quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Ideologia elástica: o anti-sistema

Poucas expressões circulam com tanta desenvoltura — e com tão pouca precisão — no debate público atual quanto “anti-sistema”.

Ela aparece em discursos eleitorais, em threads indignadas, em manifestos improvisados e em mesas de bar.

É uma palavra de ordem que une sujeitos muito diferentes, frequentemente inimigos entre si, mas que compartilham uma mesma certeza: o problema está no sistema.

O detalhe incômodo é que quase ninguém concorda sobre o que exatamente ele seja.

Do ponto de vista da teoria política, o “anti-sistema” funciona como aquilo que Ernesto Laclau chamou de significante vazio: um termo que não possui um conteúdo fixo, mas que se torna um ponto de convergência de demandas, frustrações e ressentimentos heterogêneos.

Ele não explica a realidade; antes, organiza afetos. É menos um conceito e mais um recipiente.

Na Esquerda mais radical, o sistema costuma receber um nome clássico e respeitável: capitalismo.

Ele aparece como uma totalidade quase metafísica, capaz de explicar desde a precarização do trabalho até a ansiedade individual.

Aqui, o anti-sistema carrega uma tradição teórica robusta — Marx, Rosa Luxemburgo, Gramsci —, mas muitas vezes herda também um problema antigo: a tendência a transformar uma crítica estrutural legítima numa explicação totalizante, impermeável a nuances, mediações institucionais e contradições históricas.

Na outra ponta, a Direita delirante — para usar um termo suave — preenche esse mesmo significante com algo bem menos delimitado: o globalismo.

Trata-se de um conceito curioso, porque raramente aparece definido de forma rigorosa. Ele pode significar ao mesmo tempo organismos multilaterais, elites financeiras, pautas identitárias, universidades, imprensa, vacinas, ONGs, a ONU, George Soros e, em dias mais criativos, até o clima. É o sistema como conspiração difusa, não como estrutura econômica ou política analisável.

O resultado é paradoxal: grupos que discordam em quase tudo compartilham a mesma gramática do ressentimento.

Como observou Carl Schmitt, a política moderna tende a se organizar pela distinção amigo/inimigo.

(Na nossa realidade baseada em conceitos cristãos, o bem e o mal.)

O “sistema”, nesse sentido, é o inimigo perfeito: abstrato o suficiente para nunca ser plenamente derrotado, mas concreto o bastante para justificar indignações permanentes.

Essa elasticidade explica por que o discurso anti-sistema sobrevive tão bem mesmo quando seus porta-vozes chegam ao poder.

Quando o “anti-sistema” governa, o sistema simplesmente muda de endereço. Já não está mais no Palácio, mas na burocracia, no Judiciário, na imprensa, nas universidades, no mercado internacional — ou em qualquer lugar conveniente para preservar a narrativa da pureza traída.

Como diria Hannah Arendt, a substituição da análise pela lógica do ressentimento é um dos primeiros sinais de empobrecimento do espaço público.

Há, evidentemente, razões reais para o mal-estar contemporâneo: desigualdade persistente, crises de representação, financeirização da vida, erosão da confiança institucional.

O problema começa quando o “anti-sistema” deixa de ser uma crítica e se torna uma identidade. Nesse estágio, ele já não quer reformar, compreender ou disputar o sistema — quer apenas habitá-lo como inimigo permanente, pois é dessa oposição que retira sentido.

No fim, o discurso anti-sistema revela menos sobre o sistema que pretende combater e mais sobre a dificuldade contemporânea de lidar com a complexidade.

Como advertia Isaiah Berlin, o desejo de explicações únicas para problemas plurais é intelectualmente sedutor — e politicamente perigoso.

O sistema, seja ele capitalismo, globalização ou modernidade tardia, não cabe inteiro em um slogan. Mas slogans, como sabemos, são muito mais fáceis de gritar do que conceitos são de pensar.

O “anti-sistema”: significante vazio da moda

No Brasil, declarar-se “anti-sistema” virou uma forma elegante — e socialmente aceita — de dispensar o esforço do pensamento.

