quarta-feira, 22 de julho de 2026

A Odisseia

A sétima arte sempre foi fascinada pela Odisseia, do cavalo de Troia que marcou o antepassados dessa história, aos seres míticos que vão do ciclope polifemo, sereias, deuses e até almas no inferno.

Mas curiosamente, o novo filme de Milan é centrado nas emoções humanas. Até a sua componente mitológica assume aqui uma posição coadjuvante.

A montagem favorece dois núcleos da história, separados por 10 anos e movidos por um reencontro. Reparem que quando as figuras míticas surgem, elas nunca se tornam mais importantes que seus personagens humanos. Não existe cortina de fumaça em A Odisseia.

Eu creio é que o filme vai deixar o próximo Oscar menos diverso. Som, fotografia e efeitos especiais estão na mira por estatuetas. Já as atuações foram bem calibradas, aqui temos um filme muito mais nivelado.

Existe um destaque especial para uma cena feita sob medida para colocar Anne Hathaway na disputa pelo Oscar. Até Matt Damon tem chances, embora sua interpretação seja bastante linear.

O grande destaque para mim foi Robert Pattinson, e ele cria um dos personagens mais inventivos desse filme.

Nolan continua encontrando dificuldade para aprofundar suas personagens femininas. E isso chama atenção justamente porque a própria Odisseia oferece espaço para que elas ocupem um protagonismo maior.

Lupita Nyong'o faz uma ponta cheia de vida, e com mais tempo de tela, poderia brilhar ainda mais. Do ponto de vista do roteiro, Nolan mastiga sua trama, e mastiga bem. É claro que ele continua priorizando a experiência cinematográfica, em detrimento de uma narrativa mais complexa. Mas o fato é que ele conseguiu transformar toda a grandiosidade da Odisseia em um filme comercial para o grande público.

Ao simplificar algumas camadas da obra de Homero, Nolan faz com que certos conflitos e personagens fiquem presos às funções que precisam cumprir dentro da jornada.

O Odisseu é sempre o mesmo homem tentando retornar, enquanto Penélope permanece muito ligada à espera. Existe emoção, existe nuance e existe drama nesses personagens, mas a narrativa frequentemente repete esses movimentos em vez de aprofundá-los. Ambos atravessam 10 anos de perdas e provações, mas suas transformações internas são mais sugeridas do que verdadeiramente exploradas.

Ainda assim, existe um brilho e um frescor genuinos em A Odisseia. É possível se perder, no bom sentido, nas cenas mais incríveis desse filme. Se deixar ser arrebatado pela Ilha de Circe ou pela minha sequência favorita de todas, a Descida ao Mundo dos Mortos.

No fim, o cinema é, antes de tudo, encantamento. E Nolan agarra nessa ideia com força na sua mais nova obra-prima. Uma experiência feita para ser vivida nas telonas e que tem tudo para se tornar um dos seus filmes mais marcantes.

TEXTO DE:
Thiago Muniz

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