segunda-feira, 27 de abril de 2026

Pixote: Entre perder o dedo e o Alzheimer de uma amiga

(por Antonio Gonzalez)

Fiquei diabético aos 57 anos e logo ouvi: “a diabetes é silenciosa”. É verdade. Quando entra na sua vida, toma conta de tudo. Você passa a girar em torno dela e da insulina, que parece mandar em cada passo, verdadeira DOMINATRIX.

Recentemente, uma unha do pé inflamou. Arrancada, a ferida infeccionou e colocou meu dedo em risco.

Internado, em observação estou.

E aí a cabeça entra em parafuso: dor, medo, incerteza. A pergunta não sai da mente: por que isso está acontecendo comigo? E pior: como será o amanhã?

No meio desse turbilhão, me sinto até egoísta. Porque alguém fundamental na minha vida enfrenta algo ainda mais duro.

Em março de 1978, conheci uma freira que mudou minha forma de ver a , que mostrou-me o real sentido da vida. Foi ela quem me ensinou o sentido real dos Evangelhos e de seguir Jesus Cristo.

No ano seguinte, aos 17 anos, impulsivo, cantei numa missa uma versão inspirada em Geraldo Vandré: PARA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DE CRISTO. Resultado: fui denunciado por um casal conservador (ele era irmão do General Walter Pires, Ministro do Exército do governo do Figueiredo) às forças politico-policiais do poder da época, que pressionaram pela minha saída da Igreja de São João Batista da Lagoa. Meus pais, estrangeiros, chegaram a cogitar me mandar para fora do país.

Mas essa freira ficou ao meu lado. Me defendeu, me acolheu, cuidou de mim, da minha cabeça. Até me dedicou uma canção:
"MEU QUERIDO AMIGO, MEU MENINO JÁ QUASE HOMEM... IDEALISTA E RADICAL, É PRA VOCÊ ESSA CANÇÃO... SIMPLES, POBRE, MAS DE CORAÇÃO".

Aquilo me marcou profundamente. Aprendi ali que o Cristo dos Evangelhos é exigente e que muita gente prefere uma fé mais confortável, quase folclórica.

Ela era à frente do seu tempo.

Essa freira tinha uma mente tão avançada para aqueles anos que, em 1980, lhe falei que havia visto o filme Pixote, que era um verdadeiro soco na boca da sociedade de então. Ela disse que queria  ver, retruquei que havia uma cena de nudez com a Marília Pera. Me convenceu a levá-la ao Cine Roxy, em Copacabana

Durante a sessão chorou várias vezes. Sempre preocupou-se pelo mais necessitados.

Sensível, corajosa, comprometida com os mais pobres. Viramos inseparáveis; eu a chamava de Mãe.

Com o tempo, foi transferida - Volta Redonda e Goiás -  cresceu dentro da Igreja, virou Madre Superiora. Fui para a Espanha. A vida nos afastou, mas nunca apagou o lugar que ela ocupa em mim.

Em 2022, quando falei do meu distanciamento da Igreja (especialmente por discordâncias com certos caminhos e figuras), ela respondeu com simplicidade:
Toni, meu compromisso é com o nosso Cristo”.

No último domingo, dia em que completou 80 anos, soube que foi diagnosticada com Alzheimer.

E aí tudo pesa diferente. Meu dedo, minha dor, meu medo… tudo parece pequeno. O que revolta é ver alguém que viveu para o próximo enfrentar esse fim, enquanto tanta hipocrisia prospera por aí, como esse FARISEU MISÓGINO que chamam de Frei Gilson

Se eu pudesse pedir algo, não seria pelo meu dedo.

Seria pela cura dela.

É o mínimo que ela merece.

TEXTO DE:
Antonio Gonzalez

sábado, 25 de abril de 2026

Entre Puritanos, Piratas e Maçons: o Mito da Fundação Cristã dos EUA

Neocons e olavistas dizem: “os Estados Unidos são uma nação fundada em valores cristãos”.

A tese de que os Estados Unidos são uma nação fundada sobre “valores cristãos” é um lugar-comum no meio direitista brasileiro, profundamente americanista.

Contudo, ao observarmos a gênese da ocupação europeia na América do Norte e a fundação da República, a narrativa se torna mais falsa e deturpada. A afirmação de que o país foi erguido por piratas, radicais puritanos e maçons seria uma descrição historicamente mais precisa dos vetores de força que moldaram a psique e as estruturas de poder americanas.

