sábado, 25 de julho de 2026

Tereza de Benguela ainda espera sua coroação

Algumas datas o calendário registra, mas a consciência nacional insiste em deixar esquecidas.

O 25 de julho, Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha, é uma delas.

O Brasil gosta de celebrar personagens depois de neutralizá-los.

Enquanto vivos — ou enquanto sua memória ainda representa perigo — são tratados como incômodos. Depois, recebem nome de rua, placa comemorativa, postagem institucional e, se houver orçamento, um seminário de duas horas. O conflito desaparece; resta apenas a homenagem.

Tereza de Benguela não foi feita para caber nesse ritual burocrático.

No século XVIII, liderou o Quilombo do Quariterê, na região que hoje pertence ao Mato Grosso.

Governou uma comunidade composta por negros e indígenas, organizou defesa militar, estabeleceu formas de comércio, administrou justiça e demonstrou que liberdade não era apenas um sonho, mas também uma forma concreta de governo.

Enquanto muitos ainda discutiam quem teria direito à humanidade, ela já administrava uma sociedade onde essa humanidade era pressuposto.

É curioso notar como o imaginário brasileiro conhece rainhas europeias, imperatrizes francesas e até personagens fictícias da nobreza inglesa, mas mal consegue reconhecer a existência da chamada Rainha Tereza. Talvez porque sua coroa tenha sido forjada não em ouro, mas em resistência.

O Dia da Mulher Negra não existe para criar uma categoria à parte de mulheres. Existe porque a história brasileira criou uma categoria à parte de esquecimentos.

A mulher negra ajudou a construir este país como trabalhadora, agricultora, artesã, professora, enfermeira, cientista, artista, escritora, mãe e líder comunitária.

Ainda assim, frequentemente aparece apenas quando o assunto é desigualdade. É como se o Brasil enxergasse sua dor antes de reconhecer sua grandeza.

Existe uma diferença enorme entre representar e pertencer. Muitas campanhas publicitárias descobriram a estética da diversidade. Já a igualdade continua sendo um projeto em construção. Celebrar mulheres negras em julho e ignorar seus desafios em agosto é apenas transformar memória em marketing.

Tereza de Benguela representa exatamente o contrário dessa lógica. Sua história não é um convite à vitimização, mas à autonomia.

Ela não entrou para a História porque sofreu, entrou porque governou, organizou, resistiu e liderou. Sua biografia desafia a narrativa confortável que reduz pessoas negras apenas ao papel de vítimas da escravidão. Antes de tudo, ela foi protagonista de sua própria história.

Talvez seja justamente isso que torne sua memória tão necessária. Um país que conhece apenas seus mártires dificilmente aprenderá a reconhecer seus estadistas.

No fim das contas, o Dia Nacional de Tereza de Benguela não deveria servir apenas para lembrar uma mulher extraordinária do século XVIII. Deveria servir para perguntar quantas Terezas ainda permanecem invisíveis em escolas, universidades, empresas, laboratórios, redações, tribunais e parlamentos.

Porque memória não é um exercício de nostalgia. É um compromisso com aquilo que escolhemos não esquecer.

E, enquanto Tereza de Benguela continuar sendo mais conhecida em cerimônias oficiais do que nas salas de aula, o Brasil seguirá provando que homenagear o passado é muito mais fácil do que aprender com ele.


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