segunda-feira, 22 de junho de 2026
É o show das BETs na Cazé TV
domingo, 21 de junho de 2026
Shakira, a FIFA e o Feminismo de Camarote
Uma ironia difícil de ignorar quando Shakira volta a emprestar sua voz à FIFA.
A mesma cantora que construiu parte de sua imagem pública como defensora da autonomia feminina, da independência das mulheres e da superação de relacionamentos abusivos, torna-se novamente a trilha sonora oficial de uma das instituições mais associadas às contradições do capitalismo global.
Não se trata de questionar o talento de Shakira. Poucos artistas conseguiram atravessar tantas décadas permanecendo relevantes. Tampouco se trata de negar suas contribuições para causas sociais. A questão é outra: até que ponto o feminismo pode ser transformado em produto de marketing sem perder sua capacidade crítica?
A FIFA não é apenas uma organização esportiva. É uma máquina bilionária que movimenta interesses políticos, econômicos e comerciais em escala planetária. Ao longo de sua história recente, acumulou denúncias de corrupção, favorecimento político, exploração de trabalhadores em grandes obras e submissão dos interesses esportivos aos interesses comerciais.
Quando uma artista que se apresenta como voz do empoderamento feminino associa sua imagem a essa engrenagem, surge uma pergunta inevitável: empoderamento para quem?
O feminismo que desafia estruturas de poder deveria, em tese, questionar sistemas que transformam pessoas em ferramentas descartáveis para gerar lucro. Entretanto, boa parte do feminismo pop contemporâneo parece ter substituído a crítica estrutural pela celebração do sucesso individual. O importante já não é mudar o sistema, mas alcançar o topo dele.
Nesse modelo, uma mulher pode tornar-se símbolo feminista enquanto participa das mesmas estruturas econômicas que produzem desigualdades. O discurso passa a ser: não importa que o navio continue afundando, desde que haja mais mulheres na cabine de comando.
A trajetória recente de Shakira ilustra essa contradição.
Após transformar sua separação em um poderoso discurso de autonomia pessoal, a cantora consolidou-se como símbolo de resistência feminina. Porém, ao associar sua imagem novamente à FIFA, acaba ajudando a legitimar uma instituição cuja lógica pouco dialoga com qualquer projeto genuinamente emancipador.
Talvez a contradição não seja exclusivamente dela. Talvez seja a contradição de toda uma época.
Vivemos o momento histórico em que a rebeldia virou marca registrada, a contestação virou estratégia de marketing e a crítica ao poder tornou-se um segmento lucrativo da indústria do entretenimento. O mercado descobriu que vender discursos de transformação pode ser tão rentável quanto vender perfumes, refrigerantes ou direitos de transmissão esportiva.
Nesse contexto, o feminismo corre o risco de ser reduzido a uma estética. Uma camiseta. Um slogan. Uma campanha publicitária. Uma música-tema de um evento bilionário.
Shakira não criou essa lógica. Mas participa dela.
E talvez seja justamente essa a crítica mais incômoda: não a de que uma artista seja hipócrita, mas a de que o capitalismo contemporâneo se tornou tão eficiente que consegue transformar até mesmo discursos de resistência em combustível para sua própria máquina.
Quando isso acontece, o problema deixa de ser a cantora que canta na abertura do espetáculo. O problema passa a ser o espetáculo em si.
Marjane Satrapi: a mulher que transformou a memória em resistência
A morte de Marjane Satrapi, aos 56 anos, encerra uma das trajetórias mais singulares da literatura gráfica contemporânea.
Conhecida mundialmente por Persépolis, Satrapi não apenas revolucionou os quadrinhos como linguagem literária, mas também ajudou a redefinir a maneira pela qual o Ocidente enxerga o Irã, a diáspora e a experiência do exílio.
Sua morte, anunciada pela família em junho de 2026, foi recebida com pesar por leitores, artistas e defensores dos direitos humanos em todo o mundo.
A menina que viu uma revolução
Nascida em 1969, na cidade iraniana de Rasht, e criada em Teerã, Satrapi pertenceu a uma geração marcada pela ruptura histórica da Revolução Islâmica de 1979.
Filha de uma família politicamente engajada e crítica tanto da monarquia do xá quanto da teocracia que a sucedeu, ela testemunhou ainda criança a transformação radical de seu país.
Aos 14 anos, foi enviada para a Áustria pelos pais, numa tentativa de protegê-la do endurecimento do regime iraniano e da guerra contra o Iraque. A experiência do exílio — marcada por solidão, desenraizamento e crises de identidade — tornaria-se um dos temas centrais de sua obra.
Mais tarde, estabeleceu-se definitivamente na França, onde encontrou o ambiente artístico que permitiria florescer sua carreira internacional.
Persépolis: quando a História ganhou rosto humano
Publicada originalmente entre 2000 e 2003, Persépolis tornou-se rapidamente um marco cultural. A obra narra a infância e juventude da própria autora durante a Revolução Islâmica e seus anos de exílio na Europa. Mas sua importância ultrapassa a autobiografia.
O grande mérito de Satrapi foi compreender algo que historiadores e jornalistas frequentemente esquecem: regimes políticos afetam pessoas concretas.
Enquanto muitos livros sobre o Irã descreviam governos, líderes religiosos ou conflitos geopolíticos, Satrapi falava sobre uma adolescente que gostava de rock, discutia com os pais, sonhava com liberdade e tentava encontrar seu lugar no mundo. O resultado foi uma obra capaz de humanizar uma sociedade frequentemente reduzida a estereótipos.
