específica: interferência política na Polícia Federal e uso do aparato de segurança para fins pessoais. Moro apresentou a ruptura como ato de consciência. O clássico: rato pulando do barco.
O problema é que as acusações, se verdadeiras, descreviam um governo que ele havia ingressado de olhos abertos. A candidatura presidencial própria não decolou. Migrou para o Senado pelo Paraná e foi reabsorvido, sem cerimônia, pelo campo que nunca havia de fato deixado. Atua como ajudante de ordens do bolsonarismo. O resultado foram oito anos de senador medíocre e, como sempre, inescrupuloso.
Hoje compõe o palanque de Flávio Bolsonaro, o herdeiro medíocre de um pai golpista, candidato que não existiria sem os destroços que Moro ajudou a produzir. A toga foi desacreditada pelo Supremo Tribunal Federal. As condenações foram anuladas. Lula voltou ao Planalto e briga cotidianamente com essa lógica destruidora e suas próprias contradições.
Moro sobreviveu assim, uma paródia de si mesmo, maltratando a língua portuguesa e colecionando situações constrangedoras, enfileirado atrás do filho do golpista que ajudou a fabricar, num país que ainda paga a conta.
TEXTO DE:
Ricardo Queiroz Pinheiro
Voz do que Clama no Deserto, não se cale
sexta-feira, 22 de maio de 2026
Deolane é tão perigosa quanto tentam pintar?
Quando Deolane foi alvo de operações policiais, vimos espetáculo. Helicópteros, cobertura em tempo real, vazamentos seletivos, programas policiais transformando investigação em entretenimento. Antes mesmo de qualquer condenação definitiva, parte da imprensa já a tratava como culpada consumada. O tribunal das redes e o tribunal midiático funcionaram em velocidade máxima.
Agora compare com o tratamento dado à família de Jair Bolsonaro.
São joias sauditas, cartões de vacinação, tentativa de golpe, minuta antidemocrática, interferência na Polícia Federal, rachadinhas, ligações com personagens obscuros do submundo político do Rio de Janeiro, e ainda assim uma parcela significativa da imprensa e das instituições continua tratando tudo com uma cautela quase aristocrática. Não raro, os envolvidos aparecem mais como “personagens de crise política” do que como suspeitos comuns.
E dentro desse cenário surge outra questão inevitável: as relações políticas e financeiras do senador Flávio Bolsonaro com o banqueiro Daniel Vorcaro geraram muito menos indignação pública do que as acusações lançadas contra Deolane.
A pergunta que muita gente faz é simples: por quê? Afinal, quando figuras centrais da República mantêm proximidade com personagens envolvidos em controvérsias financeiras e investigativas, não seria isso politicamente mais grave do que os escândalos atribuídos ao universo das celebridades digitais?
O contraste chama atenção porque o impacto institucional é completamente diferente. Uma influenciadora pode movimentar manchetes e alimentar programas policiais; já um senador da República, filho de um ex-presidente, possui influência direta sobre estruturas de poder, decisões nacionais e articulações políticas. Ainda assim, a cobertura frequentemente parece menos agressiva, menos espetaculosa e menos moralista.
A pergunta inevitável é: por que a mão pesada do Estado parece encontrar tanta coragem diante de figuras sem capital político institucional, mas se torna hesitante diante de sobrenomes poderosos?
No Brasil, o problema nunca foi apenas corrupção ou ilegalidade. O problema central é quem pode ser humilhado publicamente e quem recebe o privilégio da liturgia do cargo, da presunção social de inocência e dos intermináveis recursos políticos e jurídicos.
A diferença de tratamento revela algo profundamente brasileiro: a seletividade penal. A Justiça brasileira frequentemente não opera apenas baseada nos fatos; opera baseada em classe, influência, utilidade política e capacidade de mobilizar poder. Uns são transformados em exemplo. Outros, em exceção.
E há um agravante perverso: a imprensa. Parte dela age como força auxiliar do sistema punitivo quando o alvo é conveniente. Em certos casos, celebra operações como reality show moral. Em outros, adota tom solene, quase acadêmico, preocupado em “não precipitar conclusões”. Curiosamente, essa preocupação costuma aparecer quando o investigado possui aliados poderosos, influência econômica ou relevância eleitoral.
Isso não significa defender impunidade para Deolane ou para qualquer celebridade. A questão é outra: se a lei deve valer para todos, então que valha para todos com o mesmo rigor, a mesma velocidade e a mesma exposição. O Estado democrático não pode funcionar como instrumento de intimidação para uns e almofada institucional para outros.
