sábado, 23 de maio de 2026

Moro exposto à luz mesmo sob a sombra

A Operação Lava Jato começou como investigação de lavagem de dinheiro num posto de gasolina em Curitiba e terminou quebrando empresas e colocando a economia brasileira num beco sem saída.

No centro do processo estava um juiz federal de primeira instância, sem mandato popular nem cargo executivo, com jurisdição sobre contratos da Petrobras e com talento para tramoias, coações e descumprimento do devido processo legal.

A corrupção que investigava precedia Moro por décadas. O que ele construiu foi o modo de apresentá-la e de usá-la em proveito próprio.

O jogo jogado com o MP, as conduções coercitivas filmadas pela Polícia Federal, conversas telefônicas vazadas às redações na véspera de decisões críticas — o calendário de prisões tinha uma sensibilidade e seletivismo para momentos eleitorais que nenhum critério processual explicava. Era uma narrativa, com protagonista definido e roteiro chapado.

A prisão de Luiz Inácio Lula da Silva, em abril de 2018, foi o capítulo que organizou retrospectivamente todos os anteriores. Condenado em segunda instância por um colegiado que Moro havia preparado, Lula foi para Curitiba com o campo eleitoral ainda aberto e saiu de lá inelegível.

O que se seguiu dispensava comentário. Sem o candidato que liderava todas as pesquisas, a eleição de outubro produziu Jair Bolsonaro.

O voto, para Moro, era desnecessário. Ele havia preparado o terreno, e o convite viria.

O convite veio em novembro, quando o presidente eleito anunciou o nome do juiz para o Ministério da Justiça.

Moro aceitou. A sequência era tão direta que qualquer leitura sofisticada seria um excesso e tautologia.

O magistrado que havia condenado o principal adversário eleitoral do presidente eleito tornava-se ministro de Bolsonaro. A toga foi pendurada, e com ela a ficção de que tudo havia sido apenas direito penal aplicado com rigor.

A saída do ministério, em abril de 2020, chegou acompanhada de uma acusação grave e específica: interferência política na Polícia Federal e uso do aparato de segurança para fins pessoais. Moro apresentou a ruptura como ato de consciência. O clássico: rato pulando do barco.

O problema é que as acusações, se verdadeiras, descreviam um governo que ele havia ingressado de olhos abertos. A candidatura presidencial própria não decolou. Migrou para o Senado pelo Paraná e foi reabsorvido, sem cerimônia, pelo campo que nunca havia de fato deixado. Atua como ajudante de ordens do bolsonarismo. O resultado foram oito anos de senador medíocre e, como sempre, inescrupuloso.

Hoje compõe o palanque de Flávio Bolsonaro, o herdeiro medíocre de um pai golpista, candidato que não existiria sem os destroços que Moro ajudou a produzir. A toga foi desacreditada pelo Supremo Tribunal Federal. As condenações foram anuladas. Lula voltou ao Planalto e briga cotidianamente com essa lógica destruidora e suas próprias contradições.

Moro sobreviveu assim, uma paródia de si mesmo, maltratando a língua portuguesa e colecionando situações constrangedoras, enfileirado atrás do filho do golpista que ajudou a fabricar, num país que ainda paga a conta.

TEXTO DE:

Ricardo Queiroz Pinheiro

Voz do que Clama no Deserto, não se cale

Quero expressar minha profunda solidariedade ao nosso querido Dom Limacêdo Antônio da Silva, bispo da Diocese de Afogados da Ingazeira, no Sertão de Pernambuco, que vem sofrendo ataques e ameaças por defender aquilo que é justo e profundamente evangélico: a dignidade do trabalhador e o direito do povo ao descanso, à convivência familiar e à vida humana acima do lucro.

Dom Limacêdo nos recorda, com coragem profética, que “a Palavra de Deus vem combater as injustiças” e que a Igreja não pode se omitir diante do sofrimento do povo.

O verdadeiro profeta não é aquele que se cala para agradar os poderosos, mas aquele que ergue sua voz em defesa dos pobres, dos cansados e dos explorados.

Foi assim com os profetas bíblicos. Foi assim com Jesus Cristo.

Em uma sociedade marcada pela exploração do trabalho, pela exaustão física e mental e pela retirada de direitos, defender a redução da jornada de trabalho e lutar pelo fim da escala 6x1 não é ideologia: é compromisso com a dignidade humana.

É defender que trabalhadores tenham mais tempo para suas famílias, para o descanso, para a saúde, para a oração e para a própria vida.

Jesus nunca esteve ao lado dos que exploravam o povo. O Evangelho não combina com jornadas desumanas, com trabalhadores adoecidos e com a naturalização da exploração.

Quando a Igreja se coloca ao lado do povo sofredor, ela está sendo fiel à missão de Cristo. Por isso, Dom Limacêdo nos representa.

Sua voz ecoa o clamor de milhares de trabalhadores e trabalhadoras que vivem sufocados por um sistema que valoriza mais o lucro do que a vida humana.

Que sua coragem profética continue inspirando todos aqueles que acreditam numa sociedade mais justa, fraterna e verdadeiramente cristã.

Toda nossa solidariedade e oração a Dom Limacêdo Antônio da Silva. Que Deus o fortaleça na missão profética de anunciar a justiça e denunciar tudo aquilo que fere a dignidade do povo.

TEXTO DE:
Roni Hernandes

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Deolane é tão perigosa quanto tentam pintar?

A régua da Justiça brasileira parece feita de borracha: estica para alguns, encolhe para outros. E é impossível ignorar como a família Bolsonaro, cercada há anos por investigações graves, mantém um tratamento institucional muito diferente daquele dispensado à influenciadora e advogada Deolane Bezerra.

Quando Deolane foi alvo de operações policiais, vimos espetáculo. Helicópteros, cobertura em tempo real, vazamentos seletivos, programas policiais transformando investigação em entretenimento. Antes mesmo de qualquer condenação definitiva, parte da imprensa já a tratava como culpada consumada. O tribunal das redes e o tribunal midiático funcionaram em velocidade máxima.

Agora compare com o tratamento dado à família de Jair Bolsonaro.

São joias sauditas, cartões de vacinação, tentativa de golpe, minuta antidemocrática, interferência na Polícia Federal, rachadinhas, ligações com personagens obscuros do submundo político do Rio de Janeiro, e ainda assim uma parcela significativa da imprensa e das instituições continua tratando tudo com uma cautela quase aristocrática. Não raro, os envolvidos aparecem mais como “personagens de crise política” do que como suspeitos comuns.

E dentro desse cenário surge outra questão inevitável: as relações políticas e financeiras do senador Flávio Bolsonaro com o banqueiro Daniel Vorcaro geraram muito menos indignação pública do que as acusações lançadas contra Deolane.

A pergunta que muita gente faz é simples: por quê? Afinal, quando figuras centrais da República mantêm proximidade com personagens envolvidos em controvérsias financeiras e investigativas, não seria isso politicamente mais grave do que os escândalos atribuídos ao universo das celebridades digitais?

O contraste chama atenção porque o impacto institucional é completamente diferente. Uma influenciadora pode movimentar manchetes e alimentar programas policiais; já um senador da República, filho de um ex-presidente, possui influência direta sobre estruturas de poder, decisões nacionais e articulações políticas. Ainda assim, a cobertura frequentemente parece menos agressiva, menos espetaculosa e menos moralista.

A pergunta inevitável é: por que a mão pesada do Estado parece encontrar tanta coragem diante de figuras sem capital político institucional, mas se torna hesitante diante de sobrenomes poderosos?

No Brasil, o problema nunca foi apenas corrupção ou ilegalidade. O problema central é quem pode ser humilhado publicamente e quem recebe o privilégio da liturgia do cargo, da presunção social de inocência e dos intermináveis recursos políticos e jurídicos.

