sábado, 24 de janeiro de 2026

Yes, Nós temos Bananas

Em 1923, os americanos Frank Silver e Irving Cohn lançaram “Yes! We Have No Bananas”, uma canção cômica sobre uma mercearia que não tinha bananas.

Em 1938, Braguinha e Alberto Ribeiro responderam à altura com a marcha “Yes, nós temos bananas”, ironizando a então crescente dominação cultural norte-americana sobre as Américas.

A mensagem era clara: o Brasil não era apenas uma “república das bananas”, mas um país com produção e identidade próprias.

Curiosamente, um ano depois, quando o petróleo foi descoberto em Lobato, na Bahia - ninguém compôs o inevitável “Yes, nós temos petróleo”. Era ali que começava a história que levaria à Petrobras, em 1953. Para bom entendedor, meia ironia basta.

Evitei comentar a recente ofensiva contra a Venezuela e a detenção de Maduro, para não cair na armadilha dos rótulos.

Que fique claro: não tenho simpatia por ditadores — nem por Maduro, nem por Trump – menos ainda por ditaduras. Acredito no voto, na alternância de poder e na democracia.

Tenho estudado com interesse afiado o que rola na política espanhola, onde os partidos independentistas (catalão, basco e galego) além de dar a sustentabilidade ao governo central, são os seus principais defensores.

Por sinal, assim como a política brasileira, na Espanha está tudo muito polarizado. Onde um espirro pode transformar-se num temporal e um arroto num furacão devastador.

Aliás, a Europa racista e xenófoba nunca deixou de existir. Apesar de desaparecerem há mais de 50 anos, os espíritos de Franco e de Salazar, continuam em forma de assombração.

O mundo parece cada vez mais preso a uma lógica de Fla-Flu: de um lado “a paz, a esperança e o vigor, unido e forte”, do outro “ele me mata, me maltrata”. Cada qual dono da sua verdade.

Em dezembro de 1993, na famosa foto do corpo crivado de balas do Pablo Escobar, havia um agente da DEA (Drug Enforcement Administration — Administração de Repressão às Drogas dos Estados Unidos).

Naquele ano, o consumo de cocaína nos EUA foi estimado em cerca de 254 toneladas. Em 1994, subiu para 323. Em 1995, 376.

Mataram o traficante, mas o tráfico prosperou. Em 2023, 30 anos depois existem cerca de 25 milhões de usuários de cocaína no mundo, um recorde. O discurso de “guerra às drogas” não sobrevive ao segundo parágrafo dos números.

Esse mesmo padrão vale para a política externa dos EUA. Ao longo do século XX, Washington criou, financiou e armou ditadores em nome da “segurança” ou do “combate ao comunismo” — e depois os descartou quando se tornaram incômodos.

Saddam Hussein, Noriega, Pinochet, o do Irã, Trujillo, Diem, Batista, Mobutu, Somoza… sem falar no próprio Bin Laden. A fórmula é simples: cria-se o tirano útil, usa-se, joga-se fora.

Com uma dívida que ronda os 38 trilhões de dólares, é ingênuo achar que o interesse maior dos EUA na Venezuela seja a democracia.

Vivemos esse Fla-Flu global sem VAR (de um lado “a paz, a esperança e o vigor, unido e forte”, do outro “ele me mata, me maltrata"), enquanto a vida cobra seu preço.

As perdas recentes – precoces - dos amigos Paulo Andel, Zé Neto e André Horta e os meus limites da minha frágil saúde (e a quantidade exacerbada de remédios com que sou obrigado a conviver) me fazem pensar em desistir.

Com relação ao Brasil, ainda há muitas razões para resistir. Porque, afinal, yes, nós temos bananas.

Temos também petróleo, Amazônia, terras raras, 12% da água doce superficial do planeta, cachaça, caipirinha, chopp da Brahma, Machado de Assis, samba, Pelourinho, açaí, acarajé, lei Maria da Penha, feijoada, Carlos Drumond de Andrade, praia de Ipanema, Parada Gay, Carnaval e futebol.

E quando falo de futebol, falo de Fluminense.

TEXTO DE:
Antonio Gonzalez

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

A luta contra o autoritarismo é uma obrigação

A memória pública do século XX costuma simplificar a história da resistência ao fascismo e ao nazismo.

