sexta-feira, 24 de julho de 2026

A Indústria brasileira aceita a acusação americana?

Achei curioso o patriotismo da CNI e da ABIMAQ: o do réu que aceita a acusação antes do julgamento

Existe um velho ditado no Direito segundo o qual quem confessa facilita o trabalho da acusação. Pois bem.

Se depender da reação inicial de parte da representação da indústria brasileira, os Estados Unidos nem precisarão gastar muito tempo tentando convencer o mundo de que o Brasil convive com trabalho forçado em sua cadeia produtiva. Alguns dos nossos representantes parecem dispostos a fazer esse serviço de graça.

Diante do anúncio das tarifas americanas, justificadas pela gravíssima acusação de utilização de trabalho forçado, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (ABIMAQ) correram para defender a negociação direta e advertir contra medidas de reciprocidade.

Negociar? Evidentemente. Diplomacia não é uma modalidade de luta livre.

Mas há uma questão anterior, muito anterior.

Onde estava a indignação contra a acusação?

Porque uma coisa é reconhecer que uma guerra comercial produz perdas para todos. Outra, muito diferente, é agir como se a acusação fosse apenas um detalhe burocrático no meio da negociação.

Quando uma potência econômica afirma que determinado país merece ser tarifado porque estaria associado a práticas de trabalho forçado, isso não representa apenas uma divergência comercial. É um ataque à reputação internacional de toda a sua produção.

A primeira reação esperada de quem representa a indústria seria perguntar: onde estão as provas?

Em vez disso, o debate rapidamente migrou para outro terreno: "não reajam", "não façam reciprocidade", "negociem".

Ora, negociar o quê? A tarifa ou a culpa?

Porque a impressão produzida é devastadora. Quem observa de fora pode concluir que, se as próprias entidades industriais brasileiras não contestam energicamente a acusação, talvez ela contenha algum fundo de verdade.

É evidente que isso não significa que defender reciprocidade seja necessariamente a melhor estratégia. Medidas dessa natureza precisam ser avaliadas com racionalidade econômica e diplomática. O ponto não é esse.

O problema é inverter a ordem das prioridades.

Antes de discutir como responder à sanção, seria razoável rejeitar publicamente a narrativa que tenta justificar a própria sanção.

Caso contrário, aceita-se a denúncia e passa-se diretamente à discussão da pena.

Mas existe uma ironia ainda maior.

Boa parte do empresariado organizado que hoje cobra do presidente Lula uma solução rápida para a crise foi, durante anos, uma das mais entusiasmadas bases de sustentação política do bolsonarismo.

Não estamos falando apenas de apoio eleitoral. Estamos falando de um ambiente político que tratou qualquer gesto de alinhamento automático aos Estados Unidos de Donald Trump como demonstração de patriotismo.

Essa mesma galera apoiava que o próximo presidente deveria ser o governador carioca de São Paulo, Tarcísio de Freitas que subiroa a rampa do Planalto com o boné "make América great again".

Agora, quando essa relação produz consequências econômicas e diplomáticas desfavoráveis ao Brasil, a responsabilidade desaparece como num passe de mágica.

Os responsáveis políticos pelo ambiente que desembocou nesse conflito tornam-se invisíveis.

E toda a cobrança recai sobre Lula, como se tivesse sido seu governo a incentivar confrontos institucionais, atacar parceiros comerciais ou transformar a política externa em instrumento de guerra ideológica.

É uma curiosa versão da responsabilidade seletiva.

Privatizam-se os aplausos quando a aposta parece render dividendos políticos.

Socializam-se os prejuízos quando a conta finalmente chega.

Não deixa de ser curioso que parte dos mesmos setores empresariais que tantas vezes denunciaram um Estado "intervencionista" agora exijam justamente desse Estado a solução imediata para uma crise cuja gênese política ajudaram a alimentar.

O governo, evidentemente, tem a obrigação de defender os interesses nacionais. É para isso que existe.

Mas também seria saudável que as entidades empresariais demonstrassem o mesmo vigor na defesa da honra da indústria brasileira que demonstram ao defender a necessidade de preservar mercados.

Porque reputação também é ativo econômico.

Aliás, talvez seja o principal deles.

Uma indústria cuja própria representação parece hesitar em contestar uma acusação internacional gravíssima já entra na mesa de negociação em posição defensiva.

Não porque perdeu a disputa comercial.

Mas porque, antes mesmo da primeira rodada, aceitou discutir o tamanho da punição sem exigir que a acusação fosse demonstrada.

Isso não é pragmatismo.

É rendição argumentativa.

E quem se rende na narrativa dificilmente vence na negociação.

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