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terça-feira, 11 de novembro de 2025

Feliz Aniversário

(por Antonio Gonzalez)

Fui uma criança tímida, moldada por uma educação de disciplina e valores firmes, onde a ética era a poetisa que ensinava humildade, simplicidade, solidariedade e gratidão. Dessa mistura nasceram os princípios que me sustentam.

Nos colégios Santa Rosa de Lima e Santo Inácio, era o típico CDF — estudioso, dedicado, confiante de que o mérito nascia do esforço. Tudo parecia seguir o curso natural, até que, aos treze anos, a vida virou poesia amarga. Meus pais em crise conjugal, desquite à vista. Sofri pelos dois e lutei contra o que parecia inevitável — eu não queria ser filho de pais separados.

A timidez deu lugar à revolta. De aluno exemplar, tornei-me repetente. Caí, despenquei, e quanto mais afundava, mais me reinventava.

Em 1977, o Encontro de Casais com Cristo os reconciliou — e me devolveu outro olhar sobre a vida. Já era outro: um adolescente dividido entre o anjo e o rebelde. O anjo subia favelas levando alimento e fé; o diabo e rebelde pichava “ABAIXO A DITADURA” e saia na porrada no Maracanã. 

Aos 16 anos, cantei Pra Não Dizer que Não Falei de Cristo (versão da música do Vandré), numa missa, na Igreja de São João Batista da Lagoa e fui denunciado à repressão. Monsenhor Arlindo Thiessen me defendeu; a Irmã Divina me escreveu:

Meu menino quase homem, idealista e radical, é pra você essa canção — simples, pobre, mas de coração.

Namorei, me apaixonei e desapaixonei. Casei com quem me quis, e em 1988 o mundo me chamou.

Vivi seis anos em Madrid — intensos, sedutores, plenos de descobertas. Estudei, trabalhei numa multinacional em posto de gerência, aprendi. Voltei ao Brasil por palavra dada, mas logo o destino desatou o nó. Em 1998 me separei — tomei um merecido pé na bunda, confesso.

Vieram novos amores, ao todo cinco casamentos, novos recomeços. Fui, voltei, lutei. O Fluminense foi parte da minha alma — vivi o clube como quem ama demais, com alegrias, feridas e glórias.

A Bahia me encantou. No Esporte Clube Bahia, em 2002, vivi uma grande fase — humildemente criei o melhor programa de sócio-torcedor do país, destaque na revista Lance+. Mas o sucesso é vento: passa.

No final daquele ano voltei à Espanha. Trabalhar na noite deu-me status, as luzes, o brilho e as armadilhas me seduziram. Veio a recessão e, com ela, a falência moral. Em 2012, meu Pai, já debilitado, disse:

“Volta para o Brasil”.

Dessa vez obedeci.

No regresso, encontrei novos amigos que viraram irmãos e reconheci, nos antigos, o verdadeiro significado de traição e filho da puta.  Aprendi que a solidão pode ser um lugar sagrado.

Hoje vivo em Taubaté, convivendo com doenças que me lembram que cada dia é um presente. Não sei como estarei amanhã, mas celebro cada amanhecer. Mato um leão por dia e sigo grato.

Lembro-me de 1991, em Madrid, quando disse à Beatriz, minha primeira esposa:

Achei que não chegaria aos 30; o que vier daqui pra frente é gorjeta de Deus.

Pois já são 34 anos de gorjeta — e que gorjeta maravilhosa!

Penso nos amigos que lutam contra o Parkinson, mais jovens que eu. Oro por eles, sempre! Agradeço por ainda estar aqui.

Dentro da minha solitude, celebro a dádiva de existir.

Feliz aniversário, Gonzalez.

TEXTO DE:

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

A Gratidão tem de ser Eterna

primeira foto que eles tiraram juntos no Brasil, em 1958
O dia amanheceu e, sem motivo aparente, comecei a cantarolar os versos dos Titãs:

Família, família... papai, mamãe, titia. Família, família... almoça junto todo dia, nunca perde essa mania.

Logo pensei nos meus Pais, que em poucos dias completarão 65 anos de casados — mesmo em outra dimensão. Mais que uma vida, uma grande história.

Ambos sobreviveram à Guerra Civil Espanhola e à fome que devastou a Espanha sob Franco e seus falangistas. Meu Pai, nascido em 1931, aos 12 já trabalhava numa fábrica para alimentar os cinco irmãos, depois que o mais velho fugiu para o Canadá. Era o Regueiras — órfão, guerreiro e sonhador.

Minha mãe, nascida em 1935, ficou órfã cedo. Herdou uma pequena fortuna, dilapidada pelos tutores. 

Jovens, ambos decidiram fugir daquela Espanha cinzenta e faminta. Ele veio primeiro, lavando pratos para sobreviver.

Um dia me contou: “Nos primeiros anos no Brasil, só tinha uma diversão: os jogos do Fluminense. Quando não havia jogo, comprava uma lata de sardinha e o Jornal dos Sports, ia ao Parque Guinle e pensava na tua mãe.

Ela chegou em 1958, ainda noiva, trazendo na mala uma tuberculose — herança da miséria — curada em Itaipava. Casaram-se em 1960, num festão espanhol no Rio. Um ano depois, nasci. A essa altura meu Pai havia trazido 2 irmãos para o Brasil, que também fugiram da fome e dos pés descalços.

De lavador de pratos, meu Pai virou dono do restaurante mais famoso do Centro — o Yankee Brasil, na Rua Rodrigo Silva — ponto de encontro da alta sociedade carioca. De uma vaga numa vila da Rua Ipiranga, tornou-se proprietário de um apartamento de 190 m² em Botafogo, pago à vista. Seus dois filhos estudaram no Santo Inácio, o melhor e mais caro colégio do Estado.

Na última madrugada, sonhei com eles — uma lembrança real: quando compraram um terreno para a Maria, que trabalhava conosco, em Santa Isabel. Fizeram isso pouco antes de voltarem à Espanha, em 1986. Maria já se foi, mas seus filhos me seguem nas redes e sempre dizem o quanto nossa família mudou suas vidas.

Pepe e Pura sobreviveram à miséria, mas dela trouxeram o amor e a solidariedade. Um dia, quando revoltei-me com a ingratidão de alguém que eles haviam ajudado, minha mãe disse: “Antonio Carlos, a gratidão não deveria ter prazo de validade. Mas não cobre isso de quem tem o coração pequeno. Quem esquece de onde veio, por mais rico que seja, continua pobre por dentro. A gratidão, quando é de verdade, não morre. Apenas se transforma em luz e memória. Se é falsa, veste-se de trevas.

Deles herdei virtudes — entre elas, a solidariedade e a gratidão. Sou grato, sempre. Mas não cruzo o caminho de ninguém, nem permito que cruzem o meu.

Repito: sou grato, mas não perdoo quem é filho da puta comigo.


TEXTO DE:
Antonio Gonzalez