domingo, 9 de agosto de 2026

Racismo Objetivo - a negação do racismo através da normalização e da banalização

Existe uma forma particularmente confortável de racismo: aquela que não precisa dizer que é racismo.

Ela não se apresenta com insultos, não precisa de agressão física, não exige que alguém seja expulso de um estabelecimento.

Basta uma operação intelectual um pouco mais sofisticada: diante de uma situação suspeita, evidente ou documentada, decretar que aquilo é “normal”.

Se a vítima reclama, exagerou. Se insiste, está vendo racismo onde não existe. Se apresenta uma sequência de episódios semelhantes, continua sendo “vitimismo”.

É o racismo que, em vez de negar a dignidade do outro, nega a própria possibilidade de que ele tenha sido discriminado.

O fenômeno merece atenção. Pode-se chamá-lo, para efeito de debate, de racismo objetivo (ou passivo): não porque toda pessoa que minimiza um episódio seja necessariamente racista, mas porque a atitude contribui objetivamente para tornar o racismo invisível.

O preconceito deixa de ser apenas uma prática e passa a ser também uma realidade que determinados grupos se recusam a reconhecer.

Um caso de um passageiro negro que registre em vídeo uma diferença de tratamento durante o embarque em primeira classe é exemplar justamente por isso. Enquanto sua documentação é demoradamente verificada, passageiros brancos entram e tomam seus lugares no vôo com uma simples apresentação do comprovante de passagem.

O vídeo, por si só, não permite ao observador conhecer todas as circunstâncias. É perfeitamente legítimo perguntar o que aconteceu, verificar os procedimentos da companhia aérea e considerar explicações alternativas.

O que não parece intelectualmente honesto é transformar a dúvida em certeza inversa: “foi apenas uma verificação normal”.

Pode ter sido. Mas também pode não ter sido.

A pergunta jornalisticamente correta é: por que a verificação ocorreu daquela maneira, naquele passageiro e naquele momento?

E existe uma segunda pergunta, talvez ainda mais incômoda: por que algumas pessoas parecem tão empenhadas em demonstrar que aquilo jamais poderia ser racismo?

É aqui que o debate se torna mais interessante.

Uma pessoa negra afirmar que nunca sofreu racismo é absolutamente possível. Experiências individuais não são uniformes.

Há negros que passaram a vida inteira sem perceber determinados episódios como discriminação, outros foram vítimas de situações explícitas, outros ainda sofreram formas tão sutis de preconceito que somente posteriormente compreenderam o que havia acontecido.

O problema começa quando uma experiência individual vira argumento universal.

Eu nunca sofri racismo.

Ótimo. Mas daí não decorre:

Logo, racismo não existe.

Do mesmo modo, uma pessoa branca pode afirmar que nunca discriminou ninguém. Isso é relevante para avaliar a conduta dela, mas não serve para eliminar a existência de práticas discriminatórias praticadas por outras pessoas.

A lógica é elementar.

A experiência individual não revoga a realidade social.

É justamente nesse ponto que determinadas discussões políticas descambam para uma espécie de campeonato de anedotas: um indivíduo relata uma situação de discriminação, outro responde que nunca passou por aquilo. Um terceiro diz que tem amigos negros que nunca reclamaram. Um quarto informa que conhece um negro rico que nunca teve problema.

E pronto: o racismo teria sido dissolvido por amostragem de conversa de botequim.

Ora, sociedades complexas não funcionam assim.

Também existe uma diferença entre contestar a interpretação de um episódio e negar a possibilidade de que o fenômeno exista.

A primeira atitude é saudável. A segunda pode produzir um efeito perverso: quando alguém denuncia uma discriminação, a sociedade passa a exigir da vítima uma espécie de prova impossível.

Ela precisa demonstrar a intenção do agente, apresentar testemunhas, explicar cada detalhe, provar que não exagerou e, de preferência, convencer também aqueles que já decidiram previamente que racismo é sempre uma invenção de quem reclama.

