Depois descobriu-se que a mensagem era fruto de uma invasão criminosa ao sistema. Um ato de vandalismo digital. Um crime. Um absurdo.
Mas eis a ironia: talvez tenha sido o alerta mais sincero que o país recebeu nos últimos anos.
Porque, convenhamos, se existe uma emergência nacional sobre a qual ninguém pode alegar surpresa, é justamente essa.
Vivemos um tempo em que o ódio virou identidade política. Em que a agressividade foi transformada em virtude. Em que o preconceito deixou de ser um defeito a ser escondido e passou a ser exibido como medalha de coragem.
Não surgiu do nada.
Durante anos, bosonaristas normalizaram discursos que antes causariam constrangimento público.
Mulheres passaram a ser atacadas por ocuparem espaços de poder.
Jornalistas passaram a ser perseguidas por fazerem perguntas.
Professoras passaram a ser tratadas como inimigas da nação.
A violência verbal virou espetáculo.
Ao mesmo tempo, grupos neonazistas multiplicaram-se pelo país. Símbolos antes restritos aos esgotos da história reapareceram em redes sociais, fóruns e manifestações. A intolerância encontrou um ecossistema perfeito: algoritmos que recompensam indignação e lideranças que descobriram que o ressentimento rende votos.
E então chega aquele alerta.
"Misantropia".
Uma única palavra.
Acidental? Sim.
Criminosa em sua origem? Evidentemente.
Mas profundamente adequada ao momento histórico? Difícil negar.
Talvez porque o Brasil tenha se acostumado a ignorar alertas verdadeiros.
Ignorou os alertas sobre a radicalização política.
Ignorou os alertas sobre a violência contra mulheres. Contra negros. Contra LGBTs. Intolerância religiosa. Etc, etc, atrás de etc...
Ignorou os alertas sobre o crescimento de grupos extremistas.
Ignorou os alertas sobre a erosão da convivência democrática.
Quando finalmente apareceu uma mensagem estranha nos celulares, muita gente se espantou. Curioso. Há anos os sinais estão piscando diante dos nossos olhos.
A diferença é que, desta vez, o aviso veio acompanhado daquele som irritante que obriga as pessoas a olhar para a tela.
Talvez seja justamente isso que esteja faltando ao país.
Não um hacker.
Mas um alarme.
Um alarme capaz de interromper a distração coletiva e anunciar:
"Atenção. Atenção. Emergência democrática em andamento."
Porque enchentes destroem cidades.
Mas o ódio organizado destrói sociedades.
E, infelizmente, contra esse desastre ainda não existe sirene suficiente.

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