segunda-feira, 12 de outubro de 2026
Milei, o queridinho dos economistas brasileiros: quando a planilha vale mais que o povo
Assim funciona o debate econômico brasileiro: determinados especialistas demonstram uma capacidade extraordinária de enxergar os números positivos da Argentina de Javier Milei, mas parecem desenvolver uma espécie de miopia quando o assunto são as consequências sociais do ajuste.
A inflação cai? Um sucesso histórico! O governo alcança superávit fiscal? Uma demonstração de responsabilidade!
Empresas desaparecem, o emprego formal encolhe e a pobreza volta a crescer? Nesse momento, surgem as explicações sobre sacrifícios necessários, heranças malditas e benefícios que, quem sabe, chegarão algum dia.
A pergunta é inevitável: desde quando a economia passou a ser avaliada exclusivamente pela saúde das contas públicas, como se a população fosse um detalhe inconveniente na apresentação de resultados?
Os dados argentinos merecem ser examinados sem maquiagem. Segundo levantamento baseado em registros da Superintendência de Riscos do Trabalho, o número de empregadores registrados caiu de 512.357, em novembro de 2023, para 480.067, em julho de 2026: uma redução de 32.290 registros, equivalente a 6,3%. Isso não significa necessariamente que todas essas empresas tenham encerrado definitivamente suas atividades, mas revela uma retração expressiva do universo de empregadores formais. No mesmo período, o mercado de trabalho privado também perdeu postos de trabalho. E, segundo a Reuters, a pobreza argentina subiu de 28,2% para 32,3% no primeiro semestre de 2026.
São números que deveriam provocar perguntas incômodas. Quantos trabalhadores perderam sua fonte de renda? Quantos pequenos comerciantes precisaram fechar as portas? Quantas famílias passaram a depender de crédito ou de ajuda alheia para pagar despesas básicas?
Aparentemente, algumas dessas perguntas incomodam menos do que a possibilidade de um governo ideologicamente admirado apresentar dificuldades.
É preciso reconhecer que Milei assumiu uma Argentina marcada por inflação crônica, instabilidade monetária e graves desequilíbrios fiscais. A redução da inflação e a recuperação do equilíbrio das contas públicas são resultados relevantes. Negá-los seria trocar a análise econômica por torcida política. Mas reconhecer avanços específicos não obriga ninguém a declarar bem-sucedido um projeto inteiro, muito menos a ignorar seus custos sociais.
O problema começa quando a estabilização deixa de ser um instrumento para melhorar a vida das pessoas e passa a ser apresentada como uma finalidade suficiente. Como se o superávit fiscal pudesse pagar sozinho o aluguel de quem perdeu o emprego. Como se a confiança dos investidores substituísse o salário que deixou de entrar em casa. Como se a redução das despesas governamentais fosse automaticamente convertida em prosperidade para todos.
Não é assim que funciona.
Uma economia não pode ser considerada plenamente saudável apenas porque suas contas melhoraram, se uma parcela crescente da população enfrenta dificuldades para sobreviver.
A comparação que ignora o tamanho do Brasil
A defesa do modelo argentino ganha contornos ainda mais problemáticos quando determinados comentaristas tentam transformar o país vizinho em uma receita pronta para o Brasil.
Segundo dados do Banco Mundial para 2025, o Brasil tinha aproximadamente 212,8 milhões de habitantes, enquanto a Argentina possuía 45,9 milhões. O PIB brasileiro, medido em dólares correntes, era de cerca de US$ 2,28 trilhões, diante de US$ 683 bilhões da economia argentina. São diferenças de escala que não podem ser varridas para debaixo do tapete.
O Brasil possui uma estrutura produtiva de dimensão continental, com agricultura diversificada, mineração, indústria, serviços, um mercado consumidor muito maior e profundas diferenças regionais. A Argentina tem suas próprias vantagens produtivas, uma estrutura exportadora específica e uma trajetória monetária e fiscal particular. Os dois países compartilham problemas, mas não são economias intercambiáveis.
Copiar medidas sem considerar essas diferenças é como prescrever o mesmo tratamento para pacientes com históricos, organismos e condições clínicas distintos. A semelhança de alguns sintomas não elimina a necessidade de diagnóstico.
