domingo, 14 de junho de 2026

A FIFA e a CBF: entre o meretrício, a subserviência e a Disney

Confesso que perdi o encanto pela Seleção Brasileira há tempos. Para ser exato, desde o Penta de 2002. Mataram a alma daquele menino que chorou no Tri de 1970 e se orgulhava de dizer aos amigos da escola: “o Félix, do Fluminense, é campeão do mundo”.

O que mudou? Talvez o fato de que, dos últimos seis presidentes da CBF, cinco tiveram seus mandatos encerrados por prisão, banimento ou decisão judicial.

Quando penso que nada mais pode surpreender, surge a notícia: a CBF banca passagens, hospedagem, alimentação e ingressos para presidentes dos 40 clubes das Séries A e B e para todas as federações estaduais.

Os dirigentes dos clubes passam dias em Nova York. Os das federações ganharam pacote premium em Orlando, ingressos em áreas nobres e direito a acompanhante para os jogos do Brasil.

No futebol, isso tem nome: “turismo eleitoral”. Afagos custeados pela entidade para agradar justamente quem decide eleições e destinos políticos da própria CBF.

Depois, espantam-se com a reeleição - por unanimidade - do Rubinho na FERJ. Na boa, isso é apenas um dos inúmeros fios da teia que aprisiona o futebol brasileiro.

A CBF segue cada vez mais rica. Já os clubes — inclusive o meu Fluminense — afundam em dívidas bilionárias, quase impagáveis.

Quanto ao jogo, resultou no empate que previ numa LIVE, na sexta à noite. Mas assistir ao limitado Paquetá, ao cansado Casemiro, ao bonde Igor Thiago, ao improvisado Ibañez, ao CHAMAGOL Alisson: é dose.

É óbvio que torci, mas com esse 4-2-4 e certos jogadores de empresários, não existe Viagra que dê jeito.

Mas, a razão maior desse texto é com relação à postura da FIFA, que virou TCHUTCHUCA do Trump

As principais reclamações giram em torno da sua omissão diante de restrições impostas pelos Estados Unidos a participantes da Copa de 2026.

Houve casos de negação de vistos e retenções prolongadas em aeroportos, afetando o árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, membros de delegações (especialmente do Irã), jogadores, como Aymen Hussein, e profissionais de diversos países.

Gianni Infantino, o Presidente da FIFA, transformou-se em VASSALO do governo americano, não se posicionando com firmeza, limitando-se a lamentar os fatos, alegando não ter controle sobre políticas de imigração.

Pura hipocrisia e duplo padrão, pois a FIFA agiu com muito mais rigor em outras questões políticas, mas não usou sua influência para garantir igualdade de condições e o cumprimento dos princípios do torneio, deixando profissionais impedidos de exercer suas funções.

Cabe recordar que a política de restrições norte-americana contrasta com o histórico da própria FIFA, que chegou a remover a Indonésia do posto de sede do Mundial Sub-20 de 2023 por razões políticas semelhantes.

A atual Copa do Mundo está sendo disputada por 48 seleções, o que significa a antítese ao bom futebol.

Em todos os casos, bem-vindos à Disneylândia, onde o torcedor, quer dizer, o PATETA, é o funcionário do mês.

TEXTO DE:
Antonio Gonzalez

sábado, 13 de junho de 2026

Senadores querem fim da escala 6x1... eles querem 7x0

A Câmara aprovou o fim da escala 6x1.

Mas pouco depois, 40 senadores apresentaram a PEC 12/2026, que institui a chamada escala 7x0: sete dias trabalhados, nenhum de folga garantido, com jornada "flexível" definida por “acordo” individual com o patrão, sem descanso semanal remunerado, sem FGTS, sem férias obrigatórias, sem 13º salário e sem a proteção das convenções coletivas negociadas pelos sindicatos.

É o projeto das elites na sua forma mais nua. Escravidão.

Não é coincidência que esses 40 senadores agiram tão rápido. Olhe a lista com atenção.

A maioria não disputa reeleição neste ano. 

Alguns vão tentar outros cargos: Sergio Moro (PL) quer o governo do Paraná, Flávio Bolsonaro (PL) é pré-candidato à Presidência e seu chefe de campanha Rogério Marinho (PL) assina a PEC ao lado de Ciro Nogueira (PP), investigado pela Polícia Federal por receber mesada de Daniel Vorcaro, do Banco Master.