É uma inversão curiosa.

O suspeito ganha o benefício da dúvida.

A vítima recebe a obrigação de provar até aquilo que, por sua própria natureza, pode ocorrer de maneira subjetiva e silenciosa.

Mas há ainda uma questão que merece ser enfrentada sem medo: pessoas negras também podem reproduzir discursos que minimizam o racismo.

Isso não deveria ser uma descoberta escandalosa.

Negros não formam uma consciência política única.

Não existe um “cérebro negro coletivo”.

Pessoas negras têm ideologias diferentes, experiências diferentes, interesses econômicos diferentes, religiões diferentes e visões diferentes sobre o mundo.

Portanto, uma pessoa negra pode perfeitamente defender uma interpretação segundo a qual determinado episódio não foi racista.

O que não se pode fazer é transformar a cor da pele do comentarista em certificado de objetividade.

Sou negro e nunca sofri racismo.

Isso é um depoimento.

Não é uma tese científica.

Da mesma maneira:

Sou negro, portanto sei identificar todo episódio de racismo.

Também seria uma falácia.

O combate ao racismo precisa, portanto, de duas coisas simultâneas: evidência e disposição para enxergar.

Não se deve chamar qualquer constrangimento de racismo. Isso banaliza uma acusação gravíssima e pode destruir a própria capacidade de identificar casos reais.

Mas também não se deve fazer o movimento contrário: chamar de exagero toda denúncia que incomode nossas convicções políticas.

Entre a paranoia e a negação existe aquilo que o jornalismo deveria procurar: os fatos.

Se um passageiro foi submetido a uma verificação adicional, investigue-se o procedimento.

Se outros passageiros, em condições equivalentes, não foram submetidos à mesma exigência, pergunte-se por quê.

Se a companhia apresentar uma explicação objetiva, publique-se.

Se não apresentar, registre-se a ausência de explicação.

É assim que se enfrenta o problema.

Não com slogans.

Não com militância cega.

E tampouco com a velha e confortável frase: “isso é normal”.

Porque, às vezes, é.

Mas a história do racismo está cheia de coisas que foram consideradas “normais” até que alguém teve a coragem de perguntar por que eram normais.

Talvez seja essa a verdadeira batalha contra o chamado racismo passivo: não obrigar ninguém a enxergar racismo em tudo, mas impedir que alguém seja proibido de enxergá-lo em alguma coisa.

Combater o racismo significa combater também a cultura que o naturaliza.

E naturalizar não é necessariamente praticar.

Às vezes, é simplesmente olhar para o absurdo, dar de ombros e dizer:

Normal.”

Banalização e normalização muitas vezes, mesmo não andando juntas, causam o mesmo efeito final: a dificuldade do combate ao racismo.

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Uma bebê, duas versões e uma pergunta que não pode esperar

Uma bebê de apenas 28 dias desapareceu em Campo Grande. Tão pequena que sua vida ainda caberia inteira nos braços da mãe. Tão indefesa que qualquer palavra sobre o caso deveria começar pela única certeza que realmente importa: essa criança precisa ser encontrada.

O caso começou com contornos de um sequestro.

A mãe da recém-nascida, uma adolescente de 17 anos, contou inicialmente que havia conhecido uma mulher pela internet, em um grupo relacionado à doação de roupas para crianças. A aproximação teria começado durante a gravidez e, posteriormente, a mulher teria oferecido roupas, carrinho, um ensaio fotográfico e até trabalho como babá.

Na quinta-feira (6), a adolescente teria ido até uma residência no bairro Universitário acompanhada da irmã e levando a própria filha, de apenas 28 dias. A primeira versão apresentada à polícia dizia que as duas teriam sido mantidas no imóvel contra a vontade e que a bebê teria sido retirada delas.

O relato era suficientemente grave para mobilizar imediatamente as forças de segurança.

