quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Pastor preso é um dos maiores doadores de campanha... advinha de quem?

A Polícia Federal prende.

O inquérito avança. Os fatos se acumulam. O dinheiro deixa rastros.

O personagem central é investidor, pastor, empresário e — vejam só — um dos maiores doadores das campanhas de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas.

E então surge a pergunta que realmente importa para parte da imprensa e da bolha digital: “Mas o que Alexandre de Moraes tem a ver com isso?”

Pois é. Nada. Justamente por isso, insistem.

Temos aqui um caso típico de manual: relação empresarial nebulosa, conexões familiares com banqueiro de grande porte, operações financeiras sob suspeita e, por coincidência apenas estatística, proximidade política com o bolsonarismo.

A investigação é da PF. O inquérito corre nos trilhos legais. Não há canetada solitária, não há decisões monocráticas mirabolantes, não há capa preta pairando sobre os autos como entidade metafísica.

Mas isso não impede que parte da imprensa (aquela sempre pronta a farejar “excessos” onde só há procedimento) force Alexandre de Moraes para dentro da cena, como se ele fosse uma espécie de personagem obrigatório de qualquer narrativa criminal que envolva aliados do bolsonarismo.

É quase tocante.

Quando o investigado é um “cidadão de bem”, empresário religioso, financiador de campanhas da direita, a lógica muda.

Já não se pergunta o que ele fez, mas quem ousou investigá-lo.

E aí Alexandre de Moraes deixa de ser ministro do Supremo para virar vilão de novela, onipresente, onisciente e, aparentemente, responsável até pela lei da gravidade.

Curioso: quando a PF investigava governos petistas, não havia essa súbita preocupação com o “Estado de Direito ferido”, com o “ativismo institucional”, com o “excesso de poder”.

A lei era dura, mas justa. Agora, quando os alvos orbitam o campo político oposto (aquele que se autodeclara guardião da moral, da família e de Deus) a lei vira suspeita, e o juiz, automaticamente, culpado.

O raciocínio é simples, embora intelectualmente indigente: se alguém ligado a Bolsonaro é investigado, logo Alexandre de Moraes está abusando de poder.

Se a PF age, é porque foi “mandada”. Se o Judiciário funciona, é porque conspira.

Não é jornalismo. É militância disfarçada de perplexidade.

E o mais revelador: ninguém consegue apontar qual ato ilegal de Moraes estaria em jogo.

Não há decisão específica. Não há despacho escandaloso. Não há nulidade processual.

Há apenas o incômodo profundo de ver que o sistema institucional brasileiro (com todos os seus defeitos) ainda funciona o suficiente para alcançar gente poderosa, rica, influente e politicamente alinhada ao bolsonarismo.

Isso, para alguns, é imperdoável.

No fundo, o que se quer não é justiça imparcial, mas imunidade seletiva. Quer-se um país onde investigar adversários seja virtude republicana, mas investigar aliados seja tirania togada. Onde a PF seja técnica quando convém e “instrumentalizada” quando não convém.

Alexandre de Moraes, nesse enredo, cumpre apenas o papel que lhe foi atribuído por quem não aceita perder: o de bode expiatório permanente.

É mais fácil atacar o árbitro do que admitir que o jogo foi jogado, e que alguém com boas relações políticas e religiosas pode, sim, estar do lado errado da lei.

A insistência em arrastá-lo para esse caso diz menos sobre Moraes e muito mais sobre o desespero de quem já não consegue sustentar a própria narrativa sem inventar um vilão institucional.

E isso, convenhamos, não é ironia. É só patético mesmo.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

O Agente Secreto e o Golden Globe

A arte existe porque a vida não basta” (Ferreira Gullar)

O Agente Secreto, filme de Kleber Mendonça Filho com Wagner Moura, se passa no Brasil de 1977, durante a ditadura militar, e segue Marcelo, um professor de tecnologia que foge de um passado misterioso para Recife, buscando paz, mas encontra paranoia, vigilância e uma cidade cheia de tensão, sendo espionado por vizinhos e sentindo-se parte de um grande quebra-cabeça político e de memória que o passado tenta apagar. Em resumo: É um thriller político que usa a ambientação do Brasil militar para discutir a memória coletiva e individual, com um protagonista que se torna um "agente" em sua própria história de fuga e descoberta. 

