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quarta-feira, 22 de julho de 2026

A Odisseia

A sétima arte sempre foi fascinada pela Odisseia, do cavalo de Troia que marcou o antepassados dessa história, aos seres míticos que vão do ciclope polifemo, sereias, deuses e até almas no inferno.

Mas curiosamente, o novo filme de Milan é centrado nas emoções humanas. Até a sua componente mitológica assume aqui uma posição coadjuvante.

A montagem favorece dois núcleos da história, separados por 10 anos e movidos por um reencontro. Reparem que quando as figuras míticas surgem, elas nunca se tornam mais importantes que seus personagens humanos. Não existe cortina de fumaça em A Odisseia.

Eu creio é que o filme vai deixar o próximo Oscar menos diverso. Som, fotografia e efeitos especiais estão na mira por estatuetas. Já as atuações foram bem calibradas, aqui temos um filme muito mais nivelado.

Existe um destaque especial para uma cena feita sob medida para colocar Anne Hathaway na disputa pelo Oscar. Até Matt Damon tem chances, embora sua interpretação seja bastante linear.

O grande destaque para mim foi Robert Pattinson, e ele cria um dos personagens mais inventivos desse filme.

Nolan continua encontrando dificuldade para aprofundar suas personagens femininas. E isso chama atenção justamente porque a própria Odisseia oferece espaço para que elas ocupem um protagonismo maior.

Lupita Nyong'o faz uma ponta cheia de vida, e com mais tempo de tela, poderia brilhar ainda mais. Do ponto de vista do roteiro, Nolan mastiga sua trama, e mastiga bem. É claro que ele continua priorizando a experiência cinematográfica, em detrimento de uma narrativa mais complexa. Mas o fato é que ele conseguiu transformar toda a grandiosidade da Odisseia em um filme comercial para o grande público.

Ao simplificar algumas camadas da obra de Homero, Nolan faz com que certos conflitos e personagens fiquem presos às funções que precisam cumprir dentro da jornada.

O Odisseu é sempre o mesmo homem tentando retornar, enquanto Penélope permanece muito ligada à espera. Existe emoção, existe nuance e existe drama nesses personagens, mas a narrativa frequentemente repete esses movimentos em vez de aprofundá-los. Ambos atravessam 10 anos de perdas e provações, mas suas transformações internas são mais sugeridas do que verdadeiramente exploradas.

Ainda assim, existe um brilho e um frescor genuinos em A Odisseia. É possível se perder, no bom sentido, nas cenas mais incríveis desse filme. Se deixar ser arrebatado pela Ilha de Circe ou pela minha sequência favorita de todas, a Descida ao Mundo dos Mortos.

No fim, o cinema é, antes de tudo, encantamento. E Nolan agarra nessa ideia com força na sua mais nova obra-prima. Uma experiência feita para ser vivida nas telonas e que tem tudo para se tornar um dos seus filmes mais marcantes.

TEXTO DE:
Thiago Muniz

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Eulogy, o episódio perfeito de Black Mirror

O episódio Eulogy, da sétima temporada de Black Mirror, é menos sobre tecnologia e mais sobre memória — não como registro fiel do passado, mas como construção emocional. A inovação tecnológica apresentada não cria o conflito; ela apenas força o protagonista a encarar aquilo que ele passou anos evitando: a sua própria história.

Desde o início, somos apresentados a um homem que vive cercado de lacunas. As fotos da antiga namorada estão danificadas, o rosto dela nunca aparece por inteiro, e suas lembranças surgem fragmentadas, desfocadas, sempre interrompidas antes de chegar ao essencial. Nada disso é acidental. Eulogy constrói uma metáfora poderosa: quando escolhemos uma narrativa defensiva, a memória também se defende.

QUANDO NÓS SOMOS OS VILÕES DAS OUTRAS PESSOAS

O protagonista acredita, durante boa parte de sua vida, que foi o lado ferido da relação. A história que ele conta a si mesmo é simples, confortável e incompleta: ela falhou, ela foi injusta, ela destruiu algo que ele tentou preservar. Mas Eulogy desmonta essa lógica com cuidado e crueldade.