Com frequência, ela é apresentada como um confronto entre Esquerda e Direita, no qual apenas um campo político teria se colocado, de forma consistente, ao lado da democracia.

A documentação histórica, no entanto, revela um quadro mais complexo: a resistência ao totalitarismo foi plural, atravessou tradições ideológicas distintas e, em muitos casos, expôs contradições internas profundas.

Durante a Segunda Guerra Mundial, diferentes grupos — comunistas, liberais, conservadores, democratas-cristãos e nacionalistas não fascistas — atuaram contra regimes autoritários por motivações diversas, mas convergentes em um ponto central: a recusa ao Estado totalitário e ao poder concentrado em líderes incontestáveis.

Livorno e o comunismo italiano na resistência

A cidade de Livorno, na Toscana, ocupa um lugar singular nessa história. Em 1921, foi ali que se fundou o Partido Comunista Italiano (PCI). Durante o regime de Mussolini, seus militantes sofreram repressão sistemática: prisões, exílio interno e clandestinidade. Após a ocupação alemã da Itália, em 1943, os comunistas de Livorno tornaram-se protagonistas da resistência local, integrando brigadas partisans, organizando sabotagens e sustentando redes de apoio civil em uma cidade duramente atingida por bombardeios.

Embora o PCI estivesse politicamente alinhado à União Soviética e reconhecesse em Stalin o líder do principal esforço militar contra o nazismo, a prática da resistência italiana foi marcada por forte autonomia local. A prioridade não foi a instauração imediata de um regime ideológico, mas a derrota do fascismo e a reconstrução de instituições nacionais.

No pós-guerra, essa experiência contribuiu para a consolidação do chamado “comunismo italiano”, que aceitou o pluralismo partidário, a disputa eleitoral e a convivência institucional. Ao longo das décadas seguintes, inclusive após a revelação dos crimes do stalinismo, o PCI e suas bases sociais — entre elas Livorno — passaram por processos de revisão crítica e distanciamento de modelos autoritários.

Essa trajetória histórica oferece um dado relevante para o debate contemporâneo: há experiências de Esquerda que, confrontadas com o autoritarismo, optaram por reformular práticas e romper com a defesa de regimes personalistas. Ignorar esse aprendizado enfraquece qualquer discurso democrático.

A resistência liberal e conservadora

A documentação histórica também mostra que a oposição ao fascismo não foi exclusividade da Esquerda.

Na Alemanha, grupos liberais e conservadores — como o Círculo de Kreisau e setores do alto comando militar envolvidos na Operação Valquíria — conspiraram contra Hitler, motivados pela defesa do Estado de direito e pela percepção de que o regime levava o país à ruína.

Na França, o gaullismo organizou uma resistência nacionalista e republicana.

Na Itália, liberais, democratas-cristãos e monarquistas romperam com Mussolini em 1943.

Na Polônia ocupada, o Armia Krajowa, de orientação conservadora e anticomunista, formou a maior organização de resistência da Europa.

No Reino Unido, o conservadorismo parlamentar, sob a liderança de Winston Churchill, tornou-se um dos pilares da luta contra o nazismo.

Esses exemplos indicam que setores da direita, quando vinculados a instituições, legalidade e limites ao poder, foram capazes de resistir ao autoritarismo — inclusive pagando alto custo político e pessoal.

Lições históricas e o debate atual

A análise comparada dessas experiências aponta para uma conclusão recorrente nos estudos históricos: o autoritarismo não se define apenas por ideologia, mas por práticas concretas de poder. Culto à personalidade, desprezo por instituições, repressão a opositores e manipulação do processo eleitoral foram características comuns tanto ao fascismo quanto a outros regimes ditatoriais do século XX.

Nesse sentido, a história de Livorno sugere que a Esquerda democrática fortalece sua legitimidade quando é capaz de criticar e rejeitar ditaduras, independentemente de alinhamentos geopolíticos. Da mesma forma, a tradição liberal e conservadora europeia demonstra que a Direita preserva sua herança quando se recusa a apoiar lideranças golpistas, mesmo quando estas se apresentam como representantes de valores nacionais ou morais.

O registro histórico do século XX é consistente em um ponto: regimes personalistas e autoritários corroem tanto projetos revolucionários quanto tradições conservadoras. A resistência ao fascismo não foi um patrimônio exclusivo de um campo político, mas o resultado de escolhas feitas — ou recusadas — diante do poder absoluto.

