sexta-feira, 9 de outubro de 2026

O Nordeste merece respeito

O comportamento de quem transforma o mapa eleitoral brasileiro em uma espécie de certificado de superioridade regional revela uma perversidade bem particular.

Quando o Nordeste vota majoritariamente em Lula, parte dos brasileiros do Sul, do Sudeste e do Centro-Oeste reage como se a escolha de milhões de cidadãos fosse uma prova de inferioridade intelectual, moral ou econômica. A divergência política deixa de ser debate democrático e passa a servir de pretexto para a discriminação.

O raciocínio é tão preconceituoso quanto historicamente desinformado: o Nordeste tem mais pobreza, logo seus habitantes seriam menos capazes de escolher os próprios representantes. Como se a renda determinasse a inteligência. Como se o CEP definisse a dignidade. Como se a democracia concedesse mais valor ao voto de quem ganha mais.

A pobreza existe, os indicadores mostram desigualdades reais, mas a interpretação que transforma essas desigualdades em defeitos de uma população é que constitui a fraude moral dessa discussão.

Segundo o IBGE, em 2023, 47,2% da população nordestina estava abaixo da linha de pobreza monetária adotada pelo instituto, baseada em US$ 6,85 diários pela paridade do poder de compra. No Sul, a proporção era de 14,8%. Os números não devem ser negados nem maquiados. Devem ser compreendidos. E compreender exige ir além de uma eleição e de uma postagem ofensiva nas redes sociais.

A desigualdade não nasceu na urna

A história econômica brasileira não começou com Lula, tampouco com o Bolsa Família. O Nordeste ocupou posição central na economia colonial, especialmente na produção açucareira, construída sobre a exploração do trabalho escravizado. Posteriormente, mudanças nos mercados, na estrutura produtiva e na localização dos investimentos contribuíram para deslocar o centro dinâmico da economia nacional.

No século XX, a industrialização brasileira concentrou-se sobretudo no Sudeste, com São Paulo assumindo papel decisivo. A infraestrutura, os capitais acumulados, a expansão do mercado consumidor e as políticas econômicas contribuíram para consolidar essa concentração. O Nordeste não percorreu a mesma trajetória, e as tentativas de reduzir as disparidades regionais, como a criação da Sudene em 1959, surgiram justamente diante desse problema histórico.

Isso não significa que o Sul e o Sudeste tenham prosperado apenas por causa do Nordeste, nem que todas as diferenças atuais possam ser explicadas por uma única causa. Significa que o desenvolvimento brasileiro ocorreu de maneira desigual, com oportunidades, investimentos e estruturas produtivas distribuídos de forma assimétrica.

A geografia econômica não é uma competição esportiva na qual uma região vence porque seus habitantes possuem alguma virtude inata. É resultado de processos históricos, decisões políticas, condições materiais, infraestrutura, educação, organização produtiva e acesso a oportunidades.

A contradição de quem condena a pobreza, mas despreza os pobres

A crueldade aparece quando a desigualdade deixa de ser um problema a enfrentar e vira instrumento para humilhar quem vive sob suas consequências.

Em outubro de 2022, após o primeiro turno presidencial, reportagens registraram ataques contra eleitores nordestinos, incluindo associações entre a votação em Lula, o analfabetismo e a dependência econômica.

Uma pesquisa divulgada pela Agência Fapesp em janeiro de 2026, baseada em estudo da Universidade Federal de São Carlos, identificou aumento de 821% no discurso de ódio contra nordestinos no X (Twitter), durante a eleição de 2022, conforme a metodologia utilizada pelos pesquisadores.

O fenômeno expõe uma contradição: pessoas que dizem desejar o desenvolvimento do país podem, ao mesmo tempo, tratar uma parcela da população como se ela não merecesse respeito por sua origem ou por sua condição econômica.

Quem realmente se preocupa com a pobreza deveria discutir empregos, saneamento, educação, infraestrutura, industrialização, produtividade e distribuição de renda. Deveria cobrar resultados dos governos, independentemente do partido. Deveria perguntar por que oportunidades e investimentos não alcançam todos os brasileiros nas mesmas condições.

Insultar o pobre não cria emprego. Ridicularizar o nordestino não instala uma fábrica no sertão. Desqualificar seu voto não melhora a educação pública nem constrói uma rede de abastecimento de água.

