sábado, 31 de janeiro de 2026

Pra Tudo começar na quinta-feira

Pra tudo começar na quinta-feira” é um livro necessário não só para o universo do Carnaval quanto para a cultura popular brasileira num todo.

Mostra em caráter histórico, plural e literal uma forma distinta de contar uma história, que são os desfiles de escolas de samba.

O mais engraçado é que a primeira edição foi lançada no ano de 2016 e se passaram 10 anos para uma segunda edição, mas com uma explosão de informações pois exatamente depois da publicação houve uma injeção e revolução de novos carnavalescos e com uma fome inimaginável de enredos necessários para aquele período, principalmente no triênio 2019-2022 (2021 não houve carnaval devido a pandemia).

De 2016 para cá houve que uma certa passagem de bastão do “Old School” para a galera atual de maneira natural, sem alarde.

E as demandas do cotidiano permitiram o aceleramento deste processo em virtude de suas malhas criativas. De Fernando Pamplona / Rosa Magalhães / Joãozinho Trinta até Bora-Haddad / Leandro Vieira / Tarcísio Zanon.

Se passaram 10 anos onde os autores Luiz Antonio Simas e Fábio Fabato: Simas com aquela dose de malícia acadêmica e malandragem das encruzilhadas e dos botequins; e Fabato com o carisma vocábulo em suas crônicas, com mais robustez e paixão em sua análise, fruto do amadurecimento que a própria vida o trouxe.

Um livro que pode muito bem ter uma terceira edição daqui a 10 anos, pois ele já nasceu atemporal. E as circunstâncias que o Carnaval sofreu permitiram acontecer, entre retaliações e racismo, ela continua em pé e para quem é amante do Carnaval como eu não podemos deixar morrer essa forma única de se contar uma história.

TEXTO DE:
Thiago Muniz



quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Ideologia elástica: o anti-sistema

Poucas expressões circulam com tanta desenvoltura — e com tão pouca precisão — no debate público atual quanto “anti-sistema”.

Ela aparece em discursos eleitorais, em threads indignadas, em manifestos improvisados e em mesas de bar.

É uma palavra de ordem que une sujeitos muito diferentes, frequentemente inimigos entre si, mas que compartilham uma mesma certeza: o problema está no sistema.

O detalhe incômodo é que quase ninguém concorda sobre o que exatamente ele seja.

Do ponto de vista da teoria política, o “anti-sistema” funciona como aquilo que Ernesto Laclau chamou de significante vazio: um termo que não possui um conteúdo fixo, mas que se torna um ponto de convergência de demandas, frustrações e ressentimentos heterogêneos.

Ele não explica a realidade; antes, organiza afetos. É menos um conceito e mais um recipiente.

Na Esquerda mais radical, o sistema costuma receber um nome clássico e respeitável: capitalismo.

Ele aparece como uma totalidade quase metafísica, capaz de explicar desde a precarização do trabalho até a ansiedade individual.

Aqui, o anti-sistema carrega uma tradição teórica robusta — Marx, Rosa Luxemburgo, Gramsci —, mas muitas vezes herda também um problema antigo: a tendência a transformar uma crítica estrutural legítima numa explicação totalizante, impermeável a nuances, mediações institucionais e contradições históricas.

Na outra ponta, a Direita delirante — para usar um termo suave — preenche esse mesmo significante com algo bem menos delimitado: o globalismo.

Trata-se de um conceito curioso, porque raramente aparece definido de forma rigorosa. Ele pode significar ao mesmo tempo organismos multilaterais, elites financeiras, pautas identitárias, universidades, imprensa, vacinas, ONGs, a ONU, George Soros e, em dias mais criativos, até o clima. É o sistema como conspiração difusa, não como estrutura econômica ou política analisável.

O resultado é paradoxal: grupos que discordam em quase tudo compartilham a mesma gramática do ressentimento.

Como observou Carl Schmitt, a política moderna tende a se organizar pela distinção amigo/inimigo.

(Na nossa realidade baseada em conceitos cristãos, o bem e o mal.)

O “sistema”, nesse sentido, é o inimigo perfeito: abstrato o suficiente para nunca ser plenamente derrotado, mas concreto o bastante para justificar indignações permanentes.

Essa elasticidade explica por que o discurso anti-sistema sobrevive tão bem mesmo quando seus porta-vozes chegam ao poder.

Quando o “anti-sistema” governa, o sistema simplesmente muda de endereço. Já não está mais no Palácio, mas na burocracia, no Judiciário, na imprensa, nas universidades, no mercado internacional — ou em qualquer lugar conveniente para preservar a narrativa da pureza traída.

Como diria Hannah Arendt, a substituição da análise pela lógica do ressentimento é um dos primeiros sinais de empobrecimento do espaço público.

Há, evidentemente, razões reais para o mal-estar contemporâneo: desigualdade persistente, crises de representação, financeirização da vida, erosão da confiança institucional.

O problema começa quando o “anti-sistema” deixa de ser uma crítica e se torna uma identidade. Nesse estágio, ele já não quer reformar, compreender ou disputar o sistema — quer apenas habitá-lo como inimigo permanente, pois é dessa oposição que retira sentido.

No fim, o discurso anti-sistema revela menos sobre o sistema que pretende combater e mais sobre a dificuldade contemporânea de lidar com a complexidade.

Como advertia Isaiah Berlin, o desejo de explicações únicas para problemas plurais é intelectualmente sedutor — e politicamente perigoso.

O sistema, seja ele capitalismo, globalização ou modernidade tardia, não cabe inteiro em um slogan. Mas slogans, como sabemos, são muito mais fáceis de gritar do que conceitos são de pensar.

O “anti-sistema”: significante vazio da moda

No Brasil, declarar-se “anti-sistema” virou uma forma elegante — e socialmente aceita — de dispensar o esforço do pensamento.

É o novo “não sou de Direita nem de Esquerda”, só que com mais raiva, menos leitura e um sentimento difuso de superioridade moral.

Trata-se de uma posição política curiosa: ela se afirma pela negação de algo que raramente é definido, mas sempre culpado.

Do ponto de vista conceitual, o “anti-sistema” é um significante vazio, como já explicava Ernesto Laclau — embora seus usuários brasileiros provavelmente nunca tenham passado da orelha do livro, quando muito.

É uma palavra que não diz o que é, mas diz contra quem se está. E isso basta para mobilizar paixões.

Quando esse significante vazio é evocado, qualquer coisa pode ocupar esse vazio: os injustos impostos, a demoníaca ideologia de gênero, a Mão invisível do Mercado, os reptilianos, os globalistas, os comunistas...

Todo inimigos imaginários, mas que servem a um propósito bem definido: preencher a vaga de inimigo a ser combatido.

À Esquerda mais extremada, o sistema atende pelo nome respeitável de capitalismo. Não se trata aqui de negar a legitimidade da crítica ao capitalismo — ela é vasta, antiga e intelectualmente séria. O problema começa quando tudo passa a ser capitalismo: o preço do feijão, o algoritmo do Instagram, a derrota eleitoral, a falta de carisma do candidato e, claro, a impossibilidade de vencer eleições sem convencer o eleitor. O capitalismo deixa de ser um modo de produção historicamente determinado e vira uma entidade onipotente, responsável até pelo mau humor matinal.

À Direita brasileira — especialmente aquela que resolveu substituir Burke por vídeos de Telegram — o sistema se chama globalismo. Eis um conceito notável por sua elasticidade cognitiva. Globalismo pode ser o STF, a ONU, a imprensa, as universidades, o SUS, a vacina, o IBGE, o Papa, artistas da Lei Rouanet e, se apertar um pouco mais, o clima. É o sistema como conspiração permanente, nunca como estrutura verificável. Não se estuda: denuncia-se. Não se analisa: acusa-se.

O mais fascinante é que esses extremos se encontram no método. Ambos precisam de um inimigo abstrato para explicar seus fracassos concretos.

Como ensinou Karl Popper, teorias que explicam tudo acabam não explicando nada. No Brasil, elas apenas rendem curtidas.

