quinta-feira, 9 de julho de 2026

A Alma Aflita das Ruas, de Paulo Andel

Não por acaso, Andel reúne numa só crônica João do Rio, ao comentar a comoção que se abateu sobre a cidade e suas exéquias que reuniram 100 mil pessoas em 1923, e o escritor de Cenas de Nova York, o beatnik Jack Kerouac.

Um dedicou sua prosa literária e jornalística à apaixonada observação da "alma encantadora das ruas", o outro ao lado obscuro do hipócrita way-of-life americano, antecipado pelo pintor Edward Hopper, uma geração antes, no contraponto da família típica dos comerciais de margarina com suas imagens de desolação, através de seus solitários personagens.

Nosso desesperado e aflito escriba se debruça sobre um Rio contemporâneo habitado principalmente por um exército de famintos que habitam as ruas. E se solidariza com a miséria desse universo que se alastra como incontrolável pólvora da chaga social que reina, soberana, no centro econômico de nossa cidade.

"Começa o dia (...) e então estendemos nossas mãos nas calçadas, buscando míseras esmolas de felicidade."

"A alvorada ainda está escondida pelo azul cobalto do céu.As padarias ainda nem abriram. Mas a fome já se espalha pela manhã.

Não há vagas. Não há vagas. Há desprezo, insensatez, mesquinharia, ódio, filhadaputice, escrotice, solidão."

E como um caminhante no caos que observa em sua volta, vai enumerando com sua nostálgica memória, a decadência do comércio que outrora pontuava com tradição e história a geografia mundana do Rio. Recolhe o que restou de endereços onde ainda sacia sua fome com as delícias que sobreviveram. Opus, Paladino, A Mineira - e reúne os amigos de sua pequena Confraria, uma espécie de cavaleiros das távolas redondas dos botequins resistentes.

Seu olhar de indignação não apaga o observador do entorno que emoldura sua trágica visão, como num documentário antropológico ou (novamente) numa pintura de Edward Hopper, consegue registrar, ao entrar num bar : "Há dois clientes. A atendente é loura, gordinha, bonita e olha para o outro lado da rua, como se admirasse um senhor gordo, também passando por ali. Ela fixa o olhar. Será?"

E se consola: "Continuo pobre, estou desesperado, mas meu par de bermudas é de chinelos me deixa feliz. Ultimamente tenho escrito livros."

E escreve freneticamente. Em sua coluna aos sábados no Correio da Manhã, e em dezenas deles publicados, sobre futebol e sua paixão pelo Fluminense.

Segue sua saga numa espécie de vingança contra a fome alheia e que não tem condições materiais para mitigá-la:

"Depois de comermos pastéis com laranjada na Rua dos Andradas (...) vamos lá porque é gostoso e barato (...) resolvemos caminhar até o Largo da Carioca.(...) eu pensei em fazer a minha velha visita ao Santos Dumont para tomar um sundae de morango em meio ao silêncio da Praça de alimentação do aeroporto."

E sua fixação pantagruélica continua, descrevendo um desfile de sanduíches nos endereços que ainda se sustentam em meio ao desastre neoliberal que é o responsável por essa multidão de famintos e sem teto sob onde houver marquises que os protejam das chuvas.

No entanto, consegue desfrutar da beleza da Cidade, como extrair a pérola que é a materialização da doença da ostra: "...então logo chego ao VLT e fico admirando a beleza noturna da região, as árvores, os prédios da Beira-mar. (o trecho do aeroporto à Cinelândia é imperdível, pela bela arquitetura ali reunida".

E seu olho de lince foca num poste distante, onde "as travestis dominam os postes, o que sobrou dos orelhões, os cercados e muitas paredes. A luta pela sobrevivência exige estratégias de marketing. (...) seis pessoas em situação de rua, mais seus três ou quatro cães de estimação, vivem a morte em vida debaixo de uma marquise."

"(...) no centro do Rio o prato mais popular é o pacote de biscoitos. Sempre há jovens e adultos indo e vindo com biscoitos pra disfarçar a fome."

"Na Nova Petrobras descem batalhões de funcionários estranhos com suas roupas corporativas de cores neutras,suas mochilas com notebooks e fones de ouvido que ajudam a apagar o cotidiano triste."