O voto é consequência de experiências, não de uma suposta inferioridade

A preferência eleitoral de uma população não pode ser explicada por uma única variável. Experiências econômicas, identificação partidária, políticas públicas, valores, expectativas e avaliações dos governos podem influenciar as escolhas dos eleitores. Isso vale para o Nordeste e também para quem vota de maneira diferente no Sul, no Sudeste e no Centro-Oeste.

Em 2022, Lula obteve 69,34% dos votos válidos no Nordeste no segundo turno, segundo os resultados eleitorais divulgados. Esse resultado expressou uma escolha política majoritária naquela região, não uma autorização para que brasileiros de outras partes do país tratassem seus habitantes como cidadãos de segunda classe.

O eleitor nordestino não precisa votar como o eleitor gaúcho, catarinense, paulista, mineiro, goiano ou mato-grossense para ter seus direitos respeitados. A democracia existe justamente porque cidadãos livres podem discordar.

E há uma ironia adicional: o Brasil inteiro se beneficia do trabalho de pessoas que migraram do Nordeste, construíram cidades, trabalharam na indústria, na construção civil, no comércio, nos serviços e em inúmeros outros setores. A contribuição nordestina não está confinada às fronteiras dos nove estados da região.

Não existe mérito em herdar oportunidades e desprezar quem teve menos

O desenvolvimento de uma região pode ser motivo de orgulho, mas não deveria servir como autorização para o desprezo. Ter acesso a melhores oportunidades econômicas não transforma ninguém em cidadão superior. Do mesmo modo, enfrentar pobreza não torna ninguém intelectualmente inferior ou politicamente incapaz.

O Nordeste não é homogêneo, não vive exclusivamente da pobreza e tampouco está condenado a ela. Possui centros urbanos, universidades, polos industriais, atividades agrícolas, turismo, produção cultural e setores econômicos diversos. Seus problemas estruturais são reais, mas não resumem a identidade de milhões de pessoas.

A mesma honestidade exige reconhecer as desigualdades existentes em outras regiões brasileiras. O Sul, o Sudeste e o Centro-Oeste também têm populações vulneráveis e municípios com dificuldades econômicas. Indicadores regionais são médias que não descrevem igualmente todos os habitantes.

A questão, portanto, não é inverter o preconceito e declarar uma região moralmente superior a outra. É abandonar a ideia de que diferenças de renda autorizam diferenças de dignidade.

O Brasil que ainda precisa aprender a ser um país

O Nordeste não deve desculpas por votar em Lula, assim como qualquer outra região não deve desculpas por escolher candidatos diferentes. O voto é um direito, não uma concessão das regiões mais ricas às mais pobres.

Se a desigualdade regional preocupa, que a discussão seja sobre como superá-la. Se a educação preocupa, que se invista nela. Se faltam empregos e oportunidades, que se debatam políticas capazes de ampliar a atividade econômica e reduzir a vulnerabilidade social.

O que não se pode aceitar é que uma desigualdade construída ao longo de séculos seja utilizada como arma contra aqueles que ainda convivem com suas consequências.

O problema não está em reconhecer que o Nordeste enfrenta maiores índices de pobreza. Está em transformar esse dado em argumento para diminuir o nordestino.

Uma sociedade verdadeiramente comprometida com o desenvolvimento não pergunta por que os pobres ousam votar. Pergunta por que, em um país tão rico em recursos, trabalho e diversidade, tantos brasileiros ainda não dispõem das mesmas oportunidades.

A urna não mede a dignidade de uma população. E a renda de uma família não determina o valor de sua cidadania.

O Nordeste não precisa da autorização política ou moral de nenhuma outra região para existir, votar e exigir seu lugar no futuro brasileiro.

Até porque, um estado que elege como governador, uma besta completa, como Sérgio Moro, não tem muita moral para ofender todo o Nordeste.

Mas, isso é conversa para outro dia.

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

O sistema é uma porcaria — desde que não seja o sistema da família

No Brasil, existe uma modalidade particular de indignação política: o cidadão passa anos denunciando o “sistema”, prometendo destruir a “velha política” e jurando que chegou a hora de acabar com os privilégios de Brasília.

Até que o sistema, esse ingrato, começa a eleger seus parentes. Nesse momento, a revolução tira o uniforme, veste um terno e vai providenciar mais um gabinete para a família.