O bolsonarismo é talvez o exemplo mais acabado dessa lógica. Chegou ao poder bradando contra “tudo isso que está aí” — o sistema, ora vejam — e, uma vez instalado no Planalto, passou quatro anos explicando que não governava porque o sistema não deixava.

Congresso? Sistema.

STF? Sistema.

Imprensa? Sistema.

Vacina? Sistema.

O curioso é que o sistema sempre estava no outro poder, nunca no espelho.

Mas a Esquerda brasileira não fica atrás quando transforma o “anti-sistema” numa identidade estética. Parte dela passou a tratar a democracia liberal não como um campo de disputa imperfeito, mas como um disfarce burguês irremediavelmente fraudulento. Resultado: despreza eleições quando perde, relativiza autoritarismos amigos e troca a crítica institucional por uma retórica moralizante que não convence nem o porteiro do prédio.

Hannah Arendt advertia que a política começa onde termina a tentação de explicações totais.

O discurso anti-sistema faz o caminho inverso: ele oferece uma resposta simples para problemas complexos e, assim, desobriga seus adeptos de pensar soluções reais. Afinal, se o mal é absoluto, qualquer meio vira aceitável — inclusive o flerte com o autoritarismo, desde que “do lado certo”.

No fim das contas, o “anti-sistema” brasileiro não é revolucionário nem subversivo. Ele é confortável. Funciona como um álibi retórico para não lidar com reformas difíceis, escolhas trágicas e responsabilidades institucionais. É a política como ressentimento organizado.

E aqui está a ironia final: quem vive denunciando o sistema raramente quer destruí-lo.

Quer apenas ocupá-lo — sem controles, sem crítica, sem limites.

Não é anti-sistema. É anti-complexidade, anti-democracia e, muitas vezes, anti-realidade.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Santa Catarina contra a Constituição: decadência intelectual como ideologia política

Santa Catarina resolveu inovar. Não na ciência, não na educação, não na inclusão — isso seria pedir demais.

Resolveu inovar no ramo da inconstitucionalidade criativa.

A Assembleia Legislativa e o (des)governo estadual decidiram, com a solenidade de quem ignora a Constituição, proibir cotas raciais nas universidades estaduais, como se estivessem revogando um decreto municipal sobre estacionamento rotativo.

O detalhe irrelevante — apenas irrelevante para quem legislou — é que o Supremo Tribunal Federal já decidiu, de forma unânime, que políticas de ação afirmativa são constitucionais.

Não “toleráveis”, não “aceitáveis”, mas constitucionalmente legítimas. Isso foi em 2012. Treze anos atrás. Mas quem conta tempo quando se tem convicção ideológica?

Vamos à contabilidade. Eis, pelo menos, cinco ilegalidades jurídicas evidentes cometidas com a elegância de um bode no salão da Assembleia:

1. Usurpação de competência constitucional
Estados não têm competência para legislar de modo a restringir direitos fundamentais reconhecidos pela Constituição e interpretados pelo STF. Educação superior e direitos fundamentais não são brinquedos federativos. Santa Catarina agiu como se fosse um Supremo paralelo — sem toga, sem Constituição e sem pudor.

2. Violação direta ao princípio da igualdade material (art. 5º e art. 3º, CF)
A Constituição não protege uma igualdade de fachada, dessas que ignoram a história, os dados e a realidade social. O STF foi claro: tratar desiguais como iguais é produzir desigualdade. A lei catarinense faz exatamente isso — e ainda se apresenta como virtuosa.

3. Afronta à autonomia universitária (art. 207 da CF)
Universidades têm autonomia didático-científica e administrativa. Decidir critérios de acesso, desde que constitucionais, é atribuição da universidade, não do deputado estadual que resolveu fazer guerra cultural com o vestibular.

4. Desrespeito explícito à jurisprudência vinculante do STF
O julgamento das cotas não foi um “artigo de opinião”. Foi uma decisão plenária, sólida, reiterada e reafirmada ao longo dos anos. Ignorá-la não é ousadia — é insubordinação constitucional. No Estado de Direito, isso tem nome: ilegalidade.

5. Violação ao princípio da vedação ao retrocesso social
Quando o Estado reconhece políticas públicas voltadas à inclusão e depois as elimina sem base empírica ou constitucional, pratica retrocesso. Não é conservadorismo. É regressão institucional.

E o mais curioso é o discurso moralista que acompanha tudo isso. Fala-se em “meritocracia”, como se vestibular fosse olimpíada metafísica, onde o processo seletivo é trata docomo uma competição intelectual abstrata, desconectada da realidade material e social dos candidatos. Fala-se em “igualdade”, como se o Brasil tivesse começado ontem, sem escravidão, sem exclusão e sem estatísticas constrangedoras.

A lei catarinense não é neutra. Neutralidade aqui é ficção retórica. Ela escolhe um lado: o da desigualdade herdada, naturalizada e agora blindada por lei estadual.

O STF vai derrubar?

Muito provavelmente. É obrigação moral e legal derrubar.

A pergunta real é outra: por que legislar algo que já nasce morto?
Resposta simples: não é sobre Direito. É sobre sinalizar virtude ideológica a um público específico, mesmo que isso custe a Constituição.

O famoso apito de cachorro. Ou neste caso em questão, de gado.

Santa Catarina não está “defendendo a igualdade”. Está apenas demonstrando, mais uma vez, que convicção sem Constituição costuma dar nisso: uma lei que parece forte, mas juridicamente é oca.

E o Estado de Direito, felizmente, não se governa por achismo.


TEXTO DE:

Tarciso Tertuliano



Resumo técnico (conteúdo gerado por I.A.)

Uma lei estadual de Santa Catarina que proíba cotas raciais nas universidades estaduais fere:

✔ Constituição Federal (arts. 1º, 3º, 5º, 206 e 207)
✔ Lei 12.711/2012
✔ Estatuto da Igualdade Racial
✔ Jurisprudência pacífica do STF (ADPF 186, RE 597.285, ADI 3330)

*ADPF = Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental

✔ Princípios da igualdade material, autonomia universitária e vedação ao retrocesso

👉 Alta probabilidade de declaração de inconstitucionalidade, em controle concentrado ou difuso.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

EUA, Groenlândia e o possível boicote a Copa do Mundo

Vamos falar dos Estados Unidos, porque se a Convenção de Genebra fosse aplicada, todos os presidentes dos Estados Unidos estariam presos.

O debate sobre um possível boicote à Copa do Mundo de 2026, sediada nos EUA, Canadá e México, ganhou força no início de 2026, impulsionado por tensões geopolíticas envolvendo o presidente Donald Trump, ameaças de taxas tarifárias contra a Europa e a questão da Groenlândia.

A discussão também ganhou força nas redes sociais com hashtags como #BoycottWorldCup2026, citando receios com políticas migratórias e segurança nos EUA.

No entanto, até o final de janeiro de 2026, um boicote efetivo por seleções nacionais ainda é considerado improvável, mas o debate reflete uma politização crescente do evento.

A Europa vai perder a Groenlândia para os Estados Unidos e, se não ficar quieta, vai perder tudo, porque a Europa acabou.

A Europa não é nada. A Europa é uma península da Ásia, mas que resolveram chamar de continente porque há 2 mil anos ela é um império que concentrou muito poder.

A Europa nunca foi um continente. Então, nós temos a Ásia, com duas penínsulas.

Uma, que é o Oriente Médio, na região sudoeste, e outra, que é a Europa, na região oeste. Só isso. Mais nada. O mundo é tripolar. Estados Unidos, Rússia e China.

E, neste tripolar, nós temos um bipolar muito forte para o lado do BRICS.

Se considerarmos o BRICS um mundo e os Estados Unidos outro, seremos bipolar. Os Estados Unidos podem ser derrubados economicamente. A resistência dos Estados Unidos é a bomba atômica que ele tem muito poderio militar.

