segunda-feira, 29 de junho de 2026

Morre Grazielle Machado: um debate sobre a morte silenciosa

É curioso como a nossa percepção do perigo funciona.

Tememos o avião, mas morremos na estrada. Tememos o assalto, mas ignoramos a hipertensão. Tememos grandes conspirações internacionais, enquanto uma bactéria microscópica pode estar fazendo turismo na salada do almoço.

O caso da ex-deputada estadual Grazielle Machado, cuja morte ocorreu após um grave quadro infeccioso que levou as autoridades a investigarem uma possível contaminação alimentar, devolve ao debate público um tema que só desperta interesse quando já é tarde demais.

Porque bactéria não dá entrevista.

Salmonella não publica manifesto.

Escherichia coli não disputa eleição.

Elas apenas fazem aquilo que a biologia lhes ensinou a fazer: multiplicar-se quando encontram um ambiente favorável. Somos nós que lhes oferecemos esse ambiente quando relaxamos na higiene, interrompemos a cadeia de refrigeração, manipulamos alimentos de qualquer maneira ou acreditamos que "sempre foi assim e nunca aconteceu nada".

A tragédia possui um talento perverso para ensinar aquilo que a prudência jamais conseguiu.

É impressionante como ainda existe quem trate intoxicação alimentar como se fosse apenas "uma dor de barriga". Não é.

Pode ser. Frequentemente é. Mas pode não ser.

Dependendo do microrganismo, da quantidade ingerida, da idade da pessoa, de doenças pré-existentes ou simplesmente da resposta do organismo, um quadro aparentemente banal transforma-se numa emergência médica em poucas horas.

A natureza não negocia.

Ela não pergunta em quem você votou, qual é sua religião, sua renda ou quantos seguidores possui nas redes sociais.

A bactéria é profundamente democrática. Contamina ricos e pobres com a mesma eficiência.

E há outro aspecto que merece reflexão.

Vivemos numa sociedade que desenvolveu uma curiosa capacidade de transformar qualquer assunto em guerra ideológica. Se um alimento faz mal, alguém culpa o governo. Outro culpa a oposição. Um terceiro culpa o capitalismo. Um quarto culpa a globalização. Enquanto isso, a bactéria continua trabalhando, absolutamente indiferente às hashtags do momento.

A realidade não muda porque escolhemos uma narrativa confortável.

Segurança alimentar exige fiscalização séria, responsabilidade dos produtores, cuidado dos comerciantes e, sobretudo, atenção de cada consumidor. Não existe decreto que substitua a higiene das mãos. Não existe discurso que refrigere um alimento deixado horas sobre a mesa. Não existe polarização capaz de matar uma bactéria.

Existe apenas prevenção.

E prevenção tem um defeito enorme: ela raramente vira manchete.

Ninguém noticia o restaurante que armazenou corretamente seus alimentos.

Ninguém entrevista a cozinheira que lavou adequadamente os utensílios.

Ninguém faz reportagem sobre a família que descartou um alimento suspeito e, justamente por isso, não adoeceu.

A prevenção é invisível. Seu sucesso consiste exatamente em impedir que algo aconteça.

As manchetes pertencem às tragédias.

Talvez o legado mais importante de uma morte como essa seja recordar uma verdade elementar que nossa pressa costuma esconder: o maior perigo nem sempre faz barulho. Às vezes, ele chega silenciosamente, senta-se à mesa conosco e espera apenas a primeira garfada.

E, quando percebemos sua presença, frequentemente já não há mais espaço para discursos. Apenas para médicos, hospitais e uma pergunta inevitável: será que isso poderia ter sido evitado?

GRAZIELLE MACHADO

Grazielle Salgado Machado (1980–2026) foi uma publicitária, professora universitária e política brasileira de grande destaque em Mato Grosso do Sul.

Nascida em Campo Grande e filha de tradicionais figuras políticas, construiu uma sólida trajetória institucional com forte defesa da representatividade feminina.


NOSSOS VOTOS DE SOLIDARIEDADE À FAMÍLIA

segunda-feira, 22 de junho de 2026

É o show das BETs na Cazé TV

A Cazé TV se vendeu completamente para as BETs e quase ninguém está falando disso, né?

Porque quando são as mulheres blogueiras, aí todos caem de críticas e com razão. Mas quando é o Casimiro, o gordinho gente boa, aí passa-se pano.

Você já viu os números da CazéTV? Quantas pessoas eles estão atingindo? Quantas pessoas estão inscritas? Quantas pessoas estão assistindo as lives que eles estão fazendo? Você viu os números?

Gente que apostava pouco recebe mais estímulo. Gente vulnerável agora passa a ser bombardeada por isso o dia inteiro por uma pessoa que ele gosta e confia, o Cazé

O que passa pano é o resumo da transmissão da CazéTV e de todo o futebol brasileiro em relação ao futebol brasileiro.

É uma passação de pano para uma seleção medíocre, uma seleção de influenciadores, de estrelinhas, de bilionários que sofreu muito para fazer três gols no Haiti.

Aí o menino Ney, o cara não consegue nem viajar que se lesiona, que comemorou a sua convocação induzindo as pessoas a jogar em BET. Está lá ocupando o lugar de outro atacante.

A seleção tem que ganhar para ficar nos Estados Unidos para não viajar para o México porque viajar desgasta. Ah é? Vai desgastar os bilionários fazer uma viagem num vôo particular fretado de primeira classe. É um homem lamber na bola do outro, assim uma coisa pornográfica. E tudo isso financiado por casa de apostas. 

Gente, hipocrisia tem limites.

Se você acha que isso é correto, continua, mas pelo menos assuma. Não seja hipócrita não de ficar pagando de: “ah! eu não gosto disso, eu critico isso…”, mas está aí, babando o ovo da CazéTV.

É Cazé, você está ferrando a vida de um monte de gente para ganhar mais dinheiro do que você já ganhou, do quarto na pandemia para os salões do sistema.

TEXTO DE:
Thiago Muniz

domingo, 21 de junho de 2026

Shakira, a FIFA e o Feminismo de Camarote

Uma ironia difícil de ignorar quando Shakira volta a emprestar sua voz à FIFA.

A mesma cantora que construiu parte de sua imagem pública como defensora da autonomia feminina, da independência das mulheres e da superação de relacionamentos abusivos, torna-se novamente a trilha sonora oficial de uma das instituições mais associadas às contradições do capitalismo global.

Não se trata de questionar o talento de Shakira. Poucos artistas conseguiram atravessar tantas décadas permanecendo relevantes. Tampouco se trata de negar suas contribuições para causas sociais. A questão é outra: até que ponto o feminismo pode ser transformado em produto de marketing sem perder sua capacidade crítica?

A FIFA não é apenas uma organização esportiva. É uma máquina bilionária que movimenta interesses políticos, econômicos e comerciais em escala planetária. Ao longo de sua história recente, acumulou denúncias de corrupção, favorecimento político, exploração de trabalhadores em grandes obras e submissão dos interesses esportivos aos interesses comerciais.

Quando uma artista que se apresenta como voz do empoderamento feminino associa sua imagem a essa engrenagem, surge uma pergunta inevitável: empoderamento para quem?