A Polícia Civil passou a investigar a possibilidade de sequestro e cárcere privado. O desaparecimento de uma criança tão pequena também levou à utilização de mecanismos nacionais de alerta, ampliando a procura para além de Campo Grande.

Mas a investigação ganhou uma reviravolta.

Durante os depoimentos, a mãe e a irmã apresentaram uma nova versão. Segundo informações divulgadas nesta sexta-feira, elas admitiram que o sequestro, da maneira como havia sido relatado inicialmente, não teria acontecido.

E é justamente aí que o caso deixa de ser apenas uma história sobre um possível sequestrador desconhecido.

A nova hipótese investigada pela Polícia Civil é ainda mais perturbadora: a bebê pode ter sido entregue a terceiros em razão de uma dívida atribuída ao pai da criança. A polícia apura, inclusive, uma possível relação dessa dívida com integrantes de uma facção criminosa. Nada disso, porém, pode ser tratado como fato definitivamente comprovado neste momento. São linhas de investigação.

A diferença não é pequena.

Entre dizer que uma criança foi arrancada dos braços da mãe por sequestradores e dizer que ela foi entregue deliberadamente a terceiros existe um abismo jurídico, policial e humano. E é justamente por isso que a investigação precisa separar aquilo que foi contado, aquilo que foi confirmado e aquilo que ainda precisa ser provado.

A polícia, segundo as informações divulgadas, não encontrou elementos que confirmassem a primeira narrativa apresentada pelas adolescentes. Elas chegaram a indicar um endereço onde supostamente teriam ocorrido os fatos, mas diligências realizadas no local não teriam confirmado as circunstâncias relatadas

Agora, a pergunta mudou.

Já não é apenas: quem sequestrou a bebê?

É também: para quem essa criança foi entregue, por que foi entregue e onde ela está?

Essa mudança de versão não diminui a gravidade do desaparecimento. Pelo contrário. Aumenta a necessidade de uma investigação rigorosa.

Uma recém-nascida não desaparece de uma história como quem desaparece de uma fotografia. Ela precisa estar em algum lugar. Alguém a recebeu. Alguém sabe onde está. Alguém pode ter visto alguma coisa.

E cada minuto importa.

O caso também expõe uma realidade que costuma permanecer escondida atrás das manchetes policiais: a vulnerabilidade de adolescentes, crianças e famílias submetidas a relações construídas pela internet. Uma conversa aparentemente inocente sobre roupas de bebê pode criar uma aproximação. Uma oferta de ajuda pode produzir confiança. Uma promessa de trabalho pode abrir a porta de uma casa.

A internet não inventou a maldade humana. Mas criou novas maneiras de aproximar desconhecidos.

Por isso, a história precisa ser contada com cuidado. Não para produzir vilões antes da hora, nem para transformar uma suspeita em sentença. A função da imprensa, especialmente diante de um caso envolvendo uma recém-nascida, é iluminar os fatos sem incendiar a investigação.

Há uma mãe adolescente. Há uma irmã adolescente. Há versões diferentes. Há uma investigação criminal em andamento. Há uma possível dívida. Há pessoas que precisam ser identificadas. E, acima de tudo, há uma bebê de 28 dias que não pode ser reduzida a uma estatística policial.

Ela tem nome, embora ainda seja pequena demais para compreender o tamanho da mobilização provocada pelo seu desaparecimento.

Enquanto adultos explicam, mudam versões, investigam e procuram respostas, ela permanece silenciosa.

E talvez seja justamente esse silêncio que torne tudo ainda mais angustiante.

Porque, neste momento, a pergunta mais importante de Campo Grande não é quem contou a primeira versão, nem quem contou a segunda.

É simplesmente esta:

Onde está a bebê?

Todo o restante pode esperar a investigação esclarecer.

Ela, não.

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Consórcio Guaicurus - imprensa aposta em polêmica no lugar da informação

Existe um vício recorrente no debate público brasileiro: transformar aquilo que parece estranho em sinônimo de ilegal. A lógica é simples, quase infantil: "Nunca vi isso, logo deve ser irregular". O problema é que o Direito não julga impressões. Julga normas.

