domingo, 1 de novembro de 2026

Palhaço Duarte

A vigarice do pastor Cláudio Duarte é a síntese perfeita do que virou a igreja evangélica bolsonarista.

Durante a campanha, era vídeo atrás de vídeo: ironizando o Lula, falando de trabalhador, mulher, gari, chamando de mentira, e no final dia 25 vota 22, Flávio Bolsonaro.

Declarou apoio, pediu voto, usou o púlpito como comitê.

Aí o cara perde.

Aí o cara foge pela fronteira com passaporte italiano, com van escoltada pelo pessoal do Milei, descumprindo ordem do STF de entregar todos os passaportes.

Aí o que o pastor faz?

Muda de lado em 24 horas.

Soltou aquele discurso mole: Quem venceu, venceu, quem perdeu, perdeu. Isso não afeta minha rotina. Não afeta a rotina dele. Afeta a rotina do fiel que ele mandou votar, que agora está sendo investigado, que perdeu emprego, que brigou com a família.

Enquanto Malafaia pelo menos teve a coragem de assumir (defendeu a fuga, disse que foi medida preventiva contra prisão sem respaldo) o Duarte fez a coisa mais covarde que um líder religioso pode fazer: usou a Fé pra eleger e lavou as mãos quando deu errado.

É o pastor empresário.

Vende curso de casamento, vende palestra de relacionamento, vende voto no domingo e na segunda vende que é apolítico.

O fiel virou cliente. E cliente trocado quando não serve mais.

TEXTO:
Do amigo Anthemo Scott Feliciano

Cotas Raciais, 25 anos


O Engenheiro Wagner Victer, ex-Secretário Estadual de Educaçao, participou esta semana do programa Debates, da Rádio Tupi, com Francisco Barbosa, e falou sobre os 25 anos que serão completados no proximo dia 9 de Novembro, da  primeira Lei de Cotas Raciais do Brasil, Lei 3708 de 2001, criada no Estado do Rio de Janeiro.

À época, Victer era Secretário de Estado de Energia e Petroleo e participou ativamente da criação e aplicação desse processo pioneiro que foi um marco legal que estabeleceu uma das políticas afirmativas de maior sucesso do país e que se aplicou para o ingresso nas universidades estaduais UERJ e UENF.

Na entrevista, ele relembra a história da criação, importância da legislação e seus impactos e os resultados alcançados ao longo dessas duas décadas e meia e que ensejaram a criação de todas legislações do país, inclusive a própria Lei Federal de Cotas criada somente 11 anos depois ( 2012), Lei Federal 12.711.

O processo da criação da Lei de Cotas Raciais sofreu muitas resistências e questionamentos mas é uma notável  contribuição do Rio de Janeiro para o Brasil e na entrevista são lembrados muitos que participaram desse processo que teve até a Constitucionalidade questionada na época, o que gerou uma grande defesa pela Procuradoria Geral do Estado  junto ao STF.

Lula venceu, mas a Democracia ainda precisa de defesa

Nós podemos, por uma razão particularmente importante, celebrar que o Brasil não tenha escolhido Flávio Bolsonaro para comandar o país: a possibilidade de impedir que uma mentalidade autoritária, que ultrapassa os limites da disputa eleitoral e invade a vida privada das pessoas, conquiste ainda mais poder institucional.

Os acontecimentos em torno da disputa eleitoral oferecem um retrato preocupante dessa mentalidade. Empresários e influenciadores bolsonaristas passaram a incentivar demissões de trabalhadores que votaram em Lula. Surgiram campanhas para boicotar estabelecimentos, perseguir profissionais e transformar a preferência eleitoral em critério para decidir quem merece trabalhar, consumir ou simplesmente conviver em sociedade.

Como se não bastasse, o ambiente religioso também produziu manifestações igualmente absurdas. Pastores que ameaçaram expulsar fiéis por votarem em Lula, que questionaram a condição de cristão de quem não compartilha de suas preferências políticas e que transformaram o púlpito em instrumento de intimidação eleitoral.

É difícil encontrar expressão mais clara de desvio de finalidade do que utilizar a fé como mecanismo de controle da consciência.