Jair Bolsonaro construiu boa parte de sua identidade política explorando a rejeição aos políticos tradicionais. Era o outsider que enfrentaria tudo isso. O homem que não se curvaria aos esquemas, às conveniências e aos vícios da República. Curiosamente, sua trajetória também ajudou a consolidar uma dinastia eleitoral.

Em 2026, o sobrenome Bolsonaro voltou a ocupar espaço nas urnas. Michelle Bolsonaro, Carlos Bolsonaro, Jair Renan Bolsonaro e Renato Bolsonaro, irmão do ex-presidente, foram eleitos.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, chegou ao segundo turno da disputa presidencial. 

Eduardo Bolsonaro já havia construído sua trajetória como deputado federal, enquanto Rogéria Bolsonaro, ex-esposa de Jair e mãe de três de seus filhos, também tentou retornar à política, mas não conseguiu se eleger.

Temos, portanto, uma família que transformou o sobrenome em ativo eleitoral. Não existe ilegalidade automática nisso. Democracia não proíbe parentes de disputar eleições. O problema começa quando se vende a ideia de que o país precisa se livrar de um sistema viciado, mas não se apresenta explicação convincente para a multiplicação de mandatos dentro do próprio círculo familiar.

A pergunta é elementar: o problema é o sistema ou o fato de não ser a sua família a ocupar todos os espaços?

Porque, convenhamos, existe uma diferença entre denunciar privilégios e simplesmente desejar mudar seus beneficiários. A primeira atitude pode ser política. A segunda se parece mais com uma disputa pelo controle do condomínio.

E Lula? Convém não cometer o erro factual de dizer que jamais teve um parente eleito. Marcos Cláudio Lula da Silva, seu filho adotivo, foi eleito vereador em São Bernardo do Campo em 2012.

A comparação séria não exige fabricar uma biografia imaculada para um lado; exige observar a dimensão e a organização das trajetórias eleitorais de cada família.

O ponto central permanece: não se pode transformar o parentesco em pecado quando ele aparece no campo adversário e em virtude quando favorece os próprios aliados.

O eleitor que acusa Lula de representar o “sistema” precisa explicar por que a política familiar dos Bolsonaro não desperta a mesma suspeita. Se o sobrenome Lula é tratado como evidência de uma suposta estrutura de poder, por qual critério o sobrenome Bolsonaro deveria receber imunidade crítica?

A resposta não pode ser simplesmente que os candidatos foram eleitos pelo voto popular. Naturalmente foram. É justamente por isso que a discussão importa: o voto legitima mandatos, mas não transforma toda contradição política em coerência.

Eis a ironia: os que prometiam combater a velha política descobriram que ela pode ser bastante confortável quando a cadeira tem o sobrenome certo.

No fim, talvez o discurso contra o sistema tenha sido interpretado de maneira muito particular por alguns de seus defensores. Não seria preciso acabar com a máquina política, com seus vícios ou com a concentração de poder. Bastaria trocar quem segura o volante.

O sistema é perverso quando elege os outros; quando elege a família, deve ser sinal de que a democracia está funcionando.

Que extraordinária revolução: muda-se o discurso, muda-se o inimigo, mudam-se as justificativas — mas o sobrenome continua na cédula.

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Campopiano: fruto plantado pela imprensa causa indigestão na própria imprensa

A imprensa que ajudou a fabricar o monstro agora se assusta com ele?

A imprensa brasileira descobriu Eduarda Campopiano.

Descobriu que a deputada estadual eleita pelo PL em São Paulo, aos 23 anos, não chegou ao Parlamento carregando apenas um diploma eleitoral. Chegou carregando um repertório de guerra cultural que inclui ataques a Erika Hilton e declarações sobre povos indígenas que provocaram acusações de transfobia e racismo e representações ao Ministério Público.

Campopiano foi eleita com cerca de 1,96 milhão de votos, a maior votação para a Assembleia Legislativa paulista. E agora parte da imprensa parece horrorizada.

Perfeito.

Só existe um pequeno problema: esse filme já passou antes.

O nome do protagonista anterior era Jair Bolsonaro.

E aqui começa a parte incômoda.

