A discussão sobre o fim da escala 6x1 vai muito além de conceder mais um dia de folga ao trabalhador. O debate envolve qualidade de vida, salários, produtividade e a maneira como as empresas brasileiras organizam suas atividades.
O texto aprovado pelo Senado em outubro de 2026 prevê a redução gradual da jornada máxima de 44 para 40 horas semanais, dois dias de descanso remunerado e manutenção dos salários. A mudança, entretanto, ainda depende da conclusão das etapas constitucionais para entrar em vigor.
Mas o que isso significa na prática?
Fim da escala 6x1: quem criou a proposta e como funcionaria a redução da jornada?
Para entender essa discussão, é importante separar três coisas: o fim da escala 6x1, a redução da jornada semanal de trabalho e a maneira como as empresas reorganizariam seus horários. São questões relacionadas, mas não significam exatamente a mesma coisa.
Hoje, a regra geral prevista na Constituição brasileira é de até 8 horas diárias e 44 horas semanais, com repouso semanal remunerado. A escala 6x1 (seis dias de trabalho para um de descanso) é uma das formas de organizar essa jornada, desde que sejam respeitadas as regras legais e coletivas aplicáveis.
Reduzir o limite semanal de 44 para 40 horas, por exemplo, não significa necessariamente trabalhar uma hora a menos todos os dias. A distribuição depende do modelo adotado.
1. Quem é o autor do projeto?
A resposta correta é que a proposta atual resulta de diferentes iniciativas, de uma mobilização social e de negociações no Congresso. Não existe apenas uma pessoa responsável por toda a discussão.
Reginaldo Lopes (PT-MG)
É o autor da PEC 221/2019, que deu origem à proposta principal. O texto original previa a redução da jornada para 36 horas semanais. A proposta foi posteriormente modificada durante a tramitação na Câmara.
Erika Hilton (PSOL-SP)
Apresentou a PEC 8/2025, que propunha uma jornada de até 36 horas semanais, distribuídas em quatro dias de trabalho e três de descanso. Essa iniciativa foi incorporada à discussão da PEC de Reginaldo Lopes.
Rick Azevedo
Foi uma das principais figuras da mobilização popular contra a escala 6x1, por meio do movimento Vida Além do Trabalho (VAT). Sua atuação ajudou a levar o assunto ao debate público, mas ele não é o autor da PEC 221/2019.
Leo Prates (Republicanos-BA)
Foi o relator que apresentou o texto substitutivo aprovado pela Câmara em maio de 2026. É importante distinguir a autoria da proposta original da responsabilidade pela elaboração do texto final votado naquela Casa.
Portanto, dizer que a pauta foi criada exclusivamente por um partido ou por um único parlamentar apaga parte da história. A proposta legislativa de Reginaldo Lopes existe desde 2019; Erika Hilton apresentou outra iniciativa em 2025; e o movimento VAT contribuiu para ampliar a mobilização pública.
2. O que aconteceu com a proposta até agora?
Atualização importante: em 14 de outubro de 2026, o Senado aprovou a PEC 221/2019 em dois turnos. O resultado foi de 75 votos favoráveis e um contrário em cada turno.
O texto aprovado prevê:
redução da jornada máxima semanal de 44 para 40 horas;
dois dias de descanso remunerado por semana;
manutenção do salário, sem redução nominal ou proporcional;
transição gradual para a nova jornada.
Atenção: a aprovação no Senado não significa que a nova regra já esteja em vigor. É necessário acompanhar a etapa de promulgação da emenda constitucional.
3. Na prática, como se passa de 44 para 40 horas?
Vamos imaginar uma pessoa que trabalha no comércio, em um supermercado ou em uma loja, com jornada de 44 horas semanais.
Como funciona hoje: escala 6x1
Seg - 8h
Ter - 8h
Qua - 8h
Qui - 8h
Sex - 8h
Sáb - 4h
Dom - Folga
44 horas distribuídas em seis dias. A jornada real varia conforme o contrato e a organização dos horários.
Como ficaria: escala 5x2
Seg - 8h
Ter - 8h
Qua - 8h
Qui - 8h
Sex - 8h
Sáb - Folga
Dom - Folga
Cinco dias de oito horas, totalizando 40 horas semanais e dois dias de descanso.
