domingo, 27 de setembro de 2026

Catolicismo sob ataque

Quando o pastor evangélico Victório Galli introduziu o projeto de lei 2.623/2007 para eliminar Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil, a justificativa era a de que isso respeitaria a laicidade do Estado - um argumento obviamente demagógico quando vindo de uma bancada que há décadas se esforça para alterar inúmeras leis com o único propósito de obrigar a sociedade a se adequar às suas crenças particulares.

Além disso, mesmo países conhecidos por seu secularismo, como os escandinavos, incluem em seu calendário uma série de datas que celebram elementos religiosos e que são vistas pelos cidadãos não como concessões à Igreja, mas com a compreensão de que se trata de heranças históricas e culturais (algo inevitável quando consideramos a idade e a prevalência do catolicismo).

Na época, integrante do PSL, que se tornaria também o partido pelo qual Jair Bolsonaro se tornaria presidente, Galli (hoje no PP), acabou vendo o projeto ser arquivado pela Câmara, mas essa de forma alguma se tornou a única tentativa por parte de evangélicos e bolsonaristas de atacar o catolicismo e outras religiões.

E como ações valem muito mais do que palavras, vejamos se as negativas da família Bolsonaro encontram respaldo no histórico do movimento que encabeçam:

Em 2022, quando Jair estava no poder, bolsonaristas invadiram as celebrações do Dia de Nossa Senhora Aparecida no Santuário de Aparecida e hostilizaram o padre Camilo Junior e o próprio arcebispo Dom Orlando Brandes. Não satisfeitos, atacaram também os funcionários da TV Aparecida e mesmo os fiéis presentes no Santuário. Ações similares aconteceram em Jacareí (SP) e em Curitiba.

É importante notar como o simples fato de um Bolsonaro estar no poder serviu para empoderar seus seguidores, e durante a gestão do miliciano, dúzias e dúzias de incidentes protagonizados por bolsonaristas indicaram justamente como estes se viram autorizados pelo líder a ações de franca hostilidade contra qualquer um que julgassem “inimigos”.

Mas sigamos: em 2021, o deputado estadual Frederico d´Avila, do extinto PSL de São Paulo (e aliado de primeira hora da família Bolsonaro), subiu à tribuna da assembleia para fazer um discurso extremamente agressivo contra católicos, insultando o arcebispo de Aparecida e também o Papa Francisco, usando termos como “vagabundo” e “safado”. Não satisfeito, chamou ambos de “pedófilos safados” (convenientemente ignorando os inúmeros escândalos de abuso sexual envolvendo pastores), e acho apenas apropriado que este mesmo parlamentar tenha proposto que a assembleia homenageasse ninguém menos do que o carniceiro Augusto Pinochet.

É relevante lembrar, também, como Michelle Bolsonaro declarou, durante um culto evangélico, que antes de seu marido ocupar o Planalto o palácio era um “lugar consagrado a demônios”, algo que lideranças religiosas encararam como um ataque aos artefatos e imagens católicos que fazem parte do acervo presidencial e que também incluem vários de religiões de matriz africanas (outro alvo constante de Michelle).

Outro representante do catolicismo atacado em massa por bolsonaristas foi o padre Zezinho, que abandonou as redes e denunciou os insultos dirigidos a ele, a bispos católicos e ao próprio Papa.

Perseguido com ainda mais virulência foi o padre Júlio Lancellotti, que, por abraçar comunidades economicamente à margem da sociedade, se tornou um verdadeiro vilão para evangélicos e bolsonaristas, que o acusavam de ser “comunista” (indicando como encaram o amor ao próximo como um conceito de esquerda, diga-se de passagem).

Entre as ações bolsonaristas houve a de Paulo Sposito, que fez uma óbvia ameaça de morte ao religioso católico ao publicar em rede social que os furtos em certa região da cidade só “sessarão (sic) quando o padreco Julio Lancenheta for transferido para outro pastoral ou for comer grama pela raiz” (e outro maluco bolsonarista chegou a invadir uma missa ministrada pelo padre para ameaçá-lo).

Outro padre atacado por bolsonaristas foi Lino Allegri, que, depois de citar os mortos pela COVID no Brasil em uma missa e a pouca atenção dada às vacinas, viu a sacristia ser invadida por bolsonaristas para insultá-lo, um ataque que se repetiu nos dias seguintes, quando bolsonaristas vestindo camisas da seleção brasileira invadiram as cerimônias religiosas para repetir as ofensas.

E não é à toa que estes líderes católicos temem pela própria vida, já que não é raro que os evangélicos bolsonaristas expressem seu ódio com violência física, como o sujeito que invadiu a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição durante uma missa e destruiu o sacrário e um crucifixo de madeira, além de ter tentado derrubar a imagem de Nossa Senhora da Conceição.

