sábado, 29 de agosto de 2026

Correios: privatizar ou não

A lógica do comentário é irrefutável: cobrar lucro dos Correios é ignorar sua razão de ser.

Enquanto uma transportadora privada escolhe onde atuar com base na rentabilidade, a estatal é obrigada a chegar a todos os 5.570 municípios brasileiros.

Entregar uma carta em comunidade isolada da Amazônia, onde só se chega de barco ou avião, ou levar uma encomenda ao Oiapoque (AP) não é um negócio — é um serviço público.

"Nenhuma empresa privada faz isso", afirma o discurso dos próprios trabalhadores, que lembram como eram chamados de "carteiros do fim do mundo". A universalização do acesso tem um custo, e esse custo é o que chamam de "prejuízo".

Os números impressionam, mas precisam ser contextualizados. Em 2024, o rombo foi de R$ 2,6 bilhões no primeiro trimestre de 2026, já chegava a R$ 3,16 bilhões.

Porém, especialistas apontam que as causas vão além da gestão: mudanças contábeis rigorosas, congelamento de tarifas entre 2012 e 2014 e o recolhimento excessivo de dividendos pelo governo ajudaram a descapitalizar a empresa.

Entre 2007 e 2013, por exemplo, foram retirados cerca de R$ 6 bilhões em dividendos além do mínimo legal. Ou seja, o "prejuízo" reflete tanto o peso da função social quanto decisões políticas que priorizaram o caixa da União em detrimento do equilíbrio da estatal.

Comparar os Correios com uma empresa privada, portanto, é um erro de categoria. 

Uma concessionária de logística jamais aceitaria operar com margens negativas em regiões remotas.

Os Correios, por outro lado, são a única representação concreta do Estado em milhares de localidades.

Seu "lucro" não está no balanço financeiro, mas no direito constitucional de todo cidadão, de Benjamin Constant ao Chuí, de enviar e receber sua correspondência. O debate não pode se resumir a planilhas: é sobre que tipo de país queremos construir.
______________________________________________

O argumento que muitos usam de que empresas como Amazon ou Mercado Livre entregam suas mercadorias e cobram o mesmo preço ou mais barato, esbarra no detalhe de que eles não são obrigados a entregar cartas em regiões isoladas.

Se os Correios forem "privatizados", a obrigação destas entregas será por Lei, transferida as empresas que "comprarem" o serviço.

Isso influenciaria diretamente nos preços do serviço.

Afinal, se apenas o licro importa, que empresa privada entregaria uma carta em Quiprocó do Mato Dentro para ter o mesmo "prejuízo" que os Correios?

Para questão de mera comparação: transporte público, luz e água,  são serviços públicos geralmente operados por empresas privadas através de contratos de concessão. A pergunta é:
Você está satisfeito com os preços e a qualidade destes serviços?

O tal "lucro" está indo para onde e para quem?

E antes de responder, lembre-se você está pagando impostos do mesmo jeito, estabdo esses serviços nas mãos do Estado ou da iniciativa privada.

Dando lucro, ou não.

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Lula foi Lula na sabatina da TV Globo de sempre

Hoje, este texto está  sensível. Profundo. Reflexivo e, acima de tudo, muito sincero.

A entrevista de Lula à Globo trouxe de volta muitas lembranças.

Nós o conhecemos quando ainda era líder sindical, na época em que morávamos em São Paulo e ele começava sua trajetória política. Desde então, suas ideias e convicções sempre estiveram voltadas para a justiça social, a soberania do Brasil e a urgência de atender, por meio de políticas públicas, às necessidades básicas da população mais carente.

Sem precisar repetir tudo o que o mundo já sabe, Lula deu ontem uma aula de democracia, respeito à política e compromisso com o povo brasileiro.

Renata Vasconcellos e César Tralli, que haviam sido assertivos nas entrevistas com os três primeiros candidatos, abordando assuntos pertinentes, pareceram completamente perdidos diante dele. Foi uma entrevista visivelmente tendenciosa, conduzida muito mais com a intenção de constrangê-lo e fazê-lo cair em alguma armadilha do que de esclarecer a população.

Enquanto insistiam em perguntas que poderiam produzir uma frase condenatória, deixaram de aprofundar um dos temas mais importantes do momento: o tarifaço e a maneira como o Brasil enfrentará essa questão daqui para a frente, especialmente agora que Lula já foi procurado por Washington para uma nova negociação.