A diferença de tratamento revela algo profundamente brasileiro: a seletividade penal. A Justiça brasileira frequentemente não opera apenas baseada nos fatos; opera baseada em classe, influência, utilidade política e capacidade de mobilizar poder. Uns são transformados em exemplo. Outros, em exceção.

E há um agravante perverso: a imprensa. Parte dela age como força auxiliar do sistema punitivo quando o alvo é conveniente. Em certos casos, celebra operações como reality show moral. Em outros, adota tom solene, quase acadêmico, preocupado em “não precipitar conclusões”. Curiosamente, essa preocupação costuma aparecer quando o investigado possui aliados poderosos, influência econômica ou relevância eleitoral.

Isso não significa defender impunidade para Deolane ou para qualquer celebridade. A questão é outra: se a lei deve valer para todos, então que valha para todos com o mesmo rigor, a mesma velocidade e a mesma exposição. O Estado democrático não pode funcionar como instrumento de intimidação para uns e almofada institucional para outros.

A sensação popular de injustiça nasce justamente daí. O cidadão comum observa que há operações cinematográficas para determinados alvos, enquanto figuras centrais da política nacional parecem atravessar escândalos sucessivos protegidas por um labirinto de privilégios formais e informais.

No fim, talvez o maior escândalo nem seja apenas o que investigam contra a família Bolsonaro ou contra Deolane. O maior escândalo é a desigualdade do tratamento. Porque quando a Justiça perde a aparência de imparcialidade, ela deixa de parecer Justiça e começa a parecer apenas disputa de poder usando toga, microfone e distintivo.



quarta-feira, 20 de maio de 2026

Tristirinhas do Thiago Muniz edição Pré-Copa do Mundo 2026

1) Duas dúzias de torcedores na praça Mauá gritando pelo nome do Neymar. Isso não é clamor popular, isso é tráfego pago em tempo real pra alimentar mídia digital. Clamor popular foi em 1994 pra convocar o Romário no último jogo das Eliminatórias; o Parreira sabe bem o que foi pressão popular. Assistir um monte de pseudo-jornalistas e influencers-torcedores gritando pelo Neymar dentro do Museu do Amanhã foi uma cena deprimente.

2) O Paulo Vinicius Coelho fez uma pergunta que deixou o Ancelottide joelhos” sobre a não convocação de João Pedro e a convocação de Neymar, mas o italiano é raposa velha soube dar uma resposta sem perder a postura.

3) O pão e circo da CBF só entreteu aos bobos da corte; traduzindo: celebridades, influenciadores e pseudo-jornalistas, talvez alguns deles dentro da folha de pagamento da confederação.

4) Com a renovação de contrato para o ciclo 2030 fechado, muito provável que Ancelotti tenha cedido a convocar o Neymar. Quem pressionou? Não posso apontar ninguém sem provas, mas o italiano cedeu a pressão, com certeza. E teve que sacrificar alguém, e esse alguém foi o João Pedro, isso é um fato. João Pedro por sinal na semana anterior fez um golaço de bicicleta na Premier League, o Neymar mostrou o comprovante de substituição na frente da câmera. Prioridades!

5) João Pedro, que declarou publicamente que gostaria de ver o Neymar na seleção. Pois bem; vai assistir na TV. Cuidado com aquilo que desejas.

6) Gostei das convocações do Danilo, Endrick, Igor Thiago, Rayan e Luiz Henrique. São jogadores que tem fome e sangue nos olhos; não sentem a pressão, tem o espírito de jogador brasileiro ainda correndo em suas vêias. Prestemos atenção neles.

7) Já que o Neymar dará “pano pra manga”; torço para que ele não exija titularidade; mas acho que isso será muito difícil de acontecer.

8) O meu palpite hoje será de no máximo chegar nas quartas de final, com muito esforço podendo chegar a semifinal. Hoje tem seleções em nível superior ao Brasil: França, Portugal e Espanha; com Argentina, Holanda e Inglaterra um degrau acima. O Brasil vai ter que se encontrar durante a competição e mostrar o peso da camisa.

9) E vagabundo tá lá…

10) Vai Brasil! 🇧🇷

🇧🇷 4 x 1 🇮🇹 (México 1970)

O quarto gol marcado contra a forte seleção da Itália na Copa 1970, no México, foi o gol que consagrou a seleção brasileira.

Na final o Brasil já dominava e vencia por 3x1 quando protagonizou uma obra-prima coletiva: toques de primeira, inteligência tática, harmonia em movimento… até Pelé deixar a bola rolando suavemente para Carlos Alberto Torres chegar batendo com perfeição. A Seleção de 70 não foi só campeã — foi poesia em forma de futebol. Cada jogada era arte. Cada passe, história.

Naquela época, não era comum como é hoje, de um lateral subir ao ataque para tentar marcar um gol. Os homens daquela posição se limitavam a marcar na defesa e se alguém ousasse subir até o tento adversário, a bronca do técnico era mais que certa.

Mas Carlos Alberto Torres não respeitava muito essas limitações, em toda sua história, ele sempre dizia que os técnicos ficavam loucos quando ele subia ao ataque. Essa era uma de suas características, ele sempre contava isso quando falava com a imprensa sobre um dos gols mais belos da história das Copas do Mundo.

TEXTOS DE:
Thiago Muniz

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Neymar é um tapa na cara dos brasileiros

Em um país que transformou a meritocracia em religião de mercado, embora a realidade social desminta diariamente esse sermão neoliberal, a convocação de Neymar para a Copa do Mundo surge como uma espécie de parábola cruel do Brasil contemporâneo: aqui, o discurso do mérito vale apenas para o pobre anônimo.

Para os ídolos milionários, para os protegidos do espetáculo, para os ativos comerciais da indústria do futebol, sempre haverá uma exceção conveniente.

O cidadão comum ouve desde cedo que precisa “merecer” cada espaço. Dizem-lhe que fracasso é culpa individual, que ascensão depende apenas de esforço, disciplina e performance.

Mas basta olhar para a Seleção Brasileira para perceber que o país nunca acreditou verdadeiramente nisso.

Neymar, há anos mais relevante como celebridade digital do que como atleta decisivo em alto nível, segue tratado como patrimônio intocável da pátria.

Pouco importa sequência física irregular, pouco importa o futebol intermitente, pouco importa o histórico recente de lesões e ausência competitiva. O marketing pede sua presença. E, no Brasil do espetáculo, o marketing costuma derrotar o mérito.

Não se trata aqui de negar a importância histórica do jogador. Neymar foi um dos maiores talentos de sua geração. O problema é justamente outro: a imprensa esportiva brasileira se recusa a tratar o tema no tempo verbal correto.

Falam dele como se ainda estivéssemos em 2015. Como se bastasse pronunciar seu nome para que o campo se iluminasse automaticamente. Há uma infantilização permanente da cobertura esportiva nacional, incapaz de separar memória afetiva de análise objetiva.

E então começa o ritual da encenação coletiva.

Programas esportivos transformam a convocação em clima de réveillon patriótico.

Ex-jogadores agem como relações públicas emocionados. Narradores vendem esperança em tom messiânico. Repórteres sorriem diante das câmeras como quem anuncia a volta de um salvador nacional. A crítica desaparece. A análise tática desaparece. O debate físico desaparece. Some até mesmo o mínimo constrangimento profissional.

Em vez de perguntar se Neymar ainda entrega, discutem apenas como será “bonito” vê-lo novamente de amarelo.

Em vez de avaliar rendimento, intensidade, capacidade competitiva ou encaixe coletivo, preferem transformar o telejornal esportivo em peça publicitária emocional.

O telespectador não recebe informação; recebe torcida organizada travestida de jornalismo.

A imprensa esportiva brasileira, em muitos momentos, abandonou a função crítica para atuar como departamento de promoção do entretenimento futebolístico.