À medida que as lembranças avançam, fica claro que a relação não terminou por um único ato, mas por uma sucessão de pequenas violências emocionais, silêncios, orgulhos e incapacidades mútuas de escuta. O episódio aponta para uma verdade incômoda: é perfeitamente possível ser o vilão da história de alguém enquanto se enxerga como protagonista injustiçado da própria narrativa.

Aqui, Black Mirror toca em algo profundamente humano — a facilidade com que editamos o passado para preservar nossa autoimagem.

MAIS DIFÍCIL DO QUE PERDOAR O OUTRO É PERDOAR ISSO MESMO

O coração emocional de Eulogy não está no perdão direcionado à mulher que morreu, mas no perdão que o protagonista precisa conceder a si mesmo. Ele não sofre apenas pela perda do amor; sofre porque percebe, tarde demais, que também foi responsável pelo fracasso da relação.

O episódio sugere que o autoengano cobra juros altos. Enquanto ele sustenta a versão em que é apenas vítima, suas memórias permanecem quebradas — literalmente. As fotos seguem danificadas, o rosto dela inacessível. Só quando ele aceita sua parcela de culpa, reconhece suas falhas e abandona a necessidade de se inocentar, algo muda.

O perdão, aqui, não é absolvição. É reconhecimento. É a capacidade de dizer: eu amei, mas também feri.

O ROSTO POR TRÁS DAS FOTOS

Um dos símbolos mais delicados de Eulogy é o fato de que o protagonista só consegue ver nitidamente o rosto da namorada quando aceita a história inteira — não apenas a parte que o favorece. Enquanto ele insiste em uma narrativa mutilada, as imagens permanecem mutiladas.

A memória visual funciona como espelho da memória moral. Não é a tecnologia que falha; é a consciência que resiste. Quando ele finalmente se permite perdoar — a ela, por suas falhas, e a si mesmo, por suas omissões e durezas — o rosto surge. Inteiro. Humano. Real.

Nesse gesto silencioso, o episódio afirma algo profundo: só conseguimos lembrar plenamente de alguém quando deixamos de usar a memória como escudo.

O VELÓRIO DE MEMÓRIAS FALSAS

A cena final do velório condensa toda a crítica do episódio. Todos os presentes compartilham lembranças da falecida mediadas por um dispositivo tecnológico na têmpora. São memórias editadas, organizadas, emocionalmente seguras. A dor foi suavizada. O passado, padronizado.

O protagonista é o único ali que carrega uma memória real — contraditória, dolorosa, imperfeita. Ele lembra do amor, mas também das falhas, das brigas, dos silêncios. E isso o isola. Eulogy sugere que lembrar de verdade é solitário, porque a memória autêntica não serve ao conforto social; ela exige maturidade emocional. Ele está na porta, enquanto os outros estão dentro da igreja. O único amor real que ela teve estava fora de sua vida, mas ainda permanecia nas memórias.

Enquanto os outros consomem versões fabricadas da pessoa que morreu, ele é o único que conheceu alguém de fato.

O AMOR NÃO MORRE, MESMO SOTERRADO

Talvez o aspecto mais devastador de Eulogy seja sua recusa em tratar o amor como algo que desaparece com o tempo. O episódio afirma o contrário: o amor verdadeiro pode permanecer intacto mesmo soterrado sob mágoa, orgulho e anos de silêncio.

Não há reconciliação possível, não há redenção tardia. O que existe é uma elegia — no sentido mais honesto da palavra. Não uma celebração idealizada, mas o lamento consciente por um amor que existiu e que poderia ter sido diferente se ambos tivessem sido capazes de se enxergar com mais clareza.

A FILHA RECEBE O PASSADO QUE LHE FOI NEGADO

Entre tantas memórias fabricadas, higienizadas e compartilháveis, Eulogy reserva seu gesto mais silenciosamente esperançoso à filha da falecida. Enquanto os demais personagens acessam lembranças mediadas por dispositivos — versões seguras, editadas e emocionalmente neutras — é justamente ela quem consegue algo raro: uma memória verdadeira, não programada, não consensual, vinda diretamente do protagonista.

Esse encontro é decisivo porque rompe o circuito fechado da memória artificial. A filha não conhece a mãe apenas pela imagem socialmente aceitável construída no velório, mas por uma lembrança atravessada por contradição, dor e amor. Ao ouvir o protagonista, ela entra em contato com um lado da mãe que nunca lhe foi apresentado: imperfeito, apaixonado, falho, profundamente humano.

