segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Transmissão do Carnaval na Rede Globo: uma merda!

Está mais do que na hora da LIESA começar a pensar com mais carinho na transmissão do Carnaval.

A Rede Globo em favor de seus próprios interesses mercadológicos e editoriais não olha para o produto Carnaval com o devido respeito.

Assim como um jogo de tênis em que usa-se o bom senso de não narrar e/ou comentar nada enquanto o jogo se enrola para não atrapalhar a dinâmica do jogo perante ao público; deve-se usar o bom senso na transmissão do Carnaval.

A emissora não pode ser maior que o evento.

Ela deve ser o complemento para agregar, e não para irritar quem assiste. Sabemos que uma boa parcela que assiste não possui esse senso crítico e pode pensar que seja só uma perseguição ideológica contra a Globo, mas não é.

Quando você tem um dos apresentadores mais carismáticos como o Alex Escobar mais perdido do que cego em tiroteio, um dos comentaristas mais carismáticos como o Milton Cunha com um repertório cultural riquíssimo (mas a emissora não lhe dá o devido espaço), um dos comentaristas musicais mais gabaritados como o Pretinho da Serrinha que só acerta naquilo que fala mas conseguiram errar ao lhe dar a missão de mostrar a bateria ao vivo com uma câmera in loco com sinal fraquíssimo; não podem se dar ao luxo de detonar um produto genuinamente brasileiro.

Quando o áudio da transmissão se sobrepõe o tempo todo com o evento já começa errado.

Não se faz uma cobertura tão necessária na concentração, onde há uma tensão nos bastidores, não mostra mais o aquecimento, para quem não sabe cada agremiação tem o direito de cinco minutos para acalorar os seus componentes diante ao público presente.

Não faz mais a cobertura da dispersão, onde sempre tem também uma tensão final para não se perder pontos por exceder o tempo.

E importaram da Fórmula 1 a questão de mostrar o rádio, o que uma escola de samba se comunica durante o desfile, isso é constrangedor.

Para quem continuar achando que é somente uma implicância, o convido a assistir a transmissão do Rio Carnaval, os vídeos estão todos lá no youtube. Se prioriza a plástica do evento, só há comentários durante os intervalos.

O Carnaval do Rio de Janeiro precisa voltar a ser o protagonista, e não o complemento de uma engrenagem.

Pronto falei!

TEXTO DE:
Thiago Muniz

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

2026: A Era do Delist menos Sku, mais venda

Alguém precisa dizer isso.

Às vezes, a melhor forma de vender mais é tirar produto da prateleira. Não é erro. Não é fraqueza. É estratégia.

Durante anos, vendemos a ideia de que mais opções significam mais vendas.

Mais sabores, fragrâncias.

Mais variações do mesmo produto.

O cérebro humano discorda. A neurociência é clara. O cérebro gosta de limited choice (poucas escolhas) para se sentir seguro. O número mágico? 3 ou 4 opções.

O estudo clássico de Iyengar e Lepper mostrou isso sem piedade: com poucas opções, a conversão dispara, com muitas opções, o consumidor trava.

Isso tem nome: Paradox of Choice (Paradoxo da Escolha).

Mais escolha gera ansiedade.
Ansiedade não fecha compra.

Agora coloca isso no contexto atual. Hoje, 47% dos consumidores são price-driven shoppers (orientados a preço). Eles não estão comparando narrativa de marca. Estão comparando preço.

E aí acontece o que todo mundo já viu no ponto de venda. O cliente para. Olha. Se confunde. E escolhe o mais barato. Ou vai embora.

O problema não é falta de inovação. É excesso de portfólio.

2022–2024: As indústrias tinham o poder. Crise logística. Falta de produto. Tudo vendia. Até SKU confuso. Volume mascarava ineficiência.

2026: O jogo virou. O varejo retomou o controle da prateleira. O sortimento ficou mais racional. O consumidor ficou mais racional ainda.

Quem decide hoje não é a marca mais criativa. É quem entrega clareza, giro e margem.

E isso não é teoria. Já está acontecendo. Indústrias globais de bens de consumo vêm passando por ciclos profundos de racionalização de portfólio, cortando dezenas ou centenas de SKUs para recuperar giro, margem e execução.

Menos itens. Mais foco. Mais resultado.

No varejo alimentar europeu, redes como Lidl e Mercadona cresceram justamente reduzindo escolha, não ampliando. Menos marcas e variações. Mais marca própria forte e confiança do shopper. Na prática, o consumidor não sentiu perda. Sentiu alívio.

No Brasil, o movimento é ainda mais claro. 2026 é o ano da marca própria.

Grandes redes farmacêuticas como Raia e DPSP estão ampliando linhas próprias com sortimento enxuto, preço claro e promessa simples.

No atacarejo, redes como Assaí avançam com marca própria ocupando o espaço que antes era de SKUs redundantes da indústria.

Quando a prateleira aperta, sobra pouco espaço para excesso. E muito espaço para quem resolve rápido a decisão do consumidor. É por isso que grandes indústrias estão fazendo algo que parece radical, mas não é: enxugar para crescer.

Menos itens, menos canibalização.

Mais giro por SKU, mais eficiência logística, mais margem no final do mês.

Delistar não é perder espaço. É recuperar relevância. O varejo já entendeu. O consumidor também. Muitas marcas ainda não.

A pergunta é simples: você quer ocupar mais espaço ou vender mais rápido?

Porque em 2026, cada vez mais, menos SKU é mais venda.

TEXTO DE:
Thiago Muniz

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Adolf Trump ou Donald Hitler?

Donald Trump publicou em uma rede social, uma imagem do Barack Obama, ex-presidente dos Estados Unidos, e a sua esposa, Michelle Obama, em corpos de macacos.

Sim! A Klu Klux Klan está dentro da Casa Branca e com o aval de boa parte da população dos EUA.

Isso não é só uma provocação política, isso é uma ofensa racial explícita.

Olhe o peso histórico que isso carrega.

Comparar pessoas negras a macacos não é uma metáfora infeliz, é um dos símbolos mais antigos, mais violentos, mais cruéis da desumanização racial no mundo. Foi esse imaginário que sustentou a escravidão, o colonialismo, a segregação, a ideia de que certos corpos seriam menos humanos do que outros.

Nos Estados Unidos, essa imagem tem um significado ainda mais cruel. Ela foi usada durante séculos para justificar a escravidão de milhões de africanos, a sistemática perseguição a mulheres negras, a separação das famílias, os linchamentos, as leis de segregação e exclusão social, que foram institucionalizadas nos Estados Unidos até a década de 1960.

Isso é história. Isso é reativar conscientemente um código de violência simbólica que atravessa gerações. Tem uma coisa muito grave aqui, que é o colapso do decoro institucional. Um chefe de estado não pode falar isso, nunca pode falar isso.

Ninguém pode falar isso, ainda mais um chefe de estado. Ele está carregando com ele o peso do cargo que ele está ocupando, da democracia que representa (mas não respeita!) e que ele representa as instituições que ele deveria proteger.

Quando alguém nessa posição normaliza um ataque como esse, a gente está desumanizando pessoas e estamos dizendo que é aceitável.

