sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Quando um Marajá decidiu que crianças não eram problema político

Em 1942, enquanto a Segunda Guerra transformava refugiados em estatísticas e fronteiras em muros, centenas de crianças polonesas vagavam entre decisões burocráticas e a indiferença internacional.

Eram órfãs, sobreviventes de deportações soviéticas, libertadas após anos em campos de trabalho e empurradas por uma rota improvável que passava pelo Irã até chegar à Índia Britânica.

A Índia, naquele momento, não era um país soberano, mas uma colônia.

Portos, navios e decisões passavam pelo crivo do Império Britânico, que lidava com refugiados como quem administra excesso de carga. Negociações se arrastavam. O tempo, não.

Foi então que a história saiu do eixo previsível.

No oeste da Índia, no pequeno Estado principesco de Nawanagar, o Marajá Jam Sahib Digvijaysinhji foi informado de que centenas de crianças polonesas precisavam de abrigo. Não se tratava de um gesto estratégico, nem de uma obrigação legal. Era apenas uma pergunta simples demais para a guerra: alguém iria acolhê-las?

O Marajá disse que sim.

Autorizou a entrada das crianças em seu território e destinou sua residência de verão, em Balachadi, para abrigá-las. 

Não criou um campo improvisado, mas uma comunidade. Houve escola, médicos, alimentação regular e professores poloneses. Houve também algo raro em tempos de guerra: normalidade.

As crianças aprenderam novamente a brincar, estudar e celebrar datas que pareciam perdidas. Mantiveram a língua, a cultura e a memória de um país que talvez nunca mais vissem.

O próprio marajá acompanhava o cotidiano, financiava o abrigo e fazia questão de ser lembrado não como autoridade, mas como alguém presente.

Balachadi funcionou entre 1942 e o fim da guerra. Os números variam — algo entre 600 e 800 crianças —, mas o essencial é indiscutível: elas sobreviveram porque alguém se recusou a tratá-las como um problema diplomático.

Depois da guerra, essas crianças seguiram para outros países, reconstruíram a vida e levaram a história consigo. Na Polônia, o Marajá passou a ser conhecido como o “Bom Marajá”, homenageado com praças, escolas e memória oficial.

O monumento, no entanto, não está no bronze.

Está em cada vida que atravessou o século porque, em meio à guerra, um homem decidiu que compaixão não precisava de autorização.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Esperança e resistência política em “New Year's Day” do U2

Composição: The Edge / Larry Mullen Jr. / Adam Clayton / Bono.

New Year's Day”, do U2, vai além de uma simples canção sobre renovação.

A música faz referência direta ao movimento Solidariedade na Polônia, liderado por Lech Walesa, trazendo um forte significado político.

A separação de Walesa e sua esposa Danuta, evocada por Bono, aparece nos versos “I want to be with you, be with you night and day / Nothing changes on New Year's Day” ( Quero estar com você, estar com você noite e dia / Nada muda no Dia de Ano Novo ), expressando tanto o desejo de união quanto a frustração diante da estagnação política e social.

O cenário descrito como “world in white” ( mundo em branco ) e a repetição de “All is quiet on New Year's Day” ( Tudo está quieto no Dia de Ano Novo ) sugerem um momento de pausa e reflexão, mas também de esperança silenciosa em meio à opressão, reforçada pelo inverno rigoroso mostrado no videoclipe e pelo “blood red sky” ( céu vermelho sangue ) da letra, que remete à violência e tensão política da época.

Apesar do tom de desolação, a música traz uma mensagem de esperança e resistência, especialmente nos versos “Say it's true, it's true / And we can break through / Though torn in two / We can be one” ( Diga que é verdade, é verdade / E nós podemos superar / Mesmo divididos em dois / Podemos ser um ).

Bono sugere que, apesar das divisões, é possível superar as dificuldades e buscar união, refletindo o espírito do Solidariedade.

Ao mencionar “gold is the reason for the wars we wage” ( o ouro é o motivo das guerras que travamos ), a música amplia seu alcance, conectando a luta polonesa a conflitos universais motivados por interesses materiais.

Assim, “New Year's Day” se destaca como um hino à esperança, renovação e persistência diante dos desafios, marcando a transição do U2 para temas sociais e políticos.