E talvez esteja aí o ponto mais vergonhoso de toda essa história. Porque não é apenas sobre Neymar. É sobre um sistema inteiro que protege celebridades enquanto exige brutal competitividade dos demais.

Quando um jovem jogador oscila durante três partidas, é massacrado em rede nacional. Quando um atleta menos midiático perde rendimento, logo surgem discursos sobre renovação, meritocracia e “fim de ciclo”. Mas Neymar habita outra categoria: a dos intocáveis do mercado. Sua convocação deixa de ser questão esportiva e passa a ser questão econômica, televisiva e simbólica.

O futebol brasileiro, que já produziu debates profundos sobre tática, formação e identidade de jogo, hoje frequentemente se rende à lógica rasa do engajamento. O que importa não é quem está melhor; importa quem gera clique, audiência, patrocinador e nostalgia.

E assim o país segue encenando sua grande mentira nacional: a de que acredita no mérito.

Não acredita. Nunca acreditou.

A meritocracia brasileira funciona como instrumento moral para disciplinar pobres, jamais como princípio real para distribuir oportunidades. No topo da pirâmide, o sobrenome, a fama, o capital simbólico e o interesse comercial continuam pesando mais do que desempenho concreto.

Neymar foi convocado apenas pelo que representa fora de campo e não pelo que entrega dentro dele, será mais um capítulo dessa velha tragédia brasileira: um país que exige excelência dos invisíveis enquanto transforma privilégios em espetáculo patriótico para consumo popular.

Seleção Brasileira Copa 2026

O Brasil vacila entre o pessimismo mais obtuso e a esperança mais frenética.

Nas esquinas, nos botecos, por toda parte, há quem esbraveje: “O Brasil não vai nem se classificar!”.

E no ciclo para 2026 eu pessoalmente tive o receio que o Brasil não se classificasse para a Copa; mas ao mesmo tempo eu analisava as circunstâncias e via que isso seria muito difícil, afinal serão 48 seleções, as vagas correspondentes na América do Sul tornam potências como Brasil, Argentina e Uruguai favoritas sempre numa das vagas.

Convocação feita por Carlo Ancelotti, um dos maiores técnicos do cenário mundial. Acho que o maior acerto da CBF foi na renovação de contrato com Ancelotti, mostra a confiança plena em seu trabalho e tira um certo peso na obrigatoriedade em conquistar a taça, e isso pode facilitar em muito o trabalho de ciclo de quatro anos para 2030.

Óbvio que a torcida será já para 2026, mas devemos saber que o ciclo 2022-2026 foi uma catástrofe na falta de planejamento, o Ancelotti chegou não tem nem 1 ano e não teve tempo suficiente para montar por completo o seu grupo de confiança.

Gostaríamos talvez de acreditar na seleção. Mas o que nos trava é o seguinte: — o pânico de uma nova e irremediável desilusão. E guardamos, para nós mesmos, qualquer esperança.

TEXTO DE:
Thiago Muniz

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Dark Horse, o cavalo de Troia do jornalismo brasileiro

A velha imprensa brasileira adora um tribunal, desde que ela escolha o réu, o promotor e o momento do vazamento.

Quando o alvo era Luiz Inácio Lula da Silva, houve reportagem performática, “powerpoint” messiânico (outra vez), trilha sonora de indignação moral e um telejornalismo que parecia disputar prêmio de dramaturgia.

Lembram do vergonhoso espetáculo do procurador Deltan Dallagnol transformando suspeitas em convicções televisivas? Lula virou o “comandante máximo” de tudo, mesmo quando as provas eram menos sólidas do que a retórica inflamada dos procuradores.

A Globo repetiu de maneira despudorada o mesmo tipo de ataque, só que sob o comando de Andreia Sadi. A jornalista tentando encontrar uma ligação entre Lula e Vorcaro, foi um show de bizarrice. O pedido de desculpas dias depois sobre a exibição de "material incompleto e errático", foi a cereja de um bolo podre, confeituado com canalhice.

Agora, o roteiro muda. E como muda.

A revelação de relações financeiras e políticas envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro expôs um curioso campeonato nacional de amnésia seletiva.

Entre entrevistas constrangidas, explicações burocráticas e análises cuidadosamente anestesiadas na GloboNews, instalou-se uma disputa de narrativas sobre “culpa”, “proximidade” e “responsabilidade”.

E aí surge Flávio Bolsonaro tentando posar de vítima de perseguição — logo ele, herdeiro político de um grupo que transformou associação indireta em sentença definitiva quando o alvo era adversário ideológico.

Ver Malu Gaspar acusar Flávio Bolsonaro de receber dinheiro de Vorcaro e ser lembrada por ele, de que a Globo através de Luciano Huck também recebeu grana do banqueiro, foi ao mesmo tempo constrangedor e cômico.

Duas caras de glúteo ao vivo, se encarando.

O mais fascinante é observar o desconforto da bancada jornalística diante do espelho. Porque, desta vez, o dinheiro não passou perto apenas de um campo político. O banqueiro circulou com desenvoltura entre ministros, parlamentares, figuras do Centrão, integrantes do mercado e personagens da República inteira.

Aparecem nomes ligados ao governo anterior, ao atual, ao Congresso e ao Judiciário em eventos, reuniões, negociações ou relações institucionais.

A elite brasileira sempre teve um talento extraordinário para transformar banqueiros em “visionários” até o minuto em que a fumaça começa a sair do cofre.

Mas há um detalhe inconveniente para os profissionais da indignação seletiva: entre todos os nomes arrastados para a arena das suspeitas e insinuações, justamente Luiz Inácio Lula da Silva é aquele sobre quem não apareceu recebimento de dinheiro de Vorcaro, direta ou indiretamente.

O que não impediu parte da imprensa e das redes de tentarem encaixá-lo no enredo a qualquer custo — afinal, certos setores do jornalismo brasileiro desenvolveram uma dependência química de associar Lula a qualquer escândalo disponível no mercado.

E então fica a pergunta inevitável: onde está o powerpoint?

Cadê a animação em 3D? Cadê as setas vermelhas? Cadê Andréia Sadi diante de um telão explicando que “no centro de tudo” existe uma “organização criminosa financeira interplanetária”? Onde estão os comentaristas convertendo ilações em certezas morais antes mesmo da investigação amadurecer?

Curiosamente, agora prevalece um tom mais sofisticado, mais cauteloso, quase acadêmico. Descobriram, de repente, o valor da prudência jornalística, da presunção de inocência e da necessidade de “contextualizar”.

Que avanço civilizatório extraordinário.

O problema é que o público tem memória. E memória é fatal para narrativas construídas na base do casuísmo.

Quando Lula era o alvo, relações indiretas bastavam para manchetes condenatórias. Quando figuras do bolsonarismo, do mercado financeiro ou da elite institucional aparecem no mesmo tabuleiro, surgem nuances, mediações, ponderações e longos debates semânticos sobre o que significa “receber”, “intermediar”, “aproximar”, “investir” ou “manter relação”.

No fundo, o episódio revela menos sobre Daniel Vorcaro e mais sobre o jornalismo brasileiro. Um jornalismo que frequentemente abandona o compromisso com a coerência para aderir ao conforto ideológico do momento. Porque a credibilidade não morre apenas quando a imprensa mente; ela também apodrece quando aplica pesos morais diferentes conforme o sobrenome do investigado.

E talvez seja justamente isso que mais incomode certos comentaristas na atual disputa narrativa: desta vez, o personagem que eles gostariam de colocar no centro do diagrama simplesmente não recebeu o dinheiro.

E os outros bolsonaristas passados para trás, que ansiavam pelo filme biográfico de Bolsonaro, o Dark Horse, por enquanto terão de se contantar com o Cavalo de Tróia que Flávio Bolsonaro deu para eles.

