Para quem se interessar por saber um detalhe sobre a minha carreira tão peculiar, aqui vai um sucinto questionário, em forma de "charada"...
Só para distrair... só de curtição !
Muitos me perguntam uma série de porquês.
1. Por que eu fiquei de fora de todos os line-ups de festivais e assemelhados, como os históricos Hollywood Rock, Rock in Rio, etc, e posteriormente também prossegui fora dos festivais modernos...
2. Por que só eu fiquei de fora dos "Acústicos MTV", quando todos os nomes dos anos 80 e 90 participaram, alguns várias vezes seguidas, e me tornei uma espécie de "leproso do pop" brasileiro, mesmo tendo sido historicamente pedra fundamental por várias vezes, como Meu Mundo e Nada Mais inaugurando o Pop Brasil em 76, e depois com Perdidos na Selva, Deixa Chover, inaugurando os Anos 80 ? Porque ?
3.Por que eu fui cirurgica e sistematicamente excluido, 100% cancelado das mídias escritas especializadas no Rock e no Pop brasileiro, tais como Revista Bizz e outras assemelhadas. mesmo tendo sido praticamente o pai de todo o movimento ?
4. Como é que eu sobreviví a essas exclusões vergonhosas, e hoje ainda estou aqui, de pé e vivinho da silva, prestes a lançar um álbum histórico e uma grande turnê de cinquentenário de carreira, e tenho moral absoluta para contar essa história ?
As respostas, nos próximos capítulos.
Este mundo é uma piada.
Mais engraçado ainda é poder "dar nomes aos bois" ...
Só não sei se vale a pena guardar rancores...
Penso que não...
Mas "saborear" sim . E dar muita risada, porque é um mundo caricato.
Vou começar a responder nas linhas abaixo.
O mundo da musica é feito em camadas que se sucedem .
E não são apenas as modas , em ondas...
Ondas de linguagem, de costumes e roupagens, timbres, calças e cabelos...
As vezes são também os suportes tecnológicos que se renovam, e muitos nomes vão ficando para trás.
Nesse aspecto, fui sobrevivendo quase sem traumas.
Só nos anos 90, com a chegada da replicação digital ( o desastroso CD, não pelo veículo em si, mas pelo mau uso que fizeram com o imediatismo) as gravadoras inventaram, ou aproveitaram melhor dando mais ênfase a artistas para a "escala de milhão" , e surgiram os filões adequados (Axé, Pagode, e o Neo-Sertanejo).
Os gêneros musicais são sempre válidos, vejam bem, o que criticamos aqui é o "hype" artificial .
O fato é que a nossa geração sentiu o baque com as concorrências violentas que tivemos que nos confrontar. Uma delas é a ascensão inexorável e plenamente justificada do Agro. Com o Sertanejo ninguém pode.
Outra foi a ascensão monumental da Bahia como polo turístico e comportamental, a explosão bela e maravilhosa do Axé, com artistas muito mais eficientes.
Outra ainda foi a explosão espetacular de uma Jovem Guarda preta no país, tomando conta dos programas de auditório com os sucessos inequívocos do Pagode.
E ainda o surgimento do Rap, tendo à frente, entre outros, os Racionais de Mano Brown, de quem me tornei fã ardoroso de primeira hora!
Núcleos de híbridos dessas tendências ainda produziram vertentes geniais de Charlie Brown Jr, o Rappa, misturando rap com reggae, punk com samba, o Planet Hemp, o Brasil ficava muito múltiplo e porque não dizer - legítimo.
Quem seria eu para criticar o "novo"?
Veio ainda a fulminante Cena Pop de BH , com bandas excelentes como o Skank, o Jota Quest, o Pato Fu, Wilson Sideral, e o rádio nos anos 90 virou uma festa de uma nova geração.
A nossa geração 70/80 sentiu o baque.
Eu, que não era nenhum blockbuster de vendas, perdi o pé, porque não tinha uma operação de marketing que me abarcasse dentro.
Me ví avulso.
Mas existiram outros fatores muito piores, já a partir da decada de 80.
Surgiram nichos importantes de mídia, e eu estava despreparado, principalmente frente à velocidade dessa transformação.
Eu vinha da televisão, dos programas de auditório, uma espécie de pós-Jovem Guarda.
As trilhas de novelas, que haviam me projetado, iam se tornando mais e mais competitivas nas gravadoras, e a ferocidade nos bastidores ia se recrudescendo, com novos "hitmakers" entrando no páreo, cada dia mais profissionalizado e disputado.
Muitos talentosos e espertos também aprenderam as minhas velhas fórmulas das baladas de novela. virou um gênero vulgar, o que era para mim uma obra de arte.
Não bastava eu ter uma musica "Amanhã" no Dancin' Days.
Tornou-se a "Era dos HitMakers", com hits fabricados em escala industrial, e eu era muito mais do que isso. Eu não vendia disco, era um mero artesão. Simples assim.
A chegada do Pop Rock aos auditórios, trazendo um Brasil Jovem para a popularidade nacional, acendeu o interesse das "Majors" , e um nicho jovem logo se instalou, com o Circo Voador, o Asdrubal, e o fenomeno das "danceterias", os "trends" do New Wave, New Romantic, Pós-Punk, New Bossa, Brit Pop, Grunge, etc, etc ... uma floresta de cogumelos pipocando micro-modas.
