terça-feira, 21 de abril de 2026

Inimigos do Povo

Em 1989, Boni passou glicerina em Collor pra simular suor e o candidato forjar uma imagem que “dialogasse com o povão”, pois viu que Lula era um fenômeno popular e fazia isso com naturalidade. A Globo interveio nas eleições pra tirar a vitória do então presidenciável novato Lula

Em 1994, os editoriais deixam claro a preferência por FHC, assim como em 98, pois Lula era tido como “sindicalista doidão”.

Em 2002, os maiores players de comunicação do país tentaram o último suspiro com Serra, mas viram a força popular de Lula, que foi pressionado pela Faria Lima até o último momento e obrigado a colocar um empresário como vice em sua chapa.

Ainda em seu primeiro mandato, Lula viu a bancada evangélica crescer, parlamentares levando grana e chantageando o governo como tática pra aprovar os projetos sociais administrados em sua gestão.

Muitos quadros fisiológicos do Partido dos Trabalhadores, filiados ao partido apenas pra comporem quociente eleitoral, acabaram se debandando para o lado do centrão, inclusive ministros nomeados pela chapa com o antigo PMDB.

Os escândalos que eram abafados pela imprensa durante todo governo FHC e suas privatarias escusas foram amplificados nos governos Lula a partir do então deputado Roberto Jefferson, um conhecido personagem remanescente da ditadura, amigo dos deputados evangélicos envolvidos na Máfia das Ambulâncias, e que tinha rixa com o empresário Marcos Valério, chamando pejorativamente de “mensalão” o que sempre foi visto antes como “emendas parlamentares”, oportunamente ignorado por Jefferson desde o governo militar. 

O objetivo era criar um rótulo forte que enfraquecesse o governo federal, e tudo com a chancela dos principais grupos de comunicação do país, que abriam espaços em suas grades de programação para mostrar o lado cantor de Roberto Jefferson, humanizando e suavizando a imagem do deputado, e pegando carona em suas denúncias como uma forma legítima de fritar o governo recorrendo a respaldos jurídicos, pois o “mensalão” era fato consumado - inclusive beneficiando o próprio Roberto Jefferson, que foi condenado pelo STF, posteriormente, por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, tendo recebido dinheiro em espécie da banda podre do PT, que migrou em massa, nos anos 2000, para diversos partidos do centrão.

Mesmo assim, em 2010, Lula sai com aprovação popular recorde, na casa dos 80%, diante do sucesso de suas políticas sociais que transformaram o país nos anos 2000, tiraram o Brasil do mapa da fome, inseriram a classe média no perfil do consumo e garantiram pleno emprego à população.

Os grandes empresários e os principais veículos de comunicação do país nunca admitiram a continuação de um governo petista, a ponto de darem força na esquematização de um golpe parlamentar que viria a tirar Dilma da presidência.

Nunca foi pedalada, mas sim uma “enfrentada” que Dilma tentou emplacar contra o forte Congresso de Eduardo Cunha, sem sucesso. 

A demonização final do PT ficou a cargo de figuras ressentidas do PSDB, que viram em Sérgio Moro e Deltan Dallagnol o lawfare necessário a criar um espantalho demoníaco da figura de Lula, como se ele fosse o grande operador de toda corrupção política que sempre existiu no país, mas que, oportunamente, era abafada pelos veículos de comunicação hegemônicos em governos neoliberais pretéritos.

Dito isso, a verdade nua e crua é que a imprensa foi contra o fim da escravidão lá atrás, no final do século XIX, assim como, já no século XX, foi contra a criação do salário mínimo, contra a criação do 13o salário e hoje se põe contra o fim da escala 6x1.

Qualquer governo popular que se atreva a criar políticas sociais que se oponham aos interesses dos grandes latifúndios e dos setores financeiros, sempre será demonizado pelas famílias da comunicação do país, que se beneficiam de suas parcerias.

Para emplacar uma terceira via, até Caiado, um grileiro de direita que relativiza crimes da época da ditadura, vira opção contra a “polarização”…

Lula é maior que tudo isso.

Se Flávio Bolsonaro vencê-lo esse ano, a maior derrota será nossa, e não de Lula.