Porém, como mencionei anteriormente ao falar de Michelle Bolsonaro, a intolerância das lideranças evangélicas bolsonaristas não se limita ao catolicismo, como provou o então deputado Rodrigo Amorim (outro aliado da família miliciana) ao definir a Aldeia Maracanã (abrigo da espiritualidade indígena no Rio de Janeiro) como “lixo urbano”, completando que “quem gosta de índio, vá para a Bolívia”.

Já o pastor Daniel Martins Francisco, de Nova Iguaçu, foi autuado depois de divulgar vídeos nos quais aparecia quebrando imagens de várias divindades afro-brasileiras, chamando-as de “demônios”.

Vale apontar que esses “cidadãos de bem” incluem traficantes evangélicos: nas comunidades dominadas pelo chamado “Terceiro Comando Puro” (que um de seus líderes define como “convertida ao Evangelho”), fiéis de religiões de matriz africana foram expulsos e terreiros foram destruídos, com os ataques sendo ampliados para incluir eventos católicos, e a Paróquia de Santa Edwiges chegou a ser pichada com as letras TCP (não por coincidência, um pastor evangélico foi preso pela PF sob a acusação de ser laranja do grupo criminoso).

E isso está longe de ser um problema recente: em 1995 ocorreu o infame incidente no qual o pastor Sergio Von Helde chutou a imagem de Nossa Senhora Aparecida em um culto transmitido ao vivo e, em 2014, a Arquidiocese de Juiz de Fora publicou um artigo em seu site oficial questionando o vandalismo de evangélicos direcionados a símbolos católicos, um problema que seguiu existente, como comprova a ação do pastor paranaense Miguel Moreira, que quebrou a marteladas a imagem da mesma santa (e outra de Buda), queimando-as em seguida.

Assim, por mais que surjam negativas de ódio ao catolicismo por parte de evangélicos bolsonaristas (notem como, em uma de suas manifestações afastando-se do tema, o candidato não consegue sequer pronunciar o nome da santa), o histórico desse movimento já ofereceu inúmeras evidências do contrário.

E, como dito anteriormente, quando há uma figura extremista no poder, os radicais se sentem ainda mais empoderados para atacar os “inimigos”.

TEXTO DE:
Pablo Vilaça

sábado, 26 de setembro de 2026

O Futebol não irá acabar (que pena)

O futebol brasileiro passa pela maior tragédia de sua história: alguém resolveu mexer no dinheiro das bets.

Famílias endividadas? Problema social. Apostas compulsivas? Questão de saúde pública. Jovens transformando o celular em cassino? Tema para especialistas.

Pessoas perdendo patrimônio, relações familiares e, em casos extremos, a própria vida? Uma calamidade que precisa ser enfrentada.

Mas tire o patrocinador da camisa do clube e, subitamente, temos uma ameaça à sobrevivência do futebol brasileiro.

É uma curiosa escala de prioridades.

A Medida Provisória 1.394, assinada por Lula em 25 de setembro, proibiu a exploração, oferta, intermediação e publicidade das apostas de quota fixa no Brasil. A medida alcança tanto apostas esportivas quanto jogos on-line e também atinge autorizações estaduais e distritais.

E não se trata de uma proibição para algum futuro nebuloso.

A partir da publicação da MP, não podem ser concedidas novas autorizações. Em dez dias, as plataformas deverão retirar do ar os sites e aplicativos destinados às apostas. Também fica proibida a entrada de novos recursos nas contas dos apostadores. As apostas abertas que não tiverem resultado nesse período serão consideradas sem efeito, com restituição integral do valor apostado.

Depois vem a parte que deveria interessar particularmente aos clubes. Publicidade, propaganda, marketing e patrocínio de bets estão proibidos.

Os sinais de patrocínio e materiais publicitários já existentes deverão ser retirados em até dez dias.

Ou seja: acabou a placa, acabou a propaganda, acabou o nome da bet na camisa, acabou o anúncio no intervalo, acabou a tentativa de transformar cada escanteio em oportunidade de aposta.

E o mundo não acabará, os estádios continuarão de pé, a bola continuará redonda, a vitória continua valendo três pontos.

O torcedor continuará discutindo arbitragem como se fosse assunto de Estado.

E, curiosamente, o futebol brasileiro continuará existindo. Talvez seja exatamente isso que incomode.

Porque durante anos criou-se uma dependência tão grande do dinheiro das apostas que alguns dirigentes passaram a falar como se as bets fossem uma espécie de órgão vital do futebol. Como se o esporte tivesse nascido junto com o cassino eletrônico.

Não nasceu.

O futebol brasileiro ganhou cinco Copas do Mundo antes de existir esse modelo de apostas. Clubes foram campeões, revelaram jogadores, construíram estádios e formaram gerações de torcedores sem precisar transformar o uniforme em outdoor de cassino.

A diferença é que agora apareceu uma indústria com dinheiro abundante para comprar publicidade e patrocínio — e o futebol gostou.

Gostou tanto que parece ter esquecido de perguntar de onde vinha o dinheiro.

