sexta-feira, 3 de abril de 2026

O Brasil tem medo de Schumpeter

Se Joseph Schumpeter resolvesse dar uma volta pelo Brasil de hoje, provavelmente sairia com a seguinte impressão: aqui, a inovação até aparece — mas sempre sob desconfiança, como se fosse uma ameaça, não uma solução.

E, em certo sentido, é mesmo. Mas não no sentido ruim.

Schumpeter ficou conhecido por uma ideia que, no Brasil, soa quase subversiva: a tal da destruição criativa. Traduzindo sem firula acadêmica: o novo precisa destruir o velho para que a economia avance.

Sim, destruir. Palavra feia para um país que adora preservar privilégios.

O problema não é a falta de empreendedor

Há uma narrativa confortável — e equivocada — de que o Brasil não cresce porque “falta gente empreendedora”. Ora, menos.

O brasileiro empreende até por necessidade. O camelô, o motorista de aplicativo, o pequeno comerciante — todos são, de alguma forma, respostas à ausência de oportunidades formais.

O ponto de Schumpeter é outro: o crescimento relevante vem do empreendedor inovador, aquele que muda o jogo.

E aqui está o nó: o Brasil não impede totalmente esse sujeito de existir — mas faz questão de dificultar sua vida.

Quando o novo incomoda, o sistema reage

Toda inovação relevante cria atrito. Isso é inevitável.

  • Bancos digitais desafiam bancos tradicionais

  • Aplicativos mudam mercados inteiros

  • Novas tecnologias expõem ineficiências antigas

Em vez de o sistema se adaptar, o que frequentemente acontece por aqui?

Ele tenta domesticar a inovação.

Regula-se antes de entender. Taxa-se antes de amadurecer. Complica-se antes de permitir.

Schumpeter chamaria isso de um erro clássico: proteger o passado em vez de apostar no futuro.

O Brasil que protege o atraso

Existe, no país, uma espécie de pacto silencioso: não se mexe demais no que já está estabelecido.

E isso aparece em várias frentes:

  • burocracia que consome tempo e energia

  • sistema tributário que pune quem cresce

  • dificuldade crônica de acesso a crédito

Nada disso impede totalmente a inovação — mas reduz sua velocidade. E, na economia, tempo é tudo.

Ainda assim, a inovação insiste

Apesar do ambiente, alguns setores avançam quase “apesar do Brasil”:

  • fintechs revolucionando o sistema financeiro

  • tecnologia no agronegócio aumentando produtividade (esse financiado e protegido pelo Estado, como nenhum outro setor)

  • comércio digital redesenhando o varejo

Esses casos mostram que, quando a inovação consegue furar o bloqueio, o impacto é imediato.

É Schumpeter puro.

Crescer dói — e o Brasil evita a dor

A ideia central aqui é desconfortável, mas necessária: crescer implica perda.

Empresas desaparecem. Modelos de negócio deixam de existir. Profissões mudam.

Mas o que se ganha em troca é produtividade, eficiência e dinamismo.

O Brasil, no entanto, parece preferir um crescimento mais lento — desde que menos traumático.

O problema? Essa escolha cobra seu preço.

No fim das contas…

Schumpeter não defendia o caos — defendia o movimento.

E é justamente isso que falta ao Brasil em escala maior: não a capacidade de inovar, mas a disposição de permitir que a inovação transforme de verdade.

Porque transformar, no sentido schumpeteriano, não é ajustar o sistema.

É mexer nas estruturas.

E isso, convenhamos, nunca foi exatamente a especialidade nacional.

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