Poucas expressões circulam com tanta desenvoltura — e com tão pouca precisão — no debate público atual quanto “anti-sistema”.
Ela aparece em discursos eleitorais, em threads indignadas, em manifestos improvisados e em mesas de bar.
É uma palavra de ordem que une sujeitos muito diferentes, frequentemente inimigos entre si, mas que compartilham uma mesma certeza: o problema está no sistema.
O detalhe incômodo é que quase ninguém concorda sobre o que exatamente ele seja.
Do ponto de vista da teoria política, o “anti-sistema” funciona como aquilo que Ernesto Laclau chamou de significante vazio: um termo que não possui um conteúdo fixo, mas que se torna um ponto de convergência de demandas, frustrações e ressentimentos heterogêneos.
Ele não explica a realidade; antes, organiza afetos. É menos um conceito e mais um recipiente.
Na Esquerda mais radical, o sistema costuma receber um nome clássico e respeitável: capitalismo.
Ele aparece como uma totalidade quase metafísica, capaz de explicar desde a precarização do trabalho até a ansiedade individual.
Aqui, o anti-sistema carrega uma tradição teórica robusta — Marx, Rosa Luxemburgo, Gramsci —, mas muitas vezes herda também um problema antigo: a tendência a transformar uma crítica estrutural legítima numa explicação totalizante, impermeável a nuances, mediações institucionais e contradições históricas.
Na outra ponta, a Direita delirante — para usar um termo suave — preenche esse mesmo significante com algo bem menos delimitado: o globalismo.
Trata-se de um conceito curioso, porque raramente aparece definido de forma rigorosa. Ele pode significar ao mesmo tempo organismos multilaterais, elites financeiras, pautas identitárias, universidades, imprensa, vacinas, ONGs, a ONU, George Soros e, em dias mais criativos, até o clima. É o sistema como conspiração difusa, não como estrutura econômica ou política analisável.
O resultado é paradoxal: grupos que discordam em quase tudo compartilham a mesma gramática do ressentimento.
Como observou Carl Schmitt, a política moderna tende a se organizar pela distinção amigo/inimigo.
(Na nossa realidade baseada em conceitos cristãos, o bem e o mal.)
O “sistema”, nesse sentido, é o inimigo perfeito: abstrato o suficiente para nunca ser plenamente derrotado, mas concreto o bastante para justificar indignações permanentes.
Essa elasticidade explica por que o discurso anti-sistema sobrevive tão bem mesmo quando seus porta-vozes chegam ao poder.
Quando o “anti-sistema” governa, o sistema simplesmente muda de endereço. Já não está mais no Palácio, mas na burocracia, no Judiciário, na imprensa, nas universidades, no mercado internacional — ou em qualquer lugar conveniente para preservar a narrativa da pureza traída.
Como diria Hannah Arendt, a substituição da análise pela lógica do ressentimento é um dos primeiros sinais de empobrecimento do espaço público.
Há, evidentemente, razões reais para o mal-estar contemporâneo: desigualdade persistente, crises de representação, financeirização da vida, erosão da confiança institucional.
O problema começa quando o “anti-sistema” deixa de ser uma crítica e se torna uma identidade. Nesse estágio, ele já não quer reformar, compreender ou disputar o sistema — quer apenas habitá-lo como inimigo permanente, pois é dessa oposição que retira sentido.
No fim, o discurso anti-sistema revela menos sobre o sistema que pretende combater e mais sobre a dificuldade contemporânea de lidar com a complexidade.
Como advertia Isaiah Berlin, o desejo de explicações únicas para problemas plurais é intelectualmente sedutor — e politicamente perigoso.
O sistema, seja ele capitalismo, globalização ou modernidade tardia, não cabe inteiro em um slogan. Mas slogans, como sabemos, são muito mais fáceis de gritar do que conceitos são de pensar.