O patrão não é proprietário do voto do funcionário. O pastor não é proprietário da consciência do fiel. Nenhum contrato de trabalho concede ao empregador autoridade sobre a orientação política de seus empregados. Nenhuma Bíblia concede ao líder religioso o direito de transformar uma congregação em propriedade eleitoral particular.

E aqui está uma questão que merece ser observada com bastante atenção: não estamos falando simplesmente de pessoas que ficaram irritadas com um resultado eleitoral. Estamos falando de indivíduos que parecem não conseguir aceitar que outras pessoas tenham o direito de fazer escolhas diferentes das suas, mesmo quando essas escolhas são perfeitamente legítimas.

O comportamento é particularmente revelador porque expõe uma concepção profundamente hierárquica da sociedade. Para essa gente, existem pessoas que podem decidir e pessoas que devem obedecer. O empresário escolhe em quem o funcionário deve votar. O pastor determina em quem o fiel pode acreditar politicamente. Quem não aceita essas determinações passa a ser tratado como inimigo, traidor ou alguém indigno de permanecer naquele ambiente.

Isso não é convicção política. É uma forma doentia de autoritarismo.

E existe algo ainda mais grave: dependendo das circunstâncias, esse comportamento pode ultrapassar a reprovação moral e configurar ilícitos previstos na legislação brasileira.

O Código Eleitoral, em seu artigo 301, estabelece como crime o uso de violência ou grave ameaça para coagir alguém a votar ou deixar de votar em determinado candidato ou partido. O artigo 297 também prevê punição para quem impede ou embaraça o exercício do sufrágio.

No caso dos empresários, a questão ganha contornos ainda mais específicos. A Resolução 23.735/2024 do Tribunal Superior Eleitoral, em seu artigo 6º, parágrafo 5º, prevê expressamente que utilizar a estrutura empresarial para constranger ou coagir trabalhadores, aproveitando-se de sua dependência econômica, com o objetivo de obter vantagem eleitoral, pode configurar abuso do poder econômico.

Isso significa que ameaçar empregos, utilizar a dependência financeira dos funcionários e transformar o ambiente profissional em instrumento de pressão política não é simplesmente uma atitude desagradável de um patrão. Pode representar uma violação da própria liberdade eleitoral, com consequências jurídicas.

A Lei Complementar 64/1990, em seu artigo 22, estabelece mecanismos para investigar o abuso do poder econômico e de autoridade em benefício de candidaturas ou partidos. Entre as consequências de uma condenação estão a inelegibilidade por oito anos dos responsáveis que preencham os requisitos legais e a cassação do registro ou diploma do candidato diretamente beneficiado, conforme o caso.

É importante compreender que o abuso do poder econômico constitui um ilícito eleitoral, não sendo automaticamente um crime autônomo. Já a coação mediante violência ou grave ameaça pode configurar crime eleitoral, desde que preenchidos os requisitos legais.

O mesmo raciocínio merece atenção quando aplicado às lideranças religiosas. A liberdade de organização das igrejas não transforma o púlpito em território livre para ameaças contra a liberdade de voto. Se a ameaça de expulsão, acompanhada de outras formas de intimidação, atingir o patamar de grave ameaça e tiver por finalidade coagir alguém a votar ou não votar em determinado candidato, poderá ser examinada à luz do artigo 301 do Código Eleitoral. A caracterização depende das circunstâncias concretas e das provas.

É importante que essas pessoas compreendam que não estão acima da legislação simplesmente porque possuem dinheiro, empresas, influência religiosa ou milhares de seguidores.

A desigualdade de poder torna tudo ainda mais perverso. Um trabalhador que depende do salário para sustentar sua família não está em condições de igualdade com um patrão que ameaça seu emprego por causa de um voto. Da mesma maneira, um fiel que encontra na igreja seu espaço de acolhimento e convivência pode ser emocionalmente pressionado por uma liderança que ameaça sua permanência na comunidade.

É justamente por isso que a liberdade política precisa ser protegida também nos ambientes de trabalho e religiosos. Não basta permitir que alguém vote secretamente se, depois da eleição, essa pessoa corre o risco de perder o emprego, ser constrangida ou expulsa de sua comunidade por causa da escolha que fez.