Não se trata de dizer que "a imprensa elegeu Bolsonaro". Essa simplificação seria tão infantil quanto atribuir a eleição de Campopiano exclusivamente às redes sociais. Trata-se de algo mais sério: durante anos, setores relevantes da imprensa transformaram a provocação política em espetáculo jornalístico.

A fórmula era extraordinariamente eficiente.

Bolsonaro dizia uma barbaridade. A imprensa noticiava. Bolsonaro respondia à repercussão. A imprensa noticiava a resposta. A reação à resposta virava nova notícia.

E a notícia produzia mais audiência, mais reconhecimento e mais capital político.

A BBC chegou a registrar, em 2018, como o destaque dado às polêmicas havia ampliado a fama e o eleitorado de Bolsonaro. Não era exatamente um segredo.

Mais revelador ainda é o trabalho acadêmico produzido na Universidade de Brasília. Uma tese de doutorado analisou 826 notícias da Folha de S.Paulo e do Estado de S. Paulo entre 2008 e 2018 e concluiu que determinadas práticas jornalísticas contribuíram para a normalização e difusão do discurso nazifascista de Bolsonaro. 

O estudo aponta, entre outros fatores, reprodução literal de falas radicais, ausência de fontes qualificadas para rebater ameaças antidemocráticas e uma cobertura frequentemente pautada pelas próprias estratégias do político.

Outro estudo, publicado na revista Sur le journalisme, chegou a conclusão semelhante ao examinar especificamente a agenda antigênero de Bolsonaro: Folha e Estadão deram espaço às estratégias de comunicação populista e reproduziram declarações misóginas e homofóbicas sem suficiente contextualização ou contraponto qualificado.

Portanto, não é apenas uma impressão de quem está sentado no sofá reclamando da televisão. Existe pesquisa acadêmica sobre isso.

E é justamente por isso que a cobertura de Campopiano merece uma pergunta que vai além da própria deputada: por que o espanto chegou tão tarde?

Campopiano não inventou o método.

Ela aprendeu com um ambiente político no qual dizer o absurdo passou a ser uma maneira eficiente de conquistar espaço.

A diferença é que Bolsonaro foi pioneiro numa época em que esse mecanismo ainda parecia exótico. Seus sucessores chegam a um ecossistema completamente preparado.

Hoje, uma frase agressiva pode ser publicada no X, viralizar em minutos, provocar indignação, gerar uma reportagem, produzir uma entrevista sobre a reportagem, alimentar cortes de vídeo e retornar às redes multiplicada por milhões.

A polêmica deixou de ser consequência da política. A polêmica virou produto político.

Campopiano compreendeu isso.

Seu ataque a Erika Hilton ultrapassou 3 milhões de visualizações, segundo a Folha. A própria deputada eleita posteriormente classificou a referência a Hilton como uma "manifestação provocativa" nas redes.

"Provocativa."

Eis a palavra mágica da nova política.

Não é preconceito. É provocação.

Não é intolerância. É opinião.

Não é agressividade. É autenticidade.

Não é estratégia de viralização. É "falar o que pensa".

O vocabulário muda, mas a técnica permanece.

E a imprensa precisa ter coragem de olhar para sua própria responsabilidade nesse processo.

Não se trata de pedir censura. Muito menos de impedir que Campopiano fale.

É exatamente o contrário.

Ela deve falar. A imprensa deve investigar. As vítimas devem responder. Os especialistas devem contextualizar. As instituições devem apurar eventuais crimes.

E o eleitor deve decidir.

O que não pode acontecer é a transformação do absurdo em entretenimento e, depois, a surpresa quando o entretenimento conquista mandato.

Porque existe uma diferença enorme entre dar notícia sobre um político e deixar que o político determine sozinho os termos da notícia.

A primeira é jornalismo. A segunda pode se transformar em propaganda involuntária.

E talvez seja justamente aí que resida a maior ironia.

A mesma imprensa que durante anos precisou correr atrás de Bolsonaro para saber qual seria a próxima declaração explosiva agora corre atrás de Campopiano para explicar por que ela fala daquela maneira.

Ora, ela fala daquela maneira porque aprendeu que funciona. Aprendeu que o algoritmo recompensa. Aprendeu que a indignação gera alcance.

Aprendeu que a imprensa repercute.

Aprendeu que o ataque ao adversário rende mais atenção do que uma proposta de política pública. E aprendeu isso observando uma geração anterior fazer exatamente a mesma coisa.

