segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Colonialismo químico: o Brasil que planta lucro e colhe veneno

Uma pergunta precisa ser feita pelo Brasil antes de repetir pela milésima vez que o agronegócio "é o motor da economia": motor para quem?

A pergunta incomoda porque obriga a olhar para aquilo que normalmente fica escondido atrás dos números grandiosos das exportações, dos recordes de produção e dos bilhões de dólares que entram no país.

Existe um Brasil que aparece na balança comercial.

E existe outro Brasil que aparece no solo contaminado, na água ameaçada, na saúde do trabalhador rural e na mesa do consumidor.

É nesse segundo Brasil que se encontra o chamado colonialismo químico, conceito desenvolvido pela geógrafa Larissa Mies Bombardi para explicar uma das perversidades da agricultura globalizada: países do Norte Global restringem ou proíbem determinadas substâncias em seus próprios territórios, enquanto empresas sediadas nesses países continuam comercializando esses produtos para países do Sul Global.

O Brasil está no centro dessa engrenagem.

Segundo dados apresentados por Bombardi em 2026, sete dos dez agrotóxicos mais comercializados no país são proibidos na União Europeia.

Sete.

Não é uma exceção estatística.

É um modelo.

E a pergunta inevitável é: por que aquilo que é considerado perigoso para um europeu pode ser considerado aceitável para um brasileiro?

A resposta não pode ser simplesmente "porque a legislação brasileira permite".

Legislação não é argumento moral. É justamente aquilo que uma sociedade pode e deve modificar quando descobre que determinada regra protege menos do que deveria.

A Europa não é necessariamente virtuosa. Empresas europeias também participam desse comércio. E esse é precisamente o paradoxo: a mesma indústria que precisa respeitar determinadas restrições em seu país de origem encontra no Brasil um mercado onde pode vender produtos que não consegue vender em casa.

O capital conhece fronteiras.

A toxicidade também.

Mas a responsabilidade parece não conhecer nenhuma.

O problema não termina na multinacional

Seria confortável colocar toda a culpa nas grandes empresas estrangeiras.

Seria também intelectualmente preguiçoso.

Porque uma multinacional só vende aquilo que encontra mercado.

E alguém compra.

O colonialismo químico só consegue funcionar porque existe uma engrenagem nacional interessada em fazê-lo funcionar.

É aqui que entra a parte mais delicada da discussão: o próprio agronegócio brasileiro tem responsabilidade sobre o modelo que ajuda a sustentar.

Não todo agricultor.

Não todo produtor rural.

Não toda empresa.

Mas os segmentos econômicos que pressionam por menos restrições, mais permissividade química e maior velocidade de aprovação de substâncias precisam responder por uma pergunta elementar: qual é o limite do lucro quando a mercadoria produzida pode comprometer a saúde de quem trabalha e de quem consome?

Não existe soberania nacional quando a rentabilidade de uma commodity vale mais do que a saúde de uma população.

Isso não é patriotismo.

É contabilidade.

O veneno também tem lobby

O Brasil aprovou, em 2023, uma nova legislação para os agrotóxicos. A discussão em torno dela mostrou exatamente o tamanho do conflito entre interesses econômicos, regulação estatal e proteção ambiental e sanitária.

E aqui está um dos problemas de nosso debate público: quando alguém questiona a flexibilização das regras, imediatamente aparece o discurso de que essa pessoa é "contra o agro".

É uma fraude argumentativa.

Ser contra a utilização irresponsável de agrotóxicos não é ser contra a agricultura.

Ser contra a contaminação não é ser contra o produtor rural.

Defender fiscalização não é defender o atraso.

Defender pesquisa em alternativas menos tóxicas não é querer destruir a produtividade.

Aliás, deveria ser justamente o contrário.

Um agronegócio verdadeiramente moderno não deveria precisar de uma população desinformada para defender sua produtividade.

Deveria ser capaz de produzir mais utilizando menos veneno.

Deveria investir em tecnologia que reduza dependência química.

Deveria cobrar rastreabilidade.

Deveria exigir transparência.