Eis uma das razões pelas quais o resultado eleitoral teve uma importância que ultrapassa a vitória de um candidato sobre outro.

O Brasil não precisava entregar a Presidência da República a um projeto político cuja base mais radical demonstra tamanha dificuldade em respeitar a autonomia individual. Imagine o tamanho do problema se pessoas que hoje defendem a perseguição de trabalhadores e fiéis encontrassem ainda mais respaldo político e institucional para transformar suas convicções particulares em regras para toda a sociedade.

Não se trata de afirmar que todos os eleitores de Flávio Bolsonaro compartilham dessas práticas. Trata-se de reconhecer que existe um núcleo de intolerância que precisa ser enfrentado, especialmente quando tenta se apresentar como defensor da liberdade, da família, da religião e da propriedade privada.

Aliás, existe uma contradição quase caricatural em defender a liberdade econômica enquanto se pretende decidir quem pode trabalhar em determinada empresa por causa do voto. Ou falar tanto em liberdade religiosa enquanto se ameaça retirar de alguém o direito de frequentar uma igreja por discordar politicamente de seu pastor.

A democracia não existe para garantir que determinado grupo tenha o direito de governar a consciência dos demais. Ela existe justamente para impedir que alguém adquira esse poder.

A vitória eleitoral de Lula não resolveu todos os problemas brasileiros, tampouco eliminou o autoritarismo da sociedade. Mas impediu que um projeto político chegasse ao comando do país com a possibilidade de ampliar sua influência institucional.

E talvez uma das maiores lições desse episódio seja esta: uma sociedade verdadeiramente livre não pode depender da autorização de um patrão para exercer sua cidadania, nem da aprovação de um pastor para exercer sua fé.

O voto pertence ao cidadão. A consciência pertence ao indivíduo. E nenhuma autoridade empresarial, política ou religiosa tem o direito de confiscar qualquer uma dessas liberdades.

Quem não consegue conviver com isso pode até disputar eleições, defender suas ideias e tentar convencer a sociedade. O que não pode é transformar a derrota política em autorização para perseguir quem pensa diferente.

A democracia não é um favor que os poderosos concedem aos cidadãos. É um direito que existe, inclusive, para proteger os cidadãos dos poderosos.

CONFIRA:

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Virada de Lula é marco histórico

A virada de Lula é um marco histórico, e não apenas brasileiro.

Nunca, em nenhuma democracia ocidental moderna, havia ocorrido um fato de tal monta, envolvendo tamanha quantidade de votos. Não à toa, a repercussão internacional do segundo turno da eleição presidencial está tornando o Brasil em um exemplo de resistência à onda fascista global.

Lula amealhou nada mais, nada menos do que 10 milhões de votos a mais no segundo turno do que teve no primeiro; melhorou seu desempenho em 97% dos municípios do país, algo impressionante e de efeito eleitoral devastador. Até nos estados em que perdeu, Lula cresceu mais no segundo turno do que seu adversário. 

A mobilização nacional, nas ruas e na internet, que promoveu essa virada, além de emocionante e histórica, é também a chance do início da construção de uma nova Esquerda e de um novo jeito de governar, muito mais sintonizado com as demandas populares.

Lula, a um só tempo, se transformou no primeiro presidente a virar uma eleição no segundo turno e, sem mais nenhuma dúvida, no maior personagem da história brasileira. 

O menino que nasceu em Garanhuns, que veio para o Sudeste no pau de arara, que virou torneiro mecânico, que perdeu um dedo durante o trabalho e que sofreu na pele todas as mazelas de ser pobre no Brasil, fundou o partido político de Esquerda de maior alcance em todo o planeta e, agora, tornou-se presidente eleito por quatro vezes.

É uma história de vida épica, monumental, sem paralelos desde as capitanias hereditárias.

Goste-se ou não de Lula, não se trata mais disso, apenas de reconhecer a grandiosidade inigualável desse personagem histórico. Não há Dom Pedro, Getúlio, Maria Quitéria, Prestes, Tiradentes, Pelé, Zumbi ou JK que lhe faça frente. 

