domingo, 27 de setembro de 2026
Catolicismo sob ataque
sábado, 26 de setembro de 2026
O Futebol não irá acabar (que pena)
O futebol brasileiro passa pela maior tragédia de sua história: alguém resolveu mexer no dinheiro das bets.
Famílias endividadas? Problema social. Apostas compulsivas? Questão de saúde pública. Jovens transformando o celular em cassino? Tema para especialistas.
Pessoas perdendo patrimônio, relações familiares e, em casos extremos, a própria vida? Uma calamidade que precisa ser enfrentada.
Mas tire o patrocinador da camisa do clube e, subitamente, temos uma ameaça à sobrevivência do futebol brasileiro.
É uma curiosa escala de prioridades.
A Medida Provisória 1.394, assinada por Lula em 25 de setembro, proibiu a exploração, oferta, intermediação e publicidade das apostas de quota fixa no Brasil. A medida alcança tanto apostas esportivas quanto jogos on-line e também atinge autorizações estaduais e distritais.
E não se trata de uma proibição para algum futuro nebuloso.
A partir da publicação da MP, não podem ser concedidas novas autorizações. Em dez dias, as plataformas deverão retirar do ar os sites e aplicativos destinados às apostas. Também fica proibida a entrada de novos recursos nas contas dos apostadores. As apostas abertas que não tiverem resultado nesse período serão consideradas sem efeito, com restituição integral do valor apostado.
Depois vem a parte que deveria interessar particularmente aos clubes. Publicidade, propaganda, marketing e patrocínio de bets estão proibidos.
Os sinais de patrocínio e materiais publicitários já existentes deverão ser retirados em até dez dias.
Ou seja: acabou a placa, acabou a propaganda, acabou o nome da bet na camisa, acabou o anúncio no intervalo, acabou a tentativa de transformar cada escanteio em oportunidade de aposta.
E o mundo não acabará, os estádios continuarão de pé, a bola continuará redonda, a vitória continua valendo três pontos.
O torcedor continuará discutindo arbitragem como se fosse assunto de Estado.
E, curiosamente, o futebol brasileiro continuará existindo. Talvez seja exatamente isso que incomode.
Porque durante anos criou-se uma dependência tão grande do dinheiro das apostas que alguns dirigentes passaram a falar como se as bets fossem uma espécie de órgão vital do futebol. Como se o esporte tivesse nascido junto com o cassino eletrônico.
Não nasceu.
O futebol brasileiro ganhou cinco Copas do Mundo antes de existir esse modelo de apostas. Clubes foram campeões, revelaram jogadores, construíram estádios e formaram gerações de torcedores sem precisar transformar o uniforme em outdoor de cassino.
A diferença é que agora apareceu uma indústria com dinheiro abundante para comprar publicidade e patrocínio — e o futebol gostou.
Gostou tanto que parece ter esquecido de perguntar de onde vinha o dinheiro.
Eis a pergunta inconveniente: se uma família perdeu o salário apostando, o dinheiro que chegou ao futebol continuava sendo moralmente neutro?
Porque é muito confortável dizer que o clube apenas recebeu patrocínio. Mas o dinheiro não brota do gramado. Ele vem de algum lugar.
E, no caso das bets, o próprio governo tem apresentado dados preocupantes sobre endividamento e transtorno do jogo. O Ministério da Saúde citou aumento expressivo dos atendimentos relacionados a jogo patológico e destacou a associação entre problemas com apostas, dificuldades financeiras e risco de suicídio.
Nesse contexto, a indignação de alguns setores do futebol diante da proibição chega a produzir uma pergunta quase indecente: o que exatamente deveria ser preservado: o negócio das apostas ou a saúde das pessoas?
É claro que clubes perderão receitas, e é claro que contratos terão de ser renegociados.
É claro que haverá impacto financeiro.
Mas isso não transforma a manutenção das bets em direito adquirido do futebol.
O Estado não existe para garantir que clubes mantenham determinado patrocinador.
Clubes precisam encontrar outras fontes de receita. Essa deveria ser a parte adulta da conversa.
