Algumas notícias escandalizam pelo conteúdo. Outras, pela redação. E, de vez em quando, aparece uma que consegue a proeza de fazer as duas coisas ao mesmo tempo.
Um amigo me manda uma manchete:
"Presa por fraude na Educação, dentista tinha gráfica com registro para criar bois em Terenos."
Parei.
Li outra vez.
Pensei que talvez o problema fosse meu.
Li uma terceira.
Continuava sem saber se a dentista havia sido presa pela fraude, pela gráfica, pelos bois ou pelo registro.
Notem que não estamos diante de uma questão de estilo. Não é literatura. É sintaxe. É lógica. É comunicação. A manchete — essa pobre criatura que deveria ser a parte mais clara de uma reportagem — resolveu brincar de enigma.
É evidente que, ao entrar na matéria, entende-se (ou quase), que a investigação aponta para um suposto esquema envolvendo empresas, entre elas uma gráfica. Muito bem. Isso é informação. Isso faz sentido. Isso explica o contexto.
Mas a manchete preferiu outra estratégia: jogar palavras numa mesma frase e deixar o leitor montar o quebra-cabeça.
É quase um novo gênero jornalístico: o "complete as lacunas".
Imaginem o precedente.
"Preso por peculato, advogado tinha churrascaria para venda de sentenças."
"Investigada por fraude na saúde, aeromoça possuía salão de beleza com registro para vender pastel."
Tudo rigorosamente verdadeiro — e rigorosamente inútil para explicar o fato principal.
Há quem imagine que isso seja um detalhe. Não é.
Uma manchete mal construída não é apenas um problema de português. É um problema de informação. O jornalismo vive da precisão das palavras. Quando elas deixam de esclarecer e passam a confundir, algo essencial se perde.
E aqui mora uma ironia deliciosa — deliciosa apenas do ponto de vista literário, registre-se. Estamos falando de um caso que investiga, justamente, desvios de recursos da educação. Educação. Aquela velha senhora que deveria ensinar interpretação de texto.
No fim, quem acabou precisando de aulas de interpretação foi o leitor da manchete.
Mas há algo mais preocupante.
Vivemos uma época em que muita gente lê apenas os títulos das reportagens. Não por preguiça, necessariamente. Porque o cotidiano é atropelado, as redes sociais aceleram tudo e a manchete virou, para milhões de pessoas, a própria notícia.
Ora, se o título não consegue explicar o fato, ele produz exatamente o contrário daquilo que o jornalismo deveria oferecer: luz.
Passa a fabricar ruído.
E ruído é o oxigênio da desinformação.
Não se trata de patrulhar redações nem de exigir perfeição gramatical como quem corrige prova de vestibular. Erros acontecem. Mas há uma diferença entre um deslize e uma construção que embaralha completamente a hierarquia das informações.
O episódio investigado é grave. Se houve fraude, que os responsáveis respondam por ela com todas as garantias do devido processo legal e, se condenados, com todo o rigor da lei.
Mas façamos um favor ao leitor.
Da próxima vez, contem primeiro a notícia.
Depois, se acharem relevante, expliquem que havia uma gráfica, um registro para comércio de bovinos, uma empresa, um contrato ou qualquer outro elemento da investigação.
Porque, do jeito que foi escrito, o único crime cuja materialidade ficou evidente já na manchete foi um atentado contra a clareza da língua portuguesa.
E esse, infelizmente, continua sendo um delito cotidiano contra o leitor.

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