sábado, 7 de fevereiro de 2026

Adolf Trump ou Donald Hitler?

Donald Trump publicou em uma rede social, uma imagem do Barack Obama, ex-presidente dos Estados Unidos, e a sua esposa, Michelle Obama, em corpos de macacos.

Sim! A Klu Klux Klan está dentro da Casa Branca e com o aval de boa parte da população dos EUA.

Isso não é só uma provocação política, isso é uma ofensa racial explícita.

Olhe o peso histórico que isso carrega.

Comparar pessoas negras a macacos não é uma metáfora infeliz, é um dos símbolos mais antigos, mais violentos, mais cruéis da desumanização racial no mundo. Foi esse imaginário que sustentou a escravidão, o colonialismo, a segregação, a ideia de que certos corpos seriam menos humanos do que outros.

Nos Estados Unidos, essa imagem tem um significado ainda mais cruel. Ela foi usada durante séculos para justificar a escravidão de milhões de africanos, a sistemática perseguição a mulheres negras, a separação das famílias, os linchamentos, as leis de segregação e exclusão social, que foram institucionalizadas nos Estados Unidos até a década de 1960.

Isso é história. Isso é reativar conscientemente um código de violência simbólica que atravessa gerações. Tem uma coisa muito grave aqui, que é o colapso do decoro institucional. Um chefe de estado não pode falar isso, nunca pode falar isso.

Ninguém pode falar isso, ainda mais um chefe de estado. Ele está carregando com ele o peso do cargo que ele está ocupando, da democracia que representa (mas não respeita!) e que ele representa as instituições que ele deveria proteger.

Quando alguém nessa posição normaliza um ataque como esse, a gente está desumanizando pessoas e estamos dizendo que é aceitável.

A política democrática pressupõe discordância, até debate, dureza. Ela não comporta a destruição do outro como ser humano. Quando esse limite é ultrapassado, a gente não está falando mais de direita, de esquerda, de conservador, de progressista. A gente está falando de civilização.

Normalizar um gesto como esse não fortalece ninguém, empobrece o debate público. Esse episódio não pode ser tratado como uma polêmica, ele tem que ser nomeado pelo que ele é, racismo explícito, desprezo institucional e falência ética.

A política imigratória de Trump, uma política xenófoba, racista e que tem atacado os direitos humanos e que tem sido muito prejudicial nos Estados Unidos.

A democracia é isso, uma experiência na qual a ideia de justiça é permanentemente em aberto para que quem vem depois pense se aquilo é justo para ele. O que foi justo para os nossos bisavós não é justo para nós. É preciso que a gente repense tudo isso, e é pela educação que se faz.

Então, é preciso um chamamento aos homens, é preciso, tem que ser constrangedor.

Fazer piada racista, machista, misógena, banalizar corpo, atitude, emancipação feminina, autonomia, é preciso ser constrangedor.

Essas pessoas têm que voltar para o armário dos traumas que eles têm, dos distúrbios que eles venham a ter, do ódio que eles carregam, vão se tratar, vão se tratar.

Não é mais aceitável esse ambiente de violência extrema, o silêncio dos bons. Se temos bons homens, bons pastores, bons líderes religiosos, bons líderes políticos, vambora trabalhar para acabar com esse cenário.

TEXTO DE:
Thiago Muniz



sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Inflacionamento do futebol brasileiro

Há um movimento acontecendo no futebol brasileiro extremamente nocivo: inflação desacerbada de algumas contratações.

E vou exemplificar bem. Primeiro a de Gerson pelo Cruzeiro, depois a do Lucas Paquetá via Flamengo e agora estará sendo concretizada a de John Árias pelo Palmeiras.

Valores estratosféricos e nenhum deles faz jus aos valores empregados. É muito mais uma demonstração de poder perante aos demais clubes do que inteligência, uma aposta em médio e longo prazo.

O debate não é sobre méritos, e sim sobre ganância e poder de compra. E isso sempre existiu e não vai morrer dentro do universo do futebol.

