quinta-feira, 30 de julho de 2026

Consórcio Guaicurus - imprensa aposta em polêmica no lugar da informação

Existe um vício recorrente no debate público brasileiro: transformar aquilo que parece estranho em sinônimo de ilegal. A lógica é simples, quase infantil: "Nunca vi isso, logo deve ser irregular". O problema é que o Direito não julga impressões. Julga normas.

Foi exatamente isso que aconteceu após a divulgação de que a empresa responsável pela aquisição do Consórcio Guaicurus foi constituída apenas dois dias antes da negociação. Bastaram algumas horas para surgirem sentenças definitivas nas redes sociais: "empresa de fachada", "laranja", "fraude". Calma. Uma coisa de cada vez.

A primeira pergunta é objetiva: criar uma empresa especificamente para comprar outra empresa ou assumir uma concessão pública é permitido?

A resposta, goste-se ou não dela, é sim.

O Direito Empresarial conhece muito bem esse tipo de operação. Grandes grupos econômicos fazem isso diariamente por meio das chamadas Sociedades de Propósito Específico (SPEs). Trata-se de uma empresa criada para realizar uma operação determinada: adquirir um ativo, administrar um empreendimento, desenvolver um projeto ou assumir determinado negócio. Não existe, na legislação brasileira, qualquer exigência de que a empresa tenha meses ou anos de existência para participar de uma aquisição.

Em outras palavras, a data de nascimento da empresa não define a legalidade do negócio. Se fosse assim, toda startup estaria condenada à ilegalidade durante seu primeiro ano de vida.

Até aqui, portanto, existe mais estranhamento do que problema jurídico.

Mas é justamente nesse ponto que muitos encerram a discussão quando ela, na verdade, apenas começa.

Porque uma coisa é comprar uma empresa privada qualquer. Outra, completamente diferente, é assumir o controle de uma concessionária de serviço público.

Nesse momento, deixa-se o terreno do Direito Empresarial para ingressar no Direito Administrativo.

A pergunta muda completamente.

Já não interessa saber quando a empresa foi criada. Interessa descobrir se ela possui capacidade para administrar um serviço essencial à população.

Pode uma empresa recém-constituída assumir uma concessão? Pode. Desde que demonstre capacidade técnica, econômica e financeira para cumprir todas as obrigações contratuais.

É aqui que entram os verdadeiros questionamentos.

Qual é o patrimônio efetivo do grupo controlador?

Quais garantias financeiras foram apresentadas?

Existe capital suficiente para renovar frota, manter a operação, pagar funcionários, cumprir investimentos e responder por eventuais prejuízos?

O capital social inicial de R$ 10 mil, isoladamente, não resolve nem condena a questão.

Capital social não se confunde, necessariamente, com patrimônio disponível ou capacidade financeira do grupo econômico. Muitas operações milionárias começam com empresas constituídas com capital reduzido e recebem aportes posteriores dos sócios ou financiamentos específicos.

Isso explica por que simplesmente repetir "o capital era de apenas R$ 10 mil" pode impressionar o leitor, mas não basta para demonstrar irregularidade.

A análise precisa ser mais sofisticada.

Se a empresa não apresentar patrimônio compatível, garantias suficientes ou capacidade operacional para assumir uma concessão desse porte, aí, sim, surge um problema que merece investigação.

Percebe a diferença?

A possível fragilidade não está na certidão de nascimento da empresa.

Está na robustez econômica que ela consegue demonstrar.

É justamente por essa razão que órgãos de controle, como o Tribunal de Contas, costumam concentrar suas atenções menos na constituição da sociedade e mais na transferência da concessão. Afinal, o interesse público não consiste em saber quantos dias de vida tem o CNPJ, mas se os passageiros continuarão encontrando ônibus nas ruas amanhã.

No fundo, a controvérsia revela um erro bastante comum: misturar dois ramos distintos do Direito.

No Direito Empresarial, a constituição da empresa parece seguir uma prática absolutamente conhecida do mercado.

No Direito Administrativo, entretanto, permanece a obrigação de provar que essa empresa, e, sobretudo, o grupo econômico que a controla, possui condições concretas de assumir um contrato que afeta diariamente centenas de milhares de usuários.

Quem transforma essas duas perguntas em uma só termina produzindo mais calor do que luz.

O jornalismo presta melhor serviço quando explica do que quando condena antecipadamente.

No caso do Consórcio Guaicurus, a discussão realmente relevante talvez nunca tenha sido se a empresa nasceu dois dias antes da compra.

A pergunta que importa continua sendo outra: quem assumirá o transporte coletivo de Campo Grande possui musculatura financeira, capacidade administrativa e compromisso suficiente para entregar um serviço melhor do que aquele que pretende substituir?

Essa resposta não será encontrada na data de abertura do CNPJ.

Será encontrada nas garantias apresentadas, na fiscalização do poder público e, sobretudo, na qualidade do transporte que a população receberá daqui para frente.

