Lingua Preta
Não me faça perguntas, e eu não te direi mentiras.
sábado, 24 de janeiro de 2026
Yes, Nós temos Bananas
sexta-feira, 23 de janeiro de 2026
A luta contra o autoritarismo é uma obrigação
A memória pública do século XX costuma simplificar a história da resistência ao fascismo e ao nazismo.
Com frequência, ela é apresentada como um confronto entre Esquerda e Direita, no qual apenas um campo político teria se colocado, de forma consistente, ao lado da democracia.
A documentação histórica, no entanto, revela um quadro mais complexo: a resistência ao totalitarismo foi plural, atravessou tradições ideológicas distintas e, em muitos casos, expôs contradições internas profundas.
Durante a Segunda Guerra Mundial, diferentes grupos — comunistas, liberais, conservadores, democratas-cristãos e nacionalistas não fascistas — atuaram contra regimes autoritários por motivações diversas, mas convergentes em um ponto central: a recusa ao Estado totalitário e ao poder concentrado em líderes incontestáveis.
Livorno e o comunismo italiano na resistência
A cidade de Livorno, na Toscana, ocupa um lugar singular nessa história. Em 1921, foi ali que se fundou o Partido Comunista Italiano (PCI). Durante o regime de Mussolini, seus militantes sofreram repressão sistemática: prisões, exílio interno e clandestinidade. Após a ocupação alemã da Itália, em 1943, os comunistas de Livorno tornaram-se protagonistas da resistência local, integrando brigadas partisans, organizando sabotagens e sustentando redes de apoio civil em uma cidade duramente atingida por bombardeios.
Embora o PCI estivesse politicamente alinhado à União Soviética e reconhecesse em Stalin o líder do principal esforço militar contra o nazismo, a prática da resistência italiana foi marcada por forte autonomia local. A prioridade não foi a instauração imediata de um regime ideológico, mas a derrota do fascismo e a reconstrução de instituições nacionais.
No pós-guerra, essa experiência contribuiu para a consolidação do chamado “comunismo italiano”, que aceitou o pluralismo partidário, a disputa eleitoral e a convivência institucional. Ao longo das décadas seguintes, inclusive após a revelação dos crimes do stalinismo, o PCI e suas bases sociais — entre elas Livorno — passaram por processos de revisão crítica e distanciamento de modelos autoritários.
Essa trajetória histórica oferece um dado relevante para o debate contemporâneo: há experiências de Esquerda que, confrontadas com o autoritarismo, optaram por reformular práticas e romper com a defesa de regimes personalistas. Ignorar esse aprendizado enfraquece qualquer discurso democrático.
A resistência liberal e conservadora
A documentação histórica também mostra que a oposição ao fascismo não foi exclusividade da Esquerda.
Na Alemanha, grupos liberais e conservadores — como o Círculo de Kreisau e setores do alto comando militar envolvidos na Operação Valquíria — conspiraram contra Hitler, motivados pela defesa do Estado de direito e pela percepção de que o regime levava o país à ruína.
Na França, o gaullismo organizou uma resistência nacionalista e republicana.
Na Itália, liberais, democratas-cristãos e monarquistas romperam com Mussolini em 1943.
Na Polônia ocupada, o Armia Krajowa, de orientação conservadora e anticomunista, formou a maior organização de resistência da Europa.
No Reino Unido, o conservadorismo parlamentar, sob a liderança de Winston Churchill, tornou-se um dos pilares da luta contra o nazismo.
Esses exemplos indicam que setores da direita, quando vinculados a instituições, legalidade e limites ao poder, foram capazes de resistir ao autoritarismo — inclusive pagando alto custo político e pessoal.
Lições históricas e o debate atual
A análise comparada dessas experiências aponta para uma conclusão recorrente nos estudos históricos: o autoritarismo não se define apenas por ideologia, mas por práticas concretas de poder. Culto à personalidade, desprezo por instituições, repressão a opositores e manipulação do processo eleitoral foram características comuns tanto ao fascismo quanto a outros regimes ditatoriais do século XX.