Um Estado decidiu pela força arrancar de outro Estado o seu governante. E é aqui onde entra a filosofia, porque o que está em jogo não é apenas um homem, mas o próprio conceito de soberania, de justiça e de legitimidade no mundo moderno.

Bom, vamos voltar ao tempo. Ao tempo em que desde Thomas Hobbes aprendemos a imaginar o Estado como um leviatã, ou seja, uma criatura gigantesca, temível e criada para impedir o caos. Cada país no seu território guarda sua própria fera, guarda seu próprio leviatã, mas o que vemos agora é algo muito mais antigo. Um leviatã devorando o outro leviatã.

TEXTO DE:
Thiago Muniz

sábado, 24 de janeiro de 2026

Yes, Nós temos Bananas

Em 1923, os americanos Frank Silver e Irving Cohn lançaram “Yes! We Have No Bananas”, uma canção cômica sobre uma mercearia que não tinha bananas.

Em 1938, Braguinha e Alberto Ribeiro responderam à altura com a marcha “Yes, nós temos bananas”, ironizando a então crescente dominação cultural norte-americana sobre as Américas.

A mensagem era clara: o Brasil não era apenas uma “república das bananas”, mas um país com produção e identidade próprias.

Curiosamente, um ano depois, quando o petróleo foi descoberto em Lobato, na Bahia - ninguém compôs o inevitável “Yes, nós temos petróleo”. Era ali que começava a história que levaria à Petrobras, em 1953. Para bom entendedor, meia ironia basta.

Evitei comentar a recente ofensiva contra a Venezuela e a detenção de Maduro, para não cair na armadilha dos rótulos.

Que fique claro: não tenho simpatia por ditadores — nem por Maduro, nem por Trump – menos ainda por ditaduras. Acredito no voto, na alternância de poder e na democracia.

Tenho estudado com interesse afiado o que rola na política espanhola, onde os partidos independentistas (catalão, basco e galego) além de dar a sustentabilidade ao governo central, são os seus principais defensores.

Por sinal, assim como a política brasileira, na Espanha está tudo muito polarizado. Onde um espirro pode transformar-se num temporal e um arroto num furacão devastador.

Aliás, a Europa racista e xenófoba nunca deixou de existir. Apesar de desaparecerem há mais de 50 anos, os espíritos de Franco e de Salazar, continuam em forma de assombração.

O mundo parece cada vez mais preso a uma lógica de Fla-Flu: de um lado “a paz, a esperança e o vigor, unido e forte”, do outro “ele me mata, me maltrata”. Cada qual dono da sua verdade.

Em dezembro de 1993, na famosa foto do corpo crivado de balas do Pablo Escobar, havia um agente da DEA (Drug Enforcement Administration — Administração de Repressão às Drogas dos Estados Unidos).

Naquele ano, o consumo de cocaína nos EUA foi estimado em cerca de 254 toneladas. Em 1994, subiu para 323. Em 1995, 376.

Mataram o traficante, mas o tráfico prosperou. Em 2023, 30 anos depois existem cerca de 25 milhões de usuários de cocaína no mundo, um recorde. O discurso de “guerra às drogas” não sobrevive ao segundo parágrafo dos números.

Esse mesmo padrão vale para a política externa dos EUA. Ao longo do século XX, Washington criou, financiou e armou ditadores em nome da “segurança” ou do “combate ao comunismo” — e depois os descartou quando se tornaram incômodos.

Saddam Hussein, Noriega, Pinochet, o do Irã, Trujillo, Diem, Batista, Mobutu, Somoza… sem falar no próprio Bin Laden. A fórmula é simples: cria-se o tirano útil, usa-se, joga-se fora.

Com uma dívida que ronda os 38 trilhões de dólares, é ingênuo achar que o interesse maior dos EUA na Venezuela seja a democracia.

Vivemos esse Fla-Flu global sem VAR (de um lado “a paz, a esperança e o vigor, unido e forte”, do outro “ele me mata, me maltrata"), enquanto a vida cobra seu preço.

As perdas recentes – precoces - dos amigos Paulo Andel, Zé Neto e André Horta e os meus limites da minha frágil saúde (e a quantidade exacerbada de remédios com que sou obrigado a conviver) me fazem pensar em desistir.

Com relação ao Brasil, ainda há muitas razões para resistir. Porque, afinal, yes, nós temos bananas.

Temos também petróleo, Amazônia, terras raras, 12% da água doce superficial do planeta, cachaça, caipirinha, chopp da Brahma, Machado de Assis, samba, Pelourinho, açaí, acarajé, lei Maria da Penha, feijoada, Carlos Drumond de Andrade, praia de Ipanema, Parada Gay, Carnaval e futebol.

E quando falo de futebol, falo de Fluminense.

TEXTO DE:
Antonio Gonzalez

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

A luta contra o autoritarismo é uma obrigação

A memória pública do século XX costuma simplificar a história da resistência ao fascismo e ao nazismo.

Com frequência, ela é apresentada como um confronto entre Esquerda e Direita, no qual apenas um campo político teria se colocado, de forma consistente, ao lado da democracia.

A documentação histórica, no entanto, revela um quadro mais complexo: a resistência ao totalitarismo foi plural, atravessou tradições ideológicas distintas e, em muitos casos, expôs contradições internas profundas.

Durante a Segunda Guerra Mundial, diferentes grupos — comunistas, liberais, conservadores, democratas-cristãos e nacionalistas não fascistas — atuaram contra regimes autoritários por motivações diversas, mas convergentes em um ponto central: a recusa ao Estado totalitário e ao poder concentrado em líderes incontestáveis.

Livorno e o comunismo italiano na resistência

A cidade de Livorno, na Toscana, ocupa um lugar singular nessa história. Em 1921, foi ali que se fundou o Partido Comunista Italiano (PCI). Durante o regime de Mussolini, seus militantes sofreram repressão sistemática: prisões, exílio interno e clandestinidade. Após a ocupação alemã da Itália, em 1943, os comunistas de Livorno tornaram-se protagonistas da resistência local, integrando brigadas partisans, organizando sabotagens e sustentando redes de apoio civil em uma cidade duramente atingida por bombardeios.

Embora o PCI estivesse politicamente alinhado à União Soviética e reconhecesse em Stalin o líder do principal esforço militar contra o nazismo, a prática da resistência italiana foi marcada por forte autonomia local. A prioridade não foi a instauração imediata de um regime ideológico, mas a derrota do fascismo e a reconstrução de instituições nacionais.

No pós-guerra, essa experiência contribuiu para a consolidação do chamado “comunismo italiano”, que aceitou o pluralismo partidário, a disputa eleitoral e a convivência institucional. Ao longo das décadas seguintes, inclusive após a revelação dos crimes do stalinismo, o PCI e suas bases sociais — entre elas Livorno — passaram por processos de revisão crítica e distanciamento de modelos autoritários.

Essa trajetória histórica oferece um dado relevante para o debate contemporâneo: há experiências de Esquerda que, confrontadas com o autoritarismo, optaram por reformular práticas e romper com a defesa de regimes personalistas. Ignorar esse aprendizado enfraquece qualquer discurso democrático.

A resistência liberal e conservadora

A documentação histórica também mostra que a oposição ao fascismo não foi exclusividade da Esquerda.

Na Alemanha, grupos liberais e conservadores — como o Círculo de Kreisau e setores do alto comando militar envolvidos na Operação Valquíria — conspiraram contra Hitler, motivados pela defesa do Estado de direito e pela percepção de que o regime levava o país à ruína.

Na França, o gaullismo organizou uma resistência nacionalista e republicana.

Na Itália, liberais, democratas-cristãos e monarquistas romperam com Mussolini em 1943.

Na Polônia ocupada, o Armia Krajowa, de orientação conservadora e anticomunista, formou a maior organização de resistência da Europa.

No Reino Unido, o conservadorismo parlamentar, sob a liderança de Winston Churchill, tornou-se um dos pilares da luta contra o nazismo.

Esses exemplos indicam que setores da direita, quando vinculados a instituições, legalidade e limites ao poder, foram capazes de resistir ao autoritarismo — inclusive pagando alto custo político e pessoal.