E aqui não se trata de ser de Direita ou de Esquerda. Não se trata sequer de ser a favor ou contra Lula. Trata-se de reconhecer que estamos diante de um verdadeiro presidente — alguém que coloca seu país, sua soberania e os interesses de seu povo acima de qualquer pressão estrangeira.

Também não adianta que os haters enfurecidos venham até aqui destilar seu ódio contra a realidade, refugiados no metaverso de absurdos que criaram.

Tampouco aceito o argumento de que não posso opinar ou defender meu país porque vivo fora dele. Curiosamente, muitos dos que repetem esse discurso também vieram para os Estados Unidos — alguns não para construir pontes, mas para conspirar contra o próprio Brasil e destruir sua imagem em nome de interesses particulares e de uma ideologia reacionária.

Ontem, Lula foi Lula.

Com serenidade, experiência e firmeza, deixou seus adversários presos aos mesmos chavões empoeirados, aos mesmos preconceitos e às mesmas acusações que o tempo já fez caducar.

Podem amá-lo ou odiá-lo. Podem concordar ou discordar dele. Mas há algo que nem o ódio, nem as narrativas fabricadas, nem as armadilhas conseguem apagar:

Lula é simplesmente Lula.

Apesar de você…

TEXTO DE:

🦋 © Leila Cordeiro

domingo, 23 de agosto de 2026

Guerra Civil: o dia em que os EUA bombardeou americanos

Alguns acontecimentos, com o passar do tempo, permanecem como feridas abertas, porque a passagem dos anos não consegue apagar a pergunta fundamental: como foi possível que o Estado chegasse a esse ponto?

Em 13 de maio de 1985, na Filadélfia, uma dessas perguntas ganhou uma resposta brutal.

Naquele dia, a cidade não enfrentava uma guerra estrangeira. Não estava sendo atacada por um exército invasor. Não era um campo de batalha. Era um bairro residencial de uma das maiores cidades dos Estados Unidos.

Mesmo assim, uma bomba foi lançada contra uma casa.

O alvo era a sede do MOVE, organização de ativistas negros que havia entrado em conflito durante anos com autoridades e moradores da Filadélfia.

A tensão entre o grupo e o poder público já tinha produzido confrontos violentos e prisões. Naquela manhã, policiais foram ao endereço de 6221 Osage Avenue para cumprir mandados de prisão e retirar os integrantes do MOVE.

O confronto se prolongou durante horas.

Então veio uma decisão que parece saída de uma distopia: às 17h27, um helicóptero lançou sobre o telhado um artefato explosivo improvisado contendo C-4, destinado a destruir uma estrutura fortificada construída pelos integrantes do MOVE.

Quarenta e dois segundos depois, o inferno começou.

O explosivo atingiu uma área do telhado onde existiam madeira, tecidos e recipientes de combustível.

O fogo se espalhou rapidamente pelas casas vizinhas. E o mais assustador talvez não seja apenas que a bomba tenha sido lançada.

É que o incêndio foi permitido continuar.

Quando as chamas finalmente foram controladas, 11 pessoas estavam mortas.

Entre elas estavam cinco crianças.

Onze seres humanos.

Cinco crianças.

Sessenta e uma casas foram destruídas e cerca de 250 pessoas ficaram desabrigadas.

A Filadélfia havia acabado de protagonizar algo que parecia inimaginável em uma democracia moderna: o poder público utilizara explosivos contra uma residência ocupada por seus próprios cidadãos e, em consequência da operação, uma parte inteira de um bairro residencial fora consumida pelo fogo.

Por isso o episódio ficou conhecido como o bombardeio do MOVE.

E talvez seja importante não suavizar a palavra.

Foi um bombardeio.

Não adianta alegar que o grupo não era pacífico ou inocente em todos os seus conflitos com a cidade. E muito menos alegar que suas posições políticas não fossem virtuosas.

O ato é injustificável.

Mesmo quando o Estado enfrenta adversários violentos, ele continua obrigado a obedecer aos limites da própria civilização que afirma defender.

Esse é o ponto que transforma o episódio de 1985 em algo muito maior do que uma disputa entre a polícia da Filadélfia e uma organização radical.

A democracia não se mede apenas pela maneira como trata aqueles que concordam com ela.

Mede-se, sobretudo, pela maneira como trata aqueles que considera inconvenientes, extremistas, perigosos ou indesejáveis.