A não ser que você seja acionista na Unilever, seja da família Marinho ou dono da Coca-Cola.

Ou também um evangélico médio, que em geral é ignorante e não tem culpa de sua condição hipossuficiente.

Mas se você for um funcionário público, um empregado CLT, dono de um mercadinho de bairro ou de uma oficina, ou tenha ações de baixo investimento na Bolsa e um BYD financiado na garagem, a derrota de Lula é a sua derrota, ainda que você se veja como um futuro entrevistado do Pequenas Empresas, Grandes Negócios por fabricar um abridor de sachê de maionese e fature 10 mil por mês com isso.

TEXTO DE:
Bruno Freixo

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Oscar 14

Eu cresci na Itália assistindo ao jogos do Oscar Schmidt, e ele se tornou um ídolo meu. Era um jogador excelente. Conversei com ele em Londres. Tive a chance de falar um pouco com ele. Eu realmente gostava de vê-lo jogar quando eu era criança.
(Kobe Bryant)

Oscar Schmidt, o "Mão Santa", nos deixou aos 68 anos e deixa um legado eterno para o esporte brasileiro.

Nascido em Natal, ele se tornou o maior pontuador da história do basquete mundial: foram quase 50 mil pontos ao longo de 25 temporadas.

Participou de cinco Olimpíadas e ainda ostenta o recorde de maior cestinha da história dos Jogos. No Pan de 1987, liderou o Brasil na histórica vitória sobre os Estados Unidos, na casa deles.

Oscar mostrou ao mundo que o Brasil vai além do futebol. Um ídolo que ensinou gerações a amar o basquete e a acreditar no impossível.

Oscar construiu uma das carreiras mais impressionantes do basquete mundial. Ídolo da seleção brasileira, participou de cinco Olimpíadas e liderou o Brasil na histórica conquista do ouro nos Jogos Pan-Americanos de 1987, em uma vitória marcante sobre os Estados Unidos.

Ao longo de sua carreira, somou impressionantes 49.973 pontos e também se tornou o maior cestinha da história das Olimpíadas, com 1.093 pontos.

Pela Seleção Brasileira, conquistou o ouro no Pan-Americano de 1987 e foi três vezes campeão sul-americano, em 1977, 1983 e 1985.

Por clubes, construiu uma trajetória igualmente vitoriosa, com três títulos brasileiros, um título sul-americano de clubes campeões, um título mundial, seis conquistas do Campeonato Paulista e dois títulos do Campeonato Carioca.

Mesmo escolhido no draft da NBA, Oscar optou por não jogar na liga americana para seguir defendendo a seleção brasileira, decisão que ajudou a consolidar sua imagem como símbolo do esporte no país. Ao longo da carreira, acumulou recordes, prêmios e entrou para os halls da fama do basquete mundial, incluindo o Basketball Hall of Fame, nos Estados Unidos.

TEXTO DE:
Thiago Muniz


segunda-feira, 13 de abril de 2026

Papa Trump

A essa altura, já não se trata mais de excentricidade política — é método, é vício e, talvez, algo mais preocupante.

A insistência de Donald Trump em se colocar como protagonista absoluto de qualquer cena, seja doméstica ou global, atravessou a fronteira do cálculo político e entrou no território da compulsão.

Não basta disputar narrativas: é preciso monopolizá-las. Não basta ser relevante: é preciso ser indispensável. E, ao que tudo indica, nem mesmo figuras de autoridade moral universal escapam dessa lógica.

A recente investida contra o Papa Leão XIV — acompanhada de publicações em sua própria rede social — escancara algo que vai além da retórica agressiva habitual.

Ao compartilhar uma imagem em que se associa, ainda que simbolicamente, a Jesus Cristo, Trump não apenas tensiona os limites do bom senso: ele desafia diretamente o senso de realidade.

Não se trata mais de hipérbole política; trata-se de um deslocamento perigoso entre o que é metáfora e o que é autoimagem.

Esse comportamento não surge no vácuo. 

Desde os tempos de campanha, Trump construiu sua persona pública como uma espécie de messias político — alguém que não apenas lidera, mas salva.

O problema é que, quando a política passa a operar sob esse registro quase religioso, o debate racional dá lugar à devoção, e a crítica passa a ser tratada como heresia.