Domingo último vivenciamos a história sendo escrita ao vivo, amigos. Apreciemos, portanto, esse espetáculo da vida!

Toda minha admiração a Lula!

TEXTO DE:
 Alexandre de Oliveira Périgo

sábado, 24 de outubro de 2026

Star Trek (2009): a amizade, o peso dos pais e a difícil tarefa de descobrir quem somos

Dirigido por J. J. Abrams, o filme de 2009 é muito mais do que uma aventura espacial. Por trás das explosões, das viagens interestelares e da ameaça de destruição da Terra, existe uma história profundamente humana sobre amizade, herança familiar, perdas e a busca pela própria identidade.

Alguns filmes nos convidam a imaginar o futuro e outros que, usando o futuro como cenário, nos obrigam a olhar para dentro de nós mesmos. Star Trek, de 2009, pertence às duas categorias. Ao reinventar a origem de personagens consagrados da ficção científica, J. J. Abrams constrói uma narrativa sobre pessoas que precisam descobrir quem são antes de compreender o que podem se tornar.

E talvez o aspecto mais interessante dessa história seja justamente o fato de que seus protagonistas não nascem prontos. Eles são construídos pelas ausências, pelos encontros, pelas dores e, principalmente, pelas relações que estabelecem com outras pessoas.

O pai que morre, mas permanece

A sequência inicial do filme é uma das mais emocionantes de toda a produção. George Kirk, interpretado por Chris Hemsworth, assume o comando da nave USS Kelvin enquanto sua esposa está prestes a dar à luz. Diante de uma ameaça que parece impossível de vencer, ele toma uma decisão extrema: permanece na nave para garantir a fuga da tripulação e salvar a família.

James T. Kirk nasce enquanto seu pai caminha para a morte.

Existe uma ironia dolorosa nessa cena. O homem que jamais terá a oportunidade de conhecer o filho transforma-se, involuntariamente, em uma das maiores influências de sua vida.

Kirk cresce sem a presença paterna, carregando uma ausência que não pode ser preenchida por conselhos, abraços ou lembranças compartilhadas. Ele não conhece o pai como pessoa; conhece a dimensão de seu sacrifício e a maneira como os outros se recordam dele.

Essa diferença é fundamental. George Kirk não pode ensinar o filho a viver, mas sua história passa a representar uma espécie de legado moral. James precisa descobrir se será capaz de construir uma vida que faça justiça àquele gesto.

O filme, entretanto, não cai na armadilha de sugerir que todo filho precisa repetir os passos do pai para honrá-lo. A jornada de Kirk consiste justamente em transformar uma herança que não escolheu em uma identidade própria.

Ser filho de alguém não significa estar condenado a ser a continuação dessa pessoa. Significa, muitas vezes, aprender a dialogar com aquilo que ela deixou para trás.

Spock e a dor de não pertencer completamente a lugar nenhum

Se Kirk representa a ausência do pai, Spock representa a dificuldade de construir uma relação com ele quando a presença existe, mas a compreensão parece insuficiente.

Filho de Sarek, um vulcano, e Amanda, uma humana, Spock cresce dividido entre duas culturas. De um lado, a disciplina lógica dos vulcanos, de outro, a dimensão emocional que herdou de sua mãe e que sua sociedade frequentemente trata como uma fraqueza.

Seu conflito não é apenas biológico ou cultural. É também familiar.

Spock deseja ser reconhecido por aquilo que é, mas vive sob a pressão de corresponder às expectativas de uma sociedade que valoriza a supressão das emoções. Ao mesmo tempo, sua relação com o pai é marcada por divergências sobre suas escolhas e sobre o caminho que deveria seguir.

A morte de Amanda, durante o ataque de Nero a Vulcano, torna ainda mais dolorosa essa experiência. Spock perde justamente a pessoa que representa uma ligação afetiva com sua humanidade.

É aqui que o filme encontra uma de suas questões mais interessantes: até que ponto a educação recebida dos pais determina quem somos? E em que momento precisamos contrariar suas expectativas para nos tornarmos adultos?

Sarek não deixa de amar o filho por causa das diferenças entre eles. O problema é que o amor nem sempre consegue se expressar na linguagem de que o outro necessita.

