domingo, 12 de abril de 2026
Tristirinhas do Thiago Muniz
sábado, 11 de abril de 2026
Caso Alemão: quando a fiscalização repete endereço
Na geografia caprichosa das manchetes, algumas histórias parecem maiores do que são, e outras que, sendo pequenas no papel, ganham o peso de um símbolo.
A nova prisão do empresário Edson Alemão, a segunda em menos de seis meses em Campo Grande, pertence a essa segunda categoria: deixou de ser apenas um caso policial para se transformar em narrativa urbana, dessas que circulam em padarias, grupos de WhatsApp e mesas de bar.
Porque, convenhamos, o fato bruto já não caminha sozinho. Ele vem acompanhado de uma pergunta incômoda, repetida com variações: por que sempre ele?
Ou, ampliando o foco, por que operações desse porte parecem mirar com lupa negócios específicos, enquanto gigantes do setor seguem suas rotinas sem sobressaltos equivalentes?
Não se trata aqui de absolver previamente ninguém — essa é tarefa da Justiça, com seus ritos e provas. Mas o sentimento difuso de seletividade é, por si só, um fenômeno digno de nota.
Quando a população passa a desconfiar não apenas do investigado, mas também da intensidade e da direção da fiscalização, o problema deixa de ser individual e passa a ser institucional.
Campo Grande, como tantas cidades fora do eixo mais visível do país, carrega uma peculiaridade: o equilíbrio delicado entre pequenos e médios empresários e as grandes redes nacionais.
É um ecossistema em que a concorrência não é apenas econômica mas é também, simbólica. O comerciante local não disputa só preço; disputa espaço, clientela e, muitas vezes, sobrevivência.
Nesse contexto, operações reiteradas sobre um mesmo alvo acabam alimentando uma narrativa de assimetria. Não importa, necessariamente, se ela é verdadeira ou não, importa que ela encontra terreno fértil.
Afinal, para o cidadão comum, parece desproporcional que estruturas gigantescas, com histórico nacional e volume financeiro incomparável, raramente sejam vistas sob o mesmo tipo de ação ostensiva.
A sensação que fica é a de que o rigor tem endereço conhecido, enquanto a indulgência, ou ao menos a discrição, escolhe seus caminhos com mais cautela.
E sensação, em política e em vida pública, é matéria-prima poderosa. Ela molda reputações, influencia percepções e, não raro, corrói a confiança.
Há também um outro efeito colateral: o risco de transformar a fiscalização, que deveria ser instrumento de equilíbrio, em elemento de desconfiança.
Quando o cidadão passa a enxergar a ação do Estado como potencialmente enviesada, perde-se algo fundamental: a legitimidade.
Nada disso invalida a possibilidade de irregularidades concretas, nem diminui a importância de investigá-las com rigor. Mas a coerência é irmã da credibilidade. Se há critérios, eles precisam ser visíveis; se há regras, precisam parecer universais.
No fim das contas, o caso de Edson Alemão talvez diga menos sobre um homem e mais sobre o ambiente em que ele está inserido. Um ambiente onde, mais do que fatos, disputam espaço as interpretações e onde a linha entre justiça e percepção de injustiça é, muitas vezes, tênue demais.
E quando essa linha começa a borrar, não é apenas um empresário que está em julgamento.
É a própria confiança pública.
quarta-feira, 8 de abril de 2026
Quando a dor não é levada a sério por causa da cor da pele
Alguns episódios de séries médicas se contentam em entreter. E alguns que incomodam.
O episódio “Se não agora, quando?” (2x20), da série The Resident pertence, sem dúvida, à segunda categoria — porque não se limita à ficção. Ele acusa.
A história é simples, e justamente por isso devastadora: uma mulher negra sente dor. Muita dor. Dor suficiente para preocupar qualquer profissional atento. Mas não qualquer profissional distraído — ou pior, condicionado.
Ela fala. Insiste. Reclama. E não é ouvida.
O hospital segue funcionando, protocolos são cumpridos, formulários preenchidos, vozes técnicas ocupam o espaço. Mas o essencial falha: alguém escutar, de fato, o que está sendo dito.
Quando finalmente escutam, já é tarde.
E aqui está o ponto que desmonta qualquer tentativa de conforto: isso não é exceção. Isso é padrão.
Não se trata de um roteiro exagerado.
