quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Cármen Lúcia em dois atos

Não dá pra esquecer a madrugada de 5 de abril de 2018 no STF. No epicentro da sanha punitivista da Lava-Jato, o plenário decidia o habeas corpus do ex-presidente Lula em clima de guerra política.

Placar travado em 5 a 5. O peso do desempate caiu direto sobre os ombros da então presidente da Corte, a ministra Cármen Lúcia.

Depois de mais de dez horas de um debate sufocante e sob uma pressão avassaladora de todos os lados, ela escolheu romper com a ordem constitucional e soltou a frase que sintetiza a arbitrariedade daquele momento:

O princípio da não-culpabilidade não pode levar à impunidade.

Com essa justificativa indefensável, a ministra simplesmente relativizou a presunção de inocência, garantia pétrea da Constituição, como se fosse um mero empecilho burocrático a ser ignorado.

Para ela, respeitar o devido processo legal e aguardar o esgotamento dos recursos era "apequenar" o Supremo. Na prática, escolheu rasgar a lei para atender ao clamor de um momento de exceção.

Foi esse voto de minerva que desequilibrou a balança, abriu o caminho para a expedição arbitrária do mandado de prisão dias depois e consagrou um dos capítulos mais sombrios, tensos e vergonhosos da nossa história jurídica e política recente.

Portanto, não venham com discurso de grandeza dessa senhora oportunista. Não me comove.

TEXTO DE:
Ricardo Queiroz

______________________________________________


Cármen Lúcia ficou escondida na sua cadeira enquanto ocorria um debate acalorado, porém, sem sentido no Supremo Tribunal Federal.

O objeto de debate? Nenhum.

Como evidenciado pelo Ministro Alexandre de Moraes, não havia pedido de investigação contra ele, nem do Ministério Público Federal, nem da Polícia Federal, nem pela Procuradoria Geral da República, e nem mesmo do ministro André Mendonça.

Não havia objeto.

Mesmo assim, Fachin, teimava em tentar entregar a cabeça de Moraes em uma bandeja, tanto a bolsonaristas como as viúvas da maldita Operação Lava-Jato.

Os ministros Gilmar Mendes e Flávio Dino, destruíram Fux, Fachin e Mendonça com uma sustentação visceral.

Nada saiu como o esperado pela quadrilha golpista e para a imprensa nojenta que clama por um acerto de contas contra Moraes, por motivos que só a própria imprensa pode explicar.

Talvez a imprensa brasileira preferisse que o golpe tivesse alcançado sucesso.

E então, aparece Cármen. Ou, não aparece. Depende do ponto de vista.

Cármen a silenciosa. A lacradora. A envergonhada.

Para dizer que se sentia envergonhada do Supremo, e que assumia que não havia feito o suficiente para que a Corte não chegasse a essa situação.

Realmente, ministra Cármen. A senhora nunca atuou para que a Corte melhorasse. Pois apesar de seus discursos bonitos, e toda sua capacidade de lacração, seus atos e seus votos sempre foram na contra-mão de suas próprias palavras.

Foi assim, quando disse que a Corte não deveria votar pelo clamor popular para depois votar contra a Constituição e mandar para cadeia um inocente Lula, e de maneita objetiva, ajudar a pavimentar a chegada de um golpista à presidência.

Assim como agora, repetiu o mesmo discurso, mesmo confessando que estava preocupada com o fato de ter ido a padaria, e lá, só se comentava sobre o STF. Apesar de suas palavras, estava pronta para se juntar a Fachin, e entregar a cabeça de Moraes.

Afinal, era esse o clamor popular. Que a senhora renega, mas apoia nas votações.

Virou a heroína da imprensa.

Porque a imprensa adora palavras. E as suas palavras serviam para esconder do povo brasileiro, o que realmente ocorreu nesta tarde fatídica de 15 de setembro de 2026.

A continuidade da tentativa de golpe de estado, de dentro da própria Corte.

Capitaneada pelos mesmos Lavajatistas de antes: Fachin e Fux, com a fileira reforçada por um pseudo-pudico.

Não, Cármen. Você não é heroína.

Nunca foi e nunca será.

Pois uma ministra, que se envergonha da própria Corte, que quando presidiu, impediu que a liberdade de un inocente fosse votada, jamais pode ser considerada heroína desta própria Corte que ajudou a diminuir.