A política democrática pressupõe discordância, até debate, dureza. Ela não comporta a destruição do outro como ser humano. Quando esse limite é ultrapassado, a gente não está falando mais de direita, de esquerda, de conservador, de progressista. A gente está falando de civilização.

Normalizar um gesto como esse não fortalece ninguém, empobrece o debate público. Esse episódio não pode ser tratado como uma polêmica, ele tem que ser nomeado pelo que ele é, racismo explícito, desprezo institucional e falência ética.

A política imigratória de Trump, uma política xenófoba, racista e que tem atacado os direitos humanos e que tem sido muito prejudicial nos Estados Unidos.

A democracia é isso, uma experiência na qual a ideia de justiça é permanentemente em aberto para que quem vem depois pense se aquilo é justo para ele. O que foi justo para os nossos bisavós não é justo para nós. É preciso que a gente repense tudo isso, e é pela educação que se faz.

Então, é preciso um chamamento aos homens, é preciso, tem que ser constrangedor.

Fazer piada racista, machista, misógena, banalizar corpo, atitude, emancipação feminina, autonomia, é preciso ser constrangedor.

Essas pessoas têm que voltar para o armário dos traumas que eles têm, dos distúrbios que eles venham a ter, do ódio que eles carregam, vão se tratar, vão se tratar.

Não é mais aceitável esse ambiente de violência extrema, o silêncio dos bons. Se temos bons homens, bons pastores, bons líderes religiosos, bons líderes políticos, vambora trabalhar para acabar com esse cenário.

TEXTO DE:
Thiago Muniz



sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Inflacionamento do futebol brasileiro

Há um movimento acontecendo no futebol brasileiro extremamente nocivo: inflação desacerbada de algumas contratações.

E vou exemplificar bem. Primeiro a de Gerson pelo Cruzeiro, depois a do Lucas Paquetá via Flamengo e agora estará sendo concretizada a de John Árias pelo Palmeiras.

Valores estratosféricos e nenhum deles faz jus aos valores empregados. É muito mais uma demonstração de poder perante aos demais clubes do que inteligência, uma aposta em médio e longo prazo.

O debate não é sobre méritos, e sim sobre ganância e poder de compra. E isso sempre existiu e não vai morrer dentro do universo do futebol.

O grande problema é esses clubes forçarem os demais a também tentarem cifras altas por contratações e mais para frente não honrarem com seus compromissos e na cara de pau ocasionarem calotes homéricos.

Valores e salários altos exigem expectativas e cobranças altas.

O Cruzeiro hoje possui o seu “Midas”, o Flamengo com essa atual diretoria ao que parece possui uma ideologia diferente do modelo de gestão anterior mas que mantém uma certa sustentabilidade financeira, e o Palmeiras onde tem uma presidente que acha que possui dinheiro infinito só porque o seu marido é banqueiro e já foram patrocinadores master com poderes.

Isso leva a contratações bem duvidosas, ainda mais pelas cifras inflacionadas. Num médio a longo prazo será extremamente nocivo pois vai mexer com o sentimento passional do torcedor.

Em ano de Copa do Mundo há alguns clubes com poder financeiro abastados, com modelos de gestão diferentes uns dos outros e que literalmente deram “All-in” em seus cofres.

Gerson saiu do Flamengo se sentindo desvalorizado, partiu para o futebol (sancionado) russo onde viu que a realidade era outra e vendo a possibilidade de mais uma Copa do Mundo escapar, seu pai e empresário achou a “galinha dos ovos de ouro” no Cruzeiro

Lucas Paquetá é um caso atípico de inflação. Sem espaço  na Premier League e nas demais ligas da Europa; acha uma espécie de portal da redenção voltando para o futebol brasileiro, no mesmo clube que o revelou, com uma realidade financeira megalomaníaca; bate na mesa e quebra o recorde do futebol brasileiro.

Detalhe: ele não tem repertório técnico para justificar esse valor de contratação. E seleção brasileira no currículo já não é mais parâmetro há décadas. Veremos cenas dos próximos capítulos e se por acaso o PIB de uma ilha homônima ao nome do jogador aumentar consideravelmente depois de algum jogo, desconfie.

O caso do Árias é atípico de como não se planejar e seguir somente um sonho. Tenhas muito cuidado com aquilo que desejas; um jogador com contrato vigente no Fluminense, com um acordo verbal do presidente anterior de que o liberaria após a Copa do Mundo de Clubes, na qual estava bem valorizado; fez valer ao máximo esse acordo verbal e saiu do clube na condição de ídolo máximo para um clube de zero expressão na Premier League na qual ficou meses no ostracismo.

Com a Copa do Mundo batendo na porta e o clube de zero expressão já deixando bem claro que não vai contar com ele na próxima temporada, se vê numa “faca de dois legumes”; a promessa pública de que só voltaria ao futebol brasileiro para o Fluminense e pela proposta altíssima do Palmeiras.

Onde estava o assessor ou empresário do Árias lá no ano passado que não orientou ele a não falar isso publicamente?

Veremos cenas dos próximos capítulos.

TEXTO DE:
Thiago Muniz


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

A matemática da indecência

O Congresso Nacional voltou a provar que não sofre de ignorância econômica, mas de algo bem mais grave: falta de vergonha na cara.

Na tarde de terça-feira (3), Câmara e Senado aprovaram um reajuste salarial para seus servidores cujo impacto chega a R$ 790 milhões. Um valor que supera a arrecadação anual de 95% dos municípios brasileiros. Sim, quase todo o Brasil real cabe dentro do aumento concedido ao Brasil oficial.

Agora, respire fundo e faça o exercício de memória que certos parlamentares preferem evitar.

São os mesmos políticos que, não faz muito tempo, torceram o nariz, fizeram discursos sobre “responsabilidade fiscal” e votaram contra — ou sabotaram — o vale-gás, um benefício modesto destinado a famílias que precisam escolher entre cozinhar ou comer. Para o pobre, o cofre está sempre vazio; para o próprio umbigo, o Tesouro é elástico.

A lógica é cristalina:
– R$ 100 para o gás? “Populismo”, “assistencialismo”, “rombo nas contas públicas”.
– R$ 790 milhões para a elite administrativa do Parlamento? “Valorização do servidor”, “justiça salarial”, “necessidade institucional”.

É uma contabilidade moralmente fraudulenta.

O problema não é a existência de servidores públicos — eles são essenciais.

O problema é o timing, o contexto e, sobretudo, a hipocrisia.

Num país em que municípios fecham postos de saúde por falta de verba, em que prefeitos mal conseguem pagar professores, o Congresso decide que a urgência nacional é reajustar salários no coração do poder.

E note-se: não se trata de ignorância sobre a realidade social. Trata-se de consciência plena. Eles sabem. Sabem que o valor do reajuste pagaria o gás de milhões de famílias por meses. Sabem que o discurso da austeridade só aparece quando o destinatário é pobre. Sabem — e fazem mesmo assim.

Isso não é erro de cálculo. É escolha política.

Quando um Parlamento vota com rapidez para garantir conforto aos seus e demora, trava ou rejeita políticas mínimas de proteção social, ele envia uma mensagem clara: o Estado existe, antes de tudo, para quem manda.

