sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Inflacionamento do futebol brasileiro

Há um movimento acontecendo no futebol brasileiro extremamente nocivo: inflação desacerbada de algumas contratações.

E vou exemplificar bem. Primeiro a de Gerson pelo Cruzeiro, depois a do Lucas Paquetá via Flamengo e agora estará sendo concretizada a de John Árias pelo Palmeiras.

Valores estratosféricos e nenhum deles faz jus aos valores empregados. É muito mais uma demonstração de poder perante aos demais clubes do que inteligência, uma aposta em médio e longo prazo.

O debate não é sobre méritos, e sim sobre ganância e poder de compra. E isso sempre existiu e não vai morrer dentro do universo do futebol.

O grande problema é esses clubes forçarem os demais a também tentarem cifras altas por contratações e mais para frente não honrarem com seus compromissos e na cara de pau ocasionarem calotes homéricos.

Valores e salários altos exigem expectativas e cobranças altas.

O Cruzeiro hoje possui o seu “Midas”, o Flamengo com essa atual diretoria ao que parece possui uma ideologia diferente do modelo de gestão anterior mas que mantém uma certa sustentabilidade financeira, e o Palmeiras onde tem uma presidente que acha que possui dinheiro infinito só porque o seu marido é banqueiro e já foram patrocinadores master com poderes.

Isso leva a contratações bem duvidosas, ainda mais pelas cifras inflacionadas. Num médio a longo prazo será extremamente nocivo pois vai mexer com o sentimento passional do torcedor.

Em ano de Copa do Mundo há alguns clubes com poder financeiro abastados, com modelos de gestão diferentes uns dos outros e que literalmente deram “All-in” em seus cofres.

Gerson saiu do Flamengo se sentindo desvalorizado, partiu para o futebol (sancionado) russo onde viu que a realidade era outra e vendo a possibilidade de mais uma Copa do Mundo escapar, seu pai e empresário achou a “galinha dos ovos de ouro” no Cruzeiro

Lucas Paquetá é um caso atípico de inflação. Sem espaço  na Premier League e nas demais ligas da Europa; acha uma espécie de portal da redenção voltando para o futebol brasileiro, no mesmo clube que o revelou, com uma realidade financeira megalomaníaca; bate na mesa e quebra o recorde do futebol brasileiro.

Detalhe: ele não tem repertório técnico para justificar esse valor de contratação. E seleção brasileira no currículo já não é mais parâmetro há décadas. Veremos cenas dos próximos capítulos e se por acaso o PIB de uma ilha homônima ao nome do jogador aumentar consideravelmente depois de algum jogo, desconfie.

O caso do Árias é atípico de como não se planejar e seguir somente um sonho. Tenhas muito cuidado com aquilo que desejas; um jogador com contrato vigente no Fluminense, com um acordo verbal do presidente anterior de que o liberaria após a Copa do Mundo de Clubes, na qual estava bem valorizado; fez valer ao máximo esse acordo verbal e saiu do clube na condição de ídolo máximo para um clube de zero expressão na Premier League na qual ficou meses no ostracismo.

Com a Copa do Mundo batendo na porta e o clube de zero expressão já deixando bem claro que não vai contar com ele na próxima temporada, se vê numa “faca de dois legumes”; a promessa pública de que só voltaria ao futebol brasileiro para o Fluminense e pela proposta altíssima do Palmeiras.

Onde estava o assessor ou empresário do Árias lá no ano passado que não orientou ele a não falar isso publicamente?

Veremos cenas dos próximos capítulos.

TEXTO DE:
Thiago Muniz


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

A matemática da indecência

O Congresso Nacional voltou a provar que não sofre de ignorância econômica, mas de algo bem mais grave: falta de vergonha na cara.

Na tarde de terça-feira (3), Câmara e Senado aprovaram um reajuste salarial para seus servidores cujo impacto chega a R$ 790 milhões. Um valor que supera a arrecadação anual de 95% dos municípios brasileiros. Sim, quase todo o Brasil real cabe dentro do aumento concedido ao Brasil oficial.

Agora, respire fundo e faça o exercício de memória que certos parlamentares preferem evitar.