O feminismo que desafia estruturas de poder deveria, em tese, questionar sistemas que transformam pessoas em ferramentas descartáveis para gerar lucro. Entretanto, boa parte do feminismo pop contemporâneo parece ter substituído a crítica estrutural pela celebração do sucesso individual. O importante já não é mudar o sistema, mas alcançar o topo dele.

Nesse modelo, uma mulher pode tornar-se símbolo feminista enquanto participa das mesmas estruturas econômicas que produzem desigualdades. O discurso passa a ser: não importa que o navio continue afundando, desde que haja mais mulheres na cabine de comando.

A trajetória recente de Shakira ilustra essa contradição.

Após transformar sua separação em um poderoso discurso de autonomia pessoal, a cantora consolidou-se como símbolo de resistência feminina. Porém, ao associar sua imagem novamente à FIFA, acaba ajudando a legitimar uma instituição cuja lógica pouco dialoga com qualquer projeto genuinamente emancipador.

Talvez a contradição não seja exclusivamente dela. Talvez seja a contradição de toda uma época.

Vivemos o momento histórico em que a rebeldia virou marca registrada, a contestação virou estratégia de marketing e a crítica ao poder tornou-se um segmento lucrativo da indústria do entretenimento. O mercado descobriu que vender discursos de transformação pode ser tão rentável quanto vender perfumes, refrigerantes ou direitos de transmissão esportiva.

Nesse contexto, o feminismo corre o risco de ser reduzido a uma estética. Uma camiseta. Um slogan. Uma campanha publicitária. Uma música-tema de um evento bilionário.

Shakira não criou essa lógica. Mas participa dela.

E talvez seja justamente essa a crítica mais incômoda: não a de que uma artista seja hipócrita, mas a de que o capitalismo contemporâneo se tornou tão eficiente que consegue transformar até mesmo discursos de resistência em combustível para sua própria máquina.

Quando isso acontece, o problema deixa de ser a cantora que canta na abertura do espetáculo. O problema passa a ser o espetáculo em si.

Marjane Satrapi: a mulher que transformou a memória em resistência

A morte de Marjane Satrapi, aos 56 anos, encerra uma das trajetórias mais singulares da literatura gráfica contemporânea.

Conhecida mundialmente por Persépolis, Satrapi não apenas revolucionou os quadrinhos como linguagem literária, mas também ajudou a redefinir a maneira pela qual o Ocidente enxerga o Irã, a diáspora e a experiência do exílio.

Sua morte, anunciada pela família em junho de 2026, foi recebida com pesar por leitores, artistas e defensores dos direitos humanos em todo o mundo.

A menina que viu uma revolução

Nascida em 1969, na cidade iraniana de Rasht, e criada em Teerã, Satrapi pertenceu a uma geração marcada pela ruptura histórica da Revolução Islâmica de 1979.

Filha de uma família politicamente engajada e crítica tanto da monarquia do quanto da teocracia que a sucedeu, ela testemunhou ainda criança a transformação radical de seu país.

Aos 14 anos, foi enviada para a Áustria pelos pais, numa tentativa de protegê-la do endurecimento do regime iraniano e da guerra contra o Iraque. A experiência do exílio — marcada por solidão, desenraizamento e crises de identidade — tornaria-se um dos temas centrais de sua obra.

Mais tarde, estabeleceu-se definitivamente na França, onde encontrou o ambiente artístico que permitiria florescer sua carreira internacional.

Persépolis: quando a História ganhou rosto humano

Publicada originalmente entre 2000 e 2003, Persépolis tornou-se rapidamente um marco cultural. A obra narra a infância e juventude da própria autora durante a Revolução Islâmica e seus anos de exílio na Europa. Mas sua importância ultrapassa a autobiografia.

O grande mérito de Satrapi foi compreender algo que historiadores e jornalistas frequentemente esquecem: regimes políticos afetam pessoas concretas.

Enquanto muitos livros sobre o Irã descreviam governos, líderes religiosos ou conflitos geopolíticos, Satrapi falava sobre uma adolescente que gostava de rock, discutia com os pais, sonhava com liberdade e tentava encontrar seu lugar no mundo. O resultado foi uma obra capaz de humanizar uma sociedade frequentemente reduzida a estereótipos.

Seu traço em preto e branco, deliberadamente simples, funcionava como uma linguagem universal. Sem o excesso de realismo, as imagens tornavam-se símbolos. O particular transformava-se em coletivo.

Nesse sentido, Persépolis realizou algo raro: foi simultaneamente testemunho histórico, romance de formação e denúncia política.

Uma crítica ao autoritarismo — e também aos preconceitos ocidentais

Reduzir Satrapi à condição de crítica do regime iraniano seria uma leitura incompleta.

Embora denunciasse abertamente a repressão política, a censura e a desigualdade de gênero impostas pela República Islâmica, ela também combatia a visão simplista do Ocidente sobre o Oriente Médio.

Em entrevistas e textos, insistia que os iranianos não podiam ser resumidos a fanáticos religiosos ou vítimas passivas. Havia humor, cultura, contradições e humanidade naquela sociedade. Seu trabalho procurava recuperar justamente essa complexidade.

Essa posição lhe garantiu um lugar singular no debate público: Satrapi recusava tanto a propaganda do regime iraniano quanto as caricaturas produzidas por certos discursos ocidentais.

Muito além dos quadrinhos

Embora Persépolis tenha se tornado sua obra mais conhecida, Satrapi construiu uma produção diversificada.

Livros como Bordados e Frango com Ameixas aprofundaram sua investigação sobre memória, afetos e identidade cultural. 

Sua adaptação animada de Persépolis, codirigida com Vincent Paronnaud, conquistou o Prêmio do Júri no Festival de Cannes e recebeu indicação ao Oscar, consolidando-a também como cineasta.

Nas décadas seguintes, continuou transitando entre literatura, cinema e ativismo, tornando-se uma das vozes mais respeitadas na defesa da liberdade de expressão e dos direitos das mulheres iranianas.

O legado de uma narradora da liberdade

Poucos autores conseguiram realizar aquilo que Satrapi alcançou: transformar uma experiência profundamente pessoal em patrimônio universal.

Ela demonstrou que os quadrinhos podiam ocupar o mesmo espaço intelectual da grande literatura memorialística. Mais do que isso, provou que a arte pode funcionar simultaneamente como documento histórico e exercício de empatia.

Sua morte encerra uma trajetória interrompida precocemente, mas sua obra permanece extraordinariamente atual. Em um mundo cada vez mais polarizado, Persépolis continua lembrando algo essencial: antes das ideologias, das bandeiras e das revoluções, existem pessoas.

E talvez seja justamente por isso que Marjane Satrapi sobreviverá ao seu tempo.

Não apenas porque contou a história do Irã.

Mas porque contou, com rara honestidade, a história universal de quem tenta permanecer livre quando a História decide esmagar os indivíduos.

A Copa do Mundo me dá sono

Uma Copa do Mundo sem sal, sem emoção, sem alma. Talvez se a sede fosse somente no México eu sentiria mais tesão, mas isso seria impossível colocar 48 países e 104 jogos num único país.

A FIFA quer arrecadar mais dinheiro e arrendar mais apoio político, por isso aumentou o número de participantes. E essa será a tendência por um bom tempo, se não for em caráter definitivo.