Eis a pergunta inconveniente: se uma família perdeu o salário apostando, o dinheiro que chegou ao futebol continuava sendo moralmente neutro?

Porque é muito confortável dizer que o clube apenas recebeu patrocínio. Mas o dinheiro não brota do gramado. Ele vem de algum lugar.

E, no caso das bets, o próprio governo tem apresentado dados preocupantes sobre endividamento e transtorno do jogo. O Ministério da Saúde citou aumento expressivo dos atendimentos relacionados a jogo patológico e destacou a associação entre problemas com apostas, dificuldades financeiras e risco de suicídio.

Nesse contexto, a indignação de alguns setores do futebol diante da proibição chega a produzir uma pergunta quase indecente: o que exatamente deveria ser preservado: o negócio das apostas ou a saúde das pessoas?

É claro que clubes perderão receitas, e é claro que contratos terão de ser renegociados.

É claro que haverá impacto financeiro.

Mas isso não transforma a manutenção das bets em direito adquirido do futebol.

O Estado não existe para garantir que clubes mantenham determinado patrocinador.

Clubes precisam encontrar outras fontes de receita. Essa deveria ser a parte adulta da conversa.

A MP ainda precisará passar pelo Congresso Nacional. Medidas provisórias têm força de lei imediatamente, mas dependem da apreciação da Câmara e do Senado para se converterem definitivamente em lei; o prazo inicial é de 60 dias, prorrogável automaticamente por mais 60 se a votação não for concluída. Depois de 45 dias sem votação, a MP entra em regime de urgência.

Portanto, a história não terminou com a assinatura presidencial. Começou uma batalha legislativa.

O Congresso poderá aprovar, rejeitar ou alterar a medida dentro do processo constitucional de apreciação. Enquanto isso, entretanto, suas determinações já produzem efeitos.

E aqui está o ponto que parece escapar a determinados dirigentes: o futebol não está acima da sociedade.

Não existe cláusula constitucional dizendo que uma casa de apostas precisa continuar patrocinando o clube porque o departamento financeiro ficou acostumado com aquela receita.

Existe, isso sim, uma sociedade tentando descobrir como lidar com uma indústria que cresceu numa velocidade muito maior que a capacidade das famílias de compreender seus riscos.

O futebol pode reclamar,pode discutir a constitucionalidade pode pressionar o Congresso, pode procurar novos patrocinadores e pode reorganizar suas contas.

Tudo isso faz parte da democracia e do mercado.

O que não pode é transformar a camisa do clube em argumento moral para preservar uma indústria que deixou atrás de si um rastro de endividamento e sofrimento.

Porque existe uma diferença fundamental entre perder um patrocinador e perder uma vida.

O primeiro se resolve com uma reunião do departamento comercial. O segundo não tem departamento comercial que resolva.

Talvez seja hora de o futebol brasileiro descobrir uma coisa bastante antiga: nem todo dinheiro disponível precisa ser aceito.

E talvez essa seja a verdadeira crise provocada pelas bets.

Não a possibilidade de faltar dinheiro para o futebol, mas a possibilidade de descobrirmos que, durante algum tempo, confundimos dinheiro fácil com dinheiro legítimo.

O futebol não vai acabar.

Só precisará aprender a jogar sem a casa de apostas no peito.

E isso, convenhamos, deveria ser muito menos dramático do que uma família perder tudo.

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Racismo na direção de arte

Talvez o mais assustador na polêmica envolvendo a campanha do Chuck 70 X, da Converse, não seja apenas a imagem que apareceu nas redes sociais. O mais assustador é imaginar a quantidade de pessoas que provavelmente olharam para aquelas fotografias antes da publicação e não perceberam (ou não quiseram perceber), aquilo que milhões de pessoas perceberam depois.

A primeira fotografia, protagonizada pela cantora sul-coreana Karina, do aespa, (figura que só fui saber da existência por causa deste fato), provocou críticas porque a iluminação sobre sua roupa branca formava uma silhueta triangular reproduzindo um capuz da Ku Klux Klan.

Os tênis pretos pendurados em suas mãos também foram associados visualmente aos pés de uma vítima de linchamento.

Pra completar a letra K, pode ser vista nos cadarços dos tênis.

A Converse retirou a imagem, pediu desculpas e reconheceu que havia errado.

Mas a história não termina aí.

Uma segunda fotografia da mesma campanha tornou o episódio ainda mais perturbador: modelos aparecem subindo uma escada para alcançar tênis pendurados em um galho de árvore. A composição foi interpretada como referência visual a linchamentos, reconhecidamente uma prática da própria Klu Klux Klan.

Ou seja: já não se tratava apenas de uma associação isolada percebida em uma fotografia. Duas imagens diferentes da campanha passaram a carregar o mesmo tipo de leitura.

É preciso ser intelectualmente honesto: não existe prova pública de que a Converse tenha deliberadamente produzido uma propaganda de exaltação da KKK. Também não existe prova de que os profissionais envolvidos sejam supremacistas ou simpatizantes do neonazismo.

