sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Melancólico Fim de Ganso e Neymar

Houve um tempo em que a bola parecia obedecer a eles por gratidão. Não por imposição física, não por velocidade, não por choque — mas por talento. A bola ia porque queria ir.

Quando Paulo Henrique Ganso surgiu no Santos Futebol Clube, ao lado de um menino magro de cabelo moicano, falava-se em uma nova linhagem do futebol brasileiro.

Era a pausa contra o cronômetro, o passe que desmontava defesas como quem abre uma carta antiga. Ganso não corria: pensava. E pensar, naquele momento, parecia suficiente.

Do outro lado, estava Neymar, o mais improvável dos improváveis. Dribles que não pediam licença, gols que pareciam vídeos editados.

O mundo se curvou cedo demais. Barcelona, Paris, cifras astronômicas, campanhas publicitárias, e a promessa de finalmente devolver ao Brasil um protagonismo em Copa do Mundo.

O tempo passou. E o futebol, impiedoso, não espera quem joga em câmera lenta, nem perdoa quem vive em ritmo de trailer.

Ganso reencontrou dignidade no Fluminense Football Club. Foi campeão, foi útil, foi cerebral como sempre. Mas nunca foi ídolo incontestável.

Faltou-lhe a epopeia. Faltou-lhe o momento que transforma respeito em devoção. Sua carreira virou uma coleção de lampejos tardios, como se o auge tivesse ficado preso numa promessa de 2010.

Neymar voltou ao Santos cercado de nostalgia, quase como quem tenta reencontrar a própria adolescência.

Mas o futebol não é máquina do tempo. As lesões, as interrupções, o excesso de expectativa — tudo foi pesando.

Na Seleção Brasileira de Futebol, os números são grandes, os recordes são discutíveis, mas a ausência de uma Copa erguida é um silêncio que ecoa mais alto que qualquer estatística.

Não se trata de fracasso. Seria injusto.

Ambos foram gigantes técnicos. Ambos encantaram. Ambos ganharam muito dinheiro, muitos títulos, muitos aplausos.

Mas há uma diferença sutil entre ser talentoso e ser símbolo.

O futebol brasileiro, órfão de heróis absolutos desde gerações anteriores, depositou neles algo que talvez fosse grande demais: a esperança de um retorno ao romantismo, à genialidade que decide Copas, ao camisa 10 que carrega o país nas costas.

Hoje, ao vê-los em campo, o sentimento não é raiva. É melancolia.

É perceber que duas das maiores promessas da nossa geração estão se aproximando do fim da linha sem terem conquistado aquilo que parecia inevitável: a consagração indiscutível.

Ganso será lembrado como o maestro que o tempo atropelou.

Neymar, como o craque que teve o mundo aos pés, mas nunca o mundo nas mãos.

E talvez doa justamente por isso: porque por alguns anos acreditamos que eles seriam eternos.

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