sexta-feira, 1 de maio de 2026
Ana Paula Renaut, do Brasil
PL da absolvição criminosa
quinta-feira, 30 de abril de 2026
A imprensa e o gozo autoritário
Quando parte da imprensa deixa de cumprir seu papel clássico — o de mediadora crítica entre poder e sociedade — para assumir, ainda que de forma disfarçada, a posição de agente político interessado no resultado do jogo, cria-se um problema que não pode ser ignorado.
O que se vê em determinados setores do jornalismo brasileiro recente não é apenas uma cobertura enviesada, mas uma espécie de torcida editorial que escolheu lado — e nem sempre o lado mais comprometido com a democracia.
A complacência com o bolsonarismo não começou agora, nem foi episódica. Desde a ascensão de Jair Bolsonaro, parte da imprensa flertou com a ideia de que seria possível instrumentalizar um projeto autoritário em nome de agendas econômicas ou de conveniências conjunturais.
O resultado está aí: normalizou-se o absurdo, relativizou-se o ataque institucional e, pior, criou-se um ambiente onde o Supremo Tribunal Federal passou a ser tratado como inimigo político, e não como pilar da ordem constitucional.
Nesse contexto, a atuação de figuras como Davi Alcolumbre ganha contornos particularmente preocupantes.
Ao articular movimentos que fragilizam o STF — seja por meio de pressões políticas, seja ao pavimentar o terreno para pedidos de impeachment de ministros — Alcolumbre não atua apenas dentro do jogo institucional: ele tensiona os próprios limites da democracia. E o faz com o aplauso tácito de setores da imprensa que, ao invés de denunciar o risco, preferem celebrar o desgaste do Judiciário como se fosse um triunfo político legítimo.
O apoio à rejeição de indicações ao STF, como no caso de Jorge Messias, e a comemoração pela derrubada de vetos presidenciais — mesmo quando esses vetos dizem respeito a critérios técnicos como a dosimetria penal — revelam menos um compromisso com o interesse público e mais uma obsessão narrativa: a necessidade de carimbar manchetes com “derrota do governo” ou, mais especificamente, “derrota de Lula”.
A imprensa tem orgasmos com esses acontecimentos, sem lembrar que no governo anterior, era agredida nas ruas e perseguida pelo governo de turno.
Em termos mais xulos, a imprensa brasileira parece curtir um governo mais dominatrix. Nossa imprensa é sadomasoquista por opção.
E aqui está o ponto central: quando o jornalismo passa a medir a realidade exclusivamente pelo impacto político imediato — quem venceu, quem perdeu — ele abandona qualquer pretensão de analisar consequências concretas para a população. Pouco importa se a decisão enfraquece instituições, desorganiza políticas públicas ou amplia inseguranças jurídicas. O que interessa é o placar.
Essa lógica transforma a política em espetáculo e a imprensa em narradora de campeonato.
Mas democracia não é campeonato.
Quando o STF é sistematicamente deslegitimado, abre-se espaço para aventuras autoritárias.
Quando o Legislativo é estimulado a confrontar o Judiciário em bases oportunistas, cria-se uma instabilidade que não atinge apenas governos — atinge direitos.
Ao celebrar derrotas do Executivo sem examinar o conteúdo dessas derrotas, parte da imprensa incorre numa inversão perigosa: passa a tratar como vitória aquilo que pode, na prática, representar prejuízo direto ao cidadão. É o triunfo da narrativa sobre a realidade.
O mais irônico — e trágico — é que esse comportamento repete erros recentes. A mesma imprensa que hoje vibra com o enfraquecimento de um governo eleito já subestimou, no passado próximo, os riscos de alimentar forças que depois se voltaram contra ela própria. A história não apenas rima — ela insiste em dar segundas chances que parecem ser desperdiçadas com uma certa teimosia.