Por isso, o escândalo diante de Campopiano precisa ser acompanhado de memória.

Não basta denunciar o incêndio. É preciso assumir que passou anos vendendo gasolina como entretenimento.

A imprensa tem todo o direito, e até o dever, de endurecer o tratamento diante de discursos racistas, transfóbicos, misóginos ou antidemocráticos, mas deveria também reconhecer que demorou a compreender o mecanismo.

Porque Campopiano não é apenas uma deputada que surgiu das redes sociais.

Ela é, em alguma medida, um dos produtos políticos de uma época em que a política descobriu que a indignação dá audiência e a audiência dá votos.

O monstro não apareceu ontem.

Ontem foi apenas o dia em que ele ganhou quase dois milhões de votos.

E a imprensa, finalmente, parece ter percebido que aquilo que durante anos chamou de "polêmica" também podia ser chamado de método.

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Fezes na Democracia

“…Mostra que a vida se lamenta por nós dois
Mas falta em seu peito um coração
Ao me dar a escravidão
E um prato de feijão com arroz…”
(Paraíso do Tuiuti, 2018)

Você aí que tem um mínimo de consciência histórica, sensibilidade social, humanidade, o mínimo do mínimo, deve estar em choque completo com o que aconteceu com a escolha da maioria da sociedade brasileira nessas eleições do senado, do congresso, dos governadores e presidente.

Você deve estar em choque, e tem que estar mesmo, por vários motivos, mas eu acho que está na hora da sociedade começar a pagar pelas escolhas, porque não vejo outro caminho.

Pense que na Europa hoje, por exemplo, a extrema direita que vem ganhando terreno, ganha lá uma cadeira, duas cadeiras a mais, pega um município pequeno de um país qualquer, mas no Brasil esse movimento foi absolutamente diferente.

No Brasil, o maior partido hoje, que é o PL, partido onde mais tem corrupção, é de extrema direita, ou seja, a sociedade brasileira colocou nas mãos de um partido de extrema direita, o país inteiro praticamente, com exceção de alguns estados do Nordeste.

O Brasil inteiro está na mão da extrema direita, inteiro, não é um pedacinho só. E está na hora, de repente, da sociedade começar a pagar pelas escolhas.

Se você aí ficar sem emprego, sem acesso à saúde, à educação, o problema é seu, porque você escolheu isso. Não foi uma imposição, não foi um golpe militar, não foi um atendimento, não. Não foi nada violento neste nível, foi uma escolha.

Em São Paulo, mulheres escolheram uma deputada que defende que a mulher não deve votar. Trabalhadores pobres brasileiros escolheram representantes que acham que ele não tem que ter 5x2 na escala de trabalho, e tem que ser 6x1 ou até 7x0, eles escolheram isso. Eu acho que uma das poucas saídas é as pessoas pagarem, porque não dá pra aliviar esse tipo de coisa.

Se o Brasil fosse um país onde a grande maioria fosse muito rica, tivesse acesso a tudo, fazer uma escolha pela direita seria pelo menos coerente, mas é o oposto completo. Cerca de 1% do Brasil tem uma condição boa, o resto todo passa muito perrengue, e foram escolhidos representantes que vão fazer o seu perrengue piorar.

Então, meus amigos e minhas amigas, pagando talvez é uma saída pra daqui a 30, 40 anos, porque ninguém me convence do contrário. São de 20 a 30 anos da família Bolsonaro como presidente, Flávio, Jair, Flávio, Flávio, Carlos ou Eduardo, e são contra o sistema.

E você jornalista da grande mídia que normalizou a extrema direita, quando o seu jornal for fechado e você perder o seu emprego, aceite. Você normalizou o que não é normalizável.

TEXTO DE:
Thiago Muniz

Tempos Tenebrosos


“O pior inimigo do pobre é outro pobre que se acha rico e que defende aqueles que o tornam pobres.”
(Pepe Mujica)

Quando você reelege uma força de ultra-direita, você favorece uma deterioração da democracia e endossa posições antidemocráticas.

A grande mídia fez um jogo muito perigoso e macabro com os anseios antidemocráticos, golpistas e fascistas. As falsas equivalências, as relativizações, os diferentes pesos e medidas, o resultado está aí.

Curiosamente serão os primeiros amordaçados no cercadinho. Espero que tomem vergonha na cara. Mas talvez não haja mais tempo.

