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sexta-feira, 24 de julho de 2026

A Indústria brasileira aceita a acusação americana?

Achei curioso o patriotismo da CNI e da ABIMAQ: o do réu que aceita a acusação antes do julgamento

Existe um velho ditado no Direito segundo o qual quem confessa facilita o trabalho da acusação. Pois bem.

Se depender da reação inicial de parte da representação da indústria brasileira, os Estados Unidos nem precisarão gastar muito tempo tentando convencer o mundo de que o Brasil convive com trabalho forçado em sua cadeia produtiva. Alguns dos nossos representantes parecem dispostos a fazer esse serviço de graça.

Diante do anúncio das tarifas americanas, justificadas pela gravíssima acusação de utilização de trabalho forçado, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (ABIMAQ) correram para defender a negociação direta e advertir contra medidas de reciprocidade.

Negociar? Evidentemente. Diplomacia não é uma modalidade de luta livre.

Mas há uma questão anterior, muito anterior.

Onde estava a indignação contra a acusação?

Porque uma coisa é reconhecer que uma guerra comercial produz perdas para todos. Outra, muito diferente, é agir como se a acusação fosse apenas um detalhe burocrático no meio da negociação.

Quando uma potência econômica afirma que determinado país merece ser tarifado porque estaria associado a práticas de trabalho forçado, isso não representa apenas uma divergência comercial. É um ataque à reputação internacional de toda a sua produção.

A primeira reação esperada de quem representa a indústria seria perguntar: onde estão as provas?

Em vez disso, o debate rapidamente migrou para outro terreno: "não reajam", "não façam reciprocidade", "negociem".

Ora, negociar o quê? A tarifa ou a culpa?

Porque a impressão produzida é devastadora. Quem observa de fora pode concluir que, se as próprias entidades industriais brasileiras não contestam energicamente a acusação, talvez ela contenha algum fundo de verdade.

É evidente que isso não significa que defender reciprocidade seja necessariamente a melhor estratégia. Medidas dessa natureza precisam ser avaliadas com racionalidade econômica e diplomática. O ponto não é esse.

O problema é inverter a ordem das prioridades.

Antes de discutir como responder à sanção, seria razoável rejeitar publicamente a narrativa que tenta justificar a própria sanção.

Caso contrário, aceita-se a denúncia e passa-se diretamente à discussão da pena.

Mas existe uma ironia ainda maior.

Boa parte do empresariado organizado que hoje cobra do presidente Lula uma solução rápida para a crise foi, durante anos, uma das mais entusiasmadas bases de sustentação política do bolsonarismo.

Não estamos falando apenas de apoio eleitoral. Estamos falando de um ambiente político que tratou qualquer gesto de alinhamento automático aos Estados Unidos de Donald Trump como demonstração de patriotismo.

Essa mesma galera apoiava que o próximo presidente deveria ser o governador carioca de São Paulo, Tarcísio de Freitas que subiroa a rampa do Planalto com o boné "make América great again".

Agora, quando essa relação produz consequências econômicas e diplomáticas desfavoráveis ao Brasil, a responsabilidade desaparece como num passe de mágica.

Os responsáveis políticos pelo ambiente que desembocou nesse conflito tornam-se invisíveis.

E toda a cobrança recai sobre Lula, como se tivesse sido seu governo a incentivar confrontos institucionais, atacar parceiros comerciais ou transformar a política externa em instrumento de guerra ideológica.

É uma curiosa versão da responsabilidade seletiva.

Privatizam-se os aplausos quando a aposta parece render dividendos políticos.

Socializam-se os prejuízos quando a conta finalmente chega.

Não deixa de ser curioso que parte dos mesmos setores empresariais que tantas vezes denunciaram um Estado "intervencionista" agora exijam justamente desse Estado a solução imediata para uma crise cuja gênese política ajudaram a alimentar.

O governo, evidentemente, tem a obrigação de defender os interesses nacionais. É para isso que existe.

Mas também seria saudável que as entidades empresariais demonstrassem o mesmo vigor na defesa da honra da indústria brasileira que demonstram ao defender a necessidade de preservar mercados.

Porque reputação também é ativo econômico.

Aliás, talvez seja o principal deles.

Uma indústria cuja própria representação parece hesitar em contestar uma acusação internacional gravíssima já entra na mesa de negociação em posição defensiva.

Não porque perdeu a disputa comercial.

Mas porque, antes mesmo da primeira rodada, aceitou discutir o tamanho da punição sem exigir que a acusação fosse demonstrada.

Isso não é pragmatismo.

É rendição argumentativa.

E quem se rende na narrativa dificilmente vence na negociação.

sábado, 13 de junho de 2026

Senadores querem fim da escala 6x1... eles querem 7x0

A Câmara aprovou o fim da escala 6x1.

Mas pouco depois, 40 senadores apresentaram a PEC 12/2026, que institui a chamada escala 7x0: sete dias trabalhados, nenhum de folga garantido, com jornada "flexível" definida por “acordo” individual com o patrão, sem descanso semanal remunerado, sem FGTS, sem férias obrigatórias, sem 13º salário e sem a proteção das convenções coletivas negociadas pelos sindicatos.

É o projeto das elites na sua forma mais nua. Escravidão.

Não é coincidência que esses 40 senadores agiram tão rápido. Olhe a lista com atenção.

A maioria não disputa reeleição neste ano. 

Alguns vão tentar outros cargos: Sergio Moro (PL) quer o governo do Paraná, Flávio Bolsonaro (PL) é pré-candidato à Presidência e seu chefe de campanha Rogério Marinho (PL) assina a PEC ao lado de Ciro Nogueira (PP), investigado pela Polícia Federal por receber mesada de Daniel Vorcaro, do Banco Master.

Outros estão tão queimados em seus estados que vão tentar a sorte como deputados federais, como é o caso de Marcos do Val (Avante). E alguns, como o senador paranaense (que quase ninguém sabe que existe) Oriovisto Guimarães (PSDB), já avisaram que vão deixar a política.

Ou seja: a maioria não vai ter que olhar nos olhos do eleitor e responder por esse voto. É por isso que estão fazendo o trabalho sujo que os deputados federais covardes não tiveram coragem de fazer.

