segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Colonialismo químico: o Brasil que planta lucro e colhe veneno

Uma pergunta precisa ser feita pelo Brasil antes de repetir pela milésima vez que o agronegócio "é o motor da economia": motor para quem?

A pergunta incomoda porque obriga a olhar para aquilo que normalmente fica escondido atrás dos números grandiosos das exportações, dos recordes de produção e dos bilhões de dólares que entram no país.

Existe um Brasil que aparece na balança comercial.

E existe outro Brasil que aparece no solo contaminado, na água ameaçada, na saúde do trabalhador rural e na mesa do consumidor.

É nesse segundo Brasil que se encontra o chamado colonialismo químico, conceito desenvolvido pela geógrafa Larissa Mies Bombardi para explicar uma das perversidades da agricultura globalizada: países do Norte Global restringem ou proíbem determinadas substâncias em seus próprios territórios, enquanto empresas sediadas nesses países continuam comercializando esses produtos para países do Sul Global.

O Brasil está no centro dessa engrenagem.

Segundo dados apresentados por Bombardi em 2026, sete dos dez agrotóxicos mais comercializados no país são proibidos na União Europeia.

Sete.

Não é uma exceção estatística.

É um modelo.

E a pergunta inevitável é: por que aquilo que é considerado perigoso para um europeu pode ser considerado aceitável para um brasileiro?

A resposta não pode ser simplesmente "porque a legislação brasileira permite".

Legislação não é argumento moral. É justamente aquilo que uma sociedade pode e deve modificar quando descobre que determinada regra protege menos do que deveria.

A Europa não é necessariamente virtuosa. Empresas europeias também participam desse comércio. E esse é precisamente o paradoxo: a mesma indústria que precisa respeitar determinadas restrições em seu país de origem encontra no Brasil um mercado onde pode vender produtos que não consegue vender em casa.

O capital conhece fronteiras.

A toxicidade também.

Mas a responsabilidade parece não conhecer nenhuma.

O problema não termina na multinacional

Seria confortável colocar toda a culpa nas grandes empresas estrangeiras.

Seria também intelectualmente preguiçoso.

Porque uma multinacional só vende aquilo que encontra mercado.

E alguém compra.

O colonialismo químico só consegue funcionar porque existe uma engrenagem nacional interessada em fazê-lo funcionar.

É aqui que entra a parte mais delicada da discussão: o próprio agronegócio brasileiro tem responsabilidade sobre o modelo que ajuda a sustentar.

Não todo agricultor.

Não todo produtor rural.

Não toda empresa.

Mas os segmentos econômicos que pressionam por menos restrições, mais permissividade química e maior velocidade de aprovação de substâncias precisam responder por uma pergunta elementar: qual é o limite do lucro quando a mercadoria produzida pode comprometer a saúde de quem trabalha e de quem consome?

Não existe soberania nacional quando a rentabilidade de uma commodity vale mais do que a saúde de uma população.

Isso não é patriotismo.

É contabilidade.

O veneno também tem lobby

O Brasil aprovou, em 2023, uma nova legislação para os agrotóxicos. A discussão em torno dela mostrou exatamente o tamanho do conflito entre interesses econômicos, regulação estatal e proteção ambiental e sanitária.

E aqui está um dos problemas de nosso debate público: quando alguém questiona a flexibilização das regras, imediatamente aparece o discurso de que essa pessoa é "contra o agro".

É uma fraude argumentativa.

Ser contra a utilização irresponsável de agrotóxicos não é ser contra a agricultura.

Ser contra a contaminação não é ser contra o produtor rural.

Defender fiscalização não é defender o atraso.

Defender pesquisa em alternativas menos tóxicas não é querer destruir a produtividade.

Aliás, deveria ser justamente o contrário.

Um agronegócio verdadeiramente moderno não deveria precisar de uma população desinformada para defender sua produtividade.

Deveria ser capaz de produzir mais utilizando menos veneno.

Deveria investir em tecnologia que reduza dependência química.

Deveria cobrar rastreabilidade.

Deveria exigir transparência.

Deveria ser o primeiro interessado em impedir que produtos proibidos em outros países sejam tratados como aceitáveis simplesmente porque ainda existe uma autorização brasileira.

O discurso da eficiência

Existe uma palavra que frequentemente encerra qualquer discussão sobre esse assunto: produtividade.

É preciso produzir mais.

É preciso exportar mais.

É preciso competir.

É preciso alimentar o mundo.

Tudo isso pode ser verdade.

Mas existe uma pergunta que quase nunca aparece: alimentar o mundo significa necessariamente envenenar o trabalhador que produz?

A própria Anvisa mostra que o problema não pode ser tratado como fantasia ideológica. No ciclo de 2024 do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos, 20,6% das 3.084 amostras analisadas apresentaram algum tipo de não conformidade, incluindo uso de agrotóxico não autorizado para aquela cultura ou concentração acima do limite permitido. Doze amostras apresentaram risco agudo. Ao mesmo tempo, a agência informa que não encontrou situação de risco crônico acima da referência considerada segura para os agrotóxicos avaliados.

Ou seja: não é correto transformar os dados em uma narrativa apocalíptica, mas também não é aceitável utilizá-los para fingir que o problema não existe.

A ciência não autoriza nenhum dos extremos.

Ela exige vigilância.

E vigilância custa dinheiro.

Fiscalização custa dinheiro.

Pesquisa custa dinheiro.

Transição tecnológica custa dinheiro.

O problema é que o mercado costuma adorar privatizar o lucro e socializar a conta.

Quando a lavoura ganha produtividade, o benefício pode ser apropriado privadamente.