O grande problema é esses clubes forçarem os demais a também tentarem cifras altas por contratações e mais para frente não honrarem com seus compromissos e na cara de pau ocasionarem calotes homéricos.

Valores e salários altos exigem expectativas e cobranças altas.

O Cruzeiro hoje possui o seu “Midas”, o Flamengo com essa atual diretoria ao que parece possui uma ideologia diferente do modelo de gestão anterior mas que mantém uma certa sustentabilidade financeira, e o Palmeiras onde tem uma presidente que acha que possui dinheiro infinito só porque o seu marido é banqueiro e já foram patrocinadores master com poderes.

Isso leva a contratações bem duvidosas, ainda mais pelas cifras inflacionadas. Num médio a longo prazo será extremamente nocivo pois vai mexer com o sentimento passional do torcedor.

Em ano de Copa do Mundo há alguns clubes com poder financeiro abastados, com modelos de gestão diferentes uns dos outros e que literalmente deram “All-in” em seus cofres.

Gerson saiu do Flamengo se sentindo desvalorizado, partiu para o futebol (sancionado) russo onde viu que a realidade era outra e vendo a possibilidade de mais uma Copa do Mundo escapar, seu pai e empresário achou a “galinha dos ovos de ouro” no Cruzeiro

Lucas Paquetá é um caso atípico de inflação. Sem espaço  na Premier League e nas demais ligas da Europa; acha uma espécie de portal da redenção voltando para o futebol brasileiro, no mesmo clube que o revelou, com uma realidade financeira megalomaníaca; bate na mesa e quebra o recorde do futebol brasileiro.

Detalhe: ele não tem repertório técnico para justificar esse valor de contratação. E seleção brasileira no currículo já não é mais parâmetro há décadas. Veremos cenas dos próximos capítulos e se por acaso o PIB de uma ilha homônima ao nome do jogador aumentar consideravelmente depois de algum jogo, desconfie.

O caso do Árias é atípico de como não se planejar e seguir somente um sonho. Tenhas muito cuidado com aquilo que desejas; um jogador com contrato vigente no Fluminense, com um acordo verbal do presidente anterior de que o liberaria após a Copa do Mundo de Clubes, na qual estava bem valorizado; fez valer ao máximo esse acordo verbal e saiu do clube na condição de ídolo máximo para um clube de zero expressão na Premier League na qual ficou meses no ostracismo.

Com a Copa do Mundo batendo na porta e o clube de zero expressão já deixando bem claro que não vai contar com ele na próxima temporada, se vê numa “faca de dois legumes”; a promessa pública de que só voltaria ao futebol brasileiro para o Fluminense e pela proposta altíssima do Palmeiras.

Onde estava o assessor ou empresário do Árias lá no ano passado que não orientou ele a não falar isso publicamente?

Veremos cenas dos próximos capítulos.

TEXTO DE:
Thiago Muniz


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

A matemática da indecência

O Congresso Nacional voltou a provar que não sofre de ignorância econômica, mas de algo bem mais grave: falta de vergonha na cara.

Na tarde de terça-feira (3), Câmara e Senado aprovaram um reajuste salarial para seus servidores cujo impacto chega a R$ 790 milhões. Um valor que supera a arrecadação anual de 95% dos municípios brasileiros. Sim, quase todo o Brasil real cabe dentro do aumento concedido ao Brasil oficial.

Agora, respire fundo e faça o exercício de memória que certos parlamentares preferem evitar.

São os mesmos políticos que, não faz muito tempo, torceram o nariz, fizeram discursos sobre “responsabilidade fiscal” e votaram contra — ou sabotaram — o vale-gás, um benefício modesto destinado a famílias que precisam escolher entre cozinhar ou comer. Para o pobre, o cofre está sempre vazio; para o próprio umbigo, o Tesouro é elástico.

A lógica é cristalina:
– R$ 100 para o gás? “Populismo”, “assistencialismo”, “rombo nas contas públicas”.
– R$ 790 milhões para a elite administrativa do Parlamento? “Valorização do servidor”, “justiça salarial”, “necessidade institucional”.