A história não oferece receitas prontas, mas fornece critérios. Entre eles, talvez o mais claro seja este: quando a democracia é relativizada em nome da conveniência ideológica, o resultado tende a ser menos política e mais ruína institucional.

Por fim, não podemos deixar de citar, a vergonha que é para a Direita brasileira apoiar um  golpista fascistóide como Jair Bolsonaro.

Da mesma maneira que a Esquerda brasileira, não pode se dar ao luxo de apoiar ditadores como Nicolás Maduro.

Dom Casmurro e 13 Porquês - a genialidade que aproxima duas obras distantes

Dom Casmurro, de Machado de Assis, e 13 Porquês, de Jay Asher, parecem obras que não poderiam estar mais distantes uma da outra.

Um nasce no Brasil do século XIX, marcado pelo Realismo, pela ironia e pela desconfiança da própria narrativa. O outro surge no século XXI, voltado ao público jovem, lidando com temas urgentes como bullying, silêncio social e sofrimento psicológico.

Ainda assim, existe um ponto de contato poderoso entre os dois: ambos contam histórias cujo final é conhecido desde o começo — e, mesmo assim, nos fazem acreditar que tudo pode mudar.

É justamente aí que mora a genialidade narrativa dessas obras.


O suspense não está no final, mas no caminho

Em Dom Casmurro, Bentinho não esconde o fracasso de sua vida afetiva. Desde o início, sabemos que o amor por Capitu terminou em amargura, solidão e suspeita. Já em 13 Porquês, a morte de Hannah Baker é apresentada logo de saída. Não há mistério sobre o desfecho.

Então por que seguimos lendo?

Porque, nas duas narrativas, o verdadeiro suspense não está no o que acontece, mas no como poderia ter sido diferente. Cada lembrança de Bentinho, cada fita deixada por Hannah, cria no leitor a sensação incômoda de que uma escolha mínima — uma conversa, um gesto, uma escuta atenta — talvez tivesse mudado tudo.

Mesmo sabendo que não mudará.


A armadilha da esperança retrospectiva

Machado de Assis faz algo brilhante: transforma Bentinho em um narrador que conversa com o leitor, que se justifica, hesita, se contradiz. Ele não afirma com todas as letras que Capitu o traiu — ele sugere, insinua, planta dúvidas. E nós, leitores, entramos no jogo. Relembremos cada cena tentando encontrar o momento exato em que a história “desandou”.

Jay Asher constrói esse mesmo efeito com outra linguagem. As fitas de Hannah Baker organizam o passado como uma sequência de causas e efeitos. A cada episódio, pensamos: se alguém tivesse agido diferente aqui… A leitura avança movida por essa esperança tardia, quase cruel.

Nos dois casos, somos levados a fazer algo impossível: revisar o passado acreditando que ele ainda pode ser consertado.


Narradores que controlam a versão dos fatos

Bentinho e Hannah Baker têm algo em comum: ambos dominam completamente a narrativa. Eles escolhem o que contar, como contar e em que ordem contar. Não pedem exatamente nossa absolvição — pedem nossa adesão emocional.

O leitor não recebe a verdade objetiva. Recebe uma versão. E é essa versão, cuidadosamente construída, que nos envolve. Em Dom Casmurro, nunca saberemos se Capitu traiu ou não. Em 13 Porquês, a culpa pela morte de Hannah se dilui entre muitos personagens, nenhum deles um vilão clássico.

A força dessas histórias está menos nas respostas e mais no desconforto das perguntas que permanecem.


Tragédias feitas de pequenas coisas

Nem Machado nem Asher apostam em grandes acontecimentos espetaculares. Suas tragédias nascem do cotidiano: de silêncios, mal-entendidos, inseguranças, omissões. Bentinho não é um tirano; os personagens de 13 Porquês não são monstros. São pessoas comuns — e isso torna tudo mais perturbador.

Porque, se o erro foi pequeno, talvez pudesse ter sido evitado.

E é essa sensação que mantém o leitor preso à leitura, mesmo sabendo que o final já está escrito.


Quando a esperança faz parte da tragédia

Dom Casmurro e 13 Porquês provam que uma boa história não precisa esconder seu desfecho para ser envolvente. Às vezes, revelar o fim desde o início torna a experiência ainda mais dolorosa — e mais humana.