"Passo na Quitandinha recém aberta,compro pão para depois fazer um queijo quente. Um guaraná também. Gosto da lojinha pequena, acolhedora, com jeito de antigamente.

Certamente lembrando-se de tempos acolhedores e sem a pressa histérica da sobrevivência atual.

Registra também fatos entre a sua Copacabana onde morou adolescente 
("Minha terra sempre será Copacabana, mas sou um cidadão do coração da cidade").

Descreve cenas antológicas num elevador com o cantor Cauby Peixoto e seu paletó de lantejoulas azuis, Clóvis Bornay e Rogéria nas noites do bairro; a Lapa de Madame Satã e do cantor Osvaldo Nunes - que a amnésia cultural brasileira juntou ao batalhão de nomes excluídos, assassinado por dois garotos de programa.

E continua: "O Largo da Carioca em silêncio de morte às seis da tarde. O povo foi expulso pelo desemprego. Há um certo silêncio triste e indisfarçável nos arredores. Burburinho mesmo só numa fila de moradores de rua para ganhar o sopão."

"Se a população envelheceu e a boemia encolheu, paciência, mas não há como apagar a história de bares e boates memoráveis, dos inferninhos aos templos da bossa nova..."

Memorialista da urbanidade, fala dentro dele a voz da preservação desse patrimônio:

"Pela milésima vez, tiro uma foto do relógio da Mesbla. Nunca se sabe até quando o relógio estará lá ou alguém se interessará em fazer o registro."

Renomeia sua série de pequenas histórias e cunha o nome de um famoso jornal paulista, conhecido pelo noticiário de crimes, “Notícias populares”. E dedica-se, como num alerta na falta da atenção das autoridades, a uma espécie de aviso aos navegantes sobre as zonas de risco.

Antes de se despedir : "A semana será puxada no trabalho e continuarei preocupado. Muito preocupado. Tentar buscar energias sobressalentes e resistir. Escrever. Torcer. Sonhar. É isso: sonhar é preciso."

Cai o pano sobre a Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

Um livro imperdível.

TEXTO DE:

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Morre Grazielle Machado: um debate sobre a morte silenciosa

É curioso como a nossa percepção do perigo funciona.

Tememos o avião, mas morremos na estrada. Tememos o assalto, mas ignoramos a hipertensão. Tememos grandes conspirações internacionais, enquanto uma bactéria microscópica pode estar fazendo turismo na salada do almoço.

O caso da ex-deputada estadual Grazielle Machado, cuja morte ocorreu após um grave quadro infeccioso que levou as autoridades a investigarem uma possível contaminação alimentar, devolve ao debate público um tema que só desperta interesse quando já é tarde demais.

Porque bactéria não dá entrevista.

Salmonella não publica manifesto.

Escherichia coli não disputa eleição.

Elas apenas fazem aquilo que a biologia lhes ensinou a fazer: multiplicar-se quando encontram um ambiente favorável. Somos nós que lhes oferecemos esse ambiente quando relaxamos na higiene, interrompemos a cadeia de refrigeração, manipulamos alimentos de qualquer maneira ou acreditamos que "sempre foi assim e nunca aconteceu nada".

A tragédia possui um talento perverso para ensinar aquilo que a prudência jamais conseguiu.

É impressionante como ainda existe quem trate intoxicação alimentar como se fosse apenas "uma dor de barriga". Não é.

Pode ser. Frequentemente é. Mas pode não ser.

Dependendo do microrganismo, da quantidade ingerida, da idade da pessoa, de doenças pré-existentes ou simplesmente da resposta do organismo, um quadro aparentemente banal transforma-se numa emergência médica em poucas horas.

A natureza não negocia.

Ela não pergunta em quem você votou, qual é sua religião, sua renda ou quantos seguidores possui nas redes sociais.

A bactéria é profundamente democrática. Contamina ricos e pobres com a mesma eficiência.

E há outro aspecto que merece reflexão.

Vivemos numa sociedade que desenvolveu uma curiosa capacidade de transformar qualquer assunto em guerra ideológica. Se um alimento faz mal, alguém culpa o governo. Outro culpa a oposição. Um terceiro culpa o capitalismo. Um quarto culpa a globalização. Enquanto isso, a bactéria continua trabalhando, absolutamente indiferente às hashtags do momento.

