sexta-feira, 29 de maio de 2026

Uberização empreendedora: a domesticação do trabalhador brasileiro

O camarada fez 40 anos, era concursado da BR Distribuidora com salário de 18 mil.

Quando a empresa foi privatizada em 2019, tomou um pé na bunda, pegou o dinheiro da indenização e começou a vender bolo com a esposa. Veio a pandemia, teve que parar de vender bolo e usou o dinheiro para sobreviver.

Hoje, com 46, está desempregado, faz bico como Uber e já enviou currículo até para trabalhar como porteiro, pra ganhar um salário mínimo, pois sua idade também virou um empecilho no mercado de trabalho.

Quando uma estatal é privatizada, essa realidade acaba sendo comum. Nós, da geração Y, filhos do Consenso de Washington, crescemos ouvindo em TVs e rádios que o serviço público não presta.

E isso é não apenas verdade, como também proposital. O sucateamento de estatais sempre foi um projeto político do país, sobretudo a partir dos anos 1990, em que os acordos econômicos Brasil-Estados Unidos com o Banco Mundial visavam desestatizações em massa em troca da transferência de riquezas ao setor privado, dependência do capital estrangeiro e a consequente precarização da mão de obra, tudo para atender a financeirização e a desregulamentação total da economia através da captura do Estado.

O resultado disso, na prática, é um grande volume de mão de obra barata. O papel do Estado é atuar nos projetos do Congresso que garantam a flexibilização das leis trabalhistas e austeridade fiscal. O primeiro é a garantia de maior lucro aos setores empresariais e, o segundo, reduz propositalmente investimentos nas estatais, visando seu sucateamento como justificativa para as privatizações.

Isso significa maior concentração de renda nas mãos de poucas pessoas, que é o principal fator da pobreza e, consequentemente, um estimulador da violência urbana.

Dados de 2024 da Oxfam apontam que 1% da população brasileira concentra quase 70% de toda a riqueza do país. São bilionários.

Bilionários não mantêm suas riquezas trabalhando, mas vivem do rentismo, da não tributação de suas fortunas, das grandes remessas de dólares a paraísos fiscais, das aquisições e fusões empresariais e da especulação no mercado que conseguem fazendo lobby na Bolsa e com o Estado. E também, não por menos, do grande volume de mão de obra barata em seus conglomerados.

Para que isso tudo passe “despercebido” pelo povo, é necessário convencimento de massas. E para haver convencimento de massas é preciso muita publicidade e muita domesticação, que vêm através de meios de comunicação, no trabalho e até em igrejas. O pobre é aculturado a demonizar a ideia de ser empregado e romantizar o objetivo de se tornar “seu próprio patrão”.

Programas de TV como “Pequenas Empresas, Grandes Negócios”, “O Aprendiz” e outros realities do mundo corporativo sempre moldaram na figura do executivo o fetiche das camadas mais populares em corporificar a ascensão de classe, a tão desejada mobilidade social.

No imaginário popular, a ideia de que a riqueza vem pelo trabalho tem a ver com a fantasia calvinista de que o acúmulo de capital é uma resposta positiva de Deus pelo esforço individual. A pobreza, nesse caso, não é mais vista como fruto de uma ampla desigualdade social, mas culpa do próprio indivíduo que não se esforçou o suficiente para sair daquela condição.

Quando um engenheiro com doutorado reclama do seu baixo salário de 4 mil reais mensais e o empregador o demite dizendo: “Não quer? Tem quem queira”, o pobre despolitizado, que não tem a menor ideia de sua estratificação social, entra em defesa do empregador como resultado de sua própria domesticação, reforçando no senso comum a noção de que a precarização da mão de obra nas relações de produção é um resultado individual, fruto da “escolha” de quem “não quer trabalhar”, isentando o empregador e, por consequência, o sistema econômico em que ambos estão inseridos.

Um engenheiro com doutorado, concursado da Petrobrás até a década passada, ganhava um salário inicial de aproximadamente 15 mil mensais. Nada mais justo, pois o profissional passou pelo menos 10 anos em uma universidade se qualificando para isso.

Em uma empresa privatizada, seu salário cai pela metade e seus benefícios são cortados. Isso garante maiores dividendos aos acionistas majoritários.

Mas por que não há uma mobilização de trabalhadores para reivindicar melhores condições? Porque o senso comum foi forjado para fazer o empregado dar razão irrestrita ao empregador. Porque o senso comum ridicularizou a luta por direitos e domesticou o trabalhador a demonizar o serviço público. Porque a igreja convenceu a massa trabalhadora de que ser workaholic é o caminho para a riqueza, elevando o excesso de trabalho e o lucro a uma dimensão sagrada. A ética calvinista como mola propulsora do Burnout...