Quantas relações familiares não são marcadas por essa mesma dificuldade? Pais que amam, mas não sabem demonstrar, filhos que desejam reconhecimento, mas não conseguem comunicar suas necessidades, pessoas que se importam umas com as outras, mas transformam suas diferenças em barreiras.

Spock precisa compreender que sua identidade não depende da aprovação absoluta de seu pai, nem da rejeição de suas próprias emoções.

Ele não precisa escolher entre ser vulcano e ser humano. Precisa descobrir como ser ele mesmo.

A amizade entre Kirk e Spock: duas diferenças que se tornam força

A relação entre Kirk e Spock é o coração emocional do filme.

À primeira vista, os dois parecem incompatíveis. Kirk é impulsivo, provocador, intuitivo e frequentemente desobediente. Spock é disciplinado, racional, metódico e comprometido com regras que considera necessárias para a sobrevivência coletiva.

Um toma decisões antes de conhecer todas as consequências. O outro procura conhecer todas as consequências antes de tomar uma decisão.

Seria fácil transformar essa oposição em uma disputa na qual um deles precisasse provar sua superioridade. Abrams, porém, constrói algo mais interessante: uma amizade na qual as diferenças, inicialmente responsáveis pelo conflito, tornam-se parte da solução.

Kirk precisa aprender que coragem não é simplesmente desafiar autoridades. Spock precisa perceber que a lógica, embora indispensável, não elimina a complexidade das escolhas humanas.

O mais importante é que nenhum deles se transforma em uma cópia do outro. Kirk continua sendo Kirk, e Spock continua sendo Spock. A convivência permite que ambos reconheçam as limitações de suas próprias perspectivas.

Essa é uma das grandes verdades sobre a amizade: um amigo verdadeiro não precisa pensar como nós para nos ajudar a enxergar aquilo que não conseguimos ver sozinhos.

A amizade não consiste em eliminar divergências, mas em encontrar uma razão para permanecer ao lado de alguém apesar delas.

Naturalmente, o filme não apresenta esse processo de maneira tranquila. Kirk provoca, Spock reage, os dois disputam autoridade e a confiança precisa ser construída em meio a situações extremas. Ainda assim, a parceria ganha força justamente porque nenhum dos dois pode realizar sozinho aquilo que a missão exige.

O capitão precisa de alguém capaz de questionar seus impulsos. O oficial de ciências precisa reconhecer que a liderança também envolve decisões tomadas em condições de incerteza.

É uma relação que ultrapassa a simples complementaridade profissional. Os dois aprendem a confiar um no outro sem exigir que o outro deixe de ser quem é.

Quando um amigo ocupa o lugar que a família não conseguiu preencher

Existe outro aspecto interessante na relação entre Kirk e Spock: os dois encontram um no outro uma forma de reconhecimento que suas experiências familiares não lhes proporcionaram plenamente.

Kirk cresceu sem conhecer o pai. Spock cresceu tentando conciliar sua identidade com as expectativas de seu povo e de sua família.

Nenhum deles pode apagar o passado do outro. Kirk não pode devolver a Spock sua mãe, assim como Spock não pode oferecer a Kirk a infância que ele não teve.

Mas a amizade permite algo diferente: a possibilidade de construir um futuro que não seja inteiramente governado pelas perdas anteriores.

Essa dimensão torna a parceria dos dois especialmente significativa. Eles não se tornam amigos porque possuem histórias idênticas, mas porque, de maneiras distintas, conhecem a experiência de não se sentirem completamente compreendidos.

É importante, porém, não confundir amizade com substituição familiar. Spock não se torna o pai de Kirk, e Kirk não precisa assumir o papel de salvador emocional de Spock. A relação funciona porque os dois se reconhecem como indivíduos, e não porque um deles tenha a obrigação de consertar o outro.

A amizade oferece companhia, confronto, lealdade e novas possibilidades. Não apaga as feridas, mas ajuda a impedir que elas determinem sozinhas o destino de alguém.

O legado dos pais não está apenas no sangue

O filme apresenta ainda outra reflexão importante: a influência paterna não se limita à biologia.