Depois, claro, virão os discursos inflamados sobre “desigualdade”, “sensibilidade social” e “compromisso com o povo”.

Palavras são baratas.

O que custa caro — R$ 790 milhões, por exemplo — é sempre reservado a quem já está sentado à mesa do poder.

O resto que se vire com o botijão vazio.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Beto Simonetti: quando defender a Constituição vira ato de coragem

A obrigação moral de aplaudir quem faz o básico, em 2026, é profundamente reveladora.

Beto Simonetti, presidente da OAB, no primeiro dia da retomada dos trabalhos do Legislativo, limitou-se a dizer o que está escrito — pasmem — na Constituição.

E fez disso um pronunciamento.

Corajoso? Não.

Necessário.

O que diz muito mais sobre o ambiente do que sobre o orador.

Simonetti defendeu o STF e o devido processo legal. Não pediu revolução, não clamou por “ativismo judicial”, não invocou teorias criativas sobre “vontade popular acima da lei”.

Apenas lembrou que democracia não é um reality show institucional em que se elimina o Supremo por voto emocional.

É chato, eu sei. Funciona com regras. E regras, por definição, frustram os ansiosos por atalhos.

O presidente da OAB fez algo que hoje soa quase insolente: reafirmou que o Supremo Tribunal Federal não é um capricho de toga, mas um pilar do arranjo constitucional.

Que decisões judiciais não se combatem com linchamento retórico, mas com recursos — dentro da lei, esse palavrão. E que devido processo legal não é um detalhe burocrático inventado para proteger “os de cima”, mas a última trincheira de qualquer cidadão quando a turba resolve achar culpados antes de provas.

Sim, houve quem torcesse o nariz. Sempre há. Afinal, vivemos tempos em que parte do debate público acredita que garantias constitucionais são privilégios e que juízes devem decidir conforme o humor das redes sociais.

Simonetti foi lá e estragou a festa: lembrou que não há democracia sem instituições, nem instituições sem limites, nem limites sem STF.

A ironia maior é esta: defender o Supremo hoje virou, para alguns, sinônimo de autoritarismo.

Uma ginástica mental admirável.

Segundo essa lógica, autoritário é quem aplica a Constituição; democrático é quem quer rasgá-la em nome de uma abstração chamada “povo”, geralmente definida por quem grita mais alto.

Ao se posicionar, a OAB — por meio de seu presidente — fez aquilo que dela se espera desde 1930: não defender governos, partidos ou humores, mas o Estado de Direito.

Num país em que o óbvio anda desaparecido, isso soa quase como um manifesto.

Convém registrar: não se trata de idolatrar o STF, instituição humana e falível, como qualquer outra. Trata-se de entender que a crítica legítima não prescinde de legalidade, e que o ataque sistemático às Cortes não é “liberdade de expressão”, mas método conhecido de erosão democrática.

Beto Simonetti não salvou a República. Não era esse o ponto. Apenas lembrou onde ela está escrita.

E, convenhamos, num tempo de analfabetismo constitucional militante, isso já é um serviço público dos bons.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Eulogy, o episódio perfeito de Black Mirror

O episódio Eulogy, da sétima temporada de Black Mirror, é menos sobre tecnologia e mais sobre memória — não como registro fiel do passado, mas como construção emocional. A inovação tecnológica apresentada não cria o conflito; ela apenas força o protagonista a encarar aquilo que ele passou anos evitando: a sua própria história.

Desde o início, somos apresentados a um homem que vive cercado de lacunas. As fotos da antiga namorada estão danificadas, o rosto dela nunca aparece por inteiro, e suas lembranças surgem fragmentadas, desfocadas, sempre interrompidas antes de chegar ao essencial. Nada disso é acidental. Eulogy constrói uma metáfora poderosa: quando escolhemos uma narrativa defensiva, a memória também se defende.

QUANDO NÓS SOMOS OS VILÕES DAS OUTRAS PESSOAS

O protagonista acredita, durante boa parte de sua vida, que foi o lado ferido da relação. A história que ele conta a si mesmo é simples, confortável e incompleta: ela falhou, ela foi injusta, ela destruiu algo que ele tentou preservar. Mas Eulogy desmonta essa lógica com cuidado e crueldade.

À medida que as lembranças avançam, fica claro que a relação não terminou por um único ato, mas por uma sucessão de pequenas violências emocionais, silêncios, orgulhos e incapacidades mútuas de escuta. O episódio aponta para uma verdade incômoda: é perfeitamente possível ser o vilão da história de alguém enquanto se enxerga como protagonista injustiçado da própria narrativa.

Aqui, Black Mirror toca em algo profundamente humano — a facilidade com que editamos o passado para preservar nossa autoimagem.

MAIS DIFÍCIL DO QUE PERDOAR O OUTRO É PERDOAR ISSO MESMO

O coração emocional de Eulogy não está no perdão direcionado à mulher que morreu, mas no perdão que o protagonista precisa conceder a si mesmo. Ele não sofre apenas pela perda do amor; sofre porque percebe, tarde demais, que também foi responsável pelo fracasso da relação.

O episódio sugere que o autoengano cobra juros altos. Enquanto ele sustenta a versão em que é apenas vítima, suas memórias permanecem quebradas — literalmente. As fotos seguem danificadas, o rosto dela inacessível. Só quando ele aceita sua parcela de culpa, reconhece suas falhas e abandona a necessidade de se inocentar, algo muda.

O perdão, aqui, não é absolvição. É reconhecimento. É a capacidade de dizer: eu amei, mas também feri.

O ROSTO POR TRÁS DAS FOTOS

Um dos símbolos mais delicados de Eulogy é o fato de que o protagonista só consegue ver nitidamente o rosto da namorada quando aceita a história inteira — não apenas a parte que o favorece. Enquanto ele insiste em uma narrativa mutilada, as imagens permanecem mutiladas.

A memória visual funciona como espelho da memória moral. Não é a tecnologia que falha; é a consciência que resiste. Quando ele finalmente se permite perdoar — a ela, por suas falhas, e a si mesmo, por suas omissões e durezas — o rosto surge. Inteiro. Humano. Real.

Nesse gesto silencioso, o episódio afirma algo profundo: só conseguimos lembrar plenamente de alguém quando deixamos de usar a memória como escudo.

O VELÓRIO DE MEMÓRIAS FALSAS

A cena final do velório condensa toda a crítica do episódio. Todos os presentes compartilham lembranças da falecida mediadas por um dispositivo tecnológico na têmpora. São memórias editadas, organizadas, emocionalmente seguras. A dor foi suavizada. O passado, padronizado.

O protagonista é o único ali que carrega uma memória real — contraditória, dolorosa, imperfeita. Ele lembra do amor, mas também das falhas, das brigas, dos silêncios. E isso o isola. Eulogy sugere que lembrar de verdade é solitário, porque a memória autêntica não serve ao conforto social; ela exige maturidade emocional. Ele está na porta, enquanto os outros estão dentro da igreja. O único amor real que ela teve estava fora de sua vida, mas ainda permanecia nas memórias.

Enquanto os outros consomem versões fabricadas da pessoa que morreu, ele é o único que conheceu alguém de fato.

