domingo, 22 de março de 2026
A F1 como produto oculto da Rede Globo
quarta-feira, 18 de março de 2026
Entre a Barbárie e a Normalização, a violência contra a mulher persiste
O feminicídio no Brasil não é um fenômeno isolado, tampouco um desvio ocasional da norma: ele é, antes, um sintoma persistente de uma estrutura social que naturaliza a violência de gênero, a misoginia e a desumanização de corpos femininos — especialmente quando atravessados por outras vulnerabilidades, como raça, classe e identidade de gênero.
Os números já seriam, por si só, suficientes para provocar comoção nacional. Mas o problema se agrava quando observamos não apenas os crimes, e sim o ambiente simbólico que os cerca, um terreno fértil onde discursos de ódio, relativizações e até celebrações da violência encontram eco.
Nos últimos anos, assistimos a episódios que, se analisados em conjunto, revelam algo mais profundo do que simples coincidência.
A violência política direcionada à deputada Erika Hilton, frequentemente alvo de ataques transfóbicos e misóginos por grupos identificados com o bolsonarismo, expõe como a linguagem pode funcionar como antecâmara da agressão física.
Quando uma figura pública é sistematicamente deslegitimada em sua humanidade, abre-se espaço para que a violência contra ela — ou contra quem ela representa — seja vista como aceitável, ou ao menos tolerável.
Esse mesmo mecanismo de normalização aparece de forma ainda mais perturbadora quando agentes do Estado, cuja função deveria ser a proteção da vida, demonstram solidariedade a colegas acusados de crimes brutais.
O caso recente de um policial suspeito de assassinar a própria esposa — também policial — e que recebeu manifestações de apoio de outros membros da corporação, revela uma cultura institucional que, em vez de repudiar a violência, por vezes a encobre ou a minimiza. Trata-se de um sinal alarmante de como o corporativismo pode se sobrepor à justiça, especialmente quando a vítima é uma mulher.
A memória coletiva também parece falhar — ou ser seletiva — quando figuras condenadas por crimes hediondos conseguem retomar suas vidas públicas com relativa facilidade.
O retorno do goleiro Bruno ao futebol, após cumprir pena pelo assassinato de Eliza Samudio, é um exemplo emblemático.
Não se trata aqui de discutir o sistema penal ou a possibilidade de reintegração social, mas de questionar o tipo de mensagem que se transmite quando um crime de tamanha gravidade é, na prática, absorvido pelo espetáculo esportivo sem maiores constrangimentos.
E há ainda o papel da mídia e de seus protagonistas.
Quando um apresentador de televisão como Ratinho recorre reiteradamente a falas agressivas contra minorias, ele não apenas expressa uma opinião individual, mas contribui para a construção de um ambiente discursivo onde a intolerância é legitimada.
A televisão, especialmente em um país de dimensões continentais como o Brasil, não é apenas entretenimento — é também formação de imaginário.
O ponto comum entre todos esses episódios é a banalização da violência.
Não apenas a violência física, mas a simbólica, a verbal, a institucional. É a ideia de que certas vidas valem menos, de que certos corpos são descartáveis, de que certas dores não merecem luto coletivo.
Combater o feminicídio, portanto, exige mais do que políticas públicas — embora estas sejam absolutamente essenciais.
Exige uma transformação cultural profunda, que passe pela educação, pela responsabilização de agentes públicos, pela revisão de discursos midiáticos e pela recusa ativa à normalização do ódio.
Enquanto a sociedade brasileira não encarar esse problema em sua totalidade — como um sistema, e não como casos isolados — continuaremos a contar vítimas, a escrever colunas indignadas e, tragicamente, a nos acostumar com o inaceitável.
domingo, 15 de março de 2026
Debate sobre educação não sai do lugar
O debate sobre educação no Brasil anda prisioneiro de uma péssima caricatura.
O Bolsonarismo (essa praga que engoliu nossa Direita Democrática), insiste na tese de que as escolas foram tomadas por militantes marxistas empenhados em transformar adolescentes em revolucionários de recreio.