São os mesmos políticos que, não faz muito tempo, torceram o nariz, fizeram discursos sobre “responsabilidade fiscal” e votaram contra — ou sabotaram — o vale-gás, um benefício modesto destinado a famílias que precisam escolher entre cozinhar ou comer. Para o pobre, o cofre está sempre vazio; para o próprio umbigo, o Tesouro é elástico.

A lógica é cristalina:
– R$ 100 para o gás? “Populismo”, “assistencialismo”, “rombo nas contas públicas”.
– R$ 790 milhões para a elite administrativa do Parlamento? “Valorização do servidor”, “justiça salarial”, “necessidade institucional”.

É uma contabilidade moralmente fraudulenta.

O problema não é a existência de servidores públicos — eles são essenciais.

O problema é o timing, o contexto e, sobretudo, a hipocrisia.

Num país em que municípios fecham postos de saúde por falta de verba, em que prefeitos mal conseguem pagar professores, o Congresso decide que a urgência nacional é reajustar salários no coração do poder.

E note-se: não se trata de ignorância sobre a realidade social. Trata-se de consciência plena. Eles sabem. Sabem que o valor do reajuste pagaria o gás de milhões de famílias por meses. Sabem que o discurso da austeridade só aparece quando o destinatário é pobre. Sabem — e fazem mesmo assim.

Isso não é erro de cálculo. É escolha política.

Quando um Parlamento vota com rapidez para garantir conforto aos seus e demora, trava ou rejeita políticas mínimas de proteção social, ele envia uma mensagem clara: o Estado existe, antes de tudo, para quem manda.

Depois, claro, virão os discursos inflamados sobre “desigualdade”, “sensibilidade social” e “compromisso com o povo”.

Palavras são baratas.

O que custa caro — R$ 790 milhões, por exemplo — é sempre reservado a quem já está sentado à mesa do poder.

O resto que se vire com o botijão vazio.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Beto Simonetti: quando defender a Constituição vira ato de coragem

A obrigação moral de aplaudir quem faz o básico, em 2026, é profundamente reveladora.

Beto Simonetti, presidente da OAB, no primeiro dia da retomada dos trabalhos do Legislativo, limitou-se a dizer o que está escrito — pasmem — na Constituição.

E fez disso um pronunciamento.

Corajoso? Não.

Necessário.

O que diz muito mais sobre o ambiente do que sobre o orador.

Simonetti defendeu o STF e o devido processo legal. Não pediu revolução, não clamou por “ativismo judicial”, não invocou teorias criativas sobre “vontade popular acima da lei”.

Apenas lembrou que democracia não é um reality show institucional em que se elimina o Supremo por voto emocional.

É chato, eu sei. Funciona com regras. E regras, por definição, frustram os ansiosos por atalhos.

O presidente da OAB fez algo que hoje soa quase insolente: reafirmou que o Supremo Tribunal Federal não é um capricho de toga, mas um pilar do arranjo constitucional.

Que decisões judiciais não se combatem com linchamento retórico, mas com recursos — dentro da lei, esse palavrão. E que devido processo legal não é um detalhe burocrático inventado para proteger “os de cima”, mas a última trincheira de qualquer cidadão quando a turba resolve achar culpados antes de provas.

Sim, houve quem torcesse o nariz. Sempre há. Afinal, vivemos tempos em que parte do debate público acredita que garantias constitucionais são privilégios e que juízes devem decidir conforme o humor das redes sociais.

Simonetti foi lá e estragou a festa: lembrou que não há democracia sem instituições, nem instituições sem limites, nem limites sem STF.

A ironia maior é esta: defender o Supremo hoje virou, para alguns, sinônimo de autoritarismo.

Uma ginástica mental admirável.

Segundo essa lógica, autoritário é quem aplica a Constituição; democrático é quem quer rasgá-la em nome de uma abstração chamada “povo”, geralmente definida por quem grita mais alto.

Ao se posicionar, a OAB — por meio de seu presidente — fez aquilo que dela se espera desde 1930: não defender governos, partidos ou humores, mas o Estado de Direito.

Num país em que o óbvio anda desaparecido, isso soa quase como um manifesto.