Coisas que na atual situação, já não funcionam corretamente.

Se o poder público não cumprir sua parte, é muito provável que nenhum grupo empresarial, nascido ontem ou no século passado, vá cumprir a sua.

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Amai vossos inimigos

Algumas vezes, fotografias não registram apenas um instante, elas capturam um dilema moral.

A imagem feita por Mark Brunner, em Ann Arbor, no Michigan, no verão de 1996, pertence a essa categoria. Ela não mostra um discurso histórico, uma vitória política ou uma multidão comemorando. O que ela eterniza é uma escolha.

No asfalto, um homem identificado com símbolos ligados ao supremacismo branco está caído. Sobre ele, protegendo-o dos golpes que vêm de todos os lados, uma jovem negra de apenas dezoito anos.

Em torno dos dois, uma multidão enfurecida. 

Os rostos revelam indignação; os braços, a disposição para a violência. Bastava mais um minuto para que a justiça cedesse lugar ao linchamento.

O nome daquela jovem era Keshia Thomas.

Sua atitude desafiou tanto a lógica dos extremistas quanto a dos justiceiros. Ela não correu para defender uma ideologia. Correu para impedir que o ódio mudasse apenas de endereço.

A fotografia provoca desconforto justamente porque desmonta uma das ilusões mais sedutoras do nosso tempo: a de que a violência se torna virtuosa quando dirigida contra quem julgamos merecê-la.

Keshia não ignorava o significado daqueles símbolos. Sabia muito bem o que representavam para uma mulher negra nos Estados Unidos. Mesmo assim, recusou-se a aceitar que a barbárie pudesse ser combatida reproduzindo seus próprios métodos.

Sua decisão contém uma lição incômoda.

O ser humano costuma acreditar que a maldade pertence sempre ao outro. Os intolerantes seriam apenas aqueles que vestem capuzes brancos, fazem saudações nazistas ou carregam bandeiras do ódio.

Mas a fotografia lembra que a intolerância também pode vestir a roupa da multidão convencida de sua superioridade moral.

Quando dezenas de pessoas gritam "matem o nazista", a frase pode até nascer de uma indignação compreensível. Ainda assim, ela revela o mesmo mecanismo que sustenta todo fanatismo: a desumanização do adversário.

Esse talvez seja o detalhe mais importante da imagem. Keshia não tentou convencer aquele homem de que estava errado. Também não lhe ofereceu absolvição. Fez algo muito mais difícil: impediu que ele fosse reduzido à condição de um corpo descartável.

Sua frase atravessou as décadas porque sintetiza essa postura: ninguém aprende a bondade apanhando.

A política contemporânea, as redes sociais e boa parte dos debates públicos parecem caminhar na direção oposta. Cada grupo acredita possuir o monopólio da virtude e, por isso, concede a si mesmo licença para humilhar, cancelar ou destruir quem pensa diferente. Muda-se o alvo, preserva-se o método.

A imagem de Ann Arbor continua atual porque rompe essa engrenagem.

Ela nos lembra que princípios não servem para proteger apenas quem admiramos. Seu verdadeiro valor aparece quando somos chamados a aplicá-los em favor de quem consideramos indigno deles.

O homem caído no chão talvez nunca tenha abandonado suas convicções. Talvez tenha mudado. Pouco importa para compreender o sentido daquela fotografia. O que realmente permaneceu foi a decisão de uma jovem que recusou permitir que o ódio escrevesse mais uma página de sua própria história.

No fim das contas, Mark Brunner não fotografou apenas um resgate. Fotografou o instante em que um corpo disse "não" à vingança. E, às vezes, um único "não" vale mais para a civilização do que milhares de gritos em nome da justiça.

sábado, 25 de julho de 2026

Tereza de Benguela ainda espera sua coroação

Algumas datas o calendário registra, mas a consciência nacional insiste em deixar esquecidas.

O 25 de julho, Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha, é uma delas.

O Brasil gosta de celebrar personagens depois de neutralizá-los.

Enquanto vivos — ou enquanto sua memória ainda representa perigo — são tratados como incômodos. Depois, recebem nome de rua, placa comemorativa, postagem institucional e, se houver orçamento, um seminário de duas horas. O conflito desaparece; resta apenas a homenagem.

Tereza de Benguela não foi feita para caber nesse ritual burocrático.

No século XVIII, liderou o Quilombo do Quariterê, na região que hoje pertence ao Mato Grosso.

Governou uma comunidade composta por negros e indígenas, organizou defesa militar, estabeleceu formas de comércio, administrou justiça e demonstrou que liberdade não era apenas um sonho, mas também uma forma concreta de governo.

Enquanto muitos ainda discutiam quem teria direito à humanidade, ela já administrava uma sociedade onde essa humanidade era pressuposto.

