sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026
Inflacionamento do futebol brasileiro
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026
A matemática da indecência
O Congresso Nacional voltou a provar que não sofre de ignorância econômica, mas de algo bem mais grave: falta de vergonha na cara.
Na tarde de terça-feira (3), Câmara e Senado aprovaram um reajuste salarial para seus servidores cujo impacto chega a R$ 790 milhões. Um valor que supera a arrecadação anual de 95% dos municípios brasileiros. Sim, quase todo o Brasil real cabe dentro do aumento concedido ao Brasil oficial.
Agora, respire fundo e faça o exercício de memória que certos parlamentares preferem evitar.
São os mesmos políticos que, não faz muito tempo, torceram o nariz, fizeram discursos sobre “responsabilidade fiscal” e votaram contra — ou sabotaram — o vale-gás, um benefício modesto destinado a famílias que precisam escolher entre cozinhar ou comer. Para o pobre, o cofre está sempre vazio; para o próprio umbigo, o Tesouro é elástico.
A lógica é cristalina:
– R$ 100 para o gás? “Populismo”, “assistencialismo”, “rombo nas contas públicas”.
– R$ 790 milhões para a elite administrativa do Parlamento? “Valorização do servidor”, “justiça salarial”, “necessidade institucional”.
É uma contabilidade moralmente fraudulenta.
O problema não é a existência de servidores públicos — eles são essenciais.
O problema é o timing, o contexto e, sobretudo, a hipocrisia.
Num país em que municípios fecham postos de saúde por falta de verba, em que prefeitos mal conseguem pagar professores, o Congresso decide que a urgência nacional é reajustar salários no coração do poder.
E note-se: não se trata de ignorância sobre a realidade social. Trata-se de consciência plena. Eles sabem. Sabem que o valor do reajuste pagaria o gás de milhões de famílias por meses. Sabem que o discurso da austeridade só aparece quando o destinatário é pobre. Sabem — e fazem mesmo assim.
Isso não é erro de cálculo. É escolha política.
Quando um Parlamento vota com rapidez para garantir conforto aos seus e demora, trava ou rejeita políticas mínimas de proteção social, ele envia uma mensagem clara: o Estado existe, antes de tudo, para quem manda.
Depois, claro, virão os discursos inflamados sobre “desigualdade”, “sensibilidade social” e “compromisso com o povo”.
Palavras são baratas.
O que custa caro — R$ 790 milhões, por exemplo — é sempre reservado a quem já está sentado à mesa do poder.
O resto que se vire com o botijão vazio.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2026
Beto Simonetti: quando defender a Constituição vira ato de coragem
A obrigação moral de aplaudir quem faz o básico, em 2026, é profundamente reveladora.
Beto Simonetti, presidente da OAB, no primeiro dia da retomada dos trabalhos do Legislativo, limitou-se a dizer o que está escrito — pasmem — na Constituição.
E fez disso um pronunciamento.
Corajoso? Não.
Necessário.
O que diz muito mais sobre o ambiente do que sobre o orador.
Simonetti defendeu o STF e o devido processo legal. Não pediu revolução, não clamou por “ativismo judicial”, não invocou teorias criativas sobre “vontade popular acima da lei”.
Apenas lembrou que democracia não é um reality show institucional em que se elimina o Supremo por voto emocional.
É chato, eu sei. Funciona com regras. E regras, por definição, frustram os ansiosos por atalhos.
O presidente da OAB fez algo que hoje soa quase insolente: reafirmou que o Supremo Tribunal Federal não é um capricho de toga, mas um pilar do arranjo constitucional.
Que decisões judiciais não se combatem com linchamento retórico, mas com recursos — dentro da lei, esse palavrão. E que devido processo legal não é um detalhe burocrático inventado para proteger “os de cima”, mas a última trincheira de qualquer cidadão quando a turba resolve achar culpados antes de provas.
Sim, houve quem torcesse o nariz. Sempre há. Afinal, vivemos tempos em que parte do debate público acredita que garantias constitucionais são privilégios e que juízes devem decidir conforme o humor das redes sociais.
Simonetti foi lá e estragou a festa: lembrou que não há democracia sem instituições, nem instituições sem limites, nem limites sem STF.
A ironia maior é esta: defender o Supremo hoje virou, para alguns, sinônimo de autoritarismo.
Uma ginástica mental admirável.
Segundo essa lógica, autoritário é quem aplica a Constituição; democrático é quem quer rasgá-la em nome de uma abstração chamada “povo”, geralmente definida por quem grita mais alto.
Ao se posicionar, a OAB — por meio de seu presidente — fez aquilo que dela se espera desde 1930: não defender governos, partidos ou humores, mas o Estado de Direito.
