quarta-feira, 11 de março de 2026

No a La Guerra! - por Antonio Gonzalez

Com a saúde bagunçada, desequilibrada e dependente de medicações que nem sempre estão à mão, volta e meia me vejo obrigado a cruzar as portas de um pronto-socorro. Nessas idas e vindas, percebo que a morte — a minha — bate cada vez mais forte à porta.

Por enquanto sigo de pé graças ao boxe. Tenho a sorte de treinar com Cristian Nogueira, criador do monstro chamado Carlos Prates. Como dizia Celso Blues Boy, “o ritmo do som era pesado”. E é nesse ritmo que continuo travando minhas próprias guerras: contra a diabetes, o fígado, a próstata — e contra a resignação.

Antes de qualquer coisa, repito algo que já escrevi aqui: não gosto de ditaduras, nem de ditadores, nem de terroristas.

Talvez seja justamente nesses momentos de fragilidade física que a mente se volta para o mundo e pergunta: o que estamos fazendo com ele?

O discurso da geopolítica me leva de volta aos tempos do Colégio Santo Inácio, nos anos 1970, quando preparava trabalhos escolares folheando a Revista Manchete. Ali estavam os retratos de um mundo em conflito.

A Guerra do Vietnã, um dos grandes traumas da Guerra Fria, opunha o Vietnã do Norte (apoiado por URSS e China ao Vietnã do Sul, sustentado militarmente pelos USA. Milhões de mortos depois, o conflito deixou cicatrizes profundas não apenas na Ásia, mas na própria sociedade americana.

Ao mesmo tempo, o Oriente Médio explodia com a prefeita , colocando Israel em confronto direto com países árabes vizinhos sob o comando da primeira-ministra Golda Meir.

Na mesma década, a tragédia cambojana alcançava níveis inimagináveis. Em 1975 o Khmer Vermelho tomou Phnom Penh e instaurou um regime que produziria um dos genocídios mais brutais do século XX.

E havia ainda outras guerras menos lembradas pelo grande público, mas igualmente devastadoras: a independência sangrenta de Angola e Moçambique, a guerra civil etíope, o colapso do Líbano.

Todas elas, de alguma forma, nasceram da mesma matriz histórica: o fim dos impérios coloniais, as tensões da Guerra Fria e as disputas étnicas e territoriais que redesenharam o mapa político do planeta.

Décadas depois, parecia que o mundo caminhava (lentamente) para algum grau de equilíbrio. Mas eis que ressurgem os fantasmas mais sombrios do século XX: extremismo autoritário, xenofobia, racismo, misoginia, homofobia. E, em paralelo, o fundamentalismo religioso.

Trump, Netanyahu, os aiatolás iranianos, Putin, Nayib Bukele, Teodoro Obiang, Paul Biya. Diferentes contextos, diferentes narrativas, mas a mesma lógica brutal: em nome da paz, guerra; em nome da segurança, limpeza étnica.

Enquanto isso, a indústria armamentista prospera como nunca. Bilhões de dólares queimados diariamente em mísseis, drones e tanques — recursos que poderiam alimentar populações inteiras ou erguer hospitais e escolas.

No fim das contas, quem paga a conta são sempre os mesmos: crianças, idosos, civis anônimos. Gente que morre antes do tempo e sem qualquer piedade.

Minha saúde talvez não me permita muito além de escrever estas linhas. Mas ainda tenho o direito de perguntar: onde está a voz moral do mundo?

Onde está a Igreja? Onde está o Papa? Por que tanto silêncio? Se Jesus Cristo voltasse hoje à terra, certamente receberia um míssil na cabeça — made in USA — no Horto das Oliveiras.

No meio desse cenário sombrio surge ao menos uma liderança que não hesita em enfrentar o delírio político de D.Trump: o primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez.

Olé tus huevos!

Em poucos dias tornou-se referência para quem ainda acredita que a política pode ser exercida com dignidade.

E Trump? O mesmo sujeito que espalhou comentários racistas contra Barack Obama e Michelle Obama, insinuando que pareciam macacos, me dá nojo,

Diante disso, sobra apenas indignação.

No mais:
Viva España! Viva Pedro Sánchez!

E sem medo algum de repetir:
NO A LA GUERRA!

TEXTO DE:
Antonio Gonzalez

domingo, 8 de março de 2026

Até quando será normalizado o Feminicídio?

Ó abelha rainha
Faz de mim um instrumento
De teu prazer, sim, e de tua glória…
(Caetano Veloso / Wally Salomão)

Até quando continuaremos a normalizar o feminicídio?

Em pleno século XXI, a cada 6 minutos se mata uma mulher no Brasil.