Quase 80% da população apoia o fim da escala 6x1. Os deputados patrocinados por grandes empresários sabiam disso. Se acovardaram, fugiram da votação ou votaram a favor na última hora. Sobraram apenas 22 votos contra, a maioria do PL e do Novo. Só o Missão e o MDB não têm senadores mas tiveram deputados votando.

Como manobra, deixaram a bola com os senadores que não têm nada a perder. Esse é o golpe.

O magistério sabe a importância do descanso. Lutamos por ele. Sabemos o que dois dias de folga representam para o corpo, para a mente, para a família. E sabemos o que acontece quando o trabalhador fica sem sindicato para negociar: na imensa maioria dos casos, ou aceita qualquer condição ou é demitido. Sem proteção, sem direitos, sem voz.

O Senado precisa ouvir o recado que a Câmara já recebeu.

A mobilização continua. Pressão neles!

sábado, 9 de maio de 2026

Te dá Aaaaasas...

A Red Bull é uma marca que ultrapassou o conceito tradicional de bebida energética e se transformou em um fenômeno cultural, esportivo e de marketing global.

Criada com foco em performance e energia, a empresa construiu sua identidade associando o produto a limites extremos, superação, velocidade e desafio constante.

Diferente de marcas que apenas patrocinam eventos, a Red Bull passou a criar, controlar e desenvolver seus próprios ecossistemas esportivos e culturais.

No esporte, a presença da Red Bull é estratégica e profunda. A marca investe em modalidades de alto risco e alta intensidade, como automobilismo, esportes radicais, aviação, esportes urbanos e eSports.

No automobilismo, sua atuação redefiniu padrões ao formar equipes próprias, desenvolver talentos desde a base e dominar categorias de elite. O foco nunca foi apenas vencer, mas construir narrativas de ousadia, inovação e quebra de expectativas.

Do ponto de vista de marketing, a Red Bull revolucionou a forma de comunicar. Em vez de anúncios tradicionais, ela produz conteúdo, histórias e experiências. Eventos como saltos estratosféricos, competições inéditas e desafios extremos criam impacto emocional e viralização espontânea.

A marca vende uma ideia de estilo de vida: quem consome Red Bull não compra apenas energia, compra pertencimento a um universo de atitude e movimento.

Financeiramente e estrategicamente, o modelo é preciso. A marca entende que visibilidade associada a emoção e performance gera valor de longo prazo. Cada atleta, equipe ou evento carrega a identidade visual, o discurso e os valores da empresa. Não há improviso: tudo é alinhado para reforçar a imagem de ousadia controlada, risco calculado e excelência técnica.

Mais do que uma bebida, a Red Bull se consolidou como uma plataforma de influência global. Ela mostra que, quando marketing, esporte e narrativa caminham juntos, o produto deixa de ser o centro e passa a ser consequência.

A Red Bull não acompanha tendências — ela cria.

TEXTO DE:
Thiago Muniz

terça-feira, 28 de abril de 2026

A Ambev Não Vende Cerveja — Ela Controla o Jogo

A Ambev tem 60% do mercado de cerveja do Brasil.

Não porque a cerveja é melhor, mas porque ela controla 1 milhão de pontos de venda.

Você provavelmente acha que a Ambev vende cerveja... e vende! Mas o negócio real da Ambev não é cerveja, é logística.

O Brasil tem aproximadamente 1,3 milhões de bares, botequins e pontos de venda de bebidas. A Ambev tem relacionamento ativo com 1 milhão deles.

A Heineken, segunda maior, tem acesso direto a somente uma fração disso. Agora pensa no dono do botequim, ele não escolhe cerveja por gosto, ele escolhe pelo crédito.

A Ambev oferece prazo, geladeira, mesas, cadeiras, fachada e promotor que vai até ele toda semana. Ela não vende o produto, ela financia o ponto de venda.

Quando a Ambev coloca uma geladeira no bar, ela não doa, ela empresta, com contrato de exclusividade. A geladeira com logo da Brahma só pode ter produtos Ambev.

Um concorrente que quer entrar precisa comprar o espaço de volta.

Mas espera… Em 2019 a Ambev teve uma sacada que mudou tudo de novo.

Criou o BEES, uma plataforma digital, basicamente um marketplace B2B onde bares e restaurantes compram produtos.

Mais de 1 milhão de pontos de venda comprando pelo app em 2025. O BEES não é só um app de compras, é uma fintech disfarçada. Crédito para bar, seguro, dados de consumo, análise de estoque. Em 2025 o GMV do BEES cresceu 70% em um ano.

Pensa no que isso significa para o investidor. A cerveja tem margem, mas commodity tem limite. O BEES tem margem de plataforma, cada transação que passa pelo App, a Ambev cobra taxa. Cada crédito que oferece, cobra spread. Cada dado que coleta, vale em inteligência de mercado.

Quem construiu isso? A 3G capital, a mesma filosofia que transformou Brahma + Antarctica em Ambev em 1999.

Que fundiu Ambev com Interbrew para criar Inbev em 2004. Que comprou a Anheuser-Busch a Budweiser em 2008 por US$52 bilhões.

A Heineken chegou ao Brasil com capital global, e tem menos de 30% de mercado, produtos se copiam, propaganda se faz.

Logística de 1 milhão de pontos de vendas não se copia!

TEXTO DE:
Thiago Muniz

sexta-feira, 3 de abril de 2026

O Brasil tem medo de Schumpeter

Se Joseph Schumpeter resolvesse dar uma volta pelo Brasil de hoje, provavelmente sairia com a seguinte impressão: aqui, a inovação até aparece — mas sempre sob desconfiança, como se fosse uma ameaça, não uma solução.

E, em certo sentido, é mesmo. Mas não no sentido ruim.

Schumpeter ficou conhecido por uma ideia que, no Brasil, soa quase subversiva: a tal da destruição criativa. Traduzindo sem firula acadêmica: o novo precisa destruir o velho para que a economia avance.

Sim, destruir. Palavra feia para um país que adora preservar privilégios.

O problema não é a falta de empreendedor

Há uma narrativa confortável — e equivocada — de que o Brasil não cresce porque “falta gente empreendedora”. Ora, menos.