Foi exatamente isso que aconteceu após a divulgação de que a empresa responsável pela aquisição do Consórcio Guaicurus foi constituída apenas dois dias antes da negociação. Bastaram algumas horas para surgirem sentenças definitivas nas redes sociais: "empresa de fachada", "laranja", "fraude". Calma. Uma coisa de cada vez.

A primeira pergunta é objetiva: criar uma empresa especificamente para comprar outra empresa ou assumir uma concessão pública é permitido?

A resposta, goste-se ou não dela, é sim.

O Direito Empresarial conhece muito bem esse tipo de operação. Grandes grupos econômicos fazem isso diariamente por meio das chamadas Sociedades de Propósito Específico (SPEs). Trata-se de uma empresa criada para realizar uma operação determinada: adquirir um ativo, administrar um empreendimento, desenvolver um projeto ou assumir determinado negócio. Não existe, na legislação brasileira, qualquer exigência de que a empresa tenha meses ou anos de existência para participar de uma aquisição.

Em outras palavras, a data de nascimento da empresa não define a legalidade do negócio. Se fosse assim, toda startup estaria condenada à ilegalidade durante seu primeiro ano de vida.

Até aqui, portanto, existe mais estranhamento do que problema jurídico.

Mas é justamente nesse ponto que muitos encerram a discussão quando ela, na verdade, apenas começa.

Porque uma coisa é comprar uma empresa privada qualquer. Outra, completamente diferente, é assumir o controle de uma concessionária de serviço público.

Nesse momento, deixa-se o terreno do Direito Empresarial para ingressar no Direito Administrativo.

A pergunta muda completamente.

Já não interessa saber quando a empresa foi criada. Interessa descobrir se ela possui capacidade para administrar um serviço essencial à população.

Pode uma empresa recém-constituída assumir uma concessão? Pode. Desde que demonstre capacidade técnica, econômica e financeira para cumprir todas as obrigações contratuais.

É aqui que entram os verdadeiros questionamentos.

Qual é o patrimônio efetivo do grupo controlador?

Quais garantias financeiras foram apresentadas?

Existe capital suficiente para renovar frota, manter a operação, pagar funcionários, cumprir investimentos e responder por eventuais prejuízos?

O capital social inicial de R$ 10 mil, isoladamente, não resolve nem condena a questão.

Capital social não se confunde, necessariamente, com patrimônio disponível ou capacidade financeira do grupo econômico. Muitas operações milionárias começam com empresas constituídas com capital reduzido e recebem aportes posteriores dos sócios ou financiamentos específicos.

Isso explica por que simplesmente repetir "o capital era de apenas R$ 10 mil" pode impressionar o leitor, mas não basta para demonstrar irregularidade.

A análise precisa ser mais sofisticada.

Se a empresa não apresentar patrimônio compatível, garantias suficientes ou capacidade operacional para assumir uma concessão desse porte, aí, sim, surge um problema que merece investigação.

Percebe a diferença?

A possível fragilidade não está na certidão de nascimento da empresa.

Está na robustez econômica que ela consegue demonstrar.

É justamente por essa razão que órgãos de controle, como o Tribunal de Contas, costumam concentrar suas atenções menos na constituição da sociedade e mais na transferência da concessão. Afinal, o interesse público não consiste em saber quantos dias de vida tem o CNPJ, mas se os passageiros continuarão encontrando ônibus nas ruas amanhã.

No fundo, a controvérsia revela um erro bastante comum: misturar dois ramos distintos do Direito.

No Direito Empresarial, a constituição da empresa parece seguir uma prática absolutamente conhecida do mercado.

No Direito Administrativo, entretanto, permanece a obrigação de provar que essa empresa, e, sobretudo, o grupo econômico que a controla, possui condições concretas de assumir um contrato que afeta diariamente centenas de milhares de usuários.