O episódio ecoa o caso real de Kira Johnson — uma mulher que morreu após uma cesárea, vítima de uma hemorragia ignorada por horas. Seu marido implorou por ajuda. Foi tratado como inconveniente. A medicina, naquele momento, não falhou por falta de conhecimento. Falhou por falta de escuta.
E quando se olha para os dados, a tr
agédia deixa de ser individual e ganha contornos estruturais.
Nos Estados Unidos, mulheres negras têm até quatro vezes mais risco de morrer durante a gravidez ou o parto do que mulheres brancas. Não é um desvio estatístico. É uma constante. E metade dessas mortes poderia ser evitada.
Evitar, nesse contexto, significa algo quase constrangedoramente básico: prestar atenção.
É comum que se tente explicar essa desigualdade apelando para fatores socioeconômicos. É um álibi confortável — e insuficiente. Porque mesmo mulheres negras com alta escolaridade e bom acesso à saúde continuam morrendo mais.
O problema não está apenas na porta de entrada do hospital. Está dentro dele.
Está na consulta apressada.
No sintoma relativizado.
Na dor subestimada.
Há estudos mostrando que pacientes negras são menos ouvidas quando relatam dor. Outros apontam para vieses inconscientes de profissionais de saúde — aqueles julgamentos automáticos que ninguém admite, mas que operam silenciosamente.
Não é o racismo explícito, que se reconhece e se condena. É o outro — o mais perigoso — porque se disfarça de rotina.
O episódio de The Resident acerta ao não transformar seus médicos em vilões caricatos. Eles não são monstros. São piores: são plausíveis.
São profissionais que seguem o fluxo, que confiam demais na própria avaliação, que não percebem quando deixam de enxergar o paciente como indivíduo e passam a tratá-lo como mais um caso.
E é assim que o erro se normaliza.
No fim, o que a série faz é nos obrigar a encarar uma pergunta desconfortável: quantas mortes poderiam ser evitadas se ouvir fosse levado tão a sério quanto diagnosticar?
Porque, no fundo, o que mata ali não é apenas a hemorragia. É a demora. É a dúvida seletiva. É o peso desigual dado à palavra de quem sofre.
E isso não é um problema de roteiro.
É um problema de mundo real.
Quando episódios como esse ocorrem na vida real, o fim não é apenas uma sequência de créditos subindo em uma tela de TV, o fim trágico, é a morte de mais uma mulher que ocorreu por um único motivo: a cor da sua pele.
Para esse tipo de caso, a medicina ainda não encrontrou uma cura.
domingo, 5 de abril de 2026
Duas mortes anunciadas e um país que finge surpresa
O Brasil acordou — mais uma vez — com a notícia que já não deveria surpreender ninguém, mas ainda choca: duas crianças, Sophya e Isaías, de 10 e 6 anos, mortas enquanto brincavam na garagem de casa, em Diadema.
Não estavam atravessando uma rodovia. Não estavam em situação de risco. Estavam brincando de pular corda.
O risco veio até elas — motorizado, alcoolizado e socialmente tolerado.
O motorista, segundo as autoridades, apresentava sinais de embriaguez confirmados por exame.
E aqui está o ponto: não se trata de um acidente. Trata-se de uma escolha. E mais do que isso — trata-se de um sistema que, na prática, permite que essa escolha seja feita todos os dias.
O Brasil gosta de chamar de “fatalidade” aquilo que é, na verdade, previsível.
Porque o país possui leis contra dirigir embriagado. A chamada Lei Seca existe. As campanhas existem. As operações existem.
Mas o que não existe — e isso é evidente — é o peso real da punição e, principalmente, a coerência entre discurso e prática.
A lógica é perversa: de um lado, o Estado adverte; do outro, ele lucra.
O mercado de bebidas alcoólicas movimenta bilhões de reais por ano no Brasil. Gera empregos, patrocina eventos, financia publicidade agressiva e sofisticada. Não vende apenas cerveja, vinho ou destilados — vende estilo de vida, celebração, pertencimento.
Vende a ideia de que beber é quase um ritual social obrigatório.
E aí está a blindagem.
Quando um setor econômico se torna grande demais, ele deixa de ser apenas um mercado, passa a ser um ator político.
E atores políticos não são enfrentados com facilidade. Regulá-los com rigor significa mexer com receitas, com publicidade, com interesses que atravessam o Congresso, governos e meios de comunicação.