Outros estão tão queimados em seus estados que vão tentar a sorte como deputados federais, como é o caso de Marcos do Val (Avante). E alguns, como o senador paranaense (que quase ninguém sabe que existe) Oriovisto Guimarães (PSDB), já avisaram que vão deixar a política.

Ou seja: a maioria não vai ter que olhar nos olhos do eleitor e responder por esse voto. É por isso que estão fazendo o trabalho sujo que os deputados federais covardes não tiveram coragem de fazer.

Quase 80% da população apoia o fim da escala 6x1. Os deputados patrocinados por grandes empresários sabiam disso. Se acovardaram, fugiram da votação ou votaram a favor na última hora. Sobraram apenas 22 votos contra, a maioria do PL e do Novo. Só o Missão e o MDB não têm senadores mas tiveram deputados votando.

Como manobra, deixaram a bola com os senadores que não têm nada a perder. Esse é o golpe.

O magistério sabe a importância do descanso. Lutamos por ele. Sabemos o que dois dias de folga representam para o corpo, para a mente, para a família. E sabemos o que acontece quando o trabalhador fica sem sindicato para negociar: na imensa maioria dos casos, ou aceita qualquer condição ou é demitido. Sem proteção, sem direitos, sem voz.

O Senado precisa ouvir o recado que a Câmara já recebeu.

A mobilização continua. Pressão neles!

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Os fracassados milionários


 Existe uma panela de jogadores que na última década estão rotineiramente dentro do calvário da Seleção Brasileira, não produzem resultados para justificar as suas presenças e ainda deixam a impressão que opinam em quem pode ou não estar nas convocações. 

Um pouco antes da convocação para a Copa do Mundo, vimos numa entrevista o jogador Casimiro declarar que o jogador Endrick não estava pronto para jogar na seleção.

No alto de seus 19 anos, foi importante na conquista de um Brasileirão para o Palmeiras, fez gols importantes para o Real Madrid e agora na última passagem pelo Lyon fez gols que ajudaram muito o clube.

Se aos 19 anos ele acha que o Endrick não está pronto, o que ele acha do Pelé em 1958? O que ele acha da convocação do Ronaldo Nazário em 1994?

Panela!

O que essa atual geração de jogadores produziu e conquistou com a Seleção Brasileira?

A tal ponto de dar pitacos em quem pode ou não ser convocado. Há os que pelo menos já disputaram no mínimo 1 Copa do Mundo e nada.

São bons jogadores, isso é um fato; possuem carreiras sólidas em seus clubes, uma ótima situação financeira, mas não foram capazes de se consolidar dentro da Seleção Brasileira. São milionários fracassados, e será mais uma Copa medíocre.

São os culpados pela derrocada da seleção brasileira? É claro que não, há diversas variantes, principalmente na cadeia de comando. Mas são potenciais indicadores por essa queda brusca na falta de resultados consistentes. E não há uma indignação, pois eles viram a chave e passam a viver suas ricas vidas. 

Falta sangue, suor e lágrimas; jogadores que tenham fome.

A Seleção Brasileira precisa dessa essência, e não se deixar ser dominada pela importação de costumes. 

TEXTO DE:
Thiago Muniz

terça-feira, 9 de junho de 2026

Pau que bate no Wesley não bate no Neymar

E aí Mr. Carlo Ancelotti? Onde está o parâmetro dos 100%?

Primeiro toda uma história e narrativa para a convocação de Neymar; o jogador com maior talento e maior desperdício dos últimos vinte anos no futebol brasileiro, os lobbies nitidamente comprados e argumentos nada factíveis fizeram que no dia 18 de maio foste enfim convocado.

Nisso tudo foi por água abaixo a declaração de Ancelotti sobre a convocação dos jogadores em estarem 100% da forma física.

Pois bem… o Neymar se apresentou na Granja Comary e o departamento médico da CBF dentro do seu protocolo fez exames de imagem nele, e contrariando o laudo enviado pelos médicos do Santos.

O Santos alegou edema, a CBF constatou lesão.

Neymar sofreu uma lesão muscular de grau 2 na panturrilha. O problema médico, que envolve uma ruptura parcial das fibras musculares e causa dor e perda de força.

O edema é apenas o inchaço causado pelo acúmulo de líquidos em uma parte do corpo. A lesão é o dano real ou a ruptura nas fibras do tecido (como músculos ou ligamentos).