O título cria uma expectativa de um filme sobre espionagem, mantendo o espectador intrigado em boa parte do tempo, esperando revelações até que descobre que não se trata disso, que o agente secreto parece ser mais um ingrediente secreto de uma fórmula química ou receita de cozinha.

Seria esse o fio condutor, aliás, também das histórias paralelas, o elo comum que explicaria a existência da ditadura militar, da xenofobia contra nordestinos, do desaparecimento dos cinemas de rua no Recife e outros elementos dispersos pela narrativa.

O que seria esse ingrediente, esse agente, porém, não há como saber com certeza. O filme não dá respostas, nem poderia, pois se o esquecimento é o verdadeiro tema, como explicá-lo verbalmente? Como nomear o que, por definição, desaparece?

Por que torcemos para “O Agente Secreto” no Globo de Ouro?

Porque é um Filmaço! Porque somos brasileiros, viva a cultura brasileira.

Nosso audiovisual teve impacto econômico total de R$ 70,2 bilhões de PIB do Brasil em 2024. Gerou 608 mil empregos no país, sendo 121 mil empregos diretos. E R$ 9,9 bilhões em receitas tributárias (impostos).


Viva a produção audiovisual do Brasil! 🇧🇷


TEXTO DE:

Thiago Muniz

Guilherme Arantes por Guilherme Arantes

Para quem se interessar por saber um detalhe sobre a minha carreira tão peculiar, aqui vai um sucinto questionário, em forma de "charada"...

Só para distrair... só de curtição !

Muitos me perguntam uma série de porquês.

1. Por que eu fiquei de fora de todos os line-ups de festivais e assemelhados, como os históricos Hollywood Rock, Rock in Rio, etc, e posteriormente também prossegui fora dos festivais modernos...

2. Por que só eu fiquei de fora dos "Acústicos MTV", quando todos os nomes dos anos 80 e 90 participaram, alguns várias vezes seguidas, e me tornei uma espécie de "leproso do pop" brasileiro, mesmo tendo sido historicamente pedra fundamental por várias vezes, como Meu Mundo e Nada Mais inaugurando o Pop Brasil em 76, e depois com Perdidos na Selva, Deixa Chover, inaugurando os Anos 80 ? Porque ? 

3.Por que eu fui cirurgica e sistematicamente excluido, 100% cancelado das mídias escritas especializadas no Rock e no Pop brasileiro, tais como Revista Bizz e outras assemelhadas. mesmo tendo sido praticamente o pai de todo o movimento ?

4. Como é que eu sobreviví a essas exclusões vergonhosas, e hoje ainda estou aqui, de pé e vivinho da silva, prestes a lançar um álbum histórico e uma grande turnê de cinquentenário de carreira, e tenho moral absoluta para contar essa história ?

As respostas, nos próximos capítulos.

Este mundo é uma piada.

Mais engraçado ainda é poder "dar nomes aos bois" ...

Só não sei se vale a pena guardar rancores...

Penso que não...

Mas "saborear" sim . E dar muita risada, porque é um mundo caricato.

Vou começar a responder nas linhas abaixo.

O mundo da musica é feito em camadas que se sucedem .

E não são apenas as modas , em ondas...

Ondas de linguagem, de costumes e roupagens, timbres, calças e cabelos...

As vezes são também os suportes tecnológicos que se renovam, e muitos nomes vão ficando para trás.

Nesse aspecto, fui sobrevivendo quase sem traumas.

Só nos anos 90, com a chegada da replicação digital ( o desastroso CD, não pelo veículo em si, mas pelo mau uso que fizeram com o imediatismo) as gravadoras inventaram, ou aproveitaram melhor dando mais ênfase a artistas para a "escala de milhão" , e surgiram os filões adequados (Axé, Pagode, e o Neo-Sertanejo).

Os gêneros musicais são sempre válidos, vejam bem, o que criticamos aqui é o "hype" artificial . 

O fato é que a nossa geração sentiu o baque com as concorrências violentas que tivemos que nos confrontar. Uma delas é a ascensão inexorável e plenamente justificada do Agro. Com o Sertanejo ninguém pode. 

Outra foi a ascensão monumental da Bahia como polo turístico e comportamental, a explosão bela e  maravilhosa do Axé, com artistas muito mais eficientes.

Outra ainda foi a explosão espetacular de uma Jovem Guarda preta no país, tomando conta dos programas de auditório com os sucessos inequívocos do Pagode

E ainda o surgimento do Rap, tendo à frente, entre outros, os Racionais de Mano Brown, de quem me tornei fã ardoroso de primeira hora!