Lições históricas e o debate atual

A análise comparada dessas experiências aponta para uma conclusão recorrente nos estudos históricos: o autoritarismo não se define apenas por ideologia, mas por práticas concretas de poder. Culto à personalidade, desprezo por instituições, repressão a opositores e manipulação do processo eleitoral foram características comuns tanto ao fascismo quanto a outros regimes ditatoriais do século XX.

Nesse sentido, a história de Livorno sugere que a Esquerda democrática fortalece sua legitimidade quando é capaz de criticar e rejeitar ditaduras, independentemente de alinhamentos geopolíticos. Da mesma forma, a tradição liberal e conservadora europeia demonstra que a Direita preserva sua herança quando se recusa a apoiar lideranças golpistas, mesmo quando estas se apresentam como representantes de valores nacionais ou morais.

O registro histórico do século XX é consistente em um ponto: regimes personalistas e autoritários corroem tanto projetos revolucionários quanto tradições conservadoras. A resistência ao fascismo não foi um patrimônio exclusivo de um campo político, mas o resultado de escolhas feitas — ou recusadas — diante do poder absoluto.

A história não oferece receitas prontas, mas fornece critérios. Entre eles, talvez o mais claro seja este: quando a democracia é relativizada em nome da conveniência ideológica, o resultado tende a ser menos política e mais ruína institucional.

Por fim, não podemos deixar de citar, a vergonha que é para a Direita brasileira apoiar um  golpista fascistóide como Jair Bolsonaro.

Da mesma maneira que a Esquerda brasileira, não pode se dar ao luxo de apoiar ditadores como Nicolás Maduro.

Dom Casmurro e 13 Porquês - a genialidade que aproxima duas obras distantes

Dom Casmurro, de Machado de Assis, e 13 Porquês, de Jay Asher, parecem obras que não poderiam estar mais distantes uma da outra.

Um nasce no Brasil do século XIX, marcado pelo Realismo, pela ironia e pela desconfiança da própria narrativa. O outro surge no século XXI, voltado ao público jovem, lidando com temas urgentes como bullying, silêncio social e sofrimento psicológico.

Ainda assim, existe um ponto de contato poderoso entre os dois: ambos contam histórias cujo final é conhecido desde o começo — e, mesmo assim, nos fazem acreditar que tudo pode mudar.

É justamente aí que mora a genialidade narrativa dessas obras.


O suspense não está no final, mas no caminho

Em Dom Casmurro, Bentinho não esconde o fracasso de sua vida afetiva. Desde o início, sabemos que o amor por Capitu terminou em amargura, solidão e suspeita. Já em 13 Porquês, a morte de Hannah Baker é apresentada logo de saída. Não há mistério sobre o desfecho.

Então por que seguimos lendo?

Porque, nas duas narrativas, o verdadeiro suspense não está no o que acontece, mas no como poderia ter sido diferente. Cada lembrança de Bentinho, cada fita deixada por Hannah, cria no leitor a sensação incômoda de que uma escolha mínima — uma conversa, um gesto, uma escuta atenta — talvez tivesse mudado tudo.

Mesmo sabendo que não mudará.


A armadilha da esperança retrospectiva

Machado de Assis faz algo brilhante: transforma Bentinho em um narrador que conversa com o leitor, que se justifica, hesita, se contradiz. Ele não afirma com todas as letras que Capitu o traiu — ele sugere, insinua, planta dúvidas. E nós, leitores, entramos no jogo. Relembremos cada cena tentando encontrar o momento exato em que a história “desandou”.

Jay Asher constrói esse mesmo efeito com outra linguagem. As fitas de Hannah Baker organizam o passado como uma sequência de causas e efeitos. A cada episódio, pensamos: se alguém tivesse agido diferente aqui… A leitura avança movida por essa esperança tardia, quase cruel.

Nos dois casos, somos levados a fazer algo impossível: revisar o passado acreditando que ele ainda pode ser consertado.


Narradores que controlam a versão dos fatos

Bentinho e Hannah Baker têm algo em comum: ambos dominam completamente a narrativa. Eles escolhem o que contar, como contar e em que ordem contar. Não pedem exatamente nossa absolvição — pedem nossa adesão emocional.

O leitor não recebe a verdade objetiva. Recebe uma versão. E é essa versão, cuidadosamente construída, que nos envolve. Em Dom Casmurro, nunca saberemos se Capitu traiu ou não. Em 13 Porquês, a culpa pela morte de Hannah se dilui entre muitos personagens, nenhum deles um vilão clássico.

A força dessas histórias está menos nas respostas e mais no desconforto das perguntas que permanecem.


Tragédias feitas de pequenas coisas

Nem Machado nem Asher apostam em grandes acontecimentos espetaculares. Suas tragédias nascem do cotidiano: de silêncios, mal-entendidos, inseguranças, omissões. Bentinho não é um tirano; os personagens de 13 Porquês não são monstros. São pessoas comuns — e isso torna tudo mais perturbador.

Porque, se o erro foi pequeno, talvez pudesse ter sido evitado.

E é essa sensação que mantém o leitor preso à leitura, mesmo sabendo que o final já está escrito.


Quando a esperança faz parte da tragédia

Dom Casmurro e 13 Porquês provam que uma boa história não precisa esconder seu desfecho para ser envolvente. Às vezes, revelar o fim desde o início torna a experiência ainda mais dolorosa — e mais humana.

Ambas as obras nos conduzem a uma conclusão desconfortável: há histórias que não mudam não por força do destino, mas porque as escolhas humanas quase sempre chegam tarde demais.

E talvez seja por isso que seguimos lendo, página após página — não para mudar o final, mas para entender onde, exatamente, tudo começou a dar errado.


TEXTO DE:

Tarciso Tertuliano

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Edílson, o desconhecido do BBB

Arte: Walace Sales
O futebol se distanciou do povo.
(Juca Kfouri)

Edilson, o Capetinha, é um dos integrantes da ala “Camarote”, ou seja, os integrantes famosos do Big Brother Brasil edição 2026.

A maioria dos integrantes da chamada ala “Pipoca”, ou seja, os anônimos, não o conheciam quando ele se apresentou e ficaram pasmos quando ele disse que foi um dos atletas pentacampeões da seleção brasileira de 2002.

Isso não é um fato isolado. É um processo longo e doloroso entre fatores sociológico e mercadológico.

As pessoas hoje em dia tem tantas opções de entretenimento; seja por meio de TV aberta, canal pago e streaming, que num determinado momento elas buscam os nichos onde se sentem mais confortáveis de consumir.

A chamada lei da oferta e da procura fez com que surgisse uma gama de celebridades extremamente conhecidas e famosas porém em suas determinadas bolhas.

Basta procurarmos nas Big Techs a quantidade infinita de nichos e os influencers digamos especializados com uma quantidade absurda de seguidores.

Num país como o Brasil onde há 30 anos atrás para ser uma celebridade você só tinha a TV aberta como porta de entrada (e era um círculo extremamente fechado de se entrar nela), nos dias de hoje as celebridades podem escolher em que mídia querem atuar, qual plataforma está valendo mais a pena de trabalhar, as vezes com mais de uma proposta para analisar.

Daí eu volto para a história do Edilson.

Quem sempre acompanhou futebol como eu (atualmente consumo muito menos que consumia quando jovem), conhece o Edilson desde que ele surgiu para o futebol lá no Vitória-BA, fez uma carreira vitoriosa e não jogou na Europa, num mercado onde a remuneração no velho continente era bem parelho com o que se pagava no Brasil.

Hoje em dia o atleta de ponta jogando no Brasil possui uma ótima remuneração mas não se compara aos euros pomposos do exterior. O futebol brasileiro nos últimos anos, principalmente a partir da Copa de 2014 passou por um processo chamado “Camarotização”.