O brasileiro empreende até por necessidade. O camelô, o motorista de aplicativo, o pequeno comerciante — todos são, de alguma forma, respostas à ausência de oportunidades formais.

O ponto de Schumpeter é outro: o crescimento relevante vem do empreendedor inovador, aquele que muda o jogo.

E aqui está o nó: o Brasil não impede totalmente esse sujeito de existir — mas faz questão de dificultar sua vida.

Quando o novo incomoda, o sistema reage

Toda inovação relevante cria atrito. Isso é inevitável.

  • Bancos digitais desafiam bancos tradicionais

  • Aplicativos mudam mercados inteiros

  • Novas tecnologias expõem ineficiências antigas

Em vez de o sistema se adaptar, o que frequentemente acontece por aqui?

Ele tenta domesticar a inovação.

Regula-se antes de entender. Taxa-se antes de amadurecer. Complica-se antes de permitir.

Schumpeter chamaria isso de um erro clássico: proteger o passado em vez de apostar no futuro.

O Brasil que protege o atraso

Existe, no país, uma espécie de pacto silencioso: não se mexe demais no que já está estabelecido.

E isso aparece em várias frentes:

  • burocracia que consome tempo e energia

  • sistema tributário que pune quem cresce

  • dificuldade crônica de acesso a crédito

Nada disso impede totalmente a inovação — mas reduz sua velocidade. E, na economia, tempo é tudo.

Ainda assim, a inovação insiste

Apesar do ambiente, alguns setores avançam quase “apesar do Brasil”:

  • fintechs revolucionando o sistema financeiro

  • tecnologia no agronegócio aumentando produtividade (esse financiado e protegido pelo Estado, como nenhum outro setor)

  • comércio digital redesenhando o varejo

Esses casos mostram que, quando a inovação consegue furar o bloqueio, o impacto é imediato.

É Schumpeter puro.

Crescer dói — e o Brasil evita a dor

A ideia central aqui é desconfortável, mas necessária: crescer implica perda.

Empresas desaparecem. Modelos de negócio deixam de existir. Profissões mudam.

Mas o que se ganha em troca é produtividade, eficiência e dinamismo.

O Brasil, no entanto, parece preferir um crescimento mais lento — desde que menos traumático.

O problema? Essa escolha cobra seu preço.

No fim das contas…

Schumpeter não defendia o caos — defendia o movimento.

E é justamente isso que falta ao Brasil em escala maior: não a capacidade de inovar, mas a disposição de permitir que a inovação transforme de verdade.

Porque transformar, no sentido schumpeteriano, não é ajustar o sistema.

É mexer nas estruturas.

E isso, convenhamos, nunca foi exatamente a especialidade nacional.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

2026: A Era do Delist menos Sku, mais venda

Alguém precisa dizer isso.

Às vezes, a melhor forma de vender mais é tirar produto da prateleira. Não é erro. Não é fraqueza. É estratégia.

Durante anos, vendemos a ideia de que mais opções significam mais vendas.

Mais sabores, fragrâncias.

Mais variações do mesmo produto.

O cérebro humano discorda. A neurociência é clara. O cérebro gosta de limited choice (poucas escolhas) para se sentir seguro. O número mágico? 3 ou 4 opções.

O estudo clássico de Iyengar e Lepper mostrou isso sem piedade: com poucas opções, a conversão dispara, com muitas opções, o consumidor trava.

Isso tem nome: Paradox of Choice (Paradoxo da Escolha).

Mais escolha gera ansiedade.
Ansiedade não fecha compra.

Agora coloca isso no contexto atual. Hoje, 47% dos consumidores são price-driven shoppers (orientados a preço). Eles não estão comparando narrativa de marca. Estão comparando preço.

E aí acontece o que todo mundo já viu no ponto de venda. O cliente para. Olha. Se confunde. E escolhe o mais barato. Ou vai embora.

O problema não é falta de inovação. É excesso de portfólio.

2022–2024: As indústrias tinham o poder. Crise logística. Falta de produto. Tudo vendia. Até SKU confuso. Volume mascarava ineficiência.

2026: O jogo virou. O varejo retomou o controle da prateleira. O sortimento ficou mais racional. O consumidor ficou mais racional ainda.

Quem decide hoje não é a marca mais criativa. É quem entrega clareza, giro e margem.

E isso não é teoria. Já está acontecendo. Indústrias globais de bens de consumo vêm passando por ciclos profundos de racionalização de portfólio, cortando dezenas ou centenas de SKUs para recuperar giro, margem e execução.

Menos itens. Mais foco. Mais resultado.

No varejo alimentar europeu, redes como Lidl e Mercadona cresceram justamente reduzindo escolha, não ampliando. Menos marcas e variações. Mais marca própria forte e confiança do shopper. Na prática, o consumidor não sentiu perda. Sentiu alívio.

No Brasil, o movimento é ainda mais claro. 2026 é o ano da marca própria.

Grandes redes farmacêuticas como Raia e DPSP estão ampliando linhas próprias com sortimento enxuto, preço claro e promessa simples.

No atacarejo, redes como Assaí avançam com marca própria ocupando o espaço que antes era de SKUs redundantes da indústria.

Quando a prateleira aperta, sobra pouco espaço para excesso. E muito espaço para quem resolve rápido a decisão do consumidor. É por isso que grandes indústrias estão fazendo algo que parece radical, mas não é: enxugar para crescer.

Menos itens, menos canibalização.

Mais giro por SKU, mais eficiência logística, mais margem no final do mês.

Delistar não é perder espaço. É recuperar relevância. O varejo já entendeu. O consumidor também. Muitas marcas ainda não.

A pergunta é simples: você quer ocupar mais espaço ou vender mais rápido?

Porque em 2026, cada vez mais, menos SKU é mais venda.

TEXTO DE:
Thiago Muniz

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Azeite de Oliva - entenda como funciona o acordo Mercosul / União Européia

Convém começar pelo óbvio — justamente porque o óbvio costuma ser soterrado pela retórica.

Acordos comerciais não são atos de fé. Não são “bons” ou “maus” em si mesmos. Produzem efeitos concretos, mensuráveis e, quase sempre, assimétricos.

O acordo entre Mercosul e União Europeia não foge à regra. E o azeite de oliva é um ótimo exemplo para entender o que está em jogo.

