O futebol brasileiro passa pela maior tragédia de sua história: alguém resolveu mexer no dinheiro das bets.
Famílias endividadas? Problema social. Apostas compulsivas? Questão de saúde pública. Jovens transformando o celular em cassino? Tema para especialistas.
Pessoas perdendo patrimônio, relações familiares e, em casos extremos, a própria vida? Uma calamidade que precisa ser enfrentada.
Mas tire o patrocinador da camisa do clube e, subitamente, temos uma ameaça à sobrevivência do futebol brasileiro.
É uma curiosa escala de prioridades.
A Medida Provisória 1.394, assinada por Lula em 25 de setembro, proibiu a exploração, oferta, intermediação e publicidade das apostas de quota fixa no Brasil. A medida alcança tanto apostas esportivas quanto jogos on-line e também atinge autorizações estaduais e distritais.
E não se trata de uma proibição para algum futuro nebuloso.
A partir da publicação da MP, não podem ser concedidas novas autorizações. Em dez dias, as plataformas deverão retirar do ar os sites e aplicativos destinados às apostas. Também fica proibida a entrada de novos recursos nas contas dos apostadores. As apostas abertas que não tiverem resultado nesse período serão consideradas sem efeito, com restituição integral do valor apostado.
Depois vem a parte que deveria interessar particularmente aos clubes. Publicidade, propaganda, marketing e patrocínio de bets estão proibidos.
Os sinais de patrocínio e materiais publicitários já existentes deverão ser retirados em até dez dias.
Ou seja: acabou a placa, acabou a propaganda, acabou o nome da bet na camisa, acabou o anúncio no intervalo, acabou a tentativa de transformar cada escanteio em oportunidade de aposta.
E o mundo não acabará, os estádios continuarão de pé, a bola continuará redonda, a vitória continua valendo três pontos.
O torcedor continuará discutindo arbitragem como se fosse assunto de Estado.
E, curiosamente, o futebol brasileiro continuará existindo. Talvez seja exatamente isso que incomode.
Porque durante anos criou-se uma dependência tão grande do dinheiro das apostas que alguns dirigentes passaram a falar como se as bets fossem uma espécie de órgão vital do futebol. Como se o esporte tivesse nascido junto com o cassino eletrônico.
Não nasceu.
O futebol brasileiro ganhou cinco Copas do Mundo antes de existir esse modelo de apostas. Clubes foram campeões, revelaram jogadores, construíram estádios e formaram gerações de torcedores sem precisar transformar o uniforme em outdoor de cassino.
A diferença é que agora apareceu uma indústria com dinheiro abundante para comprar publicidade e patrocínio — e o futebol gostou.
Gostou tanto que parece ter esquecido de perguntar de onde vinha o dinheiro.
Eis a pergunta inconveniente: se uma família perdeu o salário apostando, o dinheiro que chegou ao futebol continuava sendo moralmente neutro?
Porque é muito confortável dizer que o clube apenas recebeu patrocínio. Mas o dinheiro não brota do gramado. Ele vem de algum lugar.
E, no caso das bets, o próprio governo tem apresentado dados preocupantes sobre endividamento e transtorno do jogo. O Ministério da Saúde citou aumento expressivo dos atendimentos relacionados a jogo patológico e destacou a associação entre problemas com apostas, dificuldades financeiras e risco de suicídio.
Nesse contexto, a indignação de alguns setores do futebol diante da proibição chega a produzir uma pergunta quase indecente: o que exatamente deveria ser preservado: o negócio das apostas ou a saúde das pessoas?
É claro que clubes perderão receitas, e é claro que contratos terão de ser renegociados.
É claro que haverá impacto financeiro.
Mas isso não transforma a manutenção das bets em direito adquirido do futebol.
O Estado não existe para garantir que clubes mantenham determinado patrocinador.
Clubes precisam encontrar outras fontes de receita. Essa deveria ser a parte adulta da conversa.
A MP ainda precisará passar pelo Congresso Nacional. Medidas provisórias têm força de lei imediatamente, mas dependem da apreciação da Câmara e do Senado para se converterem definitivamente em lei; o prazo inicial é de 60 dias, prorrogável automaticamente por mais 60 se a votação não for concluída. Depois de 45 dias sem votação, a MP entra em regime de urgência.
Portanto, a história não terminou com a assinatura presidencial. Começou uma batalha legislativa.
O Congresso poderá aprovar, rejeitar ou alterar a medida dentro do processo constitucional de apreciação. Enquanto isso, entretanto, suas determinações já produzem efeitos.
E aqui está o ponto que parece escapar a determinados dirigentes: o futebol não está acima da sociedade.
Não existe cláusula constitucional dizendo que uma casa de apostas precisa continuar patrocinando o clube porque o departamento financeiro ficou acostumado com aquela receita.
Existe, isso sim, uma sociedade tentando descobrir como lidar com uma indústria que cresceu numa velocidade muito maior que a capacidade das famílias de compreender seus riscos.
O futebol pode reclamar,pode discutir a constitucionalidade pode pressionar o Congresso, pode procurar novos patrocinadores e pode reorganizar suas contas.
Tudo isso faz parte da democracia e do mercado.
O que não pode é transformar a camisa do clube em argumento moral para preservar uma indústria que deixou atrás de si um rastro de endividamento e sofrimento.
Porque existe uma diferença fundamental entre perder um patrocinador e perder uma vida.
O primeiro se resolve com uma reunião do departamento comercial. O segundo não tem departamento comercial que resolva.
Talvez seja hora de o futebol brasileiro descobrir uma coisa bastante antiga: nem todo dinheiro disponível precisa ser aceito.
E talvez essa seja a verdadeira crise provocada pelas bets.
Não a possibilidade de faltar dinheiro para o futebol, mas a possibilidade de descobrirmos que, durante algum tempo, confundimos dinheiro fácil com dinheiro legítimo.
O futebol não vai acabar.
Só precisará aprender a jogar sem a casa de apostas no peito.
E isso, convenhamos, deveria ser muito menos dramático do que uma família perder tudo.



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