A memória pública do século XX costuma simplificar a história da resistência ao fascismo e ao nazismo.
Com frequência, ela é apresentada como um confronto entre Esquerda e Direita, no qual apenas um campo político teria se colocado, de forma consistente, ao lado da democracia.
A documentação histórica, no entanto, revela um quadro mais complexo: a resistência ao totalitarismo foi plural, atravessou tradições ideológicas distintas e, em muitos casos, expôs contradições internas profundas.
Durante a Segunda Guerra Mundial, diferentes grupos — comunistas, liberais, conservadores, democratas-cristãos e nacionalistas não fascistas — atuaram contra regimes autoritários por motivações diversas, mas convergentes em um ponto central: a recusa ao Estado totalitário e ao poder concentrado em líderes incontestáveis.
Livorno e o comunismo italiano na resistência
A cidade de Livorno, na Toscana, ocupa um lugar singular nessa história. Em 1921, foi ali que se fundou o Partido Comunista Italiano (PCI). Durante o regime de Mussolini, seus militantes sofreram repressão sistemática: prisões, exílio interno e clandestinidade. Após a ocupação alemã da Itália, em 1943, os comunistas de Livorno tornaram-se protagonistas da resistência local, integrando brigadas partisans, organizando sabotagens e sustentando redes de apoio civil em uma cidade duramente atingida por bombardeios.
Embora o PCI estivesse politicamente alinhado à União Soviética e reconhecesse em Stalin o líder do principal esforço militar contra o nazismo, a prática da resistência italiana foi marcada por forte autonomia local. A prioridade não foi a instauração imediata de um regime ideológico, mas a derrota do fascismo e a reconstrução de instituições nacionais.
No pós-guerra, essa experiência contribuiu para a consolidação do chamado “comunismo italiano”, que aceitou o pluralismo partidário, a disputa eleitoral e a convivência institucional. Ao longo das décadas seguintes, inclusive após a revelação dos crimes do stalinismo, o PCI e suas bases sociais — entre elas Livorno — passaram por processos de revisão crítica e distanciamento de modelos autoritários.
Essa trajetória histórica oferece um dado relevante para o debate contemporâneo: há experiências de Esquerda que, confrontadas com o autoritarismo, optaram por reformular práticas e romper com a defesa de regimes personalistas. Ignorar esse aprendizado enfraquece qualquer discurso democrático.
A resistência liberal e conservadora
A documentação histórica também mostra que a oposição ao fascismo não foi exclusividade da Esquerda.
Na Alemanha, grupos liberais e conservadores — como o Círculo de Kreisau e setores do alto comando militar envolvidos na Operação Valquíria — conspiraram contra Hitler, motivados pela defesa do Estado de direito e pela percepção de que o regime levava o país à ruína.
Na França, o gaullismo organizou uma resistência nacionalista e republicana.
Na Itália, liberais, democratas-cristãos e monarquistas romperam com Mussolini em 1943.
Na Polônia ocupada, o Armia Krajowa, de orientação conservadora e anticomunista, formou a maior organização de resistência da Europa.
No Reino Unido, o conservadorismo parlamentar, sob a liderança de Winston Churchill, tornou-se um dos pilares da luta contra o nazismo.
Esses exemplos indicam que setores da direita, quando vinculados a instituições, legalidade e limites ao poder, foram capazes de resistir ao autoritarismo — inclusive pagando alto custo político e pessoal.
Lições históricas e o debate atual
A análise comparada dessas experiências aponta para uma conclusão recorrente nos estudos históricos: o autoritarismo não se define apenas por ideologia, mas por práticas concretas de poder. Culto à personalidade, desprezo por instituições, repressão a opositores e manipulação do processo eleitoral foram características comuns tanto ao fascismo quanto a outros regimes ditatoriais do século XX.
Nesse sentido, a história de Livorno sugere que a Esquerda democrática fortalece sua legitimidade quando é capaz de criticar e rejeitar ditaduras, independentemente de alinhamentos geopolíticos. Da mesma forma, a tradição liberal e conservadora europeia demonstra que a Direita preserva sua herança quando se recusa a apoiar lideranças golpistas, mesmo quando estas se apresentam como representantes de valores nacionais ou morais.
O registro histórico do século XX é consistente em um ponto: regimes personalistas e autoritários corroem tanto projetos revolucionários quanto tradições conservadoras. A resistência ao fascismo não foi um patrimônio exclusivo de um campo político, mas o resultado de escolhas feitas — ou recusadas — diante do poder absoluto.
A história não oferece receitas prontas, mas fornece critérios. Entre eles, talvez o mais claro seja este: quando a democracia é relativizada em nome da conveniência ideológica, o resultado tende a ser menos política e mais ruína institucional.
Por fim, não podemos deixar de citar, a vergonha que é para a Direita brasileira apoiar um golpista fascistóide como Jair Bolsonaro.
Da mesma maneira que a Esquerda brasileira, não pode se dar ao luxo de apoiar ditadores como Nicolás Maduro.

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