quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Ciça

Se eu for morrer de amor, que seja no samba…

A Viradouro deu “All-in” na escolha do enredo e particularmente eu subestimei essa aposta. E me surpreendi com a plástica e emoção na avenida.

O primeiro enredo vivo a defender o seu quesito: Ciça!

Homenagear uma personalidade em vida já é legal, exercendo o seu ofício então é um xeque mate emocional. E foi.

Da desconfiança ao clamor popular, a Viradouro soube contar uma história de cinquenta anos de trajetória em oitenta minutos.

Ciça não é um enredo diferente, é um enredo acessível, livro aberto, simpático e do povo. Um profissional que sempre procurou fazer algo diferente, nunca se escondeu em zona de conforto e nunca perdeu a sua essência.

Ciça, Viradouro e a história no Estácio produziram um dos momentos de maior glória de todos os tempos dos desfiles de escola de samba no Rio de Janeiro. Ser testemunha disso me enche de luz o coração.

A cereja do bolo com um final de desfile apoteótico, simplesmente a bateria em cima do carro alegórico, paradinha, ritmistas ajoelhados reverenciando o mestre e a Sapucaí em lágrimas de emoção.

O que a agremiação fez hoje não está explícito para todos. Fez história: para quem veio antes, para quem chega agora e para a geração que ainda não nasceu.

Obrigado Caveira! 💀

TEXTO DE:
Thiago Muniz


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Transmissão do Carnaval na Rede Globo: uma merda!

Está mais do que na hora da LIESA começar a pensar com mais carinho na transmissão do Carnaval.

A Rede Globo em favor de seus próprios interesses mercadológicos e editoriais não olha para o produto Carnaval com o devido respeito.

Assim como um jogo de tênis em que usa-se o bom senso de não narrar e/ou comentar nada enquanto o jogo se enrola para não atrapalhar a dinâmica do jogo perante ao público; deve-se usar o bom senso na transmissão do Carnaval.

A emissora não pode ser maior que o evento.

Ela deve ser o complemento para agregar, e não para irritar quem assiste. Sabemos que uma boa parcela que assiste não possui esse senso crítico e pode pensar que seja só uma perseguição ideológica contra a Globo, mas não é.

Quando você tem um dos apresentadores mais carismáticos como o Alex Escobar mais perdido do que cego em tiroteio, um dos comentaristas mais carismáticos como o Milton Cunha com um repertório cultural riquíssimo (mas a emissora não lhe dá o devido espaço), um dos comentaristas musicais mais gabaritados como o Pretinho da Serrinha que só acerta naquilo que fala mas conseguiram errar ao lhe dar a missão de mostrar a bateria ao vivo com uma câmera in loco com sinal fraquíssimo; não podem se dar ao luxo de detonar um produto genuinamente brasileiro.

Quando o áudio da transmissão se sobrepõe o tempo todo com o evento já começa errado.

Não se faz uma cobertura tão necessária na concentração, onde há uma tensão nos bastidores, não mostra mais o aquecimento, para quem não sabe cada agremiação tem o direito de cinco minutos para acalorar os seus componentes diante ao público presente.

Não faz mais a cobertura da dispersão, onde sempre tem também uma tensão final para não se perder pontos por exceder o tempo.

E importaram da Fórmula 1 a questão de mostrar o rádio, o que uma escola de samba se comunica durante o desfile, isso é constrangedor.

Para quem continuar achando que é somente uma implicância, o convido a assistir a transmissão do Rio Carnaval, os vídeos estão todos lá no youtube. Se prioriza a plástica do evento, só há comentários durante os intervalos.

O Carnaval do Rio de Janeiro precisa voltar a ser o protagonista, e não o complemento de uma engrenagem.

Pronto falei!

TEXTO DE:
Thiago Muniz

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

2026: A Era do Delist menos Sku, mais venda

Alguém precisa dizer isso.

Às vezes, a melhor forma de vender mais é tirar produto da prateleira. Não é erro. Não é fraqueza. É estratégia.

Durante anos, vendemos a ideia de que mais opções significam mais vendas.

Mais sabores, fragrâncias.

Mais variações do mesmo produto.

O cérebro humano discorda. A neurociência é clara. O cérebro gosta de limited choice (poucas escolhas) para se sentir seguro. O número mágico? 3 ou 4 opções.

O estudo clássico de Iyengar e Lepper mostrou isso sem piedade: com poucas opções, a conversão dispara, com muitas opções, o consumidor trava.

Isso tem nome: Paradox of Choice (Paradoxo da Escolha).

Mais escolha gera ansiedade.
Ansiedade não fecha compra.

Agora coloca isso no contexto atual. Hoje, 47% dos consumidores são price-driven shoppers (orientados a preço). Eles não estão comparando narrativa de marca. Estão comparando preço.