Uma FIFA que beijou a mão do presidente dos Estados Unidos, que chancelou a aniquilação de Gaza e quase a extinção dos palestinos por meio do regime sionista do estado de Israel. Que invadiu a Venezuela e tomou de assalto o seu petróleo e sequestrou o seu chefe de Estado. Onde declarou guerra ao Irã mas foi pega de surpresa com o fechamento do estreito de Ormuz e viu o preço do petróleo subir a níveis estratosféricos.

Essa é a FIFA que foi capaz de conceder a medalha da paz para um homem que mais provocou o caos no mundo nos últimos dois anos.

Onde está a Copa da inclusão? Num país que não concede visto ao árbitro pela sua nacionalidade. Num país que caça imigrantes como se fossem ratos. Num país onde o futebol é o quinto esporte mais praticado, onde eles não chamam o futebol de futebol, chamam de “soccer”.

Volto aos meus 11 anos de idade lá em 1994, como foi boa aquela Copa, prefiro ter essas lembranças de juventude. Pode ser um tanto lúdicas? Sim! Mas pelo menos eu sentia verdade e emoção naquela Copa. Onde não havia a guerra da TV aberta e o streaming, era Galvão Bueno narrando e nada mais nada menos que Pelé comentando.

Ah! Bons tempos que não voltam mais. E lá nos idos de 1994 o Brasil trouxe a taça do Tetra homenageando o meu ídolo de infância Ayrton Senna.

Voltamos a 2026. Muito provavelmente não teremos o Hexa, uma Copa sem sal e tempero, vou voltar para minha cama onde o descanso é necessário. E torço para que o celular não toque com mais um falso alerta provocado por algum hacker mercenário.

TEXTO DE:
Thiago Muniz

sábado, 20 de junho de 2026

Alerta sincero assusta o Brasil


A Defesa Civil emitiu um alerta. Não era sobre enchentes. Não era sobre tempestades. Não era sobre deslizamentos. Era sobre misantropia.

Depois descobriu-se que a mensagem era fruto de uma invasão criminosa ao sistema. Um ato de vandalismo digital. Um crime. Um absurdo.

Mas eis a ironia: talvez tenha sido o alerta mais sincero que o país recebeu nos últimos anos.

Porque, convenhamos, se existe uma emergência nacional sobre a qual ninguém pode alegar surpresa, é justamente essa.

Vivemos um tempo em que o ódio virou identidade política. Em que a agressividade foi transformada em virtude. Em que o preconceito deixou de ser um defeito a ser escondido e passou a ser exibido como medalha de coragem.

Não surgiu do nada.

Durante anos, bosonaristas normalizaram discursos que antes causariam constrangimento público.

Mulheres passaram a ser atacadas por ocuparem espaços de poder.

Jornalistas passaram a ser perseguidas por fazerem perguntas.

Professoras passaram a ser tratadas como inimigas da nação.

A violência verbal virou espetáculo.

Ao mesmo tempo, grupos neonazistas multiplicaram-se pelo país. Símbolos antes restritos aos esgotos da história reapareceram em redes sociais, fóruns e manifestações. A intolerância encontrou um ecossistema perfeito: algoritmos que recompensam indignação e lideranças que descobriram que o ressentimento rende votos.

E então chega aquele alerta.

"Misantropia".

Uma única palavra.

Acidental? Sim.

Criminosa em sua origem? Evidentemente.

Mas profundamente adequada ao momento histórico? Difícil negar.

Talvez porque o Brasil tenha se acostumado a ignorar alertas verdadeiros.

Ignorou os alertas sobre a radicalização política.

Ignorou os alertas sobre a violência contra mulheres. Contra negros. Contra LGBTs. Intolerância religiosa. Etc, etc, atrás de etc...

Ignorou os alertas sobre o crescimento de grupos extremistas.

Ignorou os alertas sobre a erosão da convivência democrática.

Quando finalmente apareceu uma mensagem estranha nos celulares, muita gente se espantou. Curioso. Há anos os sinais estão piscando diante dos nossos olhos.

A diferença é que, desta vez, o aviso veio acompanhado daquele som irritante que obriga as pessoas a olhar para a tela.

Talvez seja justamente isso que esteja faltando ao país.

Não um hacker.

Mas um alarme.

Um alarme capaz de interromper a distração coletiva e anunciar:

"Atenção. Atenção. Emergência democrática em andamento."

Porque enchentes destroem cidades.

Mas o ódio organizado destrói sociedades.

E, infelizmente, contra esse desastre ainda não existe sirene suficiente.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Copa da Vergonha Mundial

Quando o VAR não aciona o árbitro para analisar uma entrada para expulsão de Leonel Messi, a FIFA apenas comprova sem pudor o que todos já sabíamos: que esta Copa é a Copa da Vergonha Mundial.

Uma Copa que poderia ser conhecida pela Copa da Diáspora, pela quantidade de jogadores nascidos fora do país cuja seleção defende, mas que será conhecida como Copa da Diáspora pelo tratamento colonial dado aos jogadores de países explorados.

Aliás, Copa do Exílio cairia bem, já que o principal árbitro africano foi exilado do torneio. Mas a FIFA já anunciou que pagará as diárias como se ele lá estivesse, afinal, trata-se de dinheiro. Ou você achava que a Copa tinha haver com futebol?

Árbitro faz sinal de "white power" dentro da cabine do VAR, e a FIFA estuda se vai poder punir, sem que corra o risco de desagradar o homem que comprou a Copa e justamente é o grande expoente mundial desse movimento racista.

Jogadores do Irã são barrados de entrar e depois de sair dos EUA, mas o fantoche, digo, presidente da FIFA vai ao vestiário fingir um apoio que não existe.

Estrangeiros são detidos pelo ICE, por cometer o crime hediondo de ter pele escura.

Mas o dinheiro corre solto. Messi imune as regras aplicadas aos jogadores que não dão o mesmo retorno finenceiro. Neymar mandando naquela que deveria ser a maior seleção do mundo, mas que não passa de um eterno azarão.

E a imprensa romantiza o Vozinha. Herói improvável vindo de uma nação "inferior" e que serve como distração para que os reais problemas do torneio sejam jogados para debaixo do tapete.

A conclusão que fica é que se alguns países tivessem um mínimo de vergonha na cara, jamais voltariam a participar de um torneio realizado por esse câncer chamado FIFA.

O atual fantoche que atualmente finge comandar a instituição não deveria permanecer no cargo, após o torneio, mas com certeza vai ficar. Obviamente, convidar quase todos os países mais pobres para dividir o palco com os europeus limpinhos vai trazer um apoio enorme.

Porque mesmo nesses países pobres, quem manda é o dinheiro, mesmo que em menores quantidades.

Pois é, amigos, linda Copa.

Aquela que deveria ficar na memória pela despedida de Messi, CR7 e até mesmo Neymar, vai ficar na memória pela despedida do futebol mesmo.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Salto para a morte: tragédia que expõe o lado podre de um país moribundo

Reconhecer suas incompetências é uma das grandes qualidades que você pode ter. Não seja tão ousado se você é limitado. Tente ganhar dinheiro com coisas que não envolvam risco para você e para os outros, tenha ambições mais simples e possíveis para sua cognição. Isso é duro de ler, mas é necessário. 

Isso vai desde não ser médico se for desatento até não ser Uber se você dirige mal.

