A imprensa que ajudou a fabricar o monstro agora se assusta com ele?
A imprensa brasileira descobriu Eduarda Campopiano.
Descobriu que a deputada estadual eleita pelo PL em São Paulo, aos 23 anos, não chegou ao Parlamento carregando apenas um diploma eleitoral. Chegou carregando um repertório de guerra cultural que inclui ataques a Erika Hilton e declarações sobre povos indígenas que provocaram acusações de transfobia e racismo e representações ao Ministério Público.
Campopiano foi eleita com cerca de 1,96 milhão de votos, a maior votação para a Assembleia Legislativa paulista. E agora parte da imprensa parece horrorizada.
Perfeito.
Só existe um pequeno problema: esse filme já passou antes.
O nome do protagonista anterior era Jair Bolsonaro.
E aqui começa a parte incômoda.
Não se trata de dizer que "a imprensa elegeu Bolsonaro". Essa simplificação seria tão infantil quanto atribuir a eleição de Campopiano exclusivamente às redes sociais. Trata-se de algo mais sério: durante anos, setores relevantes da imprensa transformaram a provocação política em espetáculo jornalístico.
A fórmula era extraordinariamente eficiente.
Bolsonaro dizia uma barbaridade. A imprensa noticiava. Bolsonaro respondia à repercussão. A imprensa noticiava a resposta. A reação à resposta virava nova notícia.
E a notícia produzia mais audiência, mais reconhecimento e mais capital político.
A BBC chegou a registrar, em 2018, como o destaque dado às polêmicas havia ampliado a fama e o eleitorado de Bolsonaro. Não era exatamente um segredo.
Mais revelador ainda é o trabalho acadêmico produzido na Universidade de Brasília. Uma tese de doutorado analisou 826 notícias da Folha de S.Paulo e do Estado de S. Paulo entre 2008 e 2018 e concluiu que determinadas práticas jornalísticas contribuíram para a normalização e difusão do discurso nazifascista de Bolsonaro.
O estudo aponta, entre outros fatores, reprodução literal de falas radicais, ausência de fontes qualificadas para rebater ameaças antidemocráticas e uma cobertura frequentemente pautada pelas próprias estratégias do político.
Outro estudo, publicado na revista Sur le journalisme, chegou a conclusão semelhante ao examinar especificamente a agenda antigênero de Bolsonaro: Folha e Estadão deram espaço às estratégias de comunicação populista e reproduziram declarações misóginas e homofóbicas sem suficiente contextualização ou contraponto qualificado.
Portanto, não é apenas uma impressão de quem está sentado no sofá reclamando da televisão. Existe pesquisa acadêmica sobre isso.
E é justamente por isso que a cobertura de Campopiano merece uma pergunta que vai além da própria deputada: por que o espanto chegou tão tarde?
Campopiano não inventou o método.
Ela aprendeu com um ambiente político no qual dizer o absurdo passou a ser uma maneira eficiente de conquistar espaço.
A diferença é que Bolsonaro foi pioneiro numa época em que esse mecanismo ainda parecia exótico. Seus sucessores chegam a um ecossistema completamente preparado.
Hoje, uma frase agressiva pode ser publicada no X, viralizar em minutos, provocar indignação, gerar uma reportagem, produzir uma entrevista sobre a reportagem, alimentar cortes de vídeo e retornar às redes multiplicada por milhões.
A polêmica deixou de ser consequência da política. A polêmica virou produto político.
Campopiano compreendeu isso.
Seu ataque a Erika Hilton ultrapassou 3 milhões de visualizações, segundo a Folha. A própria deputada eleita posteriormente classificou a referência a Hilton como uma "manifestação provocativa" nas redes.
"Provocativa."
Eis a palavra mágica da nova política.
Não é preconceito. É provocação.
Não é intolerância. É opinião.
Não é agressividade. É autenticidade.
Não é estratégia de viralização. É "falar o que pensa".
O vocabulário muda, mas a técnica permanece.
E a imprensa precisa ter coragem de olhar para sua própria responsabilidade nesse processo.
Não se trata de pedir censura. Muito menos de impedir que Campopiano fale.
É exatamente o contrário.
Ela deve falar. A imprensa deve investigar. As vítimas devem responder. Os especialistas devem contextualizar. As instituições devem apurar eventuais crimes.
E o eleitor deve decidir.
O que não pode acontecer é a transformação do absurdo em entretenimento e, depois, a surpresa quando o entretenimento conquista mandato.
Porque existe uma diferença enorme entre dar notícia sobre um político e deixar que o político determine sozinho os termos da notícia.
A primeira é jornalismo. A segunda pode se transformar em propaganda involuntária.
E talvez seja justamente aí que resida a maior ironia.
A mesma imprensa que durante anos precisou correr atrás de Bolsonaro para saber qual seria a próxima declaração explosiva agora corre atrás de Campopiano para explicar por que ela fala daquela maneira.
Ora, ela fala daquela maneira porque aprendeu que funciona. Aprendeu que o algoritmo recompensa. Aprendeu que a indignação gera alcance.
Aprendeu que a imprensa repercute.
Aprendeu que o ataque ao adversário rende mais atenção do que uma proposta de política pública. E aprendeu isso observando uma geração anterior fazer exatamente a mesma coisa.
Por isso, o escândalo diante de Campopiano precisa ser acompanhado de memória.
Não basta denunciar o incêndio. É preciso assumir que passou anos vendendo gasolina como entretenimento.
A imprensa tem todo o direito, e até o dever, de endurecer o tratamento diante de discursos racistas, transfóbicos, misóginos ou antidemocráticos, mas deveria também reconhecer que demorou a compreender o mecanismo.
Porque Campopiano não é apenas uma deputada que surgiu das redes sociais.
Ela é, em alguma medida, um dos produtos políticos de uma época em que a política descobriu que a indignação dá audiência e a audiência dá votos.
O monstro não apareceu ontem.
Ontem foi apenas o dia em que ele ganhou quase dois milhões de votos.
E a imprensa, finalmente, parece ter percebido que aquilo que durante anos chamou de "polêmica" também podia ser chamado de método.