É o novo “não sou de Direita nem de Esquerda”, só que com mais raiva, menos leitura e um sentimento difuso de superioridade moral.

Trata-se de uma posição política curiosa: ela se afirma pela negação de algo que raramente é definido, mas sempre culpado.

Do ponto de vista conceitual, o “anti-sistema” é um significante vazio, como já explicava Ernesto Laclau — embora seus usuários brasileiros provavelmente nunca tenham passado da orelha do livro, quando muito.

É uma palavra que não diz o que é, mas diz contra quem se está. E isso basta para mobilizar paixões.

Quando esse significante vazio é evocado, qualquer coisa pode ocupar esse vazio: os injustos impostos, a demoníaca ideologia de gênero, a Mão invisível do Mercado, os reptilianos, os globalistas, os comunistas...

Todo inimigos imaginários, mas que servem a um propósito bem definido: preencher a vaga de inimigo a ser combatido.

À Esquerda mais extremada, o sistema atende pelo nome respeitável de capitalismo. Não se trata aqui de negar a legitimidade da crítica ao capitalismo — ela é vasta, antiga e intelectualmente séria. O problema começa quando tudo passa a ser capitalismo: o preço do feijão, o algoritmo do Instagram, a derrota eleitoral, a falta de carisma do candidato e, claro, a impossibilidade de vencer eleições sem convencer o eleitor. O capitalismo deixa de ser um modo de produção historicamente determinado e vira uma entidade onipotente, responsável até pelo mau humor matinal.

À Direita brasileira — especialmente aquela que resolveu substituir Burke por vídeos de Telegram — o sistema se chama globalismo. Eis um conceito notável por sua elasticidade cognitiva. Globalismo pode ser o STF, a ONU, a imprensa, as universidades, o SUS, a vacina, o IBGE, o Papa, artistas da Lei Rouanet e, se apertar um pouco mais, o clima. É o sistema como conspiração permanente, nunca como estrutura verificável. Não se estuda: denuncia-se. Não se analisa: acusa-se.

O mais fascinante é que esses extremos se encontram no método. Ambos precisam de um inimigo abstrato para explicar seus fracassos concretos.

Como ensinou Karl Popper, teorias que explicam tudo acabam não explicando nada. No Brasil, elas apenas rendem curtidas.

O bolsonarismo é talvez o exemplo mais acabado dessa lógica. Chegou ao poder bradando contra “tudo isso que está aí” — o sistema, ora vejam — e, uma vez instalado no Planalto, passou quatro anos explicando que não governava porque o sistema não deixava.

Congresso? Sistema.

STF? Sistema.

Imprensa? Sistema.

Vacina? Sistema.

O curioso é que o sistema sempre estava no outro poder, nunca no espelho.

Mas a Esquerda brasileira não fica atrás quando transforma o “anti-sistema” numa identidade estética. Parte dela passou a tratar a democracia liberal não como um campo de disputa imperfeito, mas como um disfarce burguês irremediavelmente fraudulento. Resultado: despreza eleições quando perde, relativiza autoritarismos amigos e troca a crítica institucional por uma retórica moralizante que não convence nem o porteiro do prédio.

Hannah Arendt advertia que a política começa onde termina a tentação de explicações totais.

O discurso anti-sistema faz o caminho inverso: ele oferece uma resposta simples para problemas complexos e, assim, desobriga seus adeptos de pensar soluções reais. Afinal, se o mal é absoluto, qualquer meio vira aceitável — inclusive o flerte com o autoritarismo, desde que “do lado certo”.

No fim das contas, o “anti-sistema” brasileiro não é revolucionário nem subversivo. Ele é confortável. Funciona como um álibi retórico para não lidar com reformas difíceis, escolhas trágicas e responsabilidades institucionais. É a política como ressentimento organizado.

E aqui está a ironia final: quem vive denunciando o sistema raramente quer destruí-lo.

Quer apenas ocupá-lo — sem controles, sem crítica, sem limites.