Uma noite de glória para os sapatênis do horário nobre, os artistas omissos, os donos das telas. Tenhamos a decência de não responsabilizar os ferrados desse país. Esses resultados são da conta da elite em pele de bom-mocismo. Tigre em pele de cordeiro.

Durante a Guerra Fria, os Estados Unidos utilizaram a religião como instrumento de influência política na América Latina, em uma estratégia de combate a movimentos de Esquerda. Pesquisas históricas e documentos revelam que organizações religiosas conservadoras receberam apoio norte-americano, enquanto a CIA monitorava o avanço da Teologia da Libertação, corrente da Igreja Católica comprometida com a justiça social e a defesa dos mais pobres.

No Brasil, a presença de missionários protestantes dos Estados Unidos cresceu significativamente nas décadas de 1960 e 1970, período marcado pela ditadura militar e pela repressão aos movimentos populares. 

A ofensiva religiosa ganhou força nas décadas seguintes, especialmente durante o governo de Ronald Reagan, quando organizações da direita cristã norte-americana ampliaram sua atuação e financiaram iniciativas evangélicas na América Latina, inclusive estruturas de radiodifusão no Brasil. Investigações também identificaram vínculos entre serviços de inteligência dos Estados Unidos e determinadas organizações missionárias.

O PT não pode ignorar a propaganda sobre futuro e desenvolvimento da nação, enquanto a maior parte dos trabalhadores do país estão endividados, com subempregos como Uber e entregadores de Ifood. Pode disputar narrativa com a extrema direita, fala da Santa, dos crimes do Flávio mas se a campanha não trouxer esperança e sentimento de transformação, o povo vai abraçar o caos buscando um resultado diferente. É hora do tudo ou nada.

Bolsonaro não criou o machismo, o racismo, a homofobia ou o negacionismo no Brasil. Mas, ao ocupar a Presidência da República reproduzindo e legitimando esses discursos, ajudou a dar voz, espaço e sensação de autorização a comportamentos que antes encontravam maior constrangimento público.

No Quilombo de Ideias, o professor Lages fala sobre o poder da influência política e sobre o que acontece quando uma liderança transforma preconceitos, ataques à ciência e violência verbal em parte do debate cotidiano. Quando quem está no poder normaliza determinados discursos, eles deixam de parecer exceção, e começam a disputar lugar como se fossem aceitáveis.

O Holocausto não começou nas câmaras de gás. Começou quando uma sociedade aceitou que algumas pessoas valiam menos que as outras. Primeiro tiraram seus direitos. Depois seus nomes. Até que tiraram suas vidas.

Nos grandes veículos de comunicação, as eleições deste ano são tratadas como se fossem apenas mais uma efeméride no calendário democrático do Brasil.

Flávio Bolsonaro segue sendo apresentado como candidato comum. Alvo de acusações de corrupção, como vários outros políticos, mas comum. O foco das críticas da imprensa na reta final da temporada eleitoral de 2026 tem-se concentrado no que os comentaristas globais e os editorialistas classificam de ativismo judicial do STF.

Poucos jornalistas da grande mídia chamam atenção para o mais importante: o risco de ruptura democrática.

O Brasil tem as mãos de quem trabalha, o rosto de quem resiste e as costas marcadas por séculos de exploração. Tem a força das mulheres, a presença negra, a vida de milhões que acordam antes do sol e voltam para casa depois que os filhos dormem.

Mas ainda ensinam esse povo a sentir vergonha da própria classe e admiração por quem vive do seu cansaço. Ensinam o trabalhador a chamar seu direito de privilégio. A mulher a confundir obediência com virtude. O negro a silenciar sobre o racismo. O pobre a se culpar por toda dificuldade que o sistema lhe aprisionou.

É nesse desencontro que a extrema direita encontra espaço: quando a indignação de quem sofre é dirigida contra outro que também sofre. Um sistema planejado para desinformar e amedrontar toda uma população entra em ação.

Há um passado de senzala na ideia de que alguns nasceram para servir sem descanso. Há uma herança de casa-grande em tratar salário digno como excesso, proteção como obstáculo e exaustão como mérito.

Nossa história não permite inocência diante disso.

Não entregaremos essa memória ao esquecimento. Precisamos reconhecer uns nos outros a mesma necessidade de viver com dignidade. Transformar revolta em consciência, consciência em organização e organização em força democrática para vencermos essa batalha.