Quem transforma essas duas perguntas em uma só termina produzindo mais calor do que luz.

O jornalismo presta melhor serviço quando explica do que quando condena antecipadamente.

No caso do Consórcio Guaicurus, a discussão realmente relevante talvez nunca tenha sido se a empresa nasceu dois dias antes da compra.

A pergunta que importa continua sendo outra: quem assumirá o transporte coletivo de Campo Grande possui musculatura financeira, capacidade administrativa e compromisso suficiente para entregar um serviço melhor do que aquele que pretende substituir?

Essa resposta não será encontrada na data de abertura do CNPJ.

Será encontrada nas garantias apresentadas, na fiscalização do poder público e, sobretudo, na qualidade do transporte que a população receberá daqui para frente.

Coisas que na atual situação, já não funcionam corretamente.

Se o poder público não cumprir sua parte, é muito provável que nenhum grupo empresarial, nascido ontem ou no século passado, vá cumprir a sua.

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Amai vossos inimigos

Algumas vezes, fotografias não registram apenas um instante, elas capturam um dilema moral.

A imagem feita por Mark Brunner, em Ann Arbor, no Michigan, no verão de 1996, pertence a essa categoria. Ela não mostra um discurso histórico, uma vitória política ou uma multidão comemorando. O que ela eterniza é uma escolha.

No asfalto, um homem identificado com símbolos ligados ao supremacismo branco está caído. Sobre ele, protegendo-o dos golpes que vêm de todos os lados, uma jovem negra de apenas dezoito anos.

Em torno dos dois, uma multidão enfurecida. 

Os rostos revelam indignação; os braços, a disposição para a violência. Bastava mais um minuto para que a justiça cedesse lugar ao linchamento.

O nome daquela jovem era Keshia Thomas.

Sua atitude desafiou tanto a lógica dos extremistas quanto a dos justiceiros. Ela não correu para defender uma ideologia. Correu para impedir que o ódio mudasse apenas de endereço.

A fotografia provoca desconforto justamente porque desmonta uma das ilusões mais sedutoras do nosso tempo: a de que a violência se torna virtuosa quando dirigida contra quem julgamos merecê-la.

Keshia não ignorava o significado daqueles símbolos. Sabia muito bem o que representavam para uma mulher negra nos Estados Unidos. Mesmo assim, recusou-se a aceitar que a barbárie pudesse ser combatida reproduzindo seus próprios métodos.

Sua decisão contém uma lição incômoda.

O ser humano costuma acreditar que a maldade pertence sempre ao outro. Os intolerantes seriam apenas aqueles que vestem capuzes brancos, fazem saudações nazistas ou carregam bandeiras do ódio.

Mas a fotografia lembra que a intolerância também pode vestir a roupa da multidão convencida de sua superioridade moral.

Quando dezenas de pessoas gritam "matem o nazista", a frase pode até nascer de uma indignação compreensível. Ainda assim, ela revela o mesmo mecanismo que sustenta todo fanatismo: a desumanização do adversário.

Esse talvez seja o detalhe mais importante da imagem. Keshia não tentou convencer aquele homem de que estava errado. Também não lhe ofereceu absolvição. Fez algo muito mais difícil: impediu que ele fosse reduzido à condição de um corpo descartável.

Sua frase atravessou as décadas porque sintetiza essa postura: ninguém aprende a bondade apanhando.

A política contemporânea, as redes sociais e boa parte dos debates públicos parecem caminhar na direção oposta. Cada grupo acredita possuir o monopólio da virtude e, por isso, concede a si mesmo licença para humilhar, cancelar ou destruir quem pensa diferente. Muda-se o alvo, preserva-se o método.

A imagem de Ann Arbor continua atual porque rompe essa engrenagem.

Ela nos lembra que princípios não servem para proteger apenas quem admiramos. Seu verdadeiro valor aparece quando somos chamados a aplicá-los em favor de quem consideramos indigno deles.