O AMOR NÃO MORRE, MESMO SOTERRADO

Talvez o aspecto mais devastador de Eulogy seja sua recusa em tratar o amor como algo que desaparece com o tempo. O episódio afirma o contrário: o amor verdadeiro pode permanecer intacto mesmo soterrado sob mágoa, orgulho e anos de silêncio.

Não há reconciliação possível, não há redenção tardia. O que existe é uma elegia — no sentido mais honesto da palavra. Não uma celebração idealizada, mas o lamento consciente por um amor que existiu e que poderia ter sido diferente se ambos tivessem sido capazes de se enxergar com mais clareza.

A FILHA RECEBE O PASSADO QUE LHE FOI NEGADO

Entre tantas memórias fabricadas, higienizadas e compartilháveis, Eulogy reserva seu gesto mais silenciosamente esperançoso à filha da falecida. Enquanto os demais personagens acessam lembranças mediadas por dispositivos — versões seguras, editadas e emocionalmente neutras — é justamente ela quem consegue algo raro: uma memória verdadeira, não programada, não consensual, vinda diretamente do protagonista.

Esse encontro é decisivo porque rompe o circuito fechado da memória artificial. A filha não conhece a mãe apenas pela imagem socialmente aceitável construída no velório, mas por uma lembrança atravessada por contradição, dor e amor. Ao ouvir o protagonista, ela entra em contato com um lado da mãe que nunca lhe foi apresentado: imperfeito, apaixonado, falho, profundamente humano.

Aqui, Black Mirror sugere algo poderoso: a memória verdadeira não é necessariamente a mais confortável, mas é a única capaz de ampliar o outro. A filha não recebe uma versão idealizada da mãe — recebe uma mulher que amou, errou, foi amada e também feriu. E isso não diminui a mãe; ao contrário, a torna mais real.

Há algo quase pedagógico nesse gesto. Enquanto a tecnologia promete preservar o passado, é a transmissão humana — frágil, subjetiva, emocional — que de fato cria vínculo e compreensão. A filha passa a conhecer a mãe não como mito ou arquivo, mas como alguém que existiu em relação a outro ser humano.

Nesse sentido, Eulogy aponta para uma inversão sutil: o protagonista, que parecia condenado a carregar sozinho o peso da memória real, torna-se o único capaz de oferecer à filha algo que nenhuma tecnologia poderia fornecer — uma lembrança que não fecha a história, mas a abre. Não uma resposta definitiva, mas uma complexidade nova.

Ao permitir que a filha conheça esse lado oculto da mãe, o episódio afirma que a memória autêntica não serve apenas para o luto; ela serve para o encontro. Mesmo depois da morte, mesmo depois do tempo, mesmo depois do erro.

E talvez essa seja a nota mais delicada da elegia que Black Mirror compõe aqui:
a verdade não consola como a mentira, mas conecta como nada mais é capaz de fazer.

CONCLUSÃO

Eulogy é um dos episódios mais humanos de Black Mirror porque desloca o horror da tecnologia para dentro de nós. Ele nos confronta com uma pergunta incômoda: quantas memórias mantemos danificadas apenas para não encarar quem fomos?

Ao final, quando o protagonista finalmente vê o rosto da mulher que amou, entendemos que a verdadeira falha nunca foi técnica. Foi moral. E que, às vezes, só conseguimos lembrar plenamente de alguém quando aceitamos que amar também implica falhar — e assumir isso.

Por fim, o encontro com a filha, que não é dele, mas é o resultado da relação imperfeita que  teve com o grade amor de sua vida, nos dá uma resposta bem clara: ele teria perdoado, teria sido um pai para ela.

E além do fim do episódio, nosso protagonista aceita a filha que não teve, da mesma maneira que ela ganha o pai que lhe foi negado pelo destino.

Um final perfeito.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Alô, Rede Globo! Já passaram do ponto

Você pagou com traição a quem sempre lhe deu a mão.

A primeira rodada do Brasileiro 2026 encerrou e já veio com polêmica: o inconformismo do locutor Luis Roberto com um  “pênalti” não marcado em favor do Clube de Regatas do Flamengo.

Um adendo: Regatas é a origem do Flamengo, e não futebol.

E mesmo assim a atual diretoria extinguiu o investimento nesse esporte alegando não dar retorno financeiro.

Ok! Se pensa e age como uma empresa deveria ser tratada e cobrada fiscalmente como uma empresa, e não uma instituição sem fins lucrativos.

E o Flamengo deixou de ser “sem fins lucrativos” há décadas.

Digo “há décadas” pois desde o final da década de 70 e início de 80, a Rede Globo com o aval de seu torcedor fanático Roberto Marinho e uma trupe de jornalistas extremamente parciais e passionais criaram a FlaPress, onde até hoje atuam em prol de criar, sustentar e manipular narrativas infames em prol de sempre manter o clube Flamengo nos holofotes da mídia.

E mantendo o holofote se cria uma redoma terraplanista de que esse clube é o mais importante do mundo. E não é!

Cria-se um cenário perigoso para manipular a realidade e distorcer os fatos para que o público compre essa narrativa e cobre a responsabilidade de pessoas que nada tem a ver com os fatos. 

Essa engrenagem comportamental se sustentou por algumas décadas; até chegar a pandemia, com uma diretoria abraçada ideologicamente com o governo federal da época: negacionista, fascista é misógino.

E que por ingratidão passou a dispensar os serviços de blindagem midiática e criou a sua própria mídia, em alguns episódios passou a assediar e ignorar quem lhe deu a mão há décadas atrás. 

Isso é só para provar o quanto a Rede Globo faz papel de ridícula criando narrativas não-verdadeiras para alcançar um público que não lhe quer mais e isso só mancha a própria imagem da emissora.

Como é só a primeira rodada espero que seja uma bela lição ter tomado.

Que não faça lobby a jogadores que não estão à altura da seleção brasileira, que não mude a sua visão de campo no meio de uma partida e que seja mais parcial em suas análises. Já está chato isso, não cola mais, o VAR não é um puxadinho da Gávea, como muitos pensam. 

TEXTO DE:
Thiago Muniz

sábado, 31 de janeiro de 2026

Pra Tudo começar na quinta-feira

Pra tudo começar na quinta-feira” é um livro necessário não só para o universo do Carnaval quanto para a cultura popular brasileira num todo.

Mostra em caráter histórico, plural e literal uma forma distinta de contar uma história, que são os desfiles de escolas de samba.

O mais engraçado é que a primeira edição foi lançada no ano de 2016 e se passaram 10 anos para uma segunda edição, mas com uma explosão de informações pois exatamente depois da publicação houve uma injeção e revolução de novos carnavalescos e com uma fome inimaginável de enredos necessários para aquele período, principalmente no triênio 2019-2022 (2021 não houve carnaval devido a pandemia).

De 2016 para cá houve que uma certa passagem de bastão do “Old School” para a galera atual de maneira natural, sem alarde.

E as demandas do cotidiano permitiram o aceleramento deste processo em virtude de suas malhas criativas. De Fernando Pamplona / Rosa Magalhães / Joãozinho Trinta até Bora-Haddad / Leandro Vieira / Tarcísio Zanon.