O produto estrangeiro: a virtude do acordo segundo seus defensores

Com o acordo em vigor, o azeite europeu tende a entrar no Brasil pagando menos tarifas. Isso não é ideologia; é matemática. Menor imposto na origem significa menor custo para o importador, maior oferta e, em alguma medida, preços mais baixos ao consumidor.

Resultado?
O brasileiro passa a encontrar com mais facilidade azeites espanhóis, portugueses, italianos e gregos (inclusive de melhor qualidade) a preços menos proibitivos. O discurso oficial celebra: concorrência, eficiência, escolha. Tudo muito bonito.

E não é falso. Apenas incompleto.

O que não aparece no rótulo

O problema começa quando se finge que o mercado é um jogo de iguais. Não é.

O azeite europeu que chega ao Brasil é produzido em países que:

  • Subsidiaram sua agricultura por décadas

  • Financiaram tecnologia, irrigação e pesquisa

  • Construíram cadeias produtivas maduras e protegidas

Já o azeite brasileiro — notadamente o gaúcho — é fruto de uma atividade ainda incipiente, de custos elevados, crédito caro e zero tradição secular. Colocar esses dois produtos para “competir” em nome da abstração do livre mercado não é liberalismo; é cinismo analítico.

O produtor nacional: concorrência ou esmagamento?

Com o avanço do azeite europeu:

  • O produtor brasileiro vê sua margem encolher

  • O investimento se torna mais arriscado

  • Pequenos e médios produtores tendem a desistir

Os mais otimistas falam em “especialização”, “nicho premium”, “valor agregado”. Ótimo — desde que existam políticas públicas que tornem isso viável. Sem elas, o resultado é previsível: desindustrialização do campo, travestida de modernização.

E o emprego? Não desaparece — evapora

Aqui entra o ponto que raramente vira manchete. A queda de preços é visível. A perda de empregos, não.

Quando a produção local encolhe:

  • Some o emprego rural

  • Some o trabalho indireto

  • Some o incentivo à inovação local

Os postos de trabalho gerados pelo azeite europeu continuam na Europa. O Brasil vira consumidor eficiente e produtor irrelevante. Há quem chame isso de “integração competitiva”. Eu prefiro chamar de escolha política não assumida.

O padrão estrutural

O azeite é apenas um caso didático de um movimento maior: a União Europeia exporta produtos com valor agregado; o Mercosul exporta soja, minério e carne. Quando tentamos produzir algo além disso, somos aconselhados a “nos adaptar”.

Adaptar-se a quê?
À posição subordinada?

A pergunta que importa

Não se trata de demonizar o acordo nem de sacralizar a produção nacional. Trata-se de abandonar a mistificação. Sem política industrial, sem crédito, sem proteção transitória, o acordo melhora a vida do consumidor no curto prazo e empobrece a estrutura produtiva no médio.

O azeite pode até ficar mais barato.
A economia, não.

E isso não é uma fatalidade do mercado. É uma decisão — ou a ausência dela.

Conclusão

O acordo no geral melhora as relações comerciais entre os dois continentes, porém, deve ser tratado com responsabilidade.

Usamos aqui um único exemplo: o azeite de oliva. Para outros produtos haverá ganho para o Brasil, e prejuízo a produtores europeus.

O que o Brasil precisará fazer, é se reajustar a nova realidade que se desenhará no futuro, criando políticas internas que possam dar ao produtor nacional, condições de continuar disputando mercado interno e obviamente, ampliar o mercado externo.

Por isso, não só no Mercosul, mas também no Brics, o Brasil precisa manter o protagonismo e o pragmatismo, para continuar crescendo economicamente.


domingo, 18 de janeiro de 2026

Mercosul e União Europeia assinam acordo apesar de Trump

O acordo entre Mercosul e União Europeia finalmente saiu do papel.

Sim, aquele mesmo que atravessou governos, modismos ideológicos, crises ambientais, surtos protecionistas e toneladas de ceticismo diplomático.

Convém registrar, antes que o debate seja capturado por torcidas organizadas, um fato objetivo: trata-se de uma vitória pessoal e política do presidente Lula, o governante que mais insistiu (e por mais tempo) na ideia de que esse pacto era não apenas possível, mas necessário.

Lula defendeu o acordo quando ele era tratado como inevitável, sustentou-o quando passou a ser visto como inconveniente e o recolocou no centro da agenda quando muitos já o davam como enterrado.

Política externa não é improviso; é persistência. E nisso o presidente brasileiro mostrou método, memória e leitura de mundo.

O acordo, em linhas gerais, cria uma das maiores áreas de livre comércio do planeta, conectando dois blocos que somam quase 800 milhões de pessoas.

Para o Mercosul, amplia-se o acesso a mercados europeus para produtos agrícolas e commodities. Para a União Europeia, consolida-se a entrada em mercados sul-americanos para bens industrializados, serviços e investimentos.

Não há altruísmo: há interesses bem calculados dos dois lados.

Mas é preciso dizer o óbvio — algo que anda em falta no debate público.

A assinatura não significa vigência imediata. 

Agora começa a fase menos fotogênica e mais decisiva: revisão jurídica, traduções oficiais e, sobretudo, a ratificação parlamentar.

Na Europa, o acordo enfrentará resistências protecionistas embaladas em discurso ambiental.

No Mercosul, passará por congressos que nem sempre primam pela visão estratégica de longo prazo.

Há ainda um elemento externo que ajuda a explicar a retomada do acordo: Donald Trump.

Com sua agenda declaradamente protecionista, hostil ao multilateralismo e avessa a pactos amplos, Trump tornou-se o grande antagonista involuntário desse processo.

O acordo Mercosul–União Europeia é, também, uma resposta geopolítica à lógica do “cada um por si” que ele representa. Trump terá de engolir: enquanto ele ergue muros comerciais, outros constroem pontes, ainda que imperfeitas.

Os protocolos adicionais sobre sustentabilidade seguem como o principal ponto de atrito.

Existe preocupação ambiental legítima? Sim. 

Existe também o velho protecionismo europeu com nova embalagem verde? Evidentemente.

Cabe ao Brasil e aos parceiros do Mercosul negociar com firmeza, sem submissão nem bravatas.