O Neymar já não apresentava estar em sua plena forma física, tecnicamente então nem se fala; bastava acompanhar os jogos, não precisa ser muito entendedor de futebol.

O lateral-direito Wesley sofreu uma lesão muscular de grau 3 no músculo adutor da coxa esquerda. Ele sentiu dores durante um amistoso da Seleção Brasileira contra o Egito no dia 06 de junho.

Exames de ressonância magnética confirmaram a contusão, o que causou seu corte da Copa do Mundo. Por causa da gravidade, o jogador precisará de mais de 40 dias de recuperação, podendo ficar afastado dos gramados por até 8 a 12 semanas. Em seu lugar, o técnico convocou o volante Éderson para a sequência do Mundial.

E onde está a linha de raciocínio e coerência de Carlo Ancelotti? A regra só serve para uns? Privilégios para outros?

Bye bye Brasil

TEXTO DE:
Thiago Muniz

quinta-feira, 4 de junho de 2026

O Caso Henry Borel e a Difícil Missão de Julgar Contra a Multidão

Algumas decisões judiciais testam a qualidade de uma democracia. Não porque sejam populares. Justamente pelo contrário.

A concessão de perdão judicial a Monique Medeiros, mãe de Henry Borel, é uma dessas decisões.

O Brasil amanheceu indignado. Nas redes sociais, a sentença foi tratada como escândalo. Nos programas policiais, como afronta. Nos comentários da internet, como prova definitiva de que a Justiça enlouqueceu.

Mas existe uma pergunta anterior à indignação coletiva: a decisão foi legal?

Se a resposta for sim, o debate precisa começar por aí.

É preciso lembrar que a juíza não acordou numa manhã qualquer e resolveu absolver a mãe de Henry. Ela estava vinculada ao resultado produzido pelo Tribunal do Júri. E aqui mora um detalhe que muita gente ignora.

O júri popular não reconheceu homicídio doloso.

Se tivesse reconhecido, não haveria perdão judicial possível.

Os jurados entenderam que a conduta de Monique configurou homicídio culposo por omissão. Em português claro: ela teria falhado gravemente em seu dever de proteger o filho, mas sem participar diretamente da intenção de matar.

Pode-se concordar ou discordar dessa conclusão.

Pode-se até considerá-la equivocada.

Mas foi essa a decisão soberana do Conselho de Sentença.

Uma vez fixada essa premissa, a magistrada passou a analisar as consequências jurídicas dela.

E é exatamente aí que surge o instituto do perdão judicial.

O Código Penal brasileiro admite que, em determinadas situações de homicídio culposo, o juiz deixe de aplicar pena quando as consequências do fato atingem o próprio autor de forma extraordinariamente grave.

A lógica é simples.

O Direito Penal não existe para satisfazer desejos de vingança coletiva.

Existe para produzir justiça.

A pergunta formulada pela lei é objetiva: existe alguma pena que possa ser mais severa para uma mãe do que a perda definitiva de um filho?

O legislador respondeu que, em alguns casos, não.

Foi essa a interpretação adotada pela magistrada.

Na sentença, ela argumentou que Monique sofreu a perda irreparável do filho, enfrentou anos de exposição pública intensa, tornou-se alvo permanente de hostilidade social e já havia sido condenada anteriormente por omissão em relação às agressões sofridas pela criança.

A juíza também registrou que a acusada passou anos submetida a um processo que mobilizou o país inteiro, circunstância que, em seu entendimento, produziu consequências pessoais extremamente severas.

É possível discordar dessa avaliação.

O que não é possível é fingir que ela foi inventada.

Ela está prevista na legislação.

Ela existe há décadas.

Ela já foi aplicada em inúmeros casos envolvendo mortes culposas.

A questão central, portanto, não é o perdão judicial.

O verdadeiro debate é outro.

O júri acertou ao afastar o homicídio doloso?

Essa é a pergunta relevante.

Porque, se a resposta for negativa, toda a construção jurídica posterior desmorona.

Se Monique tinha plena consciência das agressões sofridas por Henry, se conhecia a escalada de violência, se assumiu conscientemente o risco de que algo fatal acontecesse, então o enquadramento culposo seria inadequado.

Nesse cenário, o perdão judicial realmente não caberia.

Mas essa discussão precisa ocorrer dentro dos autos.