O dado novo, porém, talvez seja o mais revelador: vozes dentro do próprio campo conservador começam a expressar desconforto. Aliados históricos, ainda que cautelosos, já deixam escapar avaliações sobre um possível declínio cognitivo, sugerindo que a insistência em comportamentos erráticos pode não ser apenas estratégia — mas sintoma.

A palavra “senilidade”, até pouco tempo restrita aos adversários mais duros, começa a circular também entre aqueles que, até ontem, preferiam o silêncio constrangido.

É evidente que diagnósticos médicos não podem — nem devem — ser feitos a distância, muito menos instrumentalizados politicamente. Mas a política, por sua própria natureza, exige algum grau de previsibilidade, de autocontenção e de aderência mínima à realidade. Quando essas balizas começam a ruir, o problema deixa de ser apenas eleitoral e passa a ser institucional.

A questão central, portanto, não é mais se Trump exagera — isso sempre foi parte do pacote. A questão é se ainda há, por trás do espetáculo, algum compromisso com os limites que sustentam a própria ideia de liderança.

Porque quando um líder passa a se ver não como representante, mas como encarnação de uma causa — ou pior, de uma figura sagrada — o risco não é apenas o ridículo. É a erosão silenciosa do próprio conceito de realidade compartilhada.

E, sem realidade compartilhada, não há política. Apenas culto.

domingo, 12 de abril de 2026

Tristirinhas do Thiago Muniz

1) Que onda é essa de autoafirmação do cantor Latino? Que dancinha tosca e com a harmonização facial idêntico ao Diabo do Auto da Compadecida, fez o próprio Diabo se manifestar. Old School não lhe fez bem, síndrome de Peter Pan.

2) A pessoa com o nome Flávio, divulgado na mídia herdeira brasileira, possui o sobrenome Bolsonaro, portanto ele se chama Flávio Bolsonaro. Só pra que fique bem claro.

3) Ronaldo Caiado é o padre Kelmon do Agropop. Será o bobo da corte fascista entre a democracia versus golpismo.

4) Sionismo prega o Racismo. A imprensa golpista ocidental é servil aos seus patrões, que são judeus; simplesmente é isso.

5) E vagabundo tá lá: “Será que Carlo Ancelotti vai convocar o Neymar? E o Neymar não consegue andar em linha reta…

6) Já que Trump não conseguiu dominar o estreito de Ormuz (Salaam Aleikum!), sugiro a reabertura dos Arquivos Epstein.

sábado, 11 de abril de 2026

Caso Alemão: quando a fiscalização repete endereço

Na geografia caprichosa das manchetes, algumas histórias parecem maiores do que são, e outras que, sendo pequenas no papel, ganham o peso de um símbolo.

A nova prisão do empresário Edson Alemão, a segunda em menos de seis meses em Campo Grande, pertence a essa segunda categoria: deixou de ser apenas um caso policial para se transformar em narrativa urbana, dessas que circulam em padarias, grupos de WhatsApp e mesas de bar.

Porque, convenhamos, o fato bruto já não caminha sozinho. Ele vem acompanhado de uma pergunta incômoda, repetida com variações: por que sempre ele?

Ou, ampliando o foco, por que operações desse porte parecem mirar com lupa negócios específicos, enquanto gigantes do setor seguem suas rotinas sem sobressaltos equivalentes?

Não se trata aqui de absolver previamente ninguém — essa é tarefa da Justiça, com seus ritos e provas. Mas o sentimento difuso de seletividade é, por si só, um fenômeno digno de nota.

Quando a população passa a desconfiar não apenas do investigado, mas também da intensidade e da direção da fiscalização, o problema deixa de ser individual e passa a ser institucional.

Campo Grande, como tantas cidades fora do eixo mais visível do país, carrega uma peculiaridade: o equilíbrio delicado entre pequenos e médios empresários e as grandes redes nacionais.

É um ecossistema em que a concorrência não é apenas econômica mas é também, simbólica. O comerciante local não disputa só preço; disputa espaço, clientela e, muitas vezes, sobrevivência.

