A reunião entre Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva, realizada nesta quinta-feira na Casa Branca, teve um detalhe que desmonta parte da caricatura política criada no Brasil nos últimos anos: Trump tratou Lula como um estadista experiente, não como um adversário folclórico.
Chamou o presidente brasileiro de “dinâmico” e definiu o encontro como “muito produtivo”, após horas de conversa reservada sobre comércio, tarifas, segurança e geopolítica.
E isso não aconteceu por gentileza diplomática. Trump pode até transformar a política em espetáculo, mas não costuma desperdiçar pragmatismo quando enxerga poder real diante dele.
O presidente americano sabe que Lula chega à mesa carregando décadas de experiência internacional, trânsito global e capacidade de negociação construída desde o início dos anos 2000.
Enquanto muitos líderes surgem e desaparecem ao sabor das redes sociais e das guerras culturais, Lula atravessou governos Bush, Obama, Sarkozy, Merkel, Putin, Xi Jinping e agora volta a negociar diretamente com Trump.
Há uma diferença importante entre propaganda doméstica e percepção internacional.
Parte da elite econômica brasileira ainda insiste em enxergar Lula pela lente do preconceito social: “o pernambucano de nove dedos”, o retirante que ousou ocupar espaços historicamente reservados aos sobrenomes tradicionais do poder.
Mas o mundo não funciona segundo os ressentimentos da Casa Grande brasileira.
Lá fora, Lula continua sendo reconhecido como um dos políticos mais influentes do Sul Global e um dos líderes mais conhecidos da história contemporânea da América Latina.
Gostem ou não seus adversários, Lula se transformou num personagem histórico. Não apenas pela origem improvável ou pelas vitórias eleitorais, mas porque construiu relevância internacional duradoura.
Poucos líderes latino-americanos conseguiram dialogar simultaneamente com Washington, Pequim, Bruxelas e Moscou sem desaparecer politicamente no meio do caminho. Menos ainda conseguiram retornar ao poder depois de tudo o que viveu a política brasileira na última década.
Trump percebe isso. E talvez por isso tenha evitado qualquer confronto performático. O presidente americano entende linguagem de força política, de liderança popular e de sobrevivência institucional.
Lula representa exatamente isso. São dois líderes radicalmente diferentes em visão de mundo, mas semelhantes num aspecto essencial: ambos entendem a política como disputa de poder real, não como teatro para redes sociais.
No Brasil, porém, continua existindo uma dificuldade quase patológica de reconhecer a dimensão histórica de Lula.
Há quem prefira reduzi-lo a apelidos ou caricaturas porque admitir sua estatura política significaria aceitar algo intolerável para certos setores: o maior líder político da história brasileira nasceu pobre, nordestino, operário e sem diploma universitário.
E a história, cruel com os arrogantes, costuma rir desse tipo de preconceito.
Enquanto alguns ainda repetem insultos de WhatsApp, Lula segue sendo recebido na Casa Branca como interlocutor estratégico dos Estados Unidos.

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