quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Linchamento em Copacabana é vitória do Brasil Miliciano

Cláudio Rafael Landeiro Moreira saiu de casa, em Botafogo, para pedalar e voltou em um caixão.

O homem de 37 anos, que tinha transtornos mentais, foi abordado em Copacabana e não conseguiu explicar que a bicicleta pertencia a uma irmã.

Um vigilante confundiu sua dificuldade de expressão com confissão, deu-lhe um soco e o tratou como ladrão. Depois, um grupo de entregadores teria levado Cláudio para outra rua, onde foi linchado. Ele morreu no dia seguinte com traumatismo craniano, hemorragia interna e lesões no abdômen.

Justiçamento é típico de uma sociedade miliciana, na qual o devido processo legal (que inclui investigação, indiciamento, denúncia, processo, condenação e execução de pena) é deixado de lado em nome da possibilidade de cada um resolver, da forma como melhor entender, os seus problemas.

É a lei do mais forte.

Foi essa lógica que moveu a turba golpista de 8 de janeiro de 2023, em Brasília, e apareceu na operação policial na Penha e no Alemão, que deixou 118 civis e quatro agentes mortos, no Rio.

Milícia não é apenas o grupo armado que controla territórios. É também um método que privatiza a violência: alguém aponta um suspeito, suspende seus direitos e aplica a pena que quiser.

A presunção de inocência vira frescura, e a Justiça chega apenas para recolher o cadáver.

Entende-se uma sociedade cansada de crime e com pouca fé no Estado. Mas o medo do crime não concede licença para matar.

Se entregadores participaram do linchamento, os responsáveis devem ser identificados e punidos individualmente, sem condenar toda a categoria — repetindo o mecanismo que matou Cláudio.

Copacabana é um dos principais cartões-postais do Brasil. Mas, naquela noite, tornou-se o retrato de um país que está autorizando a pena de morte para qualquer grupo disposto a aplicá-la na calçada.

Quando alguém se torna culpado de cometer um crime simplesmente porque foi morto por uma turba, não precisamos mais temer os milicianos. Eles já somos nós.

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sábado, 15 de agosto de 2026

Para o Bolsonarismo, até lei com nome de mulher precisa ser agredida

O Bolsonarismo age de maneira especialmente perversa na atual campanha de desinformação contra Maria da Penha: não basta relativizar a violência. É preciso reescrever a história, atacar a vítima, desacreditar a lei e, por fim, transformar o próprio agressor condenado em personagem confiável.

É exatamente isso que está acontecendo.

Nos últimos dias, vídeos editados passaram a circular nas redes sociais para sustentar a MENTIRA de que Maria da Penha teria admitido que nunca sofreu violência física do ex-marido.

A fraude é grosseira: o trecho foi retirado de contexto. Na entrevista completa, Maria da Penha se referia especificamente às agressões físicas anteriores às tentativas de assassinato.

Ela não negou as tentativas de feminicídio. Pelo contrário: sua história está documentada, investigada e foi objeto de condenações judiciais.

Em 1983, Maria da Penha levou um tiro disparado pelo então marido e ficou paraplégica. Depois, sofreu uma segunda tentativa de assassinato, por eletrocussão.

Marco Antônio Heredia Viveros foi condenado em dois julgamentos e chegou a cumprir pena. Não estamos diante de uma discussão de versões equivalentes, como se fosse uma briga de casal narrada por duas testemunhas com a mesma autoridade.

Estamos diante de um caso que passou pela Justiça e cuja história ultrapassou as fronteiras brasileiras, contribuindo diretamente para a criação da Lei nº 11.340/2006.

Por isso, é preciso chamar as coisas pelo nome: editar uma declaração para produzir uma conclusão que a declaração completa não sustenta é mais do que desinformação, é MENTIRA.

E existe uma segunda perversidade: a tentativa de transformar a vítima em ré.

Maria da Penha passa a ser apresentada como mentirosa, manipuladora ou símbolo de uma suposta "indústria" contra homens.

A lei que leva seu nome é atacada como se fosse uma legislação criada a partir de uma fraude individual. E o homem condenado pela tentativa de matá-la aparece, convenientemente, como alguém que finalmente estaria contando "a verdade".

A inversão é completa.

O agressor deixa de ocupar o lugar de condenado e passa a ocupar o lugar de testemunha. A vítima deixa de ser vítima e passa a ser interrogada. A sentença judicial desaparece. O contexto desaparece. A história desaparece. Sobra apenas o vídeo cuidadosamente recortado.

Isso não é jornalismo. É uma operação de fabricação de dúvida.

E a Record entrou nessa história

O episódio envolvendo a TV Record torna tudo ainda mais grave.

A emissora decidiu dar espaço ao ex-marido de Maria da Penha para apresentar sua versão dos acontecimentos, apesar de existir decisão judicial que o proibia de divulgar informações sobre o processo e de mencionar publicamente as vítimas.

Depois da entrevista, Marco Antônio Heredia Viveros foi preso preventivamente por descumprimento das medidas protetivas. A Justiça também determinou a retirada do conteúdo do ar, sob pena de multa diária.

É importante fazer uma distinção que qualquer veículo de comunicação sério deveria fazer: dar espaço para o contraditório não significa conceder à mentira o mesmo status da verdade comprovada.

Uma reportagem responsável poderia ouvir o condenado, apresentar suas alegações e imediatamente confrontá-las com documentos, decisões judiciais, investigações e a versão das instituições que participaram do processo.

O problema não é simplesmente "ouvir o outro lado". O problema começa quando o outro lado é apresentado ao público sem o devido contexto, como se sua narrativa tivesse o mesmo peso probatório de uma história examinada durante décadas pelo sistema de Justiça.

Mais grave ainda quando o personagem entrevistado possui interesse direto em reconstruir a própria imagem.

O método é conhecido

A máquina de desinformação funciona em etapas.

Primeiro, encontra-se uma frase verdadeira.

Depois, corta-se o contexto.

Em seguida, acrescenta-se uma legenda falsa.

Finalmente, atribui-se à vítima aquilo que ela nunca disse.

O resultado é um vídeo tecnicamente verdadeiro e intelectualmente falso.

Essa é talvez uma das formas mais perigosas de mentira contemporânea. Não se fabrica necessariamente uma imagem. Fabrica-se uma interpretação.

Foi assim que uma declaração de Maria da Penha pôde ser convertida em uma suposta confissão contra ela própria.

E é precisamente por isso que a sociedade precisa desconfiar de vídeos que chegam às redes com a promessa de revelar aquilo que "a mídia não quer que você saiba".

Normalmente, a primeira coisa que desaparece nesses vídeos é justamente aquilo que permitiria compreender a verdade: o contexto.

O ataque à Lei Maria da Penha é ainda mais revelador

A Lei Maria da Penha não nasceu de uma narrativa de internet.

Ela nasceu de um caso concreto de violência doméstica, de uma longa batalha judicial e da responsabilização internacional do Brasil.

A própria Advocacia-Geral da União registra que a formulação da Lei nº 11.340/2006 está intrinsecamente ligada à história de Maria da Penha e ao reconhecimento do caso pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos.

Atacar a lei com base em vídeos manipulados significa, portanto, tentar destruir uma política pública utilizando como munição uma falsificação da história que lhe deu origem.

E aqui aparece uma pergunta que os propagadores dessa narrativa deveriam responder: Se a história de Maria da Penha é tão falsa, por que foi examinada por tribunais? Por que houve condenação? Por que o Brasil foi responsabilizado internacionalmente? Por que o caso se tornou referência mundial no combate à violência contra a mulher?

