Neocons e olavistas dizem: “os Estados Unidos são uma nação fundada em valores cristãos”.
A tese de que os Estados Unidos são uma nação fundada sobre “valores cristãos” é um lugar-comum no meio direitista brasileiro, profundamente americanista.
Contudo, ao observarmos a gênese da ocupação europeia na América do Norte e a fundação da República, a narrativa se torna mais falsa e deturpada. A afirmação de que o país foi erguido por piratas, radicais puritanos e maçons seria uma descrição historicamente mais precisa dos vetores de força que moldaram a psique e as estruturas de poder americanas.
Quando falamos dos Peregrinos do Mayflower, a imagem direitista é a de homens e mulheres piedosos em busca de liberdade religiosa. A verdade, no entanto, é outra: eles não buscavam liberdade religiosa para todos os cristãos; buscavam a liberdade de impor um puritanismo radical, completamente tresloucado.
Na Inglaterra, eram vistos como subversivos; foram expulsos e perseguidos pelo rei. Na América, tornaram-se inquisidores verdadeiramente abusivos, cabendo, aqui sim, todos os ataques à Inquisição nos reinos católicos, feitos levianamente pelos inimigos da Igreja.
Na fundação da Colônia da Baía de Massachusetts, presenciou-se a loucura fanatizante daquelas seitas protestantes: expulsaram dissidentes como Roger Williams e Anne Hutchinson para o deserto gelado; enforcaram quakers em Boston Common; promoveram as infames caças às bruxas de Salém — não, não foi obra da Igreja Católica.
Acreditavam que eram os novos israelitas e que os nativos americanos eram cananeus a serem desapossados ou exterminados em nome da “Terra Prometida” — semelhança com a questão sionista atual não é mera coincidência.
O DNA dessa certeza moral inabalável, dessa convicção de ser um “povo eleito” acima das leis mundanas, está mais presente no Destino Manifesto do século XIX do que no Sermão da Montanha.
Enquanto os puritanos rezavam em igrejas de madeira, a verdadeira força motriz da colônia que se tornaria a capital financeira do mundo vinha da água salgada. Nova York, por sua vez, começou como Nova Amsterdã, um posto de comércio holandês que era, essencialmente, uma lavanderia de dinheiro sujo da pirataria global.
Os portos da Nova Inglaterra e das Colônias Centrais enriqueceram vertiginosamente, equipando e financiando corsários (piratas com licença governamental para roubar) e recebendo piratas declarados para vender seus saques.
Capitães como William Kidd transitavam entre a elite política de Nova York e a forca. O ouro e a prata espanhóis, saqueados dos galeões nas Caraíbas, eram derretidos e transformados em moeda corrente nas colônias americanas, construindo as primeiras grandes fortunas e universidades (Harvard, Yale).
O valor fundador aqui não é cristão; é a acumulação primitiva de capital por meio da violência marítima, bancada pela própria Coroa Britânica. O espírito do capitalismo americano — agressivo, especulativo e, muitas vezes, operando nas fronteiras da legalidade — deve-se a esse legado de bucaneiros.
E eis o elo que une o radicalismo puritano e o capitalismo pirata em uma República laica. A maioria esmagadora dos “Pais Fundadores” — George Washington, Benjamin Franklin, Paul Revere, John Hancock — não eram cristãos fervorosos, mas sim deístas e maçons.
A Maçonaria, com a arquitetura simbólica do Grande Arquiteto do Universo e o segredo iniciático, forneceu a estrutura organizacional e filosófica para a Revolução Americana. A festa do Boston Tea Party foi organizada na loja maçônica St. Andrew’s. A disposição de Washington, D.C., é um diagrama maçônico.
Enquanto o povo no campo ia à igreja batista ou metodista, a elite que escreveu a Constituição — um documento notavelmente secular, que proíbe testes religiosos para cargos públicos e, na Primeira Emenda, ergue um muro entre Igreja e Estado — operava sob princípios do Iluminismo radical, temperados com ritualismo hermético. Foram os maçons que traduziram o fervor puritano e a energia pirata em um Estado-nação.
Dizer que os EUA são uma “nação cristã” e protetora da “civilização ocidental” serve ao discurso neocon para justificar a guerra no Irã, o genocídio em Gaza patrocinado pelos EUA e todas as desastrosas invasões americanas no Oriente Médio.
TEXTO DE:
Eduardo Carvalho

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