Nesse contexto, operações reiteradas sobre um mesmo alvo acabam alimentando uma narrativa de assimetria. Não importa, necessariamente, se ela é verdadeira ou não, importa que ela encontra terreno fértil.

Afinal, para o cidadão comum, parece desproporcional que estruturas gigantescas, com histórico nacional e volume financeiro incomparável, raramente sejam vistas sob o mesmo tipo de ação ostensiva.

A sensação que fica é a de que o rigor tem endereço conhecido, enquanto a indulgência, ou ao menos a discrição, escolhe seus caminhos com mais cautela.

E sensação, em política e em vida pública, é matéria-prima poderosa. Ela molda reputações, influencia percepções e, não raro, corrói a confiança.

Há também um outro efeito colateral: o risco de transformar a fiscalização, que deveria ser instrumento de equilíbrio, em elemento de desconfiança.

Quando o cidadão passa a enxergar a ação do Estado como potencialmente enviesada, perde-se algo fundamental: a legitimidade.

Nada disso invalida a possibilidade de irregularidades concretas, nem diminui a importância de investigá-las com rigor. Mas a coerência é irmã da credibilidade. Se há critérios, eles precisam ser visíveis; se há regras, precisam parecer universais.

No fim das contas, o caso de Edson Alemão talvez diga menos sobre um homem e mais sobre o ambiente em que ele está inserido. Um ambiente onde, mais do que fatos, disputam espaço as interpretações e onde a linha entre justiça e percepção de injustiça é, muitas vezes, tênue demais.

E quando essa linha começa a borrar, não é apenas um empresário que está em julgamento.

É a própria confiança pública.

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Quando a dor não é levada a sério por causa da cor da pele

Alguns episódios de séries médicas se contentam em entreter. E alguns que incomodam.

O episódio “Se não agora, quando? (2x20), da série The Resident pertence, sem dúvida, à segunda categoria — porque não se limita à ficção. Ele acusa.

A história é simples, e justamente por isso devastadora: uma mulher negra sente dor. Muita dor. Dor suficiente para preocupar qualquer profissional atento. Mas não qualquer profissional distraído — ou pior, condicionado.

Ela fala. Insiste. Reclama. E não é ouvida.

O hospital segue funcionando, protocolos são cumpridos, formulários preenchidos, vozes técnicas ocupam o espaço. Mas o essencial falha: alguém escutar, de fato, o que está sendo dito.

Quando finalmente escutam, já é tarde.

E aqui está o ponto que desmonta qualquer tentativa de conforto: isso não é exceção. Isso é padrão.

Não se trata de um roteiro exagerado.

O episódio ecoa o caso real de Kira Johnson — uma mulher que morreu após uma cesárea, vítima de uma hemorragia ignorada por horas. Seu marido implorou por ajuda. Foi tratado como inconveniente. A medicina, naquele momento, não falhou por falta de conhecimento. Falhou por falta de escuta.

E quando se olha para os dados, a tr

agédia deixa de ser individual e ganha contornos estruturais.

Nos Estados Unidos, mulheres negras têm até quatro vezes mais risco de morrer durante a gravidez ou o parto do que mulheres brancas. Não é um desvio estatístico. É uma constante. E metade dessas mortes poderia ser evitada.

Evitar, nesse contexto, significa algo quase constrangedoramente básico: prestar atenção.

É comum que se tente explicar essa desigualdade apelando para fatores socioeconômicos. É um álibi confortável — e insuficiente. Porque mesmo mulheres negras com alta escolaridade e bom acesso à saúde continuam morrendo mais.

O problema não está apenas na porta de entrada do hospital. Está dentro dele.

Está na consulta apressada.
No sintoma relativizado.
Na dor subestimada.

Há estudos mostrando que pacientes negras são menos ouvidas quando relatam dor. Outros apontam para vieses inconscientes de profissionais de saúde — aqueles julgamentos automáticos que ninguém admite, mas que operam silenciosamente.

Não é o racismo explícito, que se reconhece e se condena. É o outro — o mais perigoso — porque se disfarça de rotina.

O episódio de The Resident acerta ao não transformar seus médicos em vilões caricatos. Eles não são monstros. São piores: são plausíveis.