Não é anti-sistema. É anti-complexidade, anti-democracia e, muitas vezes, anti-realidade.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Santa Catarina contra a Constituição: decadência intelectual como ideologia política

Santa Catarina resolveu inovar. Não na ciência, não na educação, não na inclusão — isso seria pedir demais.

Resolveu inovar no ramo da inconstitucionalidade criativa.

A Assembleia Legislativa e o (des)governo estadual decidiram, com a solenidade de quem ignora a Constituição, proibir cotas raciais nas universidades estaduais, como se estivessem revogando um decreto municipal sobre estacionamento rotativo.

O detalhe irrelevante — apenas irrelevante para quem legislou — é que o Supremo Tribunal Federal já decidiu, de forma unânime, que políticas de ação afirmativa são constitucionais.

Não “toleráveis”, não “aceitáveis”, mas constitucionalmente legítimas. Isso foi em 2012. Treze anos atrás. Mas quem conta tempo quando se tem convicção ideológica?

Vamos à contabilidade. Eis, pelo menos, cinco ilegalidades jurídicas evidentes cometidas com a elegância de um bode no salão da Assembleia:

1. Usurpação de competência constitucional
Estados não têm competência para legislar de modo a restringir direitos fundamentais reconhecidos pela Constituição e interpretados pelo STF. Educação superior e direitos fundamentais não são brinquedos federativos. Santa Catarina agiu como se fosse um Supremo paralelo — sem toga, sem Constituição e sem pudor.

2. Violação direta ao princípio da igualdade material (art. 5º e art. 3º, CF)
A Constituição não protege uma igualdade de fachada, dessas que ignoram a história, os dados e a realidade social. O STF foi claro: tratar desiguais como iguais é produzir desigualdade. A lei catarinense faz exatamente isso — e ainda se apresenta como virtuosa.

3. Afronta à autonomia universitária (art. 207 da CF)
Universidades têm autonomia didático-científica e administrativa. Decidir critérios de acesso, desde que constitucionais, é atribuição da universidade, não do deputado estadual que resolveu fazer guerra cultural com o vestibular.

4. Desrespeito explícito à jurisprudência vinculante do STF
O julgamento das cotas não foi um “artigo de opinião”. Foi uma decisão plenária, sólida, reiterada e reafirmada ao longo dos anos. Ignorá-la não é ousadia — é insubordinação constitucional. No Estado de Direito, isso tem nome: ilegalidade.

5. Violação ao princípio da vedação ao retrocesso social
Quando o Estado reconhece políticas públicas voltadas à inclusão e depois as elimina sem base empírica ou constitucional, pratica retrocesso. Não é conservadorismo. É regressão institucional.

E o mais curioso é o discurso moralista que acompanha tudo isso. Fala-se em “meritocracia”, como se vestibular fosse olimpíada metafísica, onde o processo seletivo é trata docomo uma competição intelectual abstrata, desconectada da realidade material e social dos candidatos. Fala-se em “igualdade”, como se o Brasil tivesse começado ontem, sem escravidão, sem exclusão e sem estatísticas constrangedoras.

A lei catarinense não é neutra. Neutralidade aqui é ficção retórica. Ela escolhe um lado: o da desigualdade herdada, naturalizada e agora blindada por lei estadual.

O STF vai derrubar?

Muito provavelmente. É obrigação moral e legal derrubar.

A pergunta real é outra: por que legislar algo que já nasce morto?
Resposta simples: não é sobre Direito. É sobre sinalizar virtude ideológica a um público específico, mesmo que isso custe a Constituição.

O famoso apito de cachorro. Ou neste caso em questão, de gado.

Santa Catarina não está “defendendo a igualdade”. Está apenas demonstrando, mais uma vez, que convicção sem Constituição costuma dar nisso: uma lei que parece forte, mas juridicamente é oca.

E o Estado de Direito, felizmente, não se governa por achismo.


TEXTO DE:

Tarciso Tertuliano



Resumo técnico (conteúdo gerado por I.A.)

