O Brasil acordou — mais uma vez — com a notícia que já não deveria surpreender ninguém, mas ainda choca: duas crianças, Sophya e Isaías, de 10 e 6 anos, mortas enquanto brincavam na garagem de casa, em Diadema.
Não estavam atravessando uma rodovia. Não estavam em situação de risco. Estavam brincando de pular corda.
O risco veio até elas — motorizado, alcoolizado e socialmente tolerado.
O motorista, segundo as autoridades, apresentava sinais de embriaguez confirmados por exame.
E aqui está o ponto: não se trata de um acidente. Trata-se de uma escolha. E mais do que isso — trata-se de um sistema que, na prática, permite que essa escolha seja feita todos os dias.
O Brasil gosta de chamar de “fatalidade” aquilo que é, na verdade, previsível.
Porque o país possui leis contra dirigir embriagado. A chamada Lei Seca existe. As campanhas existem. As operações existem.
Mas o que não existe — e isso é evidente — é o peso real da punição e, principalmente, a coerência entre discurso e prática.
A lógica é perversa: de um lado, o Estado adverte; do outro, ele lucra.
O mercado de bebidas alcoólicas movimenta bilhões de reais por ano no Brasil. Gera empregos, patrocina eventos, financia publicidade agressiva e sofisticada. Não vende apenas cerveja, vinho ou destilados — vende estilo de vida, celebração, pertencimento.
Vende a ideia de que beber é quase um ritual social obrigatório.
E aí está a blindagem.
Quando um setor econômico se torna grande demais, ele deixa de ser apenas um mercado, passa a ser um ator político.
E atores políticos não são enfrentados com facilidade. Regulá-los com rigor significa mexer com receitas, com publicidade, com interesses que atravessam o Congresso, governos e meios de comunicação.
O resultado é esse equilíbrio hipócrita: campanhas tímidas contra álcool ao volante convivendo com um bombardeio publicitário que glamouriza o consumo.
É como tentar apagar um incêndio com um copo d’água enquanto se despeja gasolina ao lado.
E, no meio disso, está a leniência penal.
Casos como o de Diadema frequentemente terminam classificados como homicídio culposo — quando não há intenção de matar. A pena, na prática, é reduzida, negociável, muitas vezes convertida. A mensagem que fica não é jurídica — é cultural: beber e dirigir pode até ser ilegal, mas não é tratado como um crime gravíssimo.
E deveria ser.
Porque não há nada de “culposo” na decisão de assumir o volante após beber. O risco é conhecido, amplamente divulgado, repetido à exaustão. Quem dirige embriagado não ignora o perigo — escolhe ignorá-lo.
Sophya e Isaías não morreram por falta de lei. Morreram por excesso de tolerância.
Tolerância institucional, que pune pouco.
Tolerância econômica, que lucra muito.
E tolerância social, que ainda trata o “beber e dirigir” como deslize — nunca como violência.
Enquanto o Brasil não encarar o problema com a seriedade que ele exige — endurecendo penas, restringindo publicidade, tratando o álcool como questão de saúde pública e segurança — novos nomes substituirão Sophya e Isaías nas manchetes.
E, então, mais uma vez, o país vai fingir espanto.
Como se não soubesse.
Como se não tivesse escolhido.

Triste demais
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