Parece ironia, mas até em Jesus (Jim Caviezel), a família Bolsonaro deu golpe...

A Falácia do 13 de maio de 1888

A data, marca apenas o fim jurídico da instituição da escravidão; na prática, a população negra continuou sob o jugo de uma sociedade excludente. A própria Lei nº 3.353/1888, que decretou o fim da escravização, não trouxe uma insígnia sequer acerca da reparação às pessoas que enfrentaram mais de três séculos de trabalho forçado e não remunerado.

Tirem do imaginário a benevolência colonial. Quem violenta, não ama.

Note o que dizia o texto legal:
Art. 1º: É declarada extinta desde a data desta lei a escravidão no Brasil.
Art. 2º: Revogam-se as disposições em contrário.

O Estado brasileiro tinha como objetivo varrer a população negra da sociedade. Não oferecer políticas públicas reparatórias era a forma mais rápida de fazê-la desaparecer: sem acesso à saúde, moradia, educação e trabalho, acreditava-se que essas pessoas recém-libertas morreriam à míngua, leia o “Genocídio do negro brasileiro” de Abdias Nascimento.

Não alcançando esse objetivo nos anos subsequentes, implantou-se a política de eugenia e branqueamento. A eugenia deu-se através de diversos mecanismos de animalização, alçando esses corpos à condição de “não humanos” e instrumentalizando o Judiciário para contê-los através do Código Penal e de leis como a da vadiagem.

Já o branqueamento operou por meio de políticas de imigração voltadas exclusivamente para corpos brancos europeus.

O 13 de maio foi fruto de uma conjuntura política e de uma pressão exercida durante séculos pela resistência negra: dos corpos que se lançavam ao mar aos quilombos; dos levantes e fugas constantes aos movimentos de industrialização de países como a Inglaterra, que desejava comercializar suas mercadorias com o Brasil.

Foi a luta de Luiz Gama, Luiza Mahin, Maria Felipa, Rebouças, Malês e tantos outros.

O 13 de maio de Isabel não teve nada de bondade; foi apenas mais um estratagema da branquitude a fim de evitar um motim e preservar a elite e seus bens. São 138 anos de uma abolição inconclusa. Como diz o samba da mangueira: “não veio do céu nem das mãos de Isabel…”.

TEXTO DE:
Thiago Muniz

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Xandão, herói da Lei não da nação

A chamada Lei da Dosimetria acaba de encontrar o seu primeiro obstáculo sério: Alexandre de Moraes suspendeu sua aplicação em pedidos de condenados do 8 de Janeiro até que o STF julgue as ações diretas de inconstitucionalidade contra a norma.

O caso concreto envolvia uma condenada que pediu revisão da pena com base na lei recém-promulgada. Moraes entendeu que a existência dessas ADIs é fato processual relevante e que a suspensão se impõe por segurança jurídica.

E aqui começa a gritaria de sempre.

Dirão que Moraesrasgou a lei”. Não rasgou.

Suspendeu a aplicação enquanto o Supremo decide se a lei passa ou não pelo filtro constitucional. Isso se chama controle de constitucionalidade. Existe antes de Bolsonaro descobrir o Pix, a cloroquina e o cercadinho.

Dirão que o Congresso é soberano. Também não. Congresso não é imperador de toga parlamentar. Lei aprovada pelo Legislativo pode ser questionada no STF, ainda mais quando nasce com cheiro de anistia disfarçada e endereço político anotado na testa.

Dirão que é perseguição aos patriotas. Patriotas que invadiram sedes dos Três Poderes, depredaram patrimônio público, pediram intervenção militar e agora querem desconto penal com nome técnico. A embalagem mudou, mas o conteúdo continua sendo o velho jeitinho golpista de pedir clemência sem perder a pose de mártir.

A lei foi promulgada por Davi Alcolumbre após a derrubada do veto de Lula e, segundo o próprio Senado, pode reduzir penas e facilitar progressão de regime para condenados pelos atos de 8 de janeiro. Ou seja, ninguém está inventando destinatário oculto: o destinatário saiu do armário legislativo acenando bandeira.

O bolsonarismo tentou transformar dosimetria em lavanderia: pegou condenação por ataque ao Estado Democrático de Direito, passou um sabão parlamentar, borrifou perfume de “pacificação” e achou que sairia tudo limpo.

Moraes apenas fechou a máquina antes da centrifugação.

Agora o STF decidirá se essa lei é instrumento legítimo de política criminal ou anistia envergonhada para quem tentou arrombar a democracia e depois descobriu, comovido, que Código Penal também serve para eles.

TEXTO DE:
Julio Benchimol Pinto

sábado, 9 de maio de 2026

Te dá Aaaaasas...

A Red Bull é uma marca que ultrapassou o conceito tradicional de bebida energética e se transformou em um fenômeno cultural, esportivo e de marketing global.

Criada com foco em performance e energia, a empresa construiu sua identidade associando o produto a limites extremos, superação, velocidade e desafio constante.

Diferente de marcas que apenas patrocinam eventos, a Red Bull passou a criar, controlar e desenvolver seus próprios ecossistemas esportivos e culturais.

No esporte, a presença da Red Bull é estratégica e profunda. A marca investe em modalidades de alto risco e alta intensidade, como automobilismo, esportes radicais, aviação, esportes urbanos e eSports.

No automobilismo, sua atuação redefiniu padrões ao formar equipes próprias, desenvolver talentos desde a base e dominar categorias de elite. O foco nunca foi apenas vencer, mas construir narrativas de ousadia, inovação e quebra de expectativas.

Do ponto de vista de marketing, a Red Bull revolucionou a forma de comunicar. Em vez de anúncios tradicionais, ela produz conteúdo, histórias e experiências. Eventos como saltos estratosféricos, competições inéditas e desafios extremos criam impacto emocional e viralização espontânea.

A marca vende uma ideia de estilo de vida: quem consome Red Bull não compra apenas energia, compra pertencimento a um universo de atitude e movimento.

Financeiramente e estrategicamente, o modelo é preciso. A marca entende que visibilidade associada a emoção e performance gera valor de longo prazo. Cada atleta, equipe ou evento carrega a identidade visual, o discurso e os valores da empresa. Não há improviso: tudo é alinhado para reforçar a imagem de ousadia controlada, risco calculado e excelência técnica.

Mais do que uma bebida, a Red Bull se consolidou como uma plataforma de influência global. Ela mostra que, quando marketing, esporte e narrativa caminham juntos, o produto deixa de ser o centro e passa a ser consequência.

A Red Bull não acompanha tendências — ela cria.

TEXTO DE:
Thiago Muniz

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Trump estende tapete vermelho para Lula

A reunião entre Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva, realizada nesta quinta-feira na Casa Branca, teve um detalhe que desmonta parte da caricatura política criada no Brasil nos últimos anos: Trump tratou Lula como um estadista experiente, não como um adversário folclórico.

Chamou o presidente brasileiro de “dinâmico” e definiu o encontro como “muito produtivo”, após horas de conversa reservada sobre comércio, tarifas, segurança e geopolítica.

E isso não aconteceu por gentileza diplomática. Trump pode até transformar a política em espetáculo, mas não costuma desperdiçar pragmatismo quando enxerga poder real diante dele.

O presidente americano sabe que Lula chega à mesa carregando décadas de experiência internacional, trânsito global e capacidade de negociação construída desde o início dos anos 2000.

Enquanto muitos líderes surgem e desaparecem ao sabor das redes sociais e das guerras culturais, Lula atravessou governos Bush, Obama, Sarkozy, Merkel, Putin, Xi Jinping e agora volta a negociar diretamente com Trump.

Há uma diferença importante entre propaganda doméstica e percepção internacional.