Se passaram 10 anos onde os autores Luiz Antonio Simas e Fábio Fabato: Simas com aquela dose de malícia acadêmica e malandragem das encruzilhadas e dos botequins; e Fabato com o carisma vocábulo em suas crônicas, com mais robustez e paixão em sua análise, fruto do amadurecimento que a própria vida o trouxe.

Um livro que pode muito bem ter uma terceira edição daqui a 10 anos, pois ele já nasceu atemporal. E as circunstâncias que o Carnaval sofreu permitiram acontecer, entre retaliações e racismo, ela continua em pé e para quem é amante do Carnaval como eu não podemos deixar morrer essa forma única de se contar uma história.

TEXTO DE:
Thiago Muniz



quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Ideologia elástica: o anti-sistema

Poucas expressões circulam com tanta desenvoltura — e com tão pouca precisão — no debate público atual quanto “anti-sistema”.

Ela aparece em discursos eleitorais, em threads indignadas, em manifestos improvisados e em mesas de bar.

É uma palavra de ordem que une sujeitos muito diferentes, frequentemente inimigos entre si, mas que compartilham uma mesma certeza: o problema está no sistema.

O detalhe incômodo é que quase ninguém concorda sobre o que exatamente ele seja.

Do ponto de vista da teoria política, o “anti-sistema” funciona como aquilo que Ernesto Laclau chamou de significante vazio: um termo que não possui um conteúdo fixo, mas que se torna um ponto de convergência de demandas, frustrações e ressentimentos heterogêneos.

Ele não explica a realidade; antes, organiza afetos. É menos um conceito e mais um recipiente.

Na Esquerda mais radical, o sistema costuma receber um nome clássico e respeitável: capitalismo.

Ele aparece como uma totalidade quase metafísica, capaz de explicar desde a precarização do trabalho até a ansiedade individual.

Aqui, o anti-sistema carrega uma tradição teórica robusta — Marx, Rosa Luxemburgo, Gramsci —, mas muitas vezes herda também um problema antigo: a tendência a transformar uma crítica estrutural legítima numa explicação totalizante, impermeável a nuances, mediações institucionais e contradições históricas.

Na outra ponta, a Direita delirante — para usar um termo suave — preenche esse mesmo significante com algo bem menos delimitado: o globalismo.

Trata-se de um conceito curioso, porque raramente aparece definido de forma rigorosa. Ele pode significar ao mesmo tempo organismos multilaterais, elites financeiras, pautas identitárias, universidades, imprensa, vacinas, ONGs, a ONU, George Soros e, em dias mais criativos, até o clima. É o sistema como conspiração difusa, não como estrutura econômica ou política analisável.

O resultado é paradoxal: grupos que discordam em quase tudo compartilham a mesma gramática do ressentimento.

Como observou Carl Schmitt, a política moderna tende a se organizar pela distinção amigo/inimigo.

(Na nossa realidade baseada em conceitos cristãos, o bem e o mal.)

O “sistema”, nesse sentido, é o inimigo perfeito: abstrato o suficiente para nunca ser plenamente derrotado, mas concreto o bastante para justificar indignações permanentes.

Essa elasticidade explica por que o discurso anti-sistema sobrevive tão bem mesmo quando seus porta-vozes chegam ao poder.

Quando o “anti-sistema” governa, o sistema simplesmente muda de endereço. Já não está mais no Palácio, mas na burocracia, no Judiciário, na imprensa, nas universidades, no mercado internacional — ou em qualquer lugar conveniente para preservar a narrativa da pureza traída.

Como diria Hannah Arendt, a substituição da análise pela lógica do ressentimento é um dos primeiros sinais de empobrecimento do espaço público.

Há, evidentemente, razões reais para o mal-estar contemporâneo: desigualdade persistente, crises de representação, financeirização da vida, erosão da confiança institucional.

O problema começa quando o “anti-sistema” deixa de ser uma crítica e se torna uma identidade. Nesse estágio, ele já não quer reformar, compreender ou disputar o sistema — quer apenas habitá-lo como inimigo permanente, pois é dessa oposição que retira sentido.

No fim, o discurso anti-sistema revela menos sobre o sistema que pretende combater e mais sobre a dificuldade contemporânea de lidar com a complexidade.

Como advertia Isaiah Berlin, o desejo de explicações únicas para problemas plurais é intelectualmente sedutor — e politicamente perigoso.

O sistema, seja ele capitalismo, globalização ou modernidade tardia, não cabe inteiro em um slogan. Mas slogans, como sabemos, são muito mais fáceis de gritar do que conceitos são de pensar.

O “anti-sistema”: significante vazio da moda

No Brasil, declarar-se “anti-sistema” virou uma forma elegante — e socialmente aceita — de dispensar o esforço do pensamento.

É o novo “não sou de Direita nem de Esquerda”, só que com mais raiva, menos leitura e um sentimento difuso de superioridade moral.

Trata-se de uma posição política curiosa: ela se afirma pela negação de algo que raramente é definido, mas sempre culpado.

Do ponto de vista conceitual, o “anti-sistema” é um significante vazio, como já explicava Ernesto Laclau — embora seus usuários brasileiros provavelmente nunca tenham passado da orelha do livro, quando muito.

É uma palavra que não diz o que é, mas diz contra quem se está. E isso basta para mobilizar paixões.

Quando esse significante vazio é evocado, qualquer coisa pode ocupar esse vazio: os injustos impostos, a demoníaca ideologia de gênero, a Mão invisível do Mercado, os reptilianos, os globalistas, os comunistas...

Todo inimigos imaginários, mas que servem a um propósito bem definido: preencher a vaga de inimigo a ser combatido.

À Esquerda mais extremada, o sistema atende pelo nome respeitável de capitalismo. Não se trata aqui de negar a legitimidade da crítica ao capitalismo — ela é vasta, antiga e intelectualmente séria. O problema começa quando tudo passa a ser capitalismo: o preço do feijão, o algoritmo do Instagram, a derrota eleitoral, a falta de carisma do candidato e, claro, a impossibilidade de vencer eleições sem convencer o eleitor. O capitalismo deixa de ser um modo de produção historicamente determinado e vira uma entidade onipotente, responsável até pelo mau humor matinal.

À Direita brasileira — especialmente aquela que resolveu substituir Burke por vídeos de Telegram — o sistema se chama globalismo. Eis um conceito notável por sua elasticidade cognitiva. Globalismo pode ser o STF, a ONU, a imprensa, as universidades, o SUS, a vacina, o IBGE, o Papa, artistas da Lei Rouanet e, se apertar um pouco mais, o clima. É o sistema como conspiração permanente, nunca como estrutura verificável. Não se estuda: denuncia-se. Não se analisa: acusa-se.

O mais fascinante é que esses extremos se encontram no método. Ambos precisam de um inimigo abstrato para explicar seus fracassos concretos.

Como ensinou Karl Popper, teorias que explicam tudo acabam não explicando nada. No Brasil, elas apenas rendem curtidas.

O bolsonarismo é talvez o exemplo mais acabado dessa lógica. Chegou ao poder bradando contra “tudo isso que está aí” — o sistema, ora vejam — e, uma vez instalado no Planalto, passou quatro anos explicando que não governava porque o sistema não deixava.