Isso não significa que o Brasil deva ignorar a experiência argentina. Significa que precisa examiná-la com seriedade, identificando quais políticas produziram resultados, quais custos provocaram e quais condições permitiram ou limitaram seus efeitos.
Comparar países exige mais do que selecionar o indicador que favorece a tese defendida. É preciso considerar o ponto de partida, a estrutura produtiva, o tamanho do mercado interno, o emprego, a distribuição de renda e os efeitos sobre os diferentes grupos sociais.
Quando a ideologia escolhe os números
Há, nesse debate, uma questão que ultrapassa a Argentina: a possibilidade de que convicções ideológicas determinem quais dados recebem destaque e quais são tratados como inconvenientes.
Isso não autoriza afirmar que todos os economistas favoráveis a Milei sejam desonestos ou que suas avaliações se resumam à simpatia política. Existem argumentos econômicos legítimos em defesa da disciplina fiscal, da desregulamentação e do controle inflacionário. O problema está na seletividade: quando resultados favoráveis são apresentados como provas definitivas, mas os resultados negativos são sempre adiados para um futuro indefinido.
Se a pobreza aumenta, seria preciso perguntar por quê. Se empresas desaparecem dos registros, seria necessário investigar os setores atingidos. Se o emprego formal recua, convém verificar se o crescimento de outras atividades compensa essas perdas. E, sobretudo, se o sacrifício presente é justificado por uma promessa de prosperidade futura, cabe exigir evidências de que essa prosperidade está efetivamente se materializando.
Uma teoria econômica não pode ser tratada como uma religião cujos dogmas sobrevivem a qualquer resultado. Se os fatos contrariam as expectativas, são as hipóteses que precisam ser revistas, não a realidade que deve ser convenientemente descartada.
O mesmo rigor deve valer para governos de qualquer orientação política. Um economista que critica o aumento dos gastos públicos precisa examinar seus efeitos, mas também deve reconhecer o custo social de cortes abruptos. Quem defende o equilíbrio fiscal deve explicar como ele será alcançado e quem suportará seus efeitos. E quem celebra o crescimento precisa demonstrar se ele gera empregos, eleva rendimentos e melhora as condições de vida.
A economia não é uma competição para ver qual governante consegue produzir a planilha mais atraente. É uma ferramenta para compreender como os recursos são produzidos, distribuídos e utilizados em uma sociedade.
No fim, o problema não é elogiar Milei quando os indicadores justificam elogios. É transformar esse elogio em compromisso ideológico, tornando qualquer dado negativo uma inconveniência secundária.
Se a inflação cai, mas a pobreza volta a subir; se as contas públicas melhoram, mas empresas e empregos desaparecem, não basta comemorar os primeiros números e relativizar os segundos. É necessário explicar o conjunto.
Afinal, de que serve uma economia teoricamente saneada se o cidadão comum continua esperando pela recuperação prometida?
Uma planilha equilibrada pode ser um instrumento importante de governo. Mas não é um atestado automático de prosperidade nacional. E, quando a defesa de um modelo econômico exige que se olhe para os números e se desvie o olhar das pessoas, talvez o problema não esteja apenas nos resultados apresentados, mas também nos critérios escolhidos para julgá-los.
sexta-feira, 9 de outubro de 2026
O Nordeste merece respeito
O comportamento de quem transforma o mapa eleitoral brasileiro em uma espécie de certificado de superioridade regional revela uma perversidade bem particular.
Quando o Nordeste vota majoritariamente em Lula, parte dos brasileiros do Sul, do Sudeste e do Centro-Oeste reage como se a escolha de milhões de cidadãos fosse uma prova de inferioridade intelectual, moral ou econômica. A divergência política deixa de ser debate democrático e passa a servir de pretexto para a discriminação.
O raciocínio é tão preconceituoso quanto historicamente desinformado: o Nordeste tem mais pobreza, logo seus habitantes seriam menos capazes de escolher os próprios representantes. Como se a renda determinasse a inteligência. Como se o CEP definisse a dignidade. Como se a democracia concedesse mais valor ao voto de quem ganha mais.
A pobreza existe, os indicadores mostram desigualdades reais, mas a interpretação que transforma essas desigualdades em defeitos de uma população é que constitui a fraude moral dessa discussão.