São profissionais que seguem o fluxo, que confiam demais na própria avaliação, que não percebem quando deixam de enxergar o paciente como indivíduo e passam a tratá-lo como mais um caso.

E é assim que o erro se normaliza.

No fim, o que a série faz é nos obrigar a encarar uma pergunta desconfortável: quantas mortes poderiam ser evitadas se ouvir fosse levado tão a sério quanto diagnosticar?

Porque, no fundo, o que mata ali não é apenas a hemorragia. É a demora. É a dúvida seletiva. É o peso desigual dado à palavra de quem sofre.

E isso não é um problema de roteiro.

É um problema de mundo real.

Quando episódios como esse ocorrem na vida real, o fim não é apenas uma sequência de créditos subindo em uma tela de TV, o fim trágico, é a morte de mais uma mulher que ocorreu por um único motivo: a cor da sua pele.

Para esse tipo de caso, a medicina ainda não encrontrou uma cura.

domingo, 5 de abril de 2026

Duas mortes anunciadas e um país que finge surpresa

O Brasil acordou — mais uma vez — com a notícia que já não deveria surpreender ninguém, mas ainda choca: duas crianças, Sophya e Isaías, de 10 e 6 anos, mortas enquanto brincavam na garagem de casa, em Diadema.

Não estavam atravessando uma rodovia. Não estavam em situação de risco. Estavam brincando de pular corda.

O risco veio até elas — motorizado, alcoolizado e socialmente tolerado.

O motorista, segundo as autoridades, apresentava sinais de embriaguez confirmados por exame.

E aqui está o ponto: não se trata de um acidente. Trata-se de uma escolha. E mais do que isso — trata-se de um sistema que, na prática, permite que essa escolha seja feita todos os dias.

O Brasil gosta de chamar de “fatalidade” aquilo que é, na verdade, previsível.

Porque o país possui leis contra dirigir embriagado. A chamada Lei Seca existe. As campanhas existem. As operações existem.

Mas o que não existe — e isso é evidente — é o peso real da punição e, principalmente, a coerência entre discurso e prática.

A lógica é perversa: de um lado, o Estado adverte; do outro, ele lucra.

O mercado de bebidas alcoólicas movimenta bilhões de reais por ano no Brasil. Gera empregos, patrocina eventos, financia publicidade agressiva e sofisticada. Não vende apenas cerveja, vinho ou destilados — vende estilo de vida, celebração, pertencimento.

Vende a ideia de que beber é quase um ritual social obrigatório.

E aí está a blindagem.

Quando um setor econômico se torna grande demais, ele deixa de ser apenas um mercado, passa a ser um ator político.

E atores políticos não são enfrentados com facilidade. Regulá-los com rigor significa mexer com receitas, com publicidade, com interesses que atravessam o Congresso, governos e meios de comunicação.

O resultado é esse equilíbrio hipócrita: campanhas tímidas contra álcool ao volante convivendo com um bombardeio publicitário que glamouriza o consumo.

É como tentar apagar um incêndio com um copo d’água enquanto se despeja gasolina ao lado.

E, no meio disso, está a leniência penal.

Casos como o de Diadema frequentemente terminam classificados como homicídio culposo — quando não há intenção de matar. A pena, na prática, é reduzida, negociável, muitas vezes convertida. A mensagem que fica não é jurídica — é cultural: beber e dirigir pode até ser ilegal, mas não é tratado como um crime gravíssimo.

E deveria ser.

Porque não há nada de “culposo” na decisão de assumir o volante após beber. O risco é conhecido, amplamente divulgado, repetido à exaustão. Quem dirige embriagado não ignora o perigo — escolhe ignorá-lo.

Sophya e Isaías não morreram por falta de lei. Morreram por excesso de tolerância.

Tolerância institucional, que pune pouco.
Tolerância econômica, que lucra muito.
E tolerância social, que ainda trata o “beber e dirigir” como deslize — nunca como violência.

Enquanto o Brasil não encarar o problema com a seriedade que ele exige — endurecendo penas, restringindo publicidade, tratando o álcool como questão de saúde pública e segurança — novos nomes substituirão Sophya e Isaías nas manchetes.

E, então, mais uma vez, o país vai fingir espanto.

Como se não soubesse.

Como se não tivesse escolhido.