O alto índice de pejotização da classe trabalhadora – pra cortar custos ao empresário – significa maior informalidade no mercado e prejuízo não apenas ao empregado, que deixa de ter seus direitos trabalhistas, mas também ao próprio Estado, que deixa de arrecadar impostos. É uma transferência de renda do Estado para o setor privado.

Quanto mais “empreendedores” e pejotas home office, mais dinheiro aos empregadores. O Estado aumenta o lucro de empresários e, o trabalhador despolitizado, mergulha na fantasia do “patrão de si mesmo” enquanto trabalha por mais tempo e empobrece ainda mais.

Nessa distopia pós-neoliberal, a uberização dos empregos foi o que restou à classe trabalhadora. O Consenso de Washington produziu no Brasil funcionários públicos a favor das privatizações, classe trabalhadora defendendo a própria precarização e, concurseiros, torcendo pelo enxugamento do Estado.

O neoliberalismo trouxe uma racionalidade irracional ao senso comum, a desregulamentação irrestrita de mercado e a regulação mercadológica da desumanidade.

O que vem depois do absurdo? 
É possível não privatizar a última trombeta do Apocalipse?

TEXTO DE:
Bruno Freixo

quinta-feira, 28 de maio de 2026

André Fernandes "se raspa" de raiva do trabalhador

A degradação do debate público brasileiro não acontece apenas nos grandes escândalos institucionais.

Ela também se revela nos personagens que ascendem politicamente não pela elaboração intelectual, pela capacidade administrativa ou pelo compromisso republicano, mas pelo espetáculo grotesco da vulgaridade convertida em capital eleitoral.

O caso do deputado André Fernandes (alcunhado Raspa Cu) é quase um resumo em caricatura do bolsonarismo enquanto fenômeno político-cultural.

Trata-se de um parlamentar que ganhou notoriedade nas redes sociais ensinando a depilar o próprio ânus na internet (sim, este é o nível da tragédia nacional), e que posteriormente converteu a estética do constrangimento em plataforma eleitoral.

Não estamos diante de um acidente de percurso. Estamos diante de um método.

É quase poético, no pior sentido possível: o sujeito sai do tutorial de "raspa cu" para a Câmara dos Deputados sem precisar atravessar o deserto do pensamento.

Entre um vídeo grotesco e outro, constrói-se uma carreira baseada não na elevação do debate público, mas na degradação deliberada dele.

E então chegamos ao episódio envolvendo a deputada Erika Hilton durante o debate sobre a escala 6x1.

Em vez de apresentar argumentos sólidos sobre relações trabalhistas, produtividade ou impacto econômico da jornada exaustiva imposta a milhões de brasileiros, o parlamentar recorre ao velho método bolsonarista: o insulto, a provocação pueril e a tentativa permanente de humilhar o adversário diante das câmeras. Chegou a chamar trabalhadores que se encontravam nas dependências da Câmara de vagabundos.

Perceba a lógica da coisa: quando falta densidade intelectual, sobra performance agressiva. O bolsonarismo produziu uma geração de políticos cuja principal habilidade não é legislar, mas viralizar.

O Parlamento vira cenário de TikTok; a tribuna se converte em ringue de quinta categoria; e a política passa a funcionar como reality show de ressentimento moral.

No caso de Erika Hilton, há um componente ainda mais grave. Mulher trans, negra e oriunda das periferias, ela simboliza exatamente tudo aquilo que a bolsonarismo aprendeu a transformar em alvo preferencial: diversidade, ascensão social de minorias e ocupação de espaços historicamente monopolizados por homens brancos conservadores.

Não basta discordar dela. É preciso tentar desumanizá-la publicamente para alimentar a militância do ódio.

E aqui reside uma das marcas mais tóxicas do bolsonarismo: a destruição sistemática da ideia de adversário legítimo.

Na democracia, divergências são naturais; no autoritarismo cultural bolsonarista, o outro precisa ser ridicularizado, esmagado e tratado como inimigo moral da nação. O argumento perde importância; o que importa é a humilhação performática.

Tudo isso ocorre enquanto milhões de trabalhadores brasileiros enfrentam jornadas brutais na escala 6x1, vivendo para trabalhar em vez de trabalhar para viver. Mas discutir seriamente as condições materiais da população exigiria estudo, responsabilidade e capacidade de formulação, atributos pouco compatíveis com quem ascendeu politicamente ensinando procedimentos íntimos de depilação do cu, nas redes sociais.

Há algo de simbolicamente devastador nisso tudo: um bolsonarismo que se apresenta como defensora da “moral” e dos “bons costumes”, mas que ajudou a transformar a política brasileira em uma mistura de algoritmo, grosseria e espetáculo degradante.