O resultado é esse equilíbrio hipócrita: campanhas tímidas contra álcool ao volante convivendo com um bombardeio publicitário que glamouriza o consumo.
É como tentar apagar um incêndio com um copo d’água enquanto se despeja gasolina ao lado.
E, no meio disso, está a leniência penal.
Casos como o de Diadema frequentemente terminam classificados como homicídio culposo — quando não há intenção de matar. A pena, na prática, é reduzida, negociável, muitas vezes convertida. A mensagem que fica não é jurídica — é cultural: beber e dirigir pode até ser ilegal, mas não é tratado como um crime gravíssimo.
E deveria ser.
Porque não há nada de “culposo” na decisão de assumir o volante após beber. O risco é conhecido, amplamente divulgado, repetido à exaustão. Quem dirige embriagado não ignora o perigo — escolhe ignorá-lo.
Sophya e Isaías não morreram por falta de lei. Morreram por excesso de tolerância.
Tolerância institucional, que pune pouco.
Tolerância econômica, que lucra muito.
E tolerância social, que ainda trata o “beber e dirigir” como deslize — nunca como violência.
Enquanto o Brasil não encarar o problema com a seriedade que ele exige — endurecendo penas, restringindo publicidade, tratando o álcool como questão de saúde pública e segurança — novos nomes substituirão Sophya e Isaías nas manchetes.
E, então, mais uma vez, o país vai fingir espanto.
Como se não soubesse.
Como se não tivesse escolhido.
Justiça para o Sakamoto famoso, mas não para os Sakamotos anônimos
A condenação do Estado do Paraná no caso envolvendo o CPF do jornalista Leonardo Sakamoto não é apenas um episódio jurídico pontual — é um retrato incômodo de como a máquina judicial brasileira escolhe, ainda que informalmente, suas prioridades.
No caso, o CPF de Sakamoto foi inserido de forma indevida — e grave — em uma condenação por homicídio no estado.
Não se trata de um erro burocrático qualquer: é a atribuição falsa de um crime hediondo a um cidadão. O episódio ganha contornos ainda mais delicados quando se observa o contexto: à época, o jornalista fazia críticas contundentes à atuação da Operação Lava Jato, o que inevitavelmente levanta questionamentos sobre o ambiente institucional e político em que o erro ocorreu.
Ainda que não se possa afirmar dolo sem provas, o encadeamento dos fatos exige reflexão.
O Estado foi responsabilizado, e a Justiça reconheceu o dano. O processo levou cerca de um ano para ser solucionado — tempo que, para padrões ideais, é longo, mas que, no contexto brasileiro, soa quase célere.
E é aqui que o contraste se impõe.
Enquanto um jornalista com visibilidade consegue, ainda que com demora, ver seu caso analisado e julgado, milhares de brasileiros vivem presos em um limbo judicial.
Segundo dados recorrentes do Conselho Nacional de Justiça, uma parcela significativa da população carcerária é composta por presos provisórios — pessoas que ainda não foram condenadas, mas que permanecem encarceradas por meses, às vezes anos, aguardando uma decisão que nunca chega no tempo devido.
Não se trata de desmerecer a gravidade do caso de Sakamoto. Ao contrário: o reconhecimento do erro estatal é um avanço necessário e civilizatório. O problema é que esse padrão de resposta não é universal.
Para muitos, especialmente os mais pobres, pretos e pardos, o Estado não apenas erra — ele demora a reconhecer o erro, e quando reconhece, o dano já se tornou irreversível.
Há, ainda, um paralelo inevitável no campo político-jurídico recente. A deputada Carla Zambelli foi condenada por inserir um mandado falso em sistemas vinculados ao Conselho Nacional de Justiça — um episódio que também expõe como a manipulação indevida de registros oficiais pode produzir consequências gravíssimas.
A diferença fundamental, porém, está na resposta institucional: quando há responsabilização, o sistema mostra que tem instrumentos para reagir.
O problema é quando essa reação não chega — ou chega tarde demais — para a maioria invisível.
O sistema de Justiça brasileiro, nesse sentido, revela uma assimetria estrutural. A Constituição promete igualdade perante a lei, mas a prática insiste em criar atalhos para alguns e labirintos para outros. A visibilidade social, o acesso a bons advogados e a capacidade de mobilizar opinião pública acabam funcionando como aceleradores processuais informais.