TEXTO DE:
Thiago Muniz

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Banco Master e o Teateo da Mídia Lavajatista

Não sei se vocês estão perdidos, mas é preciso lembrar que o escândalo do Banco Master diz respeito a bilhões de reais de dinheiro público alocados em operações financeiras temerárias, envolvendo bancos públicos, fundos de aposentadoria e governos estaduais. Isso é o essencial.

Todo o resto é distração. E distração, aqui, é estratégia preferencial das forças antidemocráticas. 

O caso é especialmente grave por envolver governadores e lideranças políticas ligadas ao bozismo institucional - entre eles, os governadores do Rio de Janeiro e de Brasília - que autorizaram investimentos massivos em títulos de alto risco, comprometendo recursos que pertencem à população - a nós, à você.

Quando o castelo começou a ruir, tentou-se socializar o prejuízo: determinado senador bolsonarista quase conseguiu emplacar a ampliação do Fundo Garantidor de Crédito para cobrir rombos privados com dinheiro coletivo. Foi quase.

Mas o debate público foi rapidamente deslocado. E muitos embarcaram na onda…

De repente, o “escândalo” deixou de ser o uso criminoso do Estado pelos bozistas e passou a ser um suposto contrato de advocacia envolvendo a esposa de um ministro do STF - aquele que foi relator do processo que condenou, justamente, o chefe da organização criminosa.

Um contrato discutível? Sim, é possível. Eticamente questionável? Pode ser. Ilegal? Até agora, não.

E, sobretudo, irrelevante diante da dimensão do dano financeiro em curso.

Essa inversão não é inocente. O escândalo, hoje, é uma arma política que as forças antidemocráticas manejam com destreza ao menos desde o lavajatismo. E o fato de o lavajatismo ter saído quase ileso dos crimes que cometeu cobra seu preço na sua repetição sempre que a situação dos canalhas de sempre aperta.

A distração na forma de escândalo de estilo lavajatista, plantada pela grande mídia, funciona como instrumento de ocultação. Em vez de revelar a verdade, fragmenta-a, moraliza-a e personaliza-a. Troca-se o crime estrutural pela indignação seletiva. Enquanto se discute o contrato e o parentesco da advogada com o juiz, os responsáveis pelo desaparecimento de bilhões do erário convenientemente desaparecem do noticiário.

A cereja do bolo desse lavajatismo redivivo é o chamado para uma CPI - proposta, não por acaso, por setores do congresso que são inimigos do povo diretamente implicados no caso - e apoiada por figuras que se dizem de esquerda, mas que fizeram parte do lavajatismo.

O mais curioso é o crime investigando a si mesmo: escolhendo o roteiro, inventando fatos e invertendo acusações - como no caso dos desvios no INSS, crime perpetrado em conluio com a mesmíssima organização criminosa do presidiário.

Essa CPI ou CPMI seguirá claramente a mesma lógica da CPMI do INSS e cumprirá, sem muita dúvida, o objetivo central da estratégia: reorganizar o espetáculo, controlar o foco da opinião pública e produzir equivalências falsas. E tudo isso em ano eleitoral.

Além disso, last but not least, figuras como o Governador de São Paulo surgem como atores indiretos no caso Master.

Ele recebeu doações de campanha de empresários ligados ao conglomerado do Banco, criando uma relação política e financeira que merece atenção. Até o momento, não há registro de investigação formal contra ele, mas o interesse da mídia antidemocrática em transformar o debate pode estar justamente em embaralhar o enredo e desfocar a verdade, desviando o foco do público das relações entre Tarcísio e o Master.

Tinha era que ter uma CPI sobre o lavajatismo da grande mídia…

Na montagem abaixo, identifiquem os personagens envolvidos… A grande imprensa não o fará por você.

TEXTO DE:
Sérgio Alarcon

Havaianas todo mundo USA, será?

Está acontecendo o falecimento da interpretação munido pelo discurso do ódio; a cada semana se prega uma nova narrativa abastecida pela semântica dos algoritmos.

É só termos um raciocínio simples; a Havaianas, amada e consumida que agrega valor no mundo todo, vai perder seu tempo com polarização?

E mesmo se alguém internamente levantasse essa hipótese alguém acha mesmo que a Itausa permitiria isso com o grande risco de diminuir o seu share?

Money, business!