Não existe algoritmo capaz de apagar uma sentença.

Não existe corte de vídeo capaz de revogar uma condenação.

Não existe influencer capaz de transformar uma tentativa de assassinato em ficção simplesmente porque descobriu um trecho de entrevista que pode ser utilizado fora de contexto.

O bolsonarismo radical e a política da desconfiança

É preciso também dizer algo que muitos jornalistas evitam dizer por medo de parecer partidário: parte do extremismo bolsonarista transformou a desconfiança em método político.

Não se trata de criticar o governo, o Congresso, o Judiciário ou qualquer lei. Isso faz parte da democracia.

O problema surge quando a dúvida deixa de ser instrumento de investigação e vira instrumento de negação.

Para esse tipo de militância, a verdade passa a depender de quem é o personagem.

Se a vítima pertence ao campo considerado adversário, suspeita-se dela.

Se o agressor confirma a narrativa desejada, acredita-se nele.

Se uma decisão judicial contradiz a tese, acusa-se a Justiça.

Se documentos desmentem o argumento, fala-se em "narrativa".

Se um vídeo é cortado, chama-se de "prova".

É uma lógica perigosa porque elimina o compromisso com a realidade.

E quando a realidade é inconveniente, fabrica-se outra.

Não se trata de defender Maria da Penha contra críticas

Maria da Penha não precisa ser transformada em uma figura acima de qualquer questionamento. Nenhuma pessoa está.

O que não se pode aceitar é que críticas sejam construídas a partir de falsificações.

Uma democracia saudável permite questionar leis. Permite discutir políticas públicas. Permite criticar decisões judiciais. Permite discordar de Maria da Penha.

O que ela não permite, ou pelo menos não deveria permitir no debate público responsável, é transformar edição fraudulenta em evidência.

A diferença é gigantesca.

Criticar uma lei é legítimo.

Mentir sobre a origem dela, não.

Questionar uma decisão judicial é legítimo.

Inventar que nunca houve condenação, não.

Ouvir o condenado é possível.

Transformá-lo em autoridade histórica sobre o próprio crime, ignorando tudo que o contradiz, é outra coisa.

E atacar uma vítima é sempre uma escolha moral.

A mentira não termina na tela

O aspecto mais assustador dessa história é que a mentira digital produz consequências no mundo real.

Quando uma mulher vítima de violência assiste à destruição pública da história de Maria da Penha, ela recebe uma mensagem silenciosa:

"Talvez ninguém acredite em você."

Quando uma sociedade começa a tratar o agressor como vítima e a vítima como suspeita, o problema deixa de ser apenas político.

Torna-se civilizatório.

A violência doméstica já acontece, muitas vezes, dentro de ambientes nos quais o agressor consegue controlar a narrativa. O discurso de desqualificação da vítima é uma extensão desse mecanismo: "ela exagerou", "ela inventou", "ela queria prejudicar o marido", "ela está atrás de dinheiro", "ela quer destruir a família".

A internet apenas acelerou a velha técnica.

Agora, porém, existe uma ferramenta extraordinariamente poderosa: o vídeo editado.

E existe uma indústria política interessada em utilizá-la.

Por isso, o caso Maria da Penha deveria servir como alerta nacional.

Não estamos discutindo simplesmente uma mulher, um homem ou uma lei.

Estamos discutindo se uma sociedade democrática aceitará que a mentira seja capaz de substituir documentos, sentenças, investigações e fatos históricos simplesmente porque foi transformada em vídeo e compartilhada milhares de vezes.

A resposta precisa ser NÃO.

Porque quando a mentira vence a verdade por repetição, a próxima vítima já está esperando.

E, desta vez, talvez não exista uma Maria da Penha para lembrar ao país que ela sobreviveu.


Em tempo, parabéns a TV Bandeirantes pela carraspana passada à TV Record sobre o caso. (assista aqui)

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Rainha Érica - superou a violência e recebeu sua coroa

Algumas coroas chegam depois de uma batalha. Outras parecem chegar justamente quando a vida ainda está tentando recolher os seus próprios pedaços.

Érica Oliveira conhece essa diferença.

Enfermeira, ex-Rainha do Carnaval de Rio Branco e mãe, ela atravessou uma experiência que nenhuma mulher deveria conhecer: segundo seu próprio relato, foi enforcada pelo companheiro com quem manteve um relacionamento durante 16 anos, chegando a perder a consciência.

O filho, de apenas 9 anos, ouviu os pedidos de socorro e pediu ajuda.

Érica sobreviveu.

Depois vieram a denúncia, o registro da ocorrência, o exame de lesão corporal, o pedido de medida protetiva e a investigação policial. A vida, que até então parecia ter sido interrompida pela violência, precisou encontrar um caminho para continuar.

E continuou.

Poucos dias depois, em 25 de julho, Érica subiu novamente a um palco. Dessa vez, para disputar a coroa de Rainha do Rodeio da Expoacre 2026.

E venceu.

Talvez exista algo de profundamente simbólico nessa imagem. Uma mulher que acabara de denunciar uma violência doméstica aparece diante de uma multidão não como vítima, mas como vencedora.

Não porque a violência tenha sido esquecida, mas justamente porque ela não permitiu que aquela violência definisse quem era.

A coroa não apaga a cicatriz.

Mas também não precisa ser explicada por ela.

Érica não deixou de ser a mulher que sofreu violência. Tornou-se, entretanto, também a mulher que continuou vivendo, trabalhando, disputando e ocupando espaços. E isso importa.

Porque existe uma história silenciosa por trás de determinadas coroas. Durante muito tempo, os concursos de beleza, as festas populares e os espaços de representação pública reproduziram padrões estéticos que pareciam naturais apenas porque foram repetidos durante gerações.

Quando uma mulher negra ocupa esses espaços, a questão deixa de ser apenas estética.

Passa a ser histórica.

A presença de Érica como Rainha do Rodeio não precisa ser transformada artificialmente em símbolo de tudo. Sua vitória já possui significado suficiente por aquilo que representa: uma mulher negra ocupando um espaço de visibilidade em uma festa tradicional do Acre.

E talvez seja justamente aí que a história fique maior do que o concurso.

O Acre não é apenas aquilo que aparece nas manchetes. É também a terra de Marina Silva, dos povos indígenas, das comunidades negras, das diferentes histórias que ajudaram a construir a identidade amazônica.

É um lugar onde a diversidade existe antes mesmo de qualquer discurso sobre diversidade.

O problema começa quando essa diversidade é tolerada apenas enquanto permanece distante dos lugares de prestígio.

Érica, entretanto, colocou uma coroa sobre a cabeça. E uma coroa, por definição, é um objeto de visibilidade.

Não é possível esconder quem está usando.

Por isso, talvez seja melhor olhar para essa fotografia com alguma atenção. Não apenas para a beleza da vencedora, nem apenas para o espetáculo do rodeio, mas para aquilo que a imagem representa.

Uma mulher que recentemente precisou pedir proteção contra a violência agora aparece diante do público como rainha.

Entre uma coisa e outra existe uma palavra que deveria ser simples, mas continua sendo revolucionária quando aplicada às mulheres: recomeço.

O título conquistado por Érica não desfaz o que aconteceu dentro de sua casa. Não substitui a Justiça. Não encerra a investigação. Não transforma sofrimento em conto de fadas.