Parte da elite econômica brasileira ainda insiste em enxergar Lula pela lente do preconceito social: “o pernambucano de nove dedos”, o retirante que ousou ocupar espaços historicamente reservados aos sobrenomes tradicionais do poder.

Mas o mundo não funciona segundo os ressentimentos da Casa Grande brasileira.

Lá fora, Lula continua sendo reconhecido como um dos políticos mais influentes do Sul Global e um dos líderes mais conhecidos da história contemporânea da América Latina.

Gostem ou não seus adversários, Lula se transformou num personagem histórico. Não apenas pela origem improvável ou pelas vitórias eleitorais, mas porque construiu relevância internacional duradoura.

Poucos líderes latino-americanos conseguiram dialogar simultaneamente com Washington, Pequim, Bruxelas e Moscou sem desaparecer politicamente no meio do caminho. Menos ainda conseguiram retornar ao poder depois de tudo o que viveu a política brasileira na última década.

Trump percebe isso. E talvez por isso tenha evitado qualquer confronto performático. O presidente americano entende linguagem de força política, de liderança popular e de sobrevivência institucional.

Lula representa exatamente isso. São dois líderes radicalmente diferentes em visão de mundo, mas semelhantes num aspecto essencial: ambos entendem a política como disputa de poder real, não como teatro para redes sociais.

No Brasil, porém, continua existindo uma dificuldade quase patológica de reconhecer a dimensão histórica de Lula.

Há quem prefira reduzi-lo a apelidos ou caricaturas porque admitir sua estatura política significaria aceitar algo intolerável para certos setores: o maior líder político da história brasileira nasceu pobre, nordestino, operário e sem diploma universitário.

E a história, cruel com os arrogantes, costuma rir desse tipo de preconceito.

Enquanto alguns ainda repetem insultos de WhatsApp, Lula segue sendo recebido na Casa Branca como interlocutor estratégico dos Estados Unidos.

segunda-feira, 4 de maio de 2026

O Fariseu Malafaia

(por Antonio Gonzalez)

Diziam “mis abuelos” na Espanha: “Éramos pocos y parió la abuela”.

Do nada, o FARISEU MALAFAIA — que de pastor não tem nada — resolve atacar a Igreja Católica, a Teologia da Libertação e as Comunidades de Base, dizendo que foram tentáculos do nascimento do PT.

Não passa de um fanfarrão disseminador de ódio. Sim, seu otário, eram tempos de Ditadura Militar, e era preciso enfrentá-la. Ou você, FARISEU MALAFAIA, acha que Cristo andaria com torturadores? Ou você escolheria um tirano como Herodes, o Grande, conhecido por mandar matar inocentes tentando eliminar Jesus?

QUE CONSTE: nada tenho contra a Igreja Evangélica. Tenho amigos pastores, amigos cristãos que rezam por mim. Também não tenho contra religião alguma. Sou católico e estou estudando crenças de matrizes africanas.

Mas já que o FARISEU MALAFAIA quer descer pro play, vamos aos fatos.

A chamada “Igreja Evangélica” nasce do movimento da Reforma Protestante do século XVI, que  envolve Lutero, Calvino e outros Teólogos e pensadores

Em 1517, Lutero criticou abusos como a VENDA DE INDULGÊNCIAS da então Igreja Católica, defendendo a , a Bíblia e a relação direta com Deus. Daí surgiram várias correntes protestantes.

Calvino organizou uma teologia forte, baseada na soberania de Deus, predestinação e disciplina moral. O evangelicalismo, portanto, é um conjunto amplo dessas tradições.

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Já a Teologia da Libertação surge na América Latina (anos 60-70), dentro da Igreja Católica, focada nos pobres e oprimidos.

Entre seus principais nomes estão: Gustavo Gutiérrez, Leonardo Boff, Dom Hélder Câmara, Jon Sobrino e Dom Pedro Casaldaliga.

Seus princípios: a opção preferencial pelos pobres; combate à miséria, fome e injustiça;  com compromisso social.

A leitura da Bíblia parte da realidade dos oprimidos: Êxodo, profetas, ensinamentos de Jesus. Pergunta central: o que o Evangelho diz a quem sofre?

Também denuncia o “pecado estrutural”: sistemas injustos que produzem desigualdade. Incentiva as Comunidades de Base, com participação popular e leitura coletiva da Bíblia.

A libertação proposta é integral: espiritual, social, econômica e humana.

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Voltemos à Reforma de Lutero: a VENDA DE INDULGÊNCIAS era, na prática, a comercialização do perdão, usada inclusive para financiar obras como a Basílica de São Pedro. Esse abuso motivou Lutero.

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E o que faz o FARISEU MALAFAIA?

O FARISEU MALAFAIA, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, foca na arrecadação de dízimos e ofertas, frequentemente ligando dinheiro a bênçãos. Vende livros pela Central Gospel e pede doações para bens caros, como avião.

Há registros de pedidos públicos para aeronaves, “ofertas de bênção” com valores definidos, uso de recursos para manutenção de patrimônio e problemas com dívidas e multas.

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Onde o FARISEU MALAFAIA se encaixa no Novo Testamento?

a) “RAÇA DE VÍBORAS”: usada por João Batista e Jesus contra líderes hipócritas — aparência santa, interior corrupto;

b) “SEPULCRO CAIADO”: bonito por fora, podre por dentro — crítica direta à hipocrisia religiosa;

c) VENDILHÕES DO TEMPLO: expulsos por Jesus por transformarem em comércio, explorando o povo e profanando o sagrado.

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Portanto, FARISEU MALAFAIA: “a tua piscina está cheia de ratos”.

E essa sessão termina com a cereja do bolo:

Ô Malafaia, vai procurar uma rola, vai. Não me enche o saco. Você é um idiota, um paspalhão. Um pilantra. Tomador de grana de fiel, explorador da alheia.
(Ricardo Boechat)

TEXTO DE:
Antonio Gonzalez

domingo, 3 de maio de 2026

Carta aberta de um Católico à Frei Gilson

Estimado irmão na ,

O senhor, Frei Gilson, se dispôs a servir o Reino de Deus por meio do ministério sacerdotal. Essa escolha nasce, em geral, de um ardente desejo de imitar a Cristo e servir, sobretudo, aos pobres.

Não o conheço, nem sei de sua história, mas conheço esse chamado: ele acende uma brasa no peito e, como diz a canção, move-se como uma flecha na alma. É como o primeiro amor. Inesquecível, não é mesmo?

Se me permite um conselho fraterno, diria: vá ao encontro daquele menino e daquele desejo inicial. Talvez o homem que o senhor é hoje precise escutar o adolescente que um dia foi — e, com honestidade, responder a si mesmo: ainda há sintonia entre os sonhos daquele rapaz e a forma como o senhor vive o seu ministério?

Como nos recorda Santo Ambrósio, “a honra do sacerdócio não é para proveito de quem a possui, mas para o serviço daqueles que a contemplam”.

Tenho certeza de que o senhor estudou isso. Mas será que compreendeu essa mensagem? E mais: há coerência entre o que o senhor é, e o que um dia pensou em ser?

O sacramento da ordem, meu irmão, não o coloca em um patamar de superioridade ontológica (lembra o que é isso, né?), mas o mergulha na responsabilidade do serviço. Não basta usar o verbo “servir” para compor belas frases.

O Evangelho é categórico: quem deseja ser o maior deve ser aquele que mais serve. Compreender isso — e, mais ainda, viver isso — muda tudo. 

Por isso, o verbo servir precisa estar inseparavelmente ligado ao substantivo serviço. Servir a Deus não é massagear o próprio ego nem buscar status; é deixar o “eu” de lado para dar lugar ao próximo. Se é feito para aparecer, não é serviço — é vaidade.

Não há contradição maior do que um cristão que, durante o dia, diz desejar a salvação do próximo, mas à noite constrói regras para condená-lo ao inferno.