Congresso? Sistema.

STF? Sistema.

Imprensa? Sistema.

Vacina? Sistema.

O curioso é que o sistema sempre estava no outro poder, nunca no espelho.

Mas a Esquerda brasileira não fica atrás quando transforma o “anti-sistema” numa identidade estética. Parte dela passou a tratar a democracia liberal não como um campo de disputa imperfeito, mas como um disfarce burguês irremediavelmente fraudulento. Resultado: despreza eleições quando perde, relativiza autoritarismos amigos e troca a crítica institucional por uma retórica moralizante que não convence nem o porteiro do prédio.

Hannah Arendt advertia que a política começa onde termina a tentação de explicações totais.

O discurso anti-sistema faz o caminho inverso: ele oferece uma resposta simples para problemas complexos e, assim, desobriga seus adeptos de pensar soluções reais. Afinal, se o mal é absoluto, qualquer meio vira aceitável — inclusive o flerte com o autoritarismo, desde que “do lado certo”.

No fim das contas, o “anti-sistema” brasileiro não é revolucionário nem subversivo. Ele é confortável. Funciona como um álibi retórico para não lidar com reformas difíceis, escolhas trágicas e responsabilidades institucionais. É a política como ressentimento organizado.

E aqui está a ironia final: quem vive denunciando o sistema raramente quer destruí-lo.

Quer apenas ocupá-lo — sem controles, sem crítica, sem limites.

Não é anti-sistema. É anti-complexidade, anti-democracia e, muitas vezes, anti-realidade.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Santa Catarina contra a Constituição: decadência intelectual como ideologia política

Santa Catarina resolveu inovar. Não na ciência, não na educação, não na inclusão — isso seria pedir demais.

Resolveu inovar no ramo da inconstitucionalidade criativa.

A Assembleia Legislativa e o (des)governo estadual decidiram, com a solenidade de quem ignora a Constituição, proibir cotas raciais nas universidades estaduais, como se estivessem revogando um decreto municipal sobre estacionamento rotativo.

O detalhe irrelevante — apenas irrelevante para quem legislou — é que o Supremo Tribunal Federal já decidiu, de forma unânime, que políticas de ação afirmativa são constitucionais.

Não “toleráveis”, não “aceitáveis”, mas constitucionalmente legítimas. Isso foi em 2012. Treze anos atrás. Mas quem conta tempo quando se tem convicção ideológica?

Vamos à contabilidade. Eis, pelo menos, cinco ilegalidades jurídicas evidentes cometidas com a elegância de um bode no salão da Assembleia:

1. Usurpação de competência constitucional
Estados não têm competência para legislar de modo a restringir direitos fundamentais reconhecidos pela Constituição e interpretados pelo STF. Educação superior e direitos fundamentais não são brinquedos federativos. Santa Catarina agiu como se fosse um Supremo paralelo — sem toga, sem Constituição e sem pudor.

2. Violação direta ao princípio da igualdade material (art. 5º e art. 3º, CF)
A Constituição não protege uma igualdade de fachada, dessas que ignoram a história, os dados e a realidade social. O STF foi claro: tratar desiguais como iguais é produzir desigualdade. A lei catarinense faz exatamente isso — e ainda se apresenta como virtuosa.

3. Afronta à autonomia universitária (art. 207 da CF)
Universidades têm autonomia didático-científica e administrativa. Decidir critérios de acesso, desde que constitucionais, é atribuição da universidade, não do deputado estadual que resolveu fazer guerra cultural com o vestibular.

4. Desrespeito explícito à jurisprudência vinculante do STF
O julgamento das cotas não foi um “artigo de opinião”. Foi uma decisão plenária, sólida, reiterada e reafirmada ao longo dos anos. Ignorá-la não é ousadia — é insubordinação constitucional. No Estado de Direito, isso tem nome: ilegalidade.

5. Violação ao princípio da vedação ao retrocesso social
Quando o Estado reconhece políticas públicas voltadas à inclusão e depois as elimina sem base empírica ou constitucional, pratica retrocesso. Não é conservadorismo. É regressão institucional.

E o mais curioso é o discurso moralista que acompanha tudo isso. Fala-se em “meritocracia”, como se vestibular fosse olimpíada metafísica, onde o processo seletivo é trata docomo uma competição intelectual abstrata, desconectada da realidade material e social dos candidatos. Fala-se em “igualdade”, como se o Brasil tivesse começado ontem, sem escravidão, sem exclusão e sem estatísticas constrangedoras.

A lei catarinense não é neutra. Neutralidade aqui é ficção retórica. Ela escolhe um lado: o da desigualdade herdada, naturalizada e agora blindada por lei estadual.

O STF vai derrubar?

Muito provavelmente. É obrigação moral e legal derrubar.

A pergunta real é outra: por que legislar algo que já nasce morto?
Resposta simples: não é sobre Direito. É sobre sinalizar virtude ideológica a um público específico, mesmo que isso custe a Constituição.

O famoso apito de cachorro. Ou neste caso em questão, de gado.

Santa Catarina não está “defendendo a igualdade”. Está apenas demonstrando, mais uma vez, que convicção sem Constituição costuma dar nisso: uma lei que parece forte, mas juridicamente é oca.

E o Estado de Direito, felizmente, não se governa por achismo.


TEXTO DE:

Tarciso Tertuliano



Resumo técnico (conteúdo gerado por I.A.)

Uma lei estadual de Santa Catarina que proíba cotas raciais nas universidades estaduais fere:

✔ Constituição Federal (arts. 1º, 3º, 5º, 206 e 207)
✔ Lei 12.711/2012
✔ Estatuto da Igualdade Racial
✔ Jurisprudência pacífica do STF (ADPF 186, RE 597.285, ADI 3330)

*ADPF = Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental

✔ Princípios da igualdade material, autonomia universitária e vedação ao retrocesso

👉 Alta probabilidade de declaração de inconstitucionalidade, em controle concentrado ou difuso.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

EUA, Groenlândia e o possível boicote a Copa do Mundo

Vamos falar dos Estados Unidos, porque se a Convenção de Genebra fosse aplicada, todos os presidentes dos Estados Unidos estariam presos.

O debate sobre um possível boicote à Copa do Mundo de 2026, sediada nos EUA, Canadá e México, ganhou força no início de 2026, impulsionado por tensões geopolíticas envolvendo o presidente Donald Trump, ameaças de taxas tarifárias contra a Europa e a questão da Groenlândia.

A discussão também ganhou força nas redes sociais com hashtags como #BoycottWorldCup2026, citando receios com políticas migratórias e segurança nos EUA.

No entanto, até o final de janeiro de 2026, um boicote efetivo por seleções nacionais ainda é considerado improvável, mas o debate reflete uma politização crescente do evento.

A Europa vai perder a Groenlândia para os Estados Unidos e, se não ficar quieta, vai perder tudo, porque a Europa acabou.

A Europa não é nada. A Europa é uma península da Ásia, mas que resolveram chamar de continente porque há 2 mil anos ela é um império que concentrou muito poder.

A Europa nunca foi um continente. Então, nós temos a Ásia, com duas penínsulas.