Nesse sentido, a história de Livorno sugere que a Esquerda democrática fortalece sua legitimidade quando é capaz de criticar e rejeitar ditaduras, independentemente de alinhamentos geopolíticos. Da mesma forma, a tradição liberal e conservadora europeia demonstra que a Direita preserva sua herança quando se recusa a apoiar lideranças golpistas, mesmo quando estas se apresentam como representantes de valores nacionais ou morais.
O registro histórico do século XX é consistente em um ponto: regimes personalistas e autoritários corroem tanto projetos revolucionários quanto tradições conservadoras. A resistência ao fascismo não foi um patrimônio exclusivo de um campo político, mas o resultado de escolhas feitas — ou recusadas — diante do poder absoluto.
A história não oferece receitas prontas, mas fornece critérios. Entre eles, talvez o mais claro seja este: quando a democracia é relativizada em nome da conveniência ideológica, o resultado tende a ser menos política e mais ruína institucional.
Por fim, não podemos deixar de citar, a vergonha que é para a Direita brasileira apoiar um golpista fascistóide como Jair Bolsonaro.
Da mesma maneira que a Esquerda brasileira, não pode se dar ao luxo de apoiar ditadores como Nicolás Maduro.
Dom Casmurro e 13 Porquês - a genialidade que aproxima duas obras distantes
Dom Casmurro, de Machado de Assis, e 13 Porquês, de Jay Asher, parecem obras que não poderiam estar mais distantes uma da outra.
Um nasce no Brasil do século XIX, marcado pelo Realismo, pela ironia e pela desconfiança da própria narrativa. O outro surge no século XXI, voltado ao público jovem, lidando com temas urgentes como bullying, silêncio social e sofrimento psicológico.
Ainda assim, existe um ponto de contato poderoso entre os dois: ambos contam histórias cujo final é conhecido desde o começo — e, mesmo assim, nos fazem acreditar que tudo pode mudar.
É justamente aí que mora a genialidade narrativa dessas obras.
O suspense não está no final, mas no caminho
Em Dom Casmurro, Bentinho não esconde o fracasso de sua vida afetiva. Desde o início, sabemos que o amor por Capitu terminou em amargura, solidão e suspeita. Já em 13 Porquês, a morte de Hannah Baker é apresentada logo de saída. Não há mistério sobre o desfecho.
Então por que seguimos lendo?
Porque, nas duas narrativas, o verdadeiro suspense não está no o que acontece, mas no como poderia ter sido diferente. Cada lembrança de Bentinho, cada fita deixada por Hannah, cria no leitor a sensação incômoda de que uma escolha mínima — uma conversa, um gesto, uma escuta atenta — talvez tivesse mudado tudo.
Mesmo sabendo que não mudará.
A armadilha da esperança retrospectiva
Machado de Assis faz algo brilhante: transforma Bentinho em um narrador que conversa com o leitor, que se justifica, hesita, se contradiz. Ele não afirma com todas as letras que Capitu o traiu — ele sugere, insinua, planta dúvidas. E nós, leitores, entramos no jogo. Relembremos cada cena tentando encontrar o momento exato em que a história “desandou”.
Jay Asher constrói esse mesmo efeito com outra linguagem. As fitas de Hannah Baker organizam o passado como uma sequência de causas e efeitos. A cada episódio, pensamos: se alguém tivesse agido diferente aqui… A leitura avança movida por essa esperança tardia, quase cruel.
Nos dois casos, somos levados a fazer algo impossível: revisar o passado acreditando que ele ainda pode ser consertado.
Narradores que controlam a versão dos fatos
Bentinho e Hannah Baker têm algo em comum: ambos dominam completamente a narrativa. Eles escolhem o que contar, como contar e em que ordem contar. Não pedem exatamente nossa absolvição — pedem nossa adesão emocional.
O leitor não recebe a verdade objetiva. Recebe uma versão. E é essa versão, cuidadosamente construída, que nos envolve. Em Dom Casmurro, nunca saberemos se Capitu traiu ou não. Em 13 Porquês, a culpa pela morte de Hannah se dilui entre muitos personagens, nenhum deles um vilão clássico.
A força dessas histórias está menos nas respostas e mais no desconforto das perguntas que permanecem.