Uma lei estadual de Santa Catarina que proíba cotas raciais nas universidades estaduais fere:

✔ Constituição Federal (arts. 1º, 3º, 5º, 206 e 207)
✔ Lei 12.711/2012
✔ Estatuto da Igualdade Racial
✔ Jurisprudência pacífica do STF (ADPF 186, RE 597.285, ADI 3330)

*ADPF = Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental

✔ Princípios da igualdade material, autonomia universitária e vedação ao retrocesso

👉 Alta probabilidade de declaração de inconstitucionalidade, em controle concentrado ou difuso.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

EUA, Groenlândia e o possível boicote a Copa do Mundo

Vamos falar dos Estados Unidos, porque se a Convenção de Genebra fosse aplicada, todos os presidentes dos Estados Unidos estariam presos.

O debate sobre um possível boicote à Copa do Mundo de 2026, sediada nos EUA, Canadá e México, ganhou força no início de 2026, impulsionado por tensões geopolíticas envolvendo o presidente Donald Trump, ameaças de taxas tarifárias contra a Europa e a questão da Groenlândia.

A discussão também ganhou força nas redes sociais com hashtags como #BoycottWorldCup2026, citando receios com políticas migratórias e segurança nos EUA.

No entanto, até o final de janeiro de 2026, um boicote efetivo por seleções nacionais ainda é considerado improvável, mas o debate reflete uma politização crescente do evento.

A Europa vai perder a Groenlândia para os Estados Unidos e, se não ficar quieta, vai perder tudo, porque a Europa acabou.

A Europa não é nada. A Europa é uma península da Ásia, mas que resolveram chamar de continente porque há 2 mil anos ela é um império que concentrou muito poder.

A Europa nunca foi um continente. Então, nós temos a Ásia, com duas penínsulas.

Uma, que é o Oriente Médio, na região sudoeste, e outra, que é a Europa, na região oeste. Só isso. Mais nada. O mundo é tripolar. Estados Unidos, Rússia e China.

E, neste tripolar, nós temos um bipolar muito forte para o lado do BRICS.

Se considerarmos o BRICS um mundo e os Estados Unidos outro, seremos bipolar. Os Estados Unidos podem ser derrubados economicamente. A resistência dos Estados Unidos é a bomba atômica que ele tem muito poderio militar.

Um Estado decidiu pela força arrancar de outro Estado o seu governante. E é aqui onde entra a filosofia, porque o que está em jogo não é apenas um homem, mas o próprio conceito de soberania, de justiça e de legitimidade no mundo moderno.

Bom, vamos voltar ao tempo. Ao tempo em que desde Thomas Hobbes aprendemos a imaginar o Estado como um leviatã, ou seja, uma criatura gigantesca, temível e criada para impedir o caos. Cada país no seu território guarda sua própria fera, guarda seu próprio leviatã, mas o que vemos agora é algo muito mais antigo. Um leviatã devorando o outro leviatã.

TEXTO DE:
Thiago Muniz

sábado, 24 de janeiro de 2026

Yes, Nós temos Bananas

Em 1923, os americanos Frank Silver e Irving Cohn lançaram “Yes! We Have No Bananas”, uma canção cômica sobre uma mercearia que não tinha bananas.

Em 1938, Braguinha e Alberto Ribeiro responderam à altura com a marcha “Yes, nós temos bananas”, ironizando a então crescente dominação cultural norte-americana sobre as Américas.

A mensagem era clara: o Brasil não era apenas uma “república das bananas”, mas um país com produção e identidade próprias.

Curiosamente, um ano depois, quando o petróleo foi descoberto em Lobato, na Bahia - ninguém compôs o inevitável “Yes, nós temos petróleo”. Era ali que começava a história que levaria à Petrobras, em 1953. Para bom entendedor, meia ironia basta.

Evitei comentar a recente ofensiva contra a Venezuela e a detenção de Maduro, para não cair na armadilha dos rótulos.

Que fique claro: não tenho simpatia por ditadores — nem por Maduro, nem por Trump – menos ainda por ditaduras. Acredito no voto, na alternância de poder e na democracia.