A realidade não muda porque escolhemos uma narrativa confortável.

Segurança alimentar exige fiscalização séria, responsabilidade dos produtores, cuidado dos comerciantes e, sobretudo, atenção de cada consumidor. Não existe decreto que substitua a higiene das mãos. Não existe discurso que refrigere um alimento deixado horas sobre a mesa. Não existe polarização capaz de matar uma bactéria.

Existe apenas prevenção.

E prevenção tem um defeito enorme: ela raramente vira manchete.

Ninguém noticia o restaurante que armazenou corretamente seus alimentos.

Ninguém entrevista a cozinheira que lavou adequadamente os utensílios.

Ninguém faz reportagem sobre a família que descartou um alimento suspeito e, justamente por isso, não adoeceu.

A prevenção é invisível. Seu sucesso consiste exatamente em impedir que algo aconteça.

As manchetes pertencem às tragédias.

Talvez o legado mais importante de uma morte como essa seja recordar uma verdade elementar que nossa pressa costuma esconder: o maior perigo nem sempre faz barulho. Às vezes, ele chega silenciosamente, senta-se à mesa conosco e espera apenas a primeira garfada.

E, quando percebemos sua presença, frequentemente já não há mais espaço para discursos. Apenas para médicos, hospitais e uma pergunta inevitável: será que isso poderia ter sido evitado?

GRAZIELLE MACHADO

Grazielle Salgado Machado (1980–2026) foi uma publicitária, professora universitária e política brasileira de grande destaque em Mato Grosso do Sul.

Nascida em Campo Grande e filha de tradicionais figuras políticas, construiu uma sólida trajetória institucional com forte defesa da representatividade feminina.


NOSSOS VOTOS DE SOLIDARIEDADE À FAMÍLIA

segunda-feira, 22 de junho de 2026

É o show das BETs na Cazé TV

A Cazé TV se vendeu completamente para as BETs e quase ninguém está falando disso, né?

Porque quando são as mulheres blogueiras, aí todos caem de críticas e com razão. Mas quando é o Casimiro, o gordinho gente boa, aí passa-se pano.

Você já viu os números da CazéTV? Quantas pessoas eles estão atingindo? Quantas pessoas estão inscritas? Quantas pessoas estão assistindo as lives que eles estão fazendo? Você viu os números?

Gente que apostava pouco recebe mais estímulo. Gente vulnerável agora passa a ser bombardeada por isso o dia inteiro por uma pessoa que ele gosta e confia, o Cazé

O que passa pano é o resumo da transmissão da CazéTV e de todo o futebol brasileiro em relação ao futebol brasileiro.

É uma passação de pano para uma seleção medíocre, uma seleção de influenciadores, de estrelinhas, de bilionários que sofreu muito para fazer três gols no Haiti.

Aí o menino Ney, o cara não consegue nem viajar que se lesiona, que comemorou a sua convocação induzindo as pessoas a jogar em BET. Está lá ocupando o lugar de outro atacante.

A seleção tem que ganhar para ficar nos Estados Unidos para não viajar para o México porque viajar desgasta. Ah é? Vai desgastar os bilionários fazer uma viagem num vôo particular fretado de primeira classe. É um homem lamber na bola do outro, assim uma coisa pornográfica. E tudo isso financiado por casa de apostas. 

Gente, hipocrisia tem limites.

Se você acha que isso é correto, continua, mas pelo menos assuma. Não seja hipócrita não de ficar pagando de: “ah! eu não gosto disso, eu critico isso…”, mas está aí, babando o ovo da CazéTV.

É Cazé, você está ferrando a vida de um monte de gente para ganhar mais dinheiro do que você já ganhou, do quarto na pandemia para os salões do sistema.

TEXTO DE:
Thiago Muniz

domingo, 21 de junho de 2026

Shakira, a FIFA e o Feminismo de Camarote

Uma ironia difícil de ignorar quando Shakira volta a emprestar sua voz à FIFA.

A mesma cantora que construiu parte de sua imagem pública como defensora da autonomia feminina, da independência das mulheres e da superação de relacionamentos abusivos, torna-se novamente a trilha sonora oficial de uma das instituições mais associadas às contradições do capitalismo global.

