A obrigação moral de aplaudir quem faz o básico, em 2026, é profundamente reveladora.
Beto Simonetti, presidente da OAB, no primeiro dia da retomada dos trabalhos do Legislativo, limitou-se a dizer o que está escrito — pasmem — na Constituição.
E fez disso um pronunciamento.
Corajoso? Não.
Necessário.
O que diz muito mais sobre o ambiente do que sobre o orador.
Simonetti defendeu o STF e o devido processo legal. Não pediu revolução, não clamou por “ativismo judicial”, não invocou teorias criativas sobre “vontade popular acima da lei”.
Apenas lembrou que democracia não é um reality show institucional em que se elimina o Supremo por voto emocional.
É chato, eu sei. Funciona com regras. E regras, por definição, frustram os ansiosos por atalhos.
O presidente da OAB fez algo que hoje soa quase insolente: reafirmou que o Supremo Tribunal Federal não é um capricho de toga, mas um pilar do arranjo constitucional.
Que decisões judiciais não se combatem com linchamento retórico, mas com recursos — dentro da lei, esse palavrão. E que devido processo legal não é um detalhe burocrático inventado para proteger “os de cima”, mas a última trincheira de qualquer cidadão quando a turba resolve achar culpados antes de provas.
Sim, houve quem torcesse o nariz. Sempre há. Afinal, vivemos tempos em que parte do debate público acredita que garantias constitucionais são privilégios e que juízes devem decidir conforme o humor das redes sociais.
Simonetti foi lá e estragou a festa: lembrou que não há democracia sem instituições, nem instituições sem limites, nem limites sem STF.
A ironia maior é esta: defender o Supremo hoje virou, para alguns, sinônimo de autoritarismo.
Uma ginástica mental admirável.
Segundo essa lógica, autoritário é quem aplica a Constituição; democrático é quem quer rasgá-la em nome de uma abstração chamada “povo”, geralmente definida por quem grita mais alto.
Ao se posicionar, a OAB — por meio de seu presidente — fez aquilo que dela se espera desde 1930: não defender governos, partidos ou humores, mas o Estado de Direito.
Num país em que o óbvio anda desaparecido, isso soa quase como um manifesto.
Convém registrar: não se trata de idolatrar o STF, instituição humana e falível, como qualquer outra. Trata-se de entender que a crítica legítima não prescinde de legalidade, e que o ataque sistemático às Cortes não é “liberdade de expressão”, mas método conhecido de erosão democrática.
Beto Simonetti não salvou a República. Não era esse o ponto. Apenas lembrou onde ela está escrita.
E, convenhamos, num tempo de analfabetismo constitucional militante, isso já é um serviço público dos bons.

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