Quando falamos dos Peregrinos do Mayflower, a imagem direitista é a de homens e mulheres piedosos em busca de liberdade religiosa. A verdade, no entanto, é outra: eles não buscavam liberdade religiosa para todos os cristãos; buscavam a liberdade de impor um puritanismo radical, completamente tresloucado.

Na Inglaterra, eram vistos como subversivos; foram expulsos e perseguidos pelo rei. Na América, tornaram-se inquisidores verdadeiramente abusivos, cabendo, aqui sim, todos os ataques à Inquisição nos reinos católicos, feitos levianamente pelos inimigos da Igreja.

Na fundação da Colônia da Baía de Massachusetts, presenciou-se a loucura fanatizante daquelas seitas protestantes: expulsaram dissidentes como Roger Williams e Anne Hutchinson para o deserto gelado; enforcaram quakers em Boston Common; promoveram as infames caças às bruxas de Salém — não, não foi obra da Igreja Católica.

Acreditavam que eram os novos israelitas e que os nativos americanos eram cananeus a serem desapossados ou exterminados em nome da “Terra Prometida” — semelhança com a questão sionista atual não é mera coincidência.

O DNA dessa certeza moral inabalável, dessa convicção de ser um “povo eleito” acima das leis mundanas, está mais presente no Destino Manifesto do século XIX do que no Sermão da Montanha.

Enquanto os puritanos rezavam em igrejas de madeira, a verdadeira força motriz da colônia que se tornaria a capital financeira do mundo vinha da água salgada. Nova York, por sua vez, começou como Nova Amsterdã, um posto de comércio holandês que era, essencialmente, uma lavanderia de dinheiro sujo da pirataria global.

Os portos da Nova Inglaterra e das Colônias Centrais enriqueceram vertiginosamente, equipando e financiando corsários (piratas com licença governamental para roubar) e recebendo piratas declarados para vender seus saques.

Capitães como William Kidd transitavam entre a elite política de Nova York e a forca. O ouro e a prata espanhóis, saqueados dos galeões nas Caraíbas, eram derretidos e transformados em moeda corrente nas colônias americanas, construindo as primeiras grandes fortunas e universidades (Harvard, Yale).

O valor fundador aqui não é cristão; é a acumulação primitiva de capital por meio da violência marítima, bancada pela própria Coroa Britânica. O espírito do capitalismo americano — agressivo, especulativo e, muitas vezes, operando nas fronteiras da legalidade — deve-se a esse legado de bucaneiros.

E eis o elo que une o radicalismo puritano e o capitalismo pirata em uma República laica. A maioria esmagadora dos “Pais Fundadores” — George Washington, Benjamin Franklin, Paul Revere, John Hancock — não eram cristãos fervorosos, mas sim deístas e maçons.

A Maçonaria, com a arquitetura simbólica do Grande Arquiteto do Universo e o segredo iniciático, forneceu a estrutura organizacional e filosófica para a Revolução Americana. A festa do Boston Tea Party foi organizada na loja maçônica St. Andrew’s. A disposição de Washington, D.C., é um diagrama maçônico.

Enquanto o povo no campo ia à igreja batista ou metodista, a elite que escreveu a Constituição — um documento notavelmente secular, que proíbe testes religiosos para cargos públicos e, na Primeira Emenda, ergue um muro entre Igreja e Estado — operava sob princípios do Iluminismo radical, temperados com ritualismo hermético. Foram os maçons que traduziram o fervor puritano e a energia pirata em um Estado-nação.

Dizer que os EUA são uma “nação cristã” e protetora da “civilização ocidental” serve ao discurso neocon para justificar a guerra no Irã, o genocídio em Gaza patrocinado pelos EUA e todas as desastrosas invasões americanas no Oriente Médio.

TEXTO DE:
Eduardo Carvalho

terça-feira, 21 de abril de 2026

Inimigos do Povo

Em 1989, Boni passou glicerina em Collor pra simular suor e o candidato forjar uma imagem que “dialogasse com o povão”, pois viu que Lula era um fenômeno popular e fazia isso com naturalidade. A Globo interveio nas eleições pra tirar a vitória do então presidenciável novato Lula

Em 1994, os editoriais deixam claro a preferência por FHC, assim como em 98, pois Lula era tido como “sindicalista doidão”.

Em 2002, os maiores players de comunicação do país tentaram o último suspiro com Serra, mas viram a força popular de Lula, que foi pressionado pela Faria Lima até o último momento e obrigado a colocar um empresário como vice em sua chapa.