Não se trata de questionar o talento de Shakira. Poucos artistas conseguiram atravessar tantas décadas permanecendo relevantes. Tampouco se trata de negar suas contribuições para causas sociais. A questão é outra: até que ponto o feminismo pode ser transformado em produto de marketing sem perder sua capacidade crítica?

A FIFA não é apenas uma organização esportiva. É uma máquina bilionária que movimenta interesses políticos, econômicos e comerciais em escala planetária. Ao longo de sua história recente, acumulou denúncias de corrupção, favorecimento político, exploração de trabalhadores em grandes obras e submissão dos interesses esportivos aos interesses comerciais.

Quando uma artista que se apresenta como voz do empoderamento feminino associa sua imagem a essa engrenagem, surge uma pergunta inevitável: empoderamento para quem?

O feminismo que desafia estruturas de poder deveria, em tese, questionar sistemas que transformam pessoas em ferramentas descartáveis para gerar lucro. Entretanto, boa parte do feminismo pop contemporâneo parece ter substituído a crítica estrutural pela celebração do sucesso individual. O importante já não é mudar o sistema, mas alcançar o topo dele.

Nesse modelo, uma mulher pode tornar-se símbolo feminista enquanto participa das mesmas estruturas econômicas que produzem desigualdades. O discurso passa a ser: não importa que o navio continue afundando, desde que haja mais mulheres na cabine de comando.

A trajetória recente de Shakira ilustra essa contradição.

Após transformar sua separação em um poderoso discurso de autonomia pessoal, a cantora consolidou-se como símbolo de resistência feminina. Porém, ao associar sua imagem novamente à FIFA, acaba ajudando a legitimar uma instituição cuja lógica pouco dialoga com qualquer projeto genuinamente emancipador.

Talvez a contradição não seja exclusivamente dela. Talvez seja a contradição de toda uma época.

Vivemos o momento histórico em que a rebeldia virou marca registrada, a contestação virou estratégia de marketing e a crítica ao poder tornou-se um segmento lucrativo da indústria do entretenimento. O mercado descobriu que vender discursos de transformação pode ser tão rentável quanto vender perfumes, refrigerantes ou direitos de transmissão esportiva.

Nesse contexto, o feminismo corre o risco de ser reduzido a uma estética. Uma camiseta. Um slogan. Uma campanha publicitária. Uma música-tema de um evento bilionário.

Shakira não criou essa lógica. Mas participa dela.

E talvez seja justamente essa a crítica mais incômoda: não a de que uma artista seja hipócrita, mas a de que o capitalismo contemporâneo se tornou tão eficiente que consegue transformar até mesmo discursos de resistência em combustível para sua própria máquina.

Quando isso acontece, o problema deixa de ser a cantora que canta na abertura do espetáculo. O problema passa a ser o espetáculo em si.

Marjane Satrapi: a mulher que transformou a memória em resistência

A morte de Marjane Satrapi, aos 56 anos, encerra uma das trajetórias mais singulares da literatura gráfica contemporânea.

Conhecida mundialmente por Persépolis, Satrapi não apenas revolucionou os quadrinhos como linguagem literária, mas também ajudou a redefinir a maneira pela qual o Ocidente enxerga o Irã, a diáspora e a experiência do exílio.

Sua morte, anunciada pela família em junho de 2026, foi recebida com pesar por leitores, artistas e defensores dos direitos humanos em todo o mundo.

A menina que viu uma revolução

Nascida em 1969, na cidade iraniana de Rasht, e criada em Teerã, Satrapi pertenceu a uma geração marcada pela ruptura histórica da Revolução Islâmica de 1979.

Filha de uma família politicamente engajada e crítica tanto da monarquia do quanto da teocracia que a sucedeu, ela testemunhou ainda criança a transformação radical de seu país.

Aos 14 anos, foi enviada para a Áustria pelos pais, numa tentativa de protegê-la do endurecimento do regime iraniano e da guerra contra o Iraque. A experiência do exílio — marcada por solidão, desenraizamento e crises de identidade — tornaria-se um dos temas centrais de sua obra.

Mais tarde, estabeleceu-se definitivamente na França, onde encontrou o ambiente artístico que permitiria florescer sua carreira internacional.