Núcleos de híbridos dessas tendências ainda produziram vertentes geniais de Charlie Brown Jr, o Rappa, misturando rap com reggae, punk com samba, o Planet Hemp, o Brasil ficava muito múltiplo e porque não dizer - legítimo.

Quem seria eu para criticar o "novo"?

Veio ainda a fulminante Cena Pop de BH , com bandas excelentes como o Skank, o Jota Quest, o Pato Fu, Wilson Sideral, e o rádio nos anos 90 virou uma festa de uma nova geração. 

A nossa geração 70/80 sentiu o baque.

Eu, que não era nenhum blockbuster de vendas, perdi o pé, porque não tinha uma operação de marketing que me abarcasse dentro.

Me ví avulso.

Mas existiram outros fatores muito piores, já a partir da decada de 80.

Surgiram nichos importantes de mídia, e eu estava despreparado, principalmente frente à velocidade dessa transformação.

Eu vinha da televisão, dos programas de auditório, uma espécie de pós-Jovem Guarda.

As trilhas de novelas, que haviam me projetado, iam se tornando mais e mais competitivas nas gravadoras, e a ferocidade nos bastidores ia se recrudescendo, com novos "hitmakers" entrando no páreo, cada dia mais profissionalizado e disputado.

Muitos talentosos e espertos também aprenderam as minhas velhas fórmulas das baladas de novela. virou um gênero vulgar, o que era para mim uma obra de arte. 

Não bastava eu ter uma musica "Amanhã" no Dancin' Days

Tornou-se a "Era dos HitMakers", com hits fabricados em escala industrial, e eu era muito mais do que isso. Eu não vendia disco, era um mero artesão. Simples assim. 

A chegada do Pop Rock aos auditórios, trazendo um Brasil Jovem para a popularidade nacional, acendeu o interesse das "Majors" , e um nicho jovem logo se instalou, com o Circo Voador, o Asdrubal, e o fenomeno das "danceterias", os "trends" do New Wave, New Romantic, Pós-Punk, New Bossa, Brit Pop, Grunge, etc, etc ... uma floresta de cogumelos pipocando micro-modas.

A seguir, as Editoras passaram a dedicar partes de suas redações para o publico jovem.

Eu ainda performava bem no tempo da Revista Pop do Okky de Souza, Antonio Carlos Miguel, Ana Maria Bahiana, Ezequiel, Julio Barroso, e muitos outros amigos geracionais.

Nelson Motta entre eles.

Eu estava na Warner do Midani, com bons assessores de imprensa e um foco especial no cast jovem, com Baby, Pepeu, A Cor do Som, Dafé, Oswaldo Montenegro, As Frenéticas, Gang 90, Marina, Lulu Santos, Ira.

Mais tarde chegariam os Titãs, o Ultraje, em plenas águas turbulentas dos anos 80.

No meio da década, mais precisamente no final de 84, eu iria para a CBS do Tomás Muñoz, Condé, Maynard, assinava contrato com uma espécie de Real Madrid, uma Ferrari campeã de vendas, com o RPM no auge, Djavan, Simone, Fabio Jr, Rosana, Ritchie, Radio Taxi, Metrô, Angélica, Turma do Balão Mágico, Dominó, Leo Jaime, e muitos outros frequentadores do Globo de Ouro.

Em um apogeu fonográfico internacional do We Are the World, Thriller, imaginem que onda!

A CBS tinha um marketing bem agressivo, mas não se especializou nem em MTV, nos canais e programas de clips que viraram moda.

E nem em Revista Bizz e outras publicaçoes especializadas desse periodo.

Eram novos canais preferências de um movimento geracional, ligado a outros grupos fonográficos.

Eu estava muito bem, com sucessos e boas vendas todo ano, mas nós não estávamos muito preocupados com a mutação do mercado, especialmente do Show Business, que começava uma escalada de "substituição da indústria fonográfica" por uma nova indústria, a do entretenimento do espetáculo. O disco, que era até então o foco principal, começava a virar um suporte secundário.

Após o Rock in Rio, que inaugurou uma nova escala de produção de shows no Brasil, ainda se instalou uma "indústria de imagem" como nunca havia existido antes.

O Video-Clip como produto, não mais como mero suporte de divulgação.