Deveria ser o primeiro interessado em impedir que produtos proibidos em outros países sejam tratados como aceitáveis simplesmente porque ainda existe uma autorização brasileira.

O discurso da eficiência

Existe uma palavra que frequentemente encerra qualquer discussão sobre esse assunto: produtividade.

É preciso produzir mais.

É preciso exportar mais.

É preciso competir.

É preciso alimentar o mundo.

Tudo isso pode ser verdade.

Mas existe uma pergunta que quase nunca aparece: alimentar o mundo significa necessariamente envenenar o trabalhador que produz?

A própria Anvisa mostra que o problema não pode ser tratado como fantasia ideológica. No ciclo de 2024 do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos, 20,6% das 3.084 amostras analisadas apresentaram algum tipo de não conformidade, incluindo uso de agrotóxico não autorizado para aquela cultura ou concentração acima do limite permitido. Doze amostras apresentaram risco agudo. Ao mesmo tempo, a agência informa que não encontrou situação de risco crônico acima da referência considerada segura para os agrotóxicos avaliados.

Ou seja: não é correto transformar os dados em uma narrativa apocalíptica, mas também não é aceitável utilizá-los para fingir que o problema não existe.

A ciência não autoriza nenhum dos extremos.

Ela exige vigilância.

E vigilância custa dinheiro.

Fiscalização custa dinheiro.

Pesquisa custa dinheiro.

Transição tecnológica custa dinheiro.

O problema é que o mercado costuma adorar privatizar o lucro e socializar a conta.

Quando a lavoura ganha produtividade, o benefício pode ser apropriado privadamente.

Quando surgem danos ambientais ou sanitários, quem paga?

O SUS.

O trabalhador.

A comunidade.

O município.

O Estado.

A sociedade.

É o velho negócio brasileiro: o lucro tem dono, o prejuízo tem endereço público.

A soberania alimentar que virou soberania da commodity

Existe outra contradição que deveria provocar um debate nacional.

O Brasil é uma potência agrícola.

Mas ser uma potência agrícola não significa necessariamente ser uma potência alimentar.

Uma coisa é produzir toneladas de soja, milho, algodão, café ou cana.

Outra é construir um sistema alimentar que garanta comida saudável, acessível e produzida de maneira sustentável para a população brasileira.

Quando a lógica da commodity passa a comandar a agricultura, o alimento deixa de ser necessariamente a finalidade.

A finalidade passa a ser o mercado.

E isso muda tudo.

A terra deixa de ser vista primordialmente como território de vida e passa a ser tratada como ativo produtivo.

A floresta vira obstáculo.

A diversidade agrícola vira ineficiência.

A agricultura familiar vira segmento secundário.

O trabalhador rural vira custo.

E o agrotóxico vira simplesmente "insumo".

Talvez seja justamente aí que esteja a grande tragédia.

Quando uma substância capaz de produzir dano passa a ser chamada apenas de insumo, a linguagem do mercado conseguiu apagar a linguagem da saúde.

Quem defende o Brasil?

O discurso ruralista costuma recorrer com facilidade ao nacionalismo.

"Precisamos defender o agro."

"Precisamos defender nossas exportações."

"Precisamos defender a soberania brasileira."

Pois então defendamos.

Mas defesa nacional não pode significar apenas defender o faturamento de quem exporta.

Defesa nacional também é defender a água brasileira.

É defender o solo.

É defender os trabalhadores.

É defender as comunidades indígenas e tradicionais.

É defender a agricultura familiar.

É defender o consumidor.

É defender as futuras gerações.

Um país não é soberano porque consegue vender milhões de toneladas de commodities.

É soberano quando consegue decidir o que aceita colocar dentro de seu próprio território e sobre o próprio corpo de sua população.

Se um produto é considerado perigoso demais para ser utilizado em determinado país, o Brasil deveria, no mínimo, perguntar por que ele deveria ser considerado suficientemente seguro para nós.

Essa pergunta não é ideológica.

É soberana.

O colonialismo químico tem sócios brasileiros

É aqui que a discussão precisa perder a delicadeza.