É curioso notar como o imaginário brasileiro conhece rainhas europeias, imperatrizes francesas e até personagens fictícias da nobreza inglesa, mas mal consegue reconhecer a existência da chamada Rainha Tereza. Talvez porque sua coroa tenha sido forjada não em ouro, mas em resistência.

O Dia da Mulher Negra não existe para criar uma categoria à parte de mulheres. Existe porque a história brasileira criou uma categoria à parte de esquecimentos.

A mulher negra ajudou a construir este país como trabalhadora, agricultora, artesã, professora, enfermeira, cientista, artista, escritora, mãe e líder comunitária.

Ainda assim, frequentemente aparece apenas quando o assunto é desigualdade. É como se o Brasil enxergasse sua dor antes de reconhecer sua grandeza.

Existe uma diferença enorme entre representar e pertencer. Muitas campanhas publicitárias descobriram a estética da diversidade. Já a igualdade continua sendo um projeto em construção. Celebrar mulheres negras em julho e ignorar seus desafios em agosto é apenas transformar memória em marketing.

Tereza de Benguela representa exatamente o contrário dessa lógica. Sua história não é um convite à vitimização, mas à autonomia.

Ela não entrou para a História porque sofreu, entrou porque governou, organizou, resistiu e liderou. Sua biografia desafia a narrativa confortável que reduz pessoas negras apenas ao papel de vítimas da escravidão. Antes de tudo, ela foi protagonista de sua própria história.

Talvez seja justamente isso que torne sua memória tão necessária. Um país que conhece apenas seus mártires dificilmente aprenderá a reconhecer seus estadistas.

No fim das contas, o Dia Nacional de Tereza de Benguela não deveria servir apenas para lembrar uma mulher extraordinária do século XVIII. Deveria servir para perguntar quantas Terezas ainda permanecem invisíveis em escolas, universidades, empresas, laboratórios, redações, tribunais e parlamentos.

Porque memória não é um exercício de nostalgia. É um compromisso com aquilo que escolhemos não esquecer.

E, enquanto Tereza de Benguela continuar sendo mais conhecida em cerimônias oficiais do que nas salas de aula, o Brasil seguirá provando que homenagear o passado é muito mais fácil do que aprender com ele.


sexta-feira, 24 de julho de 2026

A Indústria brasileira aceita a acusação americana?

Achei curioso o patriotismo da CNI e da ABIMAQ: o do réu que aceita a acusação antes do julgamento

Existe um velho ditado no Direito segundo o qual quem confessa facilita o trabalho da acusação. Pois bem.

Se depender da reação inicial de parte da representação da indústria brasileira, os Estados Unidos nem precisarão gastar muito tempo tentando convencer o mundo de que o Brasil convive com trabalho forçado em sua cadeia produtiva. Alguns dos nossos representantes parecem dispostos a fazer esse serviço de graça.

Diante do anúncio das tarifas americanas, justificadas pela gravíssima acusação de utilização de trabalho forçado, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (ABIMAQ) correram para defender a negociação direta e advertir contra medidas de reciprocidade.

Negociar? Evidentemente. Diplomacia não é uma modalidade de luta livre.

Mas há uma questão anterior, muito anterior.

Onde estava a indignação contra a acusação?

Porque uma coisa é reconhecer que uma guerra comercial produz perdas para todos. Outra, muito diferente, é agir como se a acusação fosse apenas um detalhe burocrático no meio da negociação.

Quando uma potência econômica afirma que determinado país merece ser tarifado porque estaria associado a práticas de trabalho forçado, isso não representa apenas uma divergência comercial. É um ataque à reputação internacional de toda a sua produção.

A primeira reação esperada de quem representa a indústria seria perguntar: onde estão as provas?

Em vez disso, o debate rapidamente migrou para outro terreno: "não reajam", "não façam reciprocidade", "negociem".

Ora, negociar o quê? A tarifa ou a culpa?

Porque a impressão produzida é devastadora. Quem observa de fora pode concluir que, se as próprias entidades industriais brasileiras não contestam energicamente a acusação, talvez ela contenha algum fundo de verdade.

É evidente que isso não significa que defender reciprocidade seja necessariamente a melhor estratégia. Medidas dessa natureza precisam ser avaliadas com racionalidade econômica e diplomática. O ponto não é esse.

O problema é inverter a ordem das prioridades.

Antes de discutir como responder à sanção, seria razoável rejeitar publicamente a narrativa que tenta justificar a própria sanção.

Caso contrário, aceita-se a denúncia e passa-se diretamente à discussão da pena.

Mas existe uma ironia ainda maior.

Boa parte do empresariado organizado que hoje cobra do presidente Lula uma solução rápida para a crise foi, durante anos, uma das mais entusiasmadas bases de sustentação política do bolsonarismo.

Não estamos falando apenas de apoio eleitoral. Estamos falando de um ambiente político que tratou qualquer gesto de alinhamento automático aos Estados Unidos de Donald Trump como demonstração de patriotismo.