Que nenhuma mulher precise diminuir a própria voz. Que nenhuma pessoa negra precise negociar a própria humanidade. Que nenhum trabalhador tenha de gastar a vida inteira apenas para continuar vivo. Que nenhuma forma de fé e de amar sejam desrespeitadas. Tempos difíceis exigem que estejamos juntos. A luta continua, pelo povo trabalhador, pela liberdade e pelo direito de sonhar além da sobrevivência.

TEXTO DE:
Thiago Muniz

sábado, 3 de outubro de 2026

A Globo perdeu, mas a atenção tem de ser redobrada

A fisionomia do amarra-cachorro mor da família Marinho, Merval Pereira, diz tudo. 
A Globo não esperava que o seu debate desta quinta-feira (1/10), o último antes das eleições em primeiro turno, cuidadosamente preparado para ferrar Lula, desse no que deu.

Simplesmente foi cancelado.

Foi cancelado, porque Lula anunciou que não iria e Flávio Bolsonaro disse que também não compareceria.

Não dava para César Tralli comandar um debate apenas com os mequetrefes do Caiado, Zema e Cury, regras 3 do Flávio. 
Além de não terem o que falar, esses senhores somados representam uma insignificância em termos de intenções de votos.

Zema, por exemplo, corre o risco de ver seu 1%  transformado em pó  até  domingo.

Enquanto isso, a estratégia de Lula mostrou-se acertada. Sua entrevista ao podcast Flow,  no mesmo horário, foi um sucesso. Ele não tinha o que debater com o  filho desqualificado, corrupto, amigo de milicianos e dado a orgias, do golpista e prisioneiro Jair.

Mais de 1,5 milhão de pessoas assistiram à entrevista de Lula, com o número de comentários o aplaudindo batendo todos os recordes.

Na Globo e na Globo News o clima era um misto de indignação com velório.

Os amarra-cachorros da família Marinho se revezavam no vídeo e fora dele para criticar a Justiça que os impediu de colocar um púlpito vazio para marcar a ausência de Lula e igualmente os impediu de permitir que os candidatos mequetrefes fizessem perguntas aos candidatos ausentes.

Flávio, que chegou a pensar que a ausência de Lula iria beneficiá-lo, também desistiu de comparecer ao saber que o candidato do Missão, que lhe é  muito crítico, tinha obtido na Justiça o direito de participar do debate.
A noite desta quinta-feira foi de vitória para Lula e o campo progressista.

Por isto mesmo, esse setor precisa redobrar a vigilância nestes dias que antecem às  eleições em primeiro turno, diante da possibilidade de Lula liquidar já a fatura.

A mídia corporativa brasileira tem escondido este dado, mas sabe-se que Trump destinou mais de um milhão de dólares para entidades  brasileiras dispostas a questionar e desgastar o STF.

A jogada aí  é previsível. Diante da derrota de Flávio, a orientação do imperialismo - estadunidense e sionista - é  para que não se reconheça o resultado do pleito.

Claro que Flávio topa a parada.

Mas dificilmente esse falso questionamento irá prosperar.

Alguns dos mais conceituados veículos da mídia internacional  como  The Gardian, Le Monde Diplomatique e Pagina 12 já estão prevendo a vitória de Lula, que arrastou multidões em seus comícios e caminhadas por todo o Brasil, ao passo que os candidatos de oposição quase não tiveram agenda e Flávio levou até ovo na cara por onde passou.

Conhecendo Trump como a mídia internacional conhece, não dá  para descartar atuações criminosas como criar alguma falsa perseguição a narcotraficantes ou mesmo bombardear uma favela.

Seria uma situação extrema, que poderia desencadear uma crise tamanha para o próprio Trump, que são raras as pessoas a admitir que ele possa seguir por esta linha.
É  importante lembrar que em 3 de novembro, ele enfrentará as eleições de meio de mandato e sua popularidade nunca esteve tão baixa: meros 30%.

Número que indica que os democratas devem vencer as eleições para a Câmara, com chances de vitória também para o Senado.

Na semana passada, 21 deputados democratas e o senador Bernie Sanders assinaram documento condenando qualquer interferência de Trump nas eleições brasileiras. Nesta semana, mais deputados democratas se somaram a eles.