Uma, que é o Oriente Médio, na região sudoeste, e outra, que é a Europa, na região oeste. Só isso. Mais nada. O mundo é tripolar. Estados Unidos, Rússia e China.

E, neste tripolar, nós temos um bipolar muito forte para o lado do BRICS.

Se considerarmos o BRICS um mundo e os Estados Unidos outro, seremos bipolar. Os Estados Unidos podem ser derrubados economicamente. A resistência dos Estados Unidos é a bomba atômica que ele tem muito poderio militar.

Um Estado decidiu pela força arrancar de outro Estado o seu governante. E é aqui onde entra a filosofia, porque o que está em jogo não é apenas um homem, mas o próprio conceito de soberania, de justiça e de legitimidade no mundo moderno.

Bom, vamos voltar ao tempo. Ao tempo em que desde Thomas Hobbes aprendemos a imaginar o Estado como um leviatã, ou seja, uma criatura gigantesca, temível e criada para impedir o caos. Cada país no seu território guarda sua própria fera, guarda seu próprio leviatã, mas o que vemos agora é algo muito mais antigo. Um leviatã devorando o outro leviatã.

TEXTO DE:
Thiago Muniz

sábado, 24 de janeiro de 2026

Yes, Nós temos Bananas

Em 1923, os americanos Frank Silver e Irving Cohn lançaram “Yes! We Have No Bananas”, uma canção cômica sobre uma mercearia que não tinha bananas.

Em 1938, Braguinha e Alberto Ribeiro responderam à altura com a marcha “Yes, nós temos bananas”, ironizando a então crescente dominação cultural norte-americana sobre as Américas.

A mensagem era clara: o Brasil não era apenas uma “república das bananas”, mas um país com produção e identidade próprias.

Curiosamente, um ano depois, quando o petróleo foi descoberto em Lobato, na Bahia - ninguém compôs o inevitável “Yes, nós temos petróleo”. Era ali que começava a história que levaria à Petrobras, em 1953. Para bom entendedor, meia ironia basta.

Evitei comentar a recente ofensiva contra a Venezuela e a detenção de Maduro, para não cair na armadilha dos rótulos.

Que fique claro: não tenho simpatia por ditadores — nem por Maduro, nem por Trump – menos ainda por ditaduras. Acredito no voto, na alternância de poder e na democracia.

Tenho estudado com interesse afiado o que rola na política espanhola, onde os partidos independentistas (catalão, basco e galego) além de dar a sustentabilidade ao governo central, são os seus principais defensores.

Por sinal, assim como a política brasileira, na Espanha está tudo muito polarizado. Onde um espirro pode transformar-se num temporal e um arroto num furacão devastador.

Aliás, a Europa racista e xenófoba nunca deixou de existir. Apesar de desaparecerem há mais de 50 anos, os espíritos de Franco e de Salazar, continuam em forma de assombração.

O mundo parece cada vez mais preso a uma lógica de Fla-Flu: de um lado “a paz, a esperança e o vigor, unido e forte”, do outro “ele me mata, me maltrata”. Cada qual dono da sua verdade.

Em dezembro de 1993, na famosa foto do corpo crivado de balas do Pablo Escobar, havia um agente da DEA (Drug Enforcement Administration — Administração de Repressão às Drogas dos Estados Unidos).

Naquele ano, o consumo de cocaína nos EUA foi estimado em cerca de 254 toneladas. Em 1994, subiu para 323. Em 1995, 376.

Mataram o traficante, mas o tráfico prosperou. Em 2023, 30 anos depois existem cerca de 25 milhões de usuários de cocaína no mundo, um recorde. O discurso de “guerra às drogas” não sobrevive ao segundo parágrafo dos números.

Esse mesmo padrão vale para a política externa dos EUA. Ao longo do século XX, Washington criou, financiou e armou ditadores em nome da “segurança” ou do “combate ao comunismo” — e depois os descartou quando se tornaram incômodos.

Saddam Hussein, Noriega, Pinochet, o do Irã, Trujillo, Diem, Batista, Mobutu, Somoza… sem falar no próprio Bin Laden. A fórmula é simples: cria-se o tirano útil, usa-se, joga-se fora.

Com uma dívida que ronda os 38 trilhões de dólares, é ingênuo achar que o interesse maior dos EUA na Venezuela seja a democracia.

Vivemos esse Fla-Flu global sem VAR (de um lado “a paz, a esperança e o vigor, unido e forte”, do outro “ele me mata, me maltrata"), enquanto a vida cobra seu preço.

As perdas recentes – precoces - dos amigos Paulo Andel, Zé Neto e André Horta e os meus limites da minha frágil saúde (e a quantidade exacerbada de remédios com que sou obrigado a conviver) me fazem pensar em desistir.

Com relação ao Brasil, ainda há muitas razões para resistir. Porque, afinal, yes, nós temos bananas.

Temos também petróleo, Amazônia, terras raras, 12% da água doce superficial do planeta, cachaça, caipirinha, chopp da Brahma, Machado de Assis, samba, Pelourinho, açaí, acarajé, lei Maria da Penha, feijoada, Carlos Drumond de Andrade, praia de Ipanema, Parada Gay, Carnaval e futebol.

E quando falo de futebol, falo de Fluminense.

TEXTO DE:
Antonio Gonzalez

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

A luta contra o autoritarismo é uma obrigação

A memória pública do século XX costuma simplificar a história da resistência ao fascismo e ao nazismo.

Com frequência, ela é apresentada como um confronto entre Esquerda e Direita, no qual apenas um campo político teria se colocado, de forma consistente, ao lado da democracia.

A documentação histórica, no entanto, revela um quadro mais complexo: a resistência ao totalitarismo foi plural, atravessou tradições ideológicas distintas e, em muitos casos, expôs contradições internas profundas.

Durante a Segunda Guerra Mundial, diferentes grupos — comunistas, liberais, conservadores, democratas-cristãos e nacionalistas não fascistas — atuaram contra regimes autoritários por motivações diversas, mas convergentes em um ponto central: a recusa ao Estado totalitário e ao poder concentrado em líderes incontestáveis.

Livorno e o comunismo italiano na resistência

A cidade de Livorno, na Toscana, ocupa um lugar singular nessa história. Em 1921, foi ali que se fundou o Partido Comunista Italiano (PCI). Durante o regime de Mussolini, seus militantes sofreram repressão sistemática: prisões, exílio interno e clandestinidade. Após a ocupação alemã da Itália, em 1943, os comunistas de Livorno tornaram-se protagonistas da resistência local, integrando brigadas partisans, organizando sabotagens e sustentando redes de apoio civil em uma cidade duramente atingida por bombardeios.

Embora o PCI estivesse politicamente alinhado à União Soviética e reconhecesse em Stalin o líder do principal esforço militar contra o nazismo, a prática da resistência italiana foi marcada por forte autonomia local. A prioridade não foi a instauração imediata de um regime ideológico, mas a derrota do fascismo e a reconstrução de instituições nacionais.

No pós-guerra, essa experiência contribuiu para a consolidação do chamado “comunismo italiano”, que aceitou o pluralismo partidário, a disputa eleitoral e a convivência institucional. Ao longo das décadas seguintes, inclusive após a revelação dos crimes do stalinismo, o PCI e suas bases sociais — entre elas Livorno — passaram por processos de revisão crítica e distanciamento de modelos autoritários.