O colonialismo químico não é simplesmente uma história de europeus malvados vendendo veneno para brasileiros inocentes.

A realidade é mais cruel.

Existe uma aliança objetiva entre o capital internacional que vende e o poder econômico nacional que compra.

Um fornece a molécula.

O outro fornece o mercado.

Um recebe o dinheiro.

O outro recebe produtividade.

E a sociedade recebe a conta.

Bombardi chama atenção justamente para esse círculo vicioso: a agricultura brasileira utiliza substâncias produzidas por grandes corporações e, depois, exporta commodities para os mesmos mercados desenvolvidos que impõem regras mais rigorosas dentro de seus próprios territórios.

É uma espécie de circuito perfeito do capitalismo global.

A riqueza circula para cima.

O risco permanece aqui.

O Brasil não precisa escolher entre agro e saúde

Essa talvez seja a maior mentira do debate.

Não precisamos escolher entre agricultura e meio ambiente.

Entre exportação e saúde.

Entre produtividade e ciência.

Entre agronegócio e soberania.

O que precisamos escolher é qual agronegócio queremos financiar politicamente.

Um agronegócio que invista em tecnologia, pesquisa, redução do uso de substâncias perigosas, recuperação ambiental e segurança alimentar merece respeito.

Um modelo que trate qualquer tentativa de fiscalização como ataque ao setor precisa ser confrontado.

Porque quem realmente acredita na força do agronegócio não deveria ter medo de regras melhores.

E quem acredita na soberania brasileira não deveria aceitar que o país seja transformado em mercado de produtos que outros países decidiram não utilizar.

No fundo, a questão é simples.

Que Brasil queremos deixar para nossos filhos?

Um país que produziu milhões de toneladas?

Ou um país que conseguiu produzir milhões de toneladas sem transformar sua população em laboratório?

Porque uma nação pode sobreviver a uma safra ruim.

Pode sobreviver a uma queda nas exportações.

Pode sobreviver a uma crise cambial.

O que nenhuma nação deveria aceitar como preço inevitável do desenvolvimento é transformar a própria população em variável de ajuste.

O agronegócio brasileiro pode ser gigante.

Pode ser competitivo.

Pode ser exportador.

Pode ser tecnologicamente avançado.

Mas não pode reivindicar o direito de ser maior do que o interesse público.

E nenhum governo deveria aceitar que seja.

Porque, no fim das contas, a verdadeira pergunta do colonialismo químico não é apenas quem vende o veneno.

É quem decidiu que o brasileiro deveria aceitar recebê-lo.

E essa resposta não está apenas nas sedes das multinacionais.

Está também dentro do Brasil.

Está nas estruturas de poder.

Está nas decisões políticas.

Está nos interesses econômicos.

Está no lobby.

E está, sobretudo, na escolha de uma sociedade que precisa decidir se quer continuar medindo seu desenvolvimento pela quantidade de dinheiro que entra no país — ou também pela quantidade de vida que conseguimos preservar.

Um país que exporta comida, mas importa risco para sua própria população, não conquistou plenamente sua soberania. Apenas aprendeu a transformar dependência em negócio.

domingo, 6 de setembro de 2026

Após 26 anos de sequelas, María Consuelo Córdoba volta a considerar a eutanásia

A mulher colombiana que sobreviveu a um ataque com ácido em Bogotá, passou por cerca de 87 cirurgias afirma que voltou a considerar a possibilidade de realizar a eutanásia. Capital Salud confirma que ela possui autorização para o procedimento há quatro anos.

A história de María Consuelo Córdoba voltou a chamar a atenção na Colômbia. Aos 58 anos, ela vive há 26 anos com as graves consequências de um ataque com ácido ocorrido em Bogotá, no ano 2000.

Segundo o relato dado por María Consuelo ao Citytv e reproduzido por veículos de imprensa, a agressão aconteceu durante uma discussão com o então marido.

Ela havia decidido permanecer em Bogotá para trabalhar, enquanto ele pretendia retornar para o município de origem do casal, no departamento de Chocó. Durante a discussão, ele teria lançado ácido contra seu rosto.