Seja receoso, a extroversão às vezes prejudica.

Três homens burros e medianos, mas de autoestima elevada, se propuseram a fazer algo extremamente complexo que envolvia risco de vida. Eles não tinham competência alguma, mas tiveram a audácia, audácia criminosa, ego grande, subestimaram a prática e a inteligência de quem contratava o serviço.

Os três juntos não tinham um cérebro inteiro e mesmo assim foram lá e fizeram. Reconheçam seus defeitos. Realmente falta aos bons a audácia dos imbecis. 

A tragédia não começou quando ela saltou, começou quando pessoas incapazes se convenceram de que eram capazes. Vivemos uma época em que confiança vale mais que competência, autoestima vale mais que preparo e audácia vale mais que responsabilidade.

O resultado é que profissionais sérios estudam anos para evitar erros enquanto irresponsáveis improvisam com a vida dos outros. Falta humildade para reconhecer limites. E quando o ego substitui a competência, alguém inocente paga a conta.

TEXTO DE:
Cora Descorada


Bastou a divulgação de fotos da jovem que morreu de maneira trágica durante a prática de Rope Jumping, para que os acéfalos hetero-virgens darem o ar da graça (ou desgraça).

Centenas de comentários sexuais, pervertidos e pasmem, que inclusive incentivam a necrofilia.

Obviamente, as big techs que comandam as redes sociais, após análise de seus termos, concluirá que nenhuma dessas agressões à jovem morta e aos familiares fere algum de seus critérios obscuros de avaliação.

Serão considerados pura liberdade de expressão.

Sim, a expressão de uma sociedade doente, machista, racista, homofóbica, xenofóbica, intolerante religiosa, e outros adjetivos que você quiser dar.

Uma sociedade que agride mulheres, negros, homossexuais, estupra crianças dentro de casa, mas depois se une nas "marchas para Jesus", louvar todo tipo de canalha fascista.

Não há de se medir palavras na hora de combater essa corja suja.

Guarde a educação e o discurso bonito e para quem merece.

Com esses, é colocar limites. Combater com unhas e dentes. Denunciar, expor, envergonhar.

Não há debate sadio com quem comete vilipêndio de cadáver. Mesmo que virtualmente.

Chega. Esses caras já sufocaram a Direita Democrática e a calaram debaixo de um monturo de lixo. Não há porque a Esquerda Democrática se calar diante desse tipo de comportamento.

Parafraseando Gertrude Stein, e correndo o risco de ofender-lhe a memória:

Um vagabundo é um vagabundo
é um vagabundo.

E com vagabundo, não há debate.

Democracia não é o regime onde tudo é permitido, mas o regime do Estado de Direito, o que significa que nem tudo é permitido.

Ela exige respeito às leis, às instituições e aos direitos fundamentais de todos.

Nenhum direito, porém, é absoluto e a liberdade de expressão não protege discursos de ódio ou atentados contra as instituições.

TEXTO DE:
Tarciso Tertuliano

domingo, 14 de junho de 2026

A FIFA e a CBF: entre o meretrício, a subserviência e a Disney

Confesso que perdi o encanto pela Seleção Brasileira há tempos. Para ser exato, desde o Penta de 2002. Mataram a alma daquele menino que chorou no Tri de 1970 e se orgulhava de dizer aos amigos da escola: “o Félix, do Fluminense, é campeão do mundo”.

O que mudou? Talvez o fato de que, dos últimos seis presidentes da CBF, cinco tiveram seus mandatos encerrados por prisão, banimento ou decisão judicial.

Quando penso que nada mais pode surpreender, surge a notícia: a CBF banca passagens, hospedagem, alimentação e ingressos para presidentes dos 40 clubes das Séries A e B e para todas as federações estaduais.

Os dirigentes dos clubes passam dias em Nova York. Os das federações ganharam pacote premium em Orlando, ingressos em áreas nobres e direito a acompanhante para os jogos do Brasil.

No futebol, isso tem nome: “turismo eleitoral”. Afagos custeados pela entidade para agradar justamente quem decide eleições e destinos políticos da própria CBF.

Depois, espantam-se com a reeleição - por unanimidade - do Rubinho na FERJ. Na boa, isso é apenas um dos inúmeros fios da teia que aprisiona o futebol brasileiro.

A CBF segue cada vez mais rica. Já os clubes — inclusive o meu Fluminense — afundam em dívidas bilionárias, quase impagáveis.

Quanto ao jogo, resultou no empate que previ numa LIVE, na sexta à noite. Mas assistir ao limitado Paquetá, ao cansado Casemiro, ao bonde Igor Thiago, ao improvisado Ibañez, ao CHAMAGOL Alisson: é dose.

É óbvio que torci, mas com esse 4-2-4 e certos jogadores de empresários, não existe Viagra que dê jeito.

Mas, a razão maior desse texto é com relação à postura da FIFA, que virou TCHUTCHUCA do Trump

As principais reclamações giram em torno da sua omissão diante de restrições impostas pelos Estados Unidos a participantes da Copa de 2026.

Houve casos de negação de vistos e retenções prolongadas em aeroportos, afetando o árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, membros de delegações (especialmente do Irã), jogadores, como Aymen Hussein, e profissionais de diversos países.

Gianni Infantino, o Presidente da FIFA, transformou-se em VASSALO do governo americano, não se posicionando com firmeza, limitando-se a lamentar os fatos, alegando não ter controle sobre políticas de imigração.

Pura hipocrisia e duplo padrão, pois a FIFA agiu com muito mais rigor em outras questões políticas, mas não usou sua influência para garantir igualdade de condições e o cumprimento dos princípios do torneio, deixando profissionais impedidos de exercer suas funções.

Cabe recordar que a política de restrições norte-americana contrasta com o histórico da própria FIFA, que chegou a remover a Indonésia do posto de sede do Mundial Sub-20 de 2023 por razões políticas semelhantes.

A atual Copa do Mundo está sendo disputada por 48 seleções, o que significa a antítese ao bom futebol.

Em todos os casos, bem-vindos à Disneylândia, onde o torcedor, quer dizer, o PATETA, é o funcionário do mês.

TEXTO DE:
Antonio Gonzalez

sábado, 13 de junho de 2026

Senadores querem fim da escala 6x1... eles querem 7x0

A Câmara aprovou o fim da escala 6x1.

Mas pouco depois, 40 senadores apresentaram a PEC 12/2026, que institui a chamada escala 7x0: sete dias trabalhados, nenhum de folga garantido, com jornada "flexível" definida por “acordo” individual com o patrão, sem descanso semanal remunerado, sem FGTS, sem férias obrigatórias, sem 13º salário e sem a proteção das convenções coletivas negociadas pelos sindicatos.

É o projeto das elites na sua forma mais nua. Escravidão.

Não é coincidência que esses 40 senadores agiram tão rápido. Olhe a lista com atenção.

A maioria não disputa reeleição neste ano. 

Alguns vão tentar outros cargos: Sergio Moro (PL) quer o governo do Paraná, Flávio Bolsonaro (PL) é pré-candidato à Presidência e seu chefe de campanha Rogério Marinho (PL) assina a PEC ao lado de Ciro Nogueira (PP), investigado pela Polícia Federal por receber mesada de Daniel Vorcaro, do Banco Master.