Mas demonstra uma coisa que nenhuma estatística consegue traduzir completamente: a violência pode tentar reduzir uma pessoa ao medo, mas não tem o direito de determinar o seu futuro.

Aquela coroa, portanto, não pertence apenas à festa.

Ela pertence também ao recomeço.

E talvez seja esse o detalhe que mais incomoda qualquer sociedade acostumada a colocar pessoas em lugares previamente determinados: quando alguém decide atravessar a fronteira que lhe foi silenciosamente imposta, deixa de ser apenas espectador da própria história.

Érica atravessou.

E, desta vez, saiu do outro lado usando uma coroa.



domingo, 9 de agosto de 2026

Racismo Objetivo - a negação do racismo através da normalização e da banalização

Existe uma forma particularmente confortável de racismo: aquela que não precisa dizer que é racismo.

Ela não se apresenta com insultos, não precisa de agressão física, não exige que alguém seja expulso de um estabelecimento.

Basta uma operação intelectual um pouco mais sofisticada: diante de uma situação suspeita, evidente ou documentada, decretar que aquilo é “normal”.

Se a vítima reclama, exagerou. Se insiste, está vendo racismo onde não existe. Se apresenta uma sequência de episódios semelhantes, continua sendo “vitimismo”.

É o racismo que, em vez de negar a dignidade do outro, nega a própria possibilidade de que ele tenha sido discriminado.

O fenômeno merece atenção. Pode-se chamá-lo, para efeito de debate, de racismo objetivo (ou passivo): não porque toda pessoa que minimiza um episódio seja necessariamente racista, mas porque a atitude contribui objetivamente para tornar o racismo invisível.

O preconceito deixa de ser apenas uma prática e passa a ser também uma realidade que determinados grupos se recusam a reconhecer.

Um caso de um passageiro negro que registre em vídeo uma diferença de tratamento durante o embarque em primeira classe é exemplar justamente por isso. Enquanto sua documentação é demoradamente verificada, passageiros brancos entram e tomam seus lugares no vôo com uma simples apresentação do comprovante de passagem.

O vídeo, por si só, não permite ao observador conhecer todas as circunstâncias. É perfeitamente legítimo perguntar o que aconteceu, verificar os procedimentos da companhia aérea e considerar explicações alternativas.

O que não parece intelectualmente honesto é transformar a dúvida em certeza inversa: “foi apenas uma verificação normal”.

Pode ter sido. Mas também pode não ter sido.

A pergunta jornalisticamente correta é: por que a verificação ocorreu daquela maneira, naquele passageiro e naquele momento?

E existe uma segunda pergunta, talvez ainda mais incômoda: por que algumas pessoas parecem tão empenhadas em demonstrar que aquilo jamais poderia ser racismo?

É aqui que o debate se torna mais interessante.

Uma pessoa negra afirmar que nunca sofreu racismo é absolutamente possível. Experiências individuais não são uniformes.

Há negros que passaram a vida inteira sem perceber determinados episódios como discriminação, outros foram vítimas de situações explícitas, outros ainda sofreram formas tão sutis de preconceito que somente posteriormente compreenderam o que havia acontecido.

O problema começa quando uma experiência individual vira argumento universal.

Eu nunca sofri racismo.

Ótimo. Mas daí não decorre:

Logo, racismo não existe.

Do mesmo modo, uma pessoa branca pode afirmar que nunca discriminou ninguém. Isso é relevante para avaliar a conduta dela, mas não serve para eliminar a existência de práticas discriminatórias praticadas por outras pessoas.

A lógica é elementar.

A experiência individual não revoga a realidade social.

É justamente nesse ponto que determinadas discussões políticas descambam para uma espécie de campeonato de anedotas: um indivíduo relata uma situação de discriminação, outro responde que nunca passou por aquilo. Um terceiro diz que tem amigos negros que nunca reclamaram. Um quarto informa que conhece um negro rico que nunca teve problema.

E pronto: o racismo teria sido dissolvido por amostragem de conversa de botequim.

Ora, sociedades complexas não funcionam assim.

Também existe uma diferença entre contestar a interpretação de um episódio e negar a possibilidade de que o fenômeno exista.

A primeira atitude é saudável. A segunda pode produzir um efeito perverso: quando alguém denuncia uma discriminação, a sociedade passa a exigir da vítima uma espécie de prova impossível.

Ela precisa demonstrar a intenção do agente, apresentar testemunhas, explicar cada detalhe, provar que não exagerou e, de preferência, convencer também aqueles que já decidiram previamente que racismo é sempre uma invenção de quem reclama.

É uma inversão curiosa.

O suspeito ganha o benefício da dúvida.

A vítima recebe a obrigação de provar até aquilo que, por sua própria natureza, pode ocorrer de maneira subjetiva e silenciosa.

Mas há ainda uma questão que merece ser enfrentada sem medo: pessoas negras também podem reproduzir discursos que minimizam o racismo.

Isso não deveria ser uma descoberta escandalosa.

Negros não formam uma consciência política única.

Não existe um “cérebro negro coletivo”.

Pessoas negras têm ideologias diferentes, experiências diferentes, interesses econômicos diferentes, religiões diferentes e visões diferentes sobre o mundo.

Portanto, uma pessoa negra pode perfeitamente defender uma interpretação segundo a qual determinado episódio não foi racista.

O que não se pode fazer é transformar a cor da pele do comentarista em certificado de objetividade.

Sou negro e nunca sofri racismo.

Isso é um depoimento.

Não é uma tese científica.

Da mesma maneira:

Sou negro, portanto sei identificar todo episódio de racismo.

Também seria uma falácia.

O combate ao racismo precisa, portanto, de duas coisas simultâneas: evidência e disposição para enxergar.

Não se deve chamar qualquer constrangimento de racismo. Isso banaliza uma acusação gravíssima e pode destruir a própria capacidade de identificar casos reais.

Mas também não se deve fazer o movimento contrário: chamar de exagero toda denúncia que incomode nossas convicções políticas.

Entre a paranoia e a negação existe aquilo que o jornalismo deveria procurar: os fatos.

Se um passageiro foi submetido a uma verificação adicional, investigue-se o procedimento.

Se outros passageiros, em condições equivalentes, não foram submetidos à mesma exigência, pergunte-se por quê.

Se a companhia apresentar uma explicação objetiva, publique-se.

Se não apresentar, registre-se a ausência de explicação.

É assim que se enfrenta o problema.

Não com slogans.

Não com militância cega.

E tampouco com a velha e confortável frase: “isso é normal”.

Porque, às vezes, é.

Mas a história do racismo está cheia de coisas que foram consideradas “normais” até que alguém teve a coragem de perguntar por que eram normais.

Talvez seja essa a verdadeira batalha contra o chamado racismo passivo: não obrigar ninguém a enxergar racismo em tudo, mas impedir que alguém seja proibido de enxergá-lo em alguma coisa.

Combater o racismo significa combater também a cultura que o naturaliza.

E naturalizar não é necessariamente praticar.

Às vezes, é simplesmente olhar para o absurdo, dar de ombros e dizer:

Normal.”

Banalização e normalização muitas vezes, mesmo não andando juntas, causam o mesmo efeito final: a dificuldade do combate ao racismo.

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Uma bebê, duas versões e uma pergunta que não pode esperar

Uma bebê de apenas 28 dias desapareceu em Campo Grande. Tão pequena que sua vida ainda caberia inteira nos braços da mãe. Tão indefesa que qualquer palavra sobre o caso deveria começar pela única certeza que realmente importa: essa criança precisa ser encontrada.