Convém registrar: não se trata de idolatrar o STF, instituição humana e falível, como qualquer outra. Trata-se de entender que a crítica legítima não prescinde de legalidade, e que o ataque sistemático às Cortes não é “liberdade de expressão”, mas método conhecido de erosão democrática.

Beto Simonetti não salvou a República. Não era esse o ponto. Apenas lembrou onde ela está escrita.

E, convenhamos, num tempo de analfabetismo constitucional militante, isso já é um serviço público dos bons.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Eulogy, o episódio perfeito de Black Mirror

O episódio Eulogy, da sétima temporada de Black Mirror, é menos sobre tecnologia e mais sobre memória — não como registro fiel do passado, mas como construção emocional. A inovação tecnológica apresentada não cria o conflito; ela apenas força o protagonista a encarar aquilo que ele passou anos evitando: a sua própria história.

Desde o início, somos apresentados a um homem que vive cercado de lacunas. As fotos da antiga namorada estão danificadas, o rosto dela nunca aparece por inteiro, e suas lembranças surgem fragmentadas, desfocadas, sempre interrompidas antes de chegar ao essencial. Nada disso é acidental. Eulogy constrói uma metáfora poderosa: quando escolhemos uma narrativa defensiva, a memória também se defende.

QUANDO NÓS SOMOS OS VILÕES DAS OUTRAS PESSOAS

O protagonista acredita, durante boa parte de sua vida, que foi o lado ferido da relação. A história que ele conta a si mesmo é simples, confortável e incompleta: ela falhou, ela foi injusta, ela destruiu algo que ele tentou preservar. Mas Eulogy desmonta essa lógica com cuidado e crueldade.

À medida que as lembranças avançam, fica claro que a relação não terminou por um único ato, mas por uma sucessão de pequenas violências emocionais, silêncios, orgulhos e incapacidades mútuas de escuta. O episódio aponta para uma verdade incômoda: é perfeitamente possível ser o vilão da história de alguém enquanto se enxerga como protagonista injustiçado da própria narrativa.

Aqui, Black Mirror toca em algo profundamente humano — a facilidade com que editamos o passado para preservar nossa autoimagem.

MAIS DIFÍCIL DO QUE PERDOAR O OUTRO É PERDOAR ISSO MESMO

O coração emocional de Eulogy não está no perdão direcionado à mulher que morreu, mas no perdão que o protagonista precisa conceder a si mesmo. Ele não sofre apenas pela perda do amor; sofre porque percebe, tarde demais, que também foi responsável pelo fracasso da relação.

O episódio sugere que o autoengano cobra juros altos. Enquanto ele sustenta a versão em que é apenas vítima, suas memórias permanecem quebradas — literalmente. As fotos seguem danificadas, o rosto dela inacessível. Só quando ele aceita sua parcela de culpa, reconhece suas falhas e abandona a necessidade de se inocentar, algo muda.

O perdão, aqui, não é absolvição. É reconhecimento. É a capacidade de dizer: eu amei, mas também feri.

O ROSTO POR TRÁS DAS FOTOS

Um dos símbolos mais delicados de Eulogy é o fato de que o protagonista só consegue ver nitidamente o rosto da namorada quando aceita a história inteira — não apenas a parte que o favorece. Enquanto ele insiste em uma narrativa mutilada, as imagens permanecem mutiladas.

A memória visual funciona como espelho da memória moral. Não é a tecnologia que falha; é a consciência que resiste. Quando ele finalmente se permite perdoar — a ela, por suas falhas, e a si mesmo, por suas omissões e durezas — o rosto surge. Inteiro. Humano. Real.

Nesse gesto silencioso, o episódio afirma algo profundo: só conseguimos lembrar plenamente de alguém quando deixamos de usar a memória como escudo.

O VELÓRIO DE MEMÓRIAS FALSAS

A cena final do velório condensa toda a crítica do episódio. Todos os presentes compartilham lembranças da falecida mediadas por um dispositivo tecnológico na têmpora. São memórias editadas, organizadas, emocionalmente seguras. A dor foi suavizada. O passado, padronizado.