TEXTO DE:
Tarciso Tertuliano

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Orwell entrou sem convite na sala errada do STF

Quando o ministro André Mendonça invocou “1984” para justificar o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal (afastamento revogado posteriormente pelo ministro Flávio Dino), talvez tenha produzido uma das mais curiosas ironias jurídicas da atual crise institucional brasileira.

George Orwell provavelmente não imaginou que, décadas depois da publicação de 1984, sua obra seria convocada para dentro de uma decisão do Supremo Tribunal Federal. Menos ainda poderia imaginar que o livro seria utilizado por um ministro da Suprema Corte para descrever aquilo que ele considerou uma espécie de aparato de vigilância instalado dentro da Polícia Federal.

André Mendonça comparou o quadro que encontrou nos relatórios de inteligência da PF ao universo de 1984, a distopia em que o Estado vigia permanentemente seus cidadãos e transforma a informação em instrumento de controle. Na decisão, o ministro afirmou ter sido submetido, juntamente com o advogado-geral da União, Jorge Messias, a monitoramento sistemático pela inteligência policial.

O problema não está em citar Orwell.

O problema está em quem cita Orwell, em que circunstância e para justificar qual ato de poder.

Porque 1984 não é simplesmente um livro sobre espionagem. É uma advertência contra a concentração de poder, contra a destruição das fronteiras entre Estado e indivíduo, contra a transformação das instituições em instrumentos de controle e, sobretudo, contra a possibilidade de o poder criar sua própria verdade.

O personagem central da obra, Winston Smith, vive num Estado em que o poder não apenas observa: ele determina aquilo que pode ser considerado verdadeiro.

Por isso, a referência de Mendonça exige muito mais cuidado do que uma simples comparação literária.

O ministro acusou a Polícia Federal de produzir relatórios de inteligência sobre sua atuação e sobre a atuação do advogado-geral da União. A própria PF, entretanto, sustentou posteriormente que os documentos não tinham caráter investigativo ou acusatório e que haviam sido produzidos no âmbito de atividade de inteligência. Andrei Rodrigues também afirmou a Edson Fachin que a entrega dos relatórios ocorreu por determinação judicial de Alexandre de Moraes e negou que a PF tivesse monitorado ilegalmente Mendonça ou Jorge Messias.

É justamente aí que a citação de Orwell começa a ficar problemática.

Porque uma coisa é demonstrar que determinado relatório pode conter informações inadequadas, especulações ou procedimentos eventualmente ilegais.

Outra, muito diferente, é transformar essa conclusão em fundamento suficiente para retirar preventivamente do cargo o diretor-geral da Polícia Federal — uma instituição pertencente ao Poder Executivo, cujo diretor-geral é nomeado pelo presidente da República.

A controvérsia constitucional foi levantada imediatamente. A Advocacia-Geral da União sustentou que a decisão atingia a prerrogativa constitucional do presidente da República para prover e desprover cargos de direção da Polícia Federal. Gilmar Mendes também questionou a competência da Segunda Turma para analisar o caso e defendeu que a questão poderia ser de competência do Plenário.

E então chegamos à ironia.

O ministro olha para a Polícia Federal e enxerga 1984. Mas nós podemos olhar para o episódio inteiro e fazer outras perguntas:

Quem vigia quem? Quem controla quem? Quem pode afastar quem?

Até onde pode ir um ministro do Supremo quando uma instituição do Executivo é acusada de ultrapassar seus limites?

E, principalmente: quais são os limites do próprio Supremo quando seus ministros entram em conflito direto com órgãos que investigam fatos envolvendo integrantes da própria Corte?

Essas perguntas não são retóricas demais para uma democracia. São precisamente as perguntas que uma democracia constitucional precisa fazer.

O caso ganhou uma dimensão sensível porque o afastamento de Andrei Rodrigues ocorreu no contexto de uma crise envolvendo o próprio Mendonça e Alexandre de Moraes. Um relatório da PF havia sido utilizado por Moraes para pedir investigação contra Mendonça, enquanto Mendonça, dias depois, determinou o afastamento do diretor-geral da corporação e do diretor de Inteligência.

Não é necessário atribuir intenção pessoal a ninguém para reconhecer o óbvio: a aparência institucional do episódio é péssima.

O cidadão comum pode perfeitamente perguntar se estamos diante de uma investigação sobre possíveis irregularidades cometidas pela Polícia Federal ou de uma guerra institucional entre autoridades poderosas na qual a PF acabou transformada em campo de batalha.