As consequências foram devastadoras. Desde o ataque, María Consuelo passou por aproximadamente 87 intervenções cirúrgicas, muitas delas relacionadas à reconstrução do rosto e à recuperação de funções afetadas pelas queimaduras. Ela afirma que ainda necessita de procedimentos médicos.

De acordo com seu relato, atualmente ela utiliza dois tubos plásticos para auxiliar na respiração e uma máscara artesanal para proteger o rosto da exposição ao sol. As limitações físicas são acompanhadas por dificuldades econômicas.

María Consuelo contou que recorre à ajuda de pessoas em ônibus e no transporte público de Bogotá para conseguir dinheiro para suas despesas.

O encontro com Francisco

Outro episódio marcante da história ocorreu em 2017, durante a visita do papa Francisco à Colômbia.

María Consuelo relatou que conversou pessoalmente com o pontífice e que, naquela ocasião, já havia pensado na possibilidade de recorrer à eutanásia. Segundo seu próprio testemunho, Francisco pediu que ela não realizasse o procedimento e que continuasse lutando, enquanto mantinha a esperança de conseguir ajuda para prosseguir com o tratamento.

A autorização para a eutanásia já existe

Um dos pontos mais importantes do caso foi esclarecido pela própria Capital Salud, entidade responsável pela assistência à saúde de María Consuelo.

Depois da repercussão das entrevistas, a EPS informou que entrou em contato diretamente com a paciente para verificar sua situação. Segundo a instituição, María Consuelo declarou que possui autorização para o procedimento de eutanásia há quatro anos.

Isso significa que ela não está atualmente esperando uma nova autorização para realizar o procedimento.

A Capital Salud também afirmou que a decisão pertence à própria paciente, dentro do exercício de seu direito de decidir sobre a realização do procedimento.

Portanto, é importante corrigir uma interpretação que chegou a circular inicialmente: María Consuelo não está simplesmente "pedindo autorização" para a eutanásia. Segundo a própria EPS, a autorização já existe há cerca de quatro anos.

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Entre o sofrimento e o direito de escolher

María Consuelo voltou agora a falar publicamente sobre a possibilidade de realizar a eutanásia depois de mais de duas décadas de tratamentos, cirurgias e dificuldades econômicas.

Seu caso reúne duas questões extremamente delicadas: as consequências de uma violência brutal e o direito de uma pessoa decidir sobre o próprio fim de vida dentro das regras estabelecidas pela legislação colombiana.

Também não há indicação, nas informações divulgadas pela Capital Salud, de que ela já tenha marcado uma data para realizar o procedimento. A existência da autorização não significa que a eutanásia será necessariamente realizada.

A decisão continua sendo dela.

Uma nova possibilidade de ajuda

A repercussão do caso também provocou manifestações de solidariedade.

O empresário colombiano Arturo Calle declarou publicamente que gostaria de ajudar María Consuelo e ofereceu apoio para que ela pudesse ter uma moradia, além de pedir que outras pessoas também colaborassem. A iniciativa surgiu depois que ele tomou conhecimento das dificuldades econômicas enfrentadas pela mulher.

O gesto acrescentou um novo elemento a uma história marcada, até aqui, por 26 anos de tratamentos e limitações.

María Consuelo Córdoba continua, portanto, diante de uma decisão que já possui respaldo dentro do procedimento autorizado pela assistência de saúde colombiana. Depois de 26 anos convivendo com as consequências de uma violência que mudou completamente sua vida, a escolha sobre seguir adiante com a eutanásia permanece em suas mãos.

sábado, 29 de agosto de 2026

E Deus se fez Couch

Um pastor da Lagoinha Alphaville explicou a pobreza. E Marx, Weber, Bourdieu e dois séculos de Ciências Sociais podem finalmente descansar.

O problema não é salário, herança, educação, desemprego, desigualdade, concentração de renda ou oportunidade - é a cabeça do pobre.

Segundo o pastor Pyero Tavolazzi, pobreza é uma “doença espiritual e mental”, e quem entende “o Reino e o Rei” não deveria continuar pobre.

