sexta-feira, 29 de maio de 2026
Uberização empreendedora: a domesticação do trabalhador brasileiro
quinta-feira, 28 de maio de 2026
André Fernandes "se raspa" de raiva do trabalhador
A degradação do debate público brasileiro não acontece apenas nos grandes escândalos institucionais.
Ela também se revela nos personagens que ascendem politicamente não pela elaboração intelectual, pela capacidade administrativa ou pelo compromisso republicano, mas pelo espetáculo grotesco da vulgaridade convertida em capital eleitoral.
O caso do deputado André Fernandes (alcunhado Raspa Cu) é quase um resumo em caricatura do bolsonarismo enquanto fenômeno político-cultural.
Trata-se de um parlamentar que ganhou notoriedade nas redes sociais ensinando a depilar o próprio ânus na internet (sim, este é o nível da tragédia nacional), e que posteriormente converteu a estética do constrangimento em plataforma eleitoral.
Não estamos diante de um acidente de percurso. Estamos diante de um método.
É quase poético, no pior sentido possível: o sujeito sai do tutorial de "raspa cu" para a Câmara dos Deputados sem precisar atravessar o deserto do pensamento.
Entre um vídeo grotesco e outro, constrói-se uma carreira baseada não na elevação do debate público, mas na degradação deliberada dele.
E então chegamos ao episódio envolvendo a deputada Erika Hilton durante o debate sobre a escala 6x1.
Em vez de apresentar argumentos sólidos sobre relações trabalhistas, produtividade ou impacto econômico da jornada exaustiva imposta a milhões de brasileiros, o parlamentar recorre ao velho método bolsonarista: o insulto, a provocação pueril e a tentativa permanente de humilhar o adversário diante das câmeras. Chegou a chamar trabalhadores que se encontravam nas dependências da Câmara de vagabundos.
Perceba a lógica da coisa: quando falta densidade intelectual, sobra performance agressiva. O bolsonarismo produziu uma geração de políticos cuja principal habilidade não é legislar, mas viralizar.
O Parlamento vira cenário de TikTok; a tribuna se converte em ringue de quinta categoria; e a política passa a funcionar como reality show de ressentimento moral.
No caso de Erika Hilton, há um componente ainda mais grave. Mulher trans, negra e oriunda das periferias, ela simboliza exatamente tudo aquilo que a bolsonarismo aprendeu a transformar em alvo preferencial: diversidade, ascensão social de minorias e ocupação de espaços historicamente monopolizados por homens brancos conservadores.
Não basta discordar dela. É preciso tentar desumanizá-la publicamente para alimentar a militância do ódio.
E aqui reside uma das marcas mais tóxicas do bolsonarismo: a destruição sistemática da ideia de adversário legítimo.
Na democracia, divergências são naturais; no autoritarismo cultural bolsonarista, o outro precisa ser ridicularizado, esmagado e tratado como inimigo moral da nação. O argumento perde importância; o que importa é a humilhação performática.
Tudo isso ocorre enquanto milhões de trabalhadores brasileiros enfrentam jornadas brutais na escala 6x1, vivendo para trabalhar em vez de trabalhar para viver. Mas discutir seriamente as condições materiais da população exigiria estudo, responsabilidade e capacidade de formulação, atributos pouco compatíveis com quem ascendeu politicamente ensinando procedimentos íntimos de depilação do cu, nas redes sociais.
Há algo de simbolicamente devastador nisso tudo: um bolsonarismo que se apresenta como defensora da “moral” e dos “bons costumes”, mas que ajudou a transformar a política brasileira em uma mistura de algoritmo, grosseria e espetáculo degradante.
O resultado é um Parlamento cada vez mais parecido com um feed de rede social tóxica: muito barulho, pouca inteligência e nenhuma grandeza republicana.
A democracia não morre apenas quando tanques ocupam as ruas. Ela também apodrece quando o grotesco vira virtude política e quando figuras que deveriam honrar a representação popular preferem atuar como influenciadores de baixíssimo nível travestidos de estadistas.
No fim, o deputado qhe se elegeu por "raspar o cu", teve de asssumir a "cara de cu" ao ae ver derrotado na votação da escala 6x1.
Agora, sigamos ao Senado, outra cloaca do sistema.
Boa sorte aos tranalhadores.
segunda-feira, 25 de maio de 2026
Marcha Sem Jesus
A Marcha para Jesus no Rio de Janeiro escancarou uma cena velha da política brasileira: a fé no palco, o voto no bolso e o pastor no microfone fazendo o serviço que o candidato, prudentemente, preferiu não fazer.
Flávio Bolsonaro faltou.
Malafaia compensou no gogó. A ausência do candidato não despolitizou o evento; apenas mostrou que, quando a engrenagem já está montada, o ungido nem precisa aparecer. Basta deixar o sacerdote da campanha falar em nome do céu.