O Estado possui uma força incomparavelmente maior que a de qualquer indivíduo. Tem polícia, armas, prisões, tribunais, inteligência e capacidade logística. Justamente por isso, seu poder precisa ser submetido a limites ainda mais rigorosos.

Quando o Estado perde esses limites, deixa de existir apenas uma operação policial mal conduzida.

Existe uma tragédia institucional.

A própria investigação posterior da cidade de Filadélfia reconheceu a dimensão extraordinária do episódio. Décadas depois, uma investigação independente sobre os restos mortais das vítimas recomendou que suas certidões de óbito fossem alteradas para registrar a causa das mortes e classificá-las como homicídio, e não acidente.

É uma mudança documental pequena diante da dimensão da tragédia.

Mas simbolicamente gigantesca.

Porque palavras importam.

Acidente é aquilo que acontece sem intenção ou controle. Homicídio remete à morte provocada por ação humana.

E o que aconteceu naquela tarde não foi uma fatalidade natural. Houve decisões. Houve autoridades. Houve uma operação planejada. Houve explosivos. Houve uma bomba lançada sobre uma casa.

O resultado foi uma carnificina.

Também é preciso lembrar que o MOVE não existia em um vácuo histórico. O grupo nasceu em uma Filadélfia marcada por conflitos raciais, desigualdade, brutalidade policial e profundas tensões sociais. Seus integrantes eram vistos por muitos vizinhos como uma ameaça e provocavam conflitos que não podem ser simplesmente apagados da narrativa.

Mas reconhecer os erros do MOVE não absolve automaticamente os erros do Estado.

Essa é uma distinção fundamental.

Condenar a violência de um grupo não significa conceder ao Estado uma licença para agir sem limites.

Se aceitarmos o contrário, chegaremos a uma lógica perigosa: basta rotular alguém como extremista, criminoso ou inimigo para que desapareçam seus direitos.

Foi exatamente esse tipo de raciocínio que tornou episódios como o de 13 de maio de 1985 tão perturbadores.

A pergunta que permanece não é apenas por que o MOVE chegou a um confronto tão radical com a cidade.

A pergunta também é: por que uma democracia considerou aceitável lançar uma bomba sobre uma casa?

E existe uma segunda pergunta, ainda mais incômoda: o que teria acontecido se aquelas pessoas não fossem negras, pobres e politicamente marginalizadas?

Não existe resposta simples para essa pergunta. Mas ignorá-la seria igualmente irresponsável.

A história americana é cheia de episódios em que a cor da pele, a pobreza e a posição política determinaram quem recebeu proteção e quem recebeu força.

O bombardeio do MOVE precisa ser lembrado justamente por isso.

Não como uma história de santos contra demônios.

Não como propaganda política.

Não como uma justificativa para transformar o MOVE em herói absoluto.

Mas como uma advertência.

Porque instituições democráticas também podem cometer atrocidades.

Policiais podem errar.

Governos podem abusar do poder.

Autoridades podem tomar decisões absurdas.

E sociedades inteiras podem assistir ao desastre acontecer enquanto procuram, depois, uma explicação confortável para aquilo que não deveria ter acontecido.

Em 13 de maio de 1985, a Filadélfia mostrou ao mundo uma imagem que deveria constranger qualquer democracia: um helicóptero sobrevoando um bairro residencial, uma bomba caindo sobre uma casa e crianças morrendo dentro dela.

Quarenta e um anos depois, a imagem continua difícil de encarar.

E talvez seja exatamente por isso que ela precise continuar sendo lembrada.

Porque esquecer é muito mais conveniente.

Lembrar é admitir que o Estado, quando não encontra limites para o próprio poder, pode transformar a defesa da ordem em destruição da própria ordem que deveria proteger.

Naquele 13 de maio, a Filadélfia não apenas perdeu 11 vidas.

Perdeu casas.

Perdeu uma parte de um bairro.

E, por algumas horas, perdeu também aquilo que uma democracia jamais deveria perder: o senso de que nenhuma autoridade está acima da vida humana.

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Linchamento em Copacabana é vitória do Brasil Miliciano

Cláudio Rafael Landeiro Moreira saiu de casa, em Botafogo, para pedalar e voltou em um caixão.

O homem de 37 anos, que tinha transtornos mentais, foi abordado em Copacabana e não conseguiu explicar que a bicicleta pertencia a uma irmã.