É uma ideia extraordinária, sobretudo para quem já é rico, porque realiza um pequeno milagre sociológico: faz desaparecer a sociedade inteira e deixa apenas o pobre diante do espelho, procurando dentro de si a causa de não ter dinheiro.

Bourdieu chamaria isso de violência simbólica. Foucault talvez enxergasse o empresário de si mesmo. Eu chamaria de coaching com Espírito Santo.

A desigualdade vira mindset, a precariedade vira crença limitante, o desemprego vira falta de propósito e o sujeito que nasceu sem patrimônio, escola decente, contatos ou oportunidades descobre que seu verdadeiro problema estava na cabeça.

Melhor ainda: quem diagnostica a doença frequentemente conhece a cura - pregações, conferências, cursos, mentorias, livros, ofertas.

É um modelo de negócios quase celestial: transforma-se sofrimento social em defeito individual e depois se oferece tratamento para o defeito.

Se o fiel prosperar, a doutrina funcionou; se continuar pobre, faltou , mentalidade ou produtividade.

Uma teoria maravilhosa: nunca perde - quem perde é o pobre.

O cristianismo começou com um homem que dizia ser difícil um rico entrar no Reino dos Céus. Dois mil anos depois, conseguiram atualizar o sofreste: difícil mesmo é o pobre entrar no Reino sem antes melhorar o mindset.

Jesus multiplicava pães; o neoliberalismo pentecostal multiplicou coaches.


TEXTO DE:

Julio Benchimol Pinto

Correios: privatizar ou não

A lógica do comentário é irrefutável: cobrar lucro dos Correios é ignorar sua razão de ser.

Enquanto uma transportadora privada escolhe onde atuar com base na rentabilidade, a estatal é obrigada a chegar a todos os 5.570 municípios brasileiros.

Entregar uma carta em comunidade isolada da Amazônia, onde só se chega de barco ou avião, ou levar uma encomenda ao Oiapoque (AP) não é um negócio — é um serviço público.

"Nenhuma empresa privada faz isso", afirma o discurso dos próprios trabalhadores, que lembram como eram chamados de "carteiros do fim do mundo". A universalização do acesso tem um custo, e esse custo é o que chamam de "prejuízo".

Os números impressionam, mas precisam ser contextualizados. Em 2024, o rombo foi de R$ 2,6 bilhões no primeiro trimestre de 2026, já chegava a R$ 3,16 bilhões.

Porém, especialistas apontam que as causas vão além da gestão: mudanças contábeis rigorosas, congelamento de tarifas entre 2012 e 2014 e o recolhimento excessivo de dividendos pelo governo ajudaram a descapitalizar a empresa.

Entre 2007 e 2013, por exemplo, foram retirados cerca de R$ 6 bilhões em dividendos além do mínimo legal. Ou seja, o "prejuízo" reflete tanto o peso da função social quanto decisões políticas que priorizaram o caixa da União em detrimento do equilíbrio da estatal.

Comparar os Correios com uma empresa privada, portanto, é um erro de categoria. 

Uma concessionária de logística jamais aceitaria operar com margens negativas em regiões remotas.

Os Correios, por outro lado, são a única representação concreta do Estado em milhares de localidades.

Seu "lucro" não está no balanço financeiro, mas no direito constitucional de todo cidadão, de Benjamin Constant ao Chuí, de enviar e receber sua correspondência. O debate não pode se resumir a planilhas: é sobre que tipo de país queremos construir.
______________________________________________

O argumento que muitos usam de que empresas como Amazon ou Mercado Livre entregam suas mercadorias e cobram o mesmo preço ou mais barato, esbarra no detalhe de que eles não são obrigados a entregar cartas em regiões isoladas.

Se os Correios forem "privatizados", a obrigação destas entregas será por Lei, transferida as empresas que "comprarem" o serviço.

Isso influenciaria diretamente nos preços do serviço.

Afinal, se apenas o licro importa, que empresa privada entregaria uma carta em Quiprocó do Mato Dentro para ter o mesmo "prejuízo" que os Correios?