É uma contabilidade moralmente fraudulenta.

O problema não é a existência de servidores públicos — eles são essenciais.

O problema é o timing, o contexto e, sobretudo, a hipocrisia.

Num país em que municípios fecham postos de saúde por falta de verba, em que prefeitos mal conseguem pagar professores, o Congresso decide que a urgência nacional é reajustar salários no coração do poder.

E note-se: não se trata de ignorância sobre a realidade social. Trata-se de consciência plena. Eles sabem. Sabem que o valor do reajuste pagaria o gás de milhões de famílias por meses. Sabem que o discurso da austeridade só aparece quando o destinatário é pobre. Sabem — e fazem mesmo assim.

Isso não é erro de cálculo. É escolha política.

Quando um Parlamento vota com rapidez para garantir conforto aos seus e demora, trava ou rejeita políticas mínimas de proteção social, ele envia uma mensagem clara: o Estado existe, antes de tudo, para quem manda.

Depois, claro, virão os discursos inflamados sobre “desigualdade”, “sensibilidade social” e “compromisso com o povo”.

Palavras são baratas.

O que custa caro — R$ 790 milhões, por exemplo — é sempre reservado a quem já está sentado à mesa do poder.

O resto que se vire com o botijão vazio.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Beto Simonetti: quando defender a Constituição vira ato de coragem

A obrigação moral de aplaudir quem faz o básico, em 2026, é profundamente reveladora.

Beto Simonetti, presidente da OAB, no primeiro dia da retomada dos trabalhos do Legislativo, limitou-se a dizer o que está escrito — pasmem — na Constituição.

E fez disso um pronunciamento.

Corajoso? Não.

Necessário.

O que diz muito mais sobre o ambiente do que sobre o orador.

Simonetti defendeu o STF e o devido processo legal. Não pediu revolução, não clamou por “ativismo judicial”, não invocou teorias criativas sobre “vontade popular acima da lei”.

Apenas lembrou que democracia não é um reality show institucional em que se elimina o Supremo por voto emocional.

É chato, eu sei. Funciona com regras. E regras, por definição, frustram os ansiosos por atalhos.

O presidente da OAB fez algo que hoje soa quase insolente: reafirmou que o Supremo Tribunal Federal não é um capricho de toga, mas um pilar do arranjo constitucional.

Que decisões judiciais não se combatem com linchamento retórico, mas com recursos — dentro da lei, esse palavrão. E que devido processo legal não é um detalhe burocrático inventado para proteger “os de cima”, mas a última trincheira de qualquer cidadão quando a turba resolve achar culpados antes de provas.

Sim, houve quem torcesse o nariz. Sempre há. Afinal, vivemos tempos em que parte do debate público acredita que garantias constitucionais são privilégios e que juízes devem decidir conforme o humor das redes sociais.

Simonetti foi lá e estragou a festa: lembrou que não há democracia sem instituições, nem instituições sem limites, nem limites sem STF.

A ironia maior é esta: defender o Supremo hoje virou, para alguns, sinônimo de autoritarismo.

Uma ginástica mental admirável.

Segundo essa lógica, autoritário é quem aplica a Constituição; democrático é quem quer rasgá-la em nome de uma abstração chamada “povo”, geralmente definida por quem grita mais alto.

Ao se posicionar, a OAB — por meio de seu presidente — fez aquilo que dela se espera desde 1930: não defender governos, partidos ou humores, mas o Estado de Direito.

Num país em que o óbvio anda desaparecido, isso soa quase como um manifesto.

Convém registrar: não se trata de idolatrar o STF, instituição humana e falível, como qualquer outra. Trata-se de entender que a crítica legítima não prescinde de legalidade, e que o ataque sistemático às Cortes não é “liberdade de expressão”, mas método conhecido de erosão democrática.

Beto Simonetti não salvou a República. Não era esse o ponto. Apenas lembrou onde ela está escrita.

