Em um país que transformou a meritocracia em religião de mercado, embora a realidade social desminta diariamente esse sermão neoliberal, a convocação de Neymar para a Copa do Mundo surge como uma espécie de parábola cruel do Brasil contemporâneo: aqui, o discurso do mérito vale apenas para o pobre anônimo.
Para os ídolos milionários, para os protegidos do espetáculo, para os ativos comerciais da indústria do futebol, sempre haverá uma exceção conveniente.
O cidadão comum ouve desde cedo que precisa “merecer” cada espaço. Dizem-lhe que fracasso é culpa individual, que ascensão depende apenas de esforço, disciplina e performance.
Mas basta olhar para a Seleção Brasileira para perceber que o país nunca acreditou verdadeiramente nisso.
Neymar, há anos mais relevante como celebridade digital do que como atleta decisivo em alto nível, segue tratado como patrimônio intocável da pátria.
Pouco importa sequência física irregular, pouco importa o futebol intermitente, pouco importa o histórico recente de lesões e ausência competitiva. O marketing pede sua presença. E, no Brasil do espetáculo, o marketing costuma derrotar o mérito.
Não se trata aqui de negar a importância histórica do jogador. Neymar foi um dos maiores talentos de sua geração. O problema é justamente outro: a imprensa esportiva brasileira se recusa a tratar o tema no tempo verbal correto.
Falam dele como se ainda estivéssemos em 2015. Como se bastasse pronunciar seu nome para que o campo se iluminasse automaticamente. Há uma infantilização permanente da cobertura esportiva nacional, incapaz de separar memória afetiva de análise objetiva.
E então começa o ritual da encenação coletiva.
Programas esportivos transformam a convocação em clima de réveillon patriótico.
Ex-jogadores agem como relações públicas emocionados. Narradores vendem esperança em tom messiânico. Repórteres sorriem diante das câmeras como quem anuncia a volta de um salvador nacional. A crítica desaparece. A análise tática desaparece. O debate físico desaparece. Some até mesmo o mínimo constrangimento profissional.
Em vez de perguntar se Neymar ainda entrega, discutem apenas como será “bonito” vê-lo novamente de amarelo.
Em vez de avaliar rendimento, intensidade, capacidade competitiva ou encaixe coletivo, preferem transformar o telejornal esportivo em peça publicitária emocional.
O telespectador não recebe informação; recebe torcida organizada travestida de jornalismo.
A imprensa esportiva brasileira, em muitos momentos, abandonou a função crítica para atuar como departamento de promoção do entretenimento futebolístico.
E talvez esteja aí o ponto mais vergonhoso de toda essa história. Porque não é apenas sobre Neymar. É sobre um sistema inteiro que protege celebridades enquanto exige brutal competitividade dos demais.
Quando um jovem jogador oscila durante três partidas, é massacrado em rede nacional. Quando um atleta menos midiático perde rendimento, logo surgem discursos sobre renovação, meritocracia e “fim de ciclo”. Mas Neymar habita outra categoria: a dos intocáveis do mercado. Sua convocação deixa de ser questão esportiva e passa a ser questão econômica, televisiva e simbólica.
O futebol brasileiro, que já produziu debates profundos sobre tática, formação e identidade de jogo, hoje frequentemente se rende à lógica rasa do engajamento. O que importa não é quem está melhor; importa quem gera clique, audiência, patrocinador e nostalgia.
E assim o país segue encenando sua grande mentira nacional: a de que acredita no mérito.
Não acredita. Nunca acreditou.
A meritocracia brasileira funciona como instrumento moral para disciplinar pobres, jamais como princípio real para distribuir oportunidades. No topo da pirâmide, o sobrenome, a fama, o capital simbólico e o interesse comercial continuam pesando mais do que desempenho concreto.
Neymar foi convocado apenas pelo que representa fora de campo e não pelo que entrega dentro dele, será mais um capítulo dessa velha tragédia brasileira: um país que exige excelência dos invisíveis enquanto transforma privilégios em espetáculo patriótico para consumo popular.

Análise irretocável. Parabéns!
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