Dom Casmurro, de Machado de Assis, e 13 Porquês, de Jay Asher, parecem obras que não poderiam estar mais distantes uma da outra.
Um nasce no Brasil do século XIX, marcado pelo Realismo, pela ironia e pela desconfiança da própria narrativa. O outro surge no século XXI, voltado ao público jovem, lidando com temas urgentes como bullying, silêncio social e sofrimento psicológico.
Ainda assim, existe um ponto de contato poderoso entre os dois: ambos contam histórias cujo final é conhecido desde o começo — e, mesmo assim, nos fazem acreditar que tudo pode mudar.
É justamente aí que mora a genialidade narrativa dessas obras.
O suspense não está no final, mas no caminho
Em Dom Casmurro, Bentinho não esconde o fracasso de sua vida afetiva. Desde o início, sabemos que o amor por Capitu terminou em amargura, solidão e suspeita. Já em 13 Porquês, a morte de Hannah Baker é apresentada logo de saída. Não há mistério sobre o desfecho.
Então por que seguimos lendo?
Porque, nas duas narrativas, o verdadeiro suspense não está no o que acontece, mas no como poderia ter sido diferente. Cada lembrança de Bentinho, cada fita deixada por Hannah, cria no leitor a sensação incômoda de que uma escolha mínima — uma conversa, um gesto, uma escuta atenta — talvez tivesse mudado tudo.
Mesmo sabendo que não mudará.
A armadilha da esperança retrospectiva
Machado de Assis faz algo brilhante: transforma Bentinho em um narrador que conversa com o leitor, que se justifica, hesita, se contradiz. Ele não afirma com todas as letras que Capitu o traiu — ele sugere, insinua, planta dúvidas. E nós, leitores, entramos no jogo. Relembremos cada cena tentando encontrar o momento exato em que a história “desandou”.
Jay Asher constrói esse mesmo efeito com outra linguagem. As fitas de Hannah Baker organizam o passado como uma sequência de causas e efeitos. A cada episódio, pensamos: se alguém tivesse agido diferente aqui… A leitura avança movida por essa esperança tardia, quase cruel.
Nos dois casos, somos levados a fazer algo impossível: revisar o passado acreditando que ele ainda pode ser consertado.
Narradores que controlam a versão dos fatos
Bentinho e Hannah Baker têm algo em comum: ambos dominam completamente a narrativa. Eles escolhem o que contar, como contar e em que ordem contar. Não pedem exatamente nossa absolvição — pedem nossa adesão emocional.
O leitor não recebe a verdade objetiva. Recebe uma versão. E é essa versão, cuidadosamente construída, que nos envolve. Em Dom Casmurro, nunca saberemos se Capitu traiu ou não. Em 13 Porquês, a culpa pela morte de Hannah se dilui entre muitos personagens, nenhum deles um vilão clássico.
A força dessas histórias está menos nas respostas e mais no desconforto das perguntas que permanecem.
Tragédias feitas de pequenas coisas
Nem Machado nem Asher apostam em grandes acontecimentos espetaculares. Suas tragédias nascem do cotidiano: de silêncios, mal-entendidos, inseguranças, omissões. Bentinho não é um tirano; os personagens de 13 Porquês não são monstros. São pessoas comuns — e isso torna tudo mais perturbador.
Porque, se o erro foi pequeno, talvez pudesse ter sido evitado.
E é essa sensação que mantém o leitor preso à leitura, mesmo sabendo que o final já está escrito.
Quando a esperança faz parte da tragédia
Dom Casmurro e 13 Porquês provam que uma boa história não precisa esconder seu desfecho para ser envolvente. Às vezes, revelar o fim desde o início torna a experiência ainda mais dolorosa — e mais humana.
Ambas as obras nos conduzem a uma conclusão desconfortável: há histórias que não mudam não por força do destino, mas porque as escolhas humanas quase sempre chegam tarde demais.
E talvez seja por isso que seguimos lendo, página após página — não para mudar o final, mas para entender onde, exatamente, tudo começou a dar errado.
TEXTO DE:
Tarciso Tertuliano

Nenhum comentário:
Postar um comentário