A Fernanda Torres aparece dizendo que não quer começar o ano com o pé direito. Começar o ano com o pé esquerdo foi associado a ter azar, e é uma frase recorrente no fim do ano. Essa campanha se conecta a uma outra campanha clássica das Havaianas. É uma campanha de 2014 onde Romário compra Havaianas e pede para separar a esquerda e a direita em dois embrulhos, e ele manda o pé esquerdo para o Diego Maradona. Então, Fernanda Torres complementa.

Eu não quero começar o ano com o pé direito, porque você tem que começar com os dois pés. Dois pés é a união. Dois pés na porta, os dois pés na estrada, os dois pés no chão para que você tenha equilíbrio.

E Natal, normalmente, que era conhecido como uma época de harmonia, virou uma época de desarmonia.

E se vem aquele tema tabu, todo mundo começa a brigar. E é mais um ano a família sem se falar.

Exceto no lugar que a família mais se encontra, que é nos grupos de WhatsApp, essa campanha, na verdade, é um plot twist.

Ela não traz valores de esquerda ou de direita.

Ela não fala sobre liberalismo econômico, ela não fala sobre pautas morais, ela não fala sobre privatizações, ela não fala sobre justiça social, não fala sobre desigualdade, não fala sobre distribuição de renda.

Ela não fala sobre meritocracia ou não fala sobre acessibilidade.

E seria um tipo de liberdade de expressão que não tem nenhum motivo de boicote.

Aliás, se a gente fosse fazer uma análise semiótica dessa campanha, ela tem inclusive valores até mais voltados para a direita, porque ela inclusive fala que depende de você o seu ano.

E é justamente a ideia do liberalismo que vai defender essa responsabilidade única e pessoal pelo seu próprio sucesso. E aí, a paranoia generalizada em forma de vergonha alheia faz as pessoas se unirem para devolver as Havaianas que ganharam, pois dessa marca não mais consumirei.

Imagina se toda marca e pessoa começasse a fazer isso, né?

Você tá cancelando a Havaianas porque ela tocou no nome proibido?

Mas você tá cancelando todo mundo da sua família, todo mundo da sua sala de aula, todo mundo do seu círculo de trabalho?

E imagina se as marcas fazem isso de volta, colocam a estrelinha na testa de todo mundo?

Desculpa, senhor consumidor, na minha empresa você não pode entrar, porque eu identifiquei que você tem certos valores que não condizem com a minha marca. O que a gente vê são culturas do cancelamento seletivas.

A gente pode escolher as marcas que a gente consome que nos representam. Se a marca, por exemplo, tiver propagando racismo, tiver propagando homofobia, se tiver propagando ódio para qualquer um dos lados, se tiver uma intolerância religiosa, se tiver fazendo apologia ou incentivo a crimes. Mas acho que não foi o caso, né?

Uma mulher que recentemente inclusive foi símbolo de patriotismo, levando o seu nome e o nome do seu país em escala internacional.

Em vez de a gente se cancelar, a gente poderia dialogar mais, ter um pouco mais de educação. Até porque eu acredito firmemente que a maioria das pessoas não sabem a diferença entre esquerda e direita.

Elas simplesmente se dividiram em times de futebol, que gritam enlouquecidamente. Quanto mais desinformação, mais caos, mais as pessoas brigando, mais as pessoas divididas.

E aí é mais fácil de manipular e controlar.

Por exemplo, enquanto a maioria das pessoas tá brigando, o Congresso faz a festa com as emendas parlamentares. E na calada da noite votam um monte de projetos. A maioria não vai beneficiar nenhum de nós dois.

TEXTO DE:
Thiago Muniz

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Higher Ground



Higher Ground” foi escrito por Stevie Wonder sobre ter uma segunda chance e aproveitar ao máximo.

O que é mais surpreendente nessa música é que Stevie a gravou três meses antes de quase ser morto a caminho de um concerto beneficente. Stevie ficou em coma por três meses.

No verso “I'm so darn glad he let me try it again / 'Cause my last time on earth I lived a whole world of sin” ( Estou tão feliz que ele me deixou tentar de novo / Porque da última vez na Terra vivi um mundo inteiro de pecado ), Wonder expressa a crença de que a vida oferece oportunidades para aprender e evoluir espiritualmente.

Esse significado ganha ainda mais profundidade ao considerar que, pouco depois do lançamento da música, Stevie Wonder sofreu um grave acidente de carro e entrou em coma.

Durante sua recuperação, a canção foi usada como estímulo, simbolizando literalmente uma nova chance de viver e crescer.

A letra também alterna entre críticas sociais e mensagens de perseverança.