O homem caído no chão talvez nunca tenha abandonado suas convicções. Talvez tenha mudado. Pouco importa para compreender o sentido daquela fotografia. O que realmente permaneceu foi a decisão de uma jovem que recusou permitir que o ódio escrevesse mais uma página de sua própria história.

No fim das contas, Mark Brunner não fotografou apenas um resgate. Fotografou o instante em que um corpo disse "não" à vingança. E, às vezes, um único "não" vale mais para a civilização do que milhares de gritos em nome da justiça.

sábado, 25 de julho de 2026

Tereza de Benguela ainda espera sua coroação

Algumas datas o calendário registra, mas a consciência nacional insiste em deixar esquecidas.

O 25 de julho, Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha, é uma delas.

O Brasil gosta de celebrar personagens depois de neutralizá-los.

Enquanto vivos — ou enquanto sua memória ainda representa perigo — são tratados como incômodos. Depois, recebem nome de rua, placa comemorativa, postagem institucional e, se houver orçamento, um seminário de duas horas. O conflito desaparece; resta apenas a homenagem.

Tereza de Benguela não foi feita para caber nesse ritual burocrático.

No século XVIII, liderou o Quilombo do Quariterê, na região que hoje pertence ao Mato Grosso.

Governou uma comunidade composta por negros e indígenas, organizou defesa militar, estabeleceu formas de comércio, administrou justiça e demonstrou que liberdade não era apenas um sonho, mas também uma forma concreta de governo.

Enquanto muitos ainda discutiam quem teria direito à humanidade, ela já administrava uma sociedade onde essa humanidade era pressuposto.

É curioso notar como o imaginário brasileiro conhece rainhas europeias, imperatrizes francesas e até personagens fictícias da nobreza inglesa, mas mal consegue reconhecer a existência da chamada Rainha Tereza. Talvez porque sua coroa tenha sido forjada não em ouro, mas em resistência.

O Dia da Mulher Negra não existe para criar uma categoria à parte de mulheres. Existe porque a história brasileira criou uma categoria à parte de esquecimentos.

A mulher negra ajudou a construir este país como trabalhadora, agricultora, artesã, professora, enfermeira, cientista, artista, escritora, mãe e líder comunitária.

Ainda assim, frequentemente aparece apenas quando o assunto é desigualdade. É como se o Brasil enxergasse sua dor antes de reconhecer sua grandeza.

Existe uma diferença enorme entre representar e pertencer. Muitas campanhas publicitárias descobriram a estética da diversidade. Já a igualdade continua sendo um projeto em construção. Celebrar mulheres negras em julho e ignorar seus desafios em agosto é apenas transformar memória em marketing.

Tereza de Benguela representa exatamente o contrário dessa lógica. Sua história não é um convite à vitimização, mas à autonomia.

Ela não entrou para a História porque sofreu, entrou porque governou, organizou, resistiu e liderou. Sua biografia desafia a narrativa confortável que reduz pessoas negras apenas ao papel de vítimas da escravidão. Antes de tudo, ela foi protagonista de sua própria história.

Talvez seja justamente isso que torne sua memória tão necessária. Um país que conhece apenas seus mártires dificilmente aprenderá a reconhecer seus estadistas.

No fim das contas, o Dia Nacional de Tereza de Benguela não deveria servir apenas para lembrar uma mulher extraordinária do século XVIII. Deveria servir para perguntar quantas Terezas ainda permanecem invisíveis em escolas, universidades, empresas, laboratórios, redações, tribunais e parlamentos.

Porque memória não é um exercício de nostalgia. É um compromisso com aquilo que escolhemos não esquecer.

E, enquanto Tereza de Benguela continuar sendo mais conhecida em cerimônias oficiais do que nas salas de aula, o Brasil seguirá provando que homenagear o passado é muito mais fácil do que aprender com ele.


sexta-feira, 24 de julho de 2026

A Indústria brasileira aceita a acusação americana?