O resultado é um Parlamento cada vez mais parecido com um feed de rede social tóxica: muito barulho, pouca inteligência e nenhuma grandeza republicana.

A democracia não morre apenas quando tanques ocupam as ruas. Ela também apodrece quando o grotesco vira virtude política e quando figuras que deveriam honrar a representação popular preferem atuar como influenciadores de baixíssimo nível travestidos de estadistas.

No fim, o deputado qhe se elegeu por "raspar o cu", teve de asssumir a "cara de cu" ao ae ver derrotado na votação da escala 6x1.

Agora, sigamos ao Senado, outra cloaca do sistema.

Boa sorte aos tranalhadores.

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Resposta a Luciano Huck


Marcha Sem Jesus

A Marcha para Jesus no Rio de Janeiro escancarou uma cena velha da política brasileira: a fé no palco, o voto no bolso e o pastor no microfone fazendo o serviço que o candidato, prudentemente, preferiu não fazer.

Flávio Bolsonaro faltou.

Malafaia compensou no gogó. A ausência do candidato não despolitizou o evento; apenas mostrou que, quando a engrenagem já está montada, o ungido nem precisa aparecer. Basta deixar o sacerdote da campanha falar em nome do céu.

O problema não é religioso participar da política. Isso é democracia. O problema é transformar púlpito em comitê, fiel em eleitor cativo, Bíblia em santinho, culto em comício e divergência política em pecado.

A operação é conhecida. Primeiro, politiza-se a religião: o pastor organiza medos, ressentimentos e lealdades eleitorais como se estivesse apenas defendendo valores espirituais. Depois, religiosiza-se a política: o adversário vira inimigo de Deus; a eleição vira batalha espiritual; investigação vira perseguição; derrota vira fraude; Constituição vira obstáculo à profecia.

A , que poderia elevar a vida pública, vira instrumento de captura. A política, que deveria discutir governo, economia, saúde, educação, corrupção e instituições, desfila fantasiada de cruzada moral.

O político precisa do pastor para falar com milhões. O pastor precisa do político para ampliar poder, acesso, proteção e influência. É bênção por palanque, voto por acesso, moralidade pública por poder privado.

O resultado é ruim para a democracia e péssimo para a religião. A política empobrece. A se apequena. O cidadão vira rebanho. O pastor vira cabo eleitoral com microfone sagrado. O candidato vira ungido de ocasião.

E Deus, que deveria ser grande demais para caber em partido, acaba sequestrado por gente pequena o bastante para achar que o céu tem diretório eleitoral.

https://www.facebook.com/arandunoticias

TEXTO DE:

Julio Benchimol Pinto

domingo, 24 de maio de 2026

Virgínia na Globo


Todo veículo; seja no digital ou TV aberta, necessitam produzir conteúdos que atraiam públicos e consequentemente audiências na qual são ferramentas de argumentação para trazer anunciantes. E quando traz público e anunciantes, o veículo fecha a conta e a possibilidade de se sustentar financeiramente se torna gradativa.

Grupo Globo historicamente por si só demorou em muito enfatizar a parte digital, usava a plataforma do Globoplay como um mero reprodutor de seus conteúdos porém nos últimos anos ela tem sido explorada melhor. Mas ainda não caiu nas graças do público, principalmente entre os 20-30 anos, muito atuante nas redes sociais.

Virgínia Fonseca atualmente possui mais de 50 milhões de seguidores somente no Instagram, fora as outras plataformas. Atualmente é um ativo extremamente valioso, gera valor na publicidade e agrega em vendas.

Globo enxergou valor em trazer a Virgínia para a cobertura da Copa do Mundo. Não enxergo que ela será uma repórter como muitos jornalistas estão afirmando, vejo que ela será uma produtora de conteúdo, principalmente para trazer um público que desconhece a Globo num todo no âmbito digital.

O foco será em aumentar a audiência, principalmente em relação a seus grandes concorrentes no streaming. A Globo quer fidelizar um público altamente potencial e de real consumo. Decisão mercadológica, somente. 

TEXTO DE:
Thiago Muniz

sábado, 23 de maio de 2026

Moro exposto à luz mesmo sob a sombra

A Operação Lava Jato começou como investigação de lavagem de dinheiro num posto de gasolina em Curitiba e terminou quebrando empresas e colocando a economia brasileira num beco sem saída.

No centro do processo estava um juiz federal de primeira instância, sem mandato popular nem cargo executivo, com jurisdição sobre contratos da Petrobras e com talento para tramoias, coações e descumprimento do devido processo legal.

A corrupção que investigava precedia Moro por décadas. O que ele construiu foi o modo de apresentá-la e de usá-la em proveito próprio.