Outros estão tão queimados em seus estados que vão tentar a sorte como deputados federais, como é o caso de Marcos do Val (Avante). E alguns, como o senador paranaense (que quase ninguém sabe que existe) Oriovisto Guimarães (PSDB), já avisaram que vão deixar a política.

Ou seja: a maioria não vai ter que olhar nos olhos do eleitor e responder por esse voto. É por isso que estão fazendo o trabalho sujo que os deputados federais covardes não tiveram coragem de fazer.

Quase 80% da população apoia o fim da escala 6x1. Os deputados patrocinados por grandes empresários sabiam disso. Se acovardaram, fugiram da votação ou votaram a favor na última hora. Sobraram apenas 22 votos contra, a maioria do PL e do Novo. Só o Missão e o MDB não têm senadores mas tiveram deputados votando.

Como manobra, deixaram a bola com os senadores que não têm nada a perder. Esse é o golpe.

O magistério sabe a importância do descanso. Lutamos por ele. Sabemos o que dois dias de folga representam para o corpo, para a mente, para a família. E sabemos o que acontece quando o trabalhador fica sem sindicato para negociar: na imensa maioria dos casos, ou aceita qualquer condição ou é demitido. Sem proteção, sem direitos, sem voz.

O Senado precisa ouvir o recado que a Câmara já recebeu.

A mobilização continua. Pressão neles!

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Os fracassados milionários


 Existe uma panela de jogadores que na última década estão rotineiramente dentro do calvário da Seleção Brasileira, não produzem resultados para justificar as suas presenças e ainda deixam a impressão que opinam em quem pode ou não estar nas convocações. 

Um pouco antes da convocação para a Copa do Mundo, vimos numa entrevista o jogador Casimiro declarar que o jogador Endrick não estava pronto para jogar na seleção.

No alto de seus 19 anos, foi importante na conquista de um Brasileirão para o Palmeiras, fez gols importantes para o Real Madrid e agora na última passagem pelo Lyon fez gols que ajudaram muito o clube.

Se aos 19 anos ele acha que o Endrick não está pronto, o que ele acha do Pelé em 1958? O que ele acha da convocação do Ronaldo Nazário em 1994?

Panela!

O que essa atual geração de jogadores produziu e conquistou com a Seleção Brasileira?

A tal ponto de dar pitacos em quem pode ou não ser convocado. Há os que pelo menos já disputaram no mínimo 1 Copa do Mundo e nada.

São bons jogadores, isso é um fato; possuem carreiras sólidas em seus clubes, uma ótima situação financeira, mas não foram capazes de se consolidar dentro da Seleção Brasileira. São milionários fracassados, e será mais uma Copa medíocre.

São os culpados pela derrocada da seleção brasileira? É claro que não, há diversas variantes, principalmente na cadeia de comando. Mas são potenciais indicadores por essa queda brusca na falta de resultados consistentes. E não há uma indignação, pois eles viram a chave e passam a viver suas ricas vidas. 

Falta sangue, suor e lágrimas; jogadores que tenham fome.

A Seleção Brasileira precisa dessa essência, e não se deixar ser dominada pela importação de costumes. 

TEXTO DE:
Thiago Muniz

terça-feira, 9 de junho de 2026

Pau que bate no Wesley não bate no Neymar

E aí Mr. Carlo Ancelotti? Onde está o parâmetro dos 100%?

Primeiro toda uma história e narrativa para a convocação de Neymar; o jogador com maior talento e maior desperdício dos últimos vinte anos no futebol brasileiro, os lobbies nitidamente comprados e argumentos nada factíveis fizeram que no dia 18 de maio foste enfim convocado.

Nisso tudo foi por água abaixo a declaração de Ancelotti sobre a convocação dos jogadores em estarem 100% da forma física.

Pois bem… o Neymar se apresentou na Granja Comary e o departamento médico da CBF dentro do seu protocolo fez exames de imagem nele, e contrariando o laudo enviado pelos médicos do Santos.

O Santos alegou edema, a CBF constatou lesão.

Neymar sofreu uma lesão muscular de grau 2 na panturrilha. O problema médico, que envolve uma ruptura parcial das fibras musculares e causa dor e perda de força.

O edema é apenas o inchaço causado pelo acúmulo de líquidos em uma parte do corpo. A lesão é o dano real ou a ruptura nas fibras do tecido (como músculos ou ligamentos).

O Neymar já não apresentava estar em sua plena forma física, tecnicamente então nem se fala; bastava acompanhar os jogos, não precisa ser muito entendedor de futebol.

O lateral-direito Wesley sofreu uma lesão muscular de grau 3 no músculo adutor da coxa esquerda. Ele sentiu dores durante um amistoso da Seleção Brasileira contra o Egito no dia 06 de junho.

Exames de ressonância magnética confirmaram a contusão, o que causou seu corte da Copa do Mundo. Por causa da gravidade, o jogador precisará de mais de 40 dias de recuperação, podendo ficar afastado dos gramados por até 8 a 12 semanas. Em seu lugar, o técnico convocou o volante Éderson para a sequência do Mundial.

E onde está a linha de raciocínio e coerência de Carlo Ancelotti? A regra só serve para uns? Privilégios para outros?

Bye bye Brasil

TEXTO DE:
Thiago Muniz

quinta-feira, 4 de junho de 2026

O Caso Henry Borel e a Difícil Missão de Julgar Contra a Multidão

Algumas decisões judiciais testam a qualidade de uma democracia. Não porque sejam populares. Justamente pelo contrário.

A concessão de perdão judicial a Monique Medeiros, mãe de Henry Borel, é uma dessas decisões.

O Brasil amanheceu indignado. Nas redes sociais, a sentença foi tratada como escândalo. Nos programas policiais, como afronta. Nos comentários da internet, como prova definitiva de que a Justiça enlouqueceu.

Mas existe uma pergunta anterior à indignação coletiva: a decisão foi legal?

Se a resposta for sim, o debate precisa começar por aí.

É preciso lembrar que a juíza não acordou numa manhã qualquer e resolveu absolver a mãe de Henry. Ela estava vinculada ao resultado produzido pelo Tribunal do Júri. E aqui mora um detalhe que muita gente ignora.

O júri popular não reconheceu homicídio doloso.

Se tivesse reconhecido, não haveria perdão judicial possível.

Os jurados entenderam que a conduta de Monique configurou homicídio culposo por omissão. Em português claro: ela teria falhado gravemente em seu dever de proteger o filho, mas sem participar diretamente da intenção de matar.

Pode-se concordar ou discordar dessa conclusão.

Pode-se até considerá-la equivocada.

Mas foi essa a decisão soberana do Conselho de Sentença.

Uma vez fixada essa premissa, a magistrada passou a analisar as consequências jurídicas dela.

E é exatamente aí que surge o instituto do perdão judicial.

O Código Penal brasileiro admite que, em determinadas situações de homicídio culposo, o juiz deixe de aplicar pena quando as consequências do fato atingem o próprio autor de forma extraordinariamente grave.

A lógica é simples.

O Direito Penal não existe para satisfazer desejos de vingança coletiva.

Existe para produzir justiça.

A pergunta formulada pela lei é objetiva: existe alguma pena que possa ser mais severa para uma mãe do que a perda definitiva de um filho?