Com provas.

Com recursos.

Com argumentos jurídicos.

Não com gritos.

Há uma tentação crescente no Brasil de substituir o Direito Penal por uma espécie de tribunal permanente das redes sociais.

A cada caso rumoroso, surgem milhões de promotores, milhões de juízes e milhões de carrascos.

Todos convencidos de que a lei deve dizer exatamente aquilo que a indignação do momento exige.

Só que o Estado de Direito foi criado precisamente para impedir isso.

A Justiça não existe para reproduzir a opinião pública.

Existe para limitar os impulsos da opinião pública.

Hoje o alvo é Monique Medeiros.

Amanhã pode ser qualquer outro cidadão.

A história mostra que quando tribunais começam a decidir para agradar multidões, deixam de servir à Justiça e passam a servir à plateia.

Quem considera a decisão errada tem todo o direito de criticá-la.

Quem entende que o júri ignorou provas relevantes pode defender sua anulação.

Quem acredita que houve erro de julgamento pode apoiar os recursos do Ministério Público.

Tudo isso faz parte da democracia.

O que não faz parte da democracia é exigir que juízes abandonem a lei para satisfazer a sede coletiva de punição.

Porque, quando isso acontece, o Direito deixa de ser Direito.

Transforma-se apenas em vingança com carimbo oficial.

EM TEMPO:

Este artigo não reflete a opinião direta de quem vos escreve, reflete apenas uma análise fria da decisão da Magistrada baseada na Lei.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Rosie, e a Contradição das Mulheres Antifeministas

 

Poucos símbolos representam tão bem a luta pela emancipação feminina no século XX quanto "Rosie the Riveter" (Rosie, a Rebitadeira).

Com o punho erguido, a manga dobrada e o célebre slogan "We Can Do It!", a personagem tornou-se um ícone da capacidade das mulheres de ocupar espaços historicamente reservados aos homens. Por isso mesmo, causa estranheza quando setores conservadores e antifeministas tentam se apropriar de sua imagem como se ela fosse compatível com suas bandeiras políticas.

Rosie surgiu durante a Segunda Guerra Mundial, quando milhões de homens foram enviados para os campos de batalha e as indústrias precisaram recrutar mulheres para manter a produção.

A mensagem era revolucionária para sua época: mulheres podiam trabalhar em fábricas, operar máquinas pesadas, exercer profissões técnicas e contribuir diretamente para a economia nacional. Em outras palavras, Rosie simbolizava a ruptura com a ideia de que o lugar da mulher era exclusivamente o lar.

Décadas depois, o movimento feminista transformou Rosie em um de seus principais ícones justamente porque ela representa autonomia econômica, independência profissional e igualdade de oportunidades.

Sua imagem passou a simbolizar a luta contra barreiras que impediam mulheres de estudar, trabalhar, liderar empresas, disputar cargos políticos e conquistar direitos civis.

É aí que surge a contradição.

Grande parte do discurso antifeminista contemporâneo sustenta que o feminismo teria "destruído a família tradicional", incentivado mulheres a abandonarem papéis domésticos ou promovido uma suposta guerra entre os sexos. Muitas influenciadoras conservadoras defendem abertamente a valorização da submissão feminina ao marido, a priorização da maternidade em detrimento da carreira e a crítica às pautas históricas do movimento feminista.

Ora, se a essência simbólica de Rosie é justamente afirmar que mulheres podem e devem ocupar espaços antes negados a elas, como conciliar essa mensagem com uma visão que frequentemente idealiza modelos sociais mais restritivos para as mulheres?

A contradição torna-se ainda mais evidente quando muitas dessas figuras públicas desfrutam de liberdades conquistadas pelas feministas que criticam.

Produzem conteúdo, administram negócios, participam do debate político, possuem independência financeira e exercem influência pública, atividades que seriam muito mais difíceis sem as transformações sociais promovidas pelas sucessivas ondas do feminismo ao longo do século XX.

Isso não significa que toda mulher conservadora seja obrigada a se identificar como feminista. Há amplo espaço para divergências sobre costumes, religião, família ou políticas públicas. O problema surge quando se tenta transformar Rosie em símbolo de uma visão de mundo que caminha em sentido oposto ao significado histórico que a tornou famosa.

Símbolos possuem contexto.

Rosie não é apenas uma mulher forte desenhada em um cartaz.