Mas fica uma dúvida pertinente: como duas imagens com esse potencial simbólico chegaram ao público?

Publicidade não nasce espontaneamente.

Uma fotografia passa por conceito, direção criativa, produção, figurino, iluminação, fotografia, edição, marketing e aprovação. Em grandes empresas, a quantidade de filtros torna ainda mais difícil acreditar que uma peça simplesmente "aconteceu".

E é justamente aí que começa a discussão sobre os limites éticos da publicidade contemporânea.

A indústria descobriu que a polêmica vende. A imagem precisa provocar. O anúncio precisa gerar comentários. O consumidor precisa parar o dedo na tela. A indignação vira engajamento; o engajamento vira alcance; e o alcance, teoricamente, vira dinheiro.

Só existe um pequeno problema: nem todo símbolo pode ser transformado em ferramenta de marketing.

O capuz da KKK não é apenas uma forma geométrica.

A árvore associada ao linchamento não é apenas um elemento cenográfico.

O linchamento de pessoas negras não é uma estética vintage.

Existe uma história de sangue por trás desses símbolos.

E quando a publicidade começa a brincar com eles, mesmo que involuntariamente, alguma coisa muito séria falhou.

Talvez seja justamente nesse ponto que a discussão sobre a nova geração precise ser feita.

Vivemos uma época em que jovens estão cada vez mais expostos a ambientes digitais nos quais discursos de ódio, mensagens hostis e conteúdos degradantes circulam em escala gigantesca.

Dados do Eurostat mostram que, em 2025, mais da metade dos usuários de internet entre 16 e 24 anos na União Europeia relatou ter encontrado mensagens hostis ou degradantes direcionadas a grupos ou indivíduos.

Isso não significa que uma geração inteira esteja se tornando neonazista.

Seria uma conclusão irresponsável.

Mas significa que símbolos extremistas estão circulando em ambientes nos quais antes permaneciam confinados a grupos marginais. E essa normalização merece atenção.

Quando um jovem encontra diariamente memes nazistas, símbolos supremacistas, discursos racistas e teorias conspiratórias transformadas em entretenimento, existe o risco de que determinados símbolos percam, para ele, a dimensão histórica e moral que possuem.

O que para uma geração pode significar terror racial, para outra pode começar a parecer apenas uma imagem "edgy", provocativa, irônica ou esteticamente interessante.

Esse fenômeno deveria preocupar também a publicidade. Porque os publicitários não são seres humanos produzidos fora da sociedade. Eles carregam para dentro das agências as referências culturais de seu tempo.

Não seria correto afirmar que uma campanha como a da Converse prova a existência de publicitários neonazistas.

Mas seria igualmente irresponsável fingir que a ascensão de discursos extremistas entre determinados setores da juventude não merece investigação cultural.

"Quem teve a intenção de fazer isso?"

"Que sociedade tornou possível que isso fosse considerado uma boa ideia?"

Essas talvez sejam perguntas que a publicidade esteja evitando.

Porque o problema contemporâneo não é somente a propaganda explicitamente racista. O problema também está na banalização gradual dos símbolos, na transformação do horror em estética e na utilização da controvérsia como estratégia comercial.

Primeiro, alguém publica. Depois, alguém reclama. Em seguida, a marca pede desculpas. Finalmente, a internet esquece.

E o departamento de marketing aprende uma lição perigosa: a polêmica funcionou.

É justamente esse ciclo que precisa ser rompido.

Criatividade não significa ausência de limites. Provocação não é sinônimo de inteligência. E liberdade artística não transforma o sofrimento histórico em propriedade estética de quem deseja vender um produto.

Um tênis deveria precisar apenas de uma boa campanha para ser vendido.

Quando precisa flertar visualmente com o capuz da Ku Klux Klan e com a imagem de um linchamento para chamar atenção, talvez o problema já não esteja no tênis.

Talvez esteja em uma indústria que, na corrida pelo próximo clique, tenha esquecido uma regra elementar: algumas imagens não são ousadas, são apenas irresponsáveis.




sábado, 19 de setembro de 2026

O Servidor Municipal de Campo Grande e a via-crucis dos Direitos conquistados

Em Campo Grande ( MS ), existe uma categoria que sustenta a máquina pública no dia a dia, mas que tem sido sistematicamente empurrada para a Justiça para ter reconhecido o que já é seu por direito: o servidor público municipal.

Não se trata de privilégio. Trata-se de adicional por tempo de serviço, progressão funcional, adicional de insalubridade, horas extras, revisão de quinquênio, diferenças de gratificações e direitos previstos no próprio Estatuto do Servidor do Município. Direitos que deveriam ser implementados administrativamente, de forma automática e respeitosa.

O que se vê, no entanto, é uma lógica perversa e já institucionalizada: a gestão municipal nega na via administrativa, força o servidor a ajuizar ação e, mesmo quando condenada, protela o cumprimento da decisão.