E aí acontece o que todo mundo já viu no ponto de venda. O cliente para. Olha. Se confunde. E escolhe o mais barato. Ou vai embora.

O problema não é falta de inovação. É excesso de portfólio.

2022–2024: As indústrias tinham o poder. Crise logística. Falta de produto. Tudo vendia. Até SKU confuso. Volume mascarava ineficiência.

2026: O jogo virou. O varejo retomou o controle da prateleira. O sortimento ficou mais racional. O consumidor ficou mais racional ainda.

Quem decide hoje não é a marca mais criativa. É quem entrega clareza, giro e margem.

E isso não é teoria. Já está acontecendo. Indústrias globais de bens de consumo vêm passando por ciclos profundos de racionalização de portfólio, cortando dezenas ou centenas de SKUs para recuperar giro, margem e execução.

Menos itens. Mais foco. Mais resultado.

No varejo alimentar europeu, redes como Lidl e Mercadona cresceram justamente reduzindo escolha, não ampliando. Menos marcas e variações. Mais marca própria forte e confiança do shopper. Na prática, o consumidor não sentiu perda. Sentiu alívio.

No Brasil, o movimento é ainda mais claro. 2026 é o ano da marca própria.

Grandes redes farmacêuticas como Raia e DPSP estão ampliando linhas próprias com sortimento enxuto, preço claro e promessa simples.

No atacarejo, redes como Assaí avançam com marca própria ocupando o espaço que antes era de SKUs redundantes da indústria.

Quando a prateleira aperta, sobra pouco espaço para excesso. E muito espaço para quem resolve rápido a decisão do consumidor. É por isso que grandes indústrias estão fazendo algo que parece radical, mas não é: enxugar para crescer.

Menos itens, menos canibalização.

Mais giro por SKU, mais eficiência logística, mais margem no final do mês.

Delistar não é perder espaço. É recuperar relevância. O varejo já entendeu. O consumidor também. Muitas marcas ainda não.

A pergunta é simples: você quer ocupar mais espaço ou vender mais rápido?

Porque em 2026, cada vez mais, menos SKU é mais venda.

TEXTO DE:
Thiago Muniz

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Adolf Trump ou Donald Hitler?

Donald Trump publicou em uma rede social, uma imagem do Barack Obama, ex-presidente dos Estados Unidos, e a sua esposa, Michelle Obama, em corpos de macacos.

Sim! A Klu Klux Klan está dentro da Casa Branca e com o aval de boa parte da população dos EUA.

Isso não é só uma provocação política, isso é uma ofensa racial explícita.

Olhe o peso histórico que isso carrega.

Comparar pessoas negras a macacos não é uma metáfora infeliz, é um dos símbolos mais antigos, mais violentos, mais cruéis da desumanização racial no mundo. Foi esse imaginário que sustentou a escravidão, o colonialismo, a segregação, a ideia de que certos corpos seriam menos humanos do que outros.

Nos Estados Unidos, essa imagem tem um significado ainda mais cruel. Ela foi usada durante séculos para justificar a escravidão de milhões de africanos, a sistemática perseguição a mulheres negras, a separação das famílias, os linchamentos, as leis de segregação e exclusão social, que foram institucionalizadas nos Estados Unidos até a década de 1960.

Isso é história. Isso é reativar conscientemente um código de violência simbólica que atravessa gerações. Tem uma coisa muito grave aqui, que é o colapso do decoro institucional. Um chefe de estado não pode falar isso, nunca pode falar isso.

Ninguém pode falar isso, ainda mais um chefe de estado. Ele está carregando com ele o peso do cargo que ele está ocupando, da democracia que representa (mas não respeita!) e que ele representa as instituições que ele deveria proteger.

Quando alguém nessa posição normaliza um ataque como esse, a gente está desumanizando pessoas e estamos dizendo que é aceitável.

A política democrática pressupõe discordância, até debate, dureza. Ela não comporta a destruição do outro como ser humano. Quando esse limite é ultrapassado, a gente não está falando mais de direita, de esquerda, de conservador, de progressista. A gente está falando de civilização.

Normalizar um gesto como esse não fortalece ninguém, empobrece o debate público. Esse episódio não pode ser tratado como uma polêmica, ele tem que ser nomeado pelo que ele é, racismo explícito, desprezo institucional e falência ética.

A política imigratória de Trump, uma política xenófoba, racista e que tem atacado os direitos humanos e que tem sido muito prejudicial nos Estados Unidos.

A democracia é isso, uma experiência na qual a ideia de justiça é permanentemente em aberto para que quem vem depois pense se aquilo é justo para ele. O que foi justo para os nossos bisavós não é justo para nós. É preciso que a gente repense tudo isso, e é pela educação que se faz.

