Na geografia caprichosa das manchetes, algumas histórias parecem maiores do que são, e outras que, sendo pequenas no papel, ganham o peso de um símbolo.
A nova prisão do empresário Edson Alemão, a segunda em menos de seis meses em Campo Grande, pertence a essa segunda categoria: deixou de ser apenas um caso policial para se transformar em narrativa urbana, dessas que circulam em padarias, grupos de WhatsApp e mesas de bar.
Porque, convenhamos, o fato bruto já não caminha sozinho. Ele vem acompanhado de uma pergunta incômoda, repetida com variações: por que sempre ele?
Ou, ampliando o foco, por que operações desse porte parecem mirar com lupa negócios específicos, enquanto gigantes do setor seguem suas rotinas sem sobressaltos equivalentes?
Não se trata aqui de absolver previamente ninguém — essa é tarefa da Justiça, com seus ritos e provas. Mas o sentimento difuso de seletividade é, por si só, um fenômeno digno de nota.
Quando a população passa a desconfiar não apenas do investigado, mas também da intensidade e da direção da fiscalização, o problema deixa de ser individual e passa a ser institucional.
Campo Grande, como tantas cidades fora do eixo mais visível do país, carrega uma peculiaridade: o equilíbrio delicado entre pequenos e médios empresários e as grandes redes nacionais.
É um ecossistema em que a concorrência não é apenas econômica mas é também, simbólica. O comerciante local não disputa só preço; disputa espaço, clientela e, muitas vezes, sobrevivência.
Nesse contexto, operações reiteradas sobre um mesmo alvo acabam alimentando uma narrativa de assimetria. Não importa, necessariamente, se ela é verdadeira ou não, importa que ela encontra terreno fértil.
Afinal, para o cidadão comum, parece desproporcional que estruturas gigantescas, com histórico nacional e volume financeiro incomparável, raramente sejam vistas sob o mesmo tipo de ação ostensiva.
A sensação que fica é a de que o rigor tem endereço conhecido, enquanto a indulgência, ou ao menos a discrição, escolhe seus caminhos com mais cautela.
E sensação, em política e em vida pública, é matéria-prima poderosa. Ela molda reputações, influencia percepções e, não raro, corrói a confiança.
Há também um outro efeito colateral: o risco de transformar a fiscalização, que deveria ser instrumento de equilíbrio, em elemento de desconfiança.
Quando o cidadão passa a enxergar a ação do Estado como potencialmente enviesada, perde-se algo fundamental: a legitimidade.
Nada disso invalida a possibilidade de irregularidades concretas, nem diminui a importância de investigá-las com rigor. Mas a coerência é irmã da credibilidade. Se há critérios, eles precisam ser visíveis; se há regras, precisam parecer universais.
No fim das contas, o caso de Edson Alemão talvez diga menos sobre um homem e mais sobre o ambiente em que ele está inserido. Um ambiente onde, mais do que fatos, disputam espaço as interpretações e onde a linha entre justiça e percepção de injustiça é, muitas vezes, tênue demais.
E quando essa linha começa a borrar, não é apenas um empresário que está em julgamento.
É a própria confiança pública.

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