Assim funciona o debate econômico brasileiro: determinados especialistas demonstram uma capacidade extraordinária de enxergar os números positivos da Argentina de Javier Milei, mas parecem desenvolver uma espécie de miopia quando o assunto são as consequências sociais do ajuste.
A inflação cai? Um sucesso histórico! O governo alcança superávit fiscal? Uma demonstração de responsabilidade!
Empresas desaparecem, o emprego formal encolhe e a pobreza volta a crescer? Nesse momento, surgem as explicações sobre sacrifícios necessários, heranças malditas e benefícios que, quem sabe, chegarão algum dia.
A pergunta é inevitável: desde quando a economia passou a ser avaliada exclusivamente pela saúde das contas públicas, como se a população fosse um detalhe inconveniente na apresentação de resultados?
Os dados argentinos merecem ser examinados sem maquiagem. Segundo levantamento baseado em registros da Superintendência de Riscos do Trabalho, o número de empregadores registrados caiu de 512.357, em novembro de 2023, para 480.067, em julho de 2026: uma redução de 32.290 registros, equivalente a 6,3%. Isso não significa necessariamente que todas essas empresas tenham encerrado definitivamente suas atividades, mas revela uma retração expressiva do universo de empregadores formais. No mesmo período, o mercado de trabalho privado também perdeu postos de trabalho. E, segundo a Reuters, a pobreza argentina subiu de 28,2% para 32,3% no primeiro semestre de 2026.
São números que deveriam provocar perguntas incômodas. Quantos trabalhadores perderam sua fonte de renda? Quantos pequenos comerciantes precisaram fechar as portas? Quantas famílias passaram a depender de crédito ou de ajuda alheia para pagar despesas básicas?
Aparentemente, algumas dessas perguntas incomodam menos do que a possibilidade de um governo ideologicamente admirado apresentar dificuldades.
É preciso reconhecer que Milei assumiu uma Argentina marcada por inflação crônica, instabilidade monetária e graves desequilíbrios fiscais. A redução da inflação e a recuperação do equilíbrio das contas públicas são resultados relevantes. Negá-los seria trocar a análise econômica por torcida política. Mas reconhecer avanços específicos não obriga ninguém a declarar bem-sucedido um projeto inteiro, muito menos a ignorar seus custos sociais.
O problema começa quando a estabilização deixa de ser um instrumento para melhorar a vida das pessoas e passa a ser apresentada como uma finalidade suficiente. Como se o superávit fiscal pudesse pagar sozinho o aluguel de quem perdeu o emprego. Como se a confiança dos investidores substituísse o salário que deixou de entrar em casa. Como se a redução das despesas governamentais fosse automaticamente convertida em prosperidade para todos.
Não é assim que funciona.
Uma economia não pode ser considerada plenamente saudável apenas porque suas contas melhoraram, se uma parcela crescente da população enfrenta dificuldades para sobreviver.
A comparação que ignora o tamanho do Brasil
A defesa do modelo argentino ganha contornos ainda mais problemáticos quando determinados comentaristas tentam transformar o país vizinho em uma receita pronta para o Brasil.
Segundo dados do Banco Mundial para 2025, o Brasil tinha aproximadamente 212,8 milhões de habitantes, enquanto a Argentina possuía 45,9 milhões. O PIB brasileiro, medido em dólares correntes, era de cerca de US$ 2,28 trilhões, diante de US$ 683 bilhões da economia argentina. São diferenças de escala que não podem ser varridas para debaixo do tapete.
O Brasil possui uma estrutura produtiva de dimensão continental, com agricultura diversificada, mineração, indústria, serviços, um mercado consumidor muito maior e profundas diferenças regionais. A Argentina tem suas próprias vantagens produtivas, uma estrutura exportadora específica e uma trajetória monetária e fiscal particular. Os dois países compartilham problemas, mas não são economias intercambiáveis.
Copiar medidas sem considerar essas diferenças é como prescrever o mesmo tratamento para pacientes com históricos, organismos e condições clínicas distintos. A semelhança de alguns sintomas não elimina a necessidade de diagnóstico.
Isso não significa que o Brasil deva ignorar a experiência argentina. Significa que precisa examiná-la com seriedade, identificando quais políticas produziram resultados, quais custos provocaram e quais condições permitiram ou limitaram seus efeitos.
Comparar países exige mais do que selecionar o indicador que favorece a tese defendida. É preciso considerar o ponto de partida, a estrutura produtiva, o tamanho do mercado interno, o emprego, a distribuição de renda e os efeitos sobre os diferentes grupos sociais.
Quando a ideologia escolhe os números
Há, nesse debate, uma questão que ultrapassa a Argentina: a possibilidade de que convicções ideológicas determinem quais dados recebem destaque e quais são tratados como inconvenientes.
Isso não autoriza afirmar que todos os economistas favoráveis a Milei sejam desonestos ou que suas avaliações se resumam à simpatia política. Existem argumentos econômicos legítimos em defesa da disciplina fiscal, da desregulamentação e do controle inflacionário. O problema está na seletividade: quando resultados favoráveis são apresentados como provas definitivas, mas os resultados negativos são sempre adiados para um futuro indefinido.
Se a pobreza aumenta, seria preciso perguntar por quê. Se empresas desaparecem dos registros, seria necessário investigar os setores atingidos. Se o emprego formal recua, convém verificar se o crescimento de outras atividades compensa essas perdas. E, sobretudo, se o sacrifício presente é justificado por uma promessa de prosperidade futura, cabe exigir evidências de que essa prosperidade está efetivamente se materializando.
Uma teoria econômica não pode ser tratada como uma religião cujos dogmas sobrevivem a qualquer resultado. Se os fatos contrariam as expectativas, são as hipóteses que precisam ser revistas, não a realidade que deve ser convenientemente descartada.
O mesmo rigor deve valer para governos de qualquer orientação política. Um economista que critica o aumento dos gastos públicos precisa examinar seus efeitos, mas também deve reconhecer o custo social de cortes abruptos. Quem defende o equilíbrio fiscal deve explicar como ele será alcançado e quem suportará seus efeitos. E quem celebra o crescimento precisa demonstrar se ele gera empregos, eleva rendimentos e melhora as condições de vida.
A economia não é uma competição para ver qual governante consegue produzir a planilha mais atraente. É uma ferramenta para compreender como os recursos são produzidos, distribuídos e utilizados em uma sociedade.
No fim, o problema não é elogiar Milei quando os indicadores justificam elogios. É transformar esse elogio em compromisso ideológico, tornando qualquer dado negativo uma inconveniência secundária.
Se a inflação cai, mas a pobreza volta a subir; se as contas públicas melhoram, mas empresas e empregos desaparecem, não basta comemorar os primeiros números e relativizar os segundos. É necessário explicar o conjunto.
Afinal, de que serve uma economia teoricamente saneada se o cidadão comum continua esperando pela recuperação prometida?
Uma planilha equilibrada pode ser um instrumento importante de governo. Mas não é um atestado automático de prosperidade nacional. E, quando a defesa de um modelo econômico exige que se olhe para os números e se desvie o olhar das pessoas, talvez o problema não esteja apenas nos resultados apresentados, mas também nos critérios escolhidos para julgá-los.
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