Um vigilante confundiu sua dificuldade de expressão com confissão, deu-lhe um soco e o tratou como ladrão. Depois, um grupo de entregadores teria levado Cláudio para outra rua, onde foi linchado. Ele morreu no dia seguinte com traumatismo craniano, hemorragia interna e lesões no abdômen.

Justiçamento é típico de uma sociedade miliciana, na qual o devido processo legal (que inclui investigação, indiciamento, denúncia, processo, condenação e execução de pena) é deixado de lado em nome da possibilidade de cada um resolver, da forma como melhor entender, os seus problemas.

É a lei do mais forte.

Foi essa lógica que moveu a turba golpista de 8 de janeiro de 2023, em Brasília, e apareceu na operação policial na Penha e no Alemão, que deixou 118 civis e quatro agentes mortos, no Rio.

Milícia não é apenas o grupo armado que controla territórios. É também um método que privatiza a violência: alguém aponta um suspeito, suspende seus direitos e aplica a pena que quiser.

A presunção de inocência vira frescura, e a Justiça chega apenas para recolher o cadáver.

Entende-se uma sociedade cansada de crime e com pouca fé no Estado. Mas o medo do crime não concede licença para matar.

Se entregadores participaram do linchamento, os responsáveis devem ser identificados e punidos individualmente, sem condenar toda a categoria — repetindo o mecanismo que matou Cláudio.

Copacabana é um dos principais cartões-postais do Brasil. Mas, naquela noite, tornou-se o retrato de um país que está autorizando a pena de morte para qualquer grupo disposto a aplicá-la na calçada.

Quando alguém se torna culpado de cometer um crime simplesmente porque foi morto por uma turba, não precisamos mais temer os milicianos. Eles já somos nós.

Leia mais em:

sábado, 15 de agosto de 2026

Para o Bolsonarismo, até lei com nome de mulher precisa ser agredida

O Bolsonarismo age de maneira especialmente perversa na atual campanha de desinformação contra Maria da Penha: não basta relativizar a violência. É preciso reescrever a história, atacar a vítima, desacreditar a lei e, por fim, transformar o próprio agressor condenado em personagem confiável.

É exatamente isso que está acontecendo.

Nos últimos dias, vídeos editados passaram a circular nas redes sociais para sustentar a MENTIRA de que Maria da Penha teria admitido que nunca sofreu violência física do ex-marido.

A fraude é grosseira: o trecho foi retirado de contexto. Na entrevista completa, Maria da Penha se referia especificamente às agressões físicas anteriores às tentativas de assassinato.

Ela não negou as tentativas de feminicídio. Pelo contrário: sua história está documentada, investigada e foi objeto de condenações judiciais.

Em 1983, Maria da Penha levou um tiro disparado pelo então marido e ficou paraplégica. Depois, sofreu uma segunda tentativa de assassinato, por eletrocussão.

Marco Antônio Heredia Viveros foi condenado em dois julgamentos e chegou a cumprir pena. Não estamos diante de uma discussão de versões equivalentes, como se fosse uma briga de casal narrada por duas testemunhas com a mesma autoridade.

Estamos diante de um caso que passou pela Justiça e cuja história ultrapassou as fronteiras brasileiras, contribuindo diretamente para a criação da Lei nº 11.340/2006.

Por isso, é preciso chamar as coisas pelo nome: editar uma declaração para produzir uma conclusão que a declaração completa não sustenta é mais do que desinformação, é MENTIRA.

E existe uma segunda perversidade: a tentativa de transformar a vítima em ré.

Maria da Penha passa a ser apresentada como mentirosa, manipuladora ou símbolo de uma suposta "indústria" contra homens.

A lei que leva seu nome é atacada como se fosse uma legislação criada a partir de uma fraude individual. E o homem condenado pela tentativa de matá-la aparece, convenientemente, como alguém que finalmente estaria contando "a verdade".

A inversão é completa.

O agressor deixa de ocupar o lugar de condenado e passa a ocupar o lugar de testemunha. A vítima deixa de ser vítima e passa a ser interrogada. A sentença judicial desaparece. O contexto desaparece. A história desaparece. Sobra apenas o vídeo cuidadosamente recortado.

Isso não é jornalismo. É uma operação de fabricação de dúvida.

E a Record entrou nessa história

O episódio envolvendo a TV Record torna tudo ainda mais grave.