Tragédias feitas de pequenas coisas
Nem Machado nem Asher apostam em grandes acontecimentos espetaculares. Suas tragédias nascem do cotidiano: de silêncios, mal-entendidos, inseguranças, omissões. Bentinho não é um tirano; os personagens de 13 Porquês não são monstros. São pessoas comuns — e isso torna tudo mais perturbador.
Porque, se o erro foi pequeno, talvez pudesse ter sido evitado.
E é essa sensação que mantém o leitor preso à leitura, mesmo sabendo que o final já está escrito.
Quando a esperança faz parte da tragédia
Dom Casmurro e 13 Porquês provam que uma boa história não precisa esconder seu desfecho para ser envolvente. Às vezes, revelar o fim desde o início torna a experiência ainda mais dolorosa — e mais humana.
Ambas as obras nos conduzem a uma conclusão desconfortável: há histórias que não mudam não por força do destino, mas porque as escolhas humanas quase sempre chegam tarde demais.
E talvez seja por isso que seguimos lendo, página após página — não para mudar o final, mas para entender onde, exatamente, tudo começou a dar errado.
TEXTO DE:
Tarciso Tertuliano
quinta-feira, 22 de janeiro de 2026
Edílson, o desconhecido do BBB
![]() |
| Arte: Walace Sales |
terça-feira, 20 de janeiro de 2026
Uma História - No Legado, o meu DNA
segunda-feira, 19 de janeiro de 2026
Azeite de Oliva - entenda como funciona o acordo Mercosul / União Européia
Convém começar pelo óbvio — justamente porque o óbvio costuma ser soterrado pela retórica.
Acordos comerciais não são atos de fé. Não são “bons” ou “maus” em si mesmos. Produzem efeitos concretos, mensuráveis e, quase sempre, assimétricos.
O acordo entre Mercosul e União Europeia não foge à regra. E o azeite de oliva é um ótimo exemplo para entender o que está em jogo.
O produto estrangeiro: a virtude do acordo segundo seus defensores
Com o acordo em vigor, o azeite europeu tende a entrar no Brasil pagando menos tarifas. Isso não é ideologia; é matemática. Menor imposto na origem significa menor custo para o importador, maior oferta e, em alguma medida, preços mais baixos ao consumidor.
Resultado?
O brasileiro passa a encontrar com mais facilidade azeites espanhóis, portugueses, italianos e gregos (inclusive de melhor qualidade) a preços menos proibitivos. O discurso oficial celebra: concorrência, eficiência, escolha. Tudo muito bonito.
E não é falso. Apenas incompleto.
O que não aparece no rótulo
O problema começa quando se finge que o mercado é um jogo de iguais. Não é.
O azeite europeu que chega ao Brasil é produzido em países que:
Subsidiaram sua agricultura por décadas
Financiaram tecnologia, irrigação e pesquisa
Construíram cadeias produtivas maduras e protegidas
Já o azeite brasileiro — notadamente o gaúcho — é fruto de uma atividade ainda incipiente, de custos elevados, crédito caro e zero tradição secular. Colocar esses dois produtos para “competir” em nome da abstração do livre mercado não é liberalismo; é cinismo analítico.
O produtor nacional: concorrência ou esmagamento?
Com o avanço do azeite europeu:
O produtor brasileiro vê sua margem encolher
O investimento se torna mais arriscado
Pequenos e médios produtores tendem a desistir
Os mais otimistas falam em “especialização”, “nicho premium”, “valor agregado”. Ótimo — desde que existam políticas públicas que tornem isso viável. Sem elas, o resultado é previsível: desindustrialização do campo, travestida de modernização.
E o emprego? Não desaparece — evapora
Aqui entra o ponto que raramente vira manchete. A queda de preços é visível. A perda de empregos, não.
Quando a produção local encolhe:
Some o emprego rural
Some o trabalho indireto
Some o incentivo à inovação local
Os postos de trabalho gerados pelo azeite europeu continuam na Europa. O Brasil vira consumidor eficiente e produtor irrelevante. Há quem chame isso de “integração competitiva”. Eu prefiro chamar de escolha política não assumida.
O padrão estrutural
O azeite é apenas um caso didático de um movimento maior: a União Europeia exporta produtos com valor agregado; o Mercosul exporta soja, minério e carne. Quando tentamos produzir algo além disso, somos aconselhados a “nos adaptar”.
