sábado, 20 de junho de 2026

Alerta sincero assusta o Brasil


A Defesa Civil emitiu um alerta. Não era sobre enchentes. Não era sobre tempestades. Não era sobre deslizamentos. Era sobre misantropia.

Depois descobriu-se que a mensagem era fruto de uma invasão criminosa ao sistema. Um ato de vandalismo digital. Um crime. Um absurdo.

Mas eis a ironia: talvez tenha sido o alerta mais sincero que o país recebeu nos últimos anos.

Porque, convenhamos, se existe uma emergência nacional sobre a qual ninguém pode alegar surpresa, é justamente essa.

Vivemos um tempo em que o ódio virou identidade política. Em que a agressividade foi transformada em virtude. Em que o preconceito deixou de ser um defeito a ser escondido e passou a ser exibido como medalha de coragem.

Não surgiu do nada.

Durante anos, bosonaristas normalizaram discursos que antes causariam constrangimento público.

Mulheres passaram a ser atacadas por ocuparem espaços de poder.

Jornalistas passaram a ser perseguidas por fazerem perguntas.

Professoras passaram a ser tratadas como inimigas da nação.

A violência verbal virou espetáculo.

Ao mesmo tempo, grupos neonazistas multiplicaram-se pelo país. Símbolos antes restritos aos esgotos da história reapareceram em redes sociais, fóruns e manifestações. A intolerância encontrou um ecossistema perfeito: algoritmos que recompensam indignação e lideranças que descobriram que o ressentimento rende votos.

E então chega aquele alerta.

"Misantropia".

Uma única palavra.

Acidental? Sim.

Criminosa em sua origem? Evidentemente.

Mas profundamente adequada ao momento histórico? Difícil negar.

Talvez porque o Brasil tenha se acostumado a ignorar alertas verdadeiros.

Ignorou os alertas sobre a radicalização política.

Ignorou os alertas sobre a violência contra mulheres. Contra negros. Contra LGBTs. Intolerância religiosa. Etc, etc, atrás de etc...

Ignorou os alertas sobre o crescimento de grupos extremistas.

Ignorou os alertas sobre a erosão da convivência democrática.

Quando finalmente apareceu uma mensagem estranha nos celulares, muita gente se espantou. Curioso. Há anos os sinais estão piscando diante dos nossos olhos.

A diferença é que, desta vez, o aviso veio acompanhado daquele som irritante que obriga as pessoas a olhar para a tela.

Talvez seja justamente isso que esteja faltando ao país.

Não um hacker.

Mas um alarme.

Um alarme capaz de interromper a distração coletiva e anunciar:

"Atenção. Atenção. Emergência democrática em andamento."

Porque enchentes destroem cidades.

Mas o ódio organizado destrói sociedades.

E, infelizmente, contra esse desastre ainda não existe sirene suficiente.

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