Achei curioso o patriotismo da CNI e da ABIMAQ: o do réu que aceita a acusação antes do julgamento

Existe um velho ditado no Direito segundo o qual quem confessa facilita o trabalho da acusação. Pois bem.

Se depender da reação inicial de parte da representação da indústria brasileira, os Estados Unidos nem precisarão gastar muito tempo tentando convencer o mundo de que o Brasil convive com trabalho forçado em sua cadeia produtiva. Alguns dos nossos representantes parecem dispostos a fazer esse serviço de graça.

Diante do anúncio das tarifas americanas, justificadas pela gravíssima acusação de utilização de trabalho forçado, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (ABIMAQ) correram para defender a negociação direta e advertir contra medidas de reciprocidade.

Negociar? Evidentemente. Diplomacia não é uma modalidade de luta livre.

Mas há uma questão anterior, muito anterior.

Onde estava a indignação contra a acusação?

Porque uma coisa é reconhecer que uma guerra comercial produz perdas para todos. Outra, muito diferente, é agir como se a acusação fosse apenas um detalhe burocrático no meio da negociação.

Quando uma potência econômica afirma que determinado país merece ser tarifado porque estaria associado a práticas de trabalho forçado, isso não representa apenas uma divergência comercial. É um ataque à reputação internacional de toda a sua produção.

A primeira reação esperada de quem representa a indústria seria perguntar: onde estão as provas?

Em vez disso, o debate rapidamente migrou para outro terreno: "não reajam", "não façam reciprocidade", "negociem".

Ora, negociar o quê? A tarifa ou a culpa?

Porque a impressão produzida é devastadora. Quem observa de fora pode concluir que, se as próprias entidades industriais brasileiras não contestam energicamente a acusação, talvez ela contenha algum fundo de verdade.

É evidente que isso não significa que defender reciprocidade seja necessariamente a melhor estratégia. Medidas dessa natureza precisam ser avaliadas com racionalidade econômica e diplomática. O ponto não é esse.

O problema é inverter a ordem das prioridades.

Antes de discutir como responder à sanção, seria razoável rejeitar publicamente a narrativa que tenta justificar a própria sanção.

Caso contrário, aceita-se a denúncia e passa-se diretamente à discussão da pena.

Mas existe uma ironia ainda maior.

Boa parte do empresariado organizado que hoje cobra do presidente Lula uma solução rápida para a crise foi, durante anos, uma das mais entusiasmadas bases de sustentação política do bolsonarismo.

Não estamos falando apenas de apoio eleitoral. Estamos falando de um ambiente político que tratou qualquer gesto de alinhamento automático aos Estados Unidos de Donald Trump como demonstração de patriotismo.

Essa mesma galera apoiava que o próximo presidente deveria ser o governador carioca de São Paulo, Tarcísio de Freitas que subiroa a rampa do Planalto com o boné "make América great again".

Agora, quando essa relação produz consequências econômicas e diplomáticas desfavoráveis ao Brasil, a responsabilidade desaparece como num passe de mágica.

Os responsáveis políticos pelo ambiente que desembocou nesse conflito tornam-se invisíveis.

E toda a cobrança recai sobre Lula, como se tivesse sido seu governo a incentivar confrontos institucionais, atacar parceiros comerciais ou transformar a política externa em instrumento de guerra ideológica.

É uma curiosa versão da responsabilidade seletiva.

Privatizam-se os aplausos quando a aposta parece render dividendos políticos.

Socializam-se os prejuízos quando a conta finalmente chega.

Não deixa de ser curioso que parte dos mesmos setores empresariais que tantas vezes denunciaram um Estado "intervencionista" agora exijam justamente desse Estado a solução imediata para uma crise cuja gênese política ajudaram a alimentar.

O governo, evidentemente, tem a obrigação de defender os interesses nacionais. É para isso que existe.

Mas também seria saudável que as entidades empresariais demonstrassem o mesmo vigor na defesa da honra da indústria brasileira que demonstram ao defender a necessidade de preservar mercados.