A seguir, as Editoras passaram a dedicar partes de suas redações para o publico jovem.
Eu ainda performava bem no tempo da Revista Pop do Okky de Souza, Antonio Carlos Miguel, Ana Maria Bahiana, Ezequiel, Julio Barroso, e muitos outros amigos geracionais.
Nelson Motta entre eles.
Eu estava na Warner do Midani, com bons assessores de imprensa e um foco especial no cast jovem, com Baby, Pepeu, A Cor do Som, Dafé, Oswaldo Montenegro, As Frenéticas, Gang 90, Marina, Lulu Santos, Ira.
Mais tarde chegariam os Titãs, o Ultraje, em plenas águas turbulentas dos anos 80.
No meio da década, mais precisamente no final de 84, eu iria para a CBS do Tomás Muñoz, Condé, Maynard, assinava contrato com uma espécie de Real Madrid, uma Ferrari campeã de vendas, com o RPM no auge, Djavan, Simone, Fabio Jr, Rosana, Ritchie, Radio Taxi, Metrô, Angélica, Turma do Balão Mágico, Dominó, Leo Jaime, e muitos outros frequentadores do Globo de Ouro.
Em um apogeu fonográfico internacional do We Are the World, Thriller, imaginem que onda!
A CBS tinha um marketing bem agressivo, mas não se especializou nem em MTV, nos canais e programas de clips que viraram moda.
E nem em Revista Bizz e outras publicaçoes especializadas desse periodo.
Eram novos canais preferências de um movimento geracional, ligado a outros grupos fonográficos.
Eu estava muito bem, com sucessos e boas vendas todo ano, mas nós não estávamos muito preocupados com a mutação do mercado, especialmente do Show Business, que começava uma escalada de "substituição da indústria fonográfica" por uma nova indústria, a do entretenimento do espetáculo. O disco, que era até então o foco principal, começava a virar um suporte secundário.
Após o Rock in Rio, que inaugurou uma nova escala de produção de shows no Brasil, ainda se instalou uma "indústria de imagem" como nunca havia existido antes.
O Video-Clip como produto, não mais como mero suporte de divulgação.
Uma nova linguagem, filmada em película, por cineastas, e voltada para um canal específico extremamente estratificado.
E Excludente.
Eu claramente não "era da turma", já era um dinossauro.
Eu sabia disso tudo, era informado, mas iludido, não acreditava muito, me achando o "rei da cocada-preta", deitado nos louros de Gugú, Raul Gil, Cassino do Chacrinha, Bolinha, Globo de Ouro, Fantástico, Xou da Xuxa, com os velhos videoclips em BetaCam, brincando com "chroma-keys" primários, ballets cafonas, fumaças de gelo seco, muitos panos esvoaçantes e taças de champagne.
Vamos ser sinceros: mergulhado numa estética careta, eu estava ficando pra trás, com os meus enormes posters da Amiga e da Contigo nas paredes dos salões de beleza.
Hoje eu lembro com carinho, mas dando muita risada.
A minha música era boa, eu sabia, e sabia que iria durar, mas aquele momento de virar a mesa estéticamente, nos vídeos, nas capas, enfim, na imagem, já há muito havia passado do ponto.
Eu já era.
Em 92 eu ainda migraria para a EMI Odeon, para um cast que reunia Paralamas, Legião Urbana, Marisa Monte, Kiko Zambianchi, Marina Lima, só craques com discos e imagem impecáveis, e pude pela primeira vez me auto-produzir (assumir o comando fonográfico ).
O LP "Crescente", uma obra- prima, no Estudio Mosh, com mastering em NY, no MasterDisk do Bernie Grundman, e fiz um único clip de arte, com Flavio Colker, da musica Taça de Veneno, um clip lindissimo em linguagem de cult movie.
Bola dentro com a equipe da EMI Odeon, que acreditou no meu taco, porém 93 seria um ano de desmanche dessa industria fonográfica "mais nobre", e um mergulho generalizado nos caminhos milionários do CD e do DVD.
Cabeças estavam rolando nas gravadoras "majors", que faturavam como nunca com o digital, era o frenesi de um Titanic afundando.
Eu havia chegado tarde. (Ou quase)...
Mal consegui tangenciar aquela geração que consolidava prestigio com sucesso.
Dali para a frente, eu viví o meu "jubilamento" das gravadoras "majors".
Não tive conflitos, não processei ninguém, não virei persona-non-grata.
Simplesmente fui me retirando, com minhas auto-produções em Adats, e já nos anos 2000 migrei para Protools, Logic Audio, montei meu estudiozinho, meu selo independente e passei a um status de "cult".
Nanico, mas respeitado.
Penso que foi um processo normal.
33 anos depois, a idade de Cristo, eu não vejo nada de mais no que aconteceu, ou deixou de acontecer comigo.
Está tudo bem, tem lugar pra todo mundo, tem lugar pra todos os nossos acertos e... para os nossos erros, um lugar ainda mais especial !
Conseguimos compreender, e aceitar, que a gente falha (muito) também nesta vida, por mais que o sucesso seja tão gratificantemente enganador.
Texto de:
Guilherme Arantes
A postagem original pode ser conferida na página de facebook do artista
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Sinceridade acima de tudo... 💜💜💜
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