sábado, 29 de agosto de 2026

E Deus se fez Couch

Um pastor da Lagoinha Alphaville explicou a pobreza. E Marx, Weber, Bourdieu e dois séculos de Ciências Sociais podem finalmente descansar.

O problema não é salário, herança, educação, desemprego, desigualdade, concentração de renda ou oportunidade - é a cabeça do pobre.

Segundo o pastor Pyero Tavolazzi, pobreza é uma “doença espiritual e mental”, e quem entende “o Reino e o Rei” não deveria continuar pobre.

É uma ideia extraordinária, sobretudo para quem já é rico, porque realiza um pequeno milagre sociológico: faz desaparecer a sociedade inteira e deixa apenas o pobre diante do espelho, procurando dentro de si a causa de não ter dinheiro.

Bourdieu chamaria isso de violência simbólica. Foucault talvez enxergasse o empresário de si mesmo. Eu chamaria de coaching com Espírito Santo.

A desigualdade vira mindset, a precariedade vira crença limitante, o desemprego vira falta de propósito e o sujeito que nasceu sem patrimônio, escola decente, contatos ou oportunidades descobre que seu verdadeiro problema estava na cabeça.

Melhor ainda: quem diagnostica a doença frequentemente conhece a cura - pregações, conferências, cursos, mentorias, livros, ofertas.

É um modelo de negócios quase celestial: transforma-se sofrimento social em defeito individual e depois se oferece tratamento para o defeito.

Se o fiel prosperar, a doutrina funcionou; se continuar pobre, faltou Fé, mentalidade ou produtividade.

Uma teoria maravilhosa: nunca perde - quem perde é o pobre.

O cristianismo começou com um homem que dizia ser difícil um rico entrar no Reino dos Céus. Dois mil anos depois, conseguiram atualizar o sofreste: difícil mesmo é o pobre entrar no Reino sem antes melhorar o mindset.

Jesus multiplicava pães; o neoliberalismo pentecostal multiplicou coaches.


TEXTO DE:

Julio Benchimol Pinto

Um comentário:

  1. Perfeito: não se pode simplificar um problema complexo, atacando apenas uma das causas ou analisando apenas uma das circunstâncias do contexto. Mas a abordagem da Esquerda (e me insiro nesse lado do espectro político) é também minimalista. Digamos que o tal coach tem uma ponta de razão, e o "parafuso a menos" da mente pobre faz a alegria dos espertos que têm "um parafuso a mais", sendo portanto "mais iguais" no conceito orwelliano. O problema deve ser atacado de pelo menos 2 lados, mas a Direita só ataca o parafuso faltante, e a Esquerda só ataca o parafuso roubado do pobre. Que tal nós, da Esquerda, inventarmos um clube de exercícios sociais e tecnológicos para pobres que se julgarem inteligentes (e portanto passíveis de serem cobrados por isso?). Está faltando engenharia social. E está faltando, paralelamente, um partido político de Esquerda que se proponha a aplicar bons princípios administrativos, com preocupação zero de continuar no poder após as próximas eleições. Como dizia o Millôr, deve-se desconfiar de todo idealista que lucra com seu ideal. Utopia? O Socialismo não era, até aqui, uma utopia, maldição que a China vem desmentindo?

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