Para questão de mera comparação: transporte público, luz e água,  são serviços públicos geralmente operados por empresas privadas através de contratos de concessão. A pergunta é:
Você está satisfeito com os preços e a qualidade destes serviços?

O tal "lucro" está indo para onde e para quem?

E antes de responder, lembre-se você está pagando impostos do mesmo jeito, estabdo esses serviços nas mãos do Estado ou da iniciativa privada.

Dando lucro, ou não.

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Lula foi Lula na sabatina da TV Globo de sempre

Hoje, este texto está  sensível. Profundo. Reflexivo e, acima de tudo, muito sincero.

A entrevista de Lula à Globo trouxe de volta muitas lembranças.

Nós o conhecemos quando ainda era líder sindical, na época em que morávamos em São Paulo e ele começava sua trajetória política. Desde então, suas ideias e convicções sempre estiveram voltadas para a justiça social, a soberania do Brasil e a urgência de atender, por meio de políticas públicas, às necessidades básicas da população mais carente.

Sem precisar repetir tudo o que o mundo já sabe, Lula deu ontem uma aula de democracia, respeito à política e compromisso com o povo brasileiro.

Renata Vasconcellos e César Tralli, que haviam sido assertivos nas entrevistas com os três primeiros candidatos, abordando assuntos pertinentes, pareceram completamente perdidos diante dele. Foi uma entrevista visivelmente tendenciosa, conduzida muito mais com a intenção de constrangê-lo e fazê-lo cair em alguma armadilha do que de esclarecer a população.

Enquanto insistiam em perguntas que poderiam produzir uma frase condenatória, deixaram de aprofundar um dos temas mais importantes do momento: o tarifaço e a maneira como o Brasil enfrentará essa questão daqui para a frente, especialmente agora que Lula já foi procurado por Washington para uma nova negociação.

E aqui não se trata de ser de Direita ou de Esquerda. Não se trata sequer de ser a favor ou contra Lula. Trata-se de reconhecer que estamos diante de um verdadeiro presidente — alguém que coloca seu país, sua soberania e os interesses de seu povo acima de qualquer pressão estrangeira.

Também não adianta que os haters enfurecidos venham até aqui destilar seu ódio contra a realidade, refugiados no metaverso de absurdos que criaram.

Tampouco aceito o argumento de que não posso opinar ou defender meu país porque vivo fora dele. Curiosamente, muitos dos que repetem esse discurso também vieram para os Estados Unidos — alguns não para construir pontes, mas para conspirar contra o próprio Brasil e destruir sua imagem em nome de interesses particulares e de uma ideologia reacionária.

Ontem, Lula foi Lula.

Com serenidade, experiência e firmeza, deixou seus adversários presos aos mesmos chavões empoeirados, aos mesmos preconceitos e às mesmas acusações que o tempo já fez caducar.

Podem amá-lo ou odiá-lo. Podem concordar ou discordar dele. Mas há algo que nem o ódio, nem as narrativas fabricadas, nem as armadilhas conseguem apagar:

Lula é simplesmente Lula.

Apesar de você…

TEXTO DE:

🦋 © Leila Cordeiro

domingo, 23 de agosto de 2026

Guerra Civil: o dia em que os EUA bombardeou americanos

Alguns acontecimentos, com o passar do tempo, permanecem como feridas abertas, porque a passagem dos anos não consegue apagar a pergunta fundamental: como foi possível que o Estado chegasse a esse ponto?

Em 13 de maio de 1985, na Filadélfia, uma dessas perguntas ganhou uma resposta brutal.

Naquele dia, a cidade não enfrentava uma guerra estrangeira. Não estava sendo atacada por um exército invasor. Não era um campo de batalha. Era um bairro residencial de uma das maiores cidades dos Estados Unidos.

Mesmo assim, uma bomba foi lançada contra uma casa.

O alvo era a sede do MOVE, organização de ativistas negros que havia entrado em conflito durante anos com autoridades e moradores da Filadélfia.

A tensão entre o grupo e o poder público já tinha produzido confrontos violentos e prisões. Naquela manhã, policiais foram ao endereço de 6221 Osage Avenue para cumprir mandados de prisão e retirar os integrantes do MOVE.