É isso mesmo! A cada 6 minutos uma mulher morre.

Ela não é agredida ou “somente” assediada, o que já seria uma catástrofe, a cada 6 minutos 1 mulher morre, a cada hora são 10 mulheres, por dia são 240 mulheres.

O feminicídio no Brasil se tornou um genocídio, uma epidemia social. O Brasil não trata as mulheres como cidadãs, as torna como alvo.

E com o advento das redes sociais, deu-se voz a abjetos que bradam pela humilhação pública e vassalo eterno das mulheres; os chamados Red-Pills, fascistas cidadãos de bem e moralizadores hipócritas. Esses seres sim merecem ser aniquilados do mapa social, não quiseram evoluir como pessoas e incentivam com palavras bonitas e alguns usando até a fé para justificar o ódio às mulheres.

Desde que o mundo é mundo as mulheres são peça fundamental para o crescimento da humanidade.

Personagens como Dandara dos Palmares, Maria Quitéria, Tereza de Benguela, Maria Felipe, Nísia Floresta, Bertha Lutz, Princesa Isabel, Chiquinha Gonzaga, Cora Coralina, Cecília Meirelles, Tarsila do Amaral, Nise da Silveira, Carolina Maria de Jesus, Dona Ivone Lara, Enedina Alves Marques, Maria da Penha, Irmã Dulce, Bendita da Silva, Zilda Arns entre tantas outras destacam-se pela coragem, pioneirismo e impacto social.

Não devemos subestimar a força das mulheres. NÃO É NÃO! Mais amor e empatia com elas. 

TEXTO DE:
Thiago Muniz


quarta-feira, 4 de março de 2026

O Blefe Estadunidense

Os EUA blefou ao apostar na morte do líder supremo do Irã e achavam que ia ficar por isso mesmo, só que não.

Essa guerra não é do interesse dos Estados Unidos. O Trump mesmo foi avisado pelos militares de que essa era uma guerra que não tinha um sucesso garantido e que seria uma má ideia, basicamente, entrar nessa aventura. Para os Estados Unidos, essa é uma guerra de escolha.

O Irã respondeu muito mais do que eles imaginaram e simplesmente deu um xeque estratégico de âmbito global.

Enquanto que para o Irã, certamente, ela é uma guerra de sobrevivência, ela foi imposta a eles, ela é uma guerra necessária nesse sentido.

Israel vive essa guerra como uma guerra de interesse vital. Israel percebe no Irã a grande ameaça à sua hegemonia na região, à sua própria sobrevida.

As operações militares israelenses-estadunidenses contra o Irã foram conduzidas fora do direito internacional, o que não é certo.

Dito isso, a História nunca chora pelos executores. Como é que os israelenses conseguem sempre fazer com que os americanos embarquem nas suas aventuras é um mistério, porque, em parte, pode ser quase suicida em termos de carreira do Trump.

Para colocar o escândalo Epstein para debaixo do tapete, Trump decidiu bombardear Teerã e matar Khemenei com o argumento de levar liberdade ao povo iraniano. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos se autoproclamam defensores da “democracia” e da “liberdade”. Mas a história escrita em bombas, corpos e ruínas conta outra versão.

Tudo em nome da “segurança”, do “combate ao terrorismo” ou da “proteção de interesses estratégicos”. De forma geral, os países bombardeados ou invadidos pelos Estados Unidos não ficaram mais estáveis, mais democráticos ou mais seguros.

O padrão que se repete no pós-ataque é outro — marcado por caos social, crise econômica, violência prolongada e dependência externa.

A guerra virou política externa. A destruição, um método. O lucro da indústria bélica, uma prioridade.

Enquanto isso, civis pagam o preço mais alto: crianças, mulheres, povos inteiros reduzidos a estatísticas convenientes. Não é sobre liberdade. Nunca foi.

É sobre poder, controle geopolítico e dominação econômica. E enquanto algumas vidas forem consideradas descartáveis, a paz seguirá sendo apenas um slogan vazio.

TEXTO DE:
Thiago Muniz


terça-feira, 3 de março de 2026

Por que Trump atacou o Irã, e por que agora?

A decisão não foi exatamente inesperada.

Nas semanas ao longo dos últimos dias, foi alertado que esse cenário era bastante provável, mas ainda assim levanta questionamentos sobre o momento escolhido, já que não havia um ataque iraniano iminente.

Pelo contrário, avaliações recentes da inteligência americana indicavam que o país estava militarmente enfraquecido após os bombardeios americanos em 2025, que danificaram as instalações iranianas.

