Cláudio Rafael Landeiro Moreira saiu de casa, em Botafogo, para pedalar e voltou em um caixão.
O homem de 37 anos, que tinha transtornos mentais, foi abordado em Copacabana e não conseguiu explicar que a bicicleta pertencia a uma irmã.
Um vigilante confundiu sua dificuldade de expressão com confissão, deu-lhe um soco e o tratou como ladrão. Depois, um grupo de entregadores teria levado Cláudio para outra rua, onde foi linchado. Ele morreu no dia seguinte com traumatismo craniano, hemorragia interna e lesões no abdômen.
Justiçamento é típico de uma sociedade miliciana, na qual o devido processo legal (que inclui investigação, indiciamento, denúncia, processo, condenação e execução de pena) é deixado de lado em nome da possibilidade de cada um resolver, da forma como melhor entender, os seus problemas.
É a lei do mais forte.
Foi essa lógica que moveu a turba golpista de 8 de janeiro de 2023, em Brasília, e apareceu na operação policial na Penha e no Alemão, que deixou 118 civis e quatro agentes mortos, no Rio.
Milícia não é apenas o grupo armado que controla territórios. É também um método que privatiza a violência: alguém aponta um suspeito, suspende seus direitos e aplica a pena que quiser.
A presunção de inocência vira frescura, e a Justiça chega apenas para recolher o cadáver.
Entende-se uma sociedade cansada de crime e com pouca fé no Estado. Mas o medo do crime não concede licença para matar.
Se entregadores participaram do linchamento, os responsáveis devem ser identificados e punidos individualmente, sem condenar toda a categoria — repetindo o mecanismo que matou Cláudio.
Copacabana é um dos principais cartões-postais do Brasil. Mas, naquela noite, tornou-se o retrato de um país que está autorizando a pena de morte para qualquer grupo disposto a aplicá-la na calçada.
Quando alguém se torna culpado de cometer um crime simplesmente porque foi morto por uma turba, não precisamos mais temer os milicianos. Eles já somos nós.
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Meu Deus 😢
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