Houve a reformulação de antigos estádios e a construção de novos estádios para sediar a Copa; e com isso surgiu a demanda de aumentar o ticket médio, o que fez com que se mudasse o perfil do público dentro dos estádios: poder aquisitivo maior, torcedor de seus clubes mas com um comportamento seleto e diferente do público de menor poder aquisitivo mais passional dentro dos estádios.

Público com maior poder aquisitivo, aumenta o valor dos ingressos e de todo a oferta de produtos e serviços dentro e fora dos estádios.

O povão passa a não frequentar mais os estádios como antigamente e com isso o interesse ao futebol vai se minguando.

E com isso essas gerações mais novas não conhecem o Edilson Capetinha não porque não quiseram conhecer, surgiram ofertas de conteúdos que fez com que esse público pulverizasse para os nichos de consumo.

Não foi por acaso, o futebol brasileiro está assim por meio de métodos e estratégias de seus dirigentes e articuladores. 

TEXTO DE:
Thiago Muniz


terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Uma História - No Legado, o meu DNA

Depois de mais uma noite na Emergência do PS (o mix fígado, diabetes e próstata, estão em posição de guerra), assumo que estou numa de definitivamente ligar o foda-se.

Tenho pensado muito no Paulo Andel, no Zé Neto e no André Horta, que precocemente se foram. Do nada, projeto o reencontro com cada um. Com certeza o Fluminense fará parte da resenha.

Não sei a dimensão do Fluminense na minha vida, mas tenho a exata noção do que fiz pelo e para o Fluminense.

Com certeza, a caminho dos 65 anos, posso afirmar de que esse lance de que não me arrependo de nada, é conversa fiada.

ECHO DE MENOS LO QUE NO VIVI CON MI FAMÍLIA!

Os almoços e as festas familiares que ficaram para trás, por causa de um jogo perdido e que não valia nada em Ítalo Del Cima (para quem não sabe: é o estádio do Campo Grande, na Zona Oeste do Rio).

Para passar o tempo no soro (com o devido cocktail de comprimidos) acesso o Globoplay e acabo descobrindo a série "1995: No Tempo dos Badboys".

As primeiras cenas eram sobre o Fla-Flu da final e para minha surpresa apareceram imagens da Força Flu, que literalmente incendiou o Maracanã.

O presidente de direito, da torcida, era o Tato. Mas de fato eu, que era o Vice, mandava na porra toda.

31 anos depois fica a certeza de o quanto eu sabia fazer torcida. Não precisava de 35 mil de salário, nem de ajudas do clube.

Basta ver o início dessa série e comparar o que a TFF fez (começo e fim do jogo) com as demais TOs - tudo dentro do mais absoluto respeito.

Essa fotos - prints de tela - tem o meu DNA. E para se chegar a isso é necessário muito inteligência, estratégia, trabalho, disciplina, carisma e liderança. Aquela Força Flu, deixou de existir - por isso sou odiado por quem lá está.

De resto, sem viver do passado, as hemerotecas estão aí para contar um pouco do muito que realizamos (sim, sempre soube formar um time do meu lado: tanto para a festa, tanto para vivenciar o clube, como para porrada).

Estou indo embora. Triste, mas com a consciência tranquila por nunca ter tido etiqueta de preço.

Valeu!


TEXTO DE:
Antonio Gonzales


segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Azeite de Oliva - entenda como funciona o acordo Mercosul / União Européia

Convém começar pelo óbvio — justamente porque o óbvio costuma ser soterrado pela retórica.

Acordos comerciais não são atos de fé. Não são “bons” ou “maus” em si mesmos. Produzem efeitos concretos, mensuráveis e, quase sempre, assimétricos.

O acordo entre Mercosul e União Europeia não foge à regra. E o azeite de oliva é um ótimo exemplo para entender o que está em jogo.

O produto estrangeiro: a virtude do acordo segundo seus defensores

Com o acordo em vigor, o azeite europeu tende a entrar no Brasil pagando menos tarifas. Isso não é ideologia; é matemática. Menor imposto na origem significa menor custo para o importador, maior oferta e, em alguma medida, preços mais baixos ao consumidor.

Resultado?
O brasileiro passa a encontrar com mais facilidade azeites espanhóis, portugueses, italianos e gregos (inclusive de melhor qualidade) a preços menos proibitivos. O discurso oficial celebra: concorrência, eficiência, escolha. Tudo muito bonito.

E não é falso. Apenas incompleto.

O que não aparece no rótulo

O problema começa quando se finge que o mercado é um jogo de iguais. Não é.

O azeite europeu que chega ao Brasil é produzido em países que:

  • Subsidiaram sua agricultura por décadas

  • Financiaram tecnologia, irrigação e pesquisa

  • Construíram cadeias produtivas maduras e protegidas

Já o azeite brasileiro — notadamente o gaúcho — é fruto de uma atividade ainda incipiente, de custos elevados, crédito caro e zero tradição secular. Colocar esses dois produtos para “competir” em nome da abstração do livre mercado não é liberalismo; é cinismo analítico.

O produtor nacional: concorrência ou esmagamento?

Com o avanço do azeite europeu:

  • O produtor brasileiro vê sua margem encolher

  • O investimento se torna mais arriscado

  • Pequenos e médios produtores tendem a desistir

Os mais otimistas falam em “especialização”, “nicho premium”, “valor agregado”. Ótimo — desde que existam políticas públicas que tornem isso viável. Sem elas, o resultado é previsível: desindustrialização do campo, travestida de modernização.

E o emprego? Não desaparece — evapora

Aqui entra o ponto que raramente vira manchete. A queda de preços é visível. A perda de empregos, não.

Quando a produção local encolhe:

  • Some o emprego rural

  • Some o trabalho indireto

  • Some o incentivo à inovação local

Os postos de trabalho gerados pelo azeite europeu continuam na Europa. O Brasil vira consumidor eficiente e produtor irrelevante. Há quem chame isso de “integração competitiva”. Eu prefiro chamar de escolha política não assumida.

O padrão estrutural

O azeite é apenas um caso didático de um movimento maior: a União Europeia exporta produtos com valor agregado; o Mercosul exporta soja, minério e carne. Quando tentamos produzir algo além disso, somos aconselhados a “nos adaptar”.

Adaptar-se a quê?
À posição subordinada?

A pergunta que importa

Não se trata de demonizar o acordo nem de sacralizar a produção nacional. Trata-se de abandonar a mistificação. Sem política industrial, sem crédito, sem proteção transitória, o acordo melhora a vida do consumidor no curto prazo e empobrece a estrutura produtiva no médio.

O azeite pode até ficar mais barato.
A economia, não.

E isso não é uma fatalidade do mercado. É uma decisão — ou a ausência dela.

Conclusão

O acordo no geral melhora as relações comerciais entre os dois continentes, porém, deve ser tratado com responsabilidade.

Usamos aqui um único exemplo: o azeite de oliva. Para outros produtos haverá ganho para o Brasil, e prejuízo a produtores europeus.

O que o Brasil precisará fazer, é se reajustar a nova realidade que se desenhará no futuro, criando políticas internas que possam dar ao produtor nacional, condições de continuar disputando mercado interno e obviamente, ampliar o mercado externo.

Por isso, não só no Mercosul, mas também no Brics, o Brasil precisa manter o protagonismo e o pragmatismo, para continuar crescendo economicamente.


domingo, 18 de janeiro de 2026

Mercosul e União Europeia assinam acordo apesar de Trump

O acordo entre Mercosul e União Europeia finalmente saiu do papel.

Sim, aquele mesmo que atravessou governos, modismos ideológicos, crises ambientais, surtos protecionistas e toneladas de ceticismo diplomático.

Convém registrar, antes que o debate seja capturado por torcidas organizadas, um fato objetivo: trata-se de uma vitória pessoal e política do presidente Lula, o governante que mais insistiu (e por mais tempo) na ideia de que esse pacto era não apenas possível, mas necessário.

Lula defendeu o acordo quando ele era tratado como inevitável, sustentou-o quando passou a ser visto como inconveniente e o recolocou no centro da agenda quando muitos já o davam como enterrado.