Essa trajetória histórica oferece um dado relevante para o debate contemporâneo: há experiências de Esquerda que, confrontadas com o autoritarismo, optaram por reformular práticas e romper com a defesa de regimes personalistas. Ignorar esse aprendizado enfraquece qualquer discurso democrático.

A resistência liberal e conservadora

A documentação histórica também mostra que a oposição ao fascismo não foi exclusividade da Esquerda.

Na Alemanha, grupos liberais e conservadores — como o Círculo de Kreisau e setores do alto comando militar envolvidos na Operação Valquíria — conspiraram contra Hitler, motivados pela defesa do Estado de direito e pela percepção de que o regime levava o país à ruína.

Na França, o gaullismo organizou uma resistência nacionalista e republicana.

Na Itália, liberais, democratas-cristãos e monarquistas romperam com Mussolini em 1943.

Na Polônia ocupada, o Armia Krajowa, de orientação conservadora e anticomunista, formou a maior organização de resistência da Europa.

No Reino Unido, o conservadorismo parlamentar, sob a liderança de Winston Churchill, tornou-se um dos pilares da luta contra o nazismo.

Esses exemplos indicam que setores da direita, quando vinculados a instituições, legalidade e limites ao poder, foram capazes de resistir ao autoritarismo — inclusive pagando alto custo político e pessoal.

Lições históricas e o debate atual

A análise comparada dessas experiências aponta para uma conclusão recorrente nos estudos históricos: o autoritarismo não se define apenas por ideologia, mas por práticas concretas de poder. Culto à personalidade, desprezo por instituições, repressão a opositores e manipulação do processo eleitoral foram características comuns tanto ao fascismo quanto a outros regimes ditatoriais do século XX.

Nesse sentido, a história de Livorno sugere que a Esquerda democrática fortalece sua legitimidade quando é capaz de criticar e rejeitar ditaduras, independentemente de alinhamentos geopolíticos. Da mesma forma, a tradição liberal e conservadora europeia demonstra que a Direita preserva sua herança quando se recusa a apoiar lideranças golpistas, mesmo quando estas se apresentam como representantes de valores nacionais ou morais.

O registro histórico do século XX é consistente em um ponto: regimes personalistas e autoritários corroem tanto projetos revolucionários quanto tradições conservadoras. A resistência ao fascismo não foi um patrimônio exclusivo de um campo político, mas o resultado de escolhas feitas — ou recusadas — diante do poder absoluto.

A história não oferece receitas prontas, mas fornece critérios. Entre eles, talvez o mais claro seja este: quando a democracia é relativizada em nome da conveniência ideológica, o resultado tende a ser menos política e mais ruína institucional.

Por fim, não podemos deixar de citar, a vergonha que é para a Direita brasileira apoiar um  golpista fascistóide como Jair Bolsonaro.

Da mesma maneira que a Esquerda brasileira, não pode se dar ao luxo de apoiar ditadores como Nicolás Maduro.

Dom Casmurro e 13 Porquês - a genialidade que aproxima duas obras distantes

Dom Casmurro, de Machado de Assis, e 13 Porquês, de Jay Asher, parecem obras que não poderiam estar mais distantes uma da outra.

Um nasce no Brasil do século XIX, marcado pelo Realismo, pela ironia e pela desconfiança da própria narrativa. O outro surge no século XXI, voltado ao público jovem, lidando com temas urgentes como bullying, silêncio social e sofrimento psicológico.

Ainda assim, existe um ponto de contato poderoso entre os dois: ambos contam histórias cujo final é conhecido desde o começo — e, mesmo assim, nos fazem acreditar que tudo pode mudar.

É justamente aí que mora a genialidade narrativa dessas obras.


O suspense não está no final, mas no caminho

Em Dom Casmurro, Bentinho não esconde o fracasso de sua vida afetiva. Desde o início, sabemos que o amor por Capitu terminou em amargura, solidão e suspeita. Já em 13 Porquês, a morte de Hannah Baker é apresentada logo de saída. Não há mistério sobre o desfecho.

Então por que seguimos lendo?

Porque, nas duas narrativas, o verdadeiro suspense não está no o que acontece, mas no como poderia ter sido diferente. Cada lembrança de Bentinho, cada fita deixada por Hannah, cria no leitor a sensação incômoda de que uma escolha mínima — uma conversa, um gesto, uma escuta atenta — talvez tivesse mudado tudo.

Mesmo sabendo que não mudará.


A armadilha da esperança retrospectiva

Machado de Assis faz algo brilhante: transforma Bentinho em um narrador que conversa com o leitor, que se justifica, hesita, se contradiz. Ele não afirma com todas as letras que Capitu o traiu — ele sugere, insinua, planta dúvidas. E nós, leitores, entramos no jogo. Relembremos cada cena tentando encontrar o momento exato em que a história “desandou”.

Jay Asher constrói esse mesmo efeito com outra linguagem. As fitas de Hannah Baker organizam o passado como uma sequência de causas e efeitos. A cada episódio, pensamos: se alguém tivesse agido diferente aqui… A leitura avança movida por essa esperança tardia, quase cruel.

Nos dois casos, somos levados a fazer algo impossível: revisar o passado acreditando que ele ainda pode ser consertado.


Narradores que controlam a versão dos fatos

Bentinho e Hannah Baker têm algo em comum: ambos dominam completamente a narrativa. Eles escolhem o que contar, como contar e em que ordem contar. Não pedem exatamente nossa absolvição — pedem nossa adesão emocional.

O leitor não recebe a verdade objetiva. Recebe uma versão. E é essa versão, cuidadosamente construída, que nos envolve. Em Dom Casmurro, nunca saberemos se Capitu traiu ou não. Em 13 Porquês, a culpa pela morte de Hannah se dilui entre muitos personagens, nenhum deles um vilão clássico.

A força dessas histórias está menos nas respostas e mais no desconforto das perguntas que permanecem.


Tragédias feitas de pequenas coisas

Nem Machado nem Asher apostam em grandes acontecimentos espetaculares. Suas tragédias nascem do cotidiano: de silêncios, mal-entendidos, inseguranças, omissões. Bentinho não é um tirano; os personagens de 13 Porquês não são monstros. São pessoas comuns — e isso torna tudo mais perturbador.

Porque, se o erro foi pequeno, talvez pudesse ter sido evitado.

E é essa sensação que mantém o leitor preso à leitura, mesmo sabendo que o final já está escrito.


Quando a esperança faz parte da tragédia

Dom Casmurro e 13 Porquês provam que uma boa história não precisa esconder seu desfecho para ser envolvente. Às vezes, revelar o fim desde o início torna a experiência ainda mais dolorosa — e mais humana.

Ambas as obras nos conduzem a uma conclusão desconfortável: há histórias que não mudam não por força do destino, mas porque as escolhas humanas quase sempre chegam tarde demais.

E talvez seja por isso que seguimos lendo, página após página — não para mudar o final, mas para entender onde, exatamente, tudo começou a dar errado.


TEXTO DE:

Tarciso Tertuliano