O Brasil gosta de cultivar mitos sobre si mesmo. Um dos mais persistentes é o de que a democracia, uma vez conquistada, se torna uma espécie de cláusula pétrea da alma nacional — algo imune a retrocessos, blindado contra tentações autoritárias. Não é. Nunca foi.
A ascensão do bolsonarismo, com sua retórica de confronto, seu flerte explícito com a ditadura militar e sua disposição de tensionar instituições, não brotou do nada, como um raio em céu azul. Trata-se menos de uma ruptura e mais de uma revelação. Revelação de fragilidades antigas, mal resolvidas, convenientemente ignoradas por aqueles que apostaram que o tempo, por si só, faria o serviço da maturação democrática.
Não fez.
Os chamados campos democráticos — expressão ampla, por vezes vaga, mas útil — erraram feio ao confundir estabilidade institucional com adesão social à democracia. Uma Constituição avançada não garante, por si, cidadãos comprometidos com seus valores. O papel aceita tudo; a realidade, não.
Quando a política institucional se viu capturada por escândalos sucessivos de corrupção, quando a violência urbana passou a ditar a rotina de milhões, quando o Estado se mostrou ineficiente para entregar serviços básicos com qualidade, abriu-se uma avenida. E avenida larga. Nesse espaço, a democracia deixou de ser percebida como solução e passou a ser vista, por muitos, como parte do problema.
Convenhamos: terreno ideal para aventureiros — ou para quem se apresenta como antídoto contra tudo isso.
Há, também, uma omissão histórica que cobra seu preço. O Brasil fez uma transição negociada da ditadura para a democracia. Ganhou-se em estabilidade, perdeu-se em profundidade. Não houve um enfrentamento coletivo, contundente, das violações do regime militar. Sem esse acerto de contas, a memória se torna maleável. E memória maleável, em política, costuma ser sinônimo de perigo.
Daí a facilidade com que slogans autoritários são reciclados como se fossem soluções legítimas, não regressões.
O ambiente digital deu uma contribuição nada desprezível a esse cenário. As redes sociais pulverizaram o debate público, reduziram a complexidade a palavras de ordem e transformaram a indignação em combustível político de alta octanagem. A mediação institucional — aquela que exige tempo, argumento, contraditório — perdeu espaço para a lógica do grito e da simplificação.
Some-se a isso o comportamento, no mínimo, errático de parcelas das elites. Em momentos decisivos, setores que deveriam funcionar como fiadores do jogo democrático preferiram brincar com fogo. Flertaram com o autoritarismo, relativizaram excessos, apostaram que poderiam domesticar forças que, por definição, não aceitam domesticação. O resultado está aí.
E não adianta dourar a pílula: isso configura, sim, uma derrota dos campos democráticos. Não apenas porque perderam eleições em determinado momento, mas porque falharam em algo mais básico — convencer amplas parcelas da população de que a democracia vale a pena, de que ela entrega, de que ela protege.
Democracia não vive de abstrações. Vive de resultados e de sentido.
Quando esses dois elementos faltam, o discurso da ordem — ainda que autoritário, ainda que tosco — ganha apelo. Especialmente em uma sociedade cansada, desigual e impaciente.
O título desta coluna não é mero recurso retórico. Somos, em alguma medida, o futuro fracassado de um passado que acreditou ter resolvido suas contradições sem enfrentá-las de fato. Um país que preferiu a conciliação à pedagogia, o arranjo à transformação.
A boa notícia, se é que cabe uma, reside no fato de que democracias não são peças acabadas. Podem ser corroídas, é verdade, mas também podem ser reconstruídas. Para isso, no entanto, será preciso mais do que slogans edificantes ou indignação seletiva.
Será preciso fazer o que não foi feito: disputar valores, enfrentar a realidade e, sobretudo, tratar a democracia não como herança garantida, mas como tarefa permanente.

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