O capitalismo possui uma qualidade que seus críticos frequentemente subestimam: ele raramente combate aquilo que pode vender.
Durante décadas, acreditou-se que os movimentos identitários representavam uma ameaça estrutural à lógica do mercado. Afinal, denunciavam desigualdades históricas, exclusões e mecanismos de poder. Mas o mercado fez aquilo que sempre faz diante de uma ameaça: transformou-a em produto.
Hoje, a diversidade possui departamento de marketing. A resistência possui identidade visual. A contestação possui patrocinador.
E, curiosamente, o preço dessa incorporação foi a redução da complexidade humana.
Uma filósofa escreve sobre metafísica? O mercado pergunta onde está o feminismo.
Um intelectual negro publica um livro sobre astronomia, lógica ou estética? Logo aparece alguém perguntando quando virá sua obra sobre racismo.
Um escritor indígena quer produzir ficção científica? Espera-se dele um romance sobre ancestralidade.
Um pesquisador LGBT deseja estudar economia monetária? A editora prefere um ensaio sobre sexualidade.
Não se trata de censura estatal. É algo mais sofisticado.
É o algoritmo das expectativas.
O mercado descobriu que identidades vendem melhor quando permanecem dentro de embalagens previsíveis. Seus guetos.
Cada autor passa a ocupar um nicho cuidadosamente delimitado. Quanto mais específica a identidade, mais específico o público consumidor. Quanto mais específico o público, mais fácil segmentar campanhas, anúncios e eventos.
A lógica econômica agradece.
O resultado é um paradoxo digno de estudo.
Movimentos que nasceram para romper categorias acabam frequentemente aprisionados nelas.
A mulher deixa de ser filósofa para se tornar "filósofa feminista". O negro deixa de ser intelectual para virar "intelectual negro". O indígena passa a ser antes representante de uma identidade do que pesquisador de um campo do conhecimento.
Enquanto isso, curiosamente, permanece quase intacto o velho privilégio da universalidade.
Autores brancos, sobretudo homens, continuam sendo autorizados a escrever sobre praticamente qualquer assunto.
Podem publicar livros sobre religião, física, literatura, política internacional, futebol, inteligência artificial ou filosofia moral sem que alguém lhes cobre representar sua identidade racial ou de gênero.
Sua condição é percebida como neutra, universal. A dos demais, como específica.
Essa assimetria revela um fenômeno curioso: a identidade virou requisito apenas para alguns.
O capitalismo percebeu que vender universalidade continua sendo lucrativo para uns; vender identidade é mais rentável para outros.
É uma divisão de mercado.
Não por acaso, editoras organizam coleções inteiras baseadas na identidade do autor. Livrarias criam estantes temáticas. Festivais montam mesas compostas menos pela afinidade intelectual do que pela composição demográfica. Em muitos casos, a biografia passa a preceder a bibliografia.
O autor transforma-se em certificado de autenticidade.
Naturalmente, isso não significa que livros sobre feminismo, racismo ou colonialismo não sejam necessários. São. E continuam sendo fundamentais para compreender a sociedade.
O problema começa quando esses temas deixam de ser uma escolha intelectual para se tornarem uma expectativa comercial permanente.
Quando uma mulher precisa falar sobre mulheres para ser considerada legítima.
Quando um negro precisa falar sobre racismo para ser convidado.
Quando um indígena precisa falar apenas sobre povos indígenas para ser publicado.
Nesse momento, o mercado realiza sua mágica habitual.
Finge celebrar a diversidade enquanto organiza novas prateleiras.
Troca o velho universalismo excludente por um multiculturalismo compartimentado.
Cada grupo ganha seu corredor.
Cada corredor recebe sua etiqueta.
Cada etiqueta vira estratégia de vendas.
E todos saem convencidos de que venceram.
Talvez essa seja a maior vitória do capitalismo contemporâneo: convencer seus críticos de que liberdade consiste em escolher a própria cela — desde que ela seja suficientemente rentável.


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