Segundo o IBGE, em 2023, 47,2% da população nordestina estava abaixo da linha de pobreza monetária adotada pelo instituto, baseada em US$ 6,85 diários pela paridade do poder de compra. No Sul, a proporção era de 14,8%. Os números não devem ser negados nem maquiados. Devem ser compreendidos. E compreender exige ir além de uma eleição e de uma postagem ofensiva nas redes sociais.
A desigualdade não nasceu na urna
A história econômica brasileira não começou com Lula, tampouco com o Bolsa Família. O Nordeste ocupou posição central na economia colonial, especialmente na produção açucareira, construída sobre a exploração do trabalho escravizado. Posteriormente, mudanças nos mercados, na estrutura produtiva e na localização dos investimentos contribuíram para deslocar o centro dinâmico da economia nacional.
No século XX, a industrialização brasileira concentrou-se sobretudo no Sudeste, com São Paulo assumindo papel decisivo. A infraestrutura, os capitais acumulados, a expansão do mercado consumidor e as políticas econômicas contribuíram para consolidar essa concentração. O Nordeste não percorreu a mesma trajetória, e as tentativas de reduzir as disparidades regionais, como a criação da Sudene em 1959, surgiram justamente diante desse problema histórico.
Isso não significa que o Sul e o Sudeste tenham prosperado apenas por causa do Nordeste, nem que todas as diferenças atuais possam ser explicadas por uma única causa. Significa que o desenvolvimento brasileiro ocorreu de maneira desigual, com oportunidades, investimentos e estruturas produtivas distribuídos de forma assimétrica.
A geografia econômica não é uma competição esportiva na qual uma região vence porque seus habitantes possuem alguma virtude inata. É resultado de processos históricos, decisões políticas, condições materiais, infraestrutura, educação, organização produtiva e acesso a oportunidades.
A contradição de quem condena a pobreza, mas despreza os pobres
A crueldade aparece quando a desigualdade deixa de ser um problema a enfrentar e vira instrumento para humilhar quem vive sob suas consequências.
Em outubro de 2022, após o primeiro turno presidencial, reportagens registraram ataques contra eleitores nordestinos, incluindo associações entre a votação em Lula, o analfabetismo e a dependência econômica.
Uma pesquisa divulgada pela Agência Fapesp em janeiro de 2026, baseada em estudo da Universidade Federal de São Carlos, identificou aumento de 821% no discurso de ódio contra nordestinos no X (Twitter), durante a eleição de 2022, conforme a metodologia utilizada pelos pesquisadores.
O fenômeno expõe uma contradição: pessoas que dizem desejar o desenvolvimento do país podem, ao mesmo tempo, tratar uma parcela da população como se ela não merecesse respeito por sua origem ou por sua condição econômica.
Quem realmente se preocupa com a pobreza deveria discutir empregos, saneamento, educação, infraestrutura, industrialização, produtividade e distribuição de renda. Deveria cobrar resultados dos governos, independentemente do partido. Deveria perguntar por que oportunidades e investimentos não alcançam todos os brasileiros nas mesmas condições.
Insultar o pobre não cria emprego. Ridicularizar o nordestino não instala uma fábrica no sertão. Desqualificar seu voto não melhora a educação pública nem constrói uma rede de abastecimento de água.
O voto é consequência de experiências, não de uma suposta inferioridade
A preferência eleitoral de uma população não pode ser explicada por uma única variável. Experiências econômicas, identificação partidária, políticas públicas, valores, expectativas e avaliações dos governos podem influenciar as escolhas dos eleitores. Isso vale para o Nordeste e também para quem vota de maneira diferente no Sul, no Sudeste e no Centro-Oeste.
Em 2022, Lula obteve 69,34% dos votos válidos no Nordeste no segundo turno, segundo os resultados eleitorais divulgados. Esse resultado expressou uma escolha política majoritária naquela região, não uma autorização para que brasileiros de outras partes do país tratassem seus habitantes como cidadãos de segunda classe.
O eleitor nordestino não precisa votar como o eleitor gaúcho, catarinense, paulista, mineiro, goiano ou mato-grossense para ter seus direitos respeitados. A democracia existe justamente porque cidadãos livres podem discordar.