Essa mesma galera apoiava que o próximo presidente deveria ser o governador carioca de São Paulo, Tarcísio de Freitas que subiroa a rampa do Planalto com o boné "make América great again".

Agora, quando essa relação produz consequências econômicas e diplomáticas desfavoráveis ao Brasil, a responsabilidade desaparece como num passe de mágica.

Os responsáveis políticos pelo ambiente que desembocou nesse conflito tornam-se invisíveis.

E toda a cobrança recai sobre Lula, como se tivesse sido seu governo a incentivar confrontos institucionais, atacar parceiros comerciais ou transformar a política externa em instrumento de guerra ideológica.

É uma curiosa versão da responsabilidade seletiva.

Privatizam-se os aplausos quando a aposta parece render dividendos políticos.

Socializam-se os prejuízos quando a conta finalmente chega.

Não deixa de ser curioso que parte dos mesmos setores empresariais que tantas vezes denunciaram um Estado "intervencionista" agora exijam justamente desse Estado a solução imediata para uma crise cuja gênese política ajudaram a alimentar.

O governo, evidentemente, tem a obrigação de defender os interesses nacionais. É para isso que existe.

Mas também seria saudável que as entidades empresariais demonstrassem o mesmo vigor na defesa da honra da indústria brasileira que demonstram ao defender a necessidade de preservar mercados.

Porque reputação também é ativo econômico.

Aliás, talvez seja o principal deles.

Uma indústria cuja própria representação parece hesitar em contestar uma acusação internacional gravíssima já entra na mesa de negociação em posição defensiva.

Não porque perdeu a disputa comercial.

Mas porque, antes mesmo da primeira rodada, aceitou discutir o tamanho da punição sem exigir que a acusação fosse demonstrada.

Isso não é pragmatismo.

É rendição argumentativa.

E quem se rende na narrativa dificilmente vence na negociação.

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Fim do Panem et Circenses Hermano

Durante anos, o futebol mundial comprou uma narrativa confortável.

A Argentina não era apenas uma seleção vencedora, era apresentada como protagonista de uma epopeia cinematográfica. Cada vitória parecia fazer parte de um roteiro previamente aprovado pela publicidade, pelas transmissões televisivas e pelas redes sociais. O espetáculo precisava de um herói, e o herói precisava levantar a taça.

Mas toda mitologia encontra um dia em que o palco desaba.

A final da Copa expôs uma Argentina muito diferente daquela embalada pelo romantismo dos documentários e das campanhas publicitárias. O verniz caiu. Restou o comportamento.

Lionel Messi protagonizou um lance que dificilmente combina com a imagem do "gênio absoluto" construída ao longo da última década. Em vez de seguir o jogo, preferiu tentar convencer a arbitragem de que Marc Cucurella deveria ser expulso. Não foi um gesto de liderança. Foi uma tentativa pouco digna de influenciar a decisão do árbitro. Quando um dos maiores jogadores da história precisa recorrer ao teatro para alterar uma partida, algo já não vai bem.

A derrota, porém, retirou definitivamente a maquiagem.

Nos minutos finais, a seleção argentina transformou a frustração em agressividade. Entradas desnecessárias, empurrões, discussões e um comportamento incompatível com quem tantas vezes exigiu respeito ao "espírito esportivo". O futebol aceita a derrota como parte de sua essência. O destempero, não.

E então veio a cena que talvez simbolize toda a noite.

Na cerimônia de premiação, enquanto a Espanha celebrava o título, os jogadores argentinos permaneceram de costas para a festa dos campeões. O gesto pretendia demonstrar indignação; acabou revelando incapacidade de reconhecer o mérito do adversário. Há derrotas dolorosas, mas existe uma diferença enorme entre sofrer e desrespeitar.

Os grandes campeões também são medidos pela forma como perdem.

Foi justamente isso que desmontou uma narrativa construída durante anos.

A Argentina sempre gostou de apontar arrogância nos outros. Criticou europeus, brasileiros e qualquer seleção que demonstrasse excesso de confiança. Na primeira grande derrota depois da conquista mundial, revelou exatamente aquilo que dizia combater.

A ironia é inevitável.

Durante muito tempo, quem questionava certos privilégios concedidos à seleção argentina era tratado como conspiracionista. Cada lance polêmico era relativizado. Cada excesso era romantizado como "raça". Cada reclamação era transformada em "personalidade". Quando vence, chama-se paixão, quando perde, descobre-se que muitas vezes era apenas falta de controle.

A final funcionou como um espelho.

A Espanha venceu o jogo. Mas o futebol venceu algo maior: a necessidade de fabricar heróis intocáveis.

Nenhum craque está acima da crítica.

(Viu, Neymar?)

Nenhuma seleção merece imunidade moral apenas porque possui uma boa história para vender. O esporte continua sendo fascinante justamente porque destrói mitologias quando a bola rola.