E, convenhamos, num tempo de analfabetismo constitucional militante, isso já é um serviço público dos bons.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Eulogy, o episódio perfeito de Black Mirror

O episódio Eulogy, da sétima temporada de Black Mirror, é menos sobre tecnologia e mais sobre memória — não como registro fiel do passado, mas como construção emocional. A inovação tecnológica apresentada não cria o conflito; ela apenas força o protagonista a encarar aquilo que ele passou anos evitando: a sua própria história.

Desde o início, somos apresentados a um homem que vive cercado de lacunas. As fotos da antiga namorada estão danificadas, o rosto dela nunca aparece por inteiro, e suas lembranças surgem fragmentadas, desfocadas, sempre interrompidas antes de chegar ao essencial. Nada disso é acidental. Eulogy constrói uma metáfora poderosa: quando escolhemos uma narrativa defensiva, a memória também se defende.

QUANDO NÓS SOMOS OS VILÕES DAS OUTRAS PESSOAS

O protagonista acredita, durante boa parte de sua vida, que foi o lado ferido da relação. A história que ele conta a si mesmo é simples, confortável e incompleta: ela falhou, ela foi injusta, ela destruiu algo que ele tentou preservar. Mas Eulogy desmonta essa lógica com cuidado e crueldade.

À medida que as lembranças avançam, fica claro que a relação não terminou por um único ato, mas por uma sucessão de pequenas violências emocionais, silêncios, orgulhos e incapacidades mútuas de escuta. O episódio aponta para uma verdade incômoda: é perfeitamente possível ser o vilão da história de alguém enquanto se enxerga como protagonista injustiçado da própria narrativa.

Aqui, Black Mirror toca em algo profundamente humano — a facilidade com que editamos o passado para preservar nossa autoimagem.

MAIS DIFÍCIL DO QUE PERDOAR O OUTRO É PERDOAR ISSO MESMO

O coração emocional de Eulogy não está no perdão direcionado à mulher que morreu, mas no perdão que o protagonista precisa conceder a si mesmo. Ele não sofre apenas pela perda do amor; sofre porque percebe, tarde demais, que também foi responsável pelo fracasso da relação.

O episódio sugere que o autoengano cobra juros altos. Enquanto ele sustenta a versão em que é apenas vítima, suas memórias permanecem quebradas — literalmente. As fotos seguem danificadas, o rosto dela inacessível. Só quando ele aceita sua parcela de culpa, reconhece suas falhas e abandona a necessidade de se inocentar, algo muda.

O perdão, aqui, não é absolvição. É reconhecimento. É a capacidade de dizer: eu amei, mas também feri.

O ROSTO POR TRÁS DAS FOTOS

Um dos símbolos mais delicados de Eulogy é o fato de que o protagonista só consegue ver nitidamente o rosto da namorada quando aceita a história inteira — não apenas a parte que o favorece. Enquanto ele insiste em uma narrativa mutilada, as imagens permanecem mutiladas.

A memória visual funciona como espelho da memória moral. Não é a tecnologia que falha; é a consciência que resiste. Quando ele finalmente se permite perdoar — a ela, por suas falhas, e a si mesmo, por suas omissões e durezas — o rosto surge. Inteiro. Humano. Real.

Nesse gesto silencioso, o episódio afirma algo profundo: só conseguimos lembrar plenamente de alguém quando deixamos de usar a memória como escudo.

O VELÓRIO DE MEMÓRIAS FALSAS

A cena final do velório condensa toda a crítica do episódio. Todos os presentes compartilham lembranças da falecida mediadas por um dispositivo tecnológico na têmpora. São memórias editadas, organizadas, emocionalmente seguras. A dor foi suavizada. O passado, padronizado.

O protagonista é o único ali que carrega uma memória real — contraditória, dolorosa, imperfeita. Ele lembra do amor, mas também das falhas, das brigas, dos silêncios. E isso o isola. Eulogy sugere que lembrar de verdade é solitário, porque a memória autêntica não serve ao conforto social; ela exige maturidade emocional. Ele está na porta, enquanto os outros estão dentro da igreja. O único amor real que ela teve estava fora de sua vida, mas ainda permanecia nas memórias.