A emissora decidiu dar espaço ao ex-marido de Maria da Penha para apresentar sua versão dos acontecimentos, apesar de existir decisão judicial que o proibia de divulgar informações sobre o processo e de mencionar publicamente as vítimas.

Depois da entrevista, Marco Antônio Heredia Viveros foi preso preventivamente por descumprimento das medidas protetivas. A Justiça também determinou a retirada do conteúdo do ar, sob pena de multa diária.

É importante fazer uma distinção que qualquer veículo de comunicação sério deveria fazer: dar espaço para o contraditório não significa conceder à mentira o mesmo status da verdade comprovada.

Uma reportagem responsável poderia ouvir o condenado, apresentar suas alegações e imediatamente confrontá-las com documentos, decisões judiciais, investigações e a versão das instituições que participaram do processo.

O problema não é simplesmente "ouvir o outro lado". O problema começa quando o outro lado é apresentado ao público sem o devido contexto, como se sua narrativa tivesse o mesmo peso probatório de uma história examinada durante décadas pelo sistema de Justiça.

Mais grave ainda quando o personagem entrevistado possui interesse direto em reconstruir a própria imagem.

O método é conhecido

A máquina de desinformação funciona em etapas.

Primeiro, encontra-se uma frase verdadeira.

Depois, corta-se o contexto.

Em seguida, acrescenta-se uma legenda falsa.

Finalmente, atribui-se à vítima aquilo que ela nunca disse.

O resultado é um vídeo tecnicamente verdadeiro e intelectualmente falso.

Essa é talvez uma das formas mais perigosas de mentira contemporânea. Não se fabrica necessariamente uma imagem. Fabrica-se uma interpretação.

Foi assim que uma declaração de Maria da Penha pôde ser convertida em uma suposta confissão contra ela própria.

E é precisamente por isso que a sociedade precisa desconfiar de vídeos que chegam às redes com a promessa de revelar aquilo que "a mídia não quer que você saiba".

Normalmente, a primeira coisa que desaparece nesses vídeos é justamente aquilo que permitiria compreender a verdade: o contexto.

O ataque à Lei Maria da Penha é ainda mais revelador

A Lei Maria da Penha não nasceu de uma narrativa de internet.

Ela nasceu de um caso concreto de violência doméstica, de uma longa batalha judicial e da responsabilização internacional do Brasil.

A própria Advocacia-Geral da União registra que a formulação da Lei nº 11.340/2006 está intrinsecamente ligada à história de Maria da Penha e ao reconhecimento do caso pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos.

Atacar a lei com base em vídeos manipulados significa, portanto, tentar destruir uma política pública utilizando como munição uma falsificação da história que lhe deu origem.

E aqui aparece uma pergunta que os propagadores dessa narrativa deveriam responder: Se a história de Maria da Penha é tão falsa, por que foi examinada por tribunais? Por que houve condenação? Por que o Brasil foi responsabilizado internacionalmente? Por que o caso se tornou referência mundial no combate à violência contra a mulher?

Não existe algoritmo capaz de apagar uma sentença.

Não existe corte de vídeo capaz de revogar uma condenação.

Não existe influencer capaz de transformar uma tentativa de assassinato em ficção simplesmente porque descobriu um trecho de entrevista que pode ser utilizado fora de contexto.

O bolsonarismo radical e a política da desconfiança

É preciso também dizer algo que muitos jornalistas evitam dizer por medo de parecer partidário: parte do extremismo bolsonarista transformou a desconfiança em método político.

Não se trata de criticar o governo, o Congresso, o Judiciário ou qualquer lei. Isso faz parte da democracia.

O problema surge quando a dúvida deixa de ser instrumento de investigação e vira instrumento de negação.

Para esse tipo de militância, a verdade passa a depender de quem é o personagem.

Se a vítima pertence ao campo considerado adversário, suspeita-se dela.

Se o agressor confirma a narrativa desejada, acredita-se nele.

Se uma decisão judicial contradiz a tese, acusa-se a Justiça.

Se documentos desmentem o argumento, fala-se em "narrativa".

Se um vídeo é cortado, chama-se de "prova".

É uma lógica perigosa porque elimina o compromisso com a realidade.

E quando a realidade é inconveniente, fabrica-se outra.

Não se trata de defender Maria da Penha contra críticas

Maria da Penha não precisa ser transformada em uma figura acima de qualquer questionamento. Nenhuma pessoa está.

O que não se pode aceitar é que críticas sejam construídas a partir de falsificações.