O caso começou com contornos de um sequestro.

A mãe da recém-nascida, uma adolescente de 17 anos, contou inicialmente que havia conhecido uma mulher pela internet, em um grupo relacionado à doação de roupas para crianças. A aproximação teria começado durante a gravidez e, posteriormente, a mulher teria oferecido roupas, carrinho, um ensaio fotográfico e até trabalho como babá.

Na quinta-feira (6), a adolescente teria ido até uma residência no bairro Universitário acompanhada da irmã e levando a própria filha, de apenas 28 dias. A primeira versão apresentada à polícia dizia que as duas teriam sido mantidas no imóvel contra a vontade e que a bebê teria sido retirada delas.

O relato era suficientemente grave para mobilizar imediatamente as forças de segurança.

A Polícia Civil passou a investigar a possibilidade de sequestro e cárcere privado. O desaparecimento de uma criança tão pequena também levou à utilização de mecanismos nacionais de alerta, ampliando a procura para além de Campo Grande.

Mas a investigação ganhou uma reviravolta.

Durante os depoimentos, a mãe e a irmã apresentaram uma nova versão. Segundo informações divulgadas nesta sexta-feira, elas admitiram que o sequestro, da maneira como havia sido relatado inicialmente, não teria acontecido.

E é justamente aí que o caso deixa de ser apenas uma história sobre um possível sequestrador desconhecido.

A nova hipótese investigada pela Polícia Civil é ainda mais perturbadora: a bebê pode ter sido entregue a terceiros em razão de uma dívida atribuída ao pai da criança. A polícia apura, inclusive, uma possível relação dessa dívida com integrantes de uma facção criminosa. Nada disso, porém, pode ser tratado como fato definitivamente comprovado neste momento. São linhas de investigação.

A diferença não é pequena.

Entre dizer que uma criança foi arrancada dos braços da mãe por sequestradores e dizer que ela foi entregue deliberadamente a terceiros existe um abismo jurídico, policial e humano. E é justamente por isso que a investigação precisa separar aquilo que foi contado, aquilo que foi confirmado e aquilo que ainda precisa ser provado.

A polícia, segundo as informações divulgadas, não encontrou elementos que confirmassem a primeira narrativa apresentada pelas adolescentes. Elas chegaram a indicar um endereço onde supostamente teriam ocorrido os fatos, mas diligências realizadas no local não teriam confirmado as circunstâncias relatadas

Agora, a pergunta mudou.

Já não é apenas: quem sequestrou a bebê?

É também: para quem essa criança foi entregue, por que foi entregue e onde ela está?

Essa mudança de versão não diminui a gravidade do desaparecimento. Pelo contrário. Aumenta a necessidade de uma investigação rigorosa.

Uma recém-nascida não desaparece de uma história como quem desaparece de uma fotografia. Ela precisa estar em algum lugar. Alguém a recebeu. Alguém sabe onde está. Alguém pode ter visto alguma coisa.

E cada minuto importa.

O caso também expõe uma realidade que costuma permanecer escondida atrás das manchetes policiais: a vulnerabilidade de adolescentes, crianças e famílias submetidas a relações construídas pela internet. Uma conversa aparentemente inocente sobre roupas de bebê pode criar uma aproximação. Uma oferta de ajuda pode produzir confiança. Uma promessa de trabalho pode abrir a porta de uma casa.

A internet não inventou a maldade humana. Mas criou novas maneiras de aproximar desconhecidos.

Por isso, a história precisa ser contada com cuidado. Não para produzir vilões antes da hora, nem para transformar uma suspeita em sentença. A função da imprensa, especialmente diante de um caso envolvendo uma recém-nascida, é iluminar os fatos sem incendiar a investigação.

Há uma mãe adolescente. Há uma irmã adolescente. Há versões diferentes. Há uma investigação criminal em andamento. Há uma possível dívida. Há pessoas que precisam ser identificadas. E, acima de tudo, há uma bebê de 28 dias que não pode ser reduzida a uma estatística policial.

Ela tem nome, embora ainda seja pequena demais para compreender o tamanho da mobilização provocada pelo seu desaparecimento.

Enquanto adultos explicam, mudam versões, investigam e procuram respostas, ela permanece silenciosa.

E talvez seja justamente esse silêncio que torne tudo ainda mais angustiante.

Porque, neste momento, a pergunta mais importante de Campo Grande não é quem contou a primeira versão, nem quem contou a segunda.

É simplesmente esta:

Onde está a bebê?

Todo o restante pode esperar a investigação esclarecer.

Ela, não.

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Consórcio Guaicurus - imprensa aposta em polêmica no lugar da informação

Existe um vício recorrente no debate público brasileiro: transformar aquilo que parece estranho em sinônimo de ilegal. A lógica é simples, quase infantil: "Nunca vi isso, logo deve ser irregular". O problema é que o Direito não julga impressões. Julga normas.

Foi exatamente isso que aconteceu após a divulgação de que a empresa responsável pela aquisição do Consórcio Guaicurus foi constituída apenas dois dias antes da negociação. Bastaram algumas horas para surgirem sentenças definitivas nas redes sociais: "empresa de fachada", "laranja", "fraude". Calma. Uma coisa de cada vez.

A primeira pergunta é objetiva: criar uma empresa especificamente para comprar outra empresa ou assumir uma concessão pública é permitido?

A resposta, goste-se ou não dela, é sim.

O Direito Empresarial conhece muito bem esse tipo de operação. Grandes grupos econômicos fazem isso diariamente por meio das chamadas Sociedades de Propósito Específico (SPEs). Trata-se de uma empresa criada para realizar uma operação determinada: adquirir um ativo, administrar um empreendimento, desenvolver um projeto ou assumir determinado negócio. Não existe, na legislação brasileira, qualquer exigência de que a empresa tenha meses ou anos de existência para participar de uma aquisição.

Em outras palavras, a data de nascimento da empresa não define a legalidade do negócio. Se fosse assim, toda startup estaria condenada à ilegalidade durante seu primeiro ano de vida.

Até aqui, portanto, existe mais estranhamento do que problema jurídico.

Mas é justamente nesse ponto que muitos encerram a discussão quando ela, na verdade, apenas começa.

Porque uma coisa é comprar uma empresa privada qualquer. Outra, completamente diferente, é assumir o controle de uma concessionária de serviço público.

Nesse momento, deixa-se o terreno do Direito Empresarial para ingressar no Direito Administrativo.

A pergunta muda completamente.

Já não interessa saber quando a empresa foi criada. Interessa descobrir se ela possui capacidade para administrar um serviço essencial à população.

Pode uma empresa recém-constituída assumir uma concessão? Pode. Desde que demonstre capacidade técnica, econômica e financeira para cumprir todas as obrigações contratuais.

É aqui que entram os verdadeiros questionamentos.

Qual é o patrimônio efetivo do grupo controlador?

Quais garantias financeiras foram apresentadas?

Existe capital suficiente para renovar frota, manter a operação, pagar funcionários, cumprir investimentos e responder por eventuais prejuízos?

O capital social inicial de R$ 10 mil, isoladamente, não resolve nem condena a questão.

Capital social não se confunde, necessariamente, com patrimônio disponível ou capacidade financeira do grupo econômico. Muitas operações milionárias começam com empresas constituídas com capital reduzido e recebem aportes posteriores dos sócios ou financiamentos específicos.

