Não chega a causar espanto que parlamentares alinhados ao bolsonarismo se posicionem contra projetos que buscam criminalizar a misoginia.
Ao contrário: trata-se de uma coerência interna — ainda que desconfortável — com a trajetória política e discursiva que orbita em torno de Jair Bolsonaro.
Desde antes de sua chegada ao poder, Bolsonaro construiu capital político ancorado em declarações que frequentemente relativizavam ou desqualificavam pautas ligadas à igualdade de gênero.
Episódios amplamente divulgados, como suas falas direcionadas à deputada Maria do Rosário, não foram desvios pontuais, mas sinais de uma retórica que encontra eco em parte de sua base. Essa linguagem, longe de ser um ruído, acabou se consolidando como identidade política.
Dessa forma, quando projetos que visam tipificar a misoginia como crime avançam no debate público, o que se vê é uma reação previsível desse campo político.
A rejeição não nasce apenas de divergências técnicas ou jurídicas, mas de uma visão de mundo que frequentemente encara tais iniciativas como “exageros”, “censura” ou ameaças à liberdade de expressão — ainda que, na prática, o objetivo dessas propostas seja coibir violências estruturais e simbólicas contra mulheres.
Há também um cálculo político evidente. O bolsonarismo se sustenta, em parte, na mobilização de pautas identitárias invertidas, nas quais a defesa de direitos de minorias é retratada como privilégio ou imposição ideológica.
Nesse contexto, a criminalização da misoginia passa a ser apresentada como mais um elemento de uma suposta agenda “progressista” a ser combatida, reforçando a coesão de sua base eleitoral.
Por fim, é preciso reconhecer que esse posicionamento revela mais do que uma discordância legislativa: expõe os limites de um projeto político que, ao resistir ao reconhecimento de violências de gênero, acaba por normalizá-las — ainda que indiretamente.
Racismo, misoginia, homofobia, fazem parte da identidade bolsonarista.
E é justamente por isso que não surpreende.
Surpreendente seria o contrário: uma ruptura com esse padrão discursivo que, até aqui, nunca deu sinais consistentes de acontecer.