E há uma ironia adicional: o Brasil inteiro se beneficia do trabalho de pessoas que migraram do Nordeste, construíram cidades, trabalharam na indústria, na construção civil, no comércio, nos serviços e em inúmeros outros setores. A contribuição nordestina não está confinada às fronteiras dos nove estados da região.
Não existe mérito em herdar oportunidades e desprezar quem teve menos
O desenvolvimento de uma região pode ser motivo de orgulho, mas não deveria servir como autorização para o desprezo. Ter acesso a melhores oportunidades econômicas não transforma ninguém em cidadão superior. Do mesmo modo, enfrentar pobreza não torna ninguém intelectualmente inferior ou politicamente incapaz.
O Nordeste não é homogêneo, não vive exclusivamente da pobreza e tampouco está condenado a ela. Possui centros urbanos, universidades, polos industriais, atividades agrícolas, turismo, produção cultural e setores econômicos diversos. Seus problemas estruturais são reais, mas não resumem a identidade de milhões de pessoas.
A mesma honestidade exige reconhecer as desigualdades existentes em outras regiões brasileiras. O Sul, o Sudeste e o Centro-Oeste também têm populações vulneráveis e municípios com dificuldades econômicas. Indicadores regionais são médias que não descrevem igualmente todos os habitantes.
A questão, portanto, não é inverter o preconceito e declarar uma região moralmente superior a outra. É abandonar a ideia de que diferenças de renda autorizam diferenças de dignidade.
O Brasil que ainda precisa aprender a ser um país
O Nordeste não deve desculpas por votar em Lula, assim como qualquer outra região não deve desculpas por escolher candidatos diferentes. O voto é um direito, não uma concessão das regiões mais ricas às mais pobres.
Se a desigualdade regional preocupa, que a discussão seja sobre como superá-la. Se a educação preocupa, que se invista nela. Se faltam empregos e oportunidades, que se debatam políticas capazes de ampliar a atividade econômica e reduzir a vulnerabilidade social.
O que não se pode aceitar é que uma desigualdade construída ao longo de séculos seja utilizada como arma contra aqueles que ainda convivem com suas consequências.
O problema não está em reconhecer que o Nordeste enfrenta maiores índices de pobreza. Está em transformar esse dado em argumento para diminuir o nordestino.
Uma sociedade verdadeiramente comprometida com o desenvolvimento não pergunta por que os pobres ousam votar. Pergunta por que, em um país tão rico em recursos, trabalho e diversidade, tantos brasileiros ainda não dispõem das mesmas oportunidades.
A urna não mede a dignidade de uma população. E a renda de uma família não determina o valor de sua cidadania.
O Nordeste não precisa da autorização política ou moral de nenhuma outra região para existir, votar e exigir seu lugar no futuro brasileiro.
Até porque, um estado que elege como governador, uma besta completa, como Sérgio Moro, não tem muita moral para ofender todo o Nordeste.
Mas, isso é conversa para outro dia.
quinta-feira, 8 de outubro de 2026
O sistema é uma porcaria — desde que não seja o sistema da família
No Brasil, existe uma modalidade particular de indignação política: o cidadão passa anos denunciando o “sistema”, prometendo destruir a “velha política” e jurando que chegou a hora de acabar com os privilégios de Brasília.
Até que o sistema, esse ingrato, começa a eleger seus parentes. Nesse momento, a revolução tira o uniforme, veste um terno e vai providenciar mais um gabinete para a família.
Jair Bolsonaro construiu boa parte de sua identidade política explorando a rejeição aos políticos tradicionais. Era o outsider que enfrentaria tudo isso. O homem que não se curvaria aos esquemas, às conveniências e aos vícios da República. Curiosamente, sua trajetória também ajudou a consolidar uma dinastia eleitoral.
Em 2026, o sobrenome Bolsonaro voltou a ocupar espaço nas urnas. Michelle Bolsonaro, Carlos Bolsonaro, Jair Renan Bolsonaro e Renato Bolsonaro, irmão do ex-presidente, foram eleitos.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, chegou ao segundo turno da disputa presidencial.
Eduardo Bolsonaro já havia construído sua trajetória como deputado federal, enquanto Rogéria Bolsonaro, ex-esposa de Jair e mãe de três de seus filhos, também tentou retornar à política, mas não conseguiu se eleger.