Isso explica por que simplesmente repetir "o capital era de apenas R$ 10 mil" pode impressionar o leitor, mas não basta para demonstrar irregularidade.

A análise precisa ser mais sofisticada.

Se a empresa não apresentar patrimônio compatível, garantias suficientes ou capacidade operacional para assumir uma concessão desse porte, aí, sim, surge um problema que merece investigação.

Percebe a diferença?

A possível fragilidade não está na certidão de nascimento da empresa.

Está na robustez econômica que ela consegue demonstrar.

É justamente por essa razão que órgãos de controle, como o Tribunal de Contas, costumam concentrar suas atenções menos na constituição da sociedade e mais na transferência da concessão. Afinal, o interesse público não consiste em saber quantos dias de vida tem o CNPJ, mas se os passageiros continuarão encontrando ônibus nas ruas amanhã.

No fundo, a controvérsia revela um erro bastante comum: misturar dois ramos distintos do Direito.

No Direito Empresarial, a constituição da empresa parece seguir uma prática absolutamente conhecida do mercado.

No Direito Administrativo, entretanto, permanece a obrigação de provar que essa empresa, e, sobretudo, o grupo econômico que a controla, possui condições concretas de assumir um contrato que afeta diariamente centenas de milhares de usuários.

Quem transforma essas duas perguntas em uma só termina produzindo mais calor do que luz.

O jornalismo presta melhor serviço quando explica do que quando condena antecipadamente.

No caso do Consórcio Guaicurus, a discussão realmente relevante talvez nunca tenha sido se a empresa nasceu dois dias antes da compra.

A pergunta que importa continua sendo outra: quem assumirá o transporte coletivo de Campo Grande possui musculatura financeira, capacidade administrativa e compromisso suficiente para entregar um serviço melhor do que aquele que pretende substituir?

Essa resposta não será encontrada na data de abertura do CNPJ.

Será encontrada nas garantias apresentadas, na fiscalização do poder público e, sobretudo, na qualidade do transporte que a população receberá daqui para frente.

Coisas que na atual situação, já não funcionam corretamente.

Se o poder público não cumprir sua parte, é muito provável que nenhum grupo empresarial, nascido ontem ou no século passado, vá cumprir a sua.

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Amai vossos inimigos

Algumas vezes, fotografias não registram apenas um instante, elas capturam um dilema moral.

A imagem feita por Mark Brunner, em Ann Arbor, no Michigan, no verão de 1996, pertence a essa categoria. Ela não mostra um discurso histórico, uma vitória política ou uma multidão comemorando. O que ela eterniza é uma escolha.

No asfalto, um homem identificado com símbolos ligados ao supremacismo branco está caído. Sobre ele, protegendo-o dos golpes que vêm de todos os lados, uma jovem negra de apenas dezoito anos.

Em torno dos dois, uma multidão enfurecida. 

Os rostos revelam indignação; os braços, a disposição para a violência. Bastava mais um minuto para que a justiça cedesse lugar ao linchamento.

O nome daquela jovem era Keshia Thomas.

Sua atitude desafiou tanto a lógica dos extremistas quanto a dos justiceiros. Ela não correu para defender uma ideologia. Correu para impedir que o ódio mudasse apenas de endereço.

A fotografia provoca desconforto justamente porque desmonta uma das ilusões mais sedutoras do nosso tempo: a de que a violência se torna virtuosa quando dirigida contra quem julgamos merecê-la.

Keshia não ignorava o significado daqueles símbolos. Sabia muito bem o que representavam para uma mulher negra nos Estados Unidos. Mesmo assim, recusou-se a aceitar que a barbárie pudesse ser combatida reproduzindo seus próprios métodos.

Sua decisão contém uma lição incômoda.

O ser humano costuma acreditar que a maldade pertence sempre ao outro. Os intolerantes seriam apenas aqueles que vestem capuzes brancos, fazem saudações nazistas ou carregam bandeiras do ódio.

Mas a fotografia lembra que a intolerância também pode vestir a roupa da multidão convencida de sua superioridade moral.

Quando dezenas de pessoas gritam "matem o nazista", a frase pode até nascer de uma indignação compreensível. Ainda assim, ela revela o mesmo mecanismo que sustenta todo fanatismo: a desumanização do adversário.

Esse talvez seja o detalhe mais importante da imagem. Keshia não tentou convencer aquele homem de que estava errado. Também não lhe ofereceu absolvição. Fez algo muito mais difícil: impediu que ele fosse reduzido à condição de um corpo descartável.

Sua frase atravessou as décadas porque sintetiza essa postura: ninguém aprende a bondade apanhando.

A política contemporânea, as redes sociais e boa parte dos debates públicos parecem caminhar na direção oposta. Cada grupo acredita possuir o monopólio da virtude e, por isso, concede a si mesmo licença para humilhar, cancelar ou destruir quem pensa diferente. Muda-se o alvo, preserva-se o método.

A imagem de Ann Arbor continua atual porque rompe essa engrenagem.

Ela nos lembra que princípios não servem para proteger apenas quem admiramos. Seu verdadeiro valor aparece quando somos chamados a aplicá-los em favor de quem consideramos indigno deles.

O homem caído no chão talvez nunca tenha abandonado suas convicções. Talvez tenha mudado. Pouco importa para compreender o sentido daquela fotografia. O que realmente permaneceu foi a decisão de uma jovem que recusou permitir que o ódio escrevesse mais uma página de sua própria história.

No fim das contas, Mark Brunner não fotografou apenas um resgate. Fotografou o instante em que um corpo disse "não" à vingança. E, às vezes, um único "não" vale mais para a civilização do que milhares de gritos em nome da justiça.

sábado, 25 de julho de 2026

Tereza de Benguela ainda espera sua coroação

Algumas datas o calendário registra, mas a consciência nacional insiste em deixar esquecidas.

O 25 de julho, Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha, é uma delas.

O Brasil gosta de celebrar personagens depois de neutralizá-los.

Enquanto vivos — ou enquanto sua memória ainda representa perigo — são tratados como incômodos. Depois, recebem nome de rua, placa comemorativa, postagem institucional e, se houver orçamento, um seminário de duas horas. O conflito desaparece; resta apenas a homenagem.

Tereza de Benguela não foi feita para caber nesse ritual burocrático.

No século XVIII, liderou o Quilombo do Quariterê, na região que hoje pertence ao Mato Grosso.

Governou uma comunidade composta por negros e indígenas, organizou defesa militar, estabeleceu formas de comércio, administrou justiça e demonstrou que liberdade não era apenas um sonho, mas também uma forma concreta de governo.

Enquanto muitos ainda discutiam quem teria direito à humanidade, ela já administrava uma sociedade onde essa humanidade era pressuposto.

É curioso notar como o imaginário brasileiro conhece rainhas europeias, imperatrizes francesas e até personagens fictícias da nobreza inglesa, mas mal consegue reconhecer a existência da chamada Rainha Tereza. Talvez porque sua coroa tenha sido forjada não em ouro, mas em resistência.

O Dia da Mulher Negra não existe para criar uma categoria à parte de mulheres. Existe porque a história brasileira criou uma categoria à parte de esquecimentos.

A mulher negra ajudou a construir este país como trabalhadora, agricultora, artesã, professora, enfermeira, cientista, artista, escritora, mãe e líder comunitária.

Ainda assim, frequentemente aparece apenas quando o assunto é desigualdade. É como se o Brasil enxergasse sua dor antes de reconhecer sua grandeza.