Adaptar-se a quê?
À posição subordinada?
A pergunta que importa
Não se trata de demonizar o acordo nem de sacralizar a produção nacional. Trata-se de abandonar a mistificação. Sem política industrial, sem crédito, sem proteção transitória, o acordo melhora a vida do consumidor no curto prazo e empobrece a estrutura produtiva no médio.
O azeite pode até ficar mais barato.
A economia, não.
E isso não é uma fatalidade do mercado. É uma decisão — ou a ausência dela.
Conclusão
O acordo no geral melhora as relações comerciais entre os dois continentes, porém, deve ser tratado com responsabilidade.
Usamos aqui um único exemplo: o azeite de oliva. Para outros produtos haverá ganho para o Brasil, e prejuízo a produtores europeus.
O que o Brasil precisará fazer, é se reajustar a nova realidade que se desenhará no futuro, criando políticas internas que possam dar ao produtor nacional, condições de continuar disputando mercado interno e obviamente, ampliar o mercado externo.
Por isso, não só no Mercosul, mas também no Brics, o Brasil precisa manter o protagonismo e o pragmatismo, para continuar crescendo economicamente.
domingo, 18 de janeiro de 2026
Mercosul e União Europeia assinam acordo apesar de Trump
O acordo entre Mercosul e União Europeia finalmente saiu do papel.
Sim, aquele mesmo que atravessou governos, modismos ideológicos, crises ambientais, surtos protecionistas e toneladas de ceticismo diplomático.
Convém registrar, antes que o debate seja capturado por torcidas organizadas, um fato objetivo: trata-se de uma vitória pessoal e política do presidente Lula, o governante que mais insistiu (e por mais tempo) na ideia de que esse pacto era não apenas possível, mas necessário.
Lula defendeu o acordo quando ele era tratado como inevitável, sustentou-o quando passou a ser visto como inconveniente e o recolocou no centro da agenda quando muitos já o davam como enterrado.
Política externa não é improviso; é persistência. E nisso o presidente brasileiro mostrou método, memória e leitura de mundo.
O acordo, em linhas gerais, cria uma das maiores áreas de livre comércio do planeta, conectando dois blocos que somam quase 800 milhões de pessoas.
Para o Mercosul, amplia-se o acesso a mercados europeus para produtos agrícolas e commodities. Para a União Europeia, consolida-se a entrada em mercados sul-americanos para bens industrializados, serviços e investimentos.
Não há altruísmo: há interesses bem calculados dos dois lados.
Mas é preciso dizer o óbvio — algo que anda em falta no debate público.
A assinatura não significa vigência imediata.
Agora começa a fase menos fotogênica e mais decisiva: revisão jurídica, traduções oficiais e, sobretudo, a ratificação parlamentar.
Na Europa, o acordo enfrentará resistências protecionistas embaladas em discurso ambiental.
No Mercosul, passará por congressos que nem sempre primam pela visão estratégica de longo prazo.
Há ainda um elemento externo que ajuda a explicar a retomada do acordo: Donald Trump.
Com sua agenda declaradamente protecionista, hostil ao multilateralismo e avessa a pactos amplos, Trump tornou-se o grande antagonista involuntário desse processo.
O acordo Mercosul–União Europeia é, também, uma resposta geopolítica à lógica do “cada um por si” que ele representa. Trump terá de engolir: enquanto ele ergue muros comerciais, outros constroem pontes, ainda que imperfeitas.
Os protocolos adicionais sobre sustentabilidade seguem como o principal ponto de atrito.
Existe preocupação ambiental legítima? Sim.
Existe também o velho protecionismo europeu com nova embalagem verde? Evidentemente.
Cabe ao Brasil e aos parceiros do Mercosul negociar com firmeza, sem submissão nem bravatas.
O acordo não é panaceia. Não industrializa o Brasil por decreto nem resolve as assimetrias históricas do bloco sul-americano.
Mas recoloca o país no tabuleiro internacional com previsibilidade, diálogo e protagonismo, algo que havia sido abandonado.
No mundo real, acordos não são perfeitos. São possíveis. E este só voltou a ser possível porque alguém decidiu insistir — mesmo quando o vento soprava contra.