Uma democracia saudável permite questionar leis. Permite discutir políticas públicas. Permite criticar decisões judiciais. Permite discordar de Maria da Penha.

O que ela não permite, ou pelo menos não deveria permitir no debate público responsável, é transformar edição fraudulenta em evidência.

A diferença é gigantesca.

Criticar uma lei é legítimo.

Mentir sobre a origem dela, não.

Questionar uma decisão judicial é legítimo.

Inventar que nunca houve condenação, não.

Ouvir o condenado é possível.

Transformá-lo em autoridade histórica sobre o próprio crime, ignorando tudo que o contradiz, é outra coisa.

E atacar uma vítima é sempre uma escolha moral.

A mentira não termina na tela

O aspecto mais assustador dessa história é que a mentira digital produz consequências no mundo real.

Quando uma mulher vítima de violência assiste à destruição pública da história de Maria da Penha, ela recebe uma mensagem silenciosa:

"Talvez ninguém acredite em você."

Quando uma sociedade começa a tratar o agressor como vítima e a vítima como suspeita, o problema deixa de ser apenas político.

Torna-se civilizatório.

A violência doméstica já acontece, muitas vezes, dentro de ambientes nos quais o agressor consegue controlar a narrativa. O discurso de desqualificação da vítima é uma extensão desse mecanismo: "ela exagerou", "ela inventou", "ela queria prejudicar o marido", "ela está atrás de dinheiro", "ela quer destruir a família".

A internet apenas acelerou a velha técnica.

Agora, porém, existe uma ferramenta extraordinariamente poderosa: o vídeo editado.

E existe uma indústria política interessada em utilizá-la.

Por isso, o caso Maria da Penha deveria servir como alerta nacional.

Não estamos discutindo simplesmente uma mulher, um homem ou uma lei.

Estamos discutindo se uma sociedade democrática aceitará que a mentira seja capaz de substituir documentos, sentenças, investigações e fatos históricos simplesmente porque foi transformada em vídeo e compartilhada milhares de vezes.

A resposta precisa ser NÃO.

Porque quando a mentira vence a verdade por repetição, a próxima vítima já está esperando.

E, desta vez, talvez não exista uma Maria da Penha para lembrar ao país que ela sobreviveu.


Em tempo, parabéns a TV Bandeirantes pela carraspana passada à TV Record sobre o caso. (assista aqui)

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Rainha Érica - superou a violência e recebeu sua coroa

Algumas coroas chegam depois de uma batalha. Outras parecem chegar justamente quando a vida ainda está tentando recolher os seus próprios pedaços.

Érica Oliveira conhece essa diferença.

Enfermeira, ex-Rainha do Carnaval de Rio Branco e mãe, ela atravessou uma experiência que nenhuma mulher deveria conhecer: segundo seu próprio relato, foi enforcada pelo companheiro com quem manteve um relacionamento durante 16 anos, chegando a perder a consciência.

O filho, de apenas 9 anos, ouviu os pedidos de socorro e pediu ajuda.

Érica sobreviveu.

Depois vieram a denúncia, o registro da ocorrência, o exame de lesão corporal, o pedido de medida protetiva e a investigação policial. A vida, que até então parecia ter sido interrompida pela violência, precisou encontrar um caminho para continuar.

E continuou.

Poucos dias depois, em 25 de julho, Érica subiu novamente a um palco. Dessa vez, para disputar a coroa de Rainha do Rodeio da Expoacre 2026.

E venceu.

Talvez exista algo de profundamente simbólico nessa imagem. Uma mulher que acabara de denunciar uma violência doméstica aparece diante de uma multidão não como vítima, mas como vencedora.

Não porque a violência tenha sido esquecida, mas justamente porque ela não permitiu que aquela violência definisse quem era.

A coroa não apaga a cicatriz.

Mas também não precisa ser explicada por ela.

Érica não deixou de ser a mulher que sofreu violência. Tornou-se, entretanto, também a mulher que continuou vivendo, trabalhando, disputando e ocupando espaços. E isso importa.

Porque existe uma história silenciosa por trás de determinadas coroas. Durante muito tempo, os concursos de beleza, as festas populares e os espaços de representação pública reproduziram padrões estéticos que pareciam naturais apenas porque foram repetidos durante gerações.

Quando uma mulher negra ocupa esses espaços, a questão deixa de ser apenas estética.

Passa a ser histórica.