Porque reputação também é ativo econômico.

Aliás, talvez seja o principal deles.

Uma indústria cuja própria representação parece hesitar em contestar uma acusação internacional gravíssima já entra na mesa de negociação em posição defensiva.

Não porque perdeu a disputa comercial.

Mas porque, antes mesmo da primeira rodada, aceitou discutir o tamanho da punição sem exigir que a acusação fosse demonstrada.

Isso não é pragmatismo.

É rendição argumentativa.

E quem se rende na narrativa dificilmente vence na negociação.

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Fim do Panem et Circenses Hermano

Durante anos, o futebol mundial comprou uma narrativa confortável.

A Argentina não era apenas uma seleção vencedora, era apresentada como protagonista de uma epopeia cinematográfica. Cada vitória parecia fazer parte de um roteiro previamente aprovado pela publicidade, pelas transmissões televisivas e pelas redes sociais. O espetáculo precisava de um herói, e o herói precisava levantar a taça.

Mas toda mitologia encontra um dia em que o palco desaba.

A final da Copa expôs uma Argentina muito diferente daquela embalada pelo romantismo dos documentários e das campanhas publicitárias. O verniz caiu. Restou o comportamento.

Lionel Messi protagonizou um lance que dificilmente combina com a imagem do "gênio absoluto" construída ao longo da última década. Em vez de seguir o jogo, preferiu tentar convencer a arbitragem de que Marc Cucurella deveria ser expulso. Não foi um gesto de liderança. Foi uma tentativa pouco digna de influenciar a decisão do árbitro. Quando um dos maiores jogadores da história precisa recorrer ao teatro para alterar uma partida, algo já não vai bem.

A derrota, porém, retirou definitivamente a maquiagem.

Nos minutos finais, a seleção argentina transformou a frustração em agressividade. Entradas desnecessárias, empurrões, discussões e um comportamento incompatível com quem tantas vezes exigiu respeito ao "espírito esportivo". O futebol aceita a derrota como parte de sua essência. O destempero, não.

E então veio a cena que talvez simbolize toda a noite.

Na cerimônia de premiação, enquanto a Espanha celebrava o título, os jogadores argentinos permaneceram de costas para a festa dos campeões. O gesto pretendia demonstrar indignação; acabou revelando incapacidade de reconhecer o mérito do adversário. Há derrotas dolorosas, mas existe uma diferença enorme entre sofrer e desrespeitar.

Os grandes campeões também são medidos pela forma como perdem.

Foi justamente isso que desmontou uma narrativa construída durante anos.

A Argentina sempre gostou de apontar arrogância nos outros. Criticou europeus, brasileiros e qualquer seleção que demonstrasse excesso de confiança. Na primeira grande derrota depois da conquista mundial, revelou exatamente aquilo que dizia combater.

A ironia é inevitável.

Durante muito tempo, quem questionava certos privilégios concedidos à seleção argentina era tratado como conspiracionista. Cada lance polêmico era relativizado. Cada excesso era romantizado como "raça". Cada reclamação era transformada em "personalidade". Quando vence, chama-se paixão, quando perde, descobre-se que muitas vezes era apenas falta de controle.

A final funcionou como um espelho.

A Espanha venceu o jogo. Mas o futebol venceu algo maior: a necessidade de fabricar heróis intocáveis.

Nenhum craque está acima da crítica.

(Viu, Neymar?)

Nenhuma seleção merece imunidade moral apenas porque possui uma boa história para vender. O esporte continua sendo fascinante justamente porque destrói mitologias quando a bola rola.

O velho panem et circenses sempre dependeu da ilusão. Bastava oferecer espetáculo para que ninguém percebesse os bastidores. A final desta Copa fez exatamente o contrário: interrompeu o espetáculo e acendeu as luzes do teatro.

Sob essa iluminação menos romântica, a Argentina apareceu sem o figurino da epopeia.

E, talvez pela primeira vez em muito tempo, foi desmascarada diante do mundo.