O comportamento de quem transforma o mapa eleitoral brasileiro em uma espécie de certificado de superioridade regional revela uma perversidade bem particular.
Quando o Nordeste vota majoritariamente em Lula, parte dos brasileiros do Sul, do Sudeste e do Centro-Oeste reage como se a escolha de milhões de cidadãos fosse uma prova de inferioridade intelectual, moral ou econômica. A divergência política deixa de ser debate democrático e passa a servir de pretexto para a discriminação.
O raciocínio é tão preconceituoso quanto historicamente desinformado: o Nordeste tem mais pobreza, logo seus habitantes seriam menos capazes de escolher os próprios representantes. Como se a renda determinasse a inteligência. Como se o CEP definisse a dignidade. Como se a democracia concedesse mais valor ao voto de quem ganha mais.
A pobreza existe, os indicadores mostram desigualdades reais, mas a interpretação que transforma essas desigualdades em defeitos de uma população é que constitui a fraude moral dessa discussão.
Segundo o IBGE, em 2023, 47,2% da população nordestina estava abaixo da linha de pobreza monetária adotada pelo instituto, baseada em US$ 6,85 diários pela paridade do poder de compra. No Sul, a proporção era de 14,8%. Os números não devem ser negados nem maquiados. Devem ser compreendidos. E compreender exige ir além de uma eleição e de uma postagem ofensiva nas redes sociais.
A desigualdade não nasceu na urna
A história econômica brasileira não começou com Lula, tampouco com o Bolsa Família. O Nordeste ocupou posição central na economia colonial, especialmente na produção açucareira, construída sobre a exploração do trabalho escravizado. Posteriormente, mudanças nos mercados, na estrutura produtiva e na localização dos investimentos contribuíram para deslocar o centro dinâmico da economia nacional.
No século XX, a industrialização brasileira concentrou-se sobretudo no Sudeste, com São Paulo assumindo papel decisivo. A infraestrutura, os capitais acumulados, a expansão do mercado consumidor e as políticas econômicas contribuíram para consolidar essa concentração. O Nordeste não percorreu a mesma trajetória, e as tentativas de reduzir as disparidades regionais, como a criação da Sudene em 1959, surgiram justamente diante desse problema histórico.
Isso não significa que o Sul e o Sudeste tenham prosperado apenas por causa do Nordeste, nem que todas as diferenças atuais possam ser explicadas por uma única causa. Significa que o desenvolvimento brasileiro ocorreu de maneira desigual, com oportunidades, investimentos e estruturas produtivas distribuídos de forma assimétrica.
A geografia econômica não é uma competição esportiva na qual uma região vence porque seus habitantes possuem alguma virtude inata. É resultado de processos históricos, decisões políticas, condições materiais, infraestrutura, educação, organização produtiva e acesso a oportunidades.
A contradição de quem condena a pobreza, mas despreza os pobres
A crueldade aparece quando a desigualdade deixa de ser um problema a enfrentar e vira instrumento para humilhar quem vive sob suas consequências.
Em outubro de 2022, após o primeiro turno presidencial, reportagens registraram ataques contra eleitores nordestinos, incluindo associações entre a votação em Lula, o analfabetismo e a dependência econômica.
Uma pesquisa divulgada pela Agência Fapesp em janeiro de 2026, baseada em estudo da Universidade Federal de São Carlos, identificou aumento de 821% no discurso de ódio contra nordestinos no X (Twitter), durante a eleição de 2022, conforme a metodologia utilizada pelos pesquisadores.
O fenômeno expõe uma contradição: pessoas que dizem desejar o desenvolvimento do país podem, ao mesmo tempo, tratar uma parcela da população como se ela não merecesse respeito por sua origem ou por sua condição econômica.
Quem realmente se preocupa com a pobreza deveria discutir empregos, saneamento, educação, infraestrutura, industrialização, produtividade e distribuição de renda. Deveria cobrar resultados dos governos, independentemente do partido. Deveria perguntar por que oportunidades e investimentos não alcançam todos os brasileiros nas mesmas condições.
