Existem fins melancólicos e existem fins anunciados. Esse inevitavelmente seria um deles.
O fim da carreira política de Jair Bolsonaro — aquele tipo raro de epílogo que mistura tragicomédia, decadência e um certo perfume de coisa esquecida no fundo da geladeira. Não porque tenha sido brilhante um dia, mas porque, mesmo entregue ao mofo, ainda tem quem o abra, cheire e diga: “hum… acho que ainda dá pra usar”.
E aí entra um capítulo que merecia estudo antropológico: a fidelidade evangélica a Bolsonaro — não a Fé, veja bem, mas essa devoção política travestida de espiritualidade, como se o Messias errado tivesse subido ao púlpito.
Porque há algo de extraordinário, quase poético, no fato de que um político que fez carreira com grosseria, afronta e beligerância — e que nunca demonstrou, nem por acidente, um único "fruto do Espírito" — tenha sido convertido em ídolo justamente por aqueles que, teoricamente, deveriam reconhecê-los de longe. Mas a ironia da história trabalha em horário reduzido e nem sempre avisa antes de bater o ponto.
Some-se a isso outro ingrediente robusto: o ódio visceral a Lula (e tudo que ele representa), que sempre foi menos teológico e mais sociológico — um ressentimento de classe embrulhado em versículos, uma rejeição à figura do retirante nordestino que ousou sentar-se à mesa dos bem-nascidos e viver para contar a história.
É curioso: muitos desses templos pregam que Deus exalta o humilde, mas torcem o nariz quando o humilde ousa ser presidente.
Preferiam, claro, um homem “rude” no comportamento, mas alinhado com os códigos estéticos e sociais que confortam certos púlpitos.
E assim, enquanto Lula era demonizado não por causa de doutrinas, mas por causa de sua origem — o nordestino, o torneiro mecânico, o pobre que não pediu licença ao imaginário das elites sacralizadas — Bolsonaro era canonizado exatamente por aquilo que deveria ser motivo de repúdio cristão: a agressividade, o sarcasmo, o desprezo pelo oprimido, a política da ofensa como método.
Bolsonaro é um reflexo de espelho das lideranças evangélicas do Brasil.
Quando a maioria esmagadora dos pastores se colocam diante do espelho, o reflexo que surge é ódio as outras religiões, ódio a negros travestido de "teologia" (que reflete nas manifestações religiosas dessa raça), ódio à mulher, relativização do estupro (geralmente inocentando o homem e culpando a vítima pelo ato).
Com a derrocada final, vê-se uma procissão de justificativas.
Pastores que ontem diziam “ungido de Deus” hoje murmuram “perseguido”, “injustiçado”, “guerreiro espiritual”.
A cada escândalo, a cada passo rumo ao abismo jurídico, a cada demonstração de pequenez moral, surgem sermões improvisados para tentar manter de pé aquilo que já apodreceu por dentro — como se fosse possível reanimar múmia soprando versículos dentro dela.
E no entanto, quem deveria oferecer luz aceitou a confortável sombra do ódio. Quem deveria consolar escolheu inflamar. Quem deveria separar César de Deus preferiu misturar tudo e vender o combo na Black Friday da Fé.
Tudo para manter o controle sobre os fieis. Inclusive, manter o discurso de manipulação da imprensa e da conspiração satânica contra o escolhido. O que antes era um plano de Deus para o país, virou uma luta espiritual do bem contra o mal.
Claro, tudo um teste de Fé de Deus que precisa saber até onde o crente pode ir para provar sua Fé. Como onisciente, Ele até sabe, mas por algum capricho divino, gosta de brincar com essas situações.
A verdade — incômoda, inevitável, cristalina — é que a igreja evangélica institucional, em grande parte, falhou.
Falhou não por apoiar um político, mas por aceitar ser guiada por ele.
Falhou ao transformar preconceitos sociais em dogmas espirituais. Falhou ao confundir ressentimento com revelação e classe social com santidade. Falhou ao alimentar animosidade e chamar isso de discernimento.
E Bolsonaro?
Ah, Bolsonaro vai chegando ao fim como sempre viveu: pequeno, ruidoso, cercado de confusão e de um punhado de fanáticos que confundem carência emocional com patriotismo.
A carreira dele não termina com dignidade porque nunca começou com ela. Uma biografia não pode desaguar em grandeza quando nasceu de miudezas.
E à boa parte da igreja cabe agora encarar o espelho — não o do culto, aquele que só reflete o que convém, mas o real — e admitir que confundiu o Messias com o mensageiro do caos (e apesar das evidências preferiu caminhar com o segundo).
Que escolheu o escândalo em vez do evangelho. E que, se continuar assim, arrisca transformar o púlpito num monumento à própria cegueira.
Porque, ao fim das contas, a ruína de Bolsonaro é dele.
Mas a cumplicidade… essa é de quem o aplaudiu.