O protagonista é o único ali que carrega uma memória real — contraditória, dolorosa, imperfeita. Ele lembra do amor, mas também das falhas, das brigas, dos silêncios. E isso o isola. Eulogy sugere que lembrar de verdade é solitário, porque a memória autêntica não serve ao conforto social; ela exige maturidade emocional. Ele está na porta, enquanto os outros estão dentro da igreja. O único amor real que ela teve estava fora de sua vida, mas ainda permanecia nas memórias.

Enquanto os outros consomem versões fabricadas da pessoa que morreu, ele é o único que conheceu alguém de fato.

O AMOR NÃO MORRE, MESMO SOTERRADO

Talvez o aspecto mais devastador de Eulogy seja sua recusa em tratar o amor como algo que desaparece com o tempo. O episódio afirma o contrário: o amor verdadeiro pode permanecer intacto mesmo soterrado sob mágoa, orgulho e anos de silêncio.

Não há reconciliação possível, não há redenção tardia. O que existe é uma elegia — no sentido mais honesto da palavra. Não uma celebração idealizada, mas o lamento consciente por um amor que existiu e que poderia ter sido diferente se ambos tivessem sido capazes de se enxergar com mais clareza.

A FILHA RECEBE O PASSADO QUE LHE FOI NEGADO

Entre tantas memórias fabricadas, higienizadas e compartilháveis, Eulogy reserva seu gesto mais silenciosamente esperançoso à filha da falecida. Enquanto os demais personagens acessam lembranças mediadas por dispositivos — versões seguras, editadas e emocionalmente neutras — é justamente ela quem consegue algo raro: uma memória verdadeira, não programada, não consensual, vinda diretamente do protagonista.

Esse encontro é decisivo porque rompe o circuito fechado da memória artificial. A filha não conhece a mãe apenas pela imagem socialmente aceitável construída no velório, mas por uma lembrança atravessada por contradição, dor e amor. Ao ouvir o protagonista, ela entra em contato com um lado da mãe que nunca lhe foi apresentado: imperfeito, apaixonado, falho, profundamente humano.

Aqui, Black Mirror sugere algo poderoso: a memória verdadeira não é necessariamente a mais confortável, mas é a única capaz de ampliar o outro. A filha não recebe uma versão idealizada da mãe — recebe uma mulher que amou, errou, foi amada e também feriu. E isso não diminui a mãe; ao contrário, a torna mais real.

Há algo quase pedagógico nesse gesto. Enquanto a tecnologia promete preservar o passado, é a transmissão humana — frágil, subjetiva, emocional — que de fato cria vínculo e compreensão. A filha passa a conhecer a mãe não como mito ou arquivo, mas como alguém que existiu em relação a outro ser humano.

Nesse sentido, Eulogy aponta para uma inversão sutil: o protagonista, que parecia condenado a carregar sozinho o peso da memória real, torna-se o único capaz de oferecer à filha algo que nenhuma tecnologia poderia fornecer — uma lembrança que não fecha a história, mas a abre. Não uma resposta definitiva, mas uma complexidade nova.

Ao permitir que a filha conheça esse lado oculto da mãe, o episódio afirma que a memória autêntica não serve apenas para o luto; ela serve para o encontro. Mesmo depois da morte, mesmo depois do tempo, mesmo depois do erro.

E talvez essa seja a nota mais delicada da elegia que Black Mirror compõe aqui:
a verdade não consola como a mentira, mas conecta como nada mais é capaz de fazer.

CONCLUSÃO

Eulogy é um dos episódios mais humanos de Black Mirror porque desloca o horror da tecnologia para dentro de nós. Ele nos confronta com uma pergunta incômoda: quantas memórias mantemos danificadas apenas para não encarar quem fomos?

Ao final, quando o protagonista finalmente vê o rosto da mulher que amou, entendemos que a verdadeira falha nunca foi técnica. Foi moral. E que, às vezes, só conseguimos lembrar plenamente de alguém quando aceitamos que amar também implica falhar — e assumir isso.

Por fim, o encontro com a filha, que não é dele, mas é o resultado da relação imperfeita que  teve com o grade amor de sua vida, nos dá uma resposta bem clara: ele teria perdoado, teria sido um pai para ela.