A presença de Érica como Rainha do Rodeio não precisa ser transformada artificialmente em símbolo de tudo. Sua vitória já possui significado suficiente por aquilo que representa: uma mulher negra ocupando um espaço de visibilidade em uma festa tradicional do Acre.

E talvez seja justamente aí que a história fique maior do que o concurso.

O Acre não é apenas aquilo que aparece nas manchetes. É também a terra de Marina Silva, dos povos indígenas, das comunidades negras, das diferentes histórias que ajudaram a construir a identidade amazônica.

É um lugar onde a diversidade existe antes mesmo de qualquer discurso sobre diversidade.

O problema começa quando essa diversidade é tolerada apenas enquanto permanece distante dos lugares de prestígio.

Érica, entretanto, colocou uma coroa sobre a cabeça. E uma coroa, por definição, é um objeto de visibilidade.

Não é possível esconder quem está usando.

Por isso, talvez seja melhor olhar para essa fotografia com alguma atenção. Não apenas para a beleza da vencedora, nem apenas para o espetáculo do rodeio, mas para aquilo que a imagem representa.

Uma mulher que recentemente precisou pedir proteção contra a violência agora aparece diante do público como rainha.

Entre uma coisa e outra existe uma palavra que deveria ser simples, mas continua sendo revolucionária quando aplicada às mulheres: recomeço.

O título conquistado por Érica não desfaz o que aconteceu dentro de sua casa. Não substitui a Justiça. Não encerra a investigação. Não transforma sofrimento em conto de fadas.

Mas demonstra uma coisa que nenhuma estatística consegue traduzir completamente: a violência pode tentar reduzir uma pessoa ao medo, mas não tem o direito de determinar o seu futuro.

Aquela coroa, portanto, não pertence apenas à festa.

Ela pertence também ao recomeço.

E talvez seja esse o detalhe que mais incomoda qualquer sociedade acostumada a colocar pessoas em lugares previamente determinados: quando alguém decide atravessar a fronteira que lhe foi silenciosamente imposta, deixa de ser apenas espectador da própria história.

Érica atravessou.

E, desta vez, saiu do outro lado usando uma coroa.



domingo, 9 de agosto de 2026

Racismo Objetivo - a negação do racismo através da normalização e da banalização

Existe uma forma particularmente confortável de racismo: aquela que não precisa dizer que é racismo.

Ela não se apresenta com insultos, não precisa de agressão física, não exige que alguém seja expulso de um estabelecimento.

Basta uma operação intelectual um pouco mais sofisticada: diante de uma situação suspeita, evidente ou documentada, decretar que aquilo é “normal”.

Se a vítima reclama, exagerou. Se insiste, está vendo racismo onde não existe. Se apresenta uma sequência de episódios semelhantes, continua sendo “vitimismo”.

É o racismo que, em vez de negar a dignidade do outro, nega a própria possibilidade de que ele tenha sido discriminado.

O fenômeno merece atenção. Pode-se chamá-lo, para efeito de debate, de racismo objetivo (ou passivo): não porque toda pessoa que minimiza um episódio seja necessariamente racista, mas porque a atitude contribui objetivamente para tornar o racismo invisível.

O preconceito deixa de ser apenas uma prática e passa a ser também uma realidade que determinados grupos se recusam a reconhecer.

Um caso de um passageiro negro que registre em vídeo uma diferença de tratamento durante o embarque em primeira classe é exemplar justamente por isso. Enquanto sua documentação é demoradamente verificada, passageiros brancos entram e tomam seus lugares no vôo com uma simples apresentação do comprovante de passagem.

O vídeo, por si só, não permite ao observador conhecer todas as circunstâncias. É perfeitamente legítimo perguntar o que aconteceu, verificar os procedimentos da companhia aérea e considerar explicações alternativas.

O que não parece intelectualmente honesto é transformar a dúvida em certeza inversa: “foi apenas uma verificação normal”.

Pode ter sido. Mas também pode não ter sido.

A pergunta jornalisticamente correta é: por que a verificação ocorreu daquela maneira, naquele passageiro e naquele momento?

E existe uma segunda pergunta, talvez ainda mais incômoda: por que algumas pessoas parecem tão empenhadas em demonstrar que aquilo jamais poderia ser racismo?

É aqui que o debate se torna mais interessante.

Uma pessoa negra afirmar que nunca sofreu racismo é absolutamente possível. Experiências individuais não são uniformes.

