sábado, 11 de julho de 2026

A Normalização da Barbárie

Não foi o primeiro vídeo de violência que vimos esta semana.

Também não será o último.

Primeiro aparece uma câmera de segurança registrando um assalto. Depois, um espancamento. Em seguida, um feminicídio. Mais tarde, uma briga de trânsito. Logo depois, uma criança sendo agredida pelo próprio pai.

Entre uma tragédia e outra, entram propagandas, vídeos engraçados, gols da rodada, receitas de bolo e danças virais. Tudo na mesma tela. Tudo na mesma velocidade.

A violência deixou de ser apenas um fato. Tornou-se um produto.

O caso da menina de três anos chutada pelo próprio pai é revoltante. Deveria nos causar indignação profunda. Deveria interromper qualquer conversa banal do dia. Deveria provocar um silêncio desconfortável.

Mas o algoritmo não permite.

Antes que a indignação amadureça, surge outro horror para disputar nossa atenção. O espanto dura algumas horas; depois é substituído pela próxima atrocidade da fila.

O problema não está em noticiar a violência. A imprensa tem o dever de informar.

O perigo começa quando a violência deixa de ser notícia para se transformar em entretenimento involuntário, em conteúdo de consumo rápido, em mercadoria capaz de gerar cliques, compartilhamentos e minutos de permanência na tela.

Pouco a pouco, nossa sensibilidade vai sendo desgastada.

O primeiro vídeo choca.

O décimo impressiona menos.

O centésimo é apenas mais um.

É assim que a barbárie se normaliza: não porque passamos a concordar com ela, mas porque nos acostumamos à sua presença.

A repetição produz um efeito perverso. Continuamos dizendo que achamos tudo horrível, mas reagimos cada vez menos. O horror permanece; quem muda somos nós.

Talvez por isso tanta gente assista a uma cena de extrema violência e, poucos segundos depois, deslize o dedo para assistir a um vídeo de humor. Não por crueldade deliberada, mas porque fomos treinados a consumir emoções em série, sem tempo para elaborá-las.

Uma sociedade que vê diariamente crianças espancadas, idosos abandonados, mulheres assassinadas, professores agredidos e pessoas executadas diante de câmeras corre um risco silencioso: perder a capacidade de distinguir o extraordinário do cotidiano.

E esse talvez seja o triunfo mais perverso da violência.

Ela não vence apenas quando machuca uma vítima.

Vence quando deixa de nos surpreender.

No dia em que uma menina de três anos agredida pelo próprio pai se tornar apenas "mais uma notícia", a derrota não será apenas daquela criança.

Será de todos nós.

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