E é precisamente nesse ponto que 1984 deveria ser lido com mais atenção.

Orwell não escreveu uma cartilha para que autoridades encontrassem analogias convenientes em decisões judiciais. Escreveu uma advertência sobre o que acontece quando o poder deixa de aceitar limites.

O verdadeiro espírito de 1984 não está simplesmente na existência de alguém observando.

Está na possibilidade de o poder controlar os mecanismos de observação, definir a narrativa sobre aquilo que foi observado e utilizar a própria estrutura institucional para impor sua interpretação dos fatos.

Por isso, a referência ao livro pode acabar produzindo um efeito contrário ao pretendido.

Se a preocupação é impedir que a inteligência policial se transforme em instrumento de perseguição política, excelente: que se investigue. Que se identifiquem os responsáveis. Que se estabeleça a cadeia de comando. Que se descubra quem produziu os documentos, por que foram produzidos, quem os solicitou, quem os recebeu e qual finalidade tiveram.

Mas isso precisa ocorrer dentro do devido processo legal, do contraditório, da competência constitucional de cada instituição e da separação dos Poderes.

Não existe combate ao abuso de poder por meio de outro abuso de poder. Essa é uma regra básica.

E talvez seja justamente aí que Orwell seja mais atual. Porque uma democracia não se protege apenas quando impede que a Polícia Federal vigie ilegalmente um ministro. Ela também se protege quando impede que um ministro, ainda que legitimamente preocupado com sua própria segurança institucional, ultrapasse os limites constitucionalmente estabelecidos para controlar uma instituição de outro Poder.

A democracia não escolhe um lado entre a PF e o STF.

A democracia escolhe a Constituição.

E a Constituição não deveria precisar de literatura distópica para lembrar às autoridades aquilo que ela já estabelece em linguagem muito mais objetiva: nenhum poder é absoluto.

O episódio, portanto, merece ser investigado com seriedade. Se houve monitoramento ilegal, os responsáveis precisam responder. Se houve produção irregular de documentos, que sejam identificados os autores e responsabilizados. Se houve abuso por parte de agentes públicos, que a Justiça atue.

Mas se a intenção é combater uma suposta lógica de 1984, é preciso tomar cuidado para não construir, em nome desse combate, uma nova lógica em que uma única autoridade possa investigar, julgar a gravidade dos fatos e afastar preventivamente o dirigente máximo de uma instituição do Executivo, enquanto a própria competência para fazê-lo ainda é objeto de controvérsia.

Isso não significa dizer que o ministro André Mendonça se comportou como o “Grande Irmão”. Significa algo mais simples e muito mais importante: em uma República, nem mesmo o ministro que teme estar sendo vigiado está acima dos limites que devem proteger todos nós contra o poder sem limites.

Talvez esta seja a leitura de Orwell que realmente importa.

Não perguntar apenas:
Quem está nos vigiando?
Mas também:
Quem vigia os vigilantes?”
E, numa democracia constitucional:
Quem vigia aqueles que têm poder para afastar os vigilantes?

Essas perguntas não ão subversivas.

É democrática, cacete!

E talvez seja exatamente por isso que ela seja tão necessária agora.

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Colonialismo químico: o Brasil que planta lucro e colhe veneno

Uma pergunta precisa ser feita pelo Brasil antes de repetir pela milésima vez que o agronegócio "é o motor da economia": motor para quem?

A pergunta incomoda porque obriga a olhar para aquilo que normalmente fica escondido atrás dos números grandiosos das exportações, dos recordes de produção e dos bilhões de dólares que entram no país.

Existe um Brasil que aparece na balança comercial.

E existe outro Brasil que aparece no solo contaminado, na água ameaçada, na saúde do trabalhador rural e na mesa do consumidor.

É nesse segundo Brasil que se encontra o chamado colonialismo químico, conceito desenvolvido pela geógrafa Larissa Mies Bombardi para explicar uma das perversidades da agricultura globalizada: países do Norte Global restringem ou proíbem determinadas substâncias em seus próprios territórios, enquanto empresas sediadas nesses países continuam comercializando esses produtos para países do Sul Global.

O Brasil está no centro dessa engrenagem.

Segundo dados apresentados por Bombardi em 2026, sete dos dez agrotóxicos mais comercializados no país são proibidos na União Europeia.

Sete.

Não é uma exceção estatística.

É um modelo.

E a pergunta inevitável é: por que aquilo que é considerado perigoso para um europeu pode ser considerado aceitável para um brasileiro?

