No Brasil, declarar-se “anti-sistema” virou uma forma elegante — e socialmente aceita — de dispensar o esforço do pensamento.
É o novo “não sou de Direita nem de Esquerda”, só que com mais raiva, menos leitura e um sentimento difuso de superioridade moral.
Trata-se de uma posição política curiosa: ela se afirma pela negação de algo que raramente é definido, mas sempre culpado.
Do ponto de vista conceitual, o “anti-sistema” é um significante vazio, como já explicava Ernesto Laclau — embora seus usuários brasileiros provavelmente nunca tenham passado da orelha do livro, quando muito.
É uma palavra que não diz o que é, mas diz contra quem se está. E isso basta para mobilizar paixões.
Quando esse significante vazio é evocado, qualquer coisa pode ocupar esse vazio: os injustos impostos, a demoníaca ideologia de gênero, a Mão invisível do Mercado, os reptilianos, os globalistas, os comunistas...
Todo inimigos imaginários, mas que servem a um propósito bem definido: preencher a vaga de inimigo a ser combatido.
À Esquerda mais extremada, o sistema atende pelo nome respeitável de capitalismo. Não se trata aqui de negar a legitimidade da crítica ao capitalismo — ela é vasta, antiga e intelectualmente séria. O problema começa quando tudo passa a ser capitalismo: o preço do feijão, o algoritmo do Instagram, a derrota eleitoral, a falta de carisma do candidato e, claro, a impossibilidade de vencer eleições sem convencer o eleitor. O capitalismo deixa de ser um modo de produção historicamente determinado e vira uma entidade onipotente, responsável até pelo mau humor matinal.
À Direita brasileira — especialmente aquela que resolveu substituir Burke por vídeos de Telegram — o sistema se chama globalismo. Eis um conceito notável por sua elasticidade cognitiva. Globalismo pode ser o STF, a ONU, a imprensa, as universidades, o SUS, a vacina, o IBGE, o Papa, artistas da Lei Rouanet e, se apertar um pouco mais, o clima. É o sistema como conspiração permanente, nunca como estrutura verificável. Não se estuda: denuncia-se. Não se analisa: acusa-se.
O mais fascinante é que esses extremos se encontram no método. Ambos precisam de um inimigo abstrato para explicar seus fracassos concretos.
Como ensinou Karl Popper, teorias que explicam tudo acabam não explicando nada. No Brasil, elas apenas rendem curtidas.
O bolsonarismo é talvez o exemplo mais acabado dessa lógica. Chegou ao poder bradando contra “tudo isso que está aí” — o sistema, ora vejam — e, uma vez instalado no Planalto, passou quatro anos explicando que não governava porque o sistema não deixava.
Congresso? Sistema.
STF? Sistema.
Imprensa? Sistema.
Vacina? Sistema.
O curioso é que o sistema sempre estava no outro poder, nunca no espelho.
Mas a Esquerda brasileira não fica atrás quando transforma o “anti-sistema” numa identidade estética. Parte dela passou a tratar a democracia liberal não como um campo de disputa imperfeito, mas como um disfarce burguês irremediavelmente fraudulento. Resultado: despreza eleições quando perde, relativiza autoritarismos amigos e troca a crítica institucional por uma retórica moralizante que não convence nem o porteiro do prédio.
Hannah Arendt advertia que a política começa onde termina a tentação de explicações totais.
O discurso anti-sistema faz o caminho inverso: ele oferece uma resposta simples para problemas complexos e, assim, desobriga seus adeptos de pensar soluções reais. Afinal, se o mal é absoluto, qualquer meio vira aceitável — inclusive o flerte com o autoritarismo, desde que “do lado certo”.
No fim das contas, o “anti-sistema” brasileiro não é revolucionário nem subversivo. Ele é confortável. Funciona como um álibi retórico para não lidar com reformas difíceis, escolhas trágicas e responsabilidades institucionais. É a política como ressentimento organizado.
E aqui está a ironia final: quem vive denunciando o sistema raramente quer destruí-lo.
Quer apenas ocupá-lo — sem controles, sem crítica, sem limites.
Não é anti-sistema. É anti-complexidade, anti-democracia e, muitas vezes, anti-realidade.

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