Do outro lado, setores da Esquerda respondem com discursos sobre a centralidade da educação para o desenvolvimento nacional. Enquanto isso, o sistema educacional segue funcionando quase como sempre funcionou.
E a Direita?
Essa ainda discute se conseguirá ou não sobreviver sem precisar se esconder debaixo do Bolsonarismo e seus bilhões de votos, já que a Direita mesmo possui pouquíssimos.
No meio dessa disputa retórica estão os alunos. E os números.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística indicam que o Brasil ainda tem cerca de 9 milhões de analfabetos entre pessoas com mais de 15 anos. Trata-se de um contingente equivalente à população inteira de vários países europeus.
A distribuição desse problema também revela muito sobre o país.
Entre brasileiros com 60 anos ou mais, a taxa de analfabetismo ultrapassa 14%. E mais da metade dos analfabetos vive no Nordeste — um retrato bastante fiel das desigualdades regionais que atravessam a história brasileira.
O povo nordestino não é analfabeto, mas é empurrado para condições de analfabesitmo, por causa das desigualdades, característica nacional.
Essa condição não existe por causa de "professores comunistas" ou por causa de um "projeto conspiratório de dominação do Lula". Essa alta taxa de analfabetismo está ligada também a evasão escolar incentivada pelas desigualdades sócio-econômicas, além de muitos outros fatores.
Os dados da alfabetização infantil também não são exatamente animadores. Avaliações recentes mostram que apenas cerca de 59% das crianças do segundo ano do ensino fundamental estão plenamente alfabetizadas.
Em termos práticos, quase metade chega ao terceiro ano sem dominar leitura e escrita de maneira satisfatória.
Agora observe o paradoxo.
Um país em que milhões de pessoas ainda enfrentam dificuldades básicas de alfabetização mantém o debate público concentrado em guerras culturais, muitas vezes importadas das redes sociais e adaptadas ao contexto brasileiro com uma boa dose de exagero.
De um lado, grita-se “doutrinação”.
Do outro, responde-se com denúncias genéricas de “neoliberalismo”.
O problema real continua praticamente intocado.
Outro ponto raramente discutido com a serenidade necessária é o crescimento da influência de fundações privadas e organizações ligadas ao mercado financeiro na formulação de políticas educacionais.
Essas instituições participam da construção de currículos, avaliações e programas de gestão. O tema merece debate sério, não slogans.
A pergunta é simples: qual deve ser o limite da influência de atores privados na definição dos rumos da educação pública?
Também aqui as posições políticas costumam ser mais retóricas do que práticas.
Governos de Direita frequentemente falam em disciplina, eficiência e combate à ideologia, mas raramente apresentam um modelo pedagógico capaz de substituir o sistema existente.
Esse discurso se limitou a alimentar o bolsonarismo, mas na prática não trouxe nenbuma solução para a educação.
Um exemplo dessa desgraça toda, são as escolas "cívico-militares", com "professores policiais" escrevendo descançar e continêcia, no quadro, enquanto ensinam flexões de braço como currículo educacional.
Governos de Esquerda ampliaram o acesso à educação, criaram universidades e programas de inclusão (avanços reais, sem dúvida), mas tampouco promoveram uma transformação estrutural do modelo educacional brasileiro.
O resultado é um curioso consenso silencioso: todos afirmam que educação é prioridade nacional, desde que isso não implique mudanças profundas nas engrenagens do sistema.
Assim o país segue convivendo com três fenômenos simultâneos:
- um debate ideológico cada vez mais barulhento,
- um modelo educacional envelhecido,
- milhões de brasileiros tentando aprender o básico em condições desiguais.
Talvez o gesto mais revolucionário no Brasil contemporâneo fosse justamente o mais simples: discutir educação com menos slogans e mais realidade.
Talvez o debate público sobre educação devesse dar mais ouvidos aos envolvidos no processo, como professores, educadores, pais e alunos, do que políticos semi-analfabetos profissionais em retórica barata.
TEXTO DE:
Tarciso Tertuliano