O servidor vence, mas não recebe. Ganha a sentença, mas não vê a implantação em folha. Obtém o trânsito em julgado, mas esbarra na falta de vontade política para cumprir o alvará, o RPV ou o precatório. É a vitória que não se concretiza, é o direito que vira papel.

E aqui entra o segundo gargalo, que precisa ser dito com responsabilidade: a morosidade do Judiciário.

Não se questiona a lisura e o compromisso de grande parte dos magistrados, mas o sistema é lento. Ações que tratam de verbas de natureza alimentar - o salário de quem vive do seu trabalho - tramitam por 3, 5, 7 anos na Vara da Fazenda Pública. Recursos intermináveis, perícias que demoram, cálculos que não acabam e uma execução que, por vezes, é mais demorada que o próprio processo de conhecimento.

O servidor de Campo Grande vive um ciclo de exaustão: é desrespeitado pela administração que deveria protegê-lo e é testado pela lentidão da Justiça que deveria socorrê-lo com urgência.

Isso gera três consequências graves:

1. Desvalorização e adoecimento: o servidor se sente desamparado, desmotivado e, muitos, adoecem.
2. Judicialização em massa: o Município transforma o Judiciário em departamento de RH, abarrotando varas com milhares de ações idênticas que poderiam ser resolvidas com uma mesa de negociação.
3. Custo maior para o erário: o que seria pago hoje sem juros e correção, amanhã será pago em dobro por força de precatório, com juros e multa.

Campo Grande precisa virar essa página. O respeito ao servidor não pode ser discurso de palanque em outubro e ação de negação em janeiro. Cumprir decisão judicial não é favor, é obrigação legal e constitucional. É respeito ao art. 37 da Constituição e ao princípio da dignidade do trabalhador.

Fica aqui o apelo desta coluna: que a Prefeitura de Campo Grande crie de fato uma mesa permanente de negociação com os Sindicatos, que mapeie as condenações repetitivas e implemente administrativamente o que já é pacificado no TJMS.

E que o Poder Judiciário, dentro de suas possibilidades e com a estrutura que merece ter, priorize e dê celeridade às ações de natureza alimentar dos servidores municipais.

O servidor não quer esmola. Quer apenas o que é seu.

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Anne Vitimista, a tragédia da falta de leitura de verdade



A mais nova modalidade de ignorância contemporânea: aquela que chega acompanhada de uma fotografia de livro grosso.

Em uma feira literária, uma jovem declarou que Além do Bem e do Mal, de Friedrich Nietzsche, era o melhor livro que havia lido no ano.

O pior? O Diário de Anne Frank. A justificativa: Anne Frank seria “vitimista”.

É difícil imaginar maneira mais eficiente de transformar uma opinião literária em um pequeno tratado sobre a falência da sensibilidade, um tratado sobre analfabetismo funcional.

Ninguém é obrigado a gostar da literariedade de Anne Frank. Ninguém precisa considerar seu diário uma obra-prima. É perfeitamente legítimo preferir Nietzsche, Dostoiévski, Machado de Assis, Clarice Lispector ou até um manual de manutenção de motocicletas.

O problema não está na preferência.

Está na palavra escolhida para descrever uma adolescente judia que precisou se esconder dos nazistas para tentar sobreviver.

“Vitimista” ?????

Anne Frank não estava fazendo campanha pela própria vitimização. Ela estava escondida.

Não estava procurando uma hashtag. Estava tentando sobreviver.

Não estava escrevendo um tratado sobre autopiedade. Estava registrando, em um diário, a vida cotidiana de uma adolescente perseguida por um regime que transformou o antissemitismo em política de Estado e conduziu milhões de judeus à perseguição, deportação e assassinato.

A diferença entre Nietzsche e Anne Frank não é que um tenha sido “profundo” e a outra, “vitimista”.

É que eles escreveram em condições históricas completamente diferentes e com propósitos diferentes.

Nietzsche fazia filosofia.

Anne Frank testemunhava a própria existência sob perseguição.

E existe uma ironia especialmente amarga na escolha de Nietzsche como símbolo de superioridade intelectual e contraponto nesse episódio.

Além do Bem e do Mal é uma obra filosófica de enorme importância e influência. Mas a história posterior do pensamento de Nietzsche também foi marcada por apropriações políticas.

O nazismo e seus propagandistas utilizaram e reinterpretaram elementos da obra nietzschiana, embora a relação entre Nietzsche e o nazismo não possa ser reduzida à fórmula simplista de que Nietzsche teria sido simplesmente um “influencer de Hitler”. A própria história editorial e interpretativa de sua obra, incluindo a atuação de sua irmã Elisabeth Förster-Nietzsche, tornou essa questão objeto de intenso debate histórico.

Isso deveria servir justamente para uma lição básica: livros complexos exigem leitura complexa.

Nietzsche não é uma carteirada de superioridade intelectual.

E conhecer o título de Além do Bem e do Mal não significa necessariamente ter compreendido Nietzsche. Ou sequer lido.