O caso de Sakamoto, portanto, serve como um espelho. Ele mostra que a Justiça pode funcionar — ainda que com falhas. Mas também evidencia que esse funcionamento não é distribuído de maneira equânime. Se um ano parece muito para quem teve seu CPF associado ilegalmente a um homicídio, imagine o que significam cinco, seis, sete anos de prisão sem condenação.
No fim, a pergunta que permanece não é sobre a correção da decisão judicial no caso específico, mas sobre sua excepcionalidade. Quantos “Sakamotos” invisíveis seguem esperando, sem nome, sem voz e sem prazo?
A Justiça brasileira não precisa apenas ser justa. Precisa, sobretudo, ser igual.
sábado, 4 de abril de 2026
Se eu morrer hoje, amanhã faz um dia
![]() |
| (por Antonio Gonzalez) |
sexta-feira, 3 de abril de 2026
O Brasil tem medo de Schumpeter
Se Joseph Schumpeter resolvesse dar uma volta pelo Brasil de hoje, provavelmente sairia com a seguinte impressão: aqui, a inovação até aparece — mas sempre sob desconfiança, como se fosse uma ameaça, não uma solução.
E, em certo sentido, é mesmo. Mas não no sentido ruim.
Schumpeter ficou conhecido por uma ideia que, no Brasil, soa quase subversiva: a tal da destruição criativa. Traduzindo sem firula acadêmica: o novo precisa destruir o velho para que a economia avance.
Sim, destruir. Palavra feia para um país que adora preservar privilégios.
O problema não é a falta de empreendedor
Há uma narrativa confortável — e equivocada — de que o Brasil não cresce porque “falta gente empreendedora”. Ora, menos.
O brasileiro empreende até por necessidade. O camelô, o motorista de aplicativo, o pequeno comerciante — todos são, de alguma forma, respostas à ausência de oportunidades formais.
O ponto de Schumpeter é outro: o crescimento relevante vem do empreendedor inovador, aquele que muda o jogo.
E aqui está o nó: o Brasil não impede totalmente esse sujeito de existir — mas faz questão de dificultar sua vida.
Quando o novo incomoda, o sistema reage
Toda inovação relevante cria atrito. Isso é inevitável.
Bancos digitais desafiam bancos tradicionais
Aplicativos mudam mercados inteiros
Novas tecnologias expõem ineficiências antigas
Em vez de o sistema se adaptar, o que frequentemente acontece por aqui?
Ele tenta domesticar a inovação.
Regula-se antes de entender. Taxa-se antes de amadurecer. Complica-se antes de permitir.
Schumpeter chamaria isso de um erro clássico: proteger o passado em vez de apostar no futuro.
O Brasil que protege o atraso
Existe, no país, uma espécie de pacto silencioso: não se mexe demais no que já está estabelecido.
E isso aparece em várias frentes:
burocracia que consome tempo e energia
sistema tributário que pune quem cresce
dificuldade crônica de acesso a crédito
Nada disso impede totalmente a inovação — mas reduz sua velocidade. E, na economia, tempo é tudo.
Ainda assim, a inovação insiste
Apesar do ambiente, alguns setores avançam quase “apesar do Brasil”:
fintechs revolucionando o sistema financeiro
tecnologia no agronegócio aumentando produtividade (esse financiado e protegido pelo Estado, como nenhum outro setor)
comércio digital redesenhando o varejo
Esses casos mostram que, quando a inovação consegue furar o bloqueio, o impacto é imediato.
É Schumpeter puro.
Crescer dói — e o Brasil evita a dor
A ideia central aqui é desconfortável, mas necessária: crescer implica perda.
Empresas desaparecem. Modelos de negócio deixam de existir. Profissões mudam.
Mas o que se ganha em troca é produtividade, eficiência e dinamismo.
O Brasil, no entanto, parece preferir um crescimento mais lento — desde que menos traumático.
O problema? Essa escolha cobra seu preço.
No fim das contas…
Schumpeter não defendia o caos — defendia o movimento.
E é justamente isso que falta ao Brasil em escala maior: não a capacidade de inovar, mas a disposição de permitir que a inovação transforme de verdade.
Porque transformar, no sentido schumpeteriano, não é ajustar o sistema.
É mexer nas estruturas.
E isso, convenhamos, nunca foi exatamente a especialidade nacional.






