A lógica do comentário é irrefutável: cobrar lucro dos Correios é ignorar sua razão de ser.
Enquanto uma transportadora privada escolhe onde atuar com base na rentabilidade, a estatal é obrigada a chegar a todos os 5.570 municípios brasileiros.
Entregar uma carta em comunidade isolada da Amazônia, onde só se chega de barco ou avião, ou levar uma encomenda ao Oiapoque (AP) não é um negócio — é um serviço público.
"Nenhuma empresa privada faz isso", afirma o discurso dos próprios trabalhadores, que lembram como eram chamados de "carteiros do fim do mundo". A universalização do acesso tem um custo, e esse custo é o que chamam de "prejuízo".
Os números impressionam, mas precisam ser contextualizados. Em 2024, o rombo foi de R$ 2,6 bilhões no primeiro trimestre de 2026, já chegava a R$ 3,16 bilhões.
Porém, especialistas apontam que as causas vão além da gestão: mudanças contábeis rigorosas, congelamento de tarifas entre 2012 e 2014 e o recolhimento excessivo de dividendos pelo governo ajudaram a descapitalizar a empresa.
Entre 2007 e 2013, por exemplo, foram retirados cerca de R$ 6 bilhões em dividendos além do mínimo legal. Ou seja, o "prejuízo" reflete tanto o peso da função social quanto decisões políticas que priorizaram o caixa da União em detrimento do equilíbrio da estatal.
Comparar os Correios com uma empresa privada, portanto, é um erro de categoria.
Uma concessionária de logística jamais aceitaria operar com margens negativas em regiões remotas.
Os Correios, por outro lado, são a única representação concreta do Estado em milhares de localidades.
Seu "lucro" não está no balanço financeiro, mas no direito constitucional de todo cidadão, de Benjamin Constant ao Chuí, de enviar e receber sua correspondência. O debate não pode se resumir a planilhas: é sobre que tipo de país queremos construir.
______________________________________________
O argumento que muitos usam de que empresas como Amazon ou Mercado Livre entregam suas mercadorias e cobram o mesmo preço ou mais barato, esbarra no detalhe de que eles não são obrigados a entregar cartas em regiões isoladas.
Se os Correios forem "privatizados", a obrigação destas entregas será por Lei, transferida as empresas que "comprarem" o serviço.
Isso influenciaria diretamente nos preços do serviço.
Afinal, se apenas o licro importa, que empresa privada entregaria uma carta em Quiprocó do Mato Dentro para ter o mesmo "prejuízo" que os Correios?
Para questão de mera comparação: transporte público, luz e água, são serviços públicos geralmente operados por empresas privadas através de contratos de concessão. A pergunta é:
Você está satisfeito com os preços e a qualidade destes serviços?
O tal "lucro" está indo para onde e para quem?
E antes de responder, lembre-se você está pagando impostos do mesmo jeito, estabdo esses serviços nas mãos do Estado ou da iniciativa privada.
Dando lucro, ou não.

Nenhum comentário:
Postar um comentário