Existe uma diferença enorme entre representar e pertencer. Muitas campanhas publicitárias descobriram a estética da diversidade. Já a igualdade continua sendo um projeto em construção. Celebrar mulheres negras em julho e ignorar seus desafios em agosto é apenas transformar memória em marketing.

Tereza de Benguela representa exatamente o contrário dessa lógica. Sua história não é um convite à vitimização, mas à autonomia.

Ela não entrou para a História porque sofreu, entrou porque governou, organizou, resistiu e liderou. Sua biografia desafia a narrativa confortável que reduz pessoas negras apenas ao papel de vítimas da escravidão. Antes de tudo, ela foi protagonista de sua própria história.

Talvez seja justamente isso que torne sua memória tão necessária. Um país que conhece apenas seus mártires dificilmente aprenderá a reconhecer seus estadistas.

No fim das contas, o Dia Nacional de Tereza de Benguela não deveria servir apenas para lembrar uma mulher extraordinária do século XVIII. Deveria servir para perguntar quantas Terezas ainda permanecem invisíveis em escolas, universidades, empresas, laboratórios, redações, tribunais e parlamentos.

Porque memória não é um exercício de nostalgia. É um compromisso com aquilo que escolhemos não esquecer.

E, enquanto Tereza de Benguela continuar sendo mais conhecida em cerimônias oficiais do que nas salas de aula, o Brasil seguirá provando que homenagear o passado é muito mais fácil do que aprender com ele.


sexta-feira, 24 de julho de 2026

A Indústria brasileira aceita a acusação americana?

Achei curioso o patriotismo da CNI e da ABIMAQ: o do réu que aceita a acusação antes do julgamento

Existe um velho ditado no Direito segundo o qual quem confessa facilita o trabalho da acusação. Pois bem.

Se depender da reação inicial de parte da representação da indústria brasileira, os Estados Unidos nem precisarão gastar muito tempo tentando convencer o mundo de que o Brasil convive com trabalho forçado em sua cadeia produtiva. Alguns dos nossos representantes parecem dispostos a fazer esse serviço de graça.

Diante do anúncio das tarifas americanas, justificadas pela gravíssima acusação de utilização de trabalho forçado, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (ABIMAQ) correram para defender a negociação direta e advertir contra medidas de reciprocidade.

Negociar? Evidentemente. Diplomacia não é uma modalidade de luta livre.

Mas há uma questão anterior, muito anterior.

Onde estava a indignação contra a acusação?

Porque uma coisa é reconhecer que uma guerra comercial produz perdas para todos. Outra, muito diferente, é agir como se a acusação fosse apenas um detalhe burocrático no meio da negociação.

Quando uma potência econômica afirma que determinado país merece ser tarifado porque estaria associado a práticas de trabalho forçado, isso não representa apenas uma divergência comercial. É um ataque à reputação internacional de toda a sua produção.

A primeira reação esperada de quem representa a indústria seria perguntar: onde estão as provas?

Em vez disso, o debate rapidamente migrou para outro terreno: "não reajam", "não façam reciprocidade", "negociem".

Ora, negociar o quê? A tarifa ou a culpa?

Porque a impressão produzida é devastadora. Quem observa de fora pode concluir que, se as próprias entidades industriais brasileiras não contestam energicamente a acusação, talvez ela contenha algum fundo de verdade.

É evidente que isso não significa que defender reciprocidade seja necessariamente a melhor estratégia. Medidas dessa natureza precisam ser avaliadas com racionalidade econômica e diplomática. O ponto não é esse.

O problema é inverter a ordem das prioridades.

Antes de discutir como responder à sanção, seria razoável rejeitar publicamente a narrativa que tenta justificar a própria sanção.

Caso contrário, aceita-se a denúncia e passa-se diretamente à discussão da pena.

Mas existe uma ironia ainda maior.

Boa parte do empresariado organizado que hoje cobra do presidente Lula uma solução rápida para a crise foi, durante anos, uma das mais entusiasmadas bases de sustentação política do bolsonarismo.

Não estamos falando apenas de apoio eleitoral. Estamos falando de um ambiente político que tratou qualquer gesto de alinhamento automático aos Estados Unidos de Donald Trump como demonstração de patriotismo.

Essa mesma galera apoiava que o próximo presidente deveria ser o governador carioca de São Paulo, Tarcísio de Freitas que subiroa a rampa do Planalto com o boné "make América great again".

Agora, quando essa relação produz consequências econômicas e diplomáticas desfavoráveis ao Brasil, a responsabilidade desaparece como num passe de mágica.

Os responsáveis políticos pelo ambiente que desembocou nesse conflito tornam-se invisíveis.

E toda a cobrança recai sobre Lula, como se tivesse sido seu governo a incentivar confrontos institucionais, atacar parceiros comerciais ou transformar a política externa em instrumento de guerra ideológica.

É uma curiosa versão da responsabilidade seletiva.

Privatizam-se os aplausos quando a aposta parece render dividendos políticos.

Socializam-se os prejuízos quando a conta finalmente chega.

Não deixa de ser curioso que parte dos mesmos setores empresariais que tantas vezes denunciaram um Estado "intervencionista" agora exijam justamente desse Estado a solução imediata para uma crise cuja gênese política ajudaram a alimentar.

O governo, evidentemente, tem a obrigação de defender os interesses nacionais. É para isso que existe.

Mas também seria saudável que as entidades empresariais demonstrassem o mesmo vigor na defesa da honra da indústria brasileira que demonstram ao defender a necessidade de preservar mercados.

Porque reputação também é ativo econômico.

Aliás, talvez seja o principal deles.

Uma indústria cuja própria representação parece hesitar em contestar uma acusação internacional gravíssima já entra na mesa de negociação em posição defensiva.

Não porque perdeu a disputa comercial.

Mas porque, antes mesmo da primeira rodada, aceitou discutir o tamanho da punição sem exigir que a acusação fosse demonstrada.

Isso não é pragmatismo.

É rendição argumentativa.

E quem se rende na narrativa dificilmente vence na negociação.

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Fim do Panem et Circenses Hermano

Durante anos, o futebol mundial comprou uma narrativa confortável.

A Argentina não era apenas uma seleção vencedora, era apresentada como protagonista de uma epopeia cinematográfica. Cada vitória parecia fazer parte de um roteiro previamente aprovado pela publicidade, pelas transmissões televisivas e pelas redes sociais. O espetáculo precisava de um herói, e o herói precisava levantar a taça.

Mas toda mitologia encontra um dia em que o palco desaba.

A final da Copa expôs uma Argentina muito diferente daquela embalada pelo romantismo dos documentários e das campanhas publicitárias. O verniz caiu. Restou o comportamento.

Lionel Messi protagonizou um lance que dificilmente combina com a imagem do "gênio absoluto" construída ao longo da última década. Em vez de seguir o jogo, preferiu tentar convencer a arbitragem de que Marc Cucurella deveria ser expulso. Não foi um gesto de liderança. Foi uma tentativa pouco digna de influenciar a decisão do árbitro. Quando um dos maiores jogadores da história precisa recorrer ao teatro para alterar uma partida, algo já não vai bem.

A derrota, porém, retirou definitivamente a maquiagem.

Nos minutos finais, a seleção argentina transformou a frustração em agressividade. Entradas desnecessárias, empurrões, discussões e um comportamento incompatível com quem tantas vezes exigiu respeito ao "espírito esportivo". O futebol aceita a derrota como parte de sua essência. O destempero, não.

