A degradação do debate público brasileiro não acontece apenas nos grandes escândalos institucionais.
Ela também se revela nos personagens que ascendem politicamente não pela elaboração intelectual, pela capacidade administrativa ou pelo compromisso republicano, mas pelo espetáculo grotesco da vulgaridade convertida em capital eleitoral.
O caso do deputado André Fernandes (alcunhado Raspa Cu) é quase um resumo em caricatura do bolsonarismo enquanto fenômeno político-cultural.
Trata-se de um parlamentar que ganhou notoriedade nas redes sociais ensinando a depilar o próprio ânus na internet (sim, este é o nível da tragédia nacional), e que posteriormente converteu a estética do constrangimento em plataforma eleitoral.
Não estamos diante de um acidente de percurso. Estamos diante de um método.
É quase poético, no pior sentido possível: o sujeito sai do tutorial de "raspa cu" para a Câmara dos Deputados sem precisar atravessar o deserto do pensamento.
Entre um vídeo grotesco e outro, constrói-se uma carreira baseada não na elevação do debate público, mas na degradação deliberada dele.
E então chegamos ao episódio envolvendo a deputada Erika Hilton durante o debate sobre a escala 6x1.
Em vez de apresentar argumentos sólidos sobre relações trabalhistas, produtividade ou impacto econômico da jornada exaustiva imposta a milhões de brasileiros, o parlamentar recorre ao velho método bolsonarista: o insulto, a provocação pueril e a tentativa permanente de humilhar o adversário diante das câmeras. Chegou a chamar trabalhadores que se encontravam nas dependências da Câmara de vagabundos.
Perceba a lógica da coisa: quando falta densidade intelectual, sobra performance agressiva. O bolsonarismo produziu uma geração de políticos cuja principal habilidade não é legislar, mas viralizar.
O Parlamento vira cenário de TikTok; a tribuna se converte em ringue de quinta categoria; e a política passa a funcionar como reality show de ressentimento moral.
No caso de Erika Hilton, há um componente ainda mais grave. Mulher trans, negra e oriunda das periferias, ela simboliza exatamente tudo aquilo que a bolsonarismo aprendeu a transformar em alvo preferencial: diversidade, ascensão social de minorias e ocupação de espaços historicamente monopolizados por homens brancos conservadores.
Não basta discordar dela. É preciso tentar desumanizá-la publicamente para alimentar a militância do ódio.
E aqui reside uma das marcas mais tóxicas do bolsonarismo: a destruição sistemática da ideia de adversário legítimo.
Na democracia, divergências são naturais; no autoritarismo cultural bolsonarista, o outro precisa ser ridicularizado, esmagado e tratado como inimigo moral da nação. O argumento perde importância; o que importa é a humilhação performática.
Tudo isso ocorre enquanto milhões de trabalhadores brasileiros enfrentam jornadas brutais na escala 6x1, vivendo para trabalhar em vez de trabalhar para viver. Mas discutir seriamente as condições materiais da população exigiria estudo, responsabilidade e capacidade de formulação, atributos pouco compatíveis com quem ascendeu politicamente ensinando procedimentos íntimos de depilação do cu, nas redes sociais.
Há algo de simbolicamente devastador nisso tudo: um bolsonarismo que se apresenta como defensora da “moral” e dos “bons costumes”, mas que ajudou a transformar a política brasileira em uma mistura de algoritmo, grosseria e espetáculo degradante.
O resultado é um Parlamento cada vez mais parecido com um feed de rede social tóxica: muito barulho, pouca inteligência e nenhuma grandeza republicana.
A democracia não morre apenas quando tanques ocupam as ruas. Ela também apodrece quando o grotesco vira virtude política e quando figuras que deveriam honrar a representação popular preferem atuar como influenciadores de baixíssimo nível travestidos de estadistas.
No fim, o deputado qhe se elegeu por "raspar o cu", teve de asssumir a "cara de cu" ao ae ver derrotado na votação da escala 6x1.
Agora, sigamos ao Senado, outra cloaca do sistema.
Boa sorte aos tranalhadores.



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