Ambas as obras nos conduzem a uma conclusão desconfortável: há histórias que não mudam não por força do destino, mas porque as escolhas humanas quase sempre chegam tarde demais.

E talvez seja por isso que seguimos lendo, página após página — não para mudar o final, mas para entender onde, exatamente, tudo começou a dar errado.


TEXTO DE:

Tarciso Tertuliano

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Edílson, o desconhecido do BBB

Arte: Walace Sales
O futebol se distanciou do povo.
(Juca Kfouri)

Edilson, o Capetinha, é um dos integrantes da ala “Camarote”, ou seja, os integrantes famosos do Big Brother Brasil edição 2026.

A maioria dos integrantes da chamada ala “Pipoca”, ou seja, os anônimos, não o conheciam quando ele se apresentou e ficaram pasmos quando ele disse que foi um dos atletas pentacampeões da seleção brasileira de 2002.

Isso não é um fato isolado. É um processo longo e doloroso entre fatores sociológico e mercadológico.

As pessoas hoje em dia tem tantas opções de entretenimento; seja por meio de TV aberta, canal pago e streaming, que num determinado momento elas buscam os nichos onde se sentem mais confortáveis de consumir.

A chamada lei da oferta e da procura fez com que surgisse uma gama de celebridades extremamente conhecidas e famosas porém em suas determinadas bolhas.

Basta procurarmos nas Big Techs a quantidade infinita de nichos e os influencers digamos especializados com uma quantidade absurda de seguidores.

Num país como o Brasil onde há 30 anos atrás para ser uma celebridade você só tinha a TV aberta como porta de entrada (e era um círculo extremamente fechado de se entrar nela), nos dias de hoje as celebridades podem escolher em que mídia querem atuar, qual plataforma está valendo mais a pena de trabalhar, as vezes com mais de uma proposta para analisar.

Daí eu volto para a história do Edilson.

Quem sempre acompanhou futebol como eu (atualmente consumo muito menos que consumia quando jovem), conhece o Edilson desde que ele surgiu para o futebol lá no Vitória-BA, fez uma carreira vitoriosa e não jogou na Europa, num mercado onde a remuneração no velho continente era bem parelho com o que se pagava no Brasil.

Hoje em dia o atleta de ponta jogando no Brasil possui uma ótima remuneração mas não se compara aos euros pomposos do exterior. O futebol brasileiro nos últimos anos, principalmente a partir da Copa de 2014 passou por um processo chamado “Camarotização”.

Houve a reformulação de antigos estádios e a construção de novos estádios para sediar a Copa; e com isso surgiu a demanda de aumentar o ticket médio, o que fez com que se mudasse o perfil do público dentro dos estádios: poder aquisitivo maior, torcedor de seus clubes mas com um comportamento seleto e diferente do público de menor poder aquisitivo mais passional dentro dos estádios.

Público com maior poder aquisitivo, aumenta o valor dos ingressos e de todo a oferta de produtos e serviços dentro e fora dos estádios.

O povão passa a não frequentar mais os estádios como antigamente e com isso o interesse ao futebol vai se minguando.

E com isso essas gerações mais novas não conhecem o Edilson Capetinha não porque não quiseram conhecer, surgiram ofertas de conteúdos que fez com que esse público pulverizasse para os nichos de consumo.

Não foi por acaso, o futebol brasileiro está assim por meio de métodos e estratégias de seus dirigentes e articuladores. 

TEXTO DE:
Thiago Muniz


terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Uma História - No Legado, o meu DNA

Depois de mais uma noite na Emergência do PS (o mix fígado, diabetes e próstata, estão em posição de guerra), assumo que estou numa de definitivamente ligar o foda-se.

Tenho pensado muito no Paulo Andel, no Zé Neto e no André Horta, que precocemente se foram. Do nada, projeto o reencontro com cada um. Com certeza o Fluminense fará parte da resenha.

Não sei a dimensão do Fluminense na minha vida, mas tenho a exata noção do que fiz pelo e para o Fluminense.

Com certeza, a caminho dos 65 anos, posso afirmar de que esse lance de que não me arrependo de nada, é conversa fiada.

ECHO DE MENOS LO QUE NO VIVI CON MI FAMÍLIA!