E além do fim do episódio, nosso protagonista aceita a filha que não teve, da mesma maneira que ela ganha o pai que lhe foi negado pelo destino.

Um final perfeito.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Alô, Rede Globo! Já passaram do ponto

Você pagou com traição a quem sempre lhe deu a mão.

A primeira rodada do Brasileiro 2026 encerrou e já veio com polêmica: o inconformismo do locutor Luis Roberto com um  “pênalti” não marcado em favor do Clube de Regatas do Flamengo.

Um adendo: Regatas é a origem do Flamengo, e não futebol.

E mesmo assim a atual diretoria extinguiu o investimento nesse esporte alegando não dar retorno financeiro.

Ok! Se pensa e age como uma empresa deveria ser tratada e cobrada fiscalmente como uma empresa, e não uma instituição sem fins lucrativos.

E o Flamengo deixou de ser “sem fins lucrativos” há décadas.

Digo “há décadas” pois desde o final da década de 70 e início de 80, a Rede Globo com o aval de seu torcedor fanático Roberto Marinho e uma trupe de jornalistas extremamente parciais e passionais criaram a FlaPress, onde até hoje atuam em prol de criar, sustentar e manipular narrativas infames em prol de sempre manter o clube Flamengo nos holofotes da mídia.

E mantendo o holofote se cria uma redoma terraplanista de que esse clube é o mais importante do mundo. E não é!

Cria-se um cenário perigoso para manipular a realidade e distorcer os fatos para que o público compre essa narrativa e cobre a responsabilidade de pessoas que nada tem a ver com os fatos. 

Essa engrenagem comportamental se sustentou por algumas décadas; até chegar a pandemia, com uma diretoria abraçada ideologicamente com o governo federal da época: negacionista, fascista é misógino.

E que por ingratidão passou a dispensar os serviços de blindagem midiática e criou a sua própria mídia, em alguns episódios passou a assediar e ignorar quem lhe deu a mão há décadas atrás. 

Isso é só para provar o quanto a Rede Globo faz papel de ridícula criando narrativas não-verdadeiras para alcançar um público que não lhe quer mais e isso só mancha a própria imagem da emissora.

Como é só a primeira rodada espero que seja uma bela lição ter tomado.

Que não faça lobby a jogadores que não estão à altura da seleção brasileira, que não mude a sua visão de campo no meio de uma partida e que seja mais parcial em suas análises. Já está chato isso, não cola mais, o VAR não é um puxadinho da Gávea, como muitos pensam. 

TEXTO DE:
Thiago Muniz

sábado, 31 de janeiro de 2026

Pra Tudo começar na quinta-feira

Pra tudo começar na quinta-feira” é um livro necessário não só para o universo do Carnaval quanto para a cultura popular brasileira num todo.

Mostra em caráter histórico, plural e literal uma forma distinta de contar uma história, que são os desfiles de escolas de samba.

O mais engraçado é que a primeira edição foi lançada no ano de 2016 e se passaram 10 anos para uma segunda edição, mas com uma explosão de informações pois exatamente depois da publicação houve uma injeção e revolução de novos carnavalescos e com uma fome inimaginável de enredos necessários para aquele período, principalmente no triênio 2019-2022 (2021 não houve carnaval devido a pandemia).

De 2016 para cá houve que uma certa passagem de bastão do “Old School” para a galera atual de maneira natural, sem alarde.

E as demandas do cotidiano permitiram o aceleramento deste processo em virtude de suas malhas criativas. De Fernando Pamplona / Rosa Magalhães / Joãozinho Trinta até Bora-Haddad / Leandro Vieira / Tarcísio Zanon.

Se passaram 10 anos onde os autores Luiz Antonio Simas e Fábio Fabato: Simas com aquela dose de malícia acadêmica e malandragem das encruzilhadas e dos botequins; e Fabato com o carisma vocábulo em suas crônicas, com mais robustez e paixão em sua análise, fruto do amadurecimento que a própria vida o trouxe.