A resposta não pode ser simplesmente "porque a legislação brasileira permite".

Legislação não é argumento moral. É justamente aquilo que uma sociedade pode e deve modificar quando descobre que determinada regra protege menos do que deveria.

A Europa não é necessariamente virtuosa. Empresas europeias também participam desse comércio. E esse é precisamente o paradoxo: a mesma indústria que precisa respeitar determinadas restrições em seu país de origem encontra no Brasil um mercado onde pode vender produtos que não consegue vender em casa.

O capital conhece fronteiras.

A toxicidade também.

Mas a responsabilidade parece não conhecer nenhuma.

O problema não termina na multinacional

Seria confortável colocar toda a culpa nas grandes empresas estrangeiras.

Seria também intelectualmente preguiçoso.

Porque uma multinacional só vende aquilo que encontra mercado.

E alguém compra.

O colonialismo químico só consegue funcionar porque existe uma engrenagem nacional interessada em fazê-lo funcionar.

É aqui que entra a parte mais delicada da discussão: o próprio agronegócio brasileiro tem responsabilidade sobre o modelo que ajuda a sustentar.

Não todo agricultor.

Não todo produtor rural.

Não toda empresa.

Mas os segmentos econômicos que pressionam por menos restrições, mais permissividade química e maior velocidade de aprovação de substâncias precisam responder por uma pergunta elementar: qual é o limite do lucro quando a mercadoria produzida pode comprometer a saúde de quem trabalha e de quem consome?

Não existe soberania nacional quando a rentabilidade de uma commodity vale mais do que a saúde de uma população.

Isso não é patriotismo.

É contabilidade.

O veneno também tem lobby

O Brasil aprovou, em 2023, uma nova legislação para os agrotóxicos. A discussão em torno dela mostrou exatamente o tamanho do conflito entre interesses econômicos, regulação estatal e proteção ambiental e sanitária.

E aqui está um dos problemas de nosso debate público: quando alguém questiona a flexibilização das regras, imediatamente aparece o discurso de que essa pessoa é "contra o agro".

É uma fraude argumentativa.

Ser contra a utilização irresponsável de agrotóxicos não é ser contra a agricultura.

Ser contra a contaminação não é ser contra o produtor rural.

Defender fiscalização não é defender o atraso.

Defender pesquisa em alternativas menos tóxicas não é querer destruir a produtividade.

Aliás, deveria ser justamente o contrário.

Um agronegócio verdadeiramente moderno não deveria precisar de uma população desinformada para defender sua produtividade.

Deveria ser capaz de produzir mais utilizando menos veneno.

Deveria investir em tecnologia que reduza dependência química.

Deveria cobrar rastreabilidade.

Deveria exigir transparência.

Deveria ser o primeiro interessado em impedir que produtos proibidos em outros países sejam tratados como aceitáveis simplesmente porque ainda existe uma autorização brasileira.

O discurso da eficiência

Existe uma palavra que frequentemente encerra qualquer discussão sobre esse assunto: produtividade.

É preciso produzir mais.

É preciso exportar mais.

É preciso competir.

É preciso alimentar o mundo.

Tudo isso pode ser verdade.

Mas existe uma pergunta que quase nunca aparece: alimentar o mundo significa necessariamente envenenar o trabalhador que produz?

A própria Anvisa mostra que o problema não pode ser tratado como fantasia ideológica. No ciclo de 2024 do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos, 20,6% das 3.084 amostras analisadas apresentaram algum tipo de não conformidade, incluindo uso de agrotóxico não autorizado para aquela cultura ou concentração acima do limite permitido. Doze amostras apresentaram risco agudo. Ao mesmo tempo, a agência informa que não encontrou situação de risco crônico acima da referência considerada segura para os agrotóxicos avaliados.

Ou seja: não é correto transformar os dados em uma narrativa apocalíptica, mas também não é aceitável utilizá-los para fingir que o problema não existe.

A ciência não autoriza nenhum dos extremos.

Ela exige vigilância.

E vigilância custa dinheiro.

Fiscalização custa dinheiro.

Pesquisa custa dinheiro.

Transição tecnológica custa dinheiro.

O problema é que o mercado costuma adorar privatizar o lucro e socializar a conta.

Quando a lavoura ganha produtividade, o benefício pode ser apropriado privadamente.

Quando surgem danos ambientais ou sanitários, quem paga?

O SUS.