Os almoços e as festas familiares que ficaram para trás, por causa de um jogo perdido e que não valia nada em Ítalo Del Cima (para quem não sabe: é o estádio do Campo Grande, na Zona Oeste do Rio).

Para passar o tempo no soro (com o devido cocktail de comprimidos) acesso o Globoplay e acabo descobrindo a série "1995: No Tempo dos Badboys".

As primeiras cenas eram sobre o Fla-Flu da final e para minha surpresa apareceram imagens da Força Flu, que literalmente incendiou o Maracanã.

O presidente de direito, da torcida, era o Tato. Mas de fato eu, que era o Vice, mandava na porra toda.

31 anos depois fica a certeza de o quanto eu sabia fazer torcida. Não precisava de 35 mil de salário, nem de ajudas do clube.

Basta ver o início dessa série e comparar o que a TFF fez (começo e fim do jogo) com as demais TOs - tudo dentro do mais absoluto respeito.

Essa fotos - prints de tela - tem o meu DNA. E para se chegar a isso é necessário muito inteligência, estratégia, trabalho, disciplina, carisma e liderança. Aquela Força Flu, deixou de existir - por isso sou odiado por quem lá está.

De resto, sem viver do passado, as hemerotecas estão aí para contar um pouco do muito que realizamos (sim, sempre soube formar um time do meu lado: tanto para a festa, tanto para vivenciar o clube, como para porrada).

Estou indo embora. Triste, mas com a consciência tranquila por nunca ter tido etiqueta de preço.

Valeu!


TEXTO DE:
Antonio Gonzales


segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Azeite de Oliva - entenda como funciona o acordo Mercosul / União Européia

Convém começar pelo óbvio — justamente porque o óbvio costuma ser soterrado pela retórica.

Acordos comerciais não são atos de fé. Não são “bons” ou “maus” em si mesmos. Produzem efeitos concretos, mensuráveis e, quase sempre, assimétricos.

O acordo entre Mercosul e União Europeia não foge à regra. E o azeite de oliva é um ótimo exemplo para entender o que está em jogo.

O produto estrangeiro: a virtude do acordo segundo seus defensores

Com o acordo em vigor, o azeite europeu tende a entrar no Brasil pagando menos tarifas. Isso não é ideologia; é matemática. Menor imposto na origem significa menor custo para o importador, maior oferta e, em alguma medida, preços mais baixos ao consumidor.

Resultado?
O brasileiro passa a encontrar com mais facilidade azeites espanhóis, portugueses, italianos e gregos (inclusive de melhor qualidade) a preços menos proibitivos. O discurso oficial celebra: concorrência, eficiência, escolha. Tudo muito bonito.

E não é falso. Apenas incompleto.

O que não aparece no rótulo

O problema começa quando se finge que o mercado é um jogo de iguais. Não é.

O azeite europeu que chega ao Brasil é produzido em países que:

  • Subsidiaram sua agricultura por décadas

  • Financiaram tecnologia, irrigação e pesquisa

  • Construíram cadeias produtivas maduras e protegidas

Já o azeite brasileiro — notadamente o gaúcho — é fruto de uma atividade ainda incipiente, de custos elevados, crédito caro e zero tradição secular. Colocar esses dois produtos para “competir” em nome da abstração do livre mercado não é liberalismo; é cinismo analítico.

O produtor nacional: concorrência ou esmagamento?

Com o avanço do azeite europeu:

  • O produtor brasileiro vê sua margem encolher

  • O investimento se torna mais arriscado

  • Pequenos e médios produtores tendem a desistir

Os mais otimistas falam em “especialização”, “nicho premium”, “valor agregado”. Ótimo — desde que existam políticas públicas que tornem isso viável. Sem elas, o resultado é previsível: desindustrialização do campo, travestida de modernização.

E o emprego? Não desaparece — evapora

Aqui entra o ponto que raramente vira manchete. A queda de preços é visível. A perda de empregos, não.

Quando a produção local encolhe:

  • Some o emprego rural

  • Some o trabalho indireto

  • Some o incentivo à inovação local

Os postos de trabalho gerados pelo azeite europeu continuam na Europa. O Brasil vira consumidor eficiente e produtor irrelevante. Há quem chame isso de “integração competitiva”. Eu prefiro chamar de escolha política não assumida.