Num país em que o óbvio anda desaparecido, isso soa quase como um manifesto.
Convém registrar: não se trata de idolatrar o STF, instituição humana e falível, como qualquer outra. Trata-se de entender que a crítica legítima não prescinde de legalidade, e que o ataque sistemático às Cortes não é “liberdade de expressão”, mas método conhecido de erosão democrática.
Beto Simonetti não salvou a República. Não era esse o ponto. Apenas lembrou onde ela está escrita.
E, convenhamos, num tempo de analfabetismo constitucional militante, isso já é um serviço público dos bons.
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026
Eulogy, o episódio perfeito de Black Mirror
domingo, 1 de fevereiro de 2026
Alô, Rede Globo! Já passaram do ponto
sábado, 31 de janeiro de 2026
Pra Tudo começar na quinta-feira
quinta-feira, 29 de janeiro de 2026
Ideologia elástica: o anti-sistema
Poucas expressões circulam com tanta desenvoltura — e com tão pouca precisão — no debate público atual quanto “anti-sistema”.
Ela aparece em discursos eleitorais, em threads indignadas, em manifestos improvisados e em mesas de bar.
É uma palavra de ordem que une sujeitos muito diferentes, frequentemente inimigos entre si, mas que compartilham uma mesma certeza: o problema está no sistema.
O detalhe incômodo é que quase ninguém concorda sobre o que exatamente ele seja.
Do ponto de vista da teoria política, o “anti-sistema” funciona como aquilo que Ernesto Laclau chamou de significante vazio: um termo que não possui um conteúdo fixo, mas que se torna um ponto de convergência de demandas, frustrações e ressentimentos heterogêneos.
Ele não explica a realidade; antes, organiza afetos. É menos um conceito e mais um recipiente.
Na Esquerda mais radical, o sistema costuma receber um nome clássico e respeitável: capitalismo.
Ele aparece como uma totalidade quase metafísica, capaz de explicar desde a precarização do trabalho até a ansiedade individual.
Aqui, o anti-sistema carrega uma tradição teórica robusta — Marx, Rosa Luxemburgo, Gramsci —, mas muitas vezes herda também um problema antigo: a tendência a transformar uma crítica estrutural legítima numa explicação totalizante, impermeável a nuances, mediações institucionais e contradições históricas.
Na outra ponta, a Direita delirante — para usar um termo suave — preenche esse mesmo significante com algo bem menos delimitado: o globalismo.
Trata-se de um conceito curioso, porque raramente aparece definido de forma rigorosa. Ele pode significar ao mesmo tempo organismos multilaterais, elites financeiras, pautas identitárias, universidades, imprensa, vacinas, ONGs, a ONU, George Soros e, em dias mais criativos, até o clima. É o sistema como conspiração difusa, não como estrutura econômica ou política analisável.
O resultado é paradoxal: grupos que discordam em quase tudo compartilham a mesma gramática do ressentimento.
Como observou Carl Schmitt, a política moderna tende a se organizar pela distinção amigo/inimigo.
(Na nossa realidade baseada em conceitos cristãos, o bem e o mal.)
O “sistema”, nesse sentido, é o inimigo perfeito: abstrato o suficiente para nunca ser plenamente derrotado, mas concreto o bastante para justificar indignações permanentes.
Essa elasticidade explica por que o discurso anti-sistema sobrevive tão bem mesmo quando seus porta-vozes chegam ao poder.
Quando o “anti-sistema” governa, o sistema simplesmente muda de endereço. Já não está mais no Palácio, mas na burocracia, no Judiciário, na imprensa, nas universidades, no mercado internacional — ou em qualquer lugar conveniente para preservar a narrativa da pureza traída.
Como diria Hannah Arendt, a substituição da análise pela lógica do ressentimento é um dos primeiros sinais de empobrecimento do espaço público.
Há, evidentemente, razões reais para o mal-estar contemporâneo: desigualdade persistente, crises de representação, financeirização da vida, erosão da confiança institucional.
O problema começa quando o “anti-sistema” deixa de ser uma crítica e se torna uma identidade. Nesse estágio, ele já não quer reformar, compreender ou disputar o sistema — quer apenas habitá-lo como inimigo permanente, pois é dessa oposição que retira sentido.
No fim, o discurso anti-sistema revela menos sobre o sistema que pretende combater e mais sobre a dificuldade contemporânea de lidar com a complexidade.
Como advertia Isaiah Berlin, o desejo de explicações únicas para problemas plurais é intelectualmente sedutor — e politicamente perigoso.
O sistema, seja ele capitalismo, globalização ou modernidade tardia, não cabe inteiro em um slogan. Mas slogans, como sabemos, são muito mais fáceis de gritar do que conceitos são de pensar.