Ainda em seu primeiro mandato, Lula viu a bancada evangélica crescer, parlamentares levando grana e chantageando o governo como tática pra aprovar os projetos sociais administrados em sua gestão.

Muitos quadros fisiológicos do Partido dos Trabalhadores, filiados ao partido apenas pra comporem quociente eleitoral, acabaram se debandando para o lado do centrão, inclusive ministros nomeados pela chapa com o antigo PMDB.

Os escândalos que eram abafados pela imprensa durante todo governo FHC e suas privatarias escusas foram amplificados nos governos Lula a partir do então deputado Roberto Jefferson, um conhecido personagem remanescente da ditadura, amigo dos deputados evangélicos envolvidos na Máfia das Ambulâncias, e que tinha rixa com o empresário Marcos Valério, chamando pejorativamente de “mensalão” o que sempre foi visto antes como “emendas parlamentares”, oportunamente ignorado por Jefferson desde o governo militar. 

O objetivo era criar um rótulo forte que enfraquecesse o governo federal, e tudo com a chancela dos principais grupos de comunicação do país, que abriam espaços em suas grades de programação para mostrar o lado cantor de Roberto Jefferson, humanizando e suavizando a imagem do deputado, e pegando carona em suas denúncias como uma forma legítima de fritar o governo recorrendo a respaldos jurídicos, pois o “mensalão” era fato consumado - inclusive beneficiando o próprio Roberto Jefferson, que foi condenado pelo STF, posteriormente, por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, tendo recebido dinheiro em espécie da banda podre do PT, que migrou em massa, nos anos 2000, para diversos partidos do centrão.

Mesmo assim, em 2010, Lula sai com aprovação popular recorde, na casa dos 80%, diante do sucesso de suas políticas sociais que transformaram o país nos anos 2000, tiraram o Brasil do mapa da fome, inseriram a classe média no perfil do consumo e garantiram pleno emprego à população.

Os grandes empresários e os principais veículos de comunicação do país nunca admitiram a continuação de um governo petista, a ponto de darem força na esquematização de um golpe parlamentar que viria a tirar Dilma da presidência.

Nunca foi pedalada, mas sim uma “enfrentada” que Dilma tentou emplacar contra o forte Congresso de Eduardo Cunha, sem sucesso. 

A demonização final do PT ficou a cargo de figuras ressentidas do PSDB, que viram em Sérgio Moro e Deltan Dallagnol o lawfare necessário a criar um espantalho demoníaco da figura de Lula, como se ele fosse o grande operador de toda corrupção política que sempre existiu no país, mas que, oportunamente, era abafada pelos veículos de comunicação hegemônicos em governos neoliberais pretéritos.

Dito isso, a verdade nua e crua é que a imprensa foi contra o fim da escravidão lá atrás, no final do século XIX, assim como, já no século XX, foi contra a criação do salário mínimo, contra a criação do 13o salário e hoje se põe contra o fim da escala 6x1.

Qualquer governo popular que se atreva a criar políticas sociais que se oponham aos interesses dos grandes latifúndios e dos setores financeiros, sempre será demonizado pelas famílias da comunicação do país, que se beneficiam de suas parcerias.

Para emplacar uma terceira via, até Caiado, um grileiro de direita que relativiza crimes da época da ditadura, vira opção contra a “polarização”…

Lula é maior que tudo isso.

Se Flávio Bolsonaro vencê-lo esse ano, a maior derrota será nossa, e não de Lula.

A não ser que você seja acionista na Unilever, seja da família Marinho ou dono da Coca-Cola.

Ou também um evangélico médio, que em geral é ignorante e não tem culpa de sua condição hipossuficiente.

Mas se você for um funcionário público, um empregado CLT, dono de um mercadinho de bairro ou de uma oficina, ou tenha ações de baixo investimento na Bolsa e um BYD financiado na garagem, a derrota de Lula é a sua derrota, ainda que você se veja como um futuro entrevistado do Pequenas Empresas, Grandes Negócios por fabricar um abridor de sachê de maionese e fature 10 mil por mês com isso.

TEXTO DE:
Bruno Freixo

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Oscar 14

Eu cresci na Itália assistindo ao jogos do Oscar Schmidt, e ele se tornou um ídolo meu. Era um jogador excelente. Conversei com ele em Londres. Tive a chance de falar um pouco com ele. Eu realmente gostava de vê-lo jogar quando eu era criança.
(Kobe Bryant)

Oscar Schmidt, o "Mão Santa", nos deixou aos 68 anos e deixa um legado eterno para o esporte brasileiro.

