É exatamente isso que está acontecendo.
Nos últimos dias, vídeos editados passaram a circular nas redes sociais para sustentar a MENTIRA de que Maria da Penha teria admitido que nunca sofreu violência física do ex-marido.
A fraude é grosseira: o trecho foi retirado de contexto. Na entrevista completa, Maria da Penha se referia especificamente às agressões físicas anteriores às tentativas de assassinato.
Ela não negou as tentativas de feminicídio. Pelo contrário: sua história está documentada, investigada e foi objeto de condenações judiciais.
Em 1983, Maria da Penha levou um tiro disparado pelo então marido e ficou paraplégica. Depois, sofreu uma segunda tentativa de assassinato, por eletrocussão.
Marco Antônio Heredia Viveros foi condenado em dois julgamentos e chegou a cumprir pena. Não estamos diante de uma discussão de versões equivalentes, como se fosse uma briga de casal narrada por duas testemunhas com a mesma autoridade.
Estamos diante de um caso que passou pela Justiça e cuja história ultrapassou as fronteiras brasileiras, contribuindo diretamente para a criação da Lei nº 11.340/2006.
Por isso, é preciso chamar as coisas pelo nome: editar uma declaração para produzir uma conclusão que a declaração completa não sustenta é mais do que desinformação, é MENTIRA.
E existe uma segunda perversidade: a tentativa de transformar a vítima em ré.
Maria da Penha passa a ser apresentada como mentirosa, manipuladora ou símbolo de uma suposta "indústria" contra homens.
A lei que leva seu nome é atacada como se fosse uma legislação criada a partir de uma fraude individual. E o homem condenado pela tentativa de matá-la aparece, convenientemente, como alguém que finalmente estaria contando "a verdade".
A inversão é completa.
O agressor deixa de ocupar o lugar de condenado e passa a ocupar o lugar de testemunha. A vítima deixa de ser vítima e passa a ser interrogada. A sentença judicial desaparece. O contexto desaparece. A história desaparece. Sobra apenas o vídeo cuidadosamente recortado.
Isso não é jornalismo. É uma operação de fabricação de dúvida.
E a Record entrou nessa história
O episódio envolvendo a TV Record torna tudo ainda mais grave.
A emissora decidiu dar espaço ao ex-marido de Maria da Penha para apresentar sua versão dos acontecimentos, apesar de existir decisão judicial que o proibia de divulgar informações sobre o processo e de mencionar publicamente as vítimas.
Depois da entrevista, Marco Antônio Heredia Viveros foi preso preventivamente por descumprimento das medidas protetivas. A Justiça também determinou a retirada do conteúdo do ar, sob pena de multa diária.
É importante fazer uma distinção que qualquer veículo de comunicação sério deveria fazer: dar espaço para o contraditório não significa conceder à mentira o mesmo status da verdade comprovada.
Uma reportagem responsável poderia ouvir o condenado, apresentar suas alegações e imediatamente confrontá-las com documentos, decisões judiciais, investigações e a versão das instituições que participaram do processo.
O problema não é simplesmente "ouvir o outro lado". O problema começa quando o outro lado é apresentado ao público sem o devido contexto, como se sua narrativa tivesse o mesmo peso probatório de uma história examinada durante décadas pelo sistema de Justiça.
Mais grave ainda quando o personagem entrevistado possui interesse direto em reconstruir a própria imagem.
O método é conhecido
A máquina de desinformação funciona em etapas.
Primeiro, encontra-se uma frase verdadeira.
Depois, corta-se o contexto.
Em seguida, acrescenta-se uma legenda falsa.
Finalmente, atribui-se à vítima aquilo que ela nunca disse.
O resultado é um vídeo tecnicamente verdadeiro e intelectualmente falso.
Essa é talvez uma das formas mais perigosas de mentira contemporânea. Não se fabrica necessariamente uma imagem. Fabrica-se uma interpretação.
Foi assim que uma declaração de Maria da Penha pôde ser convertida em uma suposta confissão contra ela própria.
E é precisamente por isso que a sociedade precisa desconfiar de vídeos que chegam às redes com a promessa de revelar aquilo que "a mídia não quer que você saiba".
Normalmente, a primeira coisa que desaparece nesses vídeos é justamente aquilo que permitiria compreender a verdade: o contexto.
O ataque à Lei Maria da Penha é ainda mais revelador
A Lei Maria da Penha não nasceu de uma narrativa de internet.
Ela nasceu de um caso concreto de violência doméstica, de uma longa batalha judicial e da responsabilização internacional do Brasil.
