O Congresso Nacional voltou a provar que não sofre de ignorância econômica, mas de algo bem mais grave: falta de vergonha na cara.
Na tarde de terça-feira (3), Câmara e Senado aprovaram um reajuste salarial para seus servidores cujo impacto chega a R$ 790 milhões. Um valor que supera a arrecadação anual de 95% dos municípios brasileiros. Sim, quase todo o Brasil real cabe dentro do aumento concedido ao Brasil oficial.
Agora, respire fundo e faça o exercício de memória que certos parlamentares preferem evitar.
São os mesmos políticos que, não faz muito tempo, torceram o nariz, fizeram discursos sobre “responsabilidade fiscal” e votaram contra — ou sabotaram — o vale-gás, um benefício modesto destinado a famílias que precisam escolher entre cozinhar ou comer. Para o pobre, o cofre está sempre vazio; para o próprio umbigo, o Tesouro é elástico.
A lógica é cristalina:
– R$ 100 para o gás? “Populismo”, “assistencialismo”, “rombo nas contas públicas”.
– R$ 790 milhões para a elite administrativa do Parlamento? “Valorização do servidor”, “justiça salarial”, “necessidade institucional”.
É uma contabilidade moralmente fraudulenta.
O problema não é a existência de servidores públicos — eles são essenciais.
O problema é o timing, o contexto e, sobretudo, a hipocrisia.
Num país em que municípios fecham postos de saúde por falta de verba, em que prefeitos mal conseguem pagar professores, o Congresso decide que a urgência nacional é reajustar salários no coração do poder.
E note-se: não se trata de ignorância sobre a realidade social. Trata-se de consciência plena. Eles sabem. Sabem que o valor do reajuste pagaria o gás de milhões de famílias por meses. Sabem que o discurso da austeridade só aparece quando o destinatário é pobre. Sabem — e fazem mesmo assim.
Isso não é erro de cálculo. É escolha política.
Quando um Parlamento vota com rapidez para garantir conforto aos seus e demora, trava ou rejeita políticas mínimas de proteção social, ele envia uma mensagem clara: o Estado existe, antes de tudo, para quem manda.
Depois, claro, virão os discursos inflamados sobre “desigualdade”, “sensibilidade social” e “compromisso com o povo”.
Palavras são baratas.
O que custa caro — R$ 790 milhões, por exemplo — é sempre reservado a quem já está sentado à mesa do poder.
O resto que se vire com o botijão vazio.

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