Existe, aliás, um fenômeno cada vez mais frequente: a intelectualidade como acessório.

Fotografa-se o livro. Publica-se a capa. Seleciona-se uma frase impactante.

Depois acrescenta-se uma expressão em alemão, uma palavra em latim e, se sobrar espaço, uma opinião sobre “a mediocridade das massas”, e... Pronto!

Nasceu um intelectual de Instagram.

O livro, coitado, continua fechado.

E talvez seja exatamente isso que esteja por trás de certas performances de erudição: não o prazer de descobrir ideias, mas o desejo de parecer alguém que descobriu ideias.

Ler de verdade dá trabalho.

É preciso enfrentar páginas difíceis, voltar parágrafos, reconhecer que não entendeu, consultar referências, confrontar o autor, descobrir que ele contradiz nossas próprias certezas.

O leitor verdadeiro não precisa parecer inteligente, pois ele está ocupado tentando entender.

Por isso existe algo profundamente revelador na comparação entre Nietzsche e Anne Frank: de um lado, uma das grandes figuras da filosofia moderna, cuja obra continua provocando debates sobre moral, verdade, poder e valores. Do outro, uma adolescente cuja escrita se tornou um dos testemunhos mais conhecidos da perseguição aos judeus durante o Holocausto.

Não são obras concorrentes.

Não estão disputando o mesmo campeonato.

Colocá-las em uma lista de “melhor” e “pior” é perfeitamente possível como exercício de gosto.

Transformar Anne Frank em exemplo de “vitimismo”, porém, revela uma incapacidade muito mais preocupante: a de compreender que determinados textos não existem apenas para nos divertir ou demonstrar a inteligência de quem os lê.

Alguns livros servem para nos lembrar do que aconteceu.

E isso também é literatura.

O diário de Anne Frank sobreviveu ao mundo que tentou silenciá-la, apagá-la. Seu texto atravessou décadas porque transformou uma tragédia histórica gigantesca em uma experiência humana concreta.

É fácil falar sobre seis milhões. Mais difícil é compreender uma menina.

Uma menina que tinha medo. Que brigava. Que sonhava. Que queria crescer. Que escrevia. Que esperava.

E que foi assassinada porque nasceu judia.

Talvez seja justamente aí que a suposta intelectualidade encontre seu teste definitivo.

Não na capacidade de citar Nietzsche, mas na capacidade de compreender Anne Frank.

Porque qualquer pessoa pode decorar o nome de um filósofo, porém, muito mais difícil é aprender com a História.

E existe uma forma particularmente triste de analfabetismo: ler muitos livros e continuar sem conseguir enxergar o ser humano dentro deles.

Nietzsche merece ser lido. Anne Frank também.

Mas, antes de tentar parecer intelectual diante de uma estante, talvez fosse conveniente aprender uma coisa que nenhum livro dispensa: humanidade não é sinônimo de vitimismo.

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Cármen Lúcia em dois atos

Não dá pra esquecer a madrugada de 5 de abril de 2018 no STF. No epicentro da sanha punitivista da Lava-Jato, o plenário decidia o habeas corpus do ex-presidente Lula em clima de guerra política.

Placar travado em 5 a 5. O peso do desempate caiu direto sobre os ombros da então presidente da Corte, a ministra Cármen Lúcia.

Depois de mais de dez horas de um debate sufocante e sob uma pressão avassaladora de todos os lados, ela escolheu romper com a ordem constitucional e soltou a frase que sintetiza a arbitrariedade daquele momento:

“O princípio da não-culpabilidade não pode levar à impunidade.”

Com essa justificativa indefensável, a ministra simplesmente relativizou a presunção de inocência, garantia pétrea da Constituição, como se fosse um mero empecilho burocrático a ser ignorado.

Para ela, respeitar o devido processo legal e aguardar o esgotamento dos recursos era "apequenar" o Supremo. Na prática, escolheu rasgar a lei para atender ao clamor de um momento de exceção.

Foi esse voto de minerva que desequilibrou a balança, abriu o caminho para a expedição arbitrária do mandado de prisão dias depois e consagrou um dos capítulos mais sombrios, tensos e vergonhosos da nossa história jurídica e política recente.

Portanto, não venham com discurso de grandeza dessa senhora oportunista. Não me comove.

TEXTO DE:
Ricardo Queiroz

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Cármen Lúcia ficou escondida na sua cadeira enquanto ocorria um debate acalorado, porém, sem sentido no Supremo Tribunal Federal.

O objeto de debate? Nenhum.

Como evidenciado pelo Ministro Alexandre de Moraes, não havia pedido de investigação contra ele, nem do Ministério Público Federal, nem da Polícia Federal, nem pela Procuradoria Geral da República, e nem mesmo do ministro André Mendonça.

Não havia objeto.

Mesmo assim, Fachin, teimava em tentar entregar a cabeça de Moraes em uma bandeja, tanto a bolsonaristas como as viúvas da maldita Operação Lava-Jato.