Política externa não é improviso; é persistência. E nisso o presidente brasileiro mostrou método, memória e leitura de mundo.

O acordo, em linhas gerais, cria uma das maiores áreas de livre comércio do planeta, conectando dois blocos que somam quase 800 milhões de pessoas.

Para o Mercosul, amplia-se o acesso a mercados europeus para produtos agrícolas e commodities. Para a União Europeia, consolida-se a entrada em mercados sul-americanos para bens industrializados, serviços e investimentos.

Não há altruísmo: há interesses bem calculados dos dois lados.

Mas é preciso dizer o óbvio — algo que anda em falta no debate público.

A assinatura não significa vigência imediata. 

Agora começa a fase menos fotogênica e mais decisiva: revisão jurídica, traduções oficiais e, sobretudo, a ratificação parlamentar.

Na Europa, o acordo enfrentará resistências protecionistas embaladas em discurso ambiental.

No Mercosul, passará por congressos que nem sempre primam pela visão estratégica de longo prazo.

Há ainda um elemento externo que ajuda a explicar a retomada do acordo: Donald Trump.

Com sua agenda declaradamente protecionista, hostil ao multilateralismo e avessa a pactos amplos, Trump tornou-se o grande antagonista involuntário desse processo.

O acordo Mercosul–União Europeia é, também, uma resposta geopolítica à lógica do “cada um por si” que ele representa. Trump terá de engolir: enquanto ele ergue muros comerciais, outros constroem pontes, ainda que imperfeitas.

Os protocolos adicionais sobre sustentabilidade seguem como o principal ponto de atrito.

Existe preocupação ambiental legítima? Sim. 

Existe também o velho protecionismo europeu com nova embalagem verde? Evidentemente.

Cabe ao Brasil e aos parceiros do Mercosul negociar com firmeza, sem submissão nem bravatas.

O acordo não é panaceia. Não industrializa o Brasil por decreto nem resolve as assimetrias históricas do bloco sul-americano.

Mas recoloca o país no tabuleiro internacional com previsibilidade, diálogo e protagonismo, algo que havia sido abandonado.

No mundo real, acordos não são perfeitos. São possíveis. E este só voltou a ser possível porque alguém decidiu insistir — mesmo quando o vento soprava contra.

sábado, 17 de janeiro de 2026

Carybé

Carybé é o nome artístico de Hector Julio Páride Bernabó, um argentino radicado em Salvador, que viveu seus primeiros anos na Itália e depois, já na adolescência, voltou a residir no Brasil.

Como jornalista, rodou o mundo até se fixar nos anos 1950 em Salvador.

Carybé foi um artista plástico de vasta produção, tendo desenvolvido sua arte em várias técnicas, como: aquarela, óleo sobre tela, escultura, gravura e serigrafia. Ele tinha uma verdadeira predileção por murais e painéis, pois, segundo o artista, era uma obra para os outros, ou seja, de visualização pública.

Foi ilustrador de alguns livros de Jorge Amado e em conjunto com o fotógrafo francês Pierre Verger, entre outros intelectuais, apresentou em suas obras a cultura baiana.

Carybé tem catalogado algo próximo de cinco mil obras, muitas delas sobre o candomblé e a umbanda. Aqui interessa-nos obras com outras temáticas do quotidiano soteropolitano.

Há também um número vasto de obras sobre os sertanejos do interior da Bahia, dos ribeirinhos do São Francisco, dos pescadores das praias baianas, entre outros modos de vida e territórios: Carnaval, bares, feiras e rodas de samba.

Em virtude de seus trabalhos voltados para a cultura afro-brasileira, enfocando seus ritos e orixás, principalmente em princípios dos anos 70, ele conquistou um importante título de honra do Candomblé, o obá de Xangô.

Parte de sua produção encontra-se hoje no Museu Afro-Brasileiro de Salvador, englobando 27 painéis simbolizando os orixás baianos, produzidos em madeira de cedro.

Por quase toda a sua vida, o pintor acreditou que o seu apelido Carybé provinha de um pássaro da fauna brasileira. Somente muitos anos depois, através do amigo Rubem Braga, descobriu que a sua alcunha significava "mingau ralo", o que lhe rendeu diversas brincadeiras.

Freqüentador do terreiro de candomblé Ilê Axé Opô Afonjá, Carybé morreu aos 86 anos, no dia 1° de outubro de 1997, em Salvador, durante uma cerimônia no próprio terreiro.

O artista deixou como legado mais de 5.000 trabalhos, entre pinturas, desenhos, esculturas e esboços.

TEXTO DE:
Thiago Muniz

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Violet Jessop, a mulher que atravessou o século flutuando entre escombros

A história costuma ser escrita pelos grandes nomes, pelos capitães, pelos engenheiros, pelos homens que posam para fotografias oficiais.

Mas, às vezes, ela insiste em se revelar por meio de uma figura quase invisível — uma mulher comum, de uniforme discreto, caminhando por corredores luxuosos enquanto o destino prepara o desastre.

Violet Jessop não era heroína de guerra, nem exploradora, nem milionária. Era comissária de bordo. Depois, enfermeira. Uma trabalhadora do mar. Ainda assim, seu nome ficou gravado na história naval como um sussurro teimoso que se recusa a afundar.

Ela esteve presente em três dos maiores desastres marítimos do século XX — e sobreviveu a todos.

Não se tratava de três navios quaisquer.

Violet serviu justamente nos três colossos da classe Olympic, os chamados “navios-irmãos” da White Star Line: Olympic, Titanic e Britannic. Projetados como o auge da engenharia moderna, esses transatlânticos eram anunciados como símbolos de um mundo que acreditava ter finalmente domado o oceano.

A ironia histórica começa aí.

Em 1911, Violet estava a bordo do RMS Olympic quando o navio colidiu violentamente com o cruzador militar britânico HMS Hawke. O Olympic não afundou — é verdade —, mas a colisão rasgou a fantasia de invencibilidade. O gigante sangrou ferro e água. Violet permaneceu.

No ano seguinte, 1912, veio o Titanic.

O nome que se tornaria sinônimo de arrogância tecnológica e tragédia humana. 

Violet embarcou como comissária, fazendo o que sempre fizera: servindo passageiros, organizando cabines, cumprindo ordens. Na noite do impacto com o iceberg, enquanto o mundo descobria que “inafundável” era apenas um slogan publicitário, ela foi conduzida a um bote salva-vidas, com um bebê nos braços, segundo seu próprio relato posterior. O mar engoliu o navio. Violet, não.

Quatro anos depois, em plena Primeira Guerra Mundial, ela retorna ao mar.

Desta vez como enfermeira no HMHS Britannic, o terceiro navio-irmão, convertido em hospital flutuante.

Em 1916, no Mar Egeu, o Britannic atinge uma mina naval. O navio afunda mais rápido que o Titanic. No caos da evacuação, um bote é sugado pelas hélices ainda girando. Violet salta na água para não ser triturada. Sofre ferimentos graves na cabeça. Sobrevive. De novo.

Três navios. Um mesmo estaleiro. Um mesmo sonho de grandeza.

Três fracassos históricos.

E, atravessando todos eles, uma mulher pequena demais para os livros de engenharia, mas grande demais para ser ignorada.

Chamaram Violet Jessop de “Miss Inafundável”.

O apelido soa quase leviano diante do que ela viveu. Não havia milagre, nem superstição — apenas resistência. Ela não desafiou o mar; ela suportou o mar.

Voltou a trabalhar, continuou navegando, viveu até os 83 anos e morreu em terra firme, longe das manchetes.

Talvez essa seja a maior lição de sua história: enquanto os navios-irmãos afundaram ou quase se perderam, Violet — sem aço reforçado, sem compartimentos estanques, sem propaganda — permaneceu.

A modernidade prometeu dominar os oceanos. Violet Jessop apenas atravessou os destroços dela.

E sobreviveu para nos lembrar que, às vezes, a verdadeira força da história não está nos gigantes que caem, mas nas pessoas comuns que seguem em pé quando tudo ao redor naufraga.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Pastor preso é um dos maiores doadores de campanha... advinha de quem?