O jogo jogado com o MP, as conduções coercitivas filmadas pela Polícia Federal, conversas telefônicas vazadas às redações na véspera de decisões críticas — o calendário de prisões tinha uma sensibilidade e seletivismo para momentos eleitorais que nenhum critério processual explicava. Era uma narrativa, com protagonista definido e roteiro chapado.

A prisão de Luiz Inácio Lula da Silva, em abril de 2018, foi o capítulo que organizou retrospectivamente todos os anteriores. Condenado em segunda instância por um colegiado que Moro havia preparado, Lula foi para Curitiba com o campo eleitoral ainda aberto e saiu de lá inelegível.

O que se seguiu dispensava comentário. Sem o candidato que liderava todas as pesquisas, a eleição de outubro produziu Jair Bolsonaro.

O voto, para Moro, era desnecessário. Ele havia preparado o terreno, e o convite viria.

O convite veio em novembro, quando o presidente eleito anunciou o nome do juiz para o Ministério da Justiça.

Moro aceitou. A sequência era tão direta que qualquer leitura sofisticada seria um excesso e tautologia.

O magistrado que havia condenado o principal adversário eleitoral do presidente eleito tornava-se ministro de Bolsonaro. A toga foi pendurada, e com ela a ficção de que tudo havia sido apenas direito penal aplicado com rigor.

A saída do ministério, em abril de 2020, chegou acompanhada de uma acusação grave e específica: interferência política na Polícia Federal e uso do aparato de segurança para fins pessoais. Moro apresentou a ruptura como ato de consciência. O clássico: rato pulando do barco.

O problema é que as acusações, se verdadeiras, descreviam um governo que ele havia ingressado de olhos abertos. A candidatura presidencial própria não decolou. Migrou para o Senado pelo Paraná e foi reabsorvido, sem cerimônia, pelo campo que nunca havia de fato deixado. Atua como ajudante de ordens do bolsonarismo. O resultado foram oito anos de senador medíocre e, como sempre, inescrupuloso.

Hoje compõe o palanque de Flávio Bolsonaro, o herdeiro medíocre de um pai golpista, candidato que não existiria sem os destroços que Moro ajudou a produzir. A toga foi desacreditada pelo Supremo Tribunal Federal. As condenações foram anuladas. Lula voltou ao Planalto e briga cotidianamente com essa lógica destruidora e suas próprias contradições.

Moro sobreviveu assim, uma paródia de si mesmo, maltratando a língua portuguesa e colecionando situações constrangedoras, enfileirado atrás do filho do golpista que ajudou a fabricar, num país que ainda paga a conta.

TEXTO DE:

Ricardo Queiroz Pinheiro

Voz do que Clama no Deserto, não se cale

Quero expressar minha profunda solidariedade ao nosso querido Dom Limacêdo Antônio da Silva, bispo da Diocese de Afogados da Ingazeira, no Sertão de Pernambuco, que vem sofrendo ataques e ameaças por defender aquilo que é justo e profundamente evangélico: a dignidade do trabalhador e o direito do povo ao descanso, à convivência familiar e à vida humana acima do lucro.

Dom Limacêdo nos recorda, com coragem profética, que “a Palavra de Deus vem combater as injustiças” e que a Igreja não pode se omitir diante do sofrimento do povo.

O verdadeiro profeta não é aquele que se cala para agradar os poderosos, mas aquele que ergue sua voz em defesa dos pobres, dos cansados e dos explorados.

Foi assim com os profetas bíblicos. Foi assim com Jesus Cristo.

Em uma sociedade marcada pela exploração do trabalho, pela exaustão física e mental e pela retirada de direitos, defender a redução da jornada de trabalho e lutar pelo fim da escala 6x1 não é ideologia: é compromisso com a dignidade humana.

É defender que trabalhadores tenham mais tempo para suas famílias, para o descanso, para a saúde, para a oração e para a própria vida.

Jesus nunca esteve ao lado dos que exploravam o povo. O Evangelho não combina com jornadas desumanas, com trabalhadores adoecidos e com a naturalização da exploração.

Quando a Igreja se coloca ao lado do povo sofredor, ela está sendo fiel à missão de Cristo. Por isso, Dom Limacêdo nos representa.

Sua voz ecoa o clamor de milhares de trabalhadores e trabalhadoras que vivem sufocados por um sistema que valoriza mais o lucro do que a vida humana.

Que sua coragem profética continue inspirando todos aqueles que acreditam numa sociedade mais justa, fraterna e verdadeiramente cristã.

Toda nossa solidariedade e oração a Dom Limacêdo Antônio da Silva. Que Deus o fortaleça na missão profética de anunciar a justiça e denunciar tudo aquilo que fere a dignidade do povo.

TEXTO DE:
Roni Hernandes