Em “Powers keep on lyin' / While your people keep on dyin'” ( Os poderosos continuam mentindo / Enquanto seu povo continua morrendo ), Wonder denuncia injustiças e a persistência de problemas sociais.

Apesar disso, ele contrapõe essas dificuldades com esperança, especialmente no refrão: “Gonna keep on tryin' / Till I reach the highest ground” ( Vou continuar tentando / Até alcançar o ponto mais alto ).

Assim, a música se transforma em um hino de superação, fé e busca constante por crescimento, tanto individual quanto coletivo, com a espiritualidade servindo como fonte de força.

#steviewonder #music #world #groove #r&b

TEXTO DE:
Thiago Muniz

De Jesus às Havaianas, só não pode matar o Mensageiro

Antes de tudo, um fato: em tempos de mimimi - y “del no me toques”, convém lembrar que meu Pai era de Direita.

Filiou-se nos anos 80 à Ação Popular (hoje Partido Popular) e foi Concejal del Servicio Público y Fomento em As Neves, cidade de Galícia, na Espanha — algo como vereador-secretário.

Divergíamos sempre. Nunca houve grito, nem cara atravessada. Hoje, treze anos após sua morte, está cada vez mais difícil engolir certas coisas — e mais difícil ainda ficar calado.

Em 1973, a Pepsi lançou um jingle nas rádios que virou polêmica: QUEM TEM AMOR PRA DAR (composição de , Rodrix & Guarabira): 

"Hoje existe tanta gente que quer nos modificar, não quer ver nosso cabelo assanhado com jeito.
Nem quer ver a nossa calça desbotada, o que é que há? Se o amigo está nessa ouça bem, não tá com nada!
Só tem amor quem tem amor pra dar, quem tudo quer do mundo sozinho acabará.
Só tem amor quem tem amor pra dar, só o sabor de Pepsi lhe mostra o que é amar"...


Houve quem enxergasse ali uma ameaça ao regime militar. Não havia. Mas a paranoia falou mais alto. Até que saiu o comercial na televisão. Não passava de uma mensagem aos jovens, na onda do movimento hippie. Os hippies pregavam o amor livre, o respeito à natureza, ao pacifismo e a uma vida mais simples – MAKE LOVE, NOT MONEY.

Pouco depois, veio o clássico da Bamerindus: “o tempo passa, o tempo voa e a poupança Bamerindus continua numa boa” — e passou mesmo. Só a ignorância cricri continua, permaneceu intacta.

Em 2025, repetimos o filme. Um surto coletivo se volta contra a campanha de fim de ano das Havaianas, estrelada pela premiadíssima Fernanda Torres. Um ataque neurótico, beirando o delírio.

A pergunta é simples: se a protagonista fosse a Regina Duarte, a Cássia Kiss, a Antônia Fontenelle ou a Luiza Tomé, com o mesmo texto, haveria a mesma gritaria? Ou o problema é o CPF de quem calça a sandália?

Outra: os mesmos que gritam contra a propaganda recusariam uma transfusão de sangue “vermelho” ou preferem uma overdose de anilina?

Cancelariam Milton Nascimento por causa de Canção da América – e o amigo guardado no lado esquerdo do peito?

Ou César Menotti & Fabiano por Do Lado Esquerdo?

No fundo, o que mudou nesses 52 anos entre a Pepsi e as Havaianas é pouco: a burrice virou hereditária.

E que me perdoem alguns amigos da esquerda: o povo tem direito de comprar o que quiser. Não dá mais para culpar o capitalismo por tudo. Ou vamos ressuscitar Georgi Dimitrov e o Congresso de 1935?

Já que falamos de extremismo, é urgente dar um basta ao deputado Paulo Bilynskyj — um misógino que agora resolveu posar de teórico separatista. Ao chamar o Maranhão de “bosta”, revela ignorância crassa sobre a cultura e o potencial econômico do estado. E, ao atacar a Bahia, transforma ACM em Fidel Castro, a velha ARENA em Sierra Maestra e a UDN em guerrilha revolucionária. Patético.

E não esqueçamos do nebuloso caso do Banco Master, que traz consigo a verborragia contaminada da Malu Gaspar. Como cidadão brasileiro desejo que se apure até o último centavo. Como torcedor do Fluminense me preocupa. Há boatos, supostamente com o BTG no meio, e silêncio demais.

Por fim, o Natal.