No fim, a pergunta que fica é simples e incômoda: quando a imprensa comemora derrotas políticas sem medir seus efeitos sociais, ela ainda está informando — ou apenas torcendo?
quarta-feira, 29 de abril de 2026
Sopro de Fé, alimento de brasa, que faz reacender o coração
![]() |
| (por Antonio Gonzalez) |
Somos o Futuro fracassado de um Passado sonhador
O Brasil gosta de cultivar mitos sobre si mesmo. Um dos mais persistentes é o de que a democracia, uma vez conquistada, se torna uma espécie de cláusula pétrea da alma nacional — algo imune a retrocessos, blindado contra tentações autoritárias. Não é. Nunca foi.
A ascensão do bolsonarismo, com sua retórica de confronto, seu flerte explícito com a ditadura militar e sua disposição de tensionar instituições, não brotou do nada, como um raio em céu azul. Trata-se menos de uma ruptura e mais de uma revelação. Revelação de fragilidades antigas, mal resolvidas, convenientemente ignoradas por aqueles que apostaram que o tempo, por si só, faria o serviço da maturação democrática.
Não fez.
Os chamados campos democráticos — expressão ampla, por vezes vaga, mas útil — erraram feio ao confundir estabilidade institucional com adesão social à democracia. Uma Constituição avançada não garante, por si, cidadãos comprometidos com seus valores. O papel aceita tudo; a realidade, não.
Quando a política institucional se viu capturada por escândalos sucessivos de corrupção, quando a violência urbana passou a ditar a rotina de milhões, quando o Estado se mostrou ineficiente para entregar serviços básicos com qualidade, abriu-se uma avenida. E avenida larga. Nesse espaço, a democracia deixou de ser percebida como solução e passou a ser vista, por muitos, como parte do problema.
Convenhamos: terreno ideal para aventureiros — ou para quem se apresenta como antídoto contra tudo isso.
Há, também, uma omissão histórica que cobra seu preço. O Brasil fez uma transição negociada da ditadura para a democracia. Ganhou-se em estabilidade, perdeu-se em profundidade. Não houve um enfrentamento coletivo, contundente, das violações do regime militar. Sem esse acerto de contas, a memória se torna maleável. E memória maleável, em política, costuma ser sinônimo de perigo.
Daí a facilidade com que slogans autoritários são reciclados como se fossem soluções legítimas, não regressões.
O ambiente digital deu uma contribuição nada desprezível a esse cenário. As redes sociais pulverizaram o debate público, reduziram a complexidade a palavras de ordem e transformaram a indignação em combustível político de alta octanagem. A mediação institucional — aquela que exige tempo, argumento, contraditório — perdeu espaço para a lógica do grito e da simplificação.
Some-se a isso o comportamento, no mínimo, errático de parcelas das elites. Em momentos decisivos, setores que deveriam funcionar como fiadores do jogo democrático preferiram brincar com fogo. Flertaram com o autoritarismo, relativizaram excessos, apostaram que poderiam domesticar forças que, por definição, não aceitam domesticação. O resultado está aí.
E não adianta dourar a pílula: isso configura, sim, uma derrota dos campos democráticos. Não apenas porque perderam eleições em determinado momento, mas porque falharam em algo mais básico — convencer amplas parcelas da população de que a democracia vale a pena, de que ela entrega, de que ela protege.
Democracia não vive de abstrações. Vive de resultados e de sentido.
Quando esses dois elementos faltam, o discurso da ordem — ainda que autoritário, ainda que tosco — ganha apelo. Especialmente em uma sociedade cansada, desigual e impaciente.
O título desta coluna não é mero recurso retórico. Somos, em alguma medida, o futuro fracassado de um passado que acreditou ter resolvido suas contradições sem enfrentá-las de fato. Um país que preferiu a conciliação à pedagogia, o arranjo à transformação.
A boa notícia, se é que cabe uma, reside no fato de que democracias não são peças acabadas. Podem ser corroídas, é verdade, mas também podem ser reconstruídas. Para isso, no entanto, será preciso mais do que slogans edificantes ou indignação seletiva.
Será preciso fazer o que não foi feito: disputar valores, enfrentar a realidade e, sobretudo, tratar a democracia não como herança garantida, mas como tarefa permanente.