Ainda assim, Trump lançou uma ofensiva ampla ao lado de Israel, conclamando os iranianos a derrubarem o regime.

Diferentemente de ataques pontuais no passado, desta vez trata-se de uma campanha aberta com risco real de escalada.

O próprio Trump admitiu que pode haver baixas americanas, linguagem típica de guerra declarada, mas sem autorização formal do Congresso.

A comparação com a invasão do Iraque em 2003 é inevitável.

Trata-se do que chamamos em inglês de “War of Choice”, uma guerra escolhida, não de autodefesa.

Em 2003, Washington pelo menos tentou obter em vão respaldo do Conselho de Segurança da ONU, algo que não fez agora.

Trata-se, portanto, de mais uma clara violação da soberania de um outro país e do direito nacional.

Um argumento central de Washington gira em torno da ameaça nuclear. No entanto, não há evidências de que o Irã tenha retomado o programa ativo de armas atômicas.

Autoridades americanas chegaram a dizer (1:39) que Teerã não está enriquecendo urânio neste momento. Outras justificativas evocadas pela Casa Branca incluem a repressão brutal a protestos internos no Irã, que deixou milhares de mortos, o apoio iraniano a milícias na região e décadas de confrontos indiretos com os Estados Unidos, da crise dos reféns de 1979 a ataques contra forças americanas no Oriente Médio.

Mas, no fundo, Trump parece apostar que um regime enfraquecido pode ruir sob ataque dos Estados Unidos e revolta interna.

Mas derrubar um governo de 90 milhões de pessoas apenas com poder aéreo é um risco enorme e a história mostra que guerras escolhidas raramente seguem o roteiro planejado.

Por fim, vale destacar que o Irã possui grandes reservas de petróleo. Dos cinco países com as maiores reservas comprovadas de petróleo, Venezuela, Arábia Saudita, Irã, Canadá e Iraque.

Arábia Saudita é o único país que os Estados Unidos não invadiram, bombardearam ou ameaçaram anexar ao longo das últimas décadas.

TEXTO DE:
Thiago Muniz




domingo, 1 de março de 2026

Terceira Guerra Mundial já é realidade

Eu trago más notícias para vocês.

Meu amigo Tarciso (Língua Preta), diz que a gente já está em uma Terceira Guerra Mundial, e que ela não vai ser como as guerras do século 20.

Porque o sistema internacional que organizava os conflitos, baseado em tratados, convenções e no chamado direito internacional, claramente está sendo tensionado. Ninguém está respeitando mais nada como antes.

O que a gente está vendo é uma escalada simultânea de conflitos regionais, sanções econômicas, embargos e envolvimento indireto ou direto de grandes potências.

Só que existe uma diferença importante: hoje as guerras também são econômicas, tecnológicas, financeiras e informacionais. Não é só tanque e míssil. São sanções, bloqueios comerciais, disputa por semicondutores, controle de rotas energéticas e guerra monetária.

E o mundo já não confia nas grandes potências como antes.

Isso não é opinião isolada. Existe um debate real sobre o processo de perda relativa de hegemonia dos Estados Unidos, principalmente no campo econômico e geopolítico, com o avanço de outros polos como China e o fortalecimento de blocos como o BRICS.

Um exemplo concreto é o comportamento dos ativos de segurança. Historicamente, em momentos de crise global, investidores corriam para o dólar e títulos do Tesouro americano. Isso ainda acontece, mas também houve aumento significativo na demanda por ouro por bancos centrais e investidores institucionais como forma de diversificação e proteção contra instabilidade geopolítica e monetária.

Sobre o dólar, ele oscila conforme vários fatores: juros nos Estados Unidos, fluxo de capital global, política monetária e cenário fiscal.

A queda recente frente ao real tem relação com diferencial de juros, fluxo de investimentos e percepção de risco.

Muito graças a Deus que Lula, Alckmin e Haddad são grandes estrategistas, estrategistas econômicos, porque estão segurando a onda aqui. E todo mundo sabe disso, inclusive quem é contra eles.

Agora, uma coisa é fato: uma guerra em larga escala entre potências nucleares não é boa para ninguém. O conceito central da era nuclear é o da dissuasão, a chamada destruição mutuamente assegurada.

Ou seja, não existe vencedor real em um conflito nuclear. Existe colapso econômico global, ruptura de cadeias produtivas, crise energética, alimentar e financeira.

Então sim, o mundo está em uma fase de escalada de tensões sistêmicas. Não necessariamente uma guerra mundial formal como em 1914 ou 1939, com declaração oficial e frentes definidas. Mas uma fase de confrontação simultânea em múltiplos domínios: militar, econômico, tecnológico e monetário.