O acordo não é panaceia. Não industrializa o Brasil por decreto nem resolve as assimetrias históricas do bloco sul-americano.

Mas recoloca o país no tabuleiro internacional com previsibilidade, diálogo e protagonismo, algo que havia sido abandonado.

No mundo real, acordos não são perfeitos. São possíveis. E este só voltou a ser possível porque alguém decidiu insistir — mesmo quando o vento soprava contra.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Pastor preso é um dos maiores doadores de campanha... advinha de quem?

A Polícia Federal prende.

O inquérito avança. Os fatos se acumulam. O dinheiro deixa rastros.

O personagem central é investidor, pastor, empresário e — vejam só — um dos maiores doadores das campanhas de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas.

E então surge a pergunta que realmente importa para parte da imprensa e da bolha digital: “Mas o que Alexandre de Moraes tem a ver com isso?”

Pois é. Nada. Justamente por isso, insistem.

Temos aqui um caso típico de manual: relação empresarial nebulosa, conexões familiares com banqueiro de grande porte, operações financeiras sob suspeita e, por coincidência apenas estatística, proximidade política com o bolsonarismo.

A investigação é da PF. O inquérito corre nos trilhos legais. Não há canetada solitária, não há decisões monocráticas mirabolantes, não há capa preta pairando sobre os autos como entidade metafísica.

Mas isso não impede que parte da imprensa (aquela sempre pronta a farejar “excessos” onde só há procedimento) force Alexandre de Moraes para dentro da cena, como se ele fosse uma espécie de personagem obrigatório de qualquer narrativa criminal que envolva aliados do bolsonarismo.

É quase tocante.

Quando o investigado é um “cidadão de bem”, empresário religioso, financiador de campanhas da direita, a lógica muda.

Já não se pergunta o que ele fez, mas quem ousou investigá-lo.

E aí Alexandre de Moraes deixa de ser ministro do Supremo para virar vilão de novela, onipresente, onisciente e, aparentemente, responsável até pela lei da gravidade.

Curioso: quando a PF investigava governos petistas, não havia essa súbita preocupação com o “Estado de Direito ferido”, com o “ativismo institucional”, com o “excesso de poder”.

A lei era dura, mas justa. Agora, quando os alvos orbitam o campo político oposto (aquele que se autodeclara guardião da moral, da família e de Deus) a lei vira suspeita, e o juiz, automaticamente, culpado.

O raciocínio é simples, embora intelectualmente indigente: se alguém ligado a Bolsonaro é investigado, logo Alexandre de Moraes está abusando de poder.

Se a PF age, é porque foi “mandada”. Se o Judiciário funciona, é porque conspira.

Não é jornalismo. É militância disfarçada de perplexidade.

E o mais revelador: ninguém consegue apontar qual ato ilegal de Moraes estaria em jogo.

Não há decisão específica. Não há despacho escandaloso. Não há nulidade processual.

Há apenas o incômodo profundo de ver que o sistema institucional brasileiro (com todos os seus defeitos) ainda funciona o suficiente para alcançar gente poderosa, rica, influente e politicamente alinhada ao bolsonarismo.

Isso, para alguns, é imperdoável.

No fundo, o que se quer não é justiça imparcial, mas imunidade seletiva. Quer-se um país onde investigar adversários seja virtude republicana, mas investigar aliados seja tirania togada. Onde a PF seja técnica quando convém e “instrumentalizada” quando não convém.

Alexandre de Moraes, nesse enredo, cumpre apenas o papel que lhe foi atribuído por quem não aceita perder: o de bode expiatório permanente.

É mais fácil atacar o árbitro do que admitir que o jogo foi jogado, e que alguém com boas relações políticas e religiosas pode, sim, estar do lado errado da lei.

A insistência em arrastá-lo para esse caso diz menos sobre Moraes e muito mais sobre o desespero de quem já não consegue sustentar a própria narrativa sem inventar um vilão institucional.

E isso, convenhamos, não é ironia. É só patético mesmo.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Banco Master e o Teateo da Mídia Lavajatista

Não sei se vocês estão perdidos, mas é preciso lembrar que o escândalo do Banco Master diz respeito a bilhões de reais de dinheiro público alocados em operações financeiras temerárias, envolvendo bancos públicos, fundos de aposentadoria e governos estaduais. Isso é o essencial.

Todo o resto é distração. E distração, aqui, é estratégia preferencial das forças antidemocráticas. 

O caso é especialmente grave por envolver governadores e lideranças políticas ligadas ao bozismo institucional - entre eles, os governadores do Rio de Janeiro e de Brasília - que autorizaram investimentos massivos em títulos de alto risco, comprometendo recursos que pertencem à população - a nós, à você.

Quando o castelo começou a ruir, tentou-se socializar o prejuízo: determinado senador bolsonarista quase conseguiu emplacar a ampliação do Fundo Garantidor de Crédito para cobrir rombos privados com dinheiro coletivo. Foi quase.

Mas o debate público foi rapidamente deslocado. E muitos embarcaram na onda…

De repente, o “escândalo” deixou de ser o uso criminoso do Estado pelos bozistas e passou a ser um suposto contrato de advocacia envolvendo a esposa de um ministro do STF - aquele que foi relator do processo que condenou, justamente, o chefe da organização criminosa.

Um contrato discutível? Sim, é possível. Eticamente questionável? Pode ser. Ilegal? Até agora, não.

E, sobretudo, irrelevante diante da dimensão do dano financeiro em curso.

Essa inversão não é inocente. O escândalo, hoje, é uma arma política que as forças antidemocráticas manejam com destreza ao menos desde o lavajatismo. E o fato de o lavajatismo ter saído quase ileso dos crimes que cometeu cobra seu preço na sua repetição sempre que a situação dos canalhas de sempre aperta.

A distração na forma de escândalo de estilo lavajatista, plantada pela grande mídia, funciona como instrumento de ocultação. Em vez de revelar a verdade, fragmenta-a, moraliza-a e personaliza-a. Troca-se o crime estrutural pela indignação seletiva. Enquanto se discute o contrato e o parentesco da advogada com o juiz, os responsáveis pelo desaparecimento de bilhões do erário convenientemente desaparecem do noticiário.