Do poder que corrompe à vaidade que seduz

Não por acaso, servir é o oposto dialético de mandar. O filósofo Aristóteles advertia, em sua obra "Polítiká", que o poder se corrompe quando deixa de buscar o bem comum e passa a servir aos interesses de quem o exerce.

E aqui não falamos apenas de política institucional ou eleitoral, mas, do poder exercido por homens que utilizam a para manipular consciências — e, muitas vezes, a do povo — em favor de ideologias travestidas de orientação religiosa.

A que Senhor o senhor serve quando fala mais sobre pecado do que sobre misericórdia? No contexto eclesial, servir sem serviço transforma-se em poder disfarçado.

Santo Agostinho nos lembra, em suas "Confissões", do perigo do “apetite de louvor”. Para ele, o ser humano se perde quando se coloca no centro, acreditando que a glória de Deus é apenas o reflexo do próprio brilho. Isso tem nome: vaidade.

A vaidade, Frei Gilson, não grita; ela sussurra em nome de uma suposta “verdade” e se veste de “zelo”. O religioso vaidoso deixa de olhar para Cristo e passa a olhar para o espelho, exigindo admiração sob o pretexto de um discurso de pecado e piedade, piedade e pecado — repetido, insistente, vazio, resultado de muito ego e pouco Cristo.

O clericalismo e o controle do corpo

Frei Gilson, o Papa Francisco — a quem o senhor parece citar com uma parcimônia que beira o desconforto — diagnosticou o clericalismo como o “câncer da Igreja”. 

O clericalismo é, em última análise, a vaidade institucionalizada.

Pior: é a tentativa de controlar o mistério de Deus. Cuidado, meu irmão. A nenhum homem foi dado penetrar plenamente nos desígnios de Deus.

A que nasce de Cristo é libertadora. Mas, quando passa a vigiar corpos, julgar aparências e regular o comportamento — especialmente o das mulheres — corre o risco de se tornar instrumento de controle.

Onde deveria haver o bálsamo da misericórdia, instala-se o chicote da norma — e as vítimas, quase sempre, são os mais frágeis.

Falo disso porque algo me inquieta profundamente: quando a é reduzida à forma como alguém se veste, sem caridade, escuta e orientação, o que resta é uma distorção do Evangelho. E essa distorção não recai sobre quem é julgado — mas sobre quem julga.

Falo com a humildade de quem reconhece a própria fragilidade. Sou pecador.

Mas há uma lógica perigosa sendo reforçada: a obsessão pelo controle do corpo feminino. A história nos mostra que o moralismo religioso sobre roupas, tatuagens e comportamentos costuma ser o primeiro degrau de uma escada que leva à desumanização.

O senhor já refletiu sobre as consequências disso? Sobre quantas jovens e mulheres se afastam da vida da Igreja e da participação comunitária por causa desse tipo de abordagem?

Muitas chegam à Igreja carregando histórias de dor, desinformação, abandono. A busca delas é por um pouquinho de paz, acolhida e escuta. E o que encontram é apenas julgamento.

Tenho para mim que, nesses casos, o pecado está muito mais no olhar de quem julga do que no coração de quem veste. Quando a religião se torna vigilante do vestuário, ela flerta com uma cultura de posse que, em seus extremos, alimenta a violência — inclusive o feminicídio.

Se o nome de Deus é usado para subjugar a liberdade feminina, não estamos diante de missão, mas da idolatria do patriarcado.

Jesus e o escândalo da misericórdia

Jesus nunca começou pela aparência. Ele acolheu a samaritana, que sequer era vinculada à sua religião. Defendeu uma puta ameaçada de morte por apedrejamento — “prostituta” é um nome mais palatável, não é? — e, curiosamente, não trouxeram o homem que com ela pecava.

Em outro episódio, também com uma mulher "suspeita", Jesus foi convidado para jantar na casa de um homem rico, e ali, surgiu uma mulher que Jesus a acolheu e permitiu que a mesma lhe lavasse os pés com perfumes e bálsamos e os enxugasse com os próprios cabelos.

Enquanto os “puros” de seu tempo viam pecado e impureza, Jesus via dignidade e . E mais do que isso: acusavam o próprio Jesus por não reconhecer “quem era aquela mulher” e por se misturar com pecadores.

E olha só que triste, Frei Gilson: é muito fácil imaginar o senhor, nessa cena, ao lado dos doutores da lei e fariseus — não apenas julgando a mulher, mas também questionando o próprio Cristo por acolhê-la.

Mas Jesus respondeu. E respondeu olhando para o fariseu — o religioso julgador das vestimentas e até do provável decote dela — e não para a mulher: “Vês tu esta mulher? […] Os seus muitos pecados lhe são perdoados, porque muito amou.” (Lc 7,30-50).

Ou seja: enquanto o senhor via pecado, Cristo viu amor. Enquanto o senhor julgava, Cristo perdoava. Enquanto o senhor afastava, Cristo acolhia.
Essas respostas de Jesus não lhe inquietam, Frei Gilson?

Santa Teresa d’Ávila dizia: “O Senhor não olha tanto para a grandeza das nossas obras, mas para o amor com que são feitas”. Onde está o amor no julgamento da aparência?

A perseguição e o falso martírio.

Tenho acompanhado suas falas, nas quais o senhor interpreta críticas como “sinais de perseguição”, chegando a comparar-se ao próprio Cristo.
Peço-lhe, com caridade: tenha cautela. 

Questionamento não é martírio.

Muitas vezes, é apenas a realidade batendo à porta. Definitivamente, Jesus não foi perseguido por moralismos de sacristia, mas por romper estruturas injustas, colocar o ser humano acima da lei e denunciar a hipocrisia dos que impunham fardos aos outros sem ajudá-los a carregá-los.

Interpretar toda discordância como perseguição é cair no narcisismo espiritual. Comparar-se a Cristo para se blindar de críticas é uma forma de autolatria.

E causa estranheza  seu silêncio diante dos poderosos — como Donald Trump — quando este ataca, covardamente, a figura do Papa Leão XIV e chega ao ponto de se associar à imagem de Cristo, enquanto sua voz se levanta com tanta firmeza para criticar jovens, mulheres e suas escolhas.

Por que o silêncio diante dos poderosos e o grito diante dos pequenos? Isso diz muito sobre sua pregação — e sobre suas escolhas.

O lava-pés como único caminho

Na Última Ceia, Jesus não fez um discurso moralizante. Ele tomou uma bacia e uma toalha. O lava-pés é o antídoto contra a vaidade clerical.

São João da Cruz nos lembra que, ao entardecer da vida, seremos julgados pelo amor. Não pelos seguidores, não pelas visualizações, não pelo rigor das proibições.

A verdadeira liberta do medo e da culpa.

Se a sua pregação gera mais medo do que esperança, mais exclusão do que acolhimento, talvez seja hora de voltar ao Cenáculo.

E, se há acolhimento em sua pregação, por que permitir que o medo também fale?

O acolhimento é a parte de Deus em você. A falta dele — talvez seja apenas você mesmo.

Permita-me um último conselho: conserve o que vem de Deus e desapegue-se do que não vem. Abstenha-se daquilo para o qual não foi chamado —  especialmente quando isso fere mais do que edifica.

Que o Espírito Santo lhe conceda o dom da humildade, para que o senhor diminua e Cristo cresça.

Fraternalmente,

Toninho Kalunga

Um irmão na

Toninho Kalunga participa da Paróquia Santo Antônio, na Comunidade do Santuário São Luís Orione — o Pequeno Cotolengo Paulista, em Cotia. Também é da Fraternidade Leiga Charles de Foucauld e do Núcleo Nacional da Teologia da Libertação Política e Religião.