Uma nova linguagem, filmada em película, por cineastas, e voltada para um canal específico extremamente estratificado.

E Excludente.

Eu claramente não "era da turma", já era um dinossauro.

Eu sabia disso tudo, era informado, mas iludido,  não acreditava muito, me achando o "rei da cocada-preta", deitado nos louros de Gugú, Raul Gil, Cassino do Chacrinha, Bolinha, Globo de Ouro, Fantástico, Xou da Xuxa, com os velhos videoclips em BetaCam, brincando com "chroma-keys" primários, ballets cafonas, fumaças de gelo seco, muitos panos esvoaçantes e taças de champagne.

Vamos ser sinceros: mergulhado numa estética careta, eu estava ficando pra trás, com os meus enormes posters da Amiga e da Contigo nas paredes dos salões de beleza.

Hoje eu lembro com carinho, mas dando muita risada.

A minha música era boa, eu sabia, e sabia que iria durar, mas aquele momento de virar a mesa estéticamente, nos vídeos, nas capas, enfim, na imagem, já há muito havia passado do ponto.

Eu já era.

Em 92 eu ainda migraria para a EMI Odeon, para um cast que reunia Paralamas, Legião Urbana, Marisa Monte, Kiko Zambianchi, Marina Lima, só craques com discos e imagem impecáveis, e pude pela primeira vez me auto-produzir (assumir o comando fonográfico ).

O LP "Crescente", uma obra- prima, no Estudio Mosh, com mastering em NY, no MasterDisk do Bernie Grundman, e fiz um único clip de arte, com Flavio Colker, da musica Taça de Veneno, um clip lindissimo em linguagem de cult movie. 

Bola dentro com a equipe da EMI Odeon, que acreditou no meu taco, porém 93 seria um ano de desmanche dessa industria fonográfica "mais nobre", e um mergulho generalizado nos caminhos milionários do CD e do DVD. 

Cabeças estavam rolando nas gravadoras "majors", que faturavam como nunca com o digital, era o frenesi de um Titanic afundando.

Eu havia chegado tarde. (Ou quase)...

Mal consegui tangenciar aquela geração que consolidava prestigio com sucesso.

Dali para a frente, eu viví o meu "jubilamento" das gravadoras "majors".

Não tive conflitos, não processei ninguém, não virei persona-non-grata.

Simplesmente fui me retirando, com minhas auto-produções em Adats, e já nos anos 2000 migrei para Protools, Logic Audio, montei meu estudiozinho, meu selo independente e passei a um status de "cult".

Nanico, mas respeitado.

Penso que foi um processo normal. 

33 anos depois, a idade de Cristo, eu não vejo nada de mais no que aconteceu, ou deixou de acontecer comigo. 

Está tudo bem, tem lugar pra todo mundo, tem lugar pra todos os nossos acertos e...  para os nossos erros, um lugar ainda mais especial !

Conseguimos compreender, e aceitar, que a gente falha (muito) também nesta vida, por mais que o sucesso seja tão gratificantemente enganador.


Texto de:

Guilherme Arantes


A postagem original pode ser conferida na página de facebook do artista

sábado, 10 de janeiro de 2026

F1 2026

2026 promete grandes emoções na F1

Uma paixão que passa de geração para geração. O maior evento automobilístico do universo.

O foco de qualquer piloto é chegar até esta divisão. Os olhos do mundo em termos de velocidade estão nesta iniciativa.

Já sabe do que estamos falando? Sim, a Fórmula 1 representa isso e muito mais.

Trata-se do palco de rivalidades inesquecíveis, um espaço que concentra marcas reconhecidas internacionalmente e dinheiro, muito dinheiro por parte dos patrocinadores.

O ano de 2026 chegou trazendo novidades para a Fórmula 1 - uma verdadeira revolução nos carros e motores. A categoria vai introduzir um novo regulamento técnico no campeonato deste ano, previsto para começar em 8 de março, mudanças que já estão gerando muita expectativa.

O motor da F1 seguirá sendo um turbo V6, híbrido: metade elétrico, metade à combustão. Porém, a unidade deixará de contar com o MGU-H, sistema de recuperação de energia térmica, mas manterá o sistema de recuperação de energia cinética (MGU-K).

Cerca de 35kg mais pesado que o anterior, ele terá a parte elétrica mais potente que a de combustão; os combustíveis fósseis foram banidos, e passarão a ser 100% sustentáveis.