A diferença é que o trabalhador passa a ter dois dias de descanso por semana, em vez de apenas um, nesse modelo de escala.
Mas existe um detalhe: não basta dividir as 40 horas por cinco e concluir que todas as empresas terão exatamente o mesmo horário. A distribuição dos dias de trabalho, os turnos e as particularidades de cada atividade precisam ser considerados.
4. A redução será imediata ou gradual?
O texto aprovado prevê uma transição de 14 meses, contados a partir da promulgação da emenda.
Etapa 1 — após 60 dias
A jornada máxima cai de 44 para 42 horas semanais, e passam a valer os dois dias de descanso remunerado por semana.
Etapa 2 — após 14 meses
A jornada máxima passa a ser de 40 horas semanais, mantendo os dois dias de descanso remunerado.
Esses prazos não são contados da votação no Senado, mas da promulgação da emenda constitucional.
5. O trabalhador vai ganhar menos porque trabalhará menos horas?
Não. O texto aprovado estabelece a redução da jornada sem redução salarial, inclusive nos contratos de trabalho em vigor.
Veja um exemplo hipotético:
| Situação | Jornada semanal | Salário mensal |
|---|---|---|
| Antes | 44 horas | R$ 2.200 |
| Depois | 40 horas | R$ 2.200 |
Nesse exemplo, a remuneração mensal permanece em R$ 2.200, mas o trabalhador passa a cumprir quatro horas semanais a menos.
Isso também significa que o valor da hora de trabalho aumenta. No exemplo, o trabalhador não recebe menos por ter sua jornada reduzida.
6. E as empresas? Terão de contratar mais funcionários?
Essa é uma das questões econômicas mais importantes da discussão.
Imagine um estabelecimento que precisa funcionar durante 12 horas por dia, sete dias por semana. Reduzir a jornada individual sem reduzir o período de funcionamento pode exigir reorganização das equipes, mudanças nos turnos e, em alguns casos, contratação de trabalhadores adicionais.
Por outro lado, os efeitos não serão iguais em todos os setores:
Comércio e supermercados: podem precisar reorganizar escalas e equipes para manter o atendimento.
Indústria: pode redistribuir turnos e avaliar produtividade, máquinas e capacidade instalada.
Escritórios e atividades administrativas: podem ter maior facilidade para ajustar horários, dependendo da função.
Pequenas empresas: podem enfrentar dificuldades proporcionalmente maiores para cobrir ausências e reorganizar equipes.
A discussão econômica, portanto, não se resume a dizer que a mudança será gratuita para as empresas ou que necessariamente provocará desemprego. Os resultados dependem dos custos, da produtividade, da organização do trabalho e das medidas de adaptação. O próprio texto prevê medidas transitórias para ajudar a preservar empregos e mitigar impactos sobre microempreendedores e pequenas empresas.
7. O que muda para quem já trabalha 5x2?
Quem já trabalha cinco dias por semana e descansa dois também pode ser beneficiado pela redução da jornada máxima, caso atualmente cumpra mais de 40 horas semanais e esteja abrangido pela nova regra.
Por exemplo, um empregado que trabalha de segunda a sexta-feira, das 8h às 18h, com duas horas de intervalo por dia, cumpre oito horas efetivas diárias, totalizando 40 horas semanais. Nesse caso, a jornada já está dentro do novo limite.
Já uma pessoa que trabalha cinco dias, com 8h48 de trabalho efetivo por dia, totaliza 44 horas semanais. A jornada precisará ser adaptada ao novo limite, respeitadas as regras aplicáveis.
Há, porém, regimes especiais e categorias com regras próprias, que exigem análise específica.
Em resumo
O fim da escala 6x1 não significa apenas trocar um dia de folga por dois. O texto aprovado pelo Senado combina três mudanças: redução da jornada máxima para 40 horas, dois dias de descanso remunerado por semana e manutenção dos salários, com implementação gradual.
A questão central agora é acompanhar a promulgação e a aplicação prática das novas regras, inclusive as medidas para setores que precisam funcionar todos os dias.
Você pode consultar o andamento oficial na página da PEC 221/2019 no Senado Federal.

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