Temos, portanto, uma família que transformou o sobrenome em ativo eleitoral. Não existe ilegalidade automática nisso. Democracia não proíbe parentes de disputar eleições. O problema começa quando se vende a ideia de que o país precisa se livrar de um sistema viciado, mas não se apresenta explicação convincente para a multiplicação de mandatos dentro do próprio círculo familiar.
A pergunta é elementar: o problema é o sistema ou o fato de não ser a sua família a ocupar todos os espaços?
Porque, convenhamos, existe uma diferença entre denunciar privilégios e simplesmente desejar mudar seus beneficiários. A primeira atitude pode ser política. A segunda se parece mais com uma disputa pelo controle do condomínio.
E Lula? Convém não cometer o erro factual de dizer que jamais teve um parente eleito. Marcos Cláudio Lula da Silva, seu filho adotivo, foi eleito vereador em São Bernardo do Campo em 2012.
A comparação séria não exige fabricar uma biografia imaculada para um lado; exige observar a dimensão e a organização das trajetórias eleitorais de cada família.
O ponto central permanece: não se pode transformar o parentesco em pecado quando ele aparece no campo adversário e em virtude quando favorece os próprios aliados.
O eleitor que acusa Lula de representar o “sistema” precisa explicar por que a política familiar dos Bolsonaro não desperta a mesma suspeita. Se o sobrenome Lula é tratado como evidência de uma suposta estrutura de poder, por qual critério o sobrenome Bolsonaro deveria receber imunidade crítica?
A resposta não pode ser simplesmente que os candidatos foram eleitos pelo voto popular. Naturalmente foram. É justamente por isso que a discussão importa: o voto legitima mandatos, mas não transforma toda contradição política em coerência.
Eis a ironia: os que prometiam combater a velha política descobriram que ela pode ser bastante confortável quando a cadeira tem o sobrenome certo.
No fim, talvez o discurso contra o sistema tenha sido interpretado de maneira muito particular por alguns de seus defensores. Não seria preciso acabar com a máquina política, com seus vícios ou com a concentração de poder. Bastaria trocar quem segura o volante.
O sistema é perverso quando elege os outros; quando elege a família, deve ser sinal de que a democracia está funcionando.
Que extraordinária revolução: muda-se o discurso, muda-se o inimigo, mudam-se as justificativas — mas o sobrenome continua na cédula.
quarta-feira, 7 de outubro de 2026
Campopiano: fruto plantado pela imprensa causa indigestão na própria imprensa
A imprensa que ajudou a fabricar o monstro agora se assusta com ele?
A imprensa brasileira descobriu Eduarda Campopiano.
Descobriu que a deputada estadual eleita pelo PL em São Paulo, aos 23 anos, não chegou ao Parlamento carregando apenas um diploma eleitoral. Chegou carregando um repertório de guerra cultural que inclui ataques a Erika Hilton e declarações sobre povos indígenas que provocaram acusações de transfobia e racismo e representações ao Ministério Público.
Campopiano foi eleita com cerca de 1,96 milhão de votos, a maior votação para a Assembleia Legislativa paulista. E agora parte da imprensa parece horrorizada.
Perfeito.
Só existe um pequeno problema: esse filme já passou antes.
O nome do protagonista anterior era Jair Bolsonaro.
E aqui começa a parte incômoda.
Não se trata de dizer que "a imprensa elegeu Bolsonaro". Essa simplificação seria tão infantil quanto atribuir a eleição de Campopiano exclusivamente às redes sociais. Trata-se de algo mais sério: durante anos, setores relevantes da imprensa transformaram a provocação política em espetáculo jornalístico.
A fórmula era extraordinariamente eficiente.
Bolsonaro dizia uma barbaridade. A imprensa noticiava. Bolsonaro respondia à repercussão. A imprensa noticiava a resposta. A reação à resposta virava nova notícia.
E a notícia produzia mais audiência, mais reconhecimento e mais capital político.
A BBC chegou a registrar, em 2018, como o destaque dado às polêmicas havia ampliado a fama e o eleitorado de Bolsonaro. Não era exatamente um segredo.
Mais revelador ainda é o trabalho acadêmico produzido na Universidade de Brasília. Uma tese de doutorado analisou 826 notícias da Folha de S.Paulo e do Estado de S. Paulo entre 2008 e 2018 e concluiu que determinadas práticas jornalísticas contribuíram para a normalização e difusão do discurso nazifascista de Bolsonaro.