Seu traço em preto e branco, deliberadamente simples, funcionava como uma linguagem universal. Sem o excesso de realismo, as imagens tornavam-se símbolos. O particular transformava-se em coletivo.
Nesse sentido, Persépolis realizou algo raro: foi simultaneamente testemunho histórico, romance de formação e denúncia política.
Uma crítica ao autoritarismo — e também aos preconceitos ocidentais
Reduzir Satrapi à condição de crítica do regime iraniano seria uma leitura incompleta.
Embora denunciasse abertamente a repressão política, a censura e a desigualdade de gênero impostas pela República Islâmica, ela também combatia a visão simplista do Ocidente sobre o Oriente Médio.
Em entrevistas e textos, insistia que os iranianos não podiam ser resumidos a fanáticos religiosos ou vítimas passivas. Havia humor, cultura, contradições e humanidade naquela sociedade. Seu trabalho procurava recuperar justamente essa complexidade.
Essa posição lhe garantiu um lugar singular no debate público: Satrapi recusava tanto a propaganda do regime iraniano quanto as caricaturas produzidas por certos discursos ocidentais.
Muito além dos quadrinhos
Embora Persépolis tenha se tornado sua obra mais conhecida, Satrapi construiu uma produção diversificada.
Livros como Bordados e Frango com Ameixas aprofundaram sua investigação sobre memória, afetos e identidade cultural.
Sua adaptação animada de Persépolis, codirigida com Vincent Paronnaud, conquistou o Prêmio do Júri no Festival de Cannes e recebeu indicação ao Oscar, consolidando-a também como cineasta.
Nas décadas seguintes, continuou transitando entre literatura, cinema e ativismo, tornando-se uma das vozes mais respeitadas na defesa da liberdade de expressão e dos direitos das mulheres iranianas.
O legado de uma narradora da liberdade
Poucos autores conseguiram realizar aquilo que Satrapi alcançou: transformar uma experiência profundamente pessoal em patrimônio universal.
Ela demonstrou que os quadrinhos podiam ocupar o mesmo espaço intelectual da grande literatura memorialística. Mais do que isso, provou que a arte pode funcionar simultaneamente como documento histórico e exercício de empatia.
Sua morte encerra uma trajetória interrompida precocemente, mas sua obra permanece extraordinariamente atual. Em um mundo cada vez mais polarizado, Persépolis continua lembrando algo essencial: antes das ideologias, das bandeiras e das revoluções, existem pessoas.
E talvez seja justamente por isso que Marjane Satrapi sobreviverá ao seu tempo.
Não apenas porque contou a história do Irã.
Mas porque contou, com rara honestidade, a história universal de quem tenta permanecer livre quando a História decide esmagar os indivíduos.
A Copa do Mundo me dá sono
sábado, 20 de junho de 2026
Alerta sincero assusta o Brasil
Depois descobriu-se que a mensagem era fruto de uma invasão criminosa ao sistema. Um ato de vandalismo digital. Um crime. Um absurdo.
Mas eis a ironia: talvez tenha sido o alerta mais sincero que o país recebeu nos últimos anos.
Porque, convenhamos, se existe uma emergência nacional sobre a qual ninguém pode alegar surpresa, é justamente essa.
Vivemos um tempo em que o ódio virou identidade política. Em que a agressividade foi transformada em virtude. Em que o preconceito deixou de ser um defeito a ser escondido e passou a ser exibido como medalha de coragem.
Não surgiu do nada.
Durante anos, bosonaristas normalizaram discursos que antes causariam constrangimento público.
Mulheres passaram a ser atacadas por ocuparem espaços de poder.
Jornalistas passaram a ser perseguidas por fazerem perguntas.
Professoras passaram a ser tratadas como inimigas da nação.
A violência verbal virou espetáculo.
Ao mesmo tempo, grupos neonazistas multiplicaram-se pelo país. Símbolos antes restritos aos esgotos da história reapareceram em redes sociais, fóruns e manifestações. A intolerância encontrou um ecossistema perfeito: algoritmos que recompensam indignação e lideranças que descobriram que o ressentimento rende votos.
E então chega aquele alerta.
"Misantropia".
Uma única palavra.
Acidental? Sim.
Criminosa em sua origem? Evidentemente.
Mas profundamente adequada ao momento histórico? Difícil negar.
Talvez porque o Brasil tenha se acostumado a ignorar alertas verdadeiros.
Ignorou os alertas sobre a radicalização política.
Ignorou os alertas sobre a violência contra mulheres. Contra negros. Contra LGBTs. Intolerância religiosa. Etc, etc, atrás de etc...
Ignorou os alertas sobre o crescimento de grupos extremistas.
Ignorou os alertas sobre a erosão da convivência democrática.
Quando finalmente apareceu uma mensagem estranha nos celulares, muita gente se espantou. Curioso. Há anos os sinais estão piscando diante dos nossos olhos.
A diferença é que, desta vez, o aviso veio acompanhado daquele som irritante que obriga as pessoas a olhar para a tela.
Talvez seja justamente isso que esteja faltando ao país.
Não um hacker.
Mas um alarme.
Um alarme capaz de interromper a distração coletiva e anunciar:
"Atenção. Atenção. Emergência democrática em andamento."
Porque enchentes destroem cidades.
Mas o ódio organizado destrói sociedades.
E, infelizmente, contra esse desastre ainda não existe sirene suficiente.

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