Isso é positivo, mas está longe de significar que a coordenação da campanha de Lula e os setores progressistas brasileiros possam baixar a guarda.

Ao contrário.

Mais do que nunca, nesta reta final da mais importante eleição da história republicana  brasileira, todo cuidado é pouco.

TEXTO DE:
Angela Carrato

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Orgulho de não ser como vocês

No final de agosto passado a minha diabetes resolveu brincar de trem fantasma: um susto em cada curva, sobe e desce com ligação direta de picos extremos de mais de 400 de glicose. Sim, ao delirar vi a cara da morte que continua esperando-me em alguma esquina no circo dos horrores onde me aguarda a mulher barbuda. Enquanto surfo nesse devaneio procuro refúgio na boa música (aquela que traz consigo poesia).

Quem faz a minha cabeça é uma famosa banda espanhola de rock, “Fito & Fitipaldis”, que foi fundada em 1997 por Adolfo "Fito" Cabrales, um magistral guitarrista, dono de uma caneta afiada, tipo navalha na carne, de personalidade urbana, com própria e autêntica identidade.

"Me quedaré en el aire para no pisar la mierda"
(Entre dos mares)

Equivoca-se todo aquele que pensar que o título desse texto é uma ode ao Fluminense. Não é essa a minha proposta.

Na verdade, a maturidade que meus tombos desenharam, torna a minha conclusão definitiva:  parte da sociedade apodrece; dela quero distância. Já não me assusto com nada, da mesma forma que tenho nojo do que vejo e, principalmente, no afastamento de princípios de certo tipo de pessoas que um dia coabitaram o mesmo espaço que frequentei. Minha ética não tem QR CODE de preço, nem data de validade.

O mundo capota em alta velocidade afastando-se dos novos horizontes na direção da perpetuação de velhos horrores, que assassinaram à centenas de milhões de pessoas ao longo da história. Entre pneus e negacionistas, algum banqueiro bilionário alimenta o seu gado de turno. Se Pedro que negou a Jesus três vezes foi citado nos quatro evangelhos canônicos do Novo Testamento, imagina quantos capítulos da Bíblia seriam necessários para quem fez pelo menos 43 declarações enganosas, em 2026, ao longo de um período de sete meses?

Quando Trump (USA), Maduro (Venezuela), Abascal (Espanha), Putin (Rússia), Netanyahu (Israel), Mohammad bin Salman (Arábia Saudita), Museveni (Uganda), Bukele (El Salvador), Ortega (Nicarágua), Kim Jong-un (Coreia do Norte) - entre outros ditadores - transformam-se em referência para parte da população mundial, afirmo que essa gente continua vivendo no mundo medieval, dividido por castas, senhores feudais e vassalos. Alguns se regozijam como ainda estivessem nos lupanares dos tempos do Império Romano e em suas sociedades escravocratas.

No instante em que alguém faz a opção de caminhar ao lado dessa gente perversa, tornando-se tão escrota como a que tem como referência, aceita o uniforme do “Quem se mistura com porcos, farelo come”. Isso eu não negocio.

“Si le duelen los recuerdos, se los cura con ginebra. Él quiere enterrar el tiempo, dentro de un reloj de arena”
(Como pollo sin cabeza)

No mundo normal, onde cada qual cuida do seu cada qual - nesse território onde habito, não existe espaço para fascistas, milicianos, racistas, homofóbicos, xenófobos, nazistas, bandidos. Muito menos para quem chuta a cabeça de imagem de santa. Nem para esse pastoreio e judiciário que de dia se vestem de família e pela noite frequentam a boate MADAME SATÃ, entre jatos de esperma e supositórios do cintaralho de alguma agenciadora.

Chegou a hora de escolher, sem histeria. Em frente e sem medo.

“Muy pocas personas, demasiada gente. Diferente sangre de una misma herida”
(Corazón oxidado)

Sim. Vários sangramentos para uma mesma ferida (podre, de odor putrefato, de tecido necrótico e infecção bacteriana grave) que tem nome próprio: O VERME “flávio bolsonaro”.

EU VOTO LULA 13! PELO BRASIL E POR NOSSA SENHORA APARECIDA! SOU CATÓLICO E AFILHADO DO SEU ZÉ PILINTRA!

TEXTO DE:
Antonio Gonzalez