Os ministros Gilmar Mendes e Flávio Dino, destruíram Fux, Fachin e Mendonça com uma sustentação visceral.

Nada saiu como o esperado pela quadrilha golpista e para a imprensa nojenta que clama por um acerto de contas contra Moraes, por motivos que só a própria imprensa pode explicar.

Talvez a imprensa brasileira preferisse que o golpe tivesse alcançado sucesso.

E então, aparece Cármen. Ou, não aparece. Depende do ponto de vista.

Cármen a silenciosa. A lacradora. A envergonhada.

Para dizer que se sentia envergonhada do Supremo, e que assumia que não havia feito o suficiente para que a Corte não chegasse a essa situação.

Realmente, ministra Cármen. A senhora nunca atuou para que a Corte melhorasse. Pois apesar de seus discursos bonitos, e toda sua capacidade de lacração, seus atos e seus votos sempre foram na contra-mão de suas próprias palavras.

Foi assim, quando disse que a Corte não deveria votar pelo clamor popular para depois votar contra a Constituição e mandar para cadeia um inocente Lula, e de maneita objetiva, ajudar a pavimentar a chegada de um golpista à presidência.

Assim como agora, repetiu o mesmo discurso, mesmo confessando que estava preocupada com o fato de ter ido a padaria, e lá, só se comentava sobre o STF. Apesar de suas palavras, estava pronta para se juntar a Fachin, e entregar a cabeça de Moraes.

Afinal, era esse o clamor popular. Que a senhora renega, mas apoia nas votações.

Virou a heroína da imprensa.

Porque a imprensa adora palavras. E as suas palavras serviam para esconder do povo brasileiro, o que realmente ocorreu nesta tarde fatídica de 15 de setembro de 2026.

A continuidade da tentativa de golpe de estado, de dentro da própria Corte.

Capitaneada pelos mesmos Lavajatistas de antes: Fachin e Fux, com a fileira reforçada por um pseudo-pudico.

Não, Cármen. Você não é heroína.

Nunca foi e nunca será.

Pois uma ministra, que se envergonha da própria Corte, que quando presidiu, impediu que a liberdade de un inocente fosse votada, jamais pode ser considerada heroína desta própria Corte que ajudou a diminuir.

TEXTO DE:
Tarciso Tertuliano

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Orwell entrou sem convite na sala errada do STF

Quando o ministro André Mendonça invocou “1984” para justificar o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal (afastamento revogado posteriormente pelo ministro Flávio Dino), talvez tenha produzido uma das mais curiosas ironias jurídicas da atual crise institucional brasileira.

George Orwell provavelmente não imaginou que, décadas depois da publicação de 1984, sua obra seria convocada para dentro de uma decisão do Supremo Tribunal Federal. Menos ainda poderia imaginar que o livro seria utilizado por um ministro da Suprema Corte para descrever aquilo que ele considerou uma espécie de aparato de vigilância instalado dentro da Polícia Federal.

André Mendonça comparou o quadro que encontrou nos relatórios de inteligência da PF ao universo de 1984, a distopia em que o Estado vigia permanentemente seus cidadãos e transforma a informação em instrumento de controle. Na decisão, o ministro afirmou ter sido submetido, juntamente com o advogado-geral da União, Jorge Messias, a monitoramento sistemático pela inteligência policial.

O problema não está em citar Orwell.

O problema está em quem cita Orwell, em que circunstância e para justificar qual ato de poder.

Porque 1984 não é simplesmente um livro sobre espionagem. É uma advertência contra a concentração de poder, contra a destruição das fronteiras entre Estado e indivíduo, contra a transformação das instituições em instrumentos de controle e, sobretudo, contra a possibilidade de o poder criar sua própria verdade.

O personagem central da obra, Winston Smith, vive num Estado em que o poder não apenas observa: ele determina aquilo que pode ser considerado verdadeiro.

Por isso, a referência de Mendonça exige muito mais cuidado do que uma simples comparação literária.

O ministro acusou a Polícia Federal de produzir relatórios de inteligência sobre sua atuação e sobre a atuação do advogado-geral da União. A própria PF, entretanto, sustentou posteriormente que os documentos não tinham caráter investigativo ou acusatório e que haviam sido produzidos no âmbito de atividade de inteligência. Andrei Rodrigues também afirmou a Edson Fachin que a entrega dos relatórios ocorreu por determinação judicial de Alexandre de Moraes e negou que a PF tivesse monitorado ilegalmente Mendonça ou Jorge Messias.

É justamente aí que a citação de Orwell começa a ficar problemática.

Porque uma coisa é demonstrar que determinado relatório pode conter informações inadequadas, especulações ou procedimentos eventualmente ilegais.

Outra, muito diferente, é transformar essa conclusão em fundamento suficiente para retirar preventivamente do cargo o diretor-geral da Polícia Federal — uma instituição pertencente ao Poder Executivo, cujo diretor-geral é nomeado pelo presidente da República.