A cereja do bolo desse lavajatismo redivivo é o chamado para uma CPI - proposta, não por acaso, por setores do congresso que são inimigos do povo diretamente implicados no caso - e apoiada por figuras que se dizem de esquerda, mas que fizeram parte do lavajatismo.

O mais curioso é o crime investigando a si mesmo: escolhendo o roteiro, inventando fatos e invertendo acusações - como no caso dos desvios no INSS, crime perpetrado em conluio com a mesmíssima organização criminosa do presidiário.

Essa CPI ou CPMI seguirá claramente a mesma lógica da CPMI do INSS e cumprirá, sem muita dúvida, o objetivo central da estratégia: reorganizar o espetáculo, controlar o foco da opinião pública e produzir equivalências falsas. E tudo isso em ano eleitoral.

Além disso, last but not least, figuras como o Governador de São Paulo surgem como atores indiretos no caso Master.

Ele recebeu doações de campanha de empresários ligados ao conglomerado do Banco, criando uma relação política e financeira que merece atenção. Até o momento, não há registro de investigação formal contra ele, mas o interesse da mídia antidemocrática em transformar o debate pode estar justamente em embaralhar o enredo e desfocar a verdade, desviando o foco do público das relações entre Tarcísio e o Master.

Tinha era que ter uma CPI sobre o lavajatismo da grande mídia…

Na montagem abaixo, identifiquem os personagens envolvidos… A grande imprensa não o fará por você.

TEXTO DE:
Sérgio Alarcon

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

A imprensa que só gosta de democracia quando ela é silenciosa

A boa e velha hipocrisia que tem um berço esplêndido onde sempre pode se deitar: a imprensa brasileira.

Bastou que manifestantes, entre eles indígenas e movimentos sociais, tentassem forçar a entrada na sede da COP 30, em Belém, para que o noticiário voltasse ao velho tom moralista: “vandalismo”, “ameaça à imagem do Brasil”, “problema para o governo Lula” e claro, "terrorismo".

Ora, ora. Desde quando democracia se mede por conveniência estética ou diplomática?

Protestar é um ato de soberania civil, não um problema de relações públicas. E quando o protesto vem justamente dos grupos que sustentam historicamente a luta ambiental e os direitos humanos — indígenas, quilombolas, ribeirinhos, trabalhadores —, é duplamente legítimo. Eles não são “base de Lula”; são base da democracia.

Sim, houve tensão. Sim, houve excesso. E daí? Desde quando democracia é um chá das cinco? A história é feita de embates, de disputas, de vozes que gritam quando ninguém quer ouvir. O protesto — mesmo o que extrapola — é um espelho do vigor democrático.

O que causa espanto é ver jornalistas que, durante o governo Bolsonaro, chamavam seus apoiadores de “gado” por aplaudirem cegamente todo absurdo, agora indignados porque parte da base lulista decidiu fazer o oposto: apoiar criticamente, cobrar coerência, exigir compromisso.

Há algo de doentio nessa lógica. Quando o eleitor é passivo, é “gado”. Quando é ativo, é “radical”.

Talvez essa seja a tal polarização que eles tanto insistem em nos convencer que existe.

A imprensa parece querer um eleitorado obediente, de preferência calado. Só que democracia não se faz com plateia — se faz com participação, até com conflito.

Lula, goste-se ou não, não foi eleito para ser um rei, e seus eleitores não são súditos. Quando protestam, não traem o governo; exercem o direito que diferencia cidadãos de seguidores.

É curioso ver que os mesmos que relativizaram invasões de golpistas em Brasília, chamando-as de “ manifestações de velhinhas com Bíblias debaixo dos sovacos”, agora tratam indígenas e ambientalistas como inimigos da civilização.

O peso e a medida variam conforme o interesse editorial — ou o incômodo que causa ver o povo real ocupando o espaço público.

O Brasil, anfitrião da COP 30, mostra ao mundo que sua democracia é viva — às vezes ruidosa, às vezes desconfortável, mas viva. Só os autoritários travestidos de moderados acham que o povo deve ficar quieto para não “manchar a imagem do país”.

Pois saibam: o que mancha a imagem do Brasil não é o protesto legítimo; é a hipocrisia de quem finge defender a democracia, mas só quando ela cabe no editorial de domingo.

Democracia não é um espetáculo de bons modos. É um terreno de disputas, de vozes, de críticas — inclusive às próprias autoridades que ajudamos a eleger. E, sinceramente, se a imprensa não entende isso, talvez o problema não esteja na “base de Lula”, mas na base da imprensa.


Em tempo, apesar de apoiar todo tipo de protesto pacífico e acreditar na liberdade de crítica, não acredito que a tentativa de invasão forçada a sede do COP 30, seja o caminho mais correto para alcançar os objetivos políticos.

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

COP 30, O tornado não pediu licença

Enquanto em Belém do Pará se realiza a COP 30 — aquele encontro internacional onde líderes mundiais, cientistas, ambientalistas e até uns oportunistas muito bem vestidos se reúnem para discutir como evitar que o planeta vire um forno à lenha — no sempre altivo sul negacionsta do país, mais precisamente no Paraná, um tornado resolveu fazer uma visita.

E não houve governador ratazana, quro detivesse.

Sim, um tornado. Não, não é figura de linguagem. Não é metáfora. Não é exagero de ambientalista que “quer destruir o agronegócio”. Foi vento girando, arrancando telhado, matando gente — um tornado real, sem telegrama prévio, sem pedir habeas corpus preventivo.

E aí, claro, surgem as entrevistas de praxe. Aquelas que já fazem parte da pequena ópera bufa brasileira. O sujeito, de boné e convicções sólidas como gelatina ao sol, declara à TV:

Isso aí sempre aconteceu. A natureza é assim mesmo.

Claro. Sempre teve tornado no Paraná. E dinossauro no Pantanal. E unicórnio em Minas Gerais. Aliás, sempre teve tudo, não é? Sempre teve. É a frase favorita de quem não quer pensar, mas quer parecer muito seguro de si.

Enquanto em Belém se fala de descarbonização, neutralidade climática, justiça ambiental, responsabilidade global, no sul ainda se encontra quem ache que aquecimento global é invenção de francês vegetariano para acabar com o churrasco domingueiro.