Aqui, Black Mirror sugere algo poderoso: a memória verdadeira não é necessariamente a mais confortável, mas é a única capaz de ampliar o outro. A filha não recebe uma versão idealizada da mãe — recebe uma mulher que amou, errou, foi amada e também feriu. E isso não diminui a mãe; ao contrário, a torna mais real.

Há algo quase pedagógico nesse gesto. Enquanto a tecnologia promete preservar o passado, é a transmissão humana — frágil, subjetiva, emocional — que de fato cria vínculo e compreensão. A filha passa a conhecer a mãe não como mito ou arquivo, mas como alguém que existiu em relação a outro ser humano.

Nesse sentido, Eulogy aponta para uma inversão sutil: o protagonista, que parecia condenado a carregar sozinho o peso da memória real, torna-se o único capaz de oferecer à filha algo que nenhuma tecnologia poderia fornecer — uma lembrança que não fecha a história, mas a abre. Não uma resposta definitiva, mas uma complexidade nova.

Ao permitir que a filha conheça esse lado oculto da mãe, o episódio afirma que a memória autêntica não serve apenas para o luto; ela serve para o encontro. Mesmo depois da morte, mesmo depois do tempo, mesmo depois do erro.

E talvez essa seja a nota mais delicada da elegia que Black Mirror compõe aqui:
a verdade não consola como a mentira, mas conecta como nada mais é capaz de fazer.

CONCLUSÃO

Eulogy é um dos episódios mais humanos de Black Mirror porque desloca o horror da tecnologia para dentro de nós. Ele nos confronta com uma pergunta incômoda: quantas memórias mantemos danificadas apenas para não encarar quem fomos?

Ao final, quando o protagonista finalmente vê o rosto da mulher que amou, entendemos que a verdadeira falha nunca foi técnica. Foi moral. E que, às vezes, só conseguimos lembrar plenamente de alguém quando aceitamos que amar também implica falhar — e assumir isso.

Por fim, o encontro com a filha, que não é dele, mas é o resultado da relação imperfeita que  teve com o grade amor de sua vida, nos dá uma resposta bem clara: ele teria perdoado, teria sido um pai para ela.

E além do fim do episódio, nosso protagonista aceita a filha que não teve, da mesma maneira que ela ganha o pai que lhe foi negado pelo destino.

Um final perfeito.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

O Agente Secreto e o Golden Globe

A arte existe porque a vida não basta” (Ferreira Gullar)

O Agente Secreto, filme de Kleber Mendonça Filho com Wagner Moura, se passa no Brasil de 1977, durante a ditadura militar, e segue Marcelo, um professor de tecnologia que foge de um passado misterioso para Recife, buscando paz, mas encontra paranoia, vigilância e uma cidade cheia de tensão, sendo espionado por vizinhos e sentindo-se parte de um grande quebra-cabeça político e de memória que o passado tenta apagar. Em resumo: É um thriller político que usa a ambientação do Brasil militar para discutir a memória coletiva e individual, com um protagonista que se torna um "agente" em sua própria história de fuga e descoberta. 

O título cria uma expectativa de um filme sobre espionagem, mantendo o espectador intrigado em boa parte do tempo, esperando revelações até que descobre que não se trata disso, que o agente secreto parece ser mais um ingrediente secreto de uma fórmula química ou receita de cozinha.

Seria esse o fio condutor, aliás, também das histórias paralelas, o elo comum que explicaria a existência da ditadura militar, da xenofobia contra nordestinos, do desaparecimento dos cinemas de rua no Recife e outros elementos dispersos pela narrativa.

O que seria esse ingrediente, esse agente, porém, não há como saber com certeza. O filme não dá respostas, nem poderia, pois se o esquecimento é o verdadeiro tema, como explicá-lo verbalmente? Como nomear o que, por definição, desaparece?

Por que torcemos para “O Agente Secreto” no Globo de Ouro?

Porque é um Filmaço! Porque somos brasileiros, viva a cultura brasileira.

Nosso audiovisual teve impacto econômico total de R$ 70,2 bilhões de PIB do Brasil em 2024. Gerou 608 mil empregos no país, sendo 121 mil empregos diretos. E R$ 9,9 bilhões em receitas tributárias (impostos).