A MP ainda precisará passar pelo Congresso Nacional. Medidas provisórias têm força de lei imediatamente, mas dependem da apreciação da Câmara e do Senado para se converterem definitivamente em lei; o prazo inicial é de 60 dias, prorrogável automaticamente por mais 60 se a votação não for concluída. Depois de 45 dias sem votação, a MP entra em regime de urgência.
Portanto, a história não terminou com a assinatura presidencial. Começou uma batalha legislativa.
O Congresso poderá aprovar, rejeitar ou alterar a medida dentro do processo constitucional de apreciação. Enquanto isso, entretanto, suas determinações já produzem efeitos.
E aqui está o ponto que parece escapar a determinados dirigentes: o futebol não está acima da sociedade.
Não existe cláusula constitucional dizendo que uma casa de apostas precisa continuar patrocinando o clube porque o departamento financeiro ficou acostumado com aquela receita.
Existe, isso sim, uma sociedade tentando descobrir como lidar com uma indústria que cresceu numa velocidade muito maior que a capacidade das famílias de compreender seus riscos.
O futebol pode reclamar,pode discutir a constitucionalidade pode pressionar o Congresso, pode procurar novos patrocinadores e pode reorganizar suas contas.
Tudo isso faz parte da democracia e do mercado.
O que não pode é transformar a camisa do clube em argumento moral para preservar uma indústria que deixou atrás de si um rastro de endividamento e sofrimento.
Porque existe uma diferença fundamental entre perder um patrocinador e perder uma vida.
O primeiro se resolve com uma reunião do departamento comercial. O segundo não tem departamento comercial que resolva.
Talvez seja hora de o futebol brasileiro descobrir uma coisa bastante antiga: nem todo dinheiro disponível precisa ser aceito.
E talvez essa seja a verdadeira crise provocada pelas bets.
Não a possibilidade de faltar dinheiro para o futebol, mas a possibilidade de descobrirmos que, durante algum tempo, confundimos dinheiro fácil com dinheiro legítimo.
O futebol não vai acabar.
Só precisará aprender a jogar sem a casa de apostas no peito.
E isso, convenhamos, deveria ser muito menos dramático do que uma família perder tudo.
terça-feira, 22 de setembro de 2026
Racismo na direção de arte
Talvez o mais assustador na polêmica envolvendo a campanha do Chuck 70 X, da Converse, não seja apenas a imagem que apareceu nas redes sociais. O mais assustador é imaginar a quantidade de pessoas que provavelmente olharam para aquelas fotografias antes da publicação e não perceberam (ou não quiseram perceber), aquilo que milhões de pessoas perceberam depois.
A primeira fotografia, protagonizada pela cantora sul-coreana Karina, do aespa, (figura que só fui saber da existência por causa deste fato), provocou críticas porque a iluminação sobre sua roupa branca formava uma silhueta triangular reproduzindo um capuz da Ku Klux Klan.
Os tênis pretos pendurados em suas mãos também foram associados visualmente aos pés de uma vítima de linchamento.
Pra completar a letra K, pode ser vista nos cadarços dos tênis.
A Converse retirou a imagem, pediu desculpas e reconheceu que havia errado.
Mas a história não termina aí.
Uma segunda fotografia da mesma campanha tornou o episódio ainda mais perturbador: modelos aparecem subindo uma escada para alcançar tênis pendurados em um galho de árvore. A composição foi interpretada como referência visual a linchamentos, reconhecidamente uma prática da própria Klu Klux Klan.
Ou seja: já não se tratava apenas de uma associação isolada percebida em uma fotografia. Duas imagens diferentes da campanha passaram a carregar o mesmo tipo de leitura.
É preciso ser intelectualmente honesto: não existe prova pública de que a Converse tenha deliberadamente produzido uma propaganda de exaltação da KKK. Também não existe prova de que os profissionais envolvidos sejam supremacistas ou simpatizantes do neonazismo.
Mas fica uma dúvida pertinente: como duas imagens com esse potencial simbólico chegaram ao público?
Publicidade não nasce espontaneamente.