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Ana Paula Renaut, do Brasil

Uma mulher de mais de 40, lida pela parcela conservadora e machista deste país como “difícil” e frequentemente “louca”, está sendo ovacionada por um país inteiro: se isso não te interessa só porque aconteceu em um reality show numa TV aberta, acho que não vivemos no mesmo mundo, porque cultura de massas também é cultura, e dizer o contrário é, sim, elitismo intelectual.

Se não bastasse, essa mulher entrou por causa de um vídeo peitando Nikolas Ferreira em um avião: “Estamos falando do seu decoro parlamentar. Quando você vai parar de cometer crimes no Plenário?”, disse Ana Paula Renaut, em vídeo que viralizou.

Sim, ela é uma veterana do BBB, mas só voltou para o jogo 10 anos depois — pra buscar o que era seu — porque se destacou como apoiadora da esquerda progressista, não só no discurso e em vídeo nas redes sociais, mas na prática: nunca deixou de ajudar projetos e causas progressistas e feministas, inclusive se engajando especificamente contra a transfobia.

Durante o programa, criticou machismo e escala 6×1, defendeu feminismo e taxação das grandes fortunas e desceu o pau na direita conservadora, criticando diretamente, inclusive, pautas “espinhosas”, como ela diria, como fundamentalismo religioso.

Percebam: não é só uma mulher esquerdista ganhando um reality show. São posicionamentos esquerdistas sendo aceitos – e ovacionados – no discurso oficial, na TV aberta, diante do país inteiro, e é claro que isso influencia no jogo político no Brasil.

Não à toa, deixou os bolsonaristas e conservadores em geral embasbacados: uma mulher, que nem mesmo é jovem, uma “louca” ganhando atenção, confetes e 5,7 milhões de reais em um reality? Uma morte horrível pra cada um deles.

A vitória de Ana Paula Renaut é política não só porque ela é uma progressista engajada e aliada da esquerda, mas porque é uma mulher — mais velha, lida como “aquela que ficou pra titia”, “intensa demais”, “maluca” — rótulos que tantas de nós já recebemos.

É essa mulher — que é gigante — que está sendo celebrada por um país inteiro.

TEXTO DE:
@nathaleemacedo
para @dcm_on_line 

PL da absolvição criminosa

Sempre me orgulhei de não ter bandido de estimação. Continuo defendendo a aplicação da justa Justiça, sem privilégios, sem exceções, sem conveniências - doa a quem doer.

O PL da dosimetria, vetado pelo presidente da República, não passa de um cavalo de Tróia.

Uma vez aprovado, ele revela e espalha todo malefício que carrega dentro de si.

Se o veto for derrubado, o Código Penal será modificado para atenuar as penas para os criminosos do 8 de Janeiro, que tentaram dar um golpe na nossa democracia.

Mas, os beneficiários não serão apenas eles. A nova lei vai favorecer outros criminosos de alta periculosidade como homicidas e estupradores, que terão, também, suas penas diminuídas.

O PL da dosimetria é a prova cabal de que a extrema direita não está preocupada em punir o crime, como sempre vociferou.

Para essa gente, a Justiça boa é a justiça seletiva: que protege os amigos e pune os adversários.

A Justiça ideal da extrema direita é aquela  que, em vez de uma balança equilibrada, tem, nas mãos, um mesmo peso para duas medidas diferentes:

Uma medida de justiça que protege seus bandidos de estimação, e outra medida  - dura, cruel e desumana para quem não reza a cartilha desse grupo.

Os mesmos personagens odiosos adeptos do lema “bandido bom é bandido morto”, quem diria, se mobilizam para garantir a impunidade de seus bandidos pessoais.

Um peso, duas medidas e duas caras!

Eu, que nunca tive bandido de estimação, só espero que o bom senso prevaleça no Parlamento, e se não for possível, que ainda possamos apelar ao próprio judiciário.

TEXTO DE:
Raquel Sheherazade

quinta-feira, 30 de abril de 2026

A imprensa e o gozo autoritário

Quando parte da imprensa deixa de cumprir seu papel clássico — o de mediadora crítica entre poder e sociedade — para assumir, ainda que de forma disfarçada, a posição de agente político interessado no resultado do jogo, cria-se um problema que não pode ser ignorado.

O que se vê em determinados setores do jornalismo brasileiro recente não é apenas uma cobertura enviesada, mas uma espécie de torcida editorial que escolheu lado — e nem sempre o lado mais comprometido com a democracia.

A complacência com o bolsonarismo não começou agora, nem foi episódica. Desde a ascensão de Jair Bolsonaro, parte da imprensa flertou com a ideia de que seria possível instrumentalizar um projeto autoritário em nome de agendas econômicas ou de conveniências conjunturais.

O resultado está aí: normalizou-se o absurdo, relativizou-se o ataque institucional e, pior, criou-se um ambiente onde o Supremo Tribunal Federal passou a ser tratado como inimigo político, e não como pilar da ordem constitucional.

Nesse contexto, a atuação de figuras como Davi Alcolumbre ganha contornos particularmente preocupantes.

Ao articular movimentos que fragilizam o STF — seja por meio de pressões políticas, seja ao pavimentar o terreno para pedidos de impeachment de ministros — Alcolumbre não atua apenas dentro do jogo institucional: ele tensiona os próprios limites da democracia. E o faz com o aplauso tácito de setores da imprensa que, ao invés de denunciar o risco, preferem celebrar o desgaste do Judiciário como se fosse um triunfo político legítimo.

O apoio à rejeição de indicações ao STF, como no caso de Jorge Messias, e a comemoração pela derrubada de vetos presidenciais — mesmo quando esses vetos dizem respeito a critérios técnicos como a dosimetria penal — revelam menos um compromisso com o interesse público e mais uma obsessão narrativa: a necessidade de carimbar manchetes com “derrota do governo” ou, mais especificamente, “derrota de Lula”.

A imprensa tem orgasmos com esses acontecimentos, sem lembrar que no governo anterior, era agredida nas ruas e perseguida pelo governo de turno.

Em termos mais xulos, a imprensa brasileira parece curtir um governo mais dominatrix. Nossa imprensa é sadomasoquista por opção.

E aqui está o ponto central: quando o jornalismo passa a medir a realidade exclusivamente pelo impacto político imediato — quem venceu, quem perdeu — ele abandona qualquer pretensão de analisar consequências concretas para a população. Pouco importa se a decisão enfraquece instituições, desorganiza políticas públicas ou amplia inseguranças jurídicas. O que interessa é o placar.

Essa lógica transforma a política em espetáculo e a imprensa em narradora de campeonato.

Mas democracia não é campeonato.

Quando o STF é sistematicamente deslegitimado, abre-se espaço para aventuras autoritárias.

Quando o Legislativo é estimulado a confrontar o Judiciário em bases oportunistas, cria-se uma instabilidade que não atinge apenas governos — atinge direitos.

Ao celebrar derrotas do Executivo sem examinar o conteúdo dessas derrotas, parte da imprensa incorre numa inversão perigosa: passa a tratar como vitória aquilo que pode, na prática, representar prejuízo direto ao cidadão. É o triunfo da narrativa sobre a realidade.

O mais irônico — e trágico — é que esse comportamento repete erros recentes. A mesma imprensa que hoje vibra com o enfraquecimento de um governo eleito já subestimou, no passado próximo, os riscos de alimentar forças que depois se voltaram contra ela própria. A história não apenas rima — ela insiste em dar segundas chances que parecem ser desperdiçadas com uma certa teimosia.

No fim, a pergunta que fica é simples e incômoda: quando a imprensa comemora derrotas políticas sem medir seus efeitos sociais, ela ainda está informando — ou apenas torcendo?