Viva a produção audiovisual do Brasil! 🇧🇷


TEXTO DE:

Thiago Muniz

domingo, 1 de junho de 2025

Eulogy

Chegou à Netflix a aguardadíssima sétima temporada de Black Mirror e com ela, Eulogy, episódio que mergulha de cabeça no novelo emaranhado entre tecnologia e lembrança.

O artifício que move a trama é, por si só, de arrepiar: um software capaz de nos colocar dentro de fotografias antigas para que possamos compor um elogio fúnebre à altura de quem partiu. Para Phillip ( Paul Giamatti ), essa porta no tempo tem gosto amargo.

Nas três polaroides que ele escolhe, o rosto da antiga namorada, Carol, foi rasbicada às pressas - uma tentativa infantil e inútil de apagar a dor de quem preferiu rasgar a página em vez de virá-la.

A lente do episódio é quase psicanalítica. Memória não é uma gaveta bem arrumada, é história recontada para que possamos seguir vivendo. Ao reconstruir aqueles cenários riscados, Phillip ressuscita tudo o que havia empurrado para o porão.

O dispositivo age como analista: força o encontro - desconfortável mas, necessário - entre a vontade inconsciente de repetir a perda e o desejo de transformar luto em futuro.

O roteiro frisa que o destino cinzento de Phillip, envelhecendo sozinho numa cidade pequena, não foi castigo do relógio: brotou de decisões minúsculas, de cada conversa adiada, cada foto rasgada em silêncio.

Paul Giamatti carrega tudo isso no corpo. Ele faz dos olhos uma zona de exclusão - raramente encara a lente. Um leve tremor no canto da boca vale mais que paginas de diálogo. E, nos silêncios, sentimos o peso de tudo que não coube em palavras. Quando enfim chega o choro, ele explode como relâmpago.

A direção de Chris Barret e Luke Taylor brinca com a nossa percepção: as fotos começam planas, desbotadas, e de repente as figuras respiram, o grão salta, o obturador estala. É lindo e pertubador - como folhear um álbum de família sabendo que cada página guarda algo que talvez preferíssemos nunca reviver.

Charlie Brooker e Ella Road, os roteiristas, costuram tudo con a melancolia de quem olha para a própria juventude pelo retrovisor. As menórias de verão vibrantes - risadas ecoando na feira, planos ousados para quando ficarmos velhos - batem de frente com ruas vazias, a barbearia fechada, o relógio da praça parado às três e quinze.

Eulogy pergunta: será que a solidão é obra do tempo... ou culpa da nossa covardia diante das encruzilhadas?

Os giros do enredo - a identidade real da Guia, o segredo por trás da foto rasgada - mantêm o coração na garganta. Mas, quando a tela escurece, fica o olhar de Phillip: um pedido de desculpas tardio para o próprio passado. Aprendemos aí: a tecnologia pode reabrir portas, atracessá-las ou não continua sendo só nosso.

Eulogy dispensa consolo fácil. Oferece, em vez disso, um espelho sem retoques. Nele, entendemos que dá para reescrever certas memórias antes que o tenpo as cubra de poeira - mas apenas se tivermos coragem de encará-las de frente.

Black Mirror talvez nunca tenha soado tão profundamebte humano.

TEXTO DE:

quarta-feira, 2 de abril de 2025

Val Kilmer


Eu me lembro de assistir "The Doors" deitado no chão do DCE da UERJ numa sexta-feira. Éramos umas 100 pessoas.

Todos ficamos hipnotizados com a atuação de Val Kilmer porque ela foi perfeita.

As pessoas se assustaram porque ele realmente tinha virado Jim Morrison. O próprio Val teve problemas psicológicos por causa disso.

Enfim, desde "Top Gun" ele era um ícone dos adolescentes - as garotas suspiravam fundo e agora me vem uma melancólica e insuperável saudade daquele fim dos anos 1980, onde eu era um garoto à procura do mundo mas tinha grandes companheiros, pais para me apoiar, momentos felizes em reuniões simples e tanta coisa que não cabe aqui. Tudo passa.

Val Kilmer está morto.