O legislador respondeu que, em alguns casos, não.

Foi essa a interpretação adotada pela magistrada.

Na sentença, ela argumentou que Monique sofreu a perda irreparável do filho, enfrentou anos de exposição pública intensa, tornou-se alvo permanente de hostilidade social e já havia sido condenada anteriormente por omissão em relação às agressões sofridas pela criança.

A juíza também registrou que a acusada passou anos submetida a um processo que mobilizou o país inteiro, circunstância que, em seu entendimento, produziu consequências pessoais extremamente severas.

É possível discordar dessa avaliação.

O que não é possível é fingir que ela foi inventada.

Ela está prevista na legislação.

Ela existe há décadas.

Ela já foi aplicada em inúmeros casos envolvendo mortes culposas.

A questão central, portanto, não é o perdão judicial.

O verdadeiro debate é outro.

O júri acertou ao afastar o homicídio doloso?

Essa é a pergunta relevante.

Porque, se a resposta for negativa, toda a construção jurídica posterior desmorona.

Se Monique tinha plena consciência das agressões sofridas por Henry, se conhecia a escalada de violência, se assumiu conscientemente o risco de que algo fatal acontecesse, então o enquadramento culposo seria inadequado.

Nesse cenário, o perdão judicial realmente não caberia.

Mas essa discussão precisa ocorrer dentro dos autos.

Com provas.

Com recursos.

Com argumentos jurídicos.

Não com gritos.

Há uma tentação crescente no Brasil de substituir o Direito Penal por uma espécie de tribunal permanente das redes sociais.

A cada caso rumoroso, surgem milhões de promotores, milhões de juízes e milhões de carrascos.

Todos convencidos de que a lei deve dizer exatamente aquilo que a indignação do momento exige.

Só que o Estado de Direito foi criado precisamente para impedir isso.

A Justiça não existe para reproduzir a opinião pública.

Existe para limitar os impulsos da opinião pública.

Hoje o alvo é Monique Medeiros.

Amanhã pode ser qualquer outro cidadão.

A história mostra que quando tribunais começam a decidir para agradar multidões, deixam de servir à Justiça e passam a servir à plateia.

Quem considera a decisão errada tem todo o direito de criticá-la.

Quem entende que o júri ignorou provas relevantes pode defender sua anulação.

Quem acredita que houve erro de julgamento pode apoiar os recursos do Ministério Público.

Tudo isso faz parte da democracia.

O que não faz parte da democracia é exigir que juízes abandonem a lei para satisfazer a sede coletiva de punição.

Porque, quando isso acontece, o Direito deixa de ser Direito.

Transforma-se apenas em vingança com carimbo oficial.

EM TEMPO:

Este artigo não reflete a opinião direta de quem vos escreve, reflete apenas uma análise fria da decisão da Magistrada baseada na Lei.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Rosie, e a Contradição das Mulheres Antifeministas

 

Poucos símbolos representam tão bem a luta pela emancipação feminina no século XX quanto "Rosie the Riveter" (Rosie, a Rebitadeira).

Com o punho erguido, a manga dobrada e o célebre slogan "We Can Do It!", a personagem tornou-se um ícone da capacidade das mulheres de ocupar espaços historicamente reservados aos homens. Por isso mesmo, causa estranheza quando setores conservadores e antifeministas tentam se apropriar de sua imagem como se ela fosse compatível com suas bandeiras políticas.

Rosie surgiu durante a Segunda Guerra Mundial, quando milhões de homens foram enviados para os campos de batalha e as indústrias precisaram recrutar mulheres para manter a produção.

A mensagem era revolucionária para sua época: mulheres podiam trabalhar em fábricas, operar máquinas pesadas, exercer profissões técnicas e contribuir diretamente para a economia nacional. Em outras palavras, Rosie simbolizava a ruptura com a ideia de que o lugar da mulher era exclusivamente o lar.

Décadas depois, o movimento feminista transformou Rosie em um de seus principais ícones justamente porque ela representa autonomia econômica, independência profissional e igualdade de oportunidades.

Sua imagem passou a simbolizar a luta contra barreiras que impediam mulheres de estudar, trabalhar, liderar empresas, disputar cargos políticos e conquistar direitos civis.

É aí que surge a contradição.

Grande parte do discurso antifeminista contemporâneo sustenta que o feminismo teria "destruído a família tradicional", incentivado mulheres a abandonarem papéis domésticos ou promovido uma suposta guerra entre os sexos. Muitas influenciadoras conservadoras defendem abertamente a valorização da submissão feminina ao marido, a priorização da maternidade em detrimento da carreira e a crítica às pautas históricas do movimento feminista.

Ora, se a essência simbólica de Rosie é justamente afirmar que mulheres podem e devem ocupar espaços antes negados a elas, como conciliar essa mensagem com uma visão que frequentemente idealiza modelos sociais mais restritivos para as mulheres?

A contradição torna-se ainda mais evidente quando muitas dessas figuras públicas desfrutam de liberdades conquistadas pelas feministas que criticam.

Produzem conteúdo, administram negócios, participam do debate político, possuem independência financeira e exercem influência pública, atividades que seriam muito mais difíceis sem as transformações sociais promovidas pelas sucessivas ondas do feminismo ao longo do século XX.

Isso não significa que toda mulher conservadora seja obrigada a se identificar como feminista. Há amplo espaço para divergências sobre costumes, religião, família ou políticas públicas. O problema surge quando se tenta transformar Rosie em símbolo de uma visão de mundo que caminha em sentido oposto ao significado histórico que a tornou famosa.

Símbolos possuem contexto.

Rosie não é apenas uma mulher forte desenhada em um cartaz.

Ela representa a entrada das mulheres no mercado de trabalho industrial, a quebra de barreiras de gênero e a defesa da capacidade feminina de decidir seus próprios destinos.

Sua mensagem não era a de que mulheres deveriam retornar aos papéis tradicionais após demonstrarem sua competência; era a prova de que tais limitações jamais fizeram sentido.

Por isso, quando setores antifeministas utilizam Rosie como ícone, acabam produzindo uma curiosa incoerência histórica: celebram a imagem enquanto rejeitam parte substancial da mensagem que ela carregou durante mais de oito décadas.

Rosie tornou-se um símbolo da liberdade feminina de escolher seu caminho. E essa liberdade — gostem ou não seus críticos — está entre as maiores conquistas do feminismo moderno.

Para que as mulheres se lembrem:

"Rosie Não Votaria Contra Si Mesma".

domingo, 31 de maio de 2026

Homelander, o herói dos fracassados

Poucos fenômenos da cultura pop recente são tão reveladores sobre o nosso tempo quanto a popularidade de Homelander, personagem central da série The Boys.

Embora seja apresentado desde o primeiro episódio como um assassino, manipulador, narcisista e aspirante a ditador, uma parcela surpreendentemente grande do público não apenas torce por ele, mas também demonstra indignação diante da possibilidade de vê-lo derrotado no desfecho da história.

À primeira vista, o fenômeno parece contraditório. Como alguém pode admirar um personagem que reúne praticamente todas as características associadas ao abuso de poder?

A resposta talvez diga mais sobre a sociedade contemporânea do que sobre a própria série.