Persépolis: quando a História ganhou rosto humano

Publicada originalmente entre 2000 e 2003, Persépolis tornou-se rapidamente um marco cultural. A obra narra a infância e juventude da própria autora durante a Revolução Islâmica e seus anos de exílio na Europa. Mas sua importância ultrapassa a autobiografia.

O grande mérito de Satrapi foi compreender algo que historiadores e jornalistas frequentemente esquecem: regimes políticos afetam pessoas concretas.

Enquanto muitos livros sobre o Irã descreviam governos, líderes religiosos ou conflitos geopolíticos, Satrapi falava sobre uma adolescente que gostava de rock, discutia com os pais, sonhava com liberdade e tentava encontrar seu lugar no mundo. O resultado foi uma obra capaz de humanizar uma sociedade frequentemente reduzida a estereótipos.

Seu traço em preto e branco, deliberadamente simples, funcionava como uma linguagem universal. Sem o excesso de realismo, as imagens tornavam-se símbolos. O particular transformava-se em coletivo.

Nesse sentido, Persépolis realizou algo raro: foi simultaneamente testemunho histórico, romance de formação e denúncia política.

Uma crítica ao autoritarismo — e também aos preconceitos ocidentais

Reduzir Satrapi à condição de crítica do regime iraniano seria uma leitura incompleta.

Embora denunciasse abertamente a repressão política, a censura e a desigualdade de gênero impostas pela República Islâmica, ela também combatia a visão simplista do Ocidente sobre o Oriente Médio.

Em entrevistas e textos, insistia que os iranianos não podiam ser resumidos a fanáticos religiosos ou vítimas passivas. Havia humor, cultura, contradições e humanidade naquela sociedade. Seu trabalho procurava recuperar justamente essa complexidade.

Essa posição lhe garantiu um lugar singular no debate público: Satrapi recusava tanto a propaganda do regime iraniano quanto as caricaturas produzidas por certos discursos ocidentais.

Muito além dos quadrinhos

Embora Persépolis tenha se tornado sua obra mais conhecida, Satrapi construiu uma produção diversificada.

Livros como Bordados e Frango com Ameixas aprofundaram sua investigação sobre memória, afetos e identidade cultural. 

Sua adaptação animada de Persépolis, codirigida com Vincent Paronnaud, conquistou o Prêmio do Júri no Festival de Cannes e recebeu indicação ao Oscar, consolidando-a também como cineasta.

Nas décadas seguintes, continuou transitando entre literatura, cinema e ativismo, tornando-se uma das vozes mais respeitadas na defesa da liberdade de expressão e dos direitos das mulheres iranianas.

O legado de uma narradora da liberdade

Poucos autores conseguiram realizar aquilo que Satrapi alcançou: transformar uma experiência profundamente pessoal em patrimônio universal.

Ela demonstrou que os quadrinhos podiam ocupar o mesmo espaço intelectual da grande literatura memorialística. Mais do que isso, provou que a arte pode funcionar simultaneamente como documento histórico e exercício de empatia.

Sua morte encerra uma trajetória interrompida precocemente, mas sua obra permanece extraordinariamente atual. Em um mundo cada vez mais polarizado, Persépolis continua lembrando algo essencial: antes das ideologias, das bandeiras e das revoluções, existem pessoas.

E talvez seja justamente por isso que Marjane Satrapi sobreviverá ao seu tempo.

Não apenas porque contou a história do Irã.

Mas porque contou, com rara honestidade, a história universal de quem tenta permanecer livre quando a História decide esmagar os indivíduos.

A Copa do Mundo me dá sono

Uma Copa do Mundo sem sal, sem emoção, sem alma. Talvez se a sede fosse somente no México eu sentiria mais tesão, mas isso seria impossível colocar 48 países e 104 jogos num único país.

A FIFA quer arrecadar mais dinheiro e arrendar mais apoio político, por isso aumentou o número de participantes. E essa será a tendência por um bom tempo, se não for em caráter definitivo.

Uma FIFA que beijou a mão do presidente dos Estados Unidos, que chancelou a aniquilação de Gaza e quase a extinção dos palestinos por meio do regime sionista do estado de Israel. Que invadiu a Venezuela e tomou de assalto o seu petróleo e sequestrou o seu chefe de Estado. Onde declarou guerra ao Irã mas foi pega de surpresa com o fechamento do estreito de Ormuz e viu o preço do petróleo subir a níveis estratosféricos.