O velho panem et circenses sempre dependeu da ilusão. Bastava oferecer espetáculo para que ninguém percebesse os bastidores. A final desta Copa fez exatamente o contrário: interrompeu o espetáculo e acendeu as luzes do teatro.

Sob essa iluminação menos romântica, a Argentina apareceu sem o figurino da epopeia.

E, talvez pela primeira vez em muito tempo, foi desmascarada diante do mundo.

quarta-feira, 22 de julho de 2026

A Odisseia

A sétima arte sempre foi fascinada pela Odisseia, do cavalo de Troia que marcou o antepassados dessa história, aos seres míticos que vão do ciclope polifemo, sereias, deuses e até almas no inferno.

Mas curiosamente, o novo filme de Milan é centrado nas emoções humanas. Até a sua componente mitológica assume aqui uma posição coadjuvante.

A montagem favorece dois núcleos da história, separados por 10 anos e movidos por um reencontro. Reparem que quando as figuras míticas surgem, elas nunca se tornam mais importantes que seus personagens humanos. Não existe cortina de fumaça em A Odisseia.

Eu creio é que o filme vai deixar o próximo Oscar menos diverso. Som, fotografia e efeitos especiais estão na mira por estatuetas. Já as atuações foram bem calibradas, aqui temos um filme muito mais nivelado.

Existe um destaque especial para uma cena feita sob medida para colocar Anne Hathaway na disputa pelo Oscar. Até Matt Damon tem chances, embora sua interpretação seja bastante linear.

O grande destaque para mim foi Robert Pattinson, e ele cria um dos personagens mais inventivos desse filme.

Nolan continua encontrando dificuldade para aprofundar suas personagens femininas. E isso chama atenção justamente porque a própria Odisseia oferece espaço para que elas ocupem um protagonismo maior.

Lupita Nyong'o faz uma ponta cheia de vida, e com mais tempo de tela, poderia brilhar ainda mais. Do ponto de vista do roteiro, Nolan mastiga sua trama, e mastiga bem. É claro que ele continua priorizando a experiência cinematográfica, em detrimento de uma narrativa mais complexa. Mas o fato é que ele conseguiu transformar toda a grandiosidade da Odisseia em um filme comercial para o grande público.

Ao simplificar algumas camadas da obra de Homero, Nolan faz com que certos conflitos e personagens fiquem presos às funções que precisam cumprir dentro da jornada.

O Odisseu é sempre o mesmo homem tentando retornar, enquanto Penélope permanece muito ligada à espera. Existe emoção, existe nuance e existe drama nesses personagens, mas a narrativa frequentemente repete esses movimentos em vez de aprofundá-los. Ambos atravessam 10 anos de perdas e provações, mas suas transformações internas são mais sugeridas do que verdadeiramente exploradas.

Ainda assim, existe um brilho e um frescor genuinos em A Odisseia. É possível se perder, no bom sentido, nas cenas mais incríveis desse filme. Se deixar ser arrebatado pela Ilha de Circe ou pela minha sequência favorita de todas, a Descida ao Mundo dos Mortos.

No fim, o cinema é, antes de tudo, encantamento. E Nolan agarra nessa ideia com força na sua mais nova obra-prima. Uma experiência feita para ser vivida nas telonas e que tem tudo para se tornar um dos seus filmes mais marcantes.

TEXTO DE:
Thiago Muniz

sábado, 18 de julho de 2026

Capitalismo Identitário vende mais

O capitalismo possui uma qualidade que seus críticos frequentemente subestimam: ele raramente combate aquilo que pode vender.

Durante décadas, acreditou-se que os movimentos identitários representavam uma ameaça estrutural à lógica do mercado. Afinal, denunciavam desigualdades históricas, exclusões e mecanismos de poder. Mas o mercado fez aquilo que sempre faz diante de uma ameaça: transformou-a em produto.

Hoje, a diversidade possui departamento de marketing. A resistência possui identidade visual. A contestação possui patrocinador.

E, curiosamente, o preço dessa incorporação foi a redução da complexidade humana.

Uma filósofa escreve sobre metafísica? O mercado pergunta onde está o feminismo.

Um intelectual negro publica um livro sobre astronomia, lógica ou estética? Logo aparece alguém perguntando quando virá sua obra sobre racismo.

Um escritor indígena quer produzir ficção científica? Espera-se dele um romance sobre ancestralidade.

Um pesquisador LGBT deseja estudar economia monetária? A editora prefere um ensaio sobre sexualidade.

Não se trata de censura estatal. É algo mais sofisticado.

É o algoritmo das expectativas.

O mercado descobriu que identidades vendem melhor quando permanecem dentro de embalagens previsíveis. Seus guetos.

Cada autor passa a ocupar um nicho cuidadosamente delimitado. Quanto mais específica a identidade, mais específico o público consumidor. Quanto mais específico o público, mais fácil segmentar campanhas, anúncios e eventos.

A lógica econômica agradece.

O resultado é um paradoxo digno de estudo.