O trabalhador.

A comunidade.

O município.

O Estado.

A sociedade.

É o velho negócio brasileiro: o lucro tem dono, o prejuízo tem endereço público.

A soberania alimentar que virou soberania da commodity

Existe outra contradição que deveria provocar um debate nacional.

O Brasil é uma potência agrícola.

Mas ser uma potência agrícola não significa necessariamente ser uma potência alimentar.

Uma coisa é produzir toneladas de soja, milho, algodão, café ou cana.

Outra é construir um sistema alimentar que garanta comida saudável, acessível e produzida de maneira sustentável para a população brasileira.

Quando a lógica da commodity passa a comandar a agricultura, o alimento deixa de ser necessariamente a finalidade.

A finalidade passa a ser o mercado.

E isso muda tudo.

A terra deixa de ser vista primordialmente como território de vida e passa a ser tratada como ativo produtivo.

A floresta vira obstáculo.

A diversidade agrícola vira ineficiência.

A agricultura familiar vira segmento secundário.

O trabalhador rural vira custo.

E o agrotóxico vira simplesmente "insumo".

Talvez seja justamente aí que esteja a grande tragédia.

Quando uma substância capaz de produzir dano passa a ser chamada apenas de insumo, a linguagem do mercado conseguiu apagar a linguagem da saúde.

Quem defende o Brasil?

O discurso ruralista costuma recorrer com facilidade ao nacionalismo.

"Precisamos defender o agro."

"Precisamos defender nossas exportações."

"Precisamos defender a soberania brasileira."

Pois então defendamos.

Mas defesa nacional não pode significar apenas defender o faturamento de quem exporta.

Defesa nacional também é defender a água brasileira.

É defender o solo.

É defender os trabalhadores.

É defender as comunidades indígenas e tradicionais.

É defender a agricultura familiar.

É defender o consumidor.

É defender as futuras gerações.

Um país não é soberano porque consegue vender milhões de toneladas de commodities.

É soberano quando consegue decidir o que aceita colocar dentro de seu próprio território e sobre o próprio corpo de sua população.

Se um produto é considerado perigoso demais para ser utilizado em determinado país, o Brasil deveria, no mínimo, perguntar por que ele deveria ser considerado suficientemente seguro para nós.

Essa pergunta não é ideológica.

É soberana.

O colonialismo químico tem sócios brasileiros

É aqui que a discussão precisa perder a delicadeza.

O colonialismo químico não é simplesmente uma história de europeus malvados vendendo veneno para brasileiros inocentes.

A realidade é mais cruel.

Existe uma aliança objetiva entre o capital internacional que vende e o poder econômico nacional que compra.

Um fornece a molécula.

O outro fornece o mercado.

Um recebe o dinheiro.

O outro recebe produtividade.

E a sociedade recebe a conta.

Bombardi chama atenção justamente para esse círculo vicioso: a agricultura brasileira utiliza substâncias produzidas por grandes corporações e, depois, exporta commodities para os mesmos mercados desenvolvidos que impõem regras mais rigorosas dentro de seus próprios territórios.

É uma espécie de circuito perfeito do capitalismo global.

A riqueza circula para cima.

O risco permanece aqui.

O Brasil não precisa escolher entre agro e saúde

Essa talvez seja a maior mentira do debate.

Não precisamos escolher entre agricultura e meio ambiente.

Entre exportação e saúde.

Entre produtividade e ciência.

Entre agronegócio e soberania.

O que precisamos escolher é qual agronegócio queremos financiar politicamente.

Um agronegócio que invista em tecnologia, pesquisa, redução do uso de substâncias perigosas, recuperação ambiental e segurança alimentar merece respeito.

Um modelo que trate qualquer tentativa de fiscalização como ataque ao setor precisa ser confrontado.

Porque quem realmente acredita na força do agronegócio não deveria ter medo de regras melhores.

E quem acredita na soberania brasileira não deveria aceitar que o país seja transformado em mercado de produtos que outros países decidiram não utilizar.

No fundo, a questão é simples.

Que Brasil queremos deixar para nossos filhos?

Um país que produziu milhões de toneladas?

Ou um país que conseguiu produzir milhões de toneladas sem transformar sua população em laboratório?

Porque uma nação pode sobreviver a uma safra ruim.

Pode sobreviver a uma queda nas exportações.

Pode sobreviver a uma crise cambial.

O que nenhuma nação deveria aceitar como preço inevitável do desenvolvimento é transformar a própria população em variável de ajuste.

