A mais nova modalidade de ignorância contemporânea: aquela que chega acompanhada de uma fotografia de livro grosso.
Em uma feira literária, uma jovem declarou que Além do Bem e do Mal, de Friedrich Nietzsche, era o melhor livro que havia lido no ano.
O pior? O Diário de Anne Frank. A justificativa: Anne Frank seria “vitimista”.
É difícil imaginar maneira mais eficiente de transformar uma opinião literária em um pequeno tratado sobre a falência da sensibilidade, um tratado sobre analfabetismo funcional.
Ninguém é obrigado a gostar da literariedade de Anne Frank. Ninguém precisa considerar seu diário uma obra-prima. É perfeitamente legítimo preferir Nietzsche, Dostoiévski, Machado de Assis, Clarice Lispector ou até um manual de manutenção de motocicletas.
O problema não está na preferência.
Está na palavra escolhida para descrever uma adolescente judia que precisou se esconder dos nazistas para tentar sobreviver.
“Vitimista” ?????
Anne Frank não estava fazendo campanha pela própria vitimização. Ela estava escondida.
Não estava procurando uma hashtag. Estava tentando sobreviver.
Não estava escrevendo um tratado sobre autopiedade. Estava registrando, em um diário, a vida cotidiana de uma adolescente perseguida por um regime que transformou o antissemitismo em política de Estado e conduziu milhões de judeus à perseguição, deportação e assassinato.
A diferença entre Nietzsche e Anne Frank não é que um tenha sido “profundo” e a outra, “vitimista”.
É que eles escreveram em condições históricas completamente diferentes e com propósitos diferentes.
Nietzsche fazia filosofia.
Anne Frank testemunhava a própria existência sob perseguição.
E existe uma ironia especialmente amarga na escolha de Nietzsche como símbolo de superioridade intelectual e contraponto nesse episódio.
Além do Bem e do Mal é uma obra filosófica de enorme importância e influência. Mas a história posterior do pensamento de Nietzsche também foi marcada por apropriações políticas.
O nazismo e seus propagandistas utilizaram e reinterpretaram elementos da obra nietzschiana, embora a relação entre Nietzsche e o nazismo não possa ser reduzida à fórmula simplista de que Nietzsche teria sido simplesmente um “influencer de Hitler”. A própria história editorial e interpretativa de sua obra, incluindo a atuação de sua irmã Elisabeth Förster-Nietzsche, tornou essa questão objeto de intenso debate histórico.
Isso deveria servir justamente para uma lição básica: livros complexos exigem leitura complexa.
Nietzsche não é uma carteirada de superioridade intelectual.
E conhecer o título de Além do Bem e do Mal não significa necessariamente ter compreendido Nietzsche. Ou sequer lido.
Existe, aliás, um fenômeno cada vez mais frequente: a intelectualidade como acessório.
Fotografa-se o livro. Publica-se a capa. Seleciona-se uma frase impactante.
Depois acrescenta-se uma expressão em alemão, uma palavra em latim e, se sobrar espaço, uma opinião sobre “a mediocridade das massas”, e... Pronto!
Nasceu um intelectual de Instagram.
O livro, coitado, continua fechado.
E talvez seja exatamente isso que esteja por trás de certas performances de erudição: não o prazer de descobrir ideias, mas o desejo de parecer alguém que descobriu ideias.
Ler de verdade dá trabalho.
É preciso enfrentar páginas difíceis, voltar parágrafos, reconhecer que não entendeu, consultar referências, confrontar o autor, descobrir que ele contradiz nossas próprias certezas.
O leitor verdadeiro não precisa parecer inteligente, pois ele está ocupado tentando entender.
Por isso existe algo profundamente revelador na comparação entre Nietzsche e Anne Frank: de um lado, uma das grandes figuras da filosofia moderna, cuja obra continua provocando debates sobre moral, verdade, poder e valores. Do outro, uma adolescente cuja escrita se tornou um dos testemunhos mais conhecidos da perseguição aos judeus durante o Holocausto.
Não são obras concorrentes.
Não estão disputando o mesmo campeonato.
Colocá-las em uma lista de “melhor” e “pior” é perfeitamente possível como exercício de gosto.
Transformar Anne Frank em exemplo de “vitimismo”, porém, revela uma incapacidade muito mais preocupante: a de compreender que determinados textos não existem apenas para nos divertir ou demonstrar a inteligência de quem os lê.
Alguns livros servem para nos lembrar do que aconteceu.
E isso também é literatura.
O diário de Anne Frank sobreviveu ao mundo que tentou silenciá-la, apagá-la. Seu texto atravessou décadas porque transformou uma tragédia histórica gigantesca em uma experiência humana concreta.
É fácil falar sobre seis milhões. Mais difícil é compreender uma menina.
Uma menina que tinha medo. Que brigava. Que sonhava. Que queria crescer. Que escrevia. Que esperava.
E que foi assassinada porque nasceu judia.
Talvez seja justamente aí que a suposta intelectualidade encontre seu teste definitivo.
Não na capacidade de citar Nietzsche, mas na capacidade de compreender Anne Frank.
Porque qualquer pessoa pode decorar o nome de um filósofo, porém, muito mais difícil é aprender com a História.
E existe uma forma particularmente triste de analfabetismo: ler muitos livros e continuar sem conseguir enxergar o ser humano dentro deles.
Nietzsche merece ser lido. Anne Frank também.
Mas, antes de tentar parecer intelectual diante de uma estante, talvez fosse conveniente aprender uma coisa que nenhum livro dispensa: humanidade não é sinônimo de vitimismo.

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