Movimentos que nasceram para romper categorias acabam frequentemente aprisionados nelas.

A mulher deixa de ser filósofa para se tornar "filósofa feminista". O negro deixa de ser intelectual para virar "intelectual negro". O indígena passa a ser antes representante de uma identidade do que pesquisador de um campo do conhecimento.

Enquanto isso, curiosamente, permanece quase intacto o velho privilégio da universalidade.

Autores brancos, sobretudo homens, continuam sendo autorizados a escrever sobre praticamente qualquer assunto.

Podem publicar livros sobre religião, física, literatura, política internacional, futebol, inteligência artificial ou filosofia moral sem que alguém lhes cobre representar sua identidade racial ou de gênero.

Sua condição é percebida como neutra, universal. A dos demais, como específica.

Essa assimetria revela um fenômeno curioso: a identidade virou requisito apenas para alguns.

O capitalismo percebeu que vender universalidade continua sendo lucrativo para uns; vender identidade é mais rentável para outros.

É uma divisão de mercado.

Não por acaso, editoras organizam coleções inteiras baseadas na identidade do autor. Livrarias criam estantes temáticas. Festivais montam mesas compostas menos pela afinidade intelectual do que pela composição demográfica. Em muitos casos, a biografia passa a preceder a bibliografia.

O autor transforma-se em certificado de autenticidade.

Naturalmente, isso não significa que livros sobre feminismo, racismo ou colonialismo não sejam necessários. São. E continuam sendo fundamentais para compreender a sociedade.

O problema começa quando esses temas deixam de ser uma escolha intelectual para se tornarem uma expectativa comercial permanente.

Quando uma mulher precisa falar sobre mulheres para ser considerada legítima.

Quando um negro precisa falar sobre racismo para ser convidado.

Quando um indígena precisa falar apenas sobre povos indígenas para ser publicado.

Nesse momento, o mercado realiza sua mágica habitual.

Finge celebrar a diversidade enquanto organiza novas prateleiras.

Troca o velho universalismo excludente por um multiculturalismo compartimentado.

Cada grupo ganha seu corredor.

Cada corredor recebe sua etiqueta.

Cada etiqueta vira estratégia de vendas.

E todos saem convencidos de que venceram.

Talvez essa seja a maior vitória do capitalismo contemporâneo: convencer seus críticos de que liberdade consiste em escolher a própria cela — desde que ela seja suficientemente rentável.



sábado, 11 de julho de 2026

A Normalização da Barbárie

Não foi o primeiro vídeo de violência que vimos esta semana.

Também não será o último.

Primeiro aparece uma câmera de segurança registrando um assalto. Depois, um espancamento. Em seguida, um feminicídio. Mais tarde, uma briga de trânsito. Logo depois, uma criança sendo agredida pelo próprio pai.

Entre uma tragédia e outra, entram propagandas, vídeos engraçados, gols da rodada, receitas de bolo e danças virais. Tudo na mesma tela. Tudo na mesma velocidade.

A violência deixou de ser apenas um fato. Tornou-se um produto.

O caso da menina de três anos chutada pelo próprio pai é revoltante. Deveria nos causar indignação profunda. Deveria interromper qualquer conversa banal do dia. Deveria provocar um silêncio desconfortável.

Mas o algoritmo não permite.

Antes que a indignação amadureça, surge outro horror para disputar nossa atenção. O espanto dura algumas horas; depois é substituído pela próxima atrocidade da fila.

O problema não está em noticiar a violência. A imprensa tem o dever de informar.

O perigo começa quando a violência deixa de ser notícia para se transformar em entretenimento involuntário, em conteúdo de consumo rápido, em mercadoria capaz de gerar cliques, compartilhamentos e minutos de permanência na tela.

Pouco a pouco, nossa sensibilidade vai sendo desgastada.

O primeiro vídeo choca.

O décimo impressiona menos.

O centésimo é apenas mais um.

É assim que a barbárie se normaliza: não porque passamos a concordar com ela, mas porque nos acostumamos à sua presença.

A repetição produz um efeito perverso. Continuamos dizendo que achamos tudo horrível, mas reagimos cada vez menos. O horror permanece; quem muda somos nós.

Talvez por isso tanta gente assista a uma cena de extrema violência e, poucos segundos depois, deslize o dedo para assistir a um vídeo de humor. Não por crueldade deliberada, mas porque fomos treinados a consumir emoções em série, sem tempo para elaborá-las.

Uma sociedade que vê diariamente crianças espancadas, idosos abandonados, mulheres assassinadas, professores agredidos e pessoas executadas diante de câmeras corre um risco silencioso: perder a capacidade de distinguir o extraordinário do cotidiano.

E esse talvez seja o triunfo mais perverso da violência.

Ela não vence apenas quando machuca uma vítima.

Vence quando deixa de nos surpreender.

No dia em que uma menina de três anos agredida pelo próprio pai se tornar apenas "mais uma notícia", a derrota não será apenas daquela criança.