O estudo aponta, entre outros fatores, reprodução literal de falas radicais, ausência de fontes qualificadas para rebater ameaças antidemocráticas e uma cobertura frequentemente pautada pelas próprias estratégias do político.
Outro estudo, publicado na revista Sur le journalisme, chegou a conclusão semelhante ao examinar especificamente a agenda antigênero de Bolsonaro: Folha e Estadão deram espaço às estratégias de comunicação populista e reproduziram declarações misóginas e homofóbicas sem suficiente contextualização ou contraponto qualificado.
Portanto, não é apenas uma impressão de quem está sentado no sofá reclamando da televisão. Existe pesquisa acadêmica sobre isso.
E é justamente por isso que a cobertura de Campopiano merece uma pergunta que vai além da própria deputada: por que o espanto chegou tão tarde?
Campopiano não inventou o método.
Ela aprendeu com um ambiente político no qual dizer o absurdo passou a ser uma maneira eficiente de conquistar espaço.
A diferença é que Bolsonaro foi pioneiro numa época em que esse mecanismo ainda parecia exótico. Seus sucessores chegam a um ecossistema completamente preparado.
Hoje, uma frase agressiva pode ser publicada no X, viralizar em minutos, provocar indignação, gerar uma reportagem, produzir uma entrevista sobre a reportagem, alimentar cortes de vídeo e retornar às redes multiplicada por milhões.
A polêmica deixou de ser consequência da política. A polêmica virou produto político.
Campopiano compreendeu isso.
Seu ataque a Erika Hilton ultrapassou 3 milhões de visualizações, segundo a Folha. A própria deputada eleita posteriormente classificou a referência a Hilton como uma "manifestação provocativa" nas redes.
"Provocativa."
Eis a palavra mágica da nova política.
Não é preconceito. É provocação.
Não é intolerância. É opinião.
Não é agressividade. É autenticidade.
Não é estratégia de viralização. É "falar o que pensa".
O vocabulário muda, mas a técnica permanece.
E a imprensa precisa ter coragem de olhar para sua própria responsabilidade nesse processo.
Não se trata de pedir censura. Muito menos de impedir que Campopiano fale.
É exatamente o contrário.
Ela deve falar. A imprensa deve investigar. As vítimas devem responder. Os especialistas devem contextualizar. As instituições devem apurar eventuais crimes.
E o eleitor deve decidir.
O que não pode acontecer é a transformação do absurdo em entretenimento e, depois, a surpresa quando o entretenimento conquista mandato.
Porque existe uma diferença enorme entre dar notícia sobre um político e deixar que o político determine sozinho os termos da notícia.
A primeira é jornalismo. A segunda pode se transformar em propaganda involuntária.
E talvez seja justamente aí que resida a maior ironia.
A mesma imprensa que durante anos precisou correr atrás de Bolsonaro para saber qual seria a próxima declaração explosiva agora corre atrás de Campopiano para explicar por que ela fala daquela maneira.
Ora, ela fala daquela maneira porque aprendeu que funciona. Aprendeu que o algoritmo recompensa. Aprendeu que a indignação gera alcance.
Aprendeu que a imprensa repercute.
Aprendeu que o ataque ao adversário rende mais atenção do que uma proposta de política pública. E aprendeu isso observando uma geração anterior fazer exatamente a mesma coisa.
Por isso, o escândalo diante de Campopiano precisa ser acompanhado de memória.
Não basta denunciar o incêndio. É preciso assumir que passou anos vendendo gasolina como entretenimento.
A imprensa tem todo o direito, e até o dever, de endurecer o tratamento diante de discursos racistas, transfóbicos, misóginos ou antidemocráticos, mas deveria também reconhecer que demorou a compreender o mecanismo.
Porque Campopiano não é apenas uma deputada que surgiu das redes sociais.
Ela é, em alguma medida, um dos produtos políticos de uma época em que a política descobriu que a indignação dá audiência e a audiência dá votos.
O monstro não apareceu ontem.
Ontem foi apenas o dia em que ele ganhou quase dois milhões de votos.
E a imprensa, finalmente, parece ter percebido que aquilo que durante anos chamou de "polêmica" também podia ser chamado de método.
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