Uma fotografia passa por conceito, direção criativa, produção, figurino, iluminação, fotografia, edição, marketing e aprovação. Em grandes empresas, a quantidade de filtros torna ainda mais difícil acreditar que uma peça simplesmente "aconteceu".
E é justamente aí que começa a discussão sobre os limites éticos da publicidade contemporânea.
A indústria descobriu que a polêmica vende. A imagem precisa provocar. O anúncio precisa gerar comentários. O consumidor precisa parar o dedo na tela. A indignação vira engajamento; o engajamento vira alcance; e o alcance, teoricamente, vira dinheiro.
Só existe um pequeno problema: nem todo símbolo pode ser transformado em ferramenta de marketing.
O capuz da KKK não é apenas uma forma geométrica.
A árvore associada ao linchamento não é apenas um elemento cenográfico.
O linchamento de pessoas negras não é uma estética vintage.
Existe uma história de sangue por trás desses símbolos.
E quando a publicidade começa a brincar com eles, mesmo que involuntariamente, alguma coisa muito séria falhou.
Talvez seja justamente nesse ponto que a discussão sobre a nova geração precise ser feita.
Vivemos uma época em que jovens estão cada vez mais expostos a ambientes digitais nos quais discursos de ódio, mensagens hostis e conteúdos degradantes circulam em escala gigantesca.
Dados do Eurostat mostram que, em 2025, mais da metade dos usuários de internet entre 16 e 24 anos na União Europeia relatou ter encontrado mensagens hostis ou degradantes direcionadas a grupos ou indivíduos.
Isso não significa que uma geração inteira esteja se tornando neonazista.
Seria uma conclusão irresponsável.
Mas significa que símbolos extremistas estão circulando em ambientes nos quais antes permaneciam confinados a grupos marginais. E essa normalização merece atenção.
Quando um jovem encontra diariamente memes nazistas, símbolos supremacistas, discursos racistas e teorias conspiratórias transformadas em entretenimento, existe o risco de que determinados símbolos percam, para ele, a dimensão histórica e moral que possuem.
O que para uma geração pode significar terror racial, para outra pode começar a parecer apenas uma imagem "edgy", provocativa, irônica ou esteticamente interessante.
Esse fenômeno deveria preocupar também a publicidade. Porque os publicitários não são seres humanos produzidos fora da sociedade. Eles carregam para dentro das agências as referências culturais de seu tempo.
Não seria correto afirmar que uma campanha como a da Converse prova a existência de publicitários neonazistas.
Mas seria igualmente irresponsável fingir que a ascensão de discursos extremistas entre determinados setores da juventude não merece investigação cultural.
"Quem teve a intenção de fazer isso?"
"Que sociedade tornou possível que isso fosse considerado uma boa ideia?"
Essas talvez sejam perguntas que a publicidade esteja evitando.
Porque o problema contemporâneo não é somente a propaganda explicitamente racista. O problema também está na banalização gradual dos símbolos, na transformação do horror em estética e na utilização da controvérsia como estratégia comercial.
Primeiro, alguém publica. Depois, alguém reclama. Em seguida, a marca pede desculpas. Finalmente, a internet esquece.
E o departamento de marketing aprende uma lição perigosa: a polêmica funcionou.
É justamente esse ciclo que precisa ser rompido.
Criatividade não significa ausência de limites. Provocação não é sinônimo de inteligência. E liberdade artística não transforma o sofrimento histórico em propriedade estética de quem deseja vender um produto.
Um tênis deveria precisar apenas de uma boa campanha para ser vendido.
Quando precisa flertar visualmente com o capuz da Ku Klux Klan e com a imagem de um linchamento para chamar atenção, talvez o problema já não esteja no tênis.
Talvez esteja em uma indústria que, na corrida pelo próximo clique, tenha esquecido uma regra elementar: algumas imagens não são ousadas, são apenas irresponsáveis.
sábado, 19 de setembro de 2026
O Servidor Municipal de Campo Grande e a via-crucis dos Direitos conquistados
quinta-feira, 17 de setembro de 2026
Anne Vitimista, a tragédia da falta de leitura de verdade
A mais nova modalidade de ignorância contemporânea: aquela que chega acompanhada de uma fotografia de livro grosso.