Será de todos nós.

Sem ter o que fazer, colunista repercute notícia indescritível

 

Algumas notícias escandalizam pelo conteúdo. Outras, pela redação. E, de vez em quando, aparece uma que consegue a proeza de fazer as duas coisas ao mesmo tempo.

Um amigo me manda uma manchete:

"Presa por fraude na Educação, dentista tinha gráfica com registro para criar bois em Terenos."

Parei.

Li outra vez.

Pensei que talvez o problema fosse meu.

Li uma terceira.

Continuava sem saber se a dentista havia sido presa pela fraude, pela gráfica, pelos bois ou pelo registro.

Notem que não estamos diante de uma questão de estilo. Não é literatura. É sintaxe. É lógica. É comunicação. A manchete — essa pobre criatura que deveria ser a parte mais clara de uma reportagem — resolveu brincar de enigma.

É evidente que, ao entrar na matéria, entende-se (ou quase), que a investigação aponta para um suposto esquema envolvendo empresas, entre elas uma gráfica. Muito bem. Isso é informação. Isso faz sentido. Isso explica o contexto.

Mas a manchete preferiu outra estratégia: jogar palavras numa mesma frase e deixar o leitor montar o quebra-cabeça.

É quase um novo gênero jornalístico: o "complete as lacunas".

Imaginem o precedente.

"Preso por peculato, advogado tinha churrascaria para venda de sentenças."

"Investigada por fraude na saúde, aeromoça possuía salão de beleza com registro para vender pastel."

Tudo rigorosamente verdadeiro — e rigorosamente inútil para explicar o fato principal.

Há quem imagine que isso seja um detalhe. Não é.

Uma manchete mal construída não é apenas um problema de português. É um problema de informação. O jornalismo vive da precisão das palavras. Quando elas deixam de esclarecer e passam a confundir, algo essencial se perde.

E aqui mora uma ironia deliciosa — deliciosa apenas do ponto de vista literário, registre-se. Estamos falando de um caso que investiga, justamente, desvios de recursos da educação. Educação. Aquela velha senhora que deveria ensinar interpretação de texto.

No fim, quem acabou precisando de aulas de interpretação foi o leitor da manchete.

Mas há algo mais preocupante.

Vivemos uma época em que muita gente lê apenas os títulos das reportagens. Não por preguiça, necessariamente. Porque o cotidiano é atropelado, as redes sociais aceleram tudo e a manchete virou, para milhões de pessoas, a própria notícia.

Ora, se o título não consegue explicar o fato, ele produz exatamente o contrário daquilo que o jornalismo deveria oferecer: luz.

Passa a fabricar ruído.

E ruído é o oxigênio da desinformação.

Não se trata de patrulhar redações nem de exigir perfeição gramatical como quem corrige prova de vestibular. Erros acontecem. Mas há uma diferença entre um deslize e uma construção que embaralha completamente a hierarquia das informações.

O episódio investigado é grave. Se houve fraude, que os responsáveis respondam por ela com todas as garantias do devido processo legal e, se condenados, com todo o rigor da lei.

Mas façamos um favor ao leitor.

Da próxima vez, contem primeiro a notícia.

Depois, se acharem relevante, expliquem que havia uma gráfica, um registro para comércio de bovinos, uma empresa, um contrato ou qualquer outro elemento da investigação.

Porque, do jeito que foi escrito, o único crime cuja materialidade ficou evidente já na manchete foi um atentado contra a clareza da língua portuguesa.

E esse, infelizmente, continua sendo um delito cotidiano contra o leitor.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

A Alma Aflita das Ruas, de Paulo Andel

Não por acaso, Andel reúne numa só crônica João do Rio, ao comentar a comoção que se abateu sobre a cidade e suas exéquias que reuniram 100 mil pessoas em 1923, e o escritor de Cenas de Nova York, o beatnik Jack Kerouac.

Um dedicou sua prosa literária e jornalística à apaixonada observação da "alma encantadora das ruas", o outro ao lado obscuro do hipócrita way-of-life americano, antecipado pelo pintor Edward Hopper, uma geração antes, no contraponto da família típica dos comerciais de margarina com suas imagens de desolação, através de seus solitários personagens.

Nosso desesperado e aflito escriba se debruça sobre um Rio contemporâneo habitado principalmente por um exército de famintos que habitam as ruas. E se solidariza com a miséria desse universo que se alastra como incontrolável pólvora da chaga social que reina, soberana, no centro econômico de nossa cidade.

"Começa o dia (...) e então estendemos nossas mãos nas calçadas, buscando míseras esmolas de felicidade."

"A alvorada ainda está escondida pelo azul cobalto do céu.As padarias ainda nem abriram. Mas a fome já se espalha pela manhã.

Não há vagas. Não há vagas. Há desprezo, insensatez, mesquinharia, ódio, filhadaputice, escrotice, solidão."