Ele deixou marcas em muita gente. Aquele tempo deixou muitas marcas. Interpretando um dos grandes poetas da história, ninguém foi tão profundo, visceral e humano como ele quando incorporou Morrison.

Teve uma vida gloriosa, ficou doente, sofreu, se recuperou e teve tempo de ser Iceman novamente em idade madura.

Foi um grande ator. Eu queria voltar para o chão acolhedor do DCE mas é impossível. Como disse outro poeta fantástico daquele tempo, Cazuza, o tempo não pára.

Onde estão meus companheiros? As garotas? Onde tudo foi parar?

TEXTO DE:
@p.r.andel


The Last Dance Val Kilmer: Top Gun Maverick

Assim como na ficção, Val Kilmer fez a sua última dança na vida real.

Uma única cena junto com Maverick  (Tom Cruise), mas que contextualizou muito o que muitos achavam que os personagens eram “inimigos” e simplesmente era o contrário.

The Iceman; o militar comportado e exemplar, chegou ao posto de almirante com louvor e comandante das frotas do Pacífico, enquanto Maverick com sua postura transgressora ainda era capitão de mar e guerra, o equivalente a coronel. 

The Iceman por ter sempre patente acima e por gostar de Maverick, sempre limpava as sujeiras dele para debaixo do tapete.

Até surgir a última missão, na qual a Marinha já estava prestes a aposentar Maverick por mais um ato de transgressão, é convocado por The Iceman para ensinar e comandar uma missão quase impossível num país inimigo.

Maverick se vê entre dúvidas e devaneios onde justamente surge a última cena de Val Kilmer nos cinemas, um primor para quem é fã da saga Top Gun como eu.

TEXTO DE:
Thiago Muniz

terça-feira, 11 de março de 2025

A morte solitária de Gene Hackman

O que morre primeiro? O homem ou o mundo ao redor?

Gene Hackman morreu antes de seu coração parar de bater.

Teve fome. Teve sede.

E ninguém veio.

E então Gene Hackman, o grande Gene Hackman, morreu. Não de doença, não de fome. Morreu de esquecimento. Qual a verdadeira morte? A do último suspiro ou a do instante em que ninguém percebe a sua falta?

Gene Hackman morreu sozinho. Um dia, todos nós estaremos solitários no momento do encontro com o nosso destino final. É inevitável. Mas para Gene a morte chegou de um jeito mais lento, mais esquecido e doloroso. Ninguém bateu à porta. Nenhum amigo ligou. Nenhum familiar estranhou a ausência.

Betsy, sua esposa, morreu primeiro. Hantavírus. Uma doença rara, transmitida pelo pó das fezes de roedores. Pouco antes ela foi à farmácia e levou o cãozinho ao veterinário. Não sabia que aquelas eram suas horas finais, que seria abatida por algo mortal carregado pela poeira invisível, das coisas que existem e não se veem. Um dia ela estava ali, no outro não. Talvez tenha passado a manhã dobrando roupas. Talvez tenha planejado o jantar. E então veio a febre, o cansaço, o nada. De repente, o fim. Fulminante, sem aviso, sem tempo para despedidas e providências.

Gene ficou sozinho, sem entender. Por sete longos dias, perambulou pela casa sem saber o que fazer, sem lembrar como agir. Aos 95 anos, o Alzheimer já havia apagado parte de sua memória e a capacidade de pedir ajuda. Talvez tenha, no fundo da mente, sentido o vazio. Talvez tenha chamado por Betsy. Mas isso não se soube ou saberá, porque ninguém estava lá.

Ninguém veio.

O que acontece quando um homem se torna invisível?

Gene Hackman foi um dos maiores atores de Hollywood. Um ícone. O rosto duro, a voz grave, o talento bruto. Interpretou presidentes, assassinos, heróis. Foi duas vezes vencedor do Oscar, amado pelo público, respeitado pelos colegas. No auge da carreira, era forte, imbatível, voz que não tremia. Mas o que isso significa quando se tem 95 anos e se está sozinho e desamparado em casa? Quando a memória se apagou, o corpo está fragilizado e os amados ausentes?

A fama é um engano que o tempo desfaz.

O que resta quando o telefone para de tocar? Quando as pessoas presumem que você não quer ser incomodado? Quando a casa grande e confortável se torna um território de esquecimento?