Essa é a FIFA que foi capaz de conceder a medalha da paz para um homem que mais provocou o caos no mundo nos últimos dois anos.

Onde está a Copa da inclusão? Num país que não concede visto ao árbitro pela sua nacionalidade. Num país que caça imigrantes como se fossem ratos. Num país onde o futebol é o quinto esporte mais praticado, onde eles não chamam o futebol de futebol, chamam de “soccer”.

Volto aos meus 11 anos de idade lá em 1994, como foi boa aquela Copa, prefiro ter essas lembranças de juventude. Pode ser um tanto lúdicas? Sim! Mas pelo menos eu sentia verdade e emoção naquela Copa. Onde não havia a guerra da TV aberta e o streaming, era Galvão Bueno narrando e nada mais nada menos que Pelé comentando.

Ah! Bons tempos que não voltam mais. E lá nos idos de 1994 o Brasil trouxe a taça do Tetra homenageando o meu ídolo de infância Ayrton Senna.

Voltamos a 2026. Muito provavelmente não teremos o Hexa, uma Copa sem sal e tempero, vou voltar para minha cama onde o descanso é necessário. E torço para que o celular não toque com mais um falso alerta provocado por algum hacker mercenário.

TEXTO DE:
Thiago Muniz

sábado, 20 de junho de 2026

Alerta sincero assusta o Brasil


A Defesa Civil emitiu um alerta. Não era sobre enchentes. Não era sobre tempestades. Não era sobre deslizamentos. Era sobre misantropia.

Depois descobriu-se que a mensagem era fruto de uma invasão criminosa ao sistema. Um ato de vandalismo digital. Um crime. Um absurdo.

Mas eis a ironia: talvez tenha sido o alerta mais sincero que o país recebeu nos últimos anos.

Porque, convenhamos, se existe uma emergência nacional sobre a qual ninguém pode alegar surpresa, é justamente essa.

Vivemos um tempo em que o ódio virou identidade política. Em que a agressividade foi transformada em virtude. Em que o preconceito deixou de ser um defeito a ser escondido e passou a ser exibido como medalha de coragem.

Não surgiu do nada.

Durante anos, bosonaristas normalizaram discursos que antes causariam constrangimento público.

Mulheres passaram a ser atacadas por ocuparem espaços de poder.

Jornalistas passaram a ser perseguidas por fazerem perguntas.

Professoras passaram a ser tratadas como inimigas da nação.

A violência verbal virou espetáculo.

Ao mesmo tempo, grupos neonazistas multiplicaram-se pelo país. Símbolos antes restritos aos esgotos da história reapareceram em redes sociais, fóruns e manifestações. A intolerância encontrou um ecossistema perfeito: algoritmos que recompensam indignação e lideranças que descobriram que o ressentimento rende votos.

E então chega aquele alerta.

"Misantropia".

Uma única palavra.

Acidental? Sim.

Criminosa em sua origem? Evidentemente.

Mas profundamente adequada ao momento histórico? Difícil negar.

Talvez porque o Brasil tenha se acostumado a ignorar alertas verdadeiros.

Ignorou os alertas sobre a radicalização política.

Ignorou os alertas sobre a violência contra mulheres. Contra negros. Contra LGBTs. Intolerância religiosa. Etc, etc, atrás de etc...

Ignorou os alertas sobre o crescimento de grupos extremistas.

Ignorou os alertas sobre a erosão da convivência democrática.

Quando finalmente apareceu uma mensagem estranha nos celulares, muita gente se espantou. Curioso. Há anos os sinais estão piscando diante dos nossos olhos.

A diferença é que, desta vez, o aviso veio acompanhado daquele som irritante que obriga as pessoas a olhar para a tela.

Talvez seja justamente isso que esteja faltando ao país.

Não um hacker.

Mas um alarme.

Um alarme capaz de interromper a distração coletiva e anunciar:

"Atenção. Atenção. Emergência democrática em andamento."

Porque enchentes destroem cidades.

Mas o ódio organizado destrói sociedades.

E, infelizmente, contra esse desastre ainda não existe sirene suficiente.