Convém começar pelo óbvio — justamente porque o óbvio costuma ser soterrado pela retórica.
Acordos comerciais não são atos de fé. Não são “bons” ou “maus” em si mesmos. Produzem efeitos concretos, mensuráveis e, quase sempre, assimétricos.
O acordo entre Mercosul e União Europeia não foge à regra. E o azeite de oliva é um ótimo exemplo para entender o que está em jogo.
O produto estrangeiro: a virtude do acordo segundo seus defensores
Com o acordo em vigor, o azeite europeu tende a entrar no Brasil pagando menos tarifas. Isso não é ideologia; é matemática. Menor imposto na origem significa menor custo para o importador, maior oferta e, em alguma medida, preços mais baixos ao consumidor.
Resultado?
O brasileiro passa a encontrar com mais facilidade azeites espanhóis, portugueses, italianos e gregos (inclusive de melhor qualidade) a preços menos proibitivos. O discurso oficial celebra: concorrência, eficiência, escolha. Tudo muito bonito.
E não é falso. Apenas incompleto.
O que não aparece no rótulo
O problema começa quando se finge que o mercado é um jogo de iguais. Não é.
O azeite europeu que chega ao Brasil é produzido em países que:
Subsidiaram sua agricultura por décadas
Financiaram tecnologia, irrigação e pesquisa
Construíram cadeias produtivas maduras e protegidas
Já o azeite brasileiro — notadamente o gaúcho — é fruto de uma atividade ainda incipiente, de custos elevados, crédito caro e zero tradição secular. Colocar esses dois produtos para “competir” em nome da abstração do livre mercado não é liberalismo; é cinismo analítico.
O produtor nacional: concorrência ou esmagamento?
Com o avanço do azeite europeu:
O produtor brasileiro vê sua margem encolher
O investimento se torna mais arriscado
Pequenos e médios produtores tendem a desistir
Os mais otimistas falam em “especialização”, “nicho premium”, “valor agregado”. Ótimo — desde que existam políticas públicas que tornem isso viável. Sem elas, o resultado é previsível: desindustrialização do campo, travestida de modernização.
E o emprego? Não desaparece — evapora
Aqui entra o ponto que raramente vira manchete. A queda de preços é visível. A perda de empregos, não.
Quando a produção local encolhe:
Some o emprego rural
Some o trabalho indireto
Some o incentivo à inovação local
Os postos de trabalho gerados pelo azeite europeu continuam na Europa. O Brasil vira consumidor eficiente e produtor irrelevante. Há quem chame isso de “integração competitiva”. Eu prefiro chamar de escolha política não assumida.
O padrão estrutural
O azeite é apenas um caso didático de um movimento maior: a União Europeia exporta produtos com valor agregado; o Mercosul exporta soja, minério e carne. Quando tentamos produzir algo além disso, somos aconselhados a “nos adaptar”.
Adaptar-se a quê?
À posição subordinada?
A pergunta que importa
Não se trata de demonizar o acordo nem de sacralizar a produção nacional. Trata-se de abandonar a mistificação. Sem política industrial, sem crédito, sem proteção transitória, o acordo melhora a vida do consumidor no curto prazo e empobrece a estrutura produtiva no médio.
O azeite pode até ficar mais barato.
A economia, não.
E isso não é uma fatalidade do mercado. É uma decisão — ou a ausência dela.
Conclusão
O acordo no geral melhora as relações comerciais entre os dois continentes, porém, deve ser tratado com responsabilidade.
Usamos aqui um único exemplo: o azeite de oliva. Para outros produtos haverá ganho para o Brasil, e prejuízo a produtores europeus.
O que o Brasil precisará fazer, é se reajustar a nova realidade que se desenhará no futuro, criando políticas internas que possam dar ao produtor nacional, condições de continuar disputando mercado interno e obviamente, ampliar o mercado externo.
Por isso, não só no Mercosul, mas também no Brics, o Brasil precisa manter o protagonismo e o pragmatismo, para continuar crescendo economicamente.

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