Insultar o pobre não cria emprego. Ridicularizar o nordestino não instala uma fábrica no sertão. Desqualificar seu voto não melhora a educação pública nem constrói uma rede de abastecimento de água.
O voto é consequência de experiências, não de uma suposta inferioridade
A preferência eleitoral de uma população não pode ser explicada por uma única variável. Experiências econômicas, identificação partidária, políticas públicas, valores, expectativas e avaliações dos governos podem influenciar as escolhas dos eleitores. Isso vale para o Nordeste e também para quem vota de maneira diferente no Sul, no Sudeste e no Centro-Oeste.
Em 2022, Lula obteve 69,34% dos votos válidos no Nordeste no segundo turno, segundo os resultados eleitorais divulgados. Esse resultado expressou uma escolha política majoritária naquela região, não uma autorização para que brasileiros de outras partes do país tratassem seus habitantes como cidadãos de segunda classe.
O eleitor nordestino não precisa votar como o eleitor gaúcho, catarinense, paulista, mineiro, goiano ou mato-grossense para ter seus direitos respeitados. A democracia existe justamente porque cidadãos livres podem discordar.
E há uma ironia adicional: o Brasil inteiro se beneficia do trabalho de pessoas que migraram do Nordeste, construíram cidades, trabalharam na indústria, na construção civil, no comércio, nos serviços e em inúmeros outros setores. A contribuição nordestina não está confinada às fronteiras dos nove estados da região.
Não existe mérito em herdar oportunidades e desprezar quem teve menos
O desenvolvimento de uma região pode ser motivo de orgulho, mas não deveria servir como autorização para o desprezo. Ter acesso a melhores oportunidades econômicas não transforma ninguém em cidadão superior. Do mesmo modo, enfrentar pobreza não torna ninguém intelectualmente inferior ou politicamente incapaz.
O Nordeste não é homogêneo, não vive exclusivamente da pobreza e tampouco está condenado a ela. Possui centros urbanos, universidades, polos industriais, atividades agrícolas, turismo, produção cultural e setores econômicos diversos. Seus problemas estruturais são reais, mas não resumem a identidade de milhões de pessoas.
A mesma honestidade exige reconhecer as desigualdades existentes em outras regiões brasileiras. O Sul, o Sudeste e o Centro-Oeste também têm populações vulneráveis e municípios com dificuldades econômicas. Indicadores regionais são médias que não descrevem igualmente todos os habitantes.
A questão, portanto, não é inverter o preconceito e declarar uma região moralmente superior a outra. É abandonar a ideia de que diferenças de renda autorizam diferenças de dignidade.
O Brasil que ainda precisa aprender a ser um país
O Nordeste não deve desculpas por votar em Lula, assim como qualquer outra região não deve desculpas por escolher candidatos diferentes. O voto é um direito, não uma concessão das regiões mais ricas às mais pobres.
Se a desigualdade regional preocupa, que a discussão seja sobre como superá-la. Se a educação preocupa, que se invista nela. Se faltam empregos e oportunidades, que se debatam políticas capazes de ampliar a atividade econômica e reduzir a vulnerabilidade social.
O que não se pode aceitar é que uma desigualdade construída ao longo de séculos seja utilizada como arma contra aqueles que ainda convivem com suas consequências.
O problema não está em reconhecer que o Nordeste enfrenta maiores índices de pobreza. Está em transformar esse dado em argumento para diminuir o nordestino.
Uma sociedade verdadeiramente comprometida com o desenvolvimento não pergunta por que os pobres ousam votar. Pergunta por que, em um país tão rico em recursos, trabalho e diversidade, tantos brasileiros ainda não dispõem das mesmas oportunidades.
A urna não mede a dignidade de uma população. E a renda de uma família não determina o valor de sua cidadania.
O Nordeste não precisa da autorização política ou moral de nenhuma outra região para existir, votar e exigir seu lugar no futuro brasileiro.
Até porque, um estado que elege como governador, uma besta completa, como Sérgio Moro, não tem muita moral para ofender todo o Nordeste.
Mas, isso é conversa para outro dia.
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