Uma ironia difícil de ignorar quando Shakira volta a emprestar sua voz à FIFA.
A mesma cantora que construiu parte de sua imagem pública como defensora da autonomia feminina, da independência das mulheres e da superação de relacionamentos abusivos, torna-se novamente a trilha sonora oficial de uma das instituições mais associadas às contradições do capitalismo global.
Não se trata de questionar o talento de Shakira. Poucos artistas conseguiram atravessar tantas décadas permanecendo relevantes. Tampouco se trata de negar suas contribuições para causas sociais. A questão é outra: até que ponto o feminismo pode ser transformado em produto de marketing sem perder sua capacidade crítica?
A FIFA não é apenas uma organização esportiva. É uma máquina bilionária que movimenta interesses políticos, econômicos e comerciais em escala planetária. Ao longo de sua história recente, acumulou denúncias de corrupção, favorecimento político, exploração de trabalhadores em grandes obras e submissão dos interesses esportivos aos interesses comerciais.
Quando uma artista que se apresenta como voz do empoderamento feminino associa sua imagem a essa engrenagem, surge uma pergunta inevitável: empoderamento para quem?
O feminismo que desafia estruturas de poder deveria, em tese, questionar sistemas que transformam pessoas em ferramentas descartáveis para gerar lucro. Entretanto, boa parte do feminismo pop contemporâneo parece ter substituído a crítica estrutural pela celebração do sucesso individual. O importante já não é mudar o sistema, mas alcançar o topo dele.
Nesse modelo, uma mulher pode tornar-se símbolo feminista enquanto participa das mesmas estruturas econômicas que produzem desigualdades. O discurso passa a ser: não importa que o navio continue afundando, desde que haja mais mulheres na cabine de comando.
A trajetória recente de Shakira ilustra essa contradição.
Após transformar sua separação em um poderoso discurso de autonomia pessoal, a cantora consolidou-se como símbolo de resistência feminina. Porém, ao associar sua imagem novamente à FIFA, acaba ajudando a legitimar uma instituição cuja lógica pouco dialoga com qualquer projeto genuinamente emancipador.
Talvez a contradição não seja exclusivamente dela. Talvez seja a contradição de toda uma época.
Vivemos o momento histórico em que a rebeldia virou marca registrada, a contestação virou estratégia de marketing e a crítica ao poder tornou-se um segmento lucrativo da indústria do entretenimento. O mercado descobriu que vender discursos de transformação pode ser tão rentável quanto vender perfumes, refrigerantes ou direitos de transmissão esportiva.
Nesse contexto, o feminismo corre o risco de ser reduzido a uma estética. Uma camiseta. Um slogan. Uma campanha publicitária. Uma música-tema de um evento bilionário.
Shakira não criou essa lógica. Mas participa dela.
E talvez seja justamente essa a crítica mais incômoda: não a de que uma artista seja hipócrita, mas a de que o capitalismo contemporâneo se tornou tão eficiente que consegue transformar até mesmo discursos de resistência em combustível para sua própria máquina.
Quando isso acontece, o problema deixa de ser a cantora que canta na abertura do espetáculo. O problema passa a ser o espetáculo em si.
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