Enquanto os outros consomem versões fabricadas da pessoa que morreu, ele é o único que conheceu alguém de fato.

O AMOR NÃO MORRE, MESMO SOTERRADO

Talvez o aspecto mais devastador de Eulogy seja sua recusa em tratar o amor como algo que desaparece com o tempo. O episódio afirma o contrário: o amor verdadeiro pode permanecer intacto mesmo soterrado sob mágoa, orgulho e anos de silêncio.

Não há reconciliação possível, não há redenção tardia. O que existe é uma elegia — no sentido mais honesto da palavra. Não uma celebração idealizada, mas o lamento consciente por um amor que existiu e que poderia ter sido diferente se ambos tivessem sido capazes de se enxergar com mais clareza.

A FILHA RECEBE O PASSADO QUE LHE FOI NEGADO

Entre tantas memórias fabricadas, higienizadas e compartilháveis, Eulogy reserva seu gesto mais silenciosamente esperançoso à filha da falecida. Enquanto os demais personagens acessam lembranças mediadas por dispositivos — versões seguras, editadas e emocionalmente neutras — é justamente ela quem consegue algo raro: uma memória verdadeira, não programada, não consensual, vinda diretamente do protagonista.

Esse encontro é decisivo porque rompe o circuito fechado da memória artificial. A filha não conhece a mãe apenas pela imagem socialmente aceitável construída no velório, mas por uma lembrança atravessada por contradição, dor e amor. Ao ouvir o protagonista, ela entra em contato com um lado da mãe que nunca lhe foi apresentado: imperfeito, apaixonado, falho, profundamente humano.

Aqui, Black Mirror sugere algo poderoso: a memória verdadeira não é necessariamente a mais confortável, mas é a única capaz de ampliar o outro. A filha não recebe uma versão idealizada da mãe — recebe uma mulher que amou, errou, foi amada e também feriu. E isso não diminui a mãe; ao contrário, a torna mais real.

Há algo quase pedagógico nesse gesto. Enquanto a tecnologia promete preservar o passado, é a transmissão humana — frágil, subjetiva, emocional — que de fato cria vínculo e compreensão. A filha passa a conhecer a mãe não como mito ou arquivo, mas como alguém que existiu em relação a outro ser humano.

Nesse sentido, Eulogy aponta para uma inversão sutil: o protagonista, que parecia condenado a carregar sozinho o peso da memória real, torna-se o único capaz de oferecer à filha algo que nenhuma tecnologia poderia fornecer — uma lembrança que não fecha a história, mas a abre. Não uma resposta definitiva, mas uma complexidade nova.

Ao permitir que a filha conheça esse lado oculto da mãe, o episódio afirma que a memória autêntica não serve apenas para o luto; ela serve para o encontro. Mesmo depois da morte, mesmo depois do tempo, mesmo depois do erro.

E talvez essa seja a nota mais delicada da elegia que Black Mirror compõe aqui:
a verdade não consola como a mentira, mas conecta como nada mais é capaz de fazer.

CONCLUSÃO

Eulogy é um dos episódios mais humanos de Black Mirror porque desloca o horror da tecnologia para dentro de nós. Ele nos confronta com uma pergunta incômoda: quantas memórias mantemos danificadas apenas para não encarar quem fomos?

Ao final, quando o protagonista finalmente vê o rosto da mulher que amou, entendemos que a verdadeira falha nunca foi técnica. Foi moral. E que, às vezes, só conseguimos lembrar plenamente de alguém quando aceitamos que amar também implica falhar — e assumir isso.

Por fim, o encontro com a filha, que não é dele, mas é o resultado da relação imperfeita que  teve com o grade amor de sua vida, nos dá uma resposta bem clara: ele teria perdoado, teria sido um pai para ela.

E além do fim do episódio, nosso protagonista aceita a filha que não teve, da mesma maneira que ela ganha o pai que lhe foi negado pelo destino.

Um final perfeito.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Alô, Rede Globo! Já passaram do ponto

Você pagou com traição a quem sempre lhe deu a mão.