Quando surgem danos ambientais ou sanitários, quem paga?

O SUS.

O trabalhador.

A comunidade.

O município.

O Estado.

A sociedade.

É o velho negócio brasileiro: o lucro tem dono, o prejuízo tem endereço público.

A soberania alimentar que virou soberania da commodity

Existe outra contradição que deveria provocar um debate nacional.

O Brasil é uma potência agrícola.

Mas ser uma potência agrícola não significa necessariamente ser uma potência alimentar.

Uma coisa é produzir toneladas de soja, milho, algodão, café ou cana.

Outra é construir um sistema alimentar que garanta comida saudável, acessível e produzida de maneira sustentável para a população brasileira.

Quando a lógica da commodity passa a comandar a agricultura, o alimento deixa de ser necessariamente a finalidade.

A finalidade passa a ser o mercado.

E isso muda tudo.

A terra deixa de ser vista primordialmente como território de vida e passa a ser tratada como ativo produtivo.

A floresta vira obstáculo.

A diversidade agrícola vira ineficiência.

A agricultura familiar vira segmento secundário.

O trabalhador rural vira custo.

E o agrotóxico vira simplesmente "insumo".

Talvez seja justamente aí que esteja a grande tragédia.

Quando uma substância capaz de produzir dano passa a ser chamada apenas de insumo, a linguagem do mercado conseguiu apagar a linguagem da saúde.

Quem defende o Brasil?

O discurso ruralista costuma recorrer com facilidade ao nacionalismo.

"Precisamos defender o agro."

"Precisamos defender nossas exportações."

"Precisamos defender a soberania brasileira."

Pois então defendamos.

Mas defesa nacional não pode significar apenas defender o faturamento de quem exporta.

Defesa nacional também é defender a água brasileira.

É defender o solo.

É defender os trabalhadores.

É defender as comunidades indígenas e tradicionais.

É defender a agricultura familiar.

É defender o consumidor.

É defender as futuras gerações.

Um país não é soberano porque consegue vender milhões de toneladas de commodities.

É soberano quando consegue decidir o que aceita colocar dentro de seu próprio território e sobre o próprio corpo de sua população.

Se um produto é considerado perigoso demais para ser utilizado em determinado país, o Brasil deveria, no mínimo, perguntar por que ele deveria ser considerado suficientemente seguro para nós.

Essa pergunta não é ideológica.

É soberana.

O colonialismo químico tem sócios brasileiros

É aqui que a discussão precisa perder a delicadeza.

O colonialismo químico não é simplesmente uma história de europeus malvados vendendo veneno para brasileiros inocentes.

A realidade é mais cruel.

Existe uma aliança objetiva entre o capital internacional que vende e o poder econômico nacional que compra.

Um fornece a molécula.

O outro fornece o mercado.

Um recebe o dinheiro.

O outro recebe produtividade.

E a sociedade recebe a conta.

Bombardi chama atenção justamente para esse círculo vicioso: a agricultura brasileira utiliza substâncias produzidas por grandes corporações e, depois, exporta commodities para os mesmos mercados desenvolvidos que impõem regras mais rigorosas dentro de seus próprios territórios.

É uma espécie de circuito perfeito do capitalismo global.

A riqueza circula para cima.

O risco permanece aqui.

O Brasil não precisa escolher entre agro e saúde

Essa talvez seja a maior mentira do debate.

Não precisamos escolher entre agricultura e meio ambiente.

Entre exportação e saúde.

Entre produtividade e ciência.

Entre agronegócio e soberania.

O que precisamos escolher é qual agronegócio queremos financiar politicamente.

Um agronegócio que invista em tecnologia, pesquisa, redução do uso de substâncias perigosas, recuperação ambiental e segurança alimentar merece respeito.

Um modelo que trate qualquer tentativa de fiscalização como ataque ao setor precisa ser confrontado.

Porque quem realmente acredita na força do agronegócio não deveria ter medo de regras melhores.

E quem acredita na soberania brasileira não deveria aceitar que o país seja transformado em mercado de produtos que outros países decidiram não utilizar.

No fundo, a questão é simples.

Que Brasil queremos deixar para nossos filhos?

Um país que produziu milhões de toneladas?

Ou um país que conseguiu produzir milhões de toneladas sem transformar sua população em laboratório?

Porque uma nação pode sobreviver a uma safra ruim.

Pode sobreviver a uma queda nas exportações.

Pode sobreviver a uma crise cambial.

O que nenhuma nação deveria aceitar como preço inevitável do desenvolvimento é transformar a própria população em variável de ajuste.

O agronegócio brasileiro pode ser gigante.

Pode ser competitivo.

Pode ser exportador.

Pode ser tecnologicamente avançado.

Mas não pode reivindicar o direito de ser maior do que o interesse público.

E nenhum governo deveria aceitar que seja.

Porque, no fim das contas, a verdadeira pergunta do colonialismo químico não é apenas quem vende o veneno.

É quem decidiu que o brasileiro deveria aceitar recebê-lo.

E essa resposta não está apenas nas sedes das multinacionais.

Está também dentro do Brasil.

Está nas estruturas de poder.

Está nas decisões políticas.

Está nos interesses econômicos.

Está no lobby.

E está, sobretudo, na escolha de uma sociedade que precisa decidir se quer continuar medindo seu desenvolvimento pela quantidade de dinheiro que entra no país — ou também pela quantidade de vida que conseguimos preservar.

Um país que exporta comida, mas importa risco para sua própria população, não conquistou plenamente sua soberania. Apenas aprendeu a transformar dependência em negócio.

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