Há negros que passaram a vida inteira sem perceber determinados episódios como discriminação, outros foram vítimas de situações explícitas, outros ainda sofreram formas tão sutis de preconceito que somente posteriormente compreenderam o que havia acontecido.

O problema começa quando uma experiência individual vira argumento universal.

Eu nunca sofri racismo.

Ótimo. Mas daí não decorre:

Logo, racismo não existe.

Do mesmo modo, uma pessoa branca pode afirmar que nunca discriminou ninguém. Isso é relevante para avaliar a conduta dela, mas não serve para eliminar a existência de práticas discriminatórias praticadas por outras pessoas.

A lógica é elementar.

A experiência individual não revoga a realidade social.

É justamente nesse ponto que determinadas discussões políticas descambam para uma espécie de campeonato de anedotas: um indivíduo relata uma situação de discriminação, outro responde que nunca passou por aquilo. Um terceiro diz que tem amigos negros que nunca reclamaram. Um quarto informa que conhece um negro rico que nunca teve problema.

E pronto: o racismo teria sido dissolvido por amostragem de conversa de botequim.

Ora, sociedades complexas não funcionam assim.

Também existe uma diferença entre contestar a interpretação de um episódio e negar a possibilidade de que o fenômeno exista.

A primeira atitude é saudável. A segunda pode produzir um efeito perverso: quando alguém denuncia uma discriminação, a sociedade passa a exigir da vítima uma espécie de prova impossível.

Ela precisa demonstrar a intenção do agente, apresentar testemunhas, explicar cada detalhe, provar que não exagerou e, de preferência, convencer também aqueles que já decidiram previamente que racismo é sempre uma invenção de quem reclama.

É uma inversão curiosa.

O suspeito ganha o benefício da dúvida.

A vítima recebe a obrigação de provar até aquilo que, por sua própria natureza, pode ocorrer de maneira subjetiva e silenciosa.

Mas há ainda uma questão que merece ser enfrentada sem medo: pessoas negras também podem reproduzir discursos que minimizam o racismo.

Isso não deveria ser uma descoberta escandalosa.

Negros não formam uma consciência política única.

Não existe um “cérebro negro coletivo”.

Pessoas negras têm ideologias diferentes, experiências diferentes, interesses econômicos diferentes, religiões diferentes e visões diferentes sobre o mundo.

Portanto, uma pessoa negra pode perfeitamente defender uma interpretação segundo a qual determinado episódio não foi racista.

O que não se pode fazer é transformar a cor da pele do comentarista em certificado de objetividade.

Sou negro e nunca sofri racismo.

Isso é um depoimento.

Não é uma tese científica.

Da mesma maneira:

Sou negro, portanto sei identificar todo episódio de racismo.

Também seria uma falácia.

O combate ao racismo precisa, portanto, de duas coisas simultâneas: evidência e disposição para enxergar.

Não se deve chamar qualquer constrangimento de racismo. Isso banaliza uma acusação gravíssima e pode destruir a própria capacidade de identificar casos reais.

Mas também não se deve fazer o movimento contrário: chamar de exagero toda denúncia que incomode nossas convicções políticas.

Entre a paranoia e a negação existe aquilo que o jornalismo deveria procurar: os fatos.

Se um passageiro foi submetido a uma verificação adicional, investigue-se o procedimento.

Se outros passageiros, em condições equivalentes, não foram submetidos à mesma exigência, pergunte-se por quê.

Se a companhia apresentar uma explicação objetiva, publique-se.

Se não apresentar, registre-se a ausência de explicação.

É assim que se enfrenta o problema.

Não com slogans.

Não com militância cega.

E tampouco com a velha e confortável frase: “isso é normal”.

Porque, às vezes, é.

Mas a história do racismo está cheia de coisas que foram consideradas “normais” até que alguém teve a coragem de perguntar por que eram normais.

Talvez seja essa a verdadeira batalha contra o chamado racismo passivo: não obrigar ninguém a enxergar racismo em tudo, mas impedir que alguém seja proibido de enxergá-lo em alguma coisa.

Combater o racismo significa combater também a cultura que o naturaliza.

E naturalizar não é necessariamente praticar.

Às vezes, é simplesmente olhar para o absurdo, dar de ombros e dizer:

Normal.”

Banalização e normalização muitas vezes, mesmo não andando juntas, causam o mesmo efeito final: a dificuldade do combate ao racismo.