Então, é preciso um chamamento aos homens, é preciso, tem que ser constrangedor.

Fazer piada racista, machista, misógena, banalizar corpo, atitude, emancipação feminina, autonomia, é preciso ser constrangedor.

Essas pessoas têm que voltar para o armário dos traumas que eles têm, dos distúrbios que eles venham a ter, do ódio que eles carregam, vão se tratar, vão se tratar.

Não é mais aceitável esse ambiente de violência extrema, o silêncio dos bons. Se temos bons homens, bons pastores, bons líderes religiosos, bons líderes políticos, vambora trabalhar para acabar com esse cenário.

TEXTO DE:
Thiago Muniz



sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Inflacionamento do futebol brasileiro

Há um movimento acontecendo no futebol brasileiro extremamente nocivo: inflação desacerbada de algumas contratações.

E vou exemplificar bem. Primeiro a de Gerson pelo Cruzeiro, depois a do Lucas Paquetá via Flamengo e agora estará sendo concretizada a de John Árias pelo Palmeiras.

Valores estratosféricos e nenhum deles faz jus aos valores empregados. É muito mais uma demonstração de poder perante aos demais clubes do que inteligência, uma aposta em médio e longo prazo.

O debate não é sobre méritos, e sim sobre ganância e poder de compra. E isso sempre existiu e não vai morrer dentro do universo do futebol.

O grande problema é esses clubes forçarem os demais a também tentarem cifras altas por contratações e mais para frente não honrarem com seus compromissos e na cara de pau ocasionarem calotes homéricos.

Valores e salários altos exigem expectativas e cobranças altas.

O Cruzeiro hoje possui o seu “Midas”, o Flamengo com essa atual diretoria ao que parece possui uma ideologia diferente do modelo de gestão anterior mas que mantém uma certa sustentabilidade financeira, e o Palmeiras onde tem uma presidente que acha que possui dinheiro infinito só porque o seu marido é banqueiro e já foram patrocinadores master com poderes.

Isso leva a contratações bem duvidosas, ainda mais pelas cifras inflacionadas. Num médio a longo prazo será extremamente nocivo pois vai mexer com o sentimento passional do torcedor.

Em ano de Copa do Mundo há alguns clubes com poder financeiro abastados, com modelos de gestão diferentes uns dos outros e que literalmente deram “All-in” em seus cofres.

Gerson saiu do Flamengo se sentindo desvalorizado, partiu para o futebol (sancionado) russo onde viu que a realidade era outra e vendo a possibilidade de mais uma Copa do Mundo escapar, seu pai e empresário achou a “galinha dos ovos de ouro” no Cruzeiro

Lucas Paquetá é um caso atípico de inflação. Sem espaço  na Premier League e nas demais ligas da Europa; acha uma espécie de portal da redenção voltando para o futebol brasileiro, no mesmo clube que o revelou, com uma realidade financeira megalomaníaca; bate na mesa e quebra o recorde do futebol brasileiro.

Detalhe: ele não tem repertório técnico para justificar esse valor de contratação. E seleção brasileira no currículo já não é mais parâmetro há décadas. Veremos cenas dos próximos capítulos e se por acaso o PIB de uma ilha homônima ao nome do jogador aumentar consideravelmente depois de algum jogo, desconfie.

O caso do Árias é atípico de como não se planejar e seguir somente um sonho. Tenhas muito cuidado com aquilo que desejas; um jogador com contrato vigente no Fluminense, com um acordo verbal do presidente anterior de que o liberaria após a Copa do Mundo de Clubes, na qual estava bem valorizado; fez valer ao máximo esse acordo verbal e saiu do clube na condição de ídolo máximo para um clube de zero expressão na Premier League na qual ficou meses no ostracismo.

Com a Copa do Mundo batendo na porta e o clube de zero expressão já deixando bem claro que não vai contar com ele na próxima temporada, se vê numa “faca de dois legumes”; a promessa pública de que só voltaria ao futebol brasileiro para o Fluminense e pela proposta altíssima do Palmeiras.

Onde estava o assessor ou empresário do Árias lá no ano passado que não orientou ele a não falar isso publicamente?

Veremos cenas dos próximos capítulos.

TEXTO DE:
Thiago Muniz


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

A matemática da indecência

O Congresso Nacional voltou a provar que não sofre de ignorância econômica, mas de algo bem mais grave: falta de vergonha na cara.

Na tarde de terça-feira (3), Câmara e Senado aprovaram um reajuste salarial para seus servidores cujo impacto chega a R$ 790 milhões. Um valor que supera a arrecadação anual de 95% dos municípios brasileiros. Sim, quase todo o Brasil real cabe dentro do aumento concedido ao Brasil oficial.