A sensação popular de injustiça nasce justamente daí. O cidadão comum observa que há operações cinematográficas para determinados alvos, enquanto figuras centrais da política nacional parecem atravessar escândalos sucessivos protegidas por um labirinto de privilégios formais e informais.
No fim, talvez o maior escândalo nem seja apenas o que investigam contra a família Bolsonaro ou contra Deolane. O maior escândalo é a desigualdade do tratamento. Porque quando a Justiça perde a aparência de imparcialidade, ela deixa de parecer Justiça e começa a parecer apenas disputa de poder usando toga, microfone e distintivo.
quarta-feira, 20 de maio de 2026
Tristirinhas do Thiago Muniz edição Pré-Copa do Mundo 2026
segunda-feira, 18 de maio de 2026
Neymar é um tapa na cara dos brasileiros
Em um país que transformou a meritocracia em religião de mercado, embora a realidade social desminta diariamente esse sermão neoliberal, a convocação de Neymar para a Copa do Mundo surge como uma espécie de parábola cruel do Brasil contemporâneo: aqui, o discurso do mérito vale apenas para o pobre anônimo.
Para os ídolos milionários, para os protegidos do espetáculo, para os ativos comerciais da indústria do futebol, sempre haverá uma exceção conveniente.
O cidadão comum ouve desde cedo que precisa “merecer” cada espaço. Dizem-lhe que fracasso é culpa individual, que ascensão depende apenas de esforço, disciplina e performance.
Mas basta olhar para a Seleção Brasileira para perceber que o país nunca acreditou verdadeiramente nisso.
Neymar, há anos mais relevante como celebridade digital do que como atleta decisivo em alto nível, segue tratado como patrimônio intocável da pátria.
Pouco importa sequência física irregular, pouco importa o futebol intermitente, pouco importa o histórico recente de lesões e ausência competitiva. O marketing pede sua presença. E, no Brasil do espetáculo, o marketing costuma derrotar o mérito.
Não se trata aqui de negar a importância histórica do jogador. Neymar foi um dos maiores talentos de sua geração. O problema é justamente outro: a imprensa esportiva brasileira se recusa a tratar o tema no tempo verbal correto.
Falam dele como se ainda estivéssemos em 2015. Como se bastasse pronunciar seu nome para que o campo se iluminasse automaticamente. Há uma infantilização permanente da cobertura esportiva nacional, incapaz de separar memória afetiva de análise objetiva.
E então começa o ritual da encenação coletiva.
Programas esportivos transformam a convocação em clima de réveillon patriótico.
Ex-jogadores agem como relações públicas emocionados. Narradores vendem esperança em tom messiânico. Repórteres sorriem diante das câmeras como quem anuncia a volta de um salvador nacional. A crítica desaparece. A análise tática desaparece. O debate físico desaparece. Some até mesmo o mínimo constrangimento profissional.
Em vez de perguntar se Neymar ainda entrega, discutem apenas como será “bonito” vê-lo novamente de amarelo.
Em vez de avaliar rendimento, intensidade, capacidade competitiva ou encaixe coletivo, preferem transformar o telejornal esportivo em peça publicitária emocional.
O telespectador não recebe informação; recebe torcida organizada travestida de jornalismo.
A imprensa esportiva brasileira, em muitos momentos, abandonou a função crítica para atuar como departamento de promoção do entretenimento futebolístico.
E talvez esteja aí o ponto mais vergonhoso de toda essa história. Porque não é apenas sobre Neymar. É sobre um sistema inteiro que protege celebridades enquanto exige brutal competitividade dos demais.
Quando um jovem jogador oscila durante três partidas, é massacrado em rede nacional. Quando um atleta menos midiático perde rendimento, logo surgem discursos sobre renovação, meritocracia e “fim de ciclo”. Mas Neymar habita outra categoria: a dos intocáveis do mercado. Sua convocação deixa de ser questão esportiva e passa a ser questão econômica, televisiva e simbólica.
O futebol brasileiro, que já produziu debates profundos sobre tática, formação e identidade de jogo, hoje frequentemente se rende à lógica rasa do engajamento. O que importa não é quem está melhor; importa quem gera clique, audiência, patrocinador e nostalgia.
E assim o país segue encenando sua grande mentira nacional: a de que acredita no mérito.
Não acredita. Nunca acreditou.