O Papa Leão XIV disse algo óbvio: negar ajuda aos pobres é negar Deus.

Já o Cardeal Dom Odilo mandou suspender as transmissões do Padre Júlio Lancellotti. Enquanto isso, quem aparece na TV são  os Padres das fanfarras, Marcelo Rossi e Fábio Melo — cujas práticas cristãs não chegam a 5% da obra social de Júlio.

Que igreja é essa? Dois pesos, duas medidas.

Um mês sem Paulo Andel me deixou mais ácido, mais atento. Especialmente em dezembro, mês do nascimento de Jesus — que, convenhamos, usava sandálias, as Havaianas da época. 

Não esqueçam:

Jesus se escreve com J.

J de Padre Júlio Lancellotti.

FELIZ 2026!!!


TEXTO DE:
Antonio Gonzalez

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

2025: quando o bolsonarismo encontrou o Código Penal

Não foi um ano qualquer. 2025 foi o ano em que a política brasileira resolveu sair do teatro de absurdos e encarar a realidade — aquela que vem com lei, consequência e despacho judicial.

A prisão de Jair Bolsonaro e de parte relevante de seus asseclas não caiu do céu nem foi “vingança do sistema”, como repetem seus fiéis órfãos políticos.

Foi o resultado previsível de uma trajetória construída sobre ataques às instituições, flertes explícitos com o golpe e a ideia delirante de que vontade pessoal se sobrepõe à Constituição

Descobriu-se, tardiamente, que democracia não é playground ideológico.

Enquanto o bolsonarismo se especializava em vitimização, o governo Lula fez o que governos são eleitos para fazer: governar.

A isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil não é revolução socialista, como bradam os apocalípticos de sempre. É apenas uma correção mínima num país que tributa demais o salário e de menos o patrimônio. O Brasil, por um instante raro, decidiu aliviar quem trabalha.

O Congresso, contudo, preferiu manter sua imagem pública em baixa. Ganhou — e fez por merecer — o rótulo de “inimigo do povo”.

Não por radicalismo retórico, mas por prática cotidiana: chantagem orçamentária, sabotagem de políticas públicas e um apetite insaciável por emendas como se o Estado fosse um caixa eletrônico particular. Representatividade virou detalhe.

Nesse ambiente, o comportamento de Hugo Motta ajudou pouco e atrapalhou muito. Imaturo, errático e frequentemente mais preocupado com disputa de poder do que com responsabilidade institucional, confundiu liderança política com birra. O resultado foi um Congresso mais ruidoso do que produtivo e crises fabricadas para consumo interno.

No plano internacional, o Brasil deu um recado claro ao derrotar a tentativa de aplicação da Lei Magnitsky contra ministros do STF.

A ofensiva, patrocinada por setores da extrema direita global, era menos sobre direitos humanos e mais sobre vingança política. Ao resistir, o país afirmou algo básico: divergência judicial não autoriza intervenção estrangeira nem sanção sob encomenda ideológica.

As cassações de mandatos de deputados bolsonaristas completaram o cenário. Não houve perseguição. Houve consequência. Mandato não é salvo-conduto para atacar a democracia por dentro, nem licença para conspirar contra o próprio regime que garante o cargo.

No fim das contas, 2025 não foi um ano de harmonia — foi um ano de ajuste. 

Doloroso para quem apostou no caos como projeto político. Pedagógico para quem ainda duvidava que instituições, apesar de lentas, funcionam.

A realidade venceu. E, ao contrário das fake news, ela não precisa gritar para se impor.

Mas convém não se iludir: a luta está longe de acabar.

Nos últimos meses, parte da imprensa passou a mirar o ministro Alexandre de Moraes não por súbito zelo garantista, mas como peça de uma barganha política mal disfarçada.

O ataque seletivo ao STF aparece como moeda de troca num acordo tácito com a família Bolsonaro: reduzir a pressão judicial em troca da retirada de Flávio Bolsonaro da disputa, abrindo caminho para um projeto mais “palatável” do bolsonarizmo,encarnado por Tarcísio de Freitas.

É a velha política travestida de pragmatismo editorial. O enredo muda, os personagens também, mas a tentativa de acomodar o golpismo dentro do sistema persiste.

A democracia venceu batalhas importantes em 2025 — mas a guerra contra o oportunismo, o cinismo e a chantagem institucional segue em curso.

Que venha 2026...