Tenho estudado com interesse afiado o que rola na política espanhola, onde os partidos independentistas (catalão, basco e galego) além de dar a sustentabilidade ao governo central, são os seus principais defensores.

Por sinal, assim como a política brasileira, na Espanha está tudo muito polarizado. Onde um espirro pode transformar-se num temporal e um arroto num furacão devastador.

Aliás, a Europa racista e xenófoba nunca deixou de existir. Apesar de desaparecerem há mais de 50 anos, os espíritos de Franco e de Salazar, continuam em forma de assombração.

O mundo parece cada vez mais preso a uma lógica de Fla-Flu: de um lado “a paz, a esperança e o vigor, unido e forte”, do outro “ele me mata, me maltrata”. Cada qual dono da sua verdade.

Em dezembro de 1993, na famosa foto do corpo crivado de balas do Pablo Escobar, havia um agente da DEA (Drug Enforcement Administration — Administração de Repressão às Drogas dos Estados Unidos).

Naquele ano, o consumo de cocaína nos EUA foi estimado em cerca de 254 toneladas. Em 1994, subiu para 323. Em 1995, 376.

Mataram o traficante, mas o tráfico prosperou. Em 2023, 30 anos depois existem cerca de 25 milhões de usuários de cocaína no mundo, um recorde. O discurso de “guerra às drogas” não sobrevive ao segundo parágrafo dos números.

Esse mesmo padrão vale para a política externa dos EUA. Ao longo do século XX, Washington criou, financiou e armou ditadores em nome da “segurança” ou do “combate ao comunismo” — e depois os descartou quando se tornaram incômodos.

Saddam Hussein, Noriega, Pinochet, o do Irã, Trujillo, Diem, Batista, Mobutu, Somoza… sem falar no próprio Bin Laden. A fórmula é simples: cria-se o tirano útil, usa-se, joga-se fora.

Com uma dívida que ronda os 38 trilhões de dólares, é ingênuo achar que o interesse maior dos EUA na Venezuela seja a democracia.

Vivemos esse Fla-Flu global sem VAR (de um lado “a paz, a esperança e o vigor, unido e forte”, do outro “ele me mata, me maltrata"), enquanto a vida cobra seu preço.

As perdas recentes – precoces - dos amigos Paulo Andel, Zé Neto e André Horta e os meus limites da minha frágil saúde (e a quantidade exacerbada de remédios com que sou obrigado a conviver) me fazem pensar em desistir.

Com relação ao Brasil, ainda há muitas razões para resistir. Porque, afinal, yes, nós temos bananas.

Temos também petróleo, Amazônia, terras raras, 12% da água doce superficial do planeta, cachaça, caipirinha, chopp da Brahma, Machado de Assis, samba, Pelourinho, açaí, acarajé, lei Maria da Penha, feijoada, Carlos Drumond de Andrade, praia de Ipanema, Parada Gay, Carnaval e futebol.

E quando falo de futebol, falo de Fluminense.

TEXTO DE:
Antonio Gonzalez

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

A luta contra o autoritarismo é uma obrigação

A memória pública do século XX costuma simplificar a história da resistência ao fascismo e ao nazismo.

Com frequência, ela é apresentada como um confronto entre Esquerda e Direita, no qual apenas um campo político teria se colocado, de forma consistente, ao lado da democracia.

A documentação histórica, no entanto, revela um quadro mais complexo: a resistência ao totalitarismo foi plural, atravessou tradições ideológicas distintas e, em muitos casos, expôs contradições internas profundas.

Durante a Segunda Guerra Mundial, diferentes grupos — comunistas, liberais, conservadores, democratas-cristãos e nacionalistas não fascistas — atuaram contra regimes autoritários por motivações diversas, mas convergentes em um ponto central: a recusa ao Estado totalitário e ao poder concentrado em líderes incontestáveis.

Livorno e o comunismo italiano na resistência

A cidade de Livorno, na Toscana, ocupa um lugar singular nessa história. Em 1921, foi ali que se fundou o Partido Comunista Italiano (PCI). Durante o regime de Mussolini, seus militantes sofreram repressão sistemática: prisões, exílio interno e clandestinidade. Após a ocupação alemã da Itália, em 1943, os comunistas de Livorno tornaram-se protagonistas da resistência local, integrando brigadas partisans, organizando sabotagens e sustentando redes de apoio civil em uma cidade duramente atingida por bombardeios.