E, no fim, a frase da Dilma continua sendo uma das mais tecnicamente precisas sobre guerra:

Não acho que quem ganhar ou quem perder, nem quem ganhar nem quem perder, vai ganhar ou perder. Todo mundo vai perder.

TEXTO DE:
Cora Descorada

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

A importância das Artes Marciais na minha vida

 

Eu sou um apaixonado por artes marciais, eu fui uma criança forjada pelo fascínio do mundo das lutas; seja em torneios ou em filmes.

Um dos meus fascínios foi o antigo Ultimate Fighting Championship, atual UFC, lá nos meandros do ano de 1993.

Lá eu tive o primeiro contato com o Jiu Jitsu, onde eu assisti numa fita alugada de uma locadora do meu bairro (locadora é a avó do streaming) um lutador de 80kg como Royce Gracie vencer lutadores bem mais pesados do que ele usando golpes e alavancas onde simplesmente anulava o oponente; essa é a essência do jiu jitsu moderno oriundo do pioneirismo de Carlos Gracie e sua família.

Pois bem, eu iniciei no jiu jitsu através do filho de Carlos Gracie, o lendário mestre, o poderoso Carlson Gracie a quem tenho muito orgulho de não só ter conhecido mas ter sido treinado pelo próprio, tendo chegado a faixa preta através dos ensinamentos dele. 

O Jiu Jitsu para mim foi um dos pilares para que eu siga até hoje os ritos como disciplina e respeito ao próximo, pois a vida não é só nos limites do tatame, você conduz pelo mundo afora.

As artes marciais deveriam ser elemento obrigatório para que toda criança pudesse entender o quão importante é a figura do professor, o quão importante é defender a palavra honra, o quão importante é aprender no dia a dia a sabedoria.


TEXTO DE:

Thiago Muniz

Melancólico Fim de Ganso e Neymar

Houve um tempo em que a bola parecia obedecer a eles por gratidão. Não por imposição física, não por velocidade, não por choque — mas por talento. A bola ia porque queria ir.

Quando Paulo Henrique Ganso surgiu no Santos Futebol Clube, ao lado de um menino magro de cabelo moicano, falava-se em uma nova linhagem do futebol brasileiro.

Era a pausa contra o cronômetro, o passe que desmontava defesas como quem abre uma carta antiga. Ganso não corria: pensava. E pensar, naquele momento, parecia suficiente.

Do outro lado, estava Neymar, o mais improvável dos improváveis. Dribles que não pediam licença, gols que pareciam vídeos editados.

O mundo se curvou cedo demais. Barcelona, Paris, cifras astronômicas, campanhas publicitárias, e a promessa de finalmente devolver ao Brasil um protagonismo em Copa do Mundo.

O tempo passou. E o futebol, impiedoso, não espera quem joga em câmera lenta, nem perdoa quem vive em ritmo de trailer.

Ganso reencontrou dignidade no Fluminense Football Club. Foi campeão, foi útil, foi cerebral como sempre. Mas nunca foi ídolo incontestável.

Faltou-lhe a epopeia. Faltou-lhe o momento que transforma respeito em devoção. Sua carreira virou uma coleção de lampejos tardios, como se o auge tivesse ficado preso numa promessa de 2010.

Neymar voltou ao Santos cercado de nostalgia, quase como quem tenta reencontrar a própria adolescência.

Mas o futebol não é máquina do tempo. As lesões, as interrupções, o excesso de expectativa — tudo foi pesando.

Na Seleção Brasileira de Futebol, os números são grandes, os recordes são discutíveis, mas a ausência de uma Copa erguida é um silêncio que ecoa mais alto que qualquer estatística.

Não se trata de fracasso. Seria injusto.

Ambos foram gigantes técnicos. Ambos encantaram. Ambos ganharam muito dinheiro, muitos títulos, muitos aplausos.

Mas há uma diferença sutil entre ser talentoso e ser símbolo.

O futebol brasileiro, órfão de heróis absolutos desde gerações anteriores, depositou neles algo que talvez fosse grande demais: a esperança de um retorno ao romantismo, à genialidade que decide Copas, ao camisa 10 que carrega o país nas costas.

Hoje, ao vê-los em campo, o sentimento não é raiva. É melancolia.

É perceber que duas das maiores promessas da nossa geração estão se aproximando do fim da linha sem terem conquistado aquilo que parecia inevitável: a consagração indiscutível.

Ganso será lembrado como o maestro que o tempo atropelou.

Neymar, como o craque que teve o mundo aos pés, mas nunca o mundo nas mãos.

E talvez doa justamente por isso: porque por alguns anos acreditamos que eles seriam eternos.