De que vale um nome célebre quando se está idoso, doente e só?

A solidão não chega de repente. Ela começa no dia em que ninguém mais pergunta como você está. No dia em que as pessoas supoem que você já tem tudo, que está bem. O esquecimento vem devagar. Constrói-se aos poucos, como uma casa onde ninguém entra.

Gene – que não se dava ares de celebridade – buscou se distanciar de Hollywood. Escolheu o isolamento, apostou que a esposa, trinta anos mais jovem, o assistiria até o final. Acreditou que não precisava de um cuidador, enfermeiro ou outros empregados. Porém, o que durante muito tempo foi bênção, converteu-se em armadilha. A casa grande ficou menor. O silêncio ficou maior. A porta ficou fechada.

Ninguém bateu.

E o homem um dia visto por milhões, partiu sem que ninguém olhasse.

A solidão dos que vivem muito por vezes me assusta. A velhice é um país estrangeiro e inóspito. Ninguém quer visitá-lo sem garantias e medidas de segurança, mas poucos são os que ousam pensar no que acontecerá quando os dias se tornarem longos demais e as noites silenciosas em excesso. Raros são os que tomam decisões conscientes para que a vida não se dissolva quando não houver mais reuniões de trabalho, estreias, jantares com amigos, idas ao cinema.

Recolho em mim cada lição dessa tragédia: morrer é um caminho sem testemunhas; a fama, uma ilusão que se desmancha na poeira; o sucesso, um eco que não se sustenta; e escolhas para a velhice devem considerar vários cenários, pois a vida é mutável e imprevisível. Ela nos surpreende em uma esquina qualquer, com a sua maleta transbordante de espantos.

No fim, somos casas sem luz se não há quem bata à porta.


TEXTO DE:

Sonia Zaghetto

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

Fernanda Torres ganha o Globo de Ouro de Melhor Atriz em Filme de Drama

Fernanda Torres, atriz brasileira de 59 anos, fez história no Globo de Ouro, ao vencer atrizes como Angelina Jolie, Nicole Kidman e Kate Winslet.

A atriz que deu vida a Eunice Paiva em "Ainda Estou Aqui" se tornou a primeira brasileira a conquistar o prêmio de Melhor Atriz em Filme de Drama.

Coma vitória, a brasileira aumenta suas chances de competir na categoria de Melhor Atriz no Oscar 2025.

Mesmo que não seja indicada ao Oscar, Fernanda Torres com o prêmio do Globo de Ouro, honra o cinema nacional, que sempre foi tratado pelo próprio público brasileiro com secundário.

Não podemos nos esquecer que Fernanda Torres é filha de Fernanda Montenegro que estava no filme Central do Brasil que venceu o prêmio de Melhor Filme de Língua Estrangeira em 1999.

"Quero dedicar esse prêmio à minha mãe. Vocês nao têm ideia... Ela estava aqui há 25 anos. Isso é uma prova de que a arte pode permanecer na vida das pessoas, mesmo em momentos difíceis, como os que Eunice Paiva viveu."
Disse Fernanda ao receber o prêmio.

sábado, 4 de janeiro de 2025

Ainda Estou Aqui

Assisti ao filme e como toda obra cinematográfica não é possível contar uma história na íntegra, mesmo que se divida em partes, sempre haverá uma decupação no tratamento do roteiro, definir prioridades e critérios que sejam mais interessantes no ponto de vista artístico e mercadológico.

E por isso quando esta obra é baseada num livro o ideal é você ler para se ter uma ideia ampla da história, muita mais rica em detalhes.

Ainda estou aqui” é escrito por um filho que perdeu o seu pai precocemente em plena ditadura militar, num período deste regime autoritário extremamente violento, opressor e cerceador; este mesmo filho conta a história de sua mãe, que mesmo depois de presa foi obrigada a ser arrimo de família sem um destino definido de seu marido, foi estudar Direito e batalhar pelos direitos dos povos originários.

Ainda estou aqui” é uma pequena amostra de quantas famílias foram destroçadas por uma ditadura. Onde há ditadura não há voz, mas pode existir coragem e esperança, e essa viúva teve essas virtudes do dia em que seu marido saiu de casa para nunca mais voltar até o último dia de sua vida, lutando contra o mal de Alzheimer.