A controvérsia constitucional foi levantada imediatamente. A Advocacia-Geral da União sustentou que a decisão atingia a prerrogativa constitucional do presidente da República para prover e desprover cargos de direção da Polícia Federal. Gilmar Mendes também questionou a competência da Segunda Turma para analisar o caso e defendeu que a questão poderia ser de competência do Plenário.

E então chegamos à ironia.

O ministro olha para a Polícia Federal e enxerga 1984. Mas nós podemos olhar para o episódio inteiro e fazer outras perguntas:

Quem vigia quem? Quem controla quem? Quem pode afastar quem?

Até onde pode ir um ministro do Supremo quando uma instituição do Executivo é acusada de ultrapassar seus limites?

E, principalmente: quais são os limites do próprio Supremo quando seus ministros entram em conflito direto com órgãos que investigam fatos envolvendo integrantes da própria Corte?

Essas perguntas não são retóricas demais para uma democracia. São precisamente as perguntas que uma democracia constitucional precisa fazer.

O caso ganhou uma dimensão sensível porque o afastamento de Andrei Rodrigues ocorreu no contexto de uma crise envolvendo o próprio Mendonça e Alexandre de Moraes. Um relatório da PF havia sido utilizado por Moraes para pedir investigação contra Mendonça, enquanto Mendonça, dias depois, determinou o afastamento do diretor-geral da corporação e do diretor de Inteligência.

Não é necessário atribuir intenção pessoal a ninguém para reconhecer o óbvio: a aparência institucional do episódio é péssima.

O cidadão comum pode perfeitamente perguntar se estamos diante de uma investigação sobre possíveis irregularidades cometidas pela Polícia Federal ou de uma guerra institucional entre autoridades poderosas na qual a PF acabou transformada em campo de batalha.

E é precisamente nesse ponto que 1984 deveria ser lido com mais atenção.

Orwell não escreveu uma cartilha para que autoridades encontrassem analogias convenientes em decisões judiciais. Escreveu uma advertência sobre o que acontece quando o poder deixa de aceitar limites.

O verdadeiro espírito de 1984 não está simplesmente na existência de alguém observando.

Está na possibilidade de o poder controlar os mecanismos de observação, definir a narrativa sobre aquilo que foi observado e utilizar a própria estrutura institucional para impor sua interpretação dos fatos.

Por isso, a referência ao livro pode acabar produzindo um efeito contrário ao pretendido.

Se a preocupação é impedir que a inteligência policial se transforme em instrumento de perseguição política, excelente: que se investigue. Que se identifiquem os responsáveis. Que se estabeleça a cadeia de comando. Que se descubra quem produziu os documentos, por que foram produzidos, quem os solicitou, quem os recebeu e qual finalidade tiveram.

Mas isso precisa ocorrer dentro do devido processo legal, do contraditório, da competência constitucional de cada instituição e da separação dos Poderes.

Não existe combate ao abuso de poder por meio de outro abuso de poder. Essa é uma regra básica.

E talvez seja justamente aí que Orwell seja mais atual. Porque uma democracia não se protege apenas quando impede que a Polícia Federal vigie ilegalmente um ministro. Ela também se protege quando impede que um ministro, ainda que legitimamente preocupado com sua própria segurança institucional, ultrapasse os limites constitucionalmente estabelecidos para controlar uma instituição de outro Poder.

A democracia não escolhe um lado entre a PF e o STF.

A democracia escolhe a Constituição.

E a Constituição não deveria precisar de literatura distópica para lembrar às autoridades aquilo que ela já estabelece em linguagem muito mais objetiva: nenhum poder é absoluto.

O episódio, portanto, merece ser investigado com seriedade. Se houve monitoramento ilegal, os responsáveis precisam responder. Se houve produção irregular de documentos, que sejam identificados os autores e responsabilizados. Se houve abuso por parte de agentes públicos, que a Justiça atue.

Mas se a intenção é combater uma suposta lógica de 1984, é preciso tomar cuidado para não construir, em nome desse combate, uma nova lógica em que uma única autoridade possa investigar, julgar a gravidade dos fatos e afastar preventivamente o dirigente máximo de uma instituição do Executivo, enquanto a própria competência para fazê-lo ainda é objeto de controvérsia.

Isso não significa dizer que o ministro André Mendonça se comportou como o “Grande Irmão”. Significa algo mais simples e muito mais importante: em uma República, nem mesmo o ministro que teme estar sendo vigiado está acima dos limites que devem proteger todos nós contra o poder sem limites.

Talvez esta seja a leitura de Orwell que realmente importa.

Não perguntar apenas:
“Quem está nos vigiando?”
Mas também:
“Quem vigia os vigilantes?”
E, numa democracia constitucional:
“Quem vigia aqueles que têm poder para afastar os vigilantes?”

Essas perguntas não ão subversivas.

É democrática, cacete!

E talvez seja exatamente por isso que ela seja tão necessária agora.