Se Joseph Schumpeter resolvesse dar uma volta pelo Brasil de hoje, provavelmente sairia com a seguinte impressão: aqui, a inovação até aparece — mas sempre sob desconfiança, como se fosse uma ameaça, não uma solução.
E, em certo sentido, é mesmo. Mas não no sentido ruim.
Schumpeter ficou conhecido por uma ideia que, no Brasil, soa quase subversiva: a tal da destruição criativa. Traduzindo sem firula acadêmica: o novo precisa destruir o velho para que a economia avance.
Sim, destruir. Palavra feia para um país que adora preservar privilégios.
O problema não é a falta de empreendedor
Há uma narrativa confortável — e equivocada — de que o Brasil não cresce porque “falta gente empreendedora”. Ora, menos.
O brasileiro empreende até por necessidade. O camelô, o motorista de aplicativo, o pequeno comerciante — todos são, de alguma forma, respostas à ausência de oportunidades formais.
O ponto de Schumpeter é outro: o crescimento relevante vem do empreendedor inovador, aquele que muda o jogo.
E aqui está o nó: o Brasil não impede totalmente esse sujeito de existir — mas faz questão de dificultar sua vida.
Quando o novo incomoda, o sistema reage
Toda inovação relevante cria atrito. Isso é inevitável.
Bancos digitais desafiam bancos tradicionais
Aplicativos mudam mercados inteiros
Novas tecnologias expõem ineficiências antigas
Em vez de o sistema se adaptar, o que frequentemente acontece por aqui?
Ele tenta domesticar a inovação.
Regula-se antes de entender. Taxa-se antes de amadurecer. Complica-se antes de permitir.
Schumpeter chamaria isso de um erro clássico: proteger o passado em vez de apostar no futuro.
O Brasil que protege o atraso
Existe, no país, uma espécie de pacto silencioso: não se mexe demais no que já está estabelecido.
E isso aparece em várias frentes:
burocracia que consome tempo e energia
sistema tributário que pune quem cresce
dificuldade crônica de acesso a crédito
Nada disso impede totalmente a inovação — mas reduz sua velocidade. E, na economia, tempo é tudo.
Ainda assim, a inovação insiste
Apesar do ambiente, alguns setores avançam quase “apesar do Brasil”:
fintechs revolucionando o sistema financeiro
tecnologia no agronegócio aumentando produtividade (esse financiado e protegido pelo Estado, como nenhum outro setor)
comércio digital redesenhando o varejo
Esses casos mostram que, quando a inovação consegue furar o bloqueio, o impacto é imediato.
É Schumpeter puro.
Crescer dói — e o Brasil evita a dor
A ideia central aqui é desconfortável, mas necessária: crescer implica perda.
Empresas desaparecem. Modelos de negócio deixam de existir. Profissões mudam.
Mas o que se ganha em troca é produtividade, eficiência e dinamismo.
O Brasil, no entanto, parece preferir um crescimento mais lento — desde que menos traumático.
O problema? Essa escolha cobra seu preço.
No fim das contas…
Schumpeter não defendia o caos — defendia o movimento.
E é justamente isso que falta ao Brasil em escala maior: não a capacidade de inovar, mas a disposição de permitir que a inovação transforme de verdade.
Porque transformar, no sentido schumpeteriano, não é ajustar o sistema.
É mexer nas estruturas.
E isso, convenhamos, nunca foi exatamente a especialidade nacional.

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