Nascido em Natal, ele se tornou o maior pontuador da história do basquete mundial: foram quase 50 mil pontos ao longo de 25 temporadas.

Participou de cinco Olimpíadas e ainda ostenta o recorde de maior cestinha da história dos Jogos. No Pan de 1987, liderou o Brasil na histórica vitória sobre os Estados Unidos, na casa deles.

Oscar mostrou ao mundo que o Brasil vai além do futebol. Um ídolo que ensinou gerações a amar o basquete e a acreditar no impossível.

Oscar construiu uma das carreiras mais impressionantes do basquete mundial. Ídolo da seleção brasileira, participou de cinco Olimpíadas e liderou o Brasil na histórica conquista do ouro nos Jogos Pan-Americanos de 1987, em uma vitória marcante sobre os Estados Unidos.

Ao longo de sua carreira, somou impressionantes 49.973 pontos e também se tornou o maior cestinha da história das Olimpíadas, com 1.093 pontos.

Pela Seleção Brasileira, conquistou o ouro no Pan-Americano de 1987 e foi três vezes campeão sul-americano, em 1977, 1983 e 1985.

Por clubes, construiu uma trajetória igualmente vitoriosa, com três títulos brasileiros, um título sul-americano de clubes campeões, um título mundial, seis conquistas do Campeonato Paulista e dois títulos do Campeonato Carioca.

Mesmo escolhido no draft da NBA, Oscar optou por não jogar na liga americana para seguir defendendo a seleção brasileira, decisão que ajudou a consolidar sua imagem como símbolo do esporte no país. Ao longo da carreira, acumulou recordes, prêmios e entrou para os halls da fama do basquete mundial, incluindo o Basketball Hall of Fame, nos Estados Unidos.

TEXTO DE:
Thiago Muniz


segunda-feira, 13 de abril de 2026

Papa Trump

A essa altura, já não se trata mais de excentricidade política — é método, é vício e, talvez, algo mais preocupante.

A insistência de Donald Trump em se colocar como protagonista absoluto de qualquer cena, seja doméstica ou global, atravessou a fronteira do cálculo político e entrou no território da compulsão.

Não basta disputar narrativas: é preciso monopolizá-las. Não basta ser relevante: é preciso ser indispensável. E, ao que tudo indica, nem mesmo figuras de autoridade moral universal escapam dessa lógica.

A recente investida contra o Papa Leão XIV — acompanhada de publicações em sua própria rede social — escancara algo que vai além da retórica agressiva habitual.

Ao compartilhar uma imagem em que se associa, ainda que simbolicamente, a Jesus Cristo, Trump não apenas tensiona os limites do bom senso: ele desafia diretamente o senso de realidade.

Não se trata mais de hipérbole política; trata-se de um deslocamento perigoso entre o que é metáfora e o que é autoimagem.

Esse comportamento não surge no vácuo. 

Desde os tempos de campanha, Trump construiu sua persona pública como uma espécie de messias político — alguém que não apenas lidera, mas salva.

O problema é que, quando a política passa a operar sob esse registro quase religioso, o debate racional dá lugar à devoção, e a crítica passa a ser tratada como heresia.

O dado novo, porém, talvez seja o mais revelador: vozes dentro do próprio campo conservador começam a expressar desconforto. Aliados históricos, ainda que cautelosos, já deixam escapar avaliações sobre um possível declínio cognitivo, sugerindo que a insistência em comportamentos erráticos pode não ser apenas estratégia — mas sintoma.

A palavra “senilidade”, até pouco tempo restrita aos adversários mais duros, começa a circular também entre aqueles que, até ontem, preferiam o silêncio constrangido.

É evidente que diagnósticos médicos não podem — nem devem — ser feitos a distância, muito menos instrumentalizados politicamente. Mas a política, por sua própria natureza, exige algum grau de previsibilidade, de autocontenção e de aderência mínima à realidade. Quando essas balizas começam a ruir, o problema deixa de ser apenas eleitoral e passa a ser institucional.

A questão central, portanto, não é mais se Trump exagera — isso sempre foi parte do pacote. A questão é se ainda há, por trás do espetáculo, algum compromisso com os limites que sustentam a própria ideia de liderança.

Porque quando um líder passa a se ver não como representante, mas como encarnação de uma causa — ou pior, de uma figura sagrada — o risco não é apenas o ridículo. É a erosão silenciosa do próprio conceito de realidade compartilhada.