Há uma ala — sempre muito convicta, sempre muito emocional — que ainda acredita que mudança climática é uma grande conspiração mundial. Um complô internacional. Uma obra comunista com Al Gore no lugar de grande líder conspirador.

E, claro, ONGs malvadas financiadas por George Soros, o réptiliano supremo.

Tudo isso para impedir o progresso, que na concepção desses gênios consiste basicamente em derrubar árvores com entusiasmo masculino.

Pois bem. O tornado passou. E não perguntou se alguém “acreditava” nele. Assim como a gravidade não pede voto, o clima não consulta opinião de youtubers.

Enquanto isso, em Belém, líderes mundiais tentam evitar justamente — vejam só que coincidência — eventos climáticos extremos. Aqueles que matam. Aqueles que destroem cidades. Aqueles que produzem manchetes fúnebres.

Mas é claro, é claro: “sempre aconteceu”.

A ironia é tão fina que chega a ter brilho:
— No Norte, discutem como impedir o desastre.
— No Sul, o desastre acontece, mas parte da população insiste que não está vendo.

É como se o apocalipse precisasse apresentar laudo de autenticidade emitido em cartório.

O tornado foi, digamos assim, didático. Mais didático do que painel trilíngue da COP, mais direto do que diplomata inglês com pressa para o chá das cinco.

Entrou, destruiu, saiu. Sem discurso. Sem PowerPoint. Sem hashtag. Deixando todas as construções planas, como a Terra que eles imaginam habitar.

A mensagem?
O clima não está negociando. Nem conosco, nem com eles.

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

Isenção do IR até R$ 5 mil: alívio imediato e impacto social duradouro


A eventual aprovação, pela Câmara, da isenção do Imposto de Renda para quem recebe até cinco mil reais e sua sanção pelo presidente Lula representariam uma das maiores mudanças recentes na política tributária brasileira.

O benefício direto é claro: milhões de trabalhadores da base da classe média deixariam de ter parte do salário retido, o que, em tempos de inflação persistente e crédito caro, se traduz em mais fôlego para o consumo e alívio nas contas do mês.

Do ponto de vista social, a medida ataca uma distorção antiga: a defasagem da tabela do IR que, ao não ser corrigida integralmente, ampliava a carga sobre rendas mais baixas. O ganho líquido pode reforçar o mercado interno e reduzir a sensação de injustiça fiscal que há anos alimenta críticas ao sistema tributário.

Ainda que o debate sobre o custo fiscal permaneça — com impacto potencial na arrecadação da União —, os benefícios imediatos para a renda das famílias e para a economia real dão ao projeto um peso político significativo. Se aprovada, a isenção será vista não apenas como uma promessa cumprida, mas como uma reaproximação do Estado com o trabalhador assalariado.

Esta é uma pauta tão delicada, que acaba unindo, mesmo que por força, governo e oposição.

sexta-feira, 25 de julho de 2025

Morango do Amor, o capitalismo social

É verdade que o "marketing de influência" do morango do amor tem se mostrado uma ferramenta poderosa para impulsionar a economia local, especialmente ao beneficiar um grupo majoritariamente feminino de microempreendedoras e autônomas.

Essa tendência tem permitido que confeiteiras, doceiras e outras profissionais do ramo gerem uma renda extra significativa.

Nem toda "modinha" precisa ser alvo de críticas ou cancelamento.

Neste caso, não se trata de grandes indústrias ou bilionários lucrando, mas sim de pessoas como nós que estão batalhando por um dinheiro a mais.

É um ótimo exemplo de como uma tendência pode gerar um impacto positivo direto na vida de muitas pessoas.

Deixem de chatice e apoiem essa iniciativa!

E, se você não gosta do doce, compre um e me mande!

TEXTO DE:
Bia Rocha

terça-feira, 15 de julho de 2025

Petrobras mais feminina

O  anúncio feito pela Petrobras da nomeação da engenheira Angélica Garcia Cobas Laureano para a diretoria executiva de transição energética e sustentabilidade consolida pela primeira vez uma maioria feminina na alta gestão da companhia. Com a chegada de Angélica, cinco dos nove cargos da diretoria são agora ocupados por mulheres, incluindo a presidência, atualmente liderada por Magda Chambriard.

A nova composição, inédita na história da estatal, coloca a Petrobras na vanguarda da diversidade no mercado brasileiro. Segundo o estudo "Mulheres em ações", divulgado pela B3 no ano passado, apenas 6% das companhias listadas têm três ou mais mulheres em suas diretorias, enquanto 59% não possuem nenhuma.

A diversidade torna o ambiente mais saudável e produtivo. Esperamos inspirar outras mulheres a buscar cargos de liderança, especialmente no setor de petróleo e gás, que ainda é majoritariamente masculino”, disse Magda Chambriard.

segunda-feira, 14 de julho de 2025

Toma lá dá cá

O presidente Lula assinou nesta segunda (14) o decreto que regulamenta a chamada Lei da Reciprocidade.

O decreto vai estabelecer os procedimentos que devem ser adotados para a aplicação da lei e cria um comitê formado por representantes do governo e empresários para discutir o tarifaço.

A Lei da Reciprocidade foi aprovada pelo Congresso Nacional em abril, debaixo de protestos desesperados da bancada bolsonarista.

"Inaceitável que o Brasil queira retaliar os EUA, só porque eles estão defendendo sua economia. O Brasil devia agradecer a parceria americana e se submeter a maior nação do planeta."

Antes da lei, não havia um arcabouço que permitia ao governo reagir a agressões economicas de outro país.

O decreto será publicado na edição desta terça (15) do Diário Oficial da União.

Do outro lado, Eduardo Bolsonaro, o vabundo homiziado, pede que os empresários brasileiros apoiem e agradeçam a Donald Trump, o asno que governa os EUA.

Para Eduardo, os empresários precisam aceitar que tem de pagar um preço de bilhões para que seu pai seja anistiado.

"O que é(sic) alguns milhares de empregos se comparados a liberdade do Messias vivo? O empresário que não aceita pagar um preço agora, jamais é digno de seguir ao Bolsonaro."