A meritocracia brasileira funciona como instrumento moral para disciplinar pobres, jamais como princípio real para distribuir oportunidades. No topo da pirâmide, o sobrenome, a fama, o capital simbólico e o interesse comercial continuam pesando mais do que desempenho concreto.
Neymar foi convocado apenas pelo que representa fora de campo e não pelo que entrega dentro dele, será mais um capítulo dessa velha tragédia brasileira: um país que exige excelência dos invisíveis enquanto transforma privilégios em espetáculo patriótico para consumo popular.
Seleção Brasileira Copa 2026
sexta-feira, 15 de maio de 2026
Dark Horse, o cavalo de Troia do jornalismo brasileiro
A velha imprensa brasileira adora um tribunal, desde que ela escolha o réu, o promotor e o momento do vazamento.
Quando o alvo era Luiz Inácio Lula da Silva, houve reportagem performática, “powerpoint” messiânico (outra vez), trilha sonora de indignação moral e um telejornalismo que parecia disputar prêmio de dramaturgia.
Lembram do vergonhoso espetáculo do procurador Deltan Dallagnol transformando suspeitas em convicções televisivas? Lula virou o “comandante máximo” de tudo, mesmo quando as provas eram menos sólidas do que a retórica inflamada dos procuradores.
A Globo repetiu de maneira despudorada o mesmo tipo de ataque, só que sob o comando de Andreia Sadi. A jornalista tentando encontrar uma ligação entre Lula e Vorcaro, foi um show de bizarrice. O pedido de desculpas dias depois sobre a exibição de "material incompleto e errático", foi a cereja de um bolo podre, confeituado com canalhice.
Agora, o roteiro muda. E como muda.
A revelação de relações financeiras e políticas envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro expôs um curioso campeonato nacional de amnésia seletiva.
Entre entrevistas constrangidas, explicações burocráticas e análises cuidadosamente anestesiadas na GloboNews, instalou-se uma disputa de narrativas sobre “culpa”, “proximidade” e “responsabilidade”.
E aí surge Flávio Bolsonaro tentando posar de vítima de perseguição — logo ele, herdeiro político de um grupo que transformou associação indireta em sentença definitiva quando o alvo era adversário ideológico.
Ver Malu Gaspar acusar Flávio Bolsonaro de receber dinheiro de Vorcaro e ser lembrada por ele, de que a Globo através de Luciano Huck também recebeu grana do banqueiro, foi ao mesmo tempo constrangedor e cômico.
Duas caras de glúteo ao vivo, se encarando.
O mais fascinante é observar o desconforto da bancada jornalística diante do espelho. Porque, desta vez, o dinheiro não passou perto apenas de um campo político. O banqueiro circulou com desenvoltura entre ministros, parlamentares, figuras do Centrão, integrantes do mercado e personagens da República inteira.
Aparecem nomes ligados ao governo anterior, ao atual, ao Congresso e ao Judiciário em eventos, reuniões, negociações ou relações institucionais.
A elite brasileira sempre teve um talento extraordinário para transformar banqueiros em “visionários” até o minuto em que a fumaça começa a sair do cofre.
Mas há um detalhe inconveniente para os profissionais da indignação seletiva: entre todos os nomes arrastados para a arena das suspeitas e insinuações, justamente Luiz Inácio Lula da Silva é aquele sobre quem não apareceu recebimento de dinheiro de Vorcaro, direta ou indiretamente.
O que não impediu parte da imprensa e das redes de tentarem encaixá-lo no enredo a qualquer custo — afinal, certos setores do jornalismo brasileiro desenvolveram uma dependência química de associar Lula a qualquer escândalo disponível no mercado.
E então fica a pergunta inevitável: onde está o powerpoint?
Cadê a animação em 3D? Cadê as setas vermelhas? Cadê Andréia Sadi diante de um telão explicando que “no centro de tudo” existe uma “organização criminosa financeira interplanetária”? Onde estão os comentaristas convertendo ilações em certezas morais antes mesmo da investigação amadurecer?
Curiosamente, agora prevalece um tom mais sofisticado, mais cauteloso, quase acadêmico. Descobriram, de repente, o valor da prudência jornalística, da presunção de inocência e da necessidade de “contextualizar”.
Que avanço civilizatório extraordinário.
O problema é que o público tem memória. E memória é fatal para narrativas construídas na base do casuísmo.
Quando Lula era o alvo, relações indiretas bastavam para manchetes condenatórias. Quando figuras do bolsonarismo, do mercado financeiro ou da elite institucional aparecem no mesmo tabuleiro, surgem nuances, mediações, ponderações e longos debates semânticos sobre o que significa “receber”, “intermediar”, “aproximar”, “investir” ou “manter relação”.