Embora o PCI estivesse politicamente alinhado à União Soviética e reconhecesse em Stalin o líder do principal esforço militar contra o nazismo, a prática da resistência italiana foi marcada por forte autonomia local. A prioridade não foi a instauração imediata de um regime ideológico, mas a derrota do fascismo e a reconstrução de instituições nacionais.

No pós-guerra, essa experiência contribuiu para a consolidação do chamado “comunismo italiano”, que aceitou o pluralismo partidário, a disputa eleitoral e a convivência institucional. Ao longo das décadas seguintes, inclusive após a revelação dos crimes do stalinismo, o PCI e suas bases sociais — entre elas Livorno — passaram por processos de revisão crítica e distanciamento de modelos autoritários.

Essa trajetória histórica oferece um dado relevante para o debate contemporâneo: há experiências de Esquerda que, confrontadas com o autoritarismo, optaram por reformular práticas e romper com a defesa de regimes personalistas. Ignorar esse aprendizado enfraquece qualquer discurso democrático.

A resistência liberal e conservadora

A documentação histórica também mostra que a oposição ao fascismo não foi exclusividade da Esquerda.

Na Alemanha, grupos liberais e conservadores — como o Círculo de Kreisau e setores do alto comando militar envolvidos na Operação Valquíria — conspiraram contra Hitler, motivados pela defesa do Estado de direito e pela percepção de que o regime levava o país à ruína.

Na França, o gaullismo organizou uma resistência nacionalista e republicana.

Na Itália, liberais, democratas-cristãos e monarquistas romperam com Mussolini em 1943.

Na Polônia ocupada, o Armia Krajowa, de orientação conservadora e anticomunista, formou a maior organização de resistência da Europa.

No Reino Unido, o conservadorismo parlamentar, sob a liderança de Winston Churchill, tornou-se um dos pilares da luta contra o nazismo.

Esses exemplos indicam que setores da direita, quando vinculados a instituições, legalidade e limites ao poder, foram capazes de resistir ao autoritarismo — inclusive pagando alto custo político e pessoal.

Lições históricas e o debate atual

A análise comparada dessas experiências aponta para uma conclusão recorrente nos estudos históricos: o autoritarismo não se define apenas por ideologia, mas por práticas concretas de poder. Culto à personalidade, desprezo por instituições, repressão a opositores e manipulação do processo eleitoral foram características comuns tanto ao fascismo quanto a outros regimes ditatoriais do século XX.

Nesse sentido, a história de Livorno sugere que a Esquerda democrática fortalece sua legitimidade quando é capaz de criticar e rejeitar ditaduras, independentemente de alinhamentos geopolíticos. Da mesma forma, a tradição liberal e conservadora europeia demonstra que a Direita preserva sua herança quando se recusa a apoiar lideranças golpistas, mesmo quando estas se apresentam como representantes de valores nacionais ou morais.

O registro histórico do século XX é consistente em um ponto: regimes personalistas e autoritários corroem tanto projetos revolucionários quanto tradições conservadoras. A resistência ao fascismo não foi um patrimônio exclusivo de um campo político, mas o resultado de escolhas feitas — ou recusadas — diante do poder absoluto.

A história não oferece receitas prontas, mas fornece critérios. Entre eles, talvez o mais claro seja este: quando a democracia é relativizada em nome da conveniência ideológica, o resultado tende a ser menos política e mais ruína institucional.

Por fim, não podemos deixar de citar, a vergonha que é para a Direita brasileira apoiar um  golpista fascistóide como Jair Bolsonaro.

Da mesma maneira que a Esquerda brasileira, não pode se dar ao luxo de apoiar ditadores como Nicolás Maduro.