É muita cara-de-pau, não é mesmo?

Esta é a primeira vez na história que Governo e Congresso tomam medidas para que o Brasil deixe de ser vira-latas dos EUA.

Mas ainda tem muita gente sem a menor vergonha na cara, torcendo contra o Brasil.

quinta-feira, 10 de julho de 2025

Vassalo

Por motivos óbvios, não vamos dizer isso aqui de maneira explícita.

Mas o vassalo da cara de areia mijada sabe onde pode enfiar esse boné, não é mesmo?

terça-feira, 17 de junho de 2025

A Cascata da Casta para manter castos os seus ganhos

Ontem à noite, um "mantra" materialista foi bradado o tempo todo na Câmara: "chega de impostos!". Isso seduz mas, no caso, engana.

Para defender que não se altere a estrutura tributária e fiscal injusta - onde quem mais ganha menos paga - os deputados da elite "vendem gato por lebre": é MENTIRA que os impostos sobre Operações Financeiras "recaiam sobre toda a sociedade". 

O decreto do governo - cuja "urgência" para ser derrubado foi aprovada por 346 a 97 - afeta, moderadamente, quem tem grandes aplicações ou faz gastos expressivos no exterior - o "andar de cima".

O presidente Hugo Motta, para se contrapor a Haddad, diz que "todos moram no mesmo prédio". Só não diz que as regras do condomínio, que querem inalterada, privilegiam quem mora na cobertura.

Os ultraneoliberais repetem que é preciso "cortar gastos" - isto é, programas sociais, reajuste do salário mínimo e para aposentados/pensionistas, percentuais constitucionais de Educação e Saúde. E "esfregam as mãos": hoje, o Senado deve aprovar o aumento do número de deputados, de 513 para 531!

Cortar isenções bilionárias de empresas (R$ 800 bi este ano), benesses de parlamentares e emendas pouco transparentes (R$ 50 bi), juros e serviços da imensa dívida (R$ 540 bi)? Nem pensar.

Falta sinceridade no debate sobre a necessária Reforma Tributária estrutural. Sobra hipocrisia.

TEXTO DE:
Chico Alencar

sexta-feira, 30 de maio de 2025

Imposto Sobre Operações Financeiras (IOF): Quem mais chia?

O Novo Arcabouço Fiscal (NAF) impõe restrição excessiva ao orçamento público, estrangulando os gastos a 70% da arrecadação. Limita a implementação de novas políticas sociais e a recomposição dos orçamentos perdidos nos governos Temer e Bolsonaro.

O decreto de alteração nas alíquotas do IOF, com a tentativa de ampliar a arrecadação para evitar novos contingenciamentos, revela o empenho da equipe econômica pelo “déficit zero”, mas também visa o funcionamento do Estado para enfrentar os desafios sociais brasileiros.

A medida irá afetar principalmente a parcela mais rica da população, já que o foco foi a ampliação da alíquota em operações (de câmbio, crédito e gasto com cartão) no exterior. 

No entanto, esse tipo de imposto sobre operação financeira, cumulativo (que incide em mais de uma fase da cadeia produtiva), pode representar aumento da alíquota em operações de crédito para empresas do Simples e do MEI, dificultando a vida de pequenos empreendedores. É preciso evitar isso.

O recuo na parte que aumentava alíquota de fundos e investimentos no exterior - e, portanto, pouco afetaria a população mais pobre - mostra a força das demandas da "Faria Lima", dos banqueiros, dos grandes rentistas. Eles querem sempre mais: julgam-se intocáveis!

O caminho para repensar o planejamento econômico exige uma reforma tributária estratégica, que permita o crescimento do investimento público, com uma estrutura tributária que priorize impostos progressivos sobre renda e patrimônio, tributação de grandes fortunas, lucros e dividendos, e a revisão de isenções fiscais - com R$ 554 bilhões de renúncias esse ano! Desde 2024 apresentamos um PL para limitar a farra dessas isenções.

Por outro lado, a Câmara não tem freios para aumentar o número de deputados nem para conter  salários acima do teto constitucional ou para taxar os super ricos. Também se agarra nas emendas parlamentares de R$ 50 bi e pouco transparentes (o que se tenta arrecadar com o IOF, R$ 19 bi, é duas vezes e meia menos). Já cortes no Minha Casa Minha Vida e novo contingenciamento de R$ 31 bilhões são considerados normais...

Ainda estamos longe da verdadeira Justiça Tributária!

TEXTO DE:
Chico Alencar

quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

A Fake News da discórdia sai vitoriosa

É notório que a Meta através dos seus algoritmos e abraçado a ideologia nazifascista da extrema-direita, com apenas 1 reel conseguiram atingir milhões de pessoas na propagação de mais 1 mentira, e as pessoas acreditando.

Por conta de criminosos que agiram de forma coordenada espalhando mentiras para enganar e dar golpe no povo, o governo federal revogou ato que modernizava o monitoramento das transações financeiras.

A medida existe desde 2003 e a atualização mudava a fiscalização para contas que movimentam acima de 5 mil reais / mês.

Com a revogação, a fiscalização retorna para contas que movimentam apenas 2 mil reais / mês, ou seja, quem ganha isso por mês voltará a cair na malha fina.

A Receita Federal não está interessada em você que trabalha em aplicativos, autônomos, MEI ou em você que movimenta mais de 5 mil reais mas tem uma renda menor, isso já é normal, ninguém da Receita tem interesse em acabar com a sua renda, eles já sabem das suas transações há muito tempo e nunca aconteceu nada, igual com o cartão de crédito o que é normal.

O objetivo é acabar com a sonegação de impostos do crime organizado.

Comércios que vão usar a placa de que “Não aceitam mais PIX”, sonegam imposto ou caíram nessa 7 que a corja bolsonarista está contando para causar medo e abrir brechas para vários golpes que já estão acontecendo.

Vitória da mentira dos Bolsonaristas criminosos que novamente ferraram com os trabalhadores.

E uma parcela da classe trabalhadora acreditando, seja dentro das igrejas ou na frente dos coachs picaretas.

A extrema-direita não está preocupada com os pobres, mas está preocupada com os amigos que sonegam impostos; essa é a verdade.

TEXTO DE:
Thiago Muniz