É curioso como a nossa percepção do perigo funciona.
Tememos o avião, mas morremos na estrada. Tememos o assalto, mas ignoramos a hipertensão. Tememos grandes conspirações internacionais, enquanto uma bactéria microscópica pode estar fazendo turismo na salada do almoço.
O caso da ex-deputada estadual Grazielle Machado, cuja morte ocorreu após um grave quadro infeccioso que levou as autoridades a investigarem uma possível contaminação alimentar, devolve ao debate público um tema que só desperta interesse quando já é tarde demais.
Porque bactéria não dá entrevista.
Salmonella não publica manifesto.
Escherichia coli não disputa eleição.
Elas apenas fazem aquilo que a biologia lhes ensinou a fazer: multiplicar-se quando encontram um ambiente favorável. Somos nós que lhes oferecemos esse ambiente quando relaxamos na higiene, interrompemos a cadeia de refrigeração, manipulamos alimentos de qualquer maneira ou acreditamos que "sempre foi assim e nunca aconteceu nada".
A tragédia possui um talento perverso para ensinar aquilo que a prudência jamais conseguiu.
É impressionante como ainda existe quem trate intoxicação alimentar como se fosse apenas "uma dor de barriga". Não é.
Pode ser. Frequentemente é. Mas pode não ser.
Dependendo do microrganismo, da quantidade ingerida, da idade da pessoa, de doenças pré-existentes ou simplesmente da resposta do organismo, um quadro aparentemente banal transforma-se numa emergência médica em poucas horas.
A natureza não negocia.
Ela não pergunta em quem você votou, qual é sua religião, sua renda ou quantos seguidores possui nas redes sociais.
A bactéria é profundamente democrática. Contamina ricos e pobres com a mesma eficiência.
E há outro aspecto que merece reflexão.
Vivemos numa sociedade que desenvolveu uma curiosa capacidade de transformar qualquer assunto em guerra ideológica. Se um alimento faz mal, alguém culpa o governo. Outro culpa a oposição. Um terceiro culpa o capitalismo. Um quarto culpa a globalização. Enquanto isso, a bactéria continua trabalhando, absolutamente indiferente às hashtags do momento.
A realidade não muda porque escolhemos uma narrativa confortável.
Segurança alimentar exige fiscalização séria, responsabilidade dos produtores, cuidado dos comerciantes e, sobretudo, atenção de cada consumidor. Não existe decreto que substitua a higiene das mãos. Não existe discurso que refrigere um alimento deixado horas sobre a mesa. Não existe polarização capaz de matar uma bactéria.
Existe apenas prevenção.
E prevenção tem um defeito enorme: ela raramente vira manchete.
Ninguém noticia o restaurante que armazenou corretamente seus alimentos.
Ninguém entrevista a cozinheira que lavou adequadamente os utensílios.
Ninguém faz reportagem sobre a família que descartou um alimento suspeito e, justamente por isso, não adoeceu.
A prevenção é invisível. Seu sucesso consiste exatamente em impedir que algo aconteça.
As manchetes pertencem às tragédias.
Talvez o legado mais importante de uma morte como essa seja recordar uma verdade elementar que nossa pressa costuma esconder: o maior perigo nem sempre faz barulho. Às vezes, ele chega silenciosamente, senta-se à mesa conosco e espera apenas a primeira garfada.
E, quando percebemos sua presença, frequentemente já não há mais espaço para discursos. Apenas para médicos, hospitais e uma pergunta inevitável: será que isso poderia ter sido evitado?
GRAZIELLE MACHADO
Grazielle Salgado Machado (1980–2026) foi uma publicitária, professora universitária e política brasileira de grande destaque em Mato Grosso do Sul.
Nascida em Campo Grande e filha de tradicionais figuras políticas, construiu uma sólida trajetória institucional com forte defesa da representatividade feminina.
NOSSOS VOTOS DE SOLIDARIEDADE À FAMÍLIA
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Nunca saberemos em qual esquina encontraremos a morte... Já dizia Raul Seixas
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