As equipes serão responsáveis por desenvolver seus próprios biocombustíveis. Alem disso, o uso da bateria ganhou um impulso adicional que pode ser acionado manualmente pelos pilotos para atacar ou se defender.

Haverá cinco fabricantes de motores para as 11 equipas: Ferrari, Mercedes, Honda, Audi e Red Bull Powertrains (com apoio da Ford).

As alterações regulamentares para 2026 mantêm as unidades de potência V6 turbo híbridas com apenas 1.6 litros de cilindrada, onde geram impressionantes 1000 cavalos de potência.

A Fórmula 1 teve início no ano de 1950 a partir de um campeonato organizado pela FIA (Federação Internacional de Automobilismo).

Concebida no início com foco em um torneio entre pilotos, a F1, como é carinhosamente chamada ao redor do mundo, nasceu na Europa e só depois se espalhou por outros continentes.

O campeonato se consolidou ao longo dos anos e atualmente se apresenta como um dos maiores eventos esportivos do globo.

TEXTO DE:
Thiago Muniz

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

América Latina no Alvo do Império em Declínio

As únicas diferenças desta última invasão dos EUA sobre a Venezuela em relação a todas as ações imperialistas similares ao redor do mundo é que agora há pressa e não há disfarces.

Trump não pediu autorização do congresso e fala abertamente que seu objetivo é tomar o petróleo de nosso vizinho.

Esse desprezo do executivo estadunidense aos ritos pseudo democráticos e aos discursos falaciosos oficiais me parece, contraintuitivamente, sintoma de decadência estrutural do império.

Ainda que a ação mostre musculatura militar, a pressa por recursos e o descaso com as posições até de aliados próximos mostra também desespero.

Processos históricos podem ser longos, muito longos. E vivemos indiscutivelmente o ocaso do império estadunidense. Porém não nos enganemos: eles vão cair atirando e somos alvos preferenciais.

Um bom primeiro ato de resistência é expor e denunciar todos os entreguistas que agora pedem a invasão de nosso próprio país; esse bando é tão inimigo nosso quanto Trump.


TEXTO DE:

Alexandre Périgo

domingo, 4 de janeiro de 2026

Prisão de Maduro. A derrubada de tiranos não pode ser pretexto para legitimar pilhagens


Não há absolutamente nada a comemorar na invasão da Venezuela por tropas americanas e na consequente captura de Nicolás Maduro.

Trata-se de uma ação flagrantemente ilegal, em afronta direta ao princípio da não intervenção entre Estados soberanos, consagrado na Carta das Nações Unidas.

Não se confunda esta crítica com qualquer tentativa, ainda que remota, de absolver o ditador venezuelano.

Maduro é um autocrata que se perpetuou no poder por meio de fraudes eleitorais reiteradas, repressão política e erosão sistemática das instituições democráticas. A natureza de seu regime não está em debate.

O ponto central é outro — e mais grave. Donald Trump violou conscientemente o regramento internacional não para restaurar a democracia venezuelana, mas para atender a interesses econômicos estratégicos, notadamente o controle sobre o petróleo do país.

Não há idealismo nem altruísmo nesta intervenção: há oportunismo geopolítico.

Neste embate, não existem mocinhos.

Cometeu-se um crime internacional para, supostamente, interromper outro crime — o da permanência ilegítima de Maduro no poder. A lógica é perversa e perigosa: legitimar o uso da força em nome de uma pretensa moralidade superior.

As declarações do vice-presidente americano, J.D. Vance, segundo as quais seria necessário “retomar” um petróleo que teria sido roubado dos Estados Unidos, não resistem a uma análise histórica minimamente honesta. Trata-se de um biombo retórico, construído para encobrir o verdadeiro propósito da ação militar.

Os fatos são inequívocos. Em 1976 — há exatos cinquenta anos — o então presidente venezuelano Carlos Andrés Pérez nacionalizou a indústria do petróleo.

Fê-lo dentro da legalidade, com respaldo institucional e, sobretudo, mediante o pagamento de compensações que ultrapassaram US$ 1 bilhão às empresas afetadas, entre elas Exxon, Mobil, Gulf Oil e Texaco.

Não houve confisco arbitrário, tampouco expropriação autocrática. Um governo democraticamente eleito decidiu nacionalizar um setor estratégico de sua economia, negociando compensações amplamente discutidas e aceitas à época.