E como um caminhante no caos que observa em sua volta, vai enumerando com sua nostálgica memória, a decadência do comércio que outrora pontuava com tradição e história a geografia mundana do Rio. Recolhe o que restou de endereços onde ainda sacia sua fome com as delícias que sobreviveram. Opus, Paladino, A Mineira - e reúne os amigos de sua pequena Confraria, uma espécie de cavaleiros das távolas redondas dos botequins resistentes.

Seu olhar de indignação não apaga o observador do entorno que emoldura sua trágica visão, como num documentário antropológico ou (novamente) numa pintura de Edward Hopper, consegue registrar, ao entrar num bar : "Há dois clientes. A atendente é loura, gordinha, bonita e olha para o outro lado da rua, como se admirasse um senhor gordo, também passando por ali. Ela fixa o olhar. Será?"

E se consola: "Continuo pobre, estou desesperado, mas meu par de bermudas é de chinelos me deixa feliz. Ultimamente tenho escrito livros."

E escreve freneticamente. Em sua coluna aos sábados no Correio da Manhã, e em dezenas deles publicados, sobre futebol e sua paixão pelo Fluminense.

Segue sua saga numa espécie de vingança contra a fome alheia e que não tem condições materiais para mitigá-la:

"Depois de comermos pastéis com laranjada na Rua dos Andradas (...) vamos lá porque é gostoso e barato (...) resolvemos caminhar até o Largo da Carioca.(...) eu pensei em fazer a minha velha visita ao Santos Dumont para tomar um sundae de morango em meio ao silêncio da Praça de alimentação do aeroporto."

E sua fixação pantagruélica continua, descrevendo um desfile de sanduíches nos endereços que ainda se sustentam em meio ao desastre neoliberal que é o responsável por essa multidão de famintos e sem teto sob onde houver marquises que os protejam das chuvas.

No entanto, consegue desfrutar da beleza da Cidade, como extrair a pérola que é a materialização da doença da ostra: "...então logo chego ao VLT e fico admirando a beleza noturna da região, as árvores, os prédios da Beira-mar. (o trecho do aeroporto à Cinelândia é imperdível, pela bela arquitetura ali reunida".

E seu olho de lince foca num poste distante, onde "as travestis dominam os postes, o que sobrou dos orelhões, os cercados e muitas paredes. A luta pela sobrevivência exige estratégias de marketing. (...) seis pessoas em situação de rua, mais seus três ou quatro cães de estimação, vivem a morte em vida debaixo de uma marquise."

"(...) no centro do Rio o prato mais popular é o pacote de biscoitos. Sempre há jovens e adultos indo e vindo com biscoitos pra disfarçar a fome."

"Na Nova Petrobras descem batalhões de funcionários estranhos com suas roupas corporativas de cores neutras,suas mochilas com notebooks e fones de ouvido que ajudam a apagar o cotidiano triste."

"Passo na Quitandinha recém aberta,compro pão para depois fazer um queijo quente. Um guaraná também. Gosto da lojinha pequena, acolhedora, com jeito de antigamente.

Certamente lembrando-se de tempos acolhedores e sem a pressa histérica da sobrevivência atual.

Registra também fatos entre a sua Copacabana onde morou adolescente 
("Minha terra sempre será Copacabana, mas sou um cidadão do coração da cidade").

Descreve cenas antológicas num elevador com o cantor Cauby Peixoto e seu paletó de lantejoulas azuis, Clóvis Bornay e Rogéria nas noites do bairro; a Lapa de Madame Satã e do cantor Osvaldo Nunes - que a amnésia cultural brasileira juntou ao batalhão de nomes excluídos, assassinado por dois garotos de programa.

E continua: "O Largo da Carioca em silêncio de morte às seis da tarde. O povo foi expulso pelo desemprego. Há um certo silêncio triste e indisfarçável nos arredores. Burburinho mesmo só numa fila de moradores de rua para ganhar o sopão."

"Se a população envelheceu e a boemia encolheu, paciência, mas não há como apagar a história de bares e boates memoráveis, dos inferninhos aos templos da bossa nova..."

Memorialista da urbanidade, fala dentro dele a voz da preservação desse patrimônio:

"Pela milésima vez, tiro uma foto do relógio da Mesbla. Nunca se sabe até quando o relógio estará lá ou alguém se interessará em fazer o registro."

Renomeia sua série de pequenas histórias e cunha o nome de um famoso jornal paulista, conhecido pelo noticiário de crimes, “Notícias populares”. E dedica-se, como num alerta na falta da atenção das autoridades, a uma espécie de aviso aos navegantes sobre as zonas de risco.

Antes de se despedir : "A semana será puxada no trabalho e continuarei preocupado. Muito preocupado. Tentar buscar energias sobressalentes e resistir. Escrever. Torcer. Sonhar. É isso: sonhar é preciso."

Cai o pano sobre a Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

Um livro imperdível.

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