A própria Advocacia-Geral da União registra que a formulação da Lei nº 11.340/2006 está intrinsecamente ligada à história de Maria da Penha e ao reconhecimento do caso pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos.
Atacar a lei com base em vídeos manipulados significa, portanto, tentar destruir uma política pública utilizando como munição uma falsificação da história que lhe deu origem.
E aqui aparece uma pergunta que os propagadores dessa narrativa deveriam responder: Se a história de Maria da Penha é tão falsa, por que foi examinada por tribunais? Por que houve condenação? Por que o Brasil foi responsabilizado internacionalmente? Por que o caso se tornou referência mundial no combate à violência contra a mulher?
Não existe algoritmo capaz de apagar uma sentença.
Não existe corte de vídeo capaz de revogar uma condenação.
Não existe influencer capaz de transformar uma tentativa de assassinato em ficção simplesmente porque descobriu um trecho de entrevista que pode ser utilizado fora de contexto.
O bolsonarismo radical e a política da desconfiança
É preciso também dizer algo que muitos jornalistas evitam dizer por medo de parecer partidário: parte do extremismo bolsonarista transformou a desconfiança em método político.
Não se trata de criticar o governo, o Congresso, o Judiciário ou qualquer lei. Isso faz parte da democracia.
O problema surge quando a dúvida deixa de ser instrumento de investigação e vira instrumento de negação.
Para esse tipo de militância, a verdade passa a depender de quem é o personagem.
Se a vítima pertence ao campo considerado adversário, suspeita-se dela.
Se o agressor confirma a narrativa desejada, acredita-se nele.
Se uma decisão judicial contradiz a tese, acusa-se a Justiça.
Se documentos desmentem o argumento, fala-se em "narrativa".
Se um vídeo é cortado, chama-se de "prova".
É uma lógica perigosa porque elimina o compromisso com a realidade.
E quando a realidade é inconveniente, fabrica-se outra.
Não se trata de defender Maria da Penha contra críticas
Maria da Penha não precisa ser transformada em uma figura acima de qualquer questionamento. Nenhuma pessoa está.
O que não se pode aceitar é que críticas sejam construídas a partir de falsificações.
Uma democracia saudável permite questionar leis. Permite discutir políticas públicas. Permite criticar decisões judiciais. Permite discordar de Maria da Penha.
O que ela não permite, ou pelo menos não deveria permitir no debate público responsável, é transformar edição fraudulenta em evidência.
A diferença é gigantesca.
Criticar uma lei é legítimo.
Mentir sobre a origem dela, não.
Questionar uma decisão judicial é legítimo.
Inventar que nunca houve condenação, não.
Ouvir o condenado é possível.
Transformá-lo em autoridade histórica sobre o próprio crime, ignorando tudo que o contradiz, é outra coisa.
E atacar uma vítima é sempre uma escolha moral.
A mentira não termina na tela
O aspecto mais assustador dessa história é que a mentira digital produz consequências no mundo real.
Quando uma mulher vítima de violência assiste à destruição pública da história de Maria da Penha, ela recebe uma mensagem silenciosa:
"Talvez ninguém acredite em você."
Quando uma sociedade começa a tratar o agressor como vítima e a vítima como suspeita, o problema deixa de ser apenas político.
Torna-se civilizatório.
A violência doméstica já acontece, muitas vezes, dentro de ambientes nos quais o agressor consegue controlar a narrativa. O discurso de desqualificação da vítima é uma extensão desse mecanismo: "ela exagerou", "ela inventou", "ela queria prejudicar o marido", "ela está atrás de dinheiro", "ela quer destruir a família".
A internet apenas acelerou a velha técnica.
Agora, porém, existe uma ferramenta extraordinariamente poderosa: o vídeo editado.
E existe uma indústria política interessada em utilizá-la.
Por isso, o caso Maria da Penha deveria servir como alerta nacional.
Não estamos discutindo simplesmente uma mulher, um homem ou uma lei.
Estamos discutindo se uma sociedade democrática aceitará que a mentira seja capaz de substituir documentos, sentenças, investigações e fatos históricos simplesmente porque foi transformada em vídeo e compartilhada milhares de vezes.
A resposta precisa ser NÃO.
Porque quando a mentira vence a verdade por repetição, a próxima vítima já está esperando.
E, desta vez, talvez não exista uma Maria da Penha para lembrar ao país que ela sobreviveu.
Em tempo, parabéns a TV Bandeirantes pela carraspana passada à TV Record sobre o caso. (assista aqui)
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😢
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