O problema não é religioso participar da política. Isso é democracia. O problema é transformar púlpito em comitê, fiel em eleitor cativo, Bíblia em santinho, culto em comício e divergência política em pecado.
A operação é conhecida. Primeiro, politiza-se a religião: o pastor organiza medos, ressentimentos e lealdades eleitorais como se estivesse apenas defendendo valores espirituais. Depois, religiosiza-se a política: o adversário vira inimigo de Deus; a eleição vira batalha espiritual; investigação vira perseguição; derrota vira fraude; Constituição vira obstáculo à profecia.
A Fé, que poderia elevar a vida pública, vira instrumento de captura. A política, que deveria discutir governo, economia, saúde, educação, corrupção e instituições, desfila fantasiada de cruzada moral.
O político precisa do pastor para falar com milhões. O pastor precisa do político para ampliar poder, acesso, proteção e influência. É bênção por palanque, voto por acesso, moralidade pública por poder privado.
O resultado é ruim para a democracia e péssimo para a religião. A política empobrece. A Fé se apequena. O cidadão vira rebanho. O pastor vira cabo eleitoral com microfone sagrado. O candidato vira ungido de ocasião.
E Deus, que deveria ser grande demais para caber em partido, acaba sequestrado por gente pequena o bastante para achar que o céu tem diretório eleitoral.
https://www.facebook.com/arandunoticias
TEXTO DE:
Julio Benchimol Pinto
domingo, 24 de maio de 2026
Virgínia na Globo
sábado, 23 de maio de 2026
Moro exposto à luz mesmo sob a sombra
A Operação Lava Jato começou como investigação de lavagem de dinheiro num posto de gasolina em Curitiba e terminou quebrando empresas e colocando a economia brasileira num beco sem saída.
No centro do processo estava um juiz federal de primeira instância, sem mandato popular nem cargo executivo, com jurisdição sobre contratos da Petrobras e com talento para tramoias, coações e descumprimento do devido processo legal.
A corrupção que investigava precedia Moro por décadas. O que ele construiu foi o modo de apresentá-la e de usá-la em proveito próprio.
O jogo jogado com o MP, as conduções coercitivas filmadas pela Polícia Federal, conversas telefônicas vazadas às redações na véspera de decisões críticas — o calendário de prisões tinha uma sensibilidade e seletivismo para momentos eleitorais que nenhum critério processual explicava. Era uma narrativa, com protagonista definido e roteiro chapado.
A prisão de Luiz Inácio Lula da Silva, em abril de 2018, foi o capítulo que organizou retrospectivamente todos os anteriores. Condenado em segunda instância por um colegiado que Moro havia preparado, Lula foi para Curitiba com o campo eleitoral ainda aberto e saiu de lá inelegível.
O que se seguiu dispensava comentário. Sem o candidato que liderava todas as pesquisas, a eleição de outubro produziu Jair Bolsonaro.
O voto, para Moro, era desnecessário. Ele havia preparado o terreno, e o convite viria.
O convite veio em novembro, quando o presidente eleito anunciou o nome do juiz para o Ministério da Justiça.
Moro aceitou. A sequência era tão direta que qualquer leitura sofisticada seria um excesso e tautologia.
O magistrado que havia condenado o principal adversário eleitoral do presidente eleito tornava-se ministro de Bolsonaro. A toga foi pendurada, e com ela a ficção de que tudo havia sido apenas direito penal aplicado com rigor.
A saída do ministério, em abril de 2020, chegou acompanhada de uma acusação grave e específica: interferência política na Polícia Federal e uso do aparato de segurança para fins pessoais. Moro apresentou a ruptura como ato de consciência. O clássico: rato pulando do barco.
O problema é que as acusações, se verdadeiras, descreviam um governo que ele havia ingressado de olhos abertos. A candidatura presidencial própria não decolou. Migrou para o Senado pelo Paraná e foi reabsorvido, sem cerimônia, pelo campo que nunca havia de fato deixado. Atua como ajudante de ordens do bolsonarismo. O resultado foram oito anos de senador medíocre e, como sempre, inescrupuloso.
Hoje compõe o palanque de Flávio Bolsonaro, o herdeiro medíocre de um pai golpista, candidato que não existiria sem os destroços que Moro ajudou a produzir. A toga foi desacreditada pelo Supremo Tribunal Federal. As condenações foram anuladas. Lula voltou ao Planalto e briga cotidianamente com essa lógica destruidora e suas próprias contradições.
Moro sobreviveu assim, uma paródia de si mesmo, maltratando a língua portuguesa e colecionando situações constrangedoras, enfileirado atrás do filho do golpista que ajudou a fabricar, num país que ainda paga a conta.
TEXTO DE:
Ricardo Queiroz Pinheiro




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