Homelander representa uma fantasia de poder absoluto. Ele não presta contas a ninguém. Não responde à Justiça. Não teme instituições. Não aceita limites morais. Em um mundo onde milhões de pessoas sentem-se impotentes diante de governos, empresas, crises econômicas e problemas pessoais, a figura daquele que pode fazer qualquer coisa sem sofrer consequências exerce um fascínio quase primitivo.

Existe também o chamado "efeito carisma". O personagem é cruel, mas é inteligente, eloquente e, muitas vezes, mais interessante que os próprios heróis.

O público frequentemente confunde protagonismo com admiração. Quanto mais tempo passa acompanhando um personagem, mais tende a enxergar o mundo através dos olhos dele.

É o mesmo fenômeno que ocorreu com personagens como Breaking Bad e seu protagonista Walter White, ou com The Sopranos e Tony Soprano.

Mas há algo mais profundo acontecendo.

Nas últimas décadas, a cultura passou a valorizar excessivamente a ideia do indivíduo forte que desafia todas as regras. O sucesso é frequentemente associado à capacidade de impor sua vontade sobre os demais. Nessa lógica, a empatia é vista como fraqueza, enquanto a brutalidade pode ser confundida com liderança.

Homelander encarna exatamente essa fantasia. Ele é o homem que nunca pede desculpas. Nunca admite erros. Nunca recua.

Para parte do público, especialmente em uma época marcada pela polarização política e pela exaltação de figuras autoritárias, isso se transforma em um símbolo de força, mesmo quando a narrativa deixa claro que se trata de um monstro.

Há ainda outro fator: muitas pessoas passaram a enxergar a série como uma disputa ideológica. Em vez de acompanhar a história como uma crítica ao poder sem limites, transformaram a experiência em uma batalha de torcida organizada.

Quando isso acontece, o personagem deixa de ser avaliado por suas ações e passa a ser defendido porque representa um grupo, uma identidade ou uma visão de mundo.

É por isso que um eventual final em que Homelander seja preso, derrotado ou morto tende a gerar rejeição entre seus admiradores. Não porque a punição seja injusta, mas porque ela destrói a fantasia construída ao longo dos anos.

O que incomoda não é a derrota do personagem; é a derrota da ideia de que alguém poderoso pode permanecer acima de qualquer consequência para sempre.

Talvez o maior mérito de The Boys seja justamente esse: expor como a sociedade frequentemente se apaixona por figuras autoritárias enquanto condena apenas os seus adversários. O desconforto de parte do público diante da possível queda de Homelander não revela uma falha da série. Revela o sucesso dela.

Porque, no fim das contas, a pergunta mais interessante nunca foi por que Homelander é tão cruel. A pergunta realmente perturbadora é por que tanta gente continua torcendo por ele mesmo sabendo disso.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Uberização empreendedora: a domesticação do trabalhador brasileiro

O camarada fez 40 anos, era concursado da BR Distribuidora com salário de 18 mil.

Quando a empresa foi privatizada em 2019, tomou um pé na bunda, pegou o dinheiro da indenização e começou a vender bolo com a esposa. Veio a pandemia, teve que parar de vender bolo e usou o dinheiro para sobreviver.

Hoje, com 46, está desempregado, faz bico como Uber e já enviou currículo até para trabalhar como porteiro, pra ganhar um salário mínimo, pois sua idade também virou um empecilho no mercado de trabalho.

Quando uma estatal é privatizada, essa realidade acaba sendo comum. Nós, da geração Y, filhos do Consenso de Washington, crescemos ouvindo em TVs e rádios que o serviço público não presta.

E isso é não apenas verdade, como também proposital. O sucateamento de estatais sempre foi um projeto político do país, sobretudo a partir dos anos 1990, em que os acordos econômicos Brasil-Estados Unidos com o Banco Mundial visavam desestatizações em massa em troca da transferência de riquezas ao setor privado, dependência do capital estrangeiro e a consequente precarização da mão de obra, tudo para atender a financeirização e a desregulamentação total da economia através da captura do Estado.

O resultado disso, na prática, é um grande volume de mão de obra barata. O papel do Estado é atuar nos projetos do Congresso que garantam a flexibilização das leis trabalhistas e austeridade fiscal. O primeiro é a garantia de maior lucro aos setores empresariais e, o segundo, reduz propositalmente investimentos nas estatais, visando seu sucateamento como justificativa para as privatizações.

Isso significa maior concentração de renda nas mãos de poucas pessoas, que é o principal fator da pobreza e, consequentemente, um estimulador da violência urbana.

Dados de 2024 da Oxfam apontam que 1% da população brasileira concentra quase 70% de toda a riqueza do país. São bilionários.

Bilionários não mantêm suas riquezas trabalhando, mas vivem do rentismo, da não tributação de suas fortunas, das grandes remessas de dólares a paraísos fiscais, das aquisições e fusões empresariais e da especulação no mercado que conseguem fazendo lobby na Bolsa e com o Estado. E também, não por menos, do grande volume de mão de obra barata em seus conglomerados.

Para que isso tudo passe “despercebido” pelo povo, é necessário convencimento de massas. E para haver convencimento de massas é preciso muita publicidade e muita domesticação, que vêm através de meios de comunicação, no trabalho e até em igrejas. O pobre é aculturado a demonizar a ideia de ser empregado e romantizar o objetivo de se tornar “seu próprio patrão”.

Programas de TV como “Pequenas Empresas, Grandes Negócios”, “O Aprendiz” e outros realities do mundo corporativo sempre moldaram na figura do executivo o fetiche das camadas mais populares em corporificar a ascensão de classe, a tão desejada mobilidade social.

No imaginário popular, a ideia de que a riqueza vem pelo trabalho tem a ver com a fantasia calvinista de que o acúmulo de capital é uma resposta positiva de Deus pelo esforço individual. A pobreza, nesse caso, não é mais vista como fruto de uma ampla desigualdade social, mas culpa do próprio indivíduo que não se esforçou o suficiente para sair daquela condição.

Quando um engenheiro com doutorado reclama do seu baixo salário de 4 mil reais mensais e o empregador o demite dizendo: “Não quer? Tem quem queira”, o pobre despolitizado, que não tem a menor ideia de sua estratificação social, entra em defesa do empregador como resultado de sua própria domesticação, reforçando no senso comum a noção de que a precarização da mão de obra nas relações de produção é um resultado individual, fruto da “escolha” de quem “não quer trabalhar”, isentando o empregador e, por consequência, o sistema econômico em que ambos estão inseridos.

Um engenheiro com doutorado, concursado da Petrobrás até a década passada, ganhava um salário inicial de aproximadamente 15 mil mensais. Nada mais justo, pois o profissional passou pelo menos 10 anos em uma universidade se qualificando para isso.

Em uma empresa privatizada, seu salário cai pela metade e seus benefícios são cortados. Isso garante maiores dividendos aos acionistas majoritários.

Mas por que não há uma mobilização de trabalhadores para reivindicar melhores condições? Porque o senso comum foi forjado para fazer o empregado dar razão irrestrita ao empregador. Porque o senso comum ridicularizou a luta por direitos e domesticou o trabalhador a demonizar o serviço público. Porque a igreja convenceu a massa trabalhadora de que ser workaholic é o caminho para a riqueza, elevando o excesso de trabalho e o lucro a uma dimensão sagrada. A ética calvinista como mola propulsora do Burnout...