O confronto se prolongou durante horas.

Então veio uma decisão que parece saída de uma distopia: às 17h27, um helicóptero lançou sobre o telhado um artefato explosivo improvisado contendo C-4, destinado a destruir uma estrutura fortificada construída pelos integrantes do MOVE.

Quarenta e dois segundos depois, o inferno começou.

O explosivo atingiu uma área do telhado onde existiam madeira, tecidos e recipientes de combustível.

O fogo se espalhou rapidamente pelas casas vizinhas. E o mais assustador talvez não seja apenas que a bomba tenha sido lançada.

É que o incêndio foi permitido continuar.

Quando as chamas finalmente foram controladas, 11 pessoas estavam mortas.

Entre elas estavam cinco crianças.

Onze seres humanos.

Cinco crianças.

Sessenta e uma casas foram destruídas e cerca de 250 pessoas ficaram desabrigadas.

A Filadélfia havia acabado de protagonizar algo que parecia inimaginável em uma democracia moderna: o poder público utilizara explosivos contra uma residência ocupada por seus próprios cidadãos e, em consequência da operação, uma parte inteira de um bairro residencial fora consumida pelo fogo.

Por isso o episódio ficou conhecido como o bombardeio do MOVE.

E talvez seja importante não suavizar a palavra.

Foi um bombardeio.

Não adianta alegar que o grupo não era pacífico ou inocente em todos os seus conflitos com a cidade. E muito menos alegar que suas posições políticas não fossem virtuosas.

O ato é injustificável.

Mesmo quando o Estado enfrenta adversários violentos, ele continua obrigado a obedecer aos limites da própria civilização que afirma defender.

Esse é o ponto que transforma o episódio de 1985 em algo muito maior do que uma disputa entre a polícia da Filadélfia e uma organização radical.

A democracia não se mede apenas pela maneira como trata aqueles que concordam com ela.

Mede-se, sobretudo, pela maneira como trata aqueles que considera inconvenientes, extremistas, perigosos ou indesejáveis.

O Estado possui uma força incomparavelmente maior que a de qualquer indivíduo. Tem polícia, armas, prisões, tribunais, inteligência e capacidade logística. Justamente por isso, seu poder precisa ser submetido a limites ainda mais rigorosos.

Quando o Estado perde esses limites, deixa de existir apenas uma operação policial mal conduzida.

Existe uma tragédia institucional.

A própria investigação posterior da cidade de Filadélfia reconheceu a dimensão extraordinária do episódio. Décadas depois, uma investigação independente sobre os restos mortais das vítimas recomendou que suas certidões de óbito fossem alteradas para registrar a causa das mortes e classificá-las como homicídio, e não acidente.

É uma mudança documental pequena diante da dimensão da tragédia.

Mas simbolicamente gigantesca.

Porque palavras importam.

Acidente é aquilo que acontece sem intenção ou controle. Homicídio remete à morte provocada por ação humana.

E o que aconteceu naquela tarde não foi uma fatalidade natural. Houve decisões. Houve autoridades. Houve uma operação planejada. Houve explosivos. Houve uma bomba lançada sobre uma casa.

O resultado foi uma carnificina.

Também é preciso lembrar que o MOVE não existia em um vácuo histórico. O grupo nasceu em uma Filadélfia marcada por conflitos raciais, desigualdade, brutalidade policial e profundas tensões sociais. Seus integrantes eram vistos por muitos vizinhos como uma ameaça e provocavam conflitos que não podem ser simplesmente apagados da narrativa.

Mas reconhecer os erros do MOVE não absolve automaticamente os erros do Estado.

Essa é uma distinção fundamental.

Condenar a violência de um grupo não significa conceder ao Estado uma licença para agir sem limites.

Se aceitarmos o contrário, chegaremos a uma lógica perigosa: basta rotular alguém como extremista, criminoso ou inimigo para que desapareçam seus direitos.

Foi exatamente esse tipo de raciocínio que tornou episódios como o de 13 de maio de 1985 tão perturbadores.