Um livro que pode muito bem ter uma terceira edição daqui a 10 anos, pois ele já nasceu atemporal. E as circunstâncias que o Carnaval sofreu permitiram acontecer, entre retaliações e racismo, ela continua em pé e para quem é amante do Carnaval como eu não podemos deixar morrer essa forma única de se contar uma história.

TEXTO DE:
Thiago Muniz



quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Ideologia elástica: o anti-sistema

Poucas expressões circulam com tanta desenvoltura — e com tão pouca precisão — no debate público atual quanto “anti-sistema”.

Ela aparece em discursos eleitorais, em threads indignadas, em manifestos improvisados e em mesas de bar.

É uma palavra de ordem que une sujeitos muito diferentes, frequentemente inimigos entre si, mas que compartilham uma mesma certeza: o problema está no sistema.

O detalhe incômodo é que quase ninguém concorda sobre o que exatamente ele seja.

Do ponto de vista da teoria política, o “anti-sistema” funciona como aquilo que Ernesto Laclau chamou de significante vazio: um termo que não possui um conteúdo fixo, mas que se torna um ponto de convergência de demandas, frustrações e ressentimentos heterogêneos.

Ele não explica a realidade; antes, organiza afetos. É menos um conceito e mais um recipiente.

Na Esquerda mais radical, o sistema costuma receber um nome clássico e respeitável: capitalismo.

Ele aparece como uma totalidade quase metafísica, capaz de explicar desde a precarização do trabalho até a ansiedade individual.

Aqui, o anti-sistema carrega uma tradição teórica robusta — Marx, Rosa Luxemburgo, Gramsci —, mas muitas vezes herda também um problema antigo: a tendência a transformar uma crítica estrutural legítima numa explicação totalizante, impermeável a nuances, mediações institucionais e contradições históricas.

Na outra ponta, a Direita delirante — para usar um termo suave — preenche esse mesmo significante com algo bem menos delimitado: o globalismo.

Trata-se de um conceito curioso, porque raramente aparece definido de forma rigorosa. Ele pode significar ao mesmo tempo organismos multilaterais, elites financeiras, pautas identitárias, universidades, imprensa, vacinas, ONGs, a ONU, George Soros e, em dias mais criativos, até o clima. É o sistema como conspiração difusa, não como estrutura econômica ou política analisável.

O resultado é paradoxal: grupos que discordam em quase tudo compartilham a mesma gramática do ressentimento.

Como observou Carl Schmitt, a política moderna tende a se organizar pela distinção amigo/inimigo.

(Na nossa realidade baseada em conceitos cristãos, o bem e o mal.)

O “sistema”, nesse sentido, é o inimigo perfeito: abstrato o suficiente para nunca ser plenamente derrotado, mas concreto o bastante para justificar indignações permanentes.

Essa elasticidade explica por que o discurso anti-sistema sobrevive tão bem mesmo quando seus porta-vozes chegam ao poder.

Quando o “anti-sistema” governa, o sistema simplesmente muda de endereço. Já não está mais no Palácio, mas na burocracia, no Judiciário, na imprensa, nas universidades, no mercado internacional — ou em qualquer lugar conveniente para preservar a narrativa da pureza traída.

Como diria Hannah Arendt, a substituição da análise pela lógica do ressentimento é um dos primeiros sinais de empobrecimento do espaço público.

Há, evidentemente, razões reais para o mal-estar contemporâneo: desigualdade persistente, crises de representação, financeirização da vida, erosão da confiança institucional.

O problema começa quando o “anti-sistema” deixa de ser uma crítica e se torna uma identidade. Nesse estágio, ele já não quer reformar, compreender ou disputar o sistema — quer apenas habitá-lo como inimigo permanente, pois é dessa oposição que retira sentido.

No fim, o discurso anti-sistema revela menos sobre o sistema que pretende combater e mais sobre a dificuldade contemporânea de lidar com a complexidade.

Como advertia Isaiah Berlin, o desejo de explicações únicas para problemas plurais é intelectualmente sedutor — e politicamente perigoso.

O sistema, seja ele capitalismo, globalização ou modernidade tardia, não cabe inteiro em um slogan. Mas slogans, como sabemos, são muito mais fáceis de gritar do que conceitos são de pensar.