quinta-feira, 30 de abril de 2026

A imprensa e o gozo autoritário

Quando parte da imprensa deixa de cumprir seu papel clássico — o de mediadora crítica entre poder e sociedade — para assumir, ainda que de forma disfarçada, a posição de agente político interessado no resultado do jogo, cria-se um problema que não pode ser ignorado.

O que se vê em determinados setores do jornalismo brasileiro recente não é apenas uma cobertura enviesada, mas uma espécie de torcida editorial que escolheu lado — e nem sempre o lado mais comprometido com a democracia.

A complacência com o bolsonarismo não começou agora, nem foi episódica. Desde a ascensão de Jair Bolsonaro, parte da imprensa flertou com a ideia de que seria possível instrumentalizar um projeto autoritário em nome de agendas econômicas ou de conveniências conjunturais.

O resultado está aí: normalizou-se o absurdo, relativizou-se o ataque institucional e, pior, criou-se um ambiente onde o Supremo Tribunal Federal passou a ser tratado como inimigo político, e não como pilar da ordem constitucional.

Nesse contexto, a atuação de figuras como Davi Alcolumbre ganha contornos particularmente preocupantes.

Ao articular movimentos que fragilizam o STF — seja por meio de pressões políticas, seja ao pavimentar o terreno para pedidos de impeachment de ministros — Alcolumbre não atua apenas dentro do jogo institucional: ele tensiona os próprios limites da democracia. E o faz com o aplauso tácito de setores da imprensa que, ao invés de denunciar o risco, preferem celebrar o desgaste do Judiciário como se fosse um triunfo político legítimo.

O apoio à rejeição de indicações ao STF, como no caso de Jorge Messias, e a comemoração pela derrubada de vetos presidenciais — mesmo quando esses vetos dizem respeito a critérios técnicos como a dosimetria penal — revelam menos um compromisso com o interesse público e mais uma obsessão narrativa: a necessidade de carimbar manchetes com “derrota do governo” ou, mais especificamente, “derrota de Lula”.

A imprensa tem orgasmos com esses acontecimentos, sem lembrar que no governo anterior, era agredida nas ruas e perseguida pelo governo de turno.

Em termos mais xulos, a imprensa brasileira parece curtir um governo mais dominatrix. Nossa imprensa é sadomasoquista por opção.

E aqui está o ponto central: quando o jornalismo passa a medir a realidade exclusivamente pelo impacto político imediato — quem venceu, quem perdeu — ele abandona qualquer pretensão de analisar consequências concretas para a população. Pouco importa se a decisão enfraquece instituições, desorganiza políticas públicas ou amplia inseguranças jurídicas. O que interessa é o placar.

Essa lógica transforma a política em espetáculo e a imprensa em narradora de campeonato.

Mas democracia não é campeonato.

Quando o STF é sistematicamente deslegitimado, abre-se espaço para aventuras autoritárias.

Quando o Legislativo é estimulado a confrontar o Judiciário em bases oportunistas, cria-se uma instabilidade que não atinge apenas governos — atinge direitos.

Ao celebrar derrotas do Executivo sem examinar o conteúdo dessas derrotas, parte da imprensa incorre numa inversão perigosa: passa a tratar como vitória aquilo que pode, na prática, representar prejuízo direto ao cidadão. É o triunfo da narrativa sobre a realidade.

O mais irônico — e trágico — é que esse comportamento repete erros recentes. A mesma imprensa que hoje vibra com o enfraquecimento de um governo eleito já subestimou, no passado próximo, os riscos de alimentar forças que depois se voltaram contra ela própria. A história não apenas rima — ela insiste em dar segundas chances que parecem ser desperdiçadas com uma certa teimosia.

No fim, a pergunta que fica é simples e incômoda: quando a imprensa comemora derrotas políticas sem medir seus efeitos sociais, ela ainda está informando — ou apenas torcendo?

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