No fundo, o episódio revela menos sobre Daniel Vorcaro e mais sobre o jornalismo brasileiro. Um jornalismo que frequentemente abandona o compromisso com a coerência para aderir ao conforto ideológico do momento. Porque a credibilidade não morre apenas quando a imprensa mente; ela também apodrece quando aplica pesos morais diferentes conforme o sobrenome do investigado.
E talvez seja justamente isso que mais incomode certos comentaristas na atual disputa narrativa: desta vez, o personagem que eles gostariam de colocar no centro do diagrama simplesmente não recebeu o dinheiro.
E os outros bolsonaristas passados para trás, que ansiavam pelo filme biográfico de Bolsonaro, o Dark Horse, por enquanto terão de se contantar com o Cavalo de Tróia que Flávio Bolsonaro deu para eles.
Parece ironia, mas até em Jesus (Jim Caviezel), a família Bolsonaro deu golpe...
A Falácia do 13 de maio de 1888
segunda-feira, 11 de maio de 2026
Xandão, herói da Lei não da nação
sábado, 9 de maio de 2026
Te dá Aaaaasas...
sexta-feira, 8 de maio de 2026
Trump estende tapete vermelho para Lula
A reunião entre Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva, realizada nesta quinta-feira na Casa Branca, teve um detalhe que desmonta parte da caricatura política criada no Brasil nos últimos anos: Trump tratou Lula como um estadista experiente, não como um adversário folclórico.
Chamou o presidente brasileiro de “dinâmico” e definiu o encontro como “muito produtivo”, após horas de conversa reservada sobre comércio, tarifas, segurança e geopolítica.
E isso não aconteceu por gentileza diplomática. Trump pode até transformar a política em espetáculo, mas não costuma desperdiçar pragmatismo quando enxerga poder real diante dele.
O presidente americano sabe que Lula chega à mesa carregando décadas de experiência internacional, trânsito global e capacidade de negociação construída desde o início dos anos 2000.
Enquanto muitos líderes surgem e desaparecem ao sabor das redes sociais e das guerras culturais, Lula atravessou governos Bush, Obama, Sarkozy, Merkel, Putin, Xi Jinping e agora volta a negociar diretamente com Trump.
Há uma diferença importante entre propaganda doméstica e percepção internacional.
Parte da elite econômica brasileira ainda insiste em enxergar Lula pela lente do preconceito social: “o pernambucano de nove dedos”, o retirante que ousou ocupar espaços historicamente reservados aos sobrenomes tradicionais do poder.
Mas o mundo não funciona segundo os ressentimentos da Casa Grande brasileira.
Lá fora, Lula continua sendo reconhecido como um dos políticos mais influentes do Sul Global e um dos líderes mais conhecidos da história contemporânea da América Latina.
Gostem ou não seus adversários, Lula se transformou num personagem histórico. Não apenas pela origem improvável ou pelas vitórias eleitorais, mas porque construiu relevância internacional duradoura.
Poucos líderes latino-americanos conseguiram dialogar simultaneamente com Washington, Pequim, Bruxelas e Moscou sem desaparecer politicamente no meio do caminho. Menos ainda conseguiram retornar ao poder depois de tudo o que viveu a política brasileira na última década.
Trump percebe isso. E talvez por isso tenha evitado qualquer confronto performático. O presidente americano entende linguagem de força política, de liderança popular e de sobrevivência institucional.
Lula representa exatamente isso. São dois líderes radicalmente diferentes em visão de mundo, mas semelhantes num aspecto essencial: ambos entendem a política como disputa de poder real, não como teatro para redes sociais.
No Brasil, porém, continua existindo uma dificuldade quase patológica de reconhecer a dimensão histórica de Lula.
Há quem prefira reduzi-lo a apelidos ou caricaturas porque admitir sua estatura política significaria aceitar algo intolerável para certos setores: o maior líder político da história brasileira nasceu pobre, nordestino, operário e sem diploma universitário.
E a história, cruel com os arrogantes, costuma rir desse tipo de preconceito.
Enquanto alguns ainda repetem insultos de WhatsApp, Lula segue sendo recebido na Casa Branca como interlocutor estratégico dos Estados Unidos.
segunda-feira, 4 de maio de 2026
O Fariseu Malafaia
![]() |
| (por Antonio Gonzalez) |




.jpeg)



.jpeg)