O padrão estrutural

O azeite é apenas um caso didático de um movimento maior: a União Europeia exporta produtos com valor agregado; o Mercosul exporta soja, minério e carne. Quando tentamos produzir algo além disso, somos aconselhados a “nos adaptar”.

Adaptar-se a quê?
À posição subordinada?

A pergunta que importa

Não se trata de demonizar o acordo nem de sacralizar a produção nacional. Trata-se de abandonar a mistificação. Sem política industrial, sem crédito, sem proteção transitória, o acordo melhora a vida do consumidor no curto prazo e empobrece a estrutura produtiva no médio.

O azeite pode até ficar mais barato.
A economia, não.

E isso não é uma fatalidade do mercado. É uma decisão — ou a ausência dela.

Conclusão

O acordo no geral melhora as relações comerciais entre os dois continentes, porém, deve ser tratado com responsabilidade.

Usamos aqui um único exemplo: o azeite de oliva. Para outros produtos haverá ganho para o Brasil, e prejuízo a produtores europeus.

O que o Brasil precisará fazer, é se reajustar a nova realidade que se desenhará no futuro, criando políticas internas que possam dar ao produtor nacional, condições de continuar disputando mercado interno e obviamente, ampliar o mercado externo.

Por isso, não só no Mercosul, mas também no Brics, o Brasil precisa manter o protagonismo e o pragmatismo, para continuar crescendo economicamente.


domingo, 18 de janeiro de 2026

Mercosul e União Europeia assinam acordo apesar de Trump

O acordo entre Mercosul e União Europeia finalmente saiu do papel.

Sim, aquele mesmo que atravessou governos, modismos ideológicos, crises ambientais, surtos protecionistas e toneladas de ceticismo diplomático.

Convém registrar, antes que o debate seja capturado por torcidas organizadas, um fato objetivo: trata-se de uma vitória pessoal e política do presidente Lula, o governante que mais insistiu (e por mais tempo) na ideia de que esse pacto era não apenas possível, mas necessário.

Lula defendeu o acordo quando ele era tratado como inevitável, sustentou-o quando passou a ser visto como inconveniente e o recolocou no centro da agenda quando muitos já o davam como enterrado.

Política externa não é improviso; é persistência. E nisso o presidente brasileiro mostrou método, memória e leitura de mundo.

O acordo, em linhas gerais, cria uma das maiores áreas de livre comércio do planeta, conectando dois blocos que somam quase 800 milhões de pessoas.

Para o Mercosul, amplia-se o acesso a mercados europeus para produtos agrícolas e commodities. Para a União Europeia, consolida-se a entrada em mercados sul-americanos para bens industrializados, serviços e investimentos.

Não há altruísmo: há interesses bem calculados dos dois lados.

Mas é preciso dizer o óbvio — algo que anda em falta no debate público.

A assinatura não significa vigência imediata. 

Agora começa a fase menos fotogênica e mais decisiva: revisão jurídica, traduções oficiais e, sobretudo, a ratificação parlamentar.

Na Europa, o acordo enfrentará resistências protecionistas embaladas em discurso ambiental.

No Mercosul, passará por congressos que nem sempre primam pela visão estratégica de longo prazo.

Há ainda um elemento externo que ajuda a explicar a retomada do acordo: Donald Trump.

Com sua agenda declaradamente protecionista, hostil ao multilateralismo e avessa a pactos amplos, Trump tornou-se o grande antagonista involuntário desse processo.

O acordo Mercosul–União Europeia é, também, uma resposta geopolítica à lógica do “cada um por si” que ele representa. Trump terá de engolir: enquanto ele ergue muros comerciais, outros constroem pontes, ainda que imperfeitas.

Os protocolos adicionais sobre sustentabilidade seguem como o principal ponto de atrito.

Existe preocupação ambiental legítima? Sim. 

Existe também o velho protecionismo europeu com nova embalagem verde? Evidentemente.

Cabe ao Brasil e aos parceiros do Mercosul negociar com firmeza, sem submissão nem bravatas.

O acordo não é panaceia. Não industrializa o Brasil por decreto nem resolve as assimetrias históricas do bloco sul-americano.

Mas recoloca o país no tabuleiro internacional com previsibilidade, diálogo e protagonismo, algo que havia sido abandonado.

No mundo real, acordos não são perfeitos. São possíveis. E este só voltou a ser possível porque alguém decidiu insistir — mesmo quando o vento soprava contra.