Em uma feira literária, uma jovem declarou que Além do Bem e do Mal, de Friedrich Nietzsche, era o melhor livro que havia lido no ano.
O pior? O Diário de Anne Frank. A justificativa: Anne Frank seria “vitimista”.
É difícil imaginar maneira mais eficiente de transformar uma opinião literária em um pequeno tratado sobre a falência da sensibilidade, um tratado sobre analfabetismo funcional.
Ninguém é obrigado a gostar da literariedade de Anne Frank. Ninguém precisa considerar seu diário uma obra-prima. É perfeitamente legítimo preferir Nietzsche, Dostoiévski, Machado de Assis, Clarice Lispector ou até um manual de manutenção de motocicletas.
O problema não está na preferência.
Está na palavra escolhida para descrever uma adolescente judia que precisou se esconder dos nazistas para tentar sobreviver.
“Vitimista” ?????
Anne Frank não estava fazendo campanha pela própria vitimização. Ela estava escondida.
Não estava procurando uma hashtag. Estava tentando sobreviver.
Não estava escrevendo um tratado sobre autopiedade. Estava registrando, em um diário, a vida cotidiana de uma adolescente perseguida por um regime que transformou o antissemitismo em política de Estado e conduziu milhões de judeus à perseguição, deportação e assassinato.
A diferença entre Nietzsche e Anne Frank não é que um tenha sido “profundo” e a outra, “vitimista”.
É que eles escreveram em condições históricas completamente diferentes e com propósitos diferentes.
Nietzsche fazia filosofia.
Anne Frank testemunhava a própria existência sob perseguição.
E existe uma ironia especialmente amarga na escolha de Nietzsche como símbolo de superioridade intelectual e contraponto nesse episódio.
Além do Bem e do Mal é uma obra filosófica de enorme importância e influência. Mas a história posterior do pensamento de Nietzsche também foi marcada por apropriações políticas.
O nazismo e seus propagandistas utilizaram e reinterpretaram elementos da obra nietzschiana, embora a relação entre Nietzsche e o nazismo não possa ser reduzida à fórmula simplista de que Nietzsche teria sido simplesmente um “influencer de Hitler”. A própria história editorial e interpretativa de sua obra, incluindo a atuação de sua irmã Elisabeth Förster-Nietzsche, tornou essa questão objeto de intenso debate histórico.
Isso deveria servir justamente para uma lição básica: livros complexos exigem leitura complexa.
Nietzsche não é uma carteirada de superioridade intelectual.
E conhecer o título de Além do Bem e do Mal não significa necessariamente ter compreendido Nietzsche. Ou sequer lido.
Existe, aliás, um fenômeno cada vez mais frequente: a intelectualidade como acessório.
Fotografa-se o livro. Publica-se a capa. Seleciona-se uma frase impactante.
Depois acrescenta-se uma expressão em alemão, uma palavra em latim e, se sobrar espaço, uma opinião sobre “a mediocridade das massas”, e... Pronto!
Nasceu um intelectual de Instagram.
O livro, coitado, continua fechado.
E talvez seja exatamente isso que esteja por trás de certas performances de erudição: não o prazer de descobrir ideias, mas o desejo de parecer alguém que descobriu ideias.
Ler de verdade dá trabalho.
É preciso enfrentar páginas difíceis, voltar parágrafos, reconhecer que não entendeu, consultar referências, confrontar o autor, descobrir que ele contradiz nossas próprias certezas.
O leitor verdadeiro não precisa parecer inteligente, pois ele está ocupado tentando entender.
Por isso existe algo profundamente revelador na comparação entre Nietzsche e Anne Frank: de um lado, uma das grandes figuras da filosofia moderna, cuja obra continua provocando debates sobre moral, verdade, poder e valores. Do outro, uma adolescente cuja escrita se tornou um dos testemunhos mais conhecidos da perseguição aos judeus durante o Holocausto.
Não são obras concorrentes.
Não estão disputando o mesmo campeonato.