Ainda Estou Aqui” é um filme que além de ser assistido, deve ser sentido. Busque se desligar e somente SENTIR!

A cinematografia no geral, é muito assertiva. Adorei os momentos em que a direção aposta em planos sequenciais, que me deixaram ainda mais dentro da obra.

A escolha da fotografia, que identifico como “dramático frio”, é bastante condizente com o tom do filme. E foi lindo ver tantas coisas assertivas, que sobrepõe qualquer coisa em uma obra audiovisual.

E o melhor? Saber que isso vem de uma obra nacional, é revigorante.


TEXTO DE:

Thiago Muniz



terça-feira, 19 de novembro de 2024

Eunice Paiva


A tática do desaparecimento é a mais cruel, eles somem com uma pessoa e trazem sofrimento sem fim para todos que a amam.” ( ( Eunice Paiva )

Quem conhece um pouco da família de Rubens Paiva, seus dramas e nuances vividas, constata que Eunice Paiva foi uma mulher de fibra, principalmente na era das trevas da ditadura militar.

O drama passado por essa família é uma breve amostra do que milhares de famílias sofreram durante o regime militar.

Eunice era casada com o ex-deputado e engenheiro Rubens Paiva; tinham 5 filhos e viviam uma vida feliz, mesmo com as adversidades que o país impunha naquele momento. Após o desaparecimento de seu marido, não se deixou marcar pelo drama, afinal viu que a vida deveria seguir, mesmo com a falta de respostas.

Depois de viúva, formou-se em direito e continuou o trabalho como ativista. Maria Lucrécia Eunice Facciolla Paiva se formou aos 48 anos e se tornou ativista da causa indígena. Foi uma das fundadoras do Iama ( Instituto de Antropologia e Meio Ambiente ) e atuou na ONG de 1987 até 2001. Tornou-se uma das principais vozes pela promulgação da Lei 9.140/95. A lei reconhece como mortas as pessoas desaparecidas em razão de participação em atividades políticas durante a ditadura militar.

Eunice só conseguiu o atestado de óbito de Rubens Paiva em 1996. Após 25 anos de luta, ela conseguiu que o Estado brasileiro emitisse o documento. A primeira prova objetiva de seu assassinato só foi encontrada 41 anos depois de seu desaparecimento, em novembro de 2012, com uma ficha que confirmava sua entrada em uma unidade do DOI-Codi. A essa altura, Eunice já era uma advogada prestigiada, advogava em prol das causas indígenas e tinha criado os 5 filhos sem apoio do Estado. Apesar de imensos esforços e da comissão da verdade, ninguém foi preso até hoje pelo assassinato de Rubens Paiva. Eunice morreu em 2018 após lutar 15 anos contra o Alzheimer.
TEXTO DE:
Thiago Muniz

quarta-feira, 13 de novembro de 2024

Ainda Estou Aqui

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer…
(Geraldo Vandré)

"Ainda Estou Aqui" pode ser em qualquer lugar. Tempo. E ditadura. Ainda mais as covardes que não assumem crimes contra a humanidade.

A obra de Walter Salles, baseada no livro e na vida de Marcelo Rubens Paiva e família, não é sobre política. A minha esquerda, a sua direita. Não é sobre o Rio, São Paulo, Brasil, anos 1970, ainda que tão gostosamente resgatados. É sobre uma família que num dia foi dormir sem o pai que não pegava em armas. Mas foi pego por ajudar quem delirava mudar um país onde também faltava humanidade. Respeito. E não apenas de um lado.

O filme toma partido, é claro e compreensível. Mas ele não empunha bandeira e ideologia. Apenas se enrola em algumas e nos encanta e acolhe como pavilhão como se o pai desaparecido fosse o meu. O seu.

O filme tem algumas coisas que um sujeito chato e detalhista nota. Devem ter mais alguns "aindas" anacrônicos. Normais.

Mas o que mais importa é que o pai deles e marido dela "ainda" está aqui. E eu também me senti ali ao lado deles. Tanto faz se à esquerda ou à direita. Mas sempre ao lado de quem é família.