E, sem realidade compartilhada, não há política. Apenas culto.

domingo, 12 de abril de 2026

Tristirinhas do Thiago Muniz

1) Que onda é essa de autoafirmação do cantor Latino? Que dancinha tosca e com a harmonização facial idêntico ao Diabo do Auto da Compadecida, fez o próprio Diabo se manifestar. Old School não lhe fez bem, síndrome de Peter Pan.

2) A pessoa com o nome Flávio, divulgado na mídia herdeira brasileira, possui o sobrenome Bolsonaro, portanto ele se chama Flávio Bolsonaro. Só pra que fique bem claro.

3) Ronaldo Caiado é o padre Kelmon do Agropop. Será o bobo da corte fascista entre a democracia versus golpismo.

4) Sionismo prega o Racismo. A imprensa golpista ocidental é servil aos seus patrões, que são judeus; simplesmente é isso.

5) E vagabundo tá lá: “Será que Carlo Ancelotti vai convocar o Neymar? E o Neymar não consegue andar em linha reta…

6) Já que Trump não conseguiu dominar o estreito de Ormuz (Salaam Aleikum!), sugiro a reabertura dos Arquivos Epstein.

sábado, 11 de abril de 2026

Caso Alemão: quando a fiscalização repete endereço

Na geografia caprichosa das manchetes, algumas histórias parecem maiores do que são, e outras que, sendo pequenas no papel, ganham o peso de um símbolo.

A nova prisão do empresário Edson Alemão, a segunda em menos de seis meses em Campo Grande, pertence a essa segunda categoria: deixou de ser apenas um caso policial para se transformar em narrativa urbana, dessas que circulam em padarias, grupos de WhatsApp e mesas de bar.

Porque, convenhamos, o fato bruto já não caminha sozinho. Ele vem acompanhado de uma pergunta incômoda, repetida com variações: por que sempre ele?

Ou, ampliando o foco, por que operações desse porte parecem mirar com lupa negócios específicos, enquanto gigantes do setor seguem suas rotinas sem sobressaltos equivalentes?

Não se trata aqui de absolver previamente ninguém — essa é tarefa da Justiça, com seus ritos e provas. Mas o sentimento difuso de seletividade é, por si só, um fenômeno digno de nota.

Quando a população passa a desconfiar não apenas do investigado, mas também da intensidade e da direção da fiscalização, o problema deixa de ser individual e passa a ser institucional.

Campo Grande, como tantas cidades fora do eixo mais visível do país, carrega uma peculiaridade: o equilíbrio delicado entre pequenos e médios empresários e as grandes redes nacionais.

É um ecossistema em que a concorrência não é apenas econômica mas é também, simbólica. O comerciante local não disputa só preço; disputa espaço, clientela e, muitas vezes, sobrevivência.

Nesse contexto, operações reiteradas sobre um mesmo alvo acabam alimentando uma narrativa de assimetria. Não importa, necessariamente, se ela é verdadeira ou não, importa que ela encontra terreno fértil.

Afinal, para o cidadão comum, parece desproporcional que estruturas gigantescas, com histórico nacional e volume financeiro incomparável, raramente sejam vistas sob o mesmo tipo de ação ostensiva.

A sensação que fica é a de que o rigor tem endereço conhecido, enquanto a indulgência, ou ao menos a discrição, escolhe seus caminhos com mais cautela.

E sensação, em política e em vida pública, é matéria-prima poderosa. Ela molda reputações, influencia percepções e, não raro, corrói a confiança.

Há também um outro efeito colateral: o risco de transformar a fiscalização, que deveria ser instrumento de equilíbrio, em elemento de desconfiança.

Quando o cidadão passa a enxergar a ação do Estado como potencialmente enviesada, perde-se algo fundamental: a legitimidade.

Nada disso invalida a possibilidade de irregularidades concretas, nem diminui a importância de investigá-las com rigor. Mas a coerência é irmã da credibilidade. Se há critérios, eles precisam ser visíveis; se há regras, precisam parecer universais.

No fim das contas, o caso de Edson Alemão talvez diga menos sobre um homem e mais sobre o ambiente em que ele está inserido. Um ambiente onde, mais do que fatos, disputam espaço as interpretações e onde a linha entre justiça e percepção de injustiça é, muitas vezes, tênue demais.

E quando essa linha começa a borrar, não é apenas um empresário que está em julgamento.

É a própria confiança pública.