A primeira rodada do Brasileiro 2026 encerrou e já veio com polêmica: o inconformismo do locutor Luis Roberto com um  “pênalti” não marcado em favor do Clube de Regatas do Flamengo.

Um adendo: Regatas é a origem do Flamengo, e não futebol.

E mesmo assim a atual diretoria extinguiu o investimento nesse esporte alegando não dar retorno financeiro.

Ok! Se pensa e age como uma empresa deveria ser tratada e cobrada fiscalmente como uma empresa, e não uma instituição sem fins lucrativos.

E o Flamengo deixou de ser “sem fins lucrativos” há décadas.

Digo “há décadas” pois desde o final da década de 70 e início de 80, a Rede Globo com o aval de seu torcedor fanático Roberto Marinho e uma trupe de jornalistas extremamente parciais e passionais criaram a FlaPress, onde até hoje atuam em prol de criar, sustentar e manipular narrativas infames em prol de sempre manter o clube Flamengo nos holofotes da mídia.

E mantendo o holofote se cria uma redoma terraplanista de que esse clube é o mais importante do mundo. E não é!

Cria-se um cenário perigoso para manipular a realidade e distorcer os fatos para que o público compre essa narrativa e cobre a responsabilidade de pessoas que nada tem a ver com os fatos. 

Essa engrenagem comportamental se sustentou por algumas décadas; até chegar a pandemia, com uma diretoria abraçada ideologicamente com o governo federal da época: negacionista, fascista é misógino.

E que por ingratidão passou a dispensar os serviços de blindagem midiática e criou a sua própria mídia, em alguns episódios passou a assediar e ignorar quem lhe deu a mão há décadas atrás. 

Isso é só para provar o quanto a Rede Globo faz papel de ridícula criando narrativas não-verdadeiras para alcançar um público que não lhe quer mais e isso só mancha a própria imagem da emissora.

Como é só a primeira rodada espero que seja uma bela lição ter tomado.

Que não faça lobby a jogadores que não estão à altura da seleção brasileira, que não mude a sua visão de campo no meio de uma partida e que seja mais parcial em suas análises. Já está chato isso, não cola mais, o VAR não é um puxadinho da Gávea, como muitos pensam. 

TEXTO DE:
Thiago Muniz

sábado, 31 de janeiro de 2026

Pra Tudo começar na quinta-feira

Pra tudo começar na quinta-feira” é um livro necessário não só para o universo do Carnaval quanto para a cultura popular brasileira num todo.

Mostra em caráter histórico, plural e literal uma forma distinta de contar uma história, que são os desfiles de escolas de samba.

O mais engraçado é que a primeira edição foi lançada no ano de 2016 e se passaram 10 anos para uma segunda edição, mas com uma explosão de informações pois exatamente depois da publicação houve uma injeção e revolução de novos carnavalescos e com uma fome inimaginável de enredos necessários para aquele período, principalmente no triênio 2019-2022 (2021 não houve carnaval devido a pandemia).

De 2016 para cá houve que uma certa passagem de bastão do “Old School” para a galera atual de maneira natural, sem alarde.

E as demandas do cotidiano permitiram o aceleramento deste processo em virtude de suas malhas criativas. De Fernando Pamplona / Rosa Magalhães / Joãozinho Trinta até Bora-Haddad / Leandro Vieira / Tarcísio Zanon.

Se passaram 10 anos onde os autores Luiz Antonio Simas e Fábio Fabato: Simas com aquela dose de malícia acadêmica e malandragem das encruzilhadas e dos botequins; e Fabato com o carisma vocábulo em suas crônicas, com mais robustez e paixão em sua análise, fruto do amadurecimento que a própria vida o trouxe.

Um livro que pode muito bem ter uma terceira edição daqui a 10 anos, pois ele já nasceu atemporal. E as circunstâncias que o Carnaval sofreu permitiram acontecer, entre retaliações e racismo, ela continua em pé e para quem é amante do Carnaval como eu não podemos deixar morrer essa forma única de se contar uma história.

TEXTO DE:
Thiago Muniz