Dom Casmurro e 13 Porquês - a genialidade que aproxima duas obras distantes

Dom Casmurro, de Machado de Assis, e 13 Porquês, de Jay Asher, parecem obras que não poderiam estar mais distantes uma da outra.

Um nasce no Brasil do século XIX, marcado pelo Realismo, pela ironia e pela desconfiança da própria narrativa. O outro surge no século XXI, voltado ao público jovem, lidando com temas urgentes como bullying, silêncio social e sofrimento psicológico.

Ainda assim, existe um ponto de contato poderoso entre os dois: ambos contam histórias cujo final é conhecido desde o começo — e, mesmo assim, nos fazem acreditar que tudo pode mudar.

É justamente aí que mora a genialidade narrativa dessas obras.


O suspense não está no final, mas no caminho

Em Dom Casmurro, Bentinho não esconde o fracasso de sua vida afetiva. Desde o início, sabemos que o amor por Capitu terminou em amargura, solidão e suspeita. Já em 13 Porquês, a morte de Hannah Baker é apresentada logo de saída. Não há mistério sobre o desfecho.

Então por que seguimos lendo?

Porque, nas duas narrativas, o verdadeiro suspense não está no o que acontece, mas no como poderia ter sido diferente. Cada lembrança de Bentinho, cada fita deixada por Hannah, cria no leitor a sensação incômoda de que uma escolha mínima — uma conversa, um gesto, uma escuta atenta — talvez tivesse mudado tudo.

Mesmo sabendo que não mudará.


A armadilha da esperança retrospectiva

Machado de Assis faz algo brilhante: transforma Bentinho em um narrador que conversa com o leitor, que se justifica, hesita, se contradiz. Ele não afirma com todas as letras que Capitu o traiu — ele sugere, insinua, planta dúvidas. E nós, leitores, entramos no jogo. Relembremos cada cena tentando encontrar o momento exato em que a história “desandou”.

Jay Asher constrói esse mesmo efeito com outra linguagem. As fitas de Hannah Baker organizam o passado como uma sequência de causas e efeitos. A cada episódio, pensamos: se alguém tivesse agido diferente aqui… A leitura avança movida por essa esperança tardia, quase cruel.

Nos dois casos, somos levados a fazer algo impossível: revisar o passado acreditando que ele ainda pode ser consertado.


Narradores que controlam a versão dos fatos

Bentinho e Hannah Baker têm algo em comum: ambos dominam completamente a narrativa. Eles escolhem o que contar, como contar e em que ordem contar. Não pedem exatamente nossa absolvição — pedem nossa adesão emocional.

O leitor não recebe a verdade objetiva. Recebe uma versão. E é essa versão, cuidadosamente construída, que nos envolve. Em Dom Casmurro, nunca saberemos se Capitu traiu ou não. Em 13 Porquês, a culpa pela morte de Hannah se dilui entre muitos personagens, nenhum deles um vilão clássico.

A força dessas histórias está menos nas respostas e mais no desconforto das perguntas que permanecem.


Tragédias feitas de pequenas coisas

Nem Machado nem Asher apostam em grandes acontecimentos espetaculares. Suas tragédias nascem do cotidiano: de silêncios, mal-entendidos, inseguranças, omissões. Bentinho não é um tirano; os personagens de 13 Porquês não são monstros. São pessoas comuns — e isso torna tudo mais perturbador.

Porque, se o erro foi pequeno, talvez pudesse ter sido evitado.

E é essa sensação que mantém o leitor preso à leitura, mesmo sabendo que o final já está escrito.


Quando a esperança faz parte da tragédia

Dom Casmurro e 13 Porquês provam que uma boa história não precisa esconder seu desfecho para ser envolvente. Às vezes, revelar o fim desde o início torna a experiência ainda mais dolorosa — e mais humana.

Ambas as obras nos conduzem a uma conclusão desconfortável: há histórias que não mudam não por força do destino, mas porque as escolhas humanas quase sempre chegam tarde demais.

E talvez seja por isso que seguimos lendo, página após página — não para mudar o final, mas para entender onde, exatamente, tudo começou a dar errado.


TEXTO DE:

Tarciso Tertuliano