O alto índice de pejotização da classe trabalhadora – pra cortar custos ao empresário – significa maior informalidade no mercado e prejuízo não apenas ao empregado, que deixa de ter seus direitos trabalhistas, mas também ao próprio Estado, que deixa de arrecadar impostos. É uma transferência de renda do Estado para o setor privado.

Quanto mais “empreendedores” e pejotas home office, mais dinheiro aos empregadores. O Estado aumenta o lucro de empresários e, o trabalhador despolitizado, mergulha na fantasia do “patrão de si mesmo” enquanto trabalha por mais tempo e empobrece ainda mais.

Nessa distopia pós-neoliberal, a uberização dos empregos foi o que restou à classe trabalhadora. O Consenso de Washington produziu no Brasil funcionários públicos a favor das privatizações, classe trabalhadora defendendo a própria precarização e, concurseiros, torcendo pelo enxugamento do Estado.

O neoliberalismo trouxe uma racionalidade irracional ao senso comum, a desregulamentação irrestrita de mercado e a regulação mercadológica da desumanidade.

O que vem depois do absurdo? 
É possível não privatizar a última trombeta do Apocalipse?

TEXTO DE:
Bruno Freixo

quinta-feira, 28 de maio de 2026

André Fernandes "se raspa" de raiva do trabalhador

A degradação do debate público brasileiro não acontece apenas nos grandes escândalos institucionais.

Ela também se revela nos personagens que ascendem politicamente não pela elaboração intelectual, pela capacidade administrativa ou pelo compromisso republicano, mas pelo espetáculo grotesco da vulgaridade convertida em capital eleitoral.

O caso do deputado André Fernandes (alcunhado Raspa Cu) é quase um resumo em caricatura do bolsonarismo enquanto fenômeno político-cultural.

Trata-se de um parlamentar que ganhou notoriedade nas redes sociais ensinando a depilar o próprio ânus na internet (sim, este é o nível da tragédia nacional), e que posteriormente converteu a estética do constrangimento em plataforma eleitoral.

Não estamos diante de um acidente de percurso. Estamos diante de um método.

É quase poético, no pior sentido possível: o sujeito sai do tutorial de "raspa cu" para a Câmara dos Deputados sem precisar atravessar o deserto do pensamento.

Entre um vídeo grotesco e outro, constrói-se uma carreira baseada não na elevação do debate público, mas na degradação deliberada dele.

E então chegamos ao episódio envolvendo a deputada Erika Hilton durante o debate sobre a escala 6x1.

Em vez de apresentar argumentos sólidos sobre relações trabalhistas, produtividade ou impacto econômico da jornada exaustiva imposta a milhões de brasileiros, o parlamentar recorre ao velho método bolsonarista: o insulto, a provocação pueril e a tentativa permanente de humilhar o adversário diante das câmeras. Chegou a chamar trabalhadores que se encontravam nas dependências da Câmara de vagabundos.

Perceba a lógica da coisa: quando falta densidade intelectual, sobra performance agressiva. O bolsonarismo produziu uma geração de políticos cuja principal habilidade não é legislar, mas viralizar.

O Parlamento vira cenário de TikTok; a tribuna se converte em ringue de quinta categoria; e a política passa a funcionar como reality show de ressentimento moral.

No caso de Erika Hilton, há um componente ainda mais grave. Mulher trans, negra e oriunda das periferias, ela simboliza exatamente tudo aquilo que a bolsonarismo aprendeu a transformar em alvo preferencial: diversidade, ascensão social de minorias e ocupação de espaços historicamente monopolizados por homens brancos conservadores.

Não basta discordar dela. É preciso tentar desumanizá-la publicamente para alimentar a militância do ódio.

E aqui reside uma das marcas mais tóxicas do bolsonarismo: a destruição sistemática da ideia de adversário legítimo.

Na democracia, divergências são naturais; no autoritarismo cultural bolsonarista, o outro precisa ser ridicularizado, esmagado e tratado como inimigo moral da nação. O argumento perde importância; o que importa é a humilhação performática.

Tudo isso ocorre enquanto milhões de trabalhadores brasileiros enfrentam jornadas brutais na escala 6x1, vivendo para trabalhar em vez de trabalhar para viver. Mas discutir seriamente as condições materiais da população exigiria estudo, responsabilidade e capacidade de formulação, atributos pouco compatíveis com quem ascendeu politicamente ensinando procedimentos íntimos de depilação do cu, nas redes sociais.

Há algo de simbolicamente devastador nisso tudo: um bolsonarismo que se apresenta como defensora da “moral” e dos “bons costumes”, mas que ajudou a transformar a política brasileira em uma mistura de algoritmo, grosseria e espetáculo degradante.

O resultado é um Parlamento cada vez mais parecido com um feed de rede social tóxica: muito barulho, pouca inteligência e nenhuma grandeza republicana.

A democracia não morre apenas quando tanques ocupam as ruas. Ela também apodrece quando o grotesco vira virtude política e quando figuras que deveriam honrar a representação popular preferem atuar como influenciadores de baixíssimo nível travestidos de estadistas.

No fim, o deputado qhe se elegeu por "raspar o cu", teve de asssumir a "cara de cu" ao ae ver derrotado na votação da escala 6x1.

Agora, sigamos ao Senado, outra cloaca do sistema.

Boa sorte aos tranalhadores.

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Resposta a Luciano Huck


Marcha Sem Jesus

A Marcha para Jesus no Rio de Janeiro escancarou uma cena velha da política brasileira: a fé no palco, o voto no bolso e o pastor no microfone fazendo o serviço que o candidato, prudentemente, preferiu não fazer.

Flávio Bolsonaro faltou.

Malafaia compensou no gogó. A ausência do candidato não despolitizou o evento; apenas mostrou que, quando a engrenagem já está montada, o ungido nem precisa aparecer. Basta deixar o sacerdote da campanha falar em nome do céu.

O problema não é religioso participar da política. Isso é democracia. O problema é transformar púlpito em comitê, fiel em eleitor cativo, Bíblia em santinho, culto em comício e divergência política em pecado.

A operação é conhecida. Primeiro, politiza-se a religião: o pastor organiza medos, ressentimentos e lealdades eleitorais como se estivesse apenas defendendo valores espirituais. Depois, religiosiza-se a política: o adversário vira inimigo de Deus; a eleição vira batalha espiritual; investigação vira perseguição; derrota vira fraude; Constituição vira obstáculo à profecia.

A , que poderia elevar a vida pública, vira instrumento de captura. A política, que deveria discutir governo, economia, saúde, educação, corrupção e instituições, desfila fantasiada de cruzada moral.

O político precisa do pastor para falar com milhões. O pastor precisa do político para ampliar poder, acesso, proteção e influência. É bênção por palanque, voto por acesso, moralidade pública por poder privado.

O resultado é ruim para a democracia e péssimo para a religião. A política empobrece. A se apequena. O cidadão vira rebanho. O pastor vira cabo eleitoral com microfone sagrado. O candidato vira ungido de ocasião.

E Deus, que deveria ser grande demais para caber em partido, acaba sequestrado por gente pequena o bastante para achar que o céu tem diretório eleitoral.

https://www.facebook.com/arandunoticias

TEXTO DE:

Julio Benchimol Pinto