A Polícia Federal prende.
O inquérito avança. Os fatos se acumulam. O dinheiro deixa rastros.
O personagem central é investidor, pastor, empresário e — vejam só — um dos maiores doadores das campanhas de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas.
E então surge a pergunta que realmente importa para parte da imprensa e da bolha digital: “Mas o que Alexandre de Moraes tem a ver com isso?”
Pois é. Nada. Justamente por isso, insistem.
Temos aqui um caso típico de manual: relação empresarial nebulosa, conexões familiares com banqueiro de grande porte, operações financeiras sob suspeita e, por coincidência apenas estatística, proximidade política com o bolsonarismo.
A investigação é da PF. O inquérito corre nos trilhos legais. Não há canetada solitária, não há decisões monocráticas mirabolantes, não há capa preta pairando sobre os autos como entidade metafísica.
Mas isso não impede que parte da imprensa (aquela sempre pronta a farejar “excessos” onde só há procedimento) force Alexandre de Moraes para dentro da cena, como se ele fosse uma espécie de personagem obrigatório de qualquer narrativa criminal que envolva aliados do bolsonarismo.
É quase tocante.
Quando o investigado é um “cidadão de bem”, empresário religioso, financiador de campanhas da direita, a lógica muda.
Já não se pergunta o que ele fez, mas quem ousou investigá-lo.
E aí Alexandre de Moraes deixa de ser ministro do Supremo para virar vilão de novela, onipresente, onisciente e, aparentemente, responsável até pela lei da gravidade.
Curioso: quando a PF investigava governos petistas, não havia essa súbita preocupação com o “Estado de Direito ferido”, com o “ativismo institucional”, com o “excesso de poder”.
A lei era dura, mas justa. Agora, quando os alvos orbitam o campo político oposto (aquele que se autodeclara guardião da moral, da família e de Deus) a lei vira suspeita, e o juiz, automaticamente, culpado.
O raciocínio é simples, embora intelectualmente indigente: se alguém ligado a Bolsonaro é investigado, logo Alexandre de Moraes está abusando de poder.
Se a PF age, é porque foi “mandada”. Se o Judiciário funciona, é porque conspira.
Não é jornalismo. É militância disfarçada de perplexidade.
E o mais revelador: ninguém consegue apontar qual ato ilegal de Moraes estaria em jogo.
Não há decisão específica. Não há despacho escandaloso. Não há nulidade processual.
Há apenas o incômodo profundo de ver que o sistema institucional brasileiro (com todos os seus defeitos) ainda funciona o suficiente para alcançar gente poderosa, rica, influente e politicamente alinhada ao bolsonarismo.
Isso, para alguns, é imperdoável.
No fundo, o que se quer não é justiça imparcial, mas imunidade seletiva. Quer-se um país onde investigar adversários seja virtude republicana, mas investigar aliados seja tirania togada. Onde a PF seja técnica quando convém e “instrumentalizada” quando não convém.
Alexandre de Moraes, nesse enredo, cumpre apenas o papel que lhe foi atribuído por quem não aceita perder: o de bode expiatório permanente.
É mais fácil atacar o árbitro do que admitir que o jogo foi jogado, e que alguém com boas relações políticas e religiosas pode, sim, estar do lado errado da lei.
A insistência em arrastá-lo para esse caso diz menos sobre Moraes e muito mais sobre o desespero de quem já não consegue sustentar a própria narrativa sem inventar um vilão institucional.
E isso, convenhamos, não é ironia. É só patético mesmo.

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