Reescrever essa história para justificar uma intervenção militar é não apenas intelectualmente desonesto, mas politicamente perigoso.

Ao atropelar o direito internacional sob o pretexto de corrigir uma injustiça histórica inexistente, Washington abre um precedente perigoso.

Se a violação da soberania alheia passa a ser aceitável sempre que houver recursos estratégicos em jogo, o sistema internacional retorna à lei do mais forte — exatamente o oposto da ordem que se pretendeu construir após a Segunda Guerra Mundial.

A derrubada de tiranos não pode ser pretexto para legitimar pilhagens. Quando a força substitui o direito, todos perdem — inclusive aqueles que acreditam estar do lado vencedor.

Ainda mais frágil é a justificativa de que Maduro liderava uma organização criminosa transnacional voltada ao tráfico de drogas. Essa tese tampouco resiste a uma análise consistente.

A Venezuela é, no máximo, um corredor de passagem para a entrada de cocaína nos Estados Unidos. Mais de 95% da produção provém da Colômbia e do Peru. Ou seja, se esse fosse o propósito, o alvo não corresponderia aos fatos.

A propósito da Colômbia, a entrevista de Donald Trump foi assustadora para o presidente Gustavo Petro.

O mandatário dos Estados Unidos o ameaçou ostensivamente, dando a entender que pode ser o próximo alvo.

Há diferenças gigantes entre os dois casos. De fato, a Colômbia é o maior produtor de cocaína das Américas, mas Petro não é um ditador: foi eleito democraticamente. Portanto, ameaçá-lo é uma demonstração pública de absoluto desprezo pelas instituições democráticas. Inaceitável.

Os arroubos retóricos de Trump chocaram também pela ausência de qualquer referência à retomada da ordem democrática na Venezuela.

Nem mesmo para atenuar o objetivo óbvio de espoliar as riquezas minerais do país invadido, Trump aludiu ao propósito de contribuir para o restabelecimento da normalidade institucional venezuelana, por meio de eleições livres e transparentes.

É necessário reconhecer que foi, ao menos, sincero: falou em petróleo de modo desabrido, sem pudores. Não escondeu o propósito real da operação.

Insolentes, Trump e seus auxiliares diretos deixaram no ar uma ameaça explícita a todos os países latino-americanos que eventualmente discordem das posições do atual governo estadunidense. “Ninguém nunca mais questionará o poderio americano no nosso hemisfério”, disse, citando a Doutrina Monroe, que preconiza a dominação da América Latina por Washington como poder hegemônico da região.

A tese revive um entulho ideológico do imperialismo clássico que o discurso diplomático parecia ter arquivado e restabelece a prática de violações em nome do controle absoluto da área de influência política da nação líder — a mesma justificativa invocada por Vladimir Putin para invadir a Ucrânia.

O que se vê é a normalização da força em desfavor do triunfo da justiça. Neste caso, foi contra Nicolas Maduro – um ditador.  Mas quem será o próximo alvo de Donald Trump


TEXTO DE:

Ricardo Bruno 

sábado, 3 de janeiro de 2026

Venezuela Free


 

Cada vez que os EUA ‘salvam’ um povo, o deixam transformado em manicômio ou cemitério
(Eduardo Galeano)

Com quantas fake news se faz uma guerra?

Não podemos esquecer a relação perversa entre o governo Trump e os bilionários das Big Techs, nem que as redes sociais são capazes de construir discursos que corroem democracias e justificam ataques.

Fagulhas de mentira alimentadas por algoritmos invisíveis, se alastram e queimam a confiança pública.

Há mais do que dúzias de países mundo afora que vive sob regime ditatorial, que não respeitam legislações e submetem seus próprios povos a martírios intangíveis.

Eis que os Estados Unidos só se preocupam com os que são abundantes em hidrocarbonetos, combustíveis ou não. Coincidência ou não, nações que não possuem material bélico capaz de persuasão, como bombas atômicas.

Como pode uma tirania ser derrotada por outra tirania e as pessoas acharem isso bom?

Não há esperança em um mundo onde um país mais rico e mais forte segue conseguindo tudo o que quer na marra enquanto outros apenas fingem demência, tal qual o estado brasileiro, que há décadas se prostra em relação às ameaças vizinhas.

Somos corresponsáveis por tudo que ocorre em nosso quintal.

TEXTO DE:
Thiago Muniz