Agora, respire fundo e faça o exercício de memória que certos parlamentares preferem evitar.

São os mesmos políticos que, não faz muito tempo, torceram o nariz, fizeram discursos sobre “responsabilidade fiscal” e votaram contra — ou sabotaram — o vale-gás, um benefício modesto destinado a famílias que precisam escolher entre cozinhar ou comer. Para o pobre, o cofre está sempre vazio; para o próprio umbigo, o Tesouro é elástico.

A lógica é cristalina:
– R$ 100 para o gás? “Populismo”, “assistencialismo”, “rombo nas contas públicas”.
– R$ 790 milhões para a elite administrativa do Parlamento? “Valorização do servidor”, “justiça salarial”, “necessidade institucional”.

É uma contabilidade moralmente fraudulenta.

O problema não é a existência de servidores públicos — eles são essenciais.

O problema é o timing, o contexto e, sobretudo, a hipocrisia.

Num país em que municípios fecham postos de saúde por falta de verba, em que prefeitos mal conseguem pagar professores, o Congresso decide que a urgência nacional é reajustar salários no coração do poder.

E note-se: não se trata de ignorância sobre a realidade social. Trata-se de consciência plena. Eles sabem. Sabem que o valor do reajuste pagaria o gás de milhões de famílias por meses. Sabem que o discurso da austeridade só aparece quando o destinatário é pobre. Sabem — e fazem mesmo assim.

Isso não é erro de cálculo. É escolha política.

Quando um Parlamento vota com rapidez para garantir conforto aos seus e demora, trava ou rejeita políticas mínimas de proteção social, ele envia uma mensagem clara: o Estado existe, antes de tudo, para quem manda.

Depois, claro, virão os discursos inflamados sobre “desigualdade”, “sensibilidade social” e “compromisso com o povo”.

Palavras são baratas.

O que custa caro — R$ 790 milhões, por exemplo — é sempre reservado a quem já está sentado à mesa do poder.

O resto que se vire com o botijão vazio.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Beto Simonetti: quando defender a Constituição vira ato de coragem

A obrigação moral de aplaudir quem faz o básico, em 2026, é profundamente reveladora.

Beto Simonetti, presidente da OAB, no primeiro dia da retomada dos trabalhos do Legislativo, limitou-se a dizer o que está escrito — pasmem — na Constituição.

E fez disso um pronunciamento.

Corajoso? Não.

Necessário.

O que diz muito mais sobre o ambiente do que sobre o orador.

Simonetti defendeu o STF e o devido processo legal. Não pediu revolução, não clamou por “ativismo judicial”, não invocou teorias criativas sobre “vontade popular acima da lei”.

Apenas lembrou que democracia não é um reality show institucional em que se elimina o Supremo por voto emocional.

É chato, eu sei. Funciona com regras. E regras, por definição, frustram os ansiosos por atalhos.

O presidente da OAB fez algo que hoje soa quase insolente: reafirmou que o Supremo Tribunal Federal não é um capricho de toga, mas um pilar do arranjo constitucional.

Que decisões judiciais não se combatem com linchamento retórico, mas com recursos — dentro da lei, esse palavrão. E que devido processo legal não é um detalhe burocrático inventado para proteger “os de cima”, mas a última trincheira de qualquer cidadão quando a turba resolve achar culpados antes de provas.

Sim, houve quem torcesse o nariz. Sempre há. Afinal, vivemos tempos em que parte do debate público acredita que garantias constitucionais são privilégios e que juízes devem decidir conforme o humor das redes sociais.

Simonetti foi lá e estragou a festa: lembrou que não há democracia sem instituições, nem instituições sem limites, nem limites sem STF.

A ironia maior é esta: defender o Supremo hoje virou, para alguns, sinônimo de autoritarismo.

Uma ginástica mental admirável.

Segundo essa lógica, autoritário é quem aplica a Constituição; democrático é quem quer rasgá-la em nome de uma abstração chamada “povo”, geralmente definida por quem grita mais alto.

Ao se posicionar, a OAB — por meio de seu presidente — fez aquilo que dela se espera desde 1930: não defender governos, partidos ou humores, mas o Estado de Direito.

Num país em que o óbvio anda desaparecido, isso soa quase como um manifesto.

Convém registrar: não se trata de idolatrar o STF, instituição humana e falível, como qualquer outra. Trata-se de entender que a crítica legítima não prescinde de legalidade, e que o ataque sistemático às Cortes não é “liberdade de expressão”, mas método conhecido de erosão democrática.

Beto Simonetti não salvou a República. Não era esse o ponto. Apenas lembrou onde ela está escrita.

E, convenhamos, num tempo de analfabetismo constitucional militante, isso já é um serviço público dos bons.