Sarek, pai de Spock, e George Kirk, pai de James, representam formas distintas de legado. Um está presente, mas enfrenta dificuldades para compreender integralmente o filho; o outro desaparece antes mesmo de conhecê-lo, deixando um exemplo de coragem.

Essas duas experiências mostram que a paternidade não pode ser resumida à presença física nem à transmissão de valores por meio de discursos.

Um pai pode influenciar o filho por suas atitudes, pelos erros que comete, pelas expectativas que impõe e até pelas ausências que deixa. O filho, por sua vez, não recebe esse legado como uma sentença definitiva. Ele pode questioná-lo, reinterpretá-lo e escolher o que deseja preservar.

Talvez seja por isso que a jornada de Kirk seja tão simbólica. Ele não precisa viver tentando reproduzir o sacrifício do pai. Precisa compreender o significado daquele gesto e encontrar sua própria maneira de assumir responsabilidades.

Spock enfrenta uma tarefa semelhante: reconhecer suas origens sem permitir que elas decidam, sozinhas, os limites de sua identidade.

No fundo, amadurecer é aprender a distinguir aquilo que recebemos daquilo que escolhemos fazer com o que recebemos.

O verdadeiro sentido de assumir o comando

Ao final, Star Trek não fala apenas sobre conquistar uma cadeira de capitão ou salvar a humanidade de uma ameaça extraterrestre. Fala sobre aprender a assumir responsabilidades sem imaginar que precisamos enfrentar tudo sozinhos.

Kirk amadurece quando começa a compreender que liderar não é simplesmente agir de acordo com a própria vontade. Spock amadurece quando reconhece que suas emoções não anulam sua inteligência nem sua capacidade de decidir. Ambos descobrem que a confiança não é uma concessão à fraqueza, mas uma condição para que pessoas diferentes consigam realizar algo extraordinário.

A nave Enterprise torna-se, assim, uma espécie de metáfora da própria vida. Ninguém a conduz sozinho. Cada integrante possui habilidades, limitações e responsabilidades diferentes. O sucesso depende da capacidade de transformar essas diferenças em cooperação.

E essa talvez seja uma mensagem especialmente importante em uma sociedade que frequentemente confunde independência com isolamento e força com incapacidade de demonstrar sentimentos.

Não somos menos fortes porque precisamos dos outros. Muitas vezes, é justamente quando reconhecemos essa necessidade que começamos a amadurecer.

Ninguém escolhe de onde vem, mas pode escolher para onde vai

O Star Trek de J. J. Abrams consegue revitalizar uma franquia clássica porque compreende que, por trás de qualquer aventura grandiosa, precisam existir conflitos humanos capazes de nos tocar.

A ausência paterna de Kirk, o conflito de identidade de Spock e a amizade construída entre os dois não são elementos secundários em meio à ação. São o que dá sentido à jornada.

O espaço sideral amplia as dimensões do conflito, mas as perguntas continuam sendo as mesmas que atravessam nossas vidas: como lidar com a perda? Como conviver com quem pensa diferente? Como honrar nossos pais sem nos tornarmos prisioneiros de suas expectativas? E como encontrar pessoas que nos ajudem a crescer sem exigir que abandonemos nossa individualidade?

Talvez a maior lição do filme esteja justamente na relação entre Kirk e Spock. Um não precisa apagar a lógica do outro, assim como um não precisa abandonar suas emoções para que a amizade funcione. Eles precisam aprender a reconhecer o valor daquilo que, inicialmente, os separa.

No fim das contas, a verdadeira viagem não é apenas aquela que leva uma nave a lugares desconhecidos. É aquela que nos obriga a sair das certezas que construímos sobre nós mesmos.

George Kirk deixa ao filho um exemplo. Sarek deixa ao filho uma herança cultural e afetiva complexa. E Kirk e Spock, por meio da amizade, descobrem que o passado pode explicar quem somos, mas não precisa determinar inteiramente quem seremos.

Porque, no universo de Star Trek, assim como na vida, ninguém escolhe todas as circunstâncias em que nasce. Mas podemos escolher o que faremos com elas, e, principalmente, quem estará ao nosso lado quando chegar a hora de seguir viagem.