Ela representa a entrada das mulheres no mercado de trabalho industrial, a quebra de barreiras de gênero e a defesa da capacidade feminina de decidir seus próprios destinos.

Sua mensagem não era a de que mulheres deveriam retornar aos papéis tradicionais após demonstrarem sua competência; era a prova de que tais limitações jamais fizeram sentido.

Por isso, quando setores antifeministas utilizam Rosie como ícone, acabam produzindo uma curiosa incoerência histórica: celebram a imagem enquanto rejeitam parte substancial da mensagem que ela carregou durante mais de oito décadas.

Rosie tornou-se um símbolo da liberdade feminina de escolher seu caminho. E essa liberdade — gostem ou não seus críticos — está entre as maiores conquistas do feminismo moderno.

Para que as mulheres se lembrem:

"Rosie Não Votaria Contra Si Mesma".

domingo, 31 de maio de 2026

Homelander, o herói dos fracassados

Poucos fenômenos da cultura pop recente são tão reveladores sobre o nosso tempo quanto a popularidade de Homelander, personagem central da série The Boys.

Embora seja apresentado desde o primeiro episódio como um assassino, manipulador, narcisista e aspirante a ditador, uma parcela surpreendentemente grande do público não apenas torce por ele, mas também demonstra indignação diante da possibilidade de vê-lo derrotado no desfecho da história.

À primeira vista, o fenômeno parece contraditório. Como alguém pode admirar um personagem que reúne praticamente todas as características associadas ao abuso de poder?

A resposta talvez diga mais sobre a sociedade contemporânea do que sobre a própria série.

Homelander representa uma fantasia de poder absoluto. Ele não presta contas a ninguém. Não responde à Justiça. Não teme instituições. Não aceita limites morais. Em um mundo onde milhões de pessoas sentem-se impotentes diante de governos, empresas, crises econômicas e problemas pessoais, a figura daquele que pode fazer qualquer coisa sem sofrer consequências exerce um fascínio quase primitivo.

Existe também o chamado "efeito carisma". O personagem é cruel, mas é inteligente, eloquente e, muitas vezes, mais interessante que os próprios heróis.

O público frequentemente confunde protagonismo com admiração. Quanto mais tempo passa acompanhando um personagem, mais tende a enxergar o mundo através dos olhos dele.

É o mesmo fenômeno que ocorreu com personagens como Breaking Bad e seu protagonista Walter White, ou com The Sopranos e Tony Soprano.

Mas há algo mais profundo acontecendo.

Nas últimas décadas, a cultura passou a valorizar excessivamente a ideia do indivíduo forte que desafia todas as regras. O sucesso é frequentemente associado à capacidade de impor sua vontade sobre os demais. Nessa lógica, a empatia é vista como fraqueza, enquanto a brutalidade pode ser confundida com liderança.

Homelander encarna exatamente essa fantasia. Ele é o homem que nunca pede desculpas. Nunca admite erros. Nunca recua.

Para parte do público, especialmente em uma época marcada pela polarização política e pela exaltação de figuras autoritárias, isso se transforma em um símbolo de força, mesmo quando a narrativa deixa claro que se trata de um monstro.

Há ainda outro fator: muitas pessoas passaram a enxergar a série como uma disputa ideológica. Em vez de acompanhar a história como uma crítica ao poder sem limites, transformaram a experiência em uma batalha de torcida organizada.

Quando isso acontece, o personagem deixa de ser avaliado por suas ações e passa a ser defendido porque representa um grupo, uma identidade ou uma visão de mundo.

É por isso que um eventual final em que Homelander seja preso, derrotado ou morto tende a gerar rejeição entre seus admiradores. Não porque a punição seja injusta, mas porque ela destrói a fantasia construída ao longo dos anos.

O que incomoda não é a derrota do personagem; é a derrota da ideia de que alguém poderoso pode permanecer acima de qualquer consequência para sempre.

Talvez o maior mérito de The Boys seja justamente esse: expor como a sociedade frequentemente se apaixona por figuras autoritárias enquanto condena apenas os seus adversários. O desconforto de parte do público diante da possível queda de Homelander não revela uma falha da série. Revela o sucesso dela.

Porque, no fim das contas, a pergunta mais interessante nunca foi por que Homelander é tão cruel. A pergunta realmente perturbadora é por que tanta gente continua torcendo por ele mesmo sabendo disso.