O feminicídio no Brasil não é um fenômeno isolado, tampouco um desvio ocasional da norma: ele é, antes, um sintoma persistente de uma estrutura social que naturaliza a violência de gênero, a misoginia e a desumanização de corpos femininos — especialmente quando atravessados por outras vulnerabilidades, como raça, classe e identidade de gênero.
Os números já seriam, por si só, suficientes para provocar comoção nacional. Mas o problema se agrava quando observamos não apenas os crimes, e sim o ambiente simbólico que os cerca, um terreno fértil onde discursos de ódio, relativizações e até celebrações da violência encontram eco.
Nos últimos anos, assistimos a episódios que, se analisados em conjunto, revelam algo mais profundo do que simples coincidência.
A violência política direcionada à deputada Erika Hilton, frequentemente alvo de ataques transfóbicos e misóginos por grupos identificados com o bolsonarismo, expõe como a linguagem pode funcionar como antecâmara da agressão física.
Quando uma figura pública é sistematicamente deslegitimada em sua humanidade, abre-se espaço para que a violência contra ela — ou contra quem ela representa — seja vista como aceitável, ou ao menos tolerável.
Esse mesmo mecanismo de normalização aparece de forma ainda mais perturbadora quando agentes do Estado, cuja função deveria ser a proteção da vida, demonstram solidariedade a colegas acusados de crimes brutais.
O caso recente de um policial suspeito de assassinar a própria esposa — também policial — e que recebeu manifestações de apoio de outros membros da corporação, revela uma cultura institucional que, em vez de repudiar a violência, por vezes a encobre ou a minimiza. Trata-se de um sinal alarmante de como o corporativismo pode se sobrepor à justiça, especialmente quando a vítima é uma mulher.
A memória coletiva também parece falhar — ou ser seletiva — quando figuras condenadas por crimes hediondos conseguem retomar suas vidas públicas com relativa facilidade.
O retorno do goleiro Bruno ao futebol, após cumprir pena pelo assassinato de Eliza Samudio, é um exemplo emblemático.
Não se trata aqui de discutir o sistema penal ou a possibilidade de reintegração social, mas de questionar o tipo de mensagem que se transmite quando um crime de tamanha gravidade é, na prática, absorvido pelo espetáculo esportivo sem maiores constrangimentos.
E há ainda o papel da mídia e de seus protagonistas.
Quando um apresentador de televisão como Ratinho recorre reiteradamente a falas agressivas contra minorias, ele não apenas expressa uma opinião individual, mas contribui para a construção de um ambiente discursivo onde a intolerância é legitimada.
A televisão, especialmente em um país de dimensões continentais como o Brasil, não é apenas entretenimento — é também formação de imaginário.
O ponto comum entre todos esses episódios é a banalização da violência.
Não apenas a violência física, mas a simbólica, a verbal, a institucional. É a ideia de que certas vidas valem menos, de que certos corpos são descartáveis, de que certas dores não merecem luto coletivo.
Combater o feminicídio, portanto, exige mais do que políticas públicas — embora estas sejam absolutamente essenciais.
Exige uma transformação cultural profunda, que passe pela educação, pela responsabilização de agentes públicos, pela revisão de discursos midiáticos e pela recusa ativa à normalização do ódio.
Enquanto a sociedade brasileira não encarar esse problema em sua totalidade — como um sistema, e não como casos isolados — continuaremos a contar vítimas, a escrever colunas indignadas e, tragicamente, a nos acostumar com o inaceitável.

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