A Polícia Federal prende.

O inquérito avança. Os fatos se acumulam. O dinheiro deixa rastros.

O personagem central é investidor, pastor, empresário e — vejam só — um dos maiores doadores das campanhas de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas.

E então surge a pergunta que realmente importa para parte da imprensa e da bolha digital: “Mas o que Alexandre de Moraes tem a ver com isso?”

Pois é. Nada. Justamente por isso, insistem.

Temos aqui um caso típico de manual: relação empresarial nebulosa, conexões familiares com banqueiro de grande porte, operações financeiras sob suspeita e, por coincidência apenas estatística, proximidade política com o bolsonarismo.

A investigação é da PF. O inquérito corre nos trilhos legais. Não há canetada solitária, não há decisões monocráticas mirabolantes, não há capa preta pairando sobre os autos como entidade metafísica.

Mas isso não impede que parte da imprensa (aquela sempre pronta a farejar “excessos” onde só há procedimento) force Alexandre de Moraes para dentro da cena, como se ele fosse uma espécie de personagem obrigatório de qualquer narrativa criminal que envolva aliados do bolsonarismo.

É quase tocante.

Quando o investigado é um “cidadão de bem”, empresário religioso, financiador de campanhas da direita, a lógica muda.

Já não se pergunta o que ele fez, mas quem ousou investigá-lo.

E aí Alexandre de Moraes deixa de ser ministro do Supremo para virar vilão de novela, onipresente, onisciente e, aparentemente, responsável até pela lei da gravidade.

Curioso: quando a PF investigava governos petistas, não havia essa súbita preocupação com o “Estado de Direito ferido”, com o “ativismo institucional”, com o “excesso de poder”.

A lei era dura, mas justa. Agora, quando os alvos orbitam o campo político oposto (aquele que se autodeclara guardião da moral, da família e de Deus) a lei vira suspeita, e o juiz, automaticamente, culpado.

O raciocínio é simples, embora intelectualmente indigente: se alguém ligado a Bolsonaro é investigado, logo Alexandre de Moraes está abusando de poder.

Se a PF age, é porque foi “mandada”. Se o Judiciário funciona, é porque conspira.

Não é jornalismo. É militância disfarçada de perplexidade.

E o mais revelador: ninguém consegue apontar qual ato ilegal de Moraes estaria em jogo.

Não há decisão específica. Não há despacho escandaloso. Não há nulidade processual.

Há apenas o incômodo profundo de ver que o sistema institucional brasileiro (com todos os seus defeitos) ainda funciona o suficiente para alcançar gente poderosa, rica, influente e politicamente alinhada ao bolsonarismo.

Isso, para alguns, é imperdoável.

No fundo, o que se quer não é justiça imparcial, mas imunidade seletiva. Quer-se um país onde investigar adversários seja virtude republicana, mas investigar aliados seja tirania togada. Onde a PF seja técnica quando convém e “instrumentalizada” quando não convém.

Alexandre de Moraes, nesse enredo, cumpre apenas o papel que lhe foi atribuído por quem não aceita perder: o de bode expiatório permanente.

É mais fácil atacar o árbitro do que admitir que o jogo foi jogado, e que alguém com boas relações políticas e religiosas pode, sim, estar do lado errado da lei.

A insistência em arrastá-lo para esse caso diz menos sobre Moraes e muito mais sobre o desespero de quem já não consegue sustentar a própria narrativa sem inventar um vilão institucional.

E isso, convenhamos, não é ironia. É só patético mesmo.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

O Agente Secreto e o Golden Globe

A arte existe porque a vida não basta” (Ferreira Gullar)

O Agente Secreto, filme de Kleber Mendonça Filho com Wagner Moura, se passa no Brasil de 1977, durante a ditadura militar, e segue Marcelo, um professor de tecnologia que foge de um passado misterioso para Recife, buscando paz, mas encontra paranoia, vigilância e uma cidade cheia de tensão, sendo espionado por vizinhos e sentindo-se parte de um grande quebra-cabeça político e de memória que o passado tenta apagar. Em resumo: É um thriller político que usa a ambientação do Brasil militar para discutir a memória coletiva e individual, com um protagonista que se torna um "agente" em sua própria história de fuga e descoberta. 

O título cria uma expectativa de um filme sobre espionagem, mantendo o espectador intrigado em boa parte do tempo, esperando revelações até que descobre que não se trata disso, que o agente secreto parece ser mais um ingrediente secreto de uma fórmula química ou receita de cozinha.

Seria esse o fio condutor, aliás, também das histórias paralelas, o elo comum que explicaria a existência da ditadura militar, da xenofobia contra nordestinos, do desaparecimento dos cinemas de rua no Recife e outros elementos dispersos pela narrativa.

O que seria esse ingrediente, esse agente, porém, não há como saber com certeza. O filme não dá respostas, nem poderia, pois se o esquecimento é o verdadeiro tema, como explicá-lo verbalmente? Como nomear o que, por definição, desaparece?

Por que torcemos para “O Agente Secreto” no Globo de Ouro?

Porque é um Filmaço! Porque somos brasileiros, viva a cultura brasileira.

Nosso audiovisual teve impacto econômico total de R$ 70,2 bilhões de PIB do Brasil em 2024. Gerou 608 mil empregos no país, sendo 121 mil empregos diretos. E R$ 9,9 bilhões em receitas tributárias (impostos).


Viva a produção audiovisual do Brasil! 🇧🇷


TEXTO DE:

Thiago Muniz

Guilherme Arantes por Guilherme Arantes

Para quem se interessar por saber um detalhe sobre a minha carreira tão peculiar, aqui vai um sucinto questionário, em forma de "charada"...

Só para distrair... só de curtição !

Muitos me perguntam uma série de porquês.

1. Por que eu fiquei de fora de todos os line-ups de festivais e assemelhados, como os históricos Hollywood Rock, Rock in Rio, etc, e posteriormente também prossegui fora dos festivais modernos...

2. Por que só eu fiquei de fora dos "Acústicos MTV", quando todos os nomes dos anos 80 e 90 participaram, alguns várias vezes seguidas, e me tornei uma espécie de "leproso do pop" brasileiro, mesmo tendo sido historicamente pedra fundamental por várias vezes, como Meu Mundo e Nada Mais inaugurando o Pop Brasil em 76, e depois com Perdidos na Selva, Deixa Chover, inaugurando os Anos 80 ? Porque ? 

3.Por que eu fui cirurgica e sistematicamente excluido, 100% cancelado das mídias escritas especializadas no Rock e no Pop brasileiro, tais como Revista Bizz e outras assemelhadas. mesmo tendo sido praticamente o pai de todo o movimento ?

4. Como é que eu sobreviví a essas exclusões vergonhosas, e hoje ainda estou aqui, de pé e vivinho da silva, prestes a lançar um álbum histórico e uma grande turnê de cinquentenário de carreira, e tenho moral absoluta para contar essa história ?

As respostas, nos próximos capítulos.

Este mundo é uma piada.

Mais engraçado ainda é poder "dar nomes aos bois" ...

Só não sei se vale a pena guardar rancores...

Penso que não...

Mas "saborear" sim . E dar muita risada, porque é um mundo caricato.

Vou começar a responder nas linhas abaixo.

O mundo da musica é feito em camadas que se sucedem .

E não são apenas as modas , em ondas...

Ondas de linguagem, de costumes e roupagens, timbres, calças e cabelos...

As vezes são também os suportes tecnológicos que se renovam, e muitos nomes vão ficando para trás.

Nesse aspecto, fui sobrevivendo quase sem traumas.

Só nos anos 90, com a chegada da replicação digital ( o desastroso CD, não pelo veículo em si, mas pelo mau uso que fizeram com o imediatismo) as gravadoras inventaram, ou aproveitaram melhor dando mais ênfase a artistas para a "escala de milhão" , e surgiram os filões adequados (Axé, Pagode, e o Neo-Sertanejo).

