domingo, 27 de setembro de 2026

Catolicismo sob ataque

Quando o pastor evangélico Victório Galli introduziu o projeto de lei 2.623/2007 para eliminar Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil, a justificativa era a de que isso respeitaria a laicidade do Estado - um argumento obviamente demagógico quando vindo de uma bancada que há décadas se esforça para alterar inúmeras leis com o único propósito de obrigar a sociedade a se adequar às suas crenças particulares.

Além disso, mesmo países conhecidos por seu secularismo, como os escandinavos, incluem em seu calendário uma série de datas que celebram elementos religiosos e que são vistas pelos cidadãos não como concessões à Igreja, mas com a compreensão de que se trata de heranças históricas e culturais (algo inevitável quando consideramos a idade e a prevalência do catolicismo).

Na época, integrante do PSL, que se tornaria também o partido pelo qual Jair Bolsonaro se tornaria presidente, Galli (hoje no PP), acabou vendo o projeto ser arquivado pela Câmara, mas essa de forma alguma se tornou a única tentativa por parte de evangélicos e bolsonaristas de atacar o catolicismo e outras religiões.

E como ações valem muito mais do que palavras, vejamos se as negativas da família Bolsonaro encontram respaldo no histórico do movimento que encabeçam:

Em 2022, quando Jair estava no poder, bolsonaristas invadiram as celebrações do Dia de Nossa Senhora Aparecida no Santuário de Aparecida e hostilizaram o padre Camilo Junior e o próprio arcebispo Dom Orlando Brandes. Não satisfeitos, atacaram também os funcionários da TV Aparecida e mesmo os fiéis presentes no Santuário. Ações similares aconteceram em Jacareí (SP) e em Curitiba.

É importante notar como o simples fato de um Bolsonaro estar no poder serviu para empoderar seus seguidores, e durante a gestão do miliciano, dúzias e dúzias de incidentes protagonizados por bolsonaristas indicaram justamente como estes se viram autorizados pelo líder a ações de franca hostilidade contra qualquer um que julgassem “inimigos”.

Mas sigamos: em 2021, o deputado estadual Frederico d´Avila, do extinto PSL de São Paulo (e aliado de primeira hora da família Bolsonaro), subiu à tribuna da assembleia para fazer um discurso extremamente agressivo contra católicos, insultando o arcebispo de Aparecida e também o Papa Francisco, usando termos como “vagabundo” e “safado”. Não satisfeito, chamou ambos de “pedófilos safados” (convenientemente ignorando os inúmeros escândalos de abuso sexual envolvendo pastores), e acho apenas apropriado que este mesmo parlamentar tenha proposto que a assembleia homenageasse ninguém menos do que o carniceiro Augusto Pinochet.

É relevante lembrar, também, como Michelle Bolsonaro declarou, durante um culto evangélico, que antes de seu marido ocupar o Planalto o palácio era um “lugar consagrado a demônios”, algo que lideranças religiosas encararam como um ataque aos artefatos e imagens católicos que fazem parte do acervo presidencial e que também incluem vários de religiões de matriz africanas (outro alvo constante de Michelle).

Outro representante do catolicismo atacado em massa por bolsonaristas foi o padre Zezinho, que abandonou as redes e denunciou os insultos dirigidos a ele, a bispos católicos e ao próprio Papa.

Perseguido com ainda mais virulência foi o padre Júlio Lancellotti, que, por abraçar comunidades economicamente à margem da sociedade, se tornou um verdadeiro vilão para evangélicos e bolsonaristas, que o acusavam de ser “comunista” (indicando como encaram o amor ao próximo como um conceito de esquerda, diga-se de passagem).

Entre as ações bolsonaristas houve a de Paulo Sposito, que fez uma óbvia ameaça de morte ao religioso católico ao publicar em rede social que os furtos em certa região da cidade só “sessarão (sic) quando o padreco Julio Lancenheta for transferido para outro pastoral ou for comer grama pela raiz” (e outro maluco bolsonarista chegou a invadir uma missa ministrada pelo padre para ameaçá-lo).

Outro padre atacado por bolsonaristas foi Lino Allegri, que, depois de citar os mortos pela COVID no Brasil em uma missa e a pouca atenção dada às vacinas, viu a sacristia ser invadida por bolsonaristas para insultá-lo, um ataque que se repetiu nos dias seguintes, quando bolsonaristas vestindo camisas da seleção brasileira invadiram as cerimônias religiosas para repetir as ofensas.

E não é à toa que estes líderes católicos temem pela própria vida, já que não é raro que os evangélicos bolsonaristas expressem seu ódio com violência física, como o sujeito que invadiu a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição durante uma missa e destruiu o sacrário e um crucifixo de madeira, além de ter tentado derrubar a imagem de Nossa Senhora da Conceição.

Porém, como mencionei anteriormente ao falar de Michelle Bolsonaro, a intolerância das lideranças evangélicas bolsonaristas não se limita ao catolicismo, como provou o então deputado Rodrigo Amorim (outro aliado da família miliciana) ao definir a Aldeia Maracanã (abrigo da espiritualidade indígena no Rio de Janeiro) como “lixo urbano”, completando que “quem gosta de índio, vá para a Bolívia”.

Já o pastor Daniel Martins Francisco, de Nova Iguaçu, foi autuado depois de divulgar vídeos nos quais aparecia quebrando imagens de várias divindades afro-brasileiras, chamando-as de “demônios”.

Vale apontar que esses “cidadãos de bem” incluem traficantes evangélicos: nas comunidades dominadas pelo chamado “Terceiro Comando Puro” (que um de seus líderes define como “convertida ao Evangelho”), fiéis de religiões de matriz africana foram expulsos e terreiros foram destruídos, com os ataques sendo ampliados para incluir eventos católicos, e a Paróquia de Santa Edwiges chegou a ser pichada com as letras TCP (não por coincidência, um pastor evangélico foi preso pela PF sob a acusação de ser laranja do grupo criminoso).

E isso está longe de ser um problema recente: em 1995 ocorreu o infame incidente no qual o pastor Sergio Von Helde chutou a imagem de Nossa Senhora Aparecida em um culto transmitido ao vivo e, em 2014, a