Colocá-las em uma lista de “melhor” e “pior” é perfeitamente possível como exercício de gosto.
Transformar Anne Frank em exemplo de “vitimismo”, porém, revela uma incapacidade muito mais preocupante: a de compreender que determinados textos não existem apenas para nos divertir ou demonstrar a inteligência de quem os lê.
Alguns livros servem para nos lembrar do que aconteceu.
E isso também é literatura.
O diário de Anne Frank sobreviveu ao mundo que tentou silenciá-la, apagá-la. Seu texto atravessou décadas porque transformou uma tragédia histórica gigantesca em uma experiência humana concreta.
É fácil falar sobre seis milhões. Mais difícil é compreender uma menina.
Uma menina que tinha medo. Que brigava. Que sonhava. Que queria crescer. Que escrevia. Que esperava.
E que foi assassinada porque nasceu judia.
Talvez seja justamente aí que a suposta intelectualidade encontre seu teste definitivo.
Não na capacidade de citar Nietzsche, mas na capacidade de compreender Anne Frank.
Porque qualquer pessoa pode decorar o nome de um filósofo, porém, muito mais difícil é aprender com a História.
E existe uma forma particularmente triste de analfabetismo: ler muitos livros e continuar sem conseguir enxergar o ser humano dentro deles.
Nietzsche merece ser lido. Anne Frank também.
Mas, antes de tentar parecer intelectual diante de uma estante, talvez fosse conveniente aprender uma coisa que nenhum livro dispensa: humanidade não é sinônimo de vitimismo.
quarta-feira, 16 de setembro de 2026
Cármen Lúcia em dois atos
terça-feira, 15 de setembro de 2026
Orwell entrou sem convite na sala errada do STF
Quando o ministro André Mendonça invocou “1984” para justificar o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal (afastamento revogado posteriormente pelo ministro Flávio Dino), talvez tenha produzido uma das mais curiosas ironias jurídicas da atual crise institucional brasileira.
George Orwell provavelmente não imaginou que, décadas depois da publicação de 1984, sua obra seria convocada para dentro de uma decisão do Supremo Tribunal Federal. Menos ainda poderia imaginar que o livro seria utilizado por um ministro da Suprema Corte para descrever aquilo que ele considerou uma espécie de aparato de vigilância instalado dentro da Polícia Federal.
André Mendonça comparou o quadro que encontrou nos relatórios de inteligência da PF ao universo de 1984, a distopia em que o Estado vigia permanentemente seus cidadãos e transforma a informação em instrumento de controle. Na decisão, o ministro afirmou ter sido submetido, juntamente com o advogado-geral da União, Jorge Messias, a monitoramento sistemático pela inteligência policial.
O problema não está em citar Orwell.
O problema está em quem cita Orwell, em que circunstância e para justificar qual ato de poder.
Porque 1984 não é simplesmente um livro sobre espionagem. É uma advertência contra a concentração de poder, contra a destruição das fronteiras entre Estado e indivíduo, contra a transformação das instituições em instrumentos de controle e, sobretudo, contra a possibilidade de o poder criar sua própria verdade.
O personagem central da obra, Winston Smith, vive num Estado em que o poder não apenas observa: ele determina aquilo que pode ser considerado verdadeiro.
Por isso, a referência de Mendonça exige muito mais cuidado do que uma simples comparação literária.
O ministro acusou a Polícia Federal de produzir relatórios de inteligência sobre sua atuação e sobre a atuação do advogado-geral da União. A própria PF, entretanto, sustentou posteriormente que os documentos não tinham caráter investigativo ou acusatório e que haviam sido produzidos no âmbito de atividade de inteligência. Andrei Rodrigues também afirmou a Edson Fachin que a entrega dos relatórios ocorreu por determinação judicial de Alexandre de Moraes e negou que a PF tivesse monitorado ilegalmente Mendonça ou Jorge Messias.
É justamente aí que a citação de Orwell começa a ficar problemática.
Porque uma coisa é demonstrar que determinado relatório pode conter informações inadequadas, especulações ou procedimentos eventualmente ilegais.