Os gêneros musicais são sempre válidos, vejam bem, o que criticamos aqui é o "hype" artificial . 

O fato é que a nossa geração sentiu o baque com as concorrências violentas que tivemos que nos confrontar. Uma delas é a ascensão inexorável e plenamente justificada do Agro. Com o Sertanejo ninguém pode. 

Outra foi a ascensão monumental da Bahia como polo turístico e comportamental, a explosão bela e  maravilhosa do Axé, com artistas muito mais eficientes.

Outra ainda foi a explosão espetacular de uma Jovem Guarda preta no país, tomando conta dos programas de auditório com os sucessos inequívocos do Pagode

E ainda o surgimento do Rap, tendo à frente, entre outros, os Racionais de Mano Brown, de quem me tornei fã ardoroso de primeira hora!

Núcleos de híbridos dessas tendências ainda produziram vertentes geniais de Charlie Brown Jr, o Rappa, misturando rap com reggae, punk com samba, o Planet Hemp, o Brasil ficava muito múltiplo e porque não dizer - legítimo.

Quem seria eu para criticar o "novo"?

Veio ainda a fulminante Cena Pop de BH , com bandas excelentes como o Skank, o Jota Quest, o Pato Fu, Wilson Sideral, e o rádio nos anos 90 virou uma festa de uma nova geração. 

A nossa geração 70/80 sentiu o baque.

Eu, que não era nenhum blockbuster de vendas, perdi o pé, porque não tinha uma operação de marketing que me abarcasse dentro.

Me ví avulso.

Mas existiram outros fatores muito piores, já a partir da decada de 80.

Surgiram nichos importantes de mídia, e eu estava despreparado, principalmente frente à velocidade dessa transformação.

Eu vinha da televisão, dos programas de auditório, uma espécie de pós-Jovem Guarda.

As trilhas de novelas, que haviam me projetado, iam se tornando mais e mais competitivas nas gravadoras, e a ferocidade nos bastidores ia se recrudescendo, com novos "hitmakers" entrando no páreo, cada dia mais profissionalizado e disputado.

Muitos talentosos e espertos também aprenderam as minhas velhas fórmulas das baladas de novela. virou um gênero vulgar, o que era para mim uma obra de arte. 

Não bastava eu ter uma musica "Amanhã" no Dancin' Days

Tornou-se a "Era dos HitMakers", com hits fabricados em escala industrial, e eu era muito mais do que isso. Eu não vendia disco, era um mero artesão. Simples assim. 

A chegada do Pop Rock aos auditórios, trazendo um Brasil Jovem para a popularidade nacional, acendeu o interesse das "Majors" , e um nicho jovem logo se instalou, com o Circo Voador, o Asdrubal, e o fenomeno das "danceterias", os "trends" do New Wave, New Romantic, Pós-Punk, New Bossa, Brit Pop, Grunge, etc, etc ... uma floresta de cogumelos pipocando micro-modas.

A seguir, as Editoras passaram a dedicar partes de suas redações para o publico jovem.

Eu ainda performava bem no tempo da Revista Pop do Okky de Souza, Antonio Carlos Miguel, Ana Maria Bahiana, Ezequiel, Julio Barroso, e muitos outros amigos geracionais.

Nelson Motta entre eles.

Eu estava na Warner do Midani, com bons assessores de imprensa e um foco especial no cast jovem, com Baby, Pepeu, A Cor do Som, Dafé, Oswaldo Montenegro, As Frenéticas, Gang 90, Marina, Lulu Santos, Ira.

Mais tarde chegariam os Titãs, o Ultraje, em plenas águas turbulentas dos anos 80.

No meio da década, mais precisamente no final de 84, eu iria para a CBS do Tomás Muñoz, Condé, Maynard, assinava contrato com uma espécie de Real Madrid, uma Ferrari campeã de vendas, com o RPM no auge, Djavan, Simone, Fabio Jr, Rosana, Ritchie, Radio Taxi, Metrô, Angélica, Turma do Balão Mágico, Dominó, Leo Jaime, e muitos outros frequentadores do Globo de Ouro.

Em um apogeu fonográfico internacional do We Are the World, Thriller, imaginem que onda!

A CBS tinha um marketing bem agressivo, mas não se especializou nem em MTV, nos canais e programas de clips que viraram moda.

E nem em Revista Bizz e outras publicaçoes especializadas desse periodo.

Eram novos canais preferências de um movimento geracional, ligado a outros grupos fonográficos.

Eu estava muito bem, com sucessos e boas vendas todo ano, mas nós não estávamos muito preocupados com a mutação do mercado, especialmente do Show Business, que começava uma escalada de "substituição da indústria fonográfica" por uma nova indústria, a do entretenimento do espetáculo. O disco, que era até então o foco principal, começava a virar um suporte secundário.

Após o Rock in Rio, que inaugurou uma nova escala de produção de shows no Brasil, ainda se instalou uma "indústria de imagem" como nunca havia existido antes.

O Video-Clip como produto, não mais como mero suporte de divulgação.

Uma nova linguagem, filmada em película, por cineastas, e voltada para um canal específico extremamente estratificado.

E Excludente.

Eu claramente não "era da turma", já era um dinossauro.

Eu sabia disso tudo, era informado, mas iludido,  não acreditava muito, me achando o "rei da cocada-preta", deitado nos louros de Gugú, Raul Gil, Cassino do Chacrinha, Bolinha, Globo de Ouro, Fantástico, Xou da Xuxa, com os velhos videoclips em BetaCam, brincando com "chroma-keys" primários, ballets cafonas, fumaças de gelo seco, muitos panos esvoaçantes e taças de champagne.

Vamos ser sinceros: mergulhado numa estética careta, eu estava ficando pra trás, com os meus enormes posters da Amiga e da Contigo nas paredes dos salões de beleza.

Hoje eu lembro com carinho, mas dando muita risada.

A minha música era boa, eu sabia, e sabia que iria durar, mas aquele momento de virar a mesa estéticamente, nos vídeos, nas capas, enfim, na imagem, já há muito havia passado do ponto.

Eu já era.

Em 92 eu ainda migraria para a EMI Odeon, para um cast que reunia Paralamas, Legião Urbana, Marisa Monte, Kiko Zambianchi, Marina Lima, só craques com discos e imagem impecáveis, e pude pela primeira vez me auto-produzir (assumir o comando fonográfico ).

O LP "Crescente", uma obra- prima, no Estudio Mosh, com mastering em NY, no MasterDisk do Bernie Grundman, e fiz um único clip de arte, com Flavio Colker, da musica Taça de Veneno, um clip lindissimo em linguagem de cult movie. 

Bola dentro com a equipe da EMI Odeon, que acreditou no meu taco, porém 93 seria um ano de desmanche dessa industria fonográfica "mais nobre", e um mergulho generalizado nos caminhos milionários do CD e do DVD. 

Cabeças estavam rolando nas gravadoras "majors", que faturavam como nunca com o digital, era o frenesi de um Titanic afundando.

Eu havia chegado tarde. (Ou quase)...

Mal consegui tangenciar aquela geração que consolidava prestigio com sucesso.

Dali para a frente, eu viví o meu "jubilamento" das gravadoras "majors".

Não tive conflitos, não processei ninguém, não virei persona-non-grata.

Simplesmente fui me retirando, com minhas auto-produções em Adats, e já nos anos 2000 migrei para Protools, Logic Audio, montei meu estudiozinho, meu selo independente e passei a um status de "cult".

Nanico, mas respeitado.

Penso que foi um processo normal. 

33 anos depois, a idade de Cristo, eu não vejo nada de mais no que aconteceu, ou deixou de acontecer comigo. 

Está tudo bem, tem lugar pra todo mundo, tem lugar pra todos os nossos acertos e...  para os nossos erros, um lugar ainda mais especial !

Conseguimos compreender, e aceitar, que a gente falha (muito) também nesta vida, por mais que o sucesso seja tão gratificantemente enganador.


Texto de:

Guilherme Arantes


A postagem original pode ser conferida na página de facebook do artista