No Brasil, existe uma modalidade particular de indignação política: o cidadão passa anos denunciando o “sistema”, prometendo destruir a “velha política” e jurando que chegou a hora de acabar com os privilégios de Brasília.
Até que o sistema, esse ingrato, começa a eleger seus parentes. Nesse momento, a revolução tira o uniforme, veste um terno e vai providenciar mais um gabinete para a família.
Jair Bolsonaro construiu boa parte de sua identidade política explorando a rejeição aos políticos tradicionais. Era o outsider que enfrentaria tudo isso. O homem que não se curvaria aos esquemas, às conveniências e aos vícios da República. Curiosamente, sua trajetória também ajudou a consolidar uma dinastia eleitoral.
Em 2026, o sobrenome Bolsonaro voltou a ocupar espaço nas urnas. Michelle Bolsonaro, Carlos Bolsonaro, Jair Renan Bolsonaro e Renato Bolsonaro, irmão do ex-presidente, foram eleitos.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, chegou ao segundo turno da disputa presidencial.
Eduardo Bolsonaro já havia construído sua trajetória como deputado federal, enquanto Rogéria Bolsonaro, ex-esposa de Jair e mãe de três de seus filhos, também tentou retornar à política, mas não conseguiu se eleger.
Temos, portanto, uma família que transformou o sobrenome em ativo eleitoral. Não existe ilegalidade automática nisso. Democracia não proíbe parentes de disputar eleições. O problema começa quando se vende a ideia de que o país precisa se livrar de um sistema viciado, mas não se apresenta explicação convincente para a multiplicação de mandatos dentro do próprio círculo familiar.
A pergunta é elementar: o problema é o sistema ou o fato de não ser a sua família a ocupar todos os espaços?
Porque, convenhamos, existe uma diferença entre denunciar privilégios e simplesmente desejar mudar seus beneficiários. A primeira atitude pode ser política. A segunda se parece mais com uma disputa pelo controle do condomínio.
E Lula? Convém não cometer o erro factual de dizer que jamais teve um parente eleito. Marcos Cláudio Lula da Silva, seu filho adotivo, foi eleito vereador em São Bernardo do Campo em 2012.
A comparação séria não exige fabricar uma biografia imaculada para um lado; exige observar a dimensão e a organização das trajetórias eleitorais de cada família.
O ponto central permanece: não se pode transformar o parentesco em pecado quando ele aparece no campo adversário e em virtude quando favorece os próprios aliados.
O eleitor que acusa Lula de representar o “sistema” precisa explicar por que a política familiar dos Bolsonaro não desperta a mesma suspeita. Se o sobrenome Lula é tratado como evidência de uma suposta estrutura de poder, por qual critério o sobrenome Bolsonaro deveria receber imunidade crítica?
A resposta não pode ser simplesmente que os candidatos foram eleitos pelo voto popular. Naturalmente foram. É justamente por isso que a discussão importa: o voto legitima mandatos, mas não transforma toda contradição política em coerência.
Eis a ironia: os que prometiam combater a velha política descobriram que ela pode ser bastante confortável quando a cadeira tem o sobrenome certo.
No fim, talvez o discurso contra o sistema tenha sido interpretado de maneira muito particular por alguns de seus defensores. Não seria preciso acabar com a máquina política, com seus vícios ou com a concentração de poder. Bastaria trocar quem segura o volante.
O sistema é perverso quando elege os outros; quando elege a família, deve ser sinal de que a democracia está funcionando.
Que extraordinária revolução: muda-se o discurso, muda-se o inimigo, mudam-se as justificativas — mas o sobrenome continua na cédula.

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