A pergunta que permanece não é apenas por que o MOVE chegou a um confronto tão radical com a cidade.

A pergunta também é: por que uma democracia considerou aceitável lançar uma bomba sobre uma casa?

E existe uma segunda pergunta, ainda mais incômoda: o que teria acontecido se aquelas pessoas não fossem negras, pobres e politicamente marginalizadas?

Não existe resposta simples para essa pergunta. Mas ignorá-la seria igualmente irresponsável.

A história americana é cheia de episódios em que a cor da pele, a pobreza e a posição política determinaram quem recebeu proteção e quem recebeu força.

O bombardeio do MOVE precisa ser lembrado justamente por isso.

Não como uma história de santos contra demônios.

Não como propaganda política.

Não como uma justificativa para transformar o MOVE em herói absoluto.

Mas como uma advertência.

Porque instituições democráticas também podem cometer atrocidades.

Policiais podem errar.

Governos podem abusar do poder.

Autoridades podem tomar decisões absurdas.

E sociedades inteiras podem assistir ao desastre acontecer enquanto procuram, depois, uma explicação confortável para aquilo que não deveria ter acontecido.

Em 13 de maio de 1985, a Filadélfia mostrou ao mundo uma imagem que deveria constranger qualquer democracia: um helicóptero sobrevoando um bairro residencial, uma bomba caindo sobre uma casa e crianças morrendo dentro dela.

Quarenta e um anos depois, a imagem continua difícil de encarar.

E talvez seja exatamente por isso que ela precise continuar sendo lembrada.

Porque esquecer é muito mais conveniente.

Lembrar é admitir que o Estado, quando não encontra limites para o próprio poder, pode transformar a defesa da ordem em destruição da própria ordem que deveria proteger.

Naquele 13 de maio, a Filadélfia não apenas perdeu 11 vidas.

Perdeu casas.

Perdeu uma parte de um bairro.

E, por algumas horas, perdeu também aquilo que uma democracia jamais deveria perder: o senso de que nenhuma autoridade está acima da vida humana.

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Linchamento em Copacabana é vitória do Brasil Miliciano

Cláudio Rafael Landeiro Moreira saiu de casa, em Botafogo, para pedalar e voltou em um caixão.

O homem de 37 anos, que tinha transtornos mentais, foi abordado em Copacabana e não conseguiu explicar que a bicicleta pertencia a uma irmã.

Um vigilante confundiu sua dificuldade de expressão com confissão, deu-lhe um soco e o tratou como ladrão. Depois, um grupo de entregadores teria levado Cláudio para outra rua, onde foi linchado. Ele morreu no dia seguinte com traumatismo craniano, hemorragia interna e lesões no abdômen.

Justiçamento é típico de uma sociedade miliciana, na qual o devido processo legal (que inclui investigação, indiciamento, denúncia, processo, condenação e execução de pena) é deixado de lado em nome da possibilidade de cada um resolver, da forma como melhor entender, os seus problemas.

É a lei do mais forte.

Foi essa lógica que moveu a turba golpista de 8 de janeiro de 2023, em Brasília, e apareceu na operação policial na Penha e no Alemão, que deixou 118 civis e quatro agentes mortos, no Rio.

Milícia não é apenas o grupo armado que controla territórios. É também um método que privatiza a violência: alguém aponta um suspeito, suspende seus direitos e aplica a pena que quiser.

A presunção de inocência vira frescura, e a Justiça chega apenas para recolher o cadáver.

Entende-se uma sociedade cansada de crime e com pouca fé no Estado. Mas o medo do crime não concede licença para matar.

Se entregadores participaram do linchamento, os responsáveis devem ser identificados e punidos individualmente, sem condenar toda a categoria — repetindo o mecanismo que matou Cláudio.

Copacabana é um dos principais cartões-postais do Brasil. Mas, naquela noite, tornou-se o retrato de um país que está autorizando a pena de morte para qualquer grupo disposto a aplicá-la na calçada.

Quando alguém se torna culpado de cometer um crime simplesmente porque foi morto por uma turba, não precisamos mais temer os milicianos. Eles já somos nós.

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