E então veio a cena que talvez simbolize toda a noite.

Na cerimônia de premiação, enquanto a Espanha celebrava o título, os jogadores argentinos permaneceram de costas para a festa dos campeões. O gesto pretendia demonstrar indignação; acabou revelando incapacidade de reconhecer o mérito do adversário. Há derrotas dolorosas, mas existe uma diferença enorme entre sofrer e desrespeitar.

Os grandes campeões também são medidos pela forma como perdem.

Foi justamente isso que desmontou uma narrativa construída durante anos.

A Argentina sempre gostou de apontar arrogância nos outros. Criticou europeus, brasileiros e qualquer seleção que demonstrasse excesso de confiança. Na primeira grande derrota depois da conquista mundial, revelou exatamente aquilo que dizia combater.

A ironia é inevitável.

Durante muito tempo, quem questionava certos privilégios concedidos à seleção argentina era tratado como conspiracionista. Cada lance polêmico era relativizado. Cada excesso era romantizado como "raça". Cada reclamação era transformada em "personalidade". Quando vence, chama-se paixão, quando perde, descobre-se que muitas vezes era apenas falta de controle.

A final funcionou como um espelho.

A Espanha venceu o jogo. Mas o futebol venceu algo maior: a necessidade de fabricar heróis intocáveis.

Nenhum craque está acima da crítica.

(Viu, Neymar?)

Nenhuma seleção merece imunidade moral apenas porque possui uma boa história para vender. O esporte continua sendo fascinante justamente porque destrói mitologias quando a bola rola.

O velho panem et circenses sempre dependeu da ilusão. Bastava oferecer espetáculo para que ninguém percebesse os bastidores. A final desta Copa fez exatamente o contrário: interrompeu o espetáculo e acendeu as luzes do teatro.

Sob essa iluminação menos romântica, a Argentina apareceu sem o figurino da epopeia.

E, talvez pela primeira vez em muito tempo, foi desmascarada diante do mundo.

quarta-feira, 22 de julho de 2026

A Odisseia

A sétima arte sempre foi fascinada pela Odisseia, do cavalo de Troia que marcou o antepassados dessa história, aos seres míticos que vão do ciclope polifemo, sereias, deuses e até almas no inferno.

Mas curiosamente, o novo filme de Milan é centrado nas emoções humanas. Até a sua componente mitológica assume aqui uma posição coadjuvante.

A montagem favorece dois núcleos da história, separados por 10 anos e movidos por um reencontro. Reparem que quando as figuras míticas surgem, elas nunca se tornam mais importantes que seus personagens humanos. Não existe cortina de fumaça em A Odisseia.

Eu creio é que o filme vai deixar o próximo Oscar menos diverso. Som, fotografia e efeitos especiais estão na mira por estatuetas. Já as atuações foram bem calibradas, aqui temos um filme muito mais nivelado.

Existe um destaque especial para uma cena feita sob medida para colocar Anne Hathaway na disputa pelo Oscar. Até Matt Damon tem chances, embora sua interpretação seja bastante linear.

O grande destaque para mim foi Robert Pattinson, e ele cria um dos personagens mais inventivos desse filme.

Nolan continua encontrando dificuldade para aprofundar suas personagens femininas. E isso chama atenção justamente porque a própria Odisseia oferece espaço para que elas ocupem um protagonismo maior.

Lupita Nyong'o faz uma ponta cheia de vida, e com mais tempo de tela, poderia brilhar ainda mais. Do ponto de vista do roteiro, Nolan mastiga sua trama, e mastiga bem. É claro que ele continua priorizando a experiência cinematográfica, em detrimento de uma narrativa mais complexa. Mas o fato é que ele conseguiu transformar toda a grandiosidade da Odisseia em um filme comercial para o grande público.

Ao simplificar algumas camadas da obra de Homero, Nolan faz com que certos conflitos e personagens fiquem presos às funções que precisam cumprir dentro da jornada.

O Odisseu é sempre o mesmo homem tentando retornar, enquanto Penélope permanece muito ligada à espera. Existe emoção, existe nuance e existe drama nesses personagens, mas a narrativa frequentemente repete esses movimentos em vez de aprofundá-los. Ambos atravessam 10 anos de perdas e provações, mas suas transformações internas são mais sugeridas do que verdadeiramente exploradas.

Ainda assim, existe um brilho e um frescor genuinos em A Odisseia. É possível se perder, no bom sentido, nas cenas mais incríveis desse filme. Se deixar ser arrebatado pela Ilha de Circe ou pela minha sequência favorita de todas, a Descida ao Mundo dos Mortos.

No fim, o cinema é, antes de tudo, encantamento. E Nolan agarra nessa ideia com força na sua mais nova obra-prima. Uma experiência feita para ser vivida nas telonas e que tem tudo para se tornar um dos seus filmes mais marcantes.

TEXTO DE:
Thiago Muniz

sábado, 18 de julho de 2026

Capitalismo Identitário vende mais

O capitalismo possui uma qualidade que seus críticos frequentemente subestimam: ele raramente combate aquilo que pode vender.

Durante décadas, acreditou-se que os movimentos identitários representavam uma ameaça estrutural à lógica do mercado. Afinal, denunciavam desigualdades históricas, exclusões e mecanismos de poder. Mas o mercado fez aquilo que sempre faz diante de uma ameaça: transformou-a em produto.

Hoje, a diversidade possui departamento de marketing. A resistência possui identidade visual. A contestação possui patrocinador.

E, curiosamente, o preço dessa incorporação foi a redução da complexidade humana.

Uma filósofa escreve sobre metafísica? O mercado pergunta onde está o feminismo.

Um intelectual negro publica um livro sobre astronomia, lógica ou estética? Logo aparece alguém perguntando quando virá sua obra sobre racismo.

Um escritor indígena quer produzir ficção científica? Espera-se dele um romance sobre ancestralidade.

Um pesquisador LGBT deseja estudar economia monetária? A editora prefere um ensaio sobre sexualidade.

Não se trata de censura estatal. É algo mais sofisticado.

É o algoritmo das expectativas.

O mercado descobriu que identidades vendem melhor quando permanecem dentro de embalagens previsíveis. Seus guetos.

Cada autor passa a ocupar um nicho cuidadosamente delimitado. Quanto mais específica a identidade, mais específico o público consumidor. Quanto mais específico o público, mais fácil segmentar campanhas, anúncios e eventos.

A lógica econômica agradece.

O resultado é um paradoxo digno de estudo.

Movimentos que nasceram para romper categorias acabam frequentemente aprisionados nelas.

A mulher deixa de ser filósofa para se tornar "filósofa feminista". O negro deixa de ser intelectual para virar "intelectual negro". O indígena passa a ser antes representante de uma identidade do que pesquisador de um campo do conhecimento.

Enquanto isso, curiosamente, permanece quase intacto o velho privilégio da universalidade.

Autores brancos, sobretudo homens, continuam sendo autorizados a escrever sobre praticamente qualquer assunto.

Podem publicar livros sobre religião, física, literatura, política internacional, futebol, inteligência artificial ou filosofia moral sem que alguém lhes cobre representar sua identidade racial ou de gênero.

Sua condição é percebida como neutra, universal. A dos demais, como específica.

Essa assimetria revela um fenômeno curioso: a identidade virou requisito apenas para alguns.

O capitalismo percebeu que vender universalidade continua sendo lucrativo para uns; vender identidade é mais rentável para outros.