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Sopro de Fé, alimento de brasa, que faz reacender o coração

(por Antonio Gonzalez)

//Dedicado à tríade do Marketing Político e Governamental e da Comunicação do Vale do Paraíba (SP) – Celso de Almeida Jr, Marcelo Hespaña e Marcelo Pimentel//

Quem estudou História com alguma profundidade sabe: o que vivemos hoje é consequência de estruturas muito antigas. Desigualdade, exploração e concentração de riqueza não são fenômenos modernos, estão na base das civilizações.

Do Egito, com sua hierarquia divina, passando por persas, gregos e romanos, vemos o mesmo padrão: elites concentrando poder e riqueza, enquanto a base sustenta o sistema com poucos direitos. A desigualdade era naturalizada; justificada por religião, tradição ou força.

Na Idade Média, o feudalismo reorganiza essa lógica em três camadas: clero, nobreza e servos. A Igreja legitimava essa ordem como vontade divina. Pouca mobilidade social, poder concentrado.

Com a modernidade, surgem comércio, burguesia e a ideia de igualdade jurídica. Mas a igualdade formal não elimina a desigualdade real. No capitalismo, há liberdade e direitos formais, porém a riqueza continua concentrada em quem controla o capital. A exploração se torna menos visível, mais contratual.

O que muda ao longo do tempo não é a desigualdade em si, mas sua justificativa: de “ordem divina” para “ordem social” e, hoje, “mérito”. Sabemos que, na prática, o ponto de partida ainda pesa muito.

Nesse contexto, o Brasil (ainda jovem em idade histórica) nasce marcado por essa lógica. Desde 1500, forma-se a partir da mistura desigual entre povos indígenas, europeus e africanos escravizados, sob a colonização portuguesa. Ao longo do período colonial, do tráfico de escravos e do Império, consolidou-se uma sociedade profundamente hierarquizada, com concentração de renda e exclusão da maioria.

Mesmo após a, suposta, abolição da escravidão e a República, essas marcas persistem. O Brasil contemporâneo é diverso e culturalmente rico, mas ainda carrega desigualdades estruturais, racismo e acesso desigual a oportunidades.

Diante disso, arrisco dizer: tirando a ciência e as mentes abertas, muito do que vemos hoje é herança de mentalidades antigas, transmitidas de geração em geração, através dos séculos, quiçá milênios.

Nos últimos dias fui posto à prova, com direito à sensação de perda. Um dia o poeta Lulu Santos cantou “hoje o tempo voa, escorre pelas mãos”. Por momentos, em crises de ansiedade, senti a minha vida escorrer pelas minhas mãos, através de um simples dedo do meu pé.

Agradeço a Deus ter amigos de verdade, isso é mais do que tudo. É fundamental. Sem esquecer dessa fagulha acessa pelo sopro de , que reacendeu meu coração.

Com relação ao que a humanidade já construiu ou desconstruiu de história, em outubro próximo eu vou cumprir o meu papel de cidadão. É preciso dizer não.

Quanto ao Senador, BOÇAL, Marcio Bittar, que hoje de forma leviana e analfabeta afirmou que Caetano Velosopegou em armas” na Ditadura Militar, merece nota um. Justamente porque reconhece que o Brasil, realmente, viveu uma Ditadura Militar.

O problema não é ser de Direita, de Centro ou de Esquerda.

O problema é permitir que o país e que o mundo fique nas mãos de gente despreparada, interesseira e psicopata.

Terminando... entre ser pateta do curso do ator Juliano Cazarré (“O Farol e a Forja”) e ter pensamento evoluído, escolho ser do mundo do Papa Francisco, do Papa Leão XIV, da Érica Hilton, da Ana Paula Renault, do Ney Matogrosso, do Padre Júlio Lancellotti, do Pastor Caio Fábio, do Pastor Otoni de Paula, do Pastor Henrique Vieira, de Pedro Sánchez, SEM GUERRAS, sem terrorismo, sem genocídios / genocidas, sem racismo, sem homofóbicos, sem milicianos, sem narcotráfico e sem Trump.

Com certeza, é o mundo escolhido por Jesus Cristo!

TEXTO DE:
Antonio Gonzalez

Somos o Futuro fracassado de um Passado sonhador

O Brasil gosta de cultivar mitos sobre si mesmo. Um dos mais persistentes é o de que a democracia, uma vez conquistada, se torna uma espécie de cláusula pétrea da alma nacional — algo imune a retrocessos, blindado contra tentações autoritárias. Não é. Nunca foi.

A ascensão do bolsonarismo, com sua retórica de confronto, seu flerte explícito com a ditadura militar e sua disposição de tensionar instituições, não brotou do nada, como um raio em céu azul. Trata-se menos de uma ruptura e mais de uma revelação. Revelação de fragilidades antigas, mal resolvidas, convenientemente ignoradas por aqueles que apostaram que o tempo, por si só, faria o serviço da maturação democrática.

Não fez.

Os chamados campos democráticos — expressão ampla, por vezes vaga, mas útil — erraram feio ao confundir estabilidade institucional com adesão social à democracia. Uma Constituição avançada não garante, por si, cidadãos comprometidos com seus valores. O papel aceita tudo; a realidade, não.

Quando a política institucional se viu capturada por escândalos sucessivos de corrupção, quando a violência urbana passou a ditar a rotina de milhões, quando o Estado se mostrou ineficiente para entregar serviços básicos com qualidade, abriu-se uma avenida. E avenida larga. Nesse espaço, a democracia deixou de ser percebida como solução e passou a ser vista, por muitos, como parte do problema.

Convenhamos: terreno ideal para aventureiros — ou para quem se apresenta como antídoto contra tudo isso.

Há, também, uma omissão histórica que cobra seu preço. O Brasil fez uma transição negociada da ditadura para a democracia. Ganhou-se em estabilidade, perdeu-se em profundidade. Não houve um enfrentamento coletivo, contundente, das violações do regime militar. Sem esse acerto de contas, a memória se torna maleável. E memória maleável, em política, costuma ser sinônimo de perigo.

Daí a facilidade com que slogans autoritários são reciclados como se fossem soluções legítimas, não regressões.

O ambiente digital deu uma contribuição nada desprezível a esse cenário. As redes sociais pulverizaram o debate público, reduziram a complexidade a palavras de ordem e transformaram a indignação em combustível político de alta octanagem. A mediação institucional — aquela que exige tempo, argumento, contraditório — perdeu espaço para a lógica do grito e da simplificação.

Some-se a isso o comportamento, no mínimo, errático de parcelas das elites. Em momentos decisivos, setores que deveriam funcionar como fiadores do jogo democrático preferiram brincar com fogo. Flertaram com o autoritarismo, relativizaram excessos, apostaram que poderiam domesticar forças que, por definição, não aceitam domesticação. O resultado está aí.

E não adianta dourar a pílula: isso configura, sim, uma derrota dos campos democráticos. Não apenas porque perderam eleições em determinado momento, mas porque falharam em algo mais básico — convencer amplas parcelas da população de que a democracia vale a pena, de que ela entrega, de que ela protege.

Democracia não vive de abstrações. Vive de resultados e de sentido.

Quando esses dois elementos faltam, o discurso da ordem — ainda que autoritário, ainda que tosco — ganha apelo. Especialmente em uma sociedade cansada, desigual e impaciente.

O título desta coluna não é mero recurso retórico. Somos, em alguma medida, o futuro fracassado de um passado que acreditou ter resolvido suas contradições sem enfrentá-las de fato. Um país que preferiu a conciliação à pedagogia, o arranjo à transformação.

A boa notícia, se é que cabe uma, reside no fato de que democracias não são peças acabadas. Podem ser corroídas, é verdade, mas também podem ser reconstruídas. Para isso, no entanto, será preciso mais do que slogans edificantes ou indignação seletiva.

Será preciso fazer o que não foi feito: disputar valores, enfrentar a realidade e, sobretudo, tratar a democracia não como herança garantida, mas como tarefa permanente.