Outra, muito diferente, é transformar essa conclusão em fundamento suficiente para retirar preventivamente do cargo o diretor-geral da Polícia Federal — uma instituição pertencente ao Poder Executivo, cujo diretor-geral é nomeado pelo presidente da República.
A controvérsia constitucional foi levantada imediatamente. A Advocacia-Geral da União sustentou que a decisão atingia a prerrogativa constitucional do presidente da República para prover e desprover cargos de direção da Polícia Federal. Gilmar Mendes também questionou a competência da Segunda Turma para analisar o caso e defendeu que a questão poderia ser de competência do Plenário.
E então chegamos à ironia.
O ministro olha para a Polícia Federal e enxerga 1984. Mas nós podemos olhar para o episódio inteiro e fazer outras perguntas:
Quem vigia quem? Quem controla quem? Quem pode afastar quem?
Até onde pode ir um ministro do Supremo quando uma instituição do Executivo é acusada de ultrapassar seus limites?
E, principalmente: quais são os limites do próprio Supremo quando seus ministros entram em conflito direto com órgãos que investigam fatos envolvendo integrantes da própria Corte?
Essas perguntas não são retóricas demais para uma democracia. São precisamente as perguntas que uma democracia constitucional precisa fazer.
O caso ganhou uma dimensão sensível porque o afastamento de Andrei Rodrigues ocorreu no contexto de uma crise envolvendo o próprio Mendonça e Alexandre de Moraes. Um relatório da PF havia sido utilizado por Moraes para pedir investigação contra Mendonça, enquanto Mendonça, dias depois, determinou o afastamento do diretor-geral da corporação e do diretor de Inteligência.
Não é necessário atribuir intenção pessoal a ninguém para reconhecer o óbvio: a aparência institucional do episódio é péssima.
O cidadão comum pode perfeitamente perguntar se estamos diante de uma investigação sobre possíveis irregularidades cometidas pela Polícia Federal ou de uma guerra institucional entre autoridades poderosas na qual a PF acabou transformada em campo de batalha.
E é precisamente nesse ponto que 1984 deveria ser lido com mais atenção.
Orwell não escreveu uma cartilha para que autoridades encontrassem analogias convenientes em decisões judiciais. Escreveu uma advertência sobre o que acontece quando o poder deixa de aceitar limites.
O verdadeiro espírito de 1984 não está simplesmente na existência de alguém observando.
Está na possibilidade de o poder controlar os mecanismos de observação, definir a narrativa sobre aquilo que foi observado e utilizar a própria estrutura institucional para impor sua interpretação dos fatos.
Por isso, a referência ao livro pode acabar produzindo um efeito contrário ao pretendido.
E talvez seja justamente aí que Orwell seja mais atual. Porque uma democracia não se protege apenas quando impede que a Polícia Federal vigie ilegalmente um ministro. Ela também se protege quando impede que um ministro, ainda que legitimamente preocupado com sua própria segurança institucional, ultrapasse os limites constitucionalmente estabelecidos para controlar uma instituição de outro Poder.
A democracia não escolhe um lado entre a PF e o STF.
A democracia escolhe a Constituição.
O episódio, portanto, merece ser investigado com seriedade. Se houve monitoramento ilegal, os responsáveis precisam responder. Se houve produção irregular de documentos, que sejam identificados os autores e responsabilizados. Se houve abuso por parte de agentes públicos, que a Justiça atue.
Isso não significa dizer que o ministro André Mendonça se comportou como o “Grande Irmão”. Significa algo mais simples e muito mais importante: em uma República, nem mesmo o ministro que teme estar sendo vigiado está acima dos limites que devem proteger todos nós contra o poder sem limites.
Talvez esta seja a leitura de Orwell que realmente importa.
“Quem está nos vigiando?”
Mas também:
“Quem vigia os vigilantes?”
E, numa democracia constitucional:
“Quem vigia aqueles que têm poder para afastar os vigilantes?”
Essas perguntas não ão subversivas.
É democrática, cacete!
E talvez seja exatamente por isso que ela seja tão necessária agora.




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