Uma história que a gente podia ouvir à noite narrada pela voz de Cid Moreira ou José Wilker. Como a voz do Brasil tão familiar como as Fernandas. Mãe e filha de atuações espetaculares. E a matriarca, sem dizer uma palavra em cena, dizendo tudo pelo olhar. Podem até dizer que com a memória perdida. Prefiro falar com a memória pétrea e perpétua.

Como um longo filme das nossas vidas. Como se a humanidade tivesse mesmo desaparecido num longo e eterno dia carioca. Sem recado, mensagem, respeito, empatia. O filme merece o reconhecimento que vem recebendo, tanto por parte da crítica especializada quanto do público, pela forma como retrata um importante capítulo da história brasileira, capturando com maestria a dor e a resiliência dos personagens envolvidos. É particularmente significativo que o público brasileiro possa testemunhar essa obra de grande relevância, que reflete de maneira sensível e autêntica a realidade do país.

Em um cenário onde produções nacionais frequentemente enfrentam dificuldades para conquistar o público, “Ainda Estou Aqui” se sobressai, despertando elogios nacionais e internacionais, tanto pela direção impecável de Salles quanto pelo roteiro e pelas atuações marcantes do elenco.

TEXTO DE:
Thiago Muniz

terça-feira, 28 de maio de 2024

Menino 23, Documentário sobre comunidade nazista no Brasil

Um professor de História, em uma escola no Rio de Janeiro, foi dar aula sobre nazismo. Ele mostrou para seus alunos a suástica e disse que aquele era o símbolo dos nazistas. Uma aluna levantou a mão e disse que já viu no sítio da sua família um tijolo com aquele mesmo símbolo. Isso despertou a curiosidade no professor, que procurou saber mais sobre o assunto. Aquele tijolo pertencia a uma construção demolida no sítio que era um casebre.

Sidney Aguilar (o professor) não sabia que em sua pesquisa iria descobrir uma história tão bizarra que iria se transformar no documentário chamado "Menino 23".

Esse sítio pertence a família Rocha Miranda, uma das famílias mais importantes da história do Rio de Janeiro de origem escravocrata. Em sua pesquisa, Sidney descobriu que a família Rocha Miranda tinha um integrante que era membro do partido nazista aqui no Brasil, que era o maior partido nazista fora da Alemanha e que outras pessoas da família eram ligados ao Partido Integralista Brasileiro, que era um "fascismo tupiniquim".

Parece bizarro?
Calma que fica ainda mais.

Em sua pesquisa, Sidney descobriu que a família Rocha Miranda adotou 50 crianças de um orfanato para escraviza-las e todas elas eram NEGRAS. No documentário, um homem conhecido como Seu Aloísio, que foi uma das vítimas, disse que as crianças não eram chamadas por nomes, mas sim por números e o seu era 23.

Os meninos só foram libertados do cárcere quando o governo Vargas rompeu de vez as relações com o Eixo. Daí, os nazistas, assim como o Partido Integralista, foram perseguidos e a família Rocha Miranda perdeu o status que tinha.

Hoje isso parece algo extremamente absurdo, mas para época não era. Segue uma frase de um Deputado Federal chamado Alfredo da Matta em discurso no ano de 1933: "A eugenia, senhor presidente, visa a aplicação de conhecimentos úteis e indispensáveis para reprodução e melhoria da raça."

No tempo que os garotos foram feitos de escravos, o Brasil vivia o ápice da política de superioridade racial e de "branqueamento", impulsionadas pelo darwinismo social. Isso não faz 200 ou 100 anos: isso faz apenas 89 anos. Como que em tão pouco tempo o nosso país deixou de racista? Aos que dizem que o Brasil não é um país racista: será mesmo?

Hoje, o nome da família Rocha Miranda carrega o nome de um importante bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro.

Segundo a pesquisadora Adriana Abreu Magalhães Dias, antropóloga da Unicamp, o Brasil tem mais de 300 células nazistas em funcionamento. Em suas pesquisas especializadas na ascensão da extrema direita, Adriana também identificou mais de 6.500 endereços eletrônicos de organizações nazistas somente em língua portuguesa e dezenas de milhares de neonazistas brasileiros em fóruns internacionais.

obs: esse documentário foi produzido pela produtora Giros Interativa LTDA com o grande apoio da ANCINE e está disponível no Youtube.

De Leandro Marin (História no Paint).