É uma divisão de mercado.

Não por acaso, editoras organizam coleções inteiras baseadas na identidade do autor. Livrarias criam estantes temáticas. Festivais montam mesas compostas menos pela afinidade intelectual do que pela composição demográfica. Em muitos casos, a biografia passa a preceder a bibliografia.

O autor transforma-se em certificado de autenticidade.

Naturalmente, isso não significa que livros sobre feminismo, racismo ou colonialismo não sejam necessários. São. E continuam sendo fundamentais para compreender a sociedade.

O problema começa quando esses temas deixam de ser uma escolha intelectual para se tornarem uma expectativa comercial permanente.

Quando uma mulher precisa falar sobre mulheres para ser considerada legítima.

Quando um negro precisa falar sobre racismo para ser convidado.

Quando um indígena precisa falar apenas sobre povos indígenas para ser publicado.

Nesse momento, o mercado realiza sua mágica habitual.

Finge celebrar a diversidade enquanto organiza novas prateleiras.

Troca o velho universalismo excludente por um multiculturalismo compartimentado.

Cada grupo ganha seu corredor.

Cada corredor recebe sua etiqueta.

Cada etiqueta vira estratégia de vendas.

E todos saem convencidos de que venceram.

Talvez essa seja a maior vitória do capitalismo contemporâneo: convencer seus críticos de que liberdade consiste em escolher a própria cela — desde que ela seja suficientemente rentável.



sábado, 11 de julho de 2026

A Normalização da Barbárie

Não foi o primeiro vídeo de violência que vimos esta semana.

Também não será o último.

Primeiro aparece uma câmera de segurança registrando um assalto. Depois, um espancamento. Em seguida, um feminicídio. Mais tarde, uma briga de trânsito. Logo depois, uma criança sendo agredida pelo próprio pai.

Entre uma tragédia e outra, entram propagandas, vídeos engraçados, gols da rodada, receitas de bolo e danças virais. Tudo na mesma tela. Tudo na mesma velocidade.

A violência deixou de ser apenas um fato. Tornou-se um produto.

O caso da menina de três anos chutada pelo próprio pai é revoltante. Deveria nos causar indignação profunda. Deveria interromper qualquer conversa banal do dia. Deveria provocar um silêncio desconfortável.

Mas o algoritmo não permite.

Antes que a indignação amadureça, surge outro horror para disputar nossa atenção. O espanto dura algumas horas; depois é substituído pela próxima atrocidade da fila.

O problema não está em noticiar a violência. A imprensa tem o dever de informar.

O perigo começa quando a violência deixa de ser notícia para se transformar em entretenimento involuntário, em conteúdo de consumo rápido, em mercadoria capaz de gerar cliques, compartilhamentos e minutos de permanência na tela.

Pouco a pouco, nossa sensibilidade vai sendo desgastada.

O primeiro vídeo choca.

O décimo impressiona menos.

O centésimo é apenas mais um.

É assim que a barbárie se normaliza: não porque passamos a concordar com ela, mas porque nos acostumamos à sua presença.

A repetição produz um efeito perverso. Continuamos dizendo que achamos tudo horrível, mas reagimos cada vez menos. O horror permanece; quem muda somos nós.

Talvez por isso tanta gente assista a uma cena de extrema violência e, poucos segundos depois, deslize o dedo para assistir a um vídeo de humor. Não por crueldade deliberada, mas porque fomos treinados a consumir emoções em série, sem tempo para elaborá-las.

Uma sociedade que vê diariamente crianças espancadas, idosos abandonados, mulheres assassinadas, professores agredidos e pessoas executadas diante de câmeras corre um risco silencioso: perder a capacidade de distinguir o extraordinário do cotidiano.

E esse talvez seja o triunfo mais perverso da violência.

Ela não vence apenas quando machuca uma vítima.

Vence quando deixa de nos surpreender.

No dia em que uma menina de três anos agredida pelo próprio pai se tornar apenas "mais uma notícia", a derrota não será apenas daquela criança.

Será de todos nós.

Sem ter o que fazer, colunista repercute notícia indescritível

 

Algumas notícias escandalizam pelo conteúdo. Outras, pela redação. E, de vez em quando, aparece uma que consegue a proeza de fazer as duas coisas ao mesmo tempo.

Um amigo me manda uma manchete:

"Presa por fraude na Educação, dentista tinha gráfica com registro para criar bois em Terenos."

Parei.

Li outra vez.

Pensei que talvez o problema fosse meu.

Li uma terceira.

Continuava sem saber se a dentista havia sido presa pela fraude, pela gráfica, pelos bois ou pelo registro.

Notem que não estamos diante de uma questão de estilo. Não é literatura. É sintaxe. É lógica. É comunicação. A manchete — essa pobre criatura que deveria ser a parte mais clara de uma reportagem — resolveu brincar de enigma.

É evidente que, ao entrar na matéria, entende-se (ou quase), que a investigação aponta para um suposto esquema envolvendo empresas, entre elas uma gráfica. Muito bem. Isso é informação. Isso faz sentido. Isso explica o contexto.

Mas a manchete preferiu outra estratégia: jogar palavras numa mesma frase e deixar o leitor montar o quebra-cabeça.

É quase um novo gênero jornalístico: o "complete as lacunas".

Imaginem o precedente.

"Preso por peculato, advogado tinha churrascaria para venda de sentenças."

"Investigada por fraude na saúde, aeromoça possuía salão de beleza com registro para vender pastel."

Tudo rigorosamente verdadeiro — e rigorosamente inútil para explicar o fato principal.

Há quem imagine que isso seja um detalhe. Não é.

Uma manchete mal construída não é apenas um problema de português. É um problema de informação. O jornalismo vive da precisão das palavras. Quando elas deixam de esclarecer e passam a confundir, algo essencial se perde.

E aqui mora uma ironia deliciosa — deliciosa apenas do ponto de vista literário, registre-se. Estamos falando de um caso que investiga, justamente, desvios de recursos da educação. Educação. Aquela velha senhora que deveria ensinar interpretação de texto.

No fim, quem acabou precisando de aulas de interpretação foi o leitor da manchete.

Mas há algo mais preocupante.

Vivemos uma época em que muita gente lê apenas os títulos das reportagens. Não por preguiça, necessariamente. Porque o cotidiano é atropelado, as redes sociais aceleram tudo e a manchete virou, para milhões de pessoas, a própria notícia.

Ora, se o título não consegue explicar o fato, ele produz exatamente o contrário daquilo que o jornalismo deveria oferecer: luz.

Passa a fabricar ruído.

E ruído é o oxigênio da desinformação.

Não se trata de patrulhar redações nem de exigir perfeição gramatical como quem corrige prova de vestibular. Erros acontecem. Mas há uma diferença entre um deslize e uma construção que embaralha completamente a hierarquia das informações.

O episódio investigado é grave. Se houve fraude, que os responsáveis respondam por ela com todas as garantias do devido processo legal e, se condenados, com todo o rigor da lei.

Mas façamos um favor ao leitor.

Da próxima vez, contem primeiro a notícia.

Depois, se acharem relevante, expliquem que havia uma gráfica, um registro para comércio de bovinos, uma empresa, um contrato ou qualquer outro elemento da investigação.

Porque, do jeito que foi escrito, o único crime cuja materialidade ficou evidente já na manchete foi um atentado contra a clareza da língua portuguesa.

E esse, infelizmente, continua sendo um delito cotidiano contra o leitor.