O agronegócio brasileiro pode ser gigante.

Pode ser competitivo.

Pode ser exportador.

Pode ser tecnologicamente avançado.

Mas não pode reivindicar o direito de ser maior do que o interesse público.

E nenhum governo deveria aceitar que seja.

Porque, no fim das contas, a verdadeira pergunta do colonialismo químico não é apenas quem vende o veneno.

É quem decidiu que o brasileiro deveria aceitar recebê-lo.

E essa resposta não está apenas nas sedes das multinacionais.

Está também dentro do Brasil.

Está nas estruturas de poder.

Está nas decisões políticas.

Está nos interesses econômicos.

Está no lobby.

E está, sobretudo, na escolha de uma sociedade que precisa decidir se quer continuar medindo seu desenvolvimento pela quantidade de dinheiro que entra no país — ou também pela quantidade de vida que conseguimos preservar.

Um país que exporta comida, mas importa risco para sua própria população, não conquistou plenamente sua soberania. Apenas aprendeu a transformar dependência em negócio.

domingo, 6 de setembro de 2026

Após 26 anos de sequelas, María Consuelo Córdoba volta a considerar a eutanásia

A mulher colombiana que sobreviveu a um ataque com ácido em Bogotá, passou por cerca de 87 cirurgias afirma que voltou a considerar a possibilidade de realizar a eutanásia. Capital Salud confirma que ela possui autorização para o procedimento há quatro anos.

A história de María Consuelo Córdoba voltou a chamar a atenção na Colômbia. Aos 58 anos, ela vive há 26 anos com as graves consequências de um ataque com ácido ocorrido em Bogotá, no ano 2000.

Segundo o relato dado por María Consuelo ao Citytv e reproduzido por veículos de imprensa, a agressão aconteceu durante uma discussão com o então marido.

Ela havia decidido permanecer em Bogotá para trabalhar, enquanto ele pretendia retornar para o município de origem do casal, no departamento de Chocó. Durante a discussão, ele teria lançado ácido contra seu rosto.

As consequências foram devastadoras. Desde o ataque, María Consuelo passou por aproximadamente 87 intervenções cirúrgicas, muitas delas relacionadas à reconstrução do rosto e à recuperação de funções afetadas pelas queimaduras. Ela afirma que ainda necessita de procedimentos médicos.

De acordo com seu relato, atualmente ela utiliza dois tubos plásticos para auxiliar na respiração e uma máscara artesanal para proteger o rosto da exposição ao sol. As limitações físicas são acompanhadas por dificuldades econômicas.

María Consuelo contou que recorre à ajuda de pessoas em ônibus e no transporte público de Bogotá para conseguir dinheiro para suas despesas.

O encontro com Francisco

Outro episódio marcante da história ocorreu em 2017, durante a visita do papa Francisco à Colômbia.

María Consuelo relatou que conversou pessoalmente com o pontífice e que, naquela ocasião, já havia pensado na possibilidade de recorrer à eutanásia. Segundo seu próprio testemunho, Francisco pediu que ela não realizasse o procedimento e que continuasse lutando, enquanto mantinha a esperança de conseguir ajuda para prosseguir com o tratamento.

A autorização para a eutanásia já existe

Um dos pontos mais importantes do caso foi esclarecido pela própria Capital Salud, entidade responsável pela assistência à saúde de María Consuelo.

Depois da repercussão das entrevistas, a EPS informou que entrou em contato diretamente com a paciente para verificar sua situação. Segundo a instituição, María Consuelo declarou que possui autorização para o procedimento de eutanásia há quatro anos.

Isso significa que ela não está atualmente esperando uma nova autorização para realizar o procedimento.

A Capital Salud também afirmou que a decisão pertence à própria paciente, dentro do exercício de seu direito de decidir sobre a realização do procedimento.

Portanto, é importante corrigir uma interpretação que chegou a circular inicialmente: María Consuelo não está simplesmente "pedindo autorização" para a eutanásia. Segundo a própria EPS, a autorização já existe há cerca de quatro anos.

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Entre o sofrimento e o direito de escolher

María Consuelo voltou agora a falar publicamente sobre a possibilidade de realizar a eutanásia depois de mais de duas décadas de tratamentos, cirurgias e dificuldades econômicas.

Seu caso reúne duas questões extremamente delicadas: as consequências de uma violência brutal e o direito de uma pessoa decidir sobre o próprio fim de vida dentro das regras estabelecidas pela legislação colombiana.

Também não há indicação, nas informações divulgadas pela Capital Salud, de que ela já tenha marcado uma data para realizar o procedimento. A existência da autorização não significa que a eutanásia será necessariamente realizada.

A decisão continua sendo dela.

Uma nova possibilidade de ajuda

A repercussão do caso também provocou manifestações de solidariedade.

O empresário colombiano Arturo Calle declarou publicamente que gostaria de ajudar María Consuelo e ofereceu apoio para que ela pudesse ter uma moradia, além de pedir que outras pessoas também colaborassem. A iniciativa surgiu depois que ele tomou conhecimento das dificuldades econômicas enfrentadas pela mulher.

O gesto acrescentou um novo elemento a uma história marcada, até aqui, por 26 anos de tratamentos e limitações.

María Consuelo Córdoba continua, portanto, diante de uma decisão que já possui respaldo dentro do procedimento autorizado pela assistência de saúde colombiana. Depois de 26 anos convivendo com as consequências de uma violência que mudou completamente sua vida, a escolha sobre seguir adiante com a eutanásia permanece em suas mãos.

sábado, 29 de agosto de 2026

E Deus se fez Couch

Um pastor da Lagoinha Alphaville explicou a pobreza. E Marx, Weber, Bourdieu e dois séculos de Ciências Sociais podem finalmente descansar.

O problema não é salário, herança, educação, desemprego, desigualdade, concentração de renda ou oportunidade - é a cabeça do pobre.

Segundo o pastor Pyero Tavolazzi, pobreza é uma “doença espiritual e mental”, e quem entende “o Reino e o Rei” não deveria continuar pobre.

É uma ideia extraordinária, sobretudo para quem já é rico, porque realiza um pequeno milagre sociológico: faz desaparecer a sociedade inteira e deixa apenas o pobre diante do espelho, procurando dentro de si a causa de não ter dinheiro.

Bourdieu chamaria isso de violência simbólica. Foucault talvez enxergasse o empresário de si mesmo. Eu chamaria de coaching com Espírito Santo.

A desigualdade vira mindset, a precariedade vira crença limitante, o desemprego vira falta de propósito e o sujeito que nasceu sem patrimônio, escola decente, contatos ou oportunidades descobre que seu verdadeiro problema estava na cabeça.

Melhor ainda: quem diagnostica a doença frequentemente conhece a cura - pregações, conferências, cursos, mentorias, livros, ofertas.

É um modelo de negócios quase celestial: transforma-se sofrimento social em defeito individual e depois se oferece tratamento para o defeito.

Se o fiel prosperar, a doutrina funcionou; se continuar pobre, faltou , mentalidade ou produtividade.

Uma teoria maravilhosa: nunca perde - quem perde é o pobre.

O cristianismo começou com um homem que dizia ser difícil um rico entrar no Reino dos Céus. Dois mil anos depois, conseguiram atualizar o sofreste: difícil mesmo é o pobre entrar no Reino sem antes melhorar o mindset.

Jesus multiplicava pães; o neoliberalismo pentecostal multiplicou coaches.


TEXTO DE:

Julio Benchimol Pinto

Correios: privatizar ou não

A lógica do comentário é irrefutável: cobrar lucro dos Correios é ignorar sua razão de ser.

Enquanto uma transportadora privada escolhe onde atuar com base na rentabilidade, a estatal é obrigada a chegar a todos os 5.570 municípios brasileiros.

Entregar uma carta em comunidade isolada da Amazônia, onde só se chega de barco ou avião, ou levar uma encomenda ao Oiapoque (AP) não é um negócio — é um serviço público.

"Nenhuma empresa privada faz isso", afirma o discurso dos próprios trabalhadores, que lembram como eram chamados de "carteiros do fim do mundo". A universalização do acesso tem um custo, e esse custo é o que chamam de "prejuízo".

Os números impressionam, mas precisam ser contextualizados. Em 2024, o rombo foi de R$ 2,6 bilhões no primeiro trimestre de 2026, já chegava a R$ 3,16 bilhões.

Porém, especialistas apontam que as causas vão além da gestão: mudanças contábeis rigorosas, congelamento de tarifas entre 2012 e 2014 e o recolhimento excessivo de dividendos pelo governo ajudaram a descapitalizar a empresa.

Entre 2007 e 2013, por exemplo, foram retirados cerca de R$ 6 bilhões em dividendos além do mínimo legal. Ou seja, o "prejuízo" reflete tanto o peso da função social quanto decisões políticas que priorizaram o caixa da União em detrimento do equilíbrio da estatal.

Comparar os Correios com uma empresa privada, portanto, é um erro de categoria. 

Uma concessionária de logística jamais aceitaria operar com margens negativas em regiões remotas.

Os Correios, por outro lado, são a única representação concreta do Estado em milhares de localidades.

Seu "lucro" não está no balanço financeiro, mas no direito constitucional de todo cidadão, de Benjamin Constant ao Chuí, de enviar e receber sua correspondência. O debate não pode se resumir a planilhas: é sobre que tipo de país queremos construir.
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O argumento que muitos usam de que empresas como Amazon ou Mercado Livre entregam suas mercadorias e cobram o mesmo preço ou mais barato, esbarra no detalhe de que eles não são obrigados a entregar cartas em regiões isoladas.

Se os Correios forem "privatizados", a obrigação destas entregas será por Lei, transferida as empresas que "comprarem" o serviço.

Isso influenciaria diretamente nos preços do serviço.

Afinal, se apenas o licro importa, que empresa privada entregaria uma carta em Quiprocó do Mato Dentro para ter o mesmo "prejuízo" que os Correios?

Para questão de mera comparação: transporte público, luz e água,  são serviços públicos geralmente operados por empresas privadas através de contratos de concessão. A pergunta é:
Você está satisfeito com os preços e a qualidade destes serviços?

O tal "lucro" está indo para onde e para quem?

E antes de responder, lembre-se você está pagando impostos do mesmo jeito, estabdo esses serviços nas mãos do Estado ou da iniciativa privada.

Dando lucro, ou não.

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Lula foi Lula na sabatina da TV Globo de sempre

Hoje, este texto está  sensível. Profundo. Reflexivo e, acima de tudo, muito sincero.

A entrevista de Lula à Globo trouxe de volta muitas lembranças.

Nós o conhecemos quando ainda era líder sindical, na época em que morávamos em São Paulo e ele começava sua trajetória política. Desde então, suas ideias e convicções sempre estiveram voltadas para a justiça social, a soberania do Brasil e a urgência de atender, por meio de políticas públicas, às necessidades básicas da população mais carente.

Sem precisar repetir tudo o que o mundo já sabe, Lula deu ontem uma aula de democracia, respeito à política e compromisso com o povo brasileiro.

Renata Vasconcellos e César Tralli, que haviam sido assertivos nas entrevistas com os três primeiros candidatos, abordando assuntos pertinentes, pareceram completamente perdidos diante dele. Foi uma entrevista visivelmente tendenciosa, conduzida muito mais com a intenção de constrangê-lo e fazê-lo cair em alguma armadilha do que de esclarecer a população.

Enquanto insistiam em perguntas que poderiam produzir uma frase condenatória, deixaram de aprofundar um dos temas mais importantes do momento: o tarifaço e a maneira como o Brasil enfrentará essa questão daqui para a frente, especialmente agora que Lula já foi procurado por Washington para uma nova negociação.

E aqui não se trata de ser de Direita ou de Esquerda. Não se trata sequer de ser a favor ou contra Lula. Trata-se de reconhecer que estamos diante de um verdadeiro presidente — alguém que coloca seu país, sua soberania e os interesses de seu povo acima de qualquer pressão estrangeira.

Também não adianta que os haters enfurecidos venham até aqui destilar seu ódio contra a realidade, refugiados no metaverso de absurdos que criaram.

Tampouco aceito o argumento de que não posso opinar ou defender meu país porque vivo fora dele. Curiosamente, muitos dos que repetem esse discurso também vieram para os Estados Unidos — alguns não para construir pontes, mas para conspirar contra o próprio Brasil e destruir sua imagem em nome de interesses particulares e de uma ideologia reacionária.

Ontem, Lula foi Lula.

Com serenidade, experiência e firmeza, deixou seus adversários presos aos mesmos chavões empoeirados, aos mesmos preconceitos e às mesmas acusações que o tempo já fez caducar.

Podem amá-lo ou odiá-lo. Podem concordar ou discordar dele. Mas há algo que nem o ódio, nem as narrativas fabricadas, nem as armadilhas conseguem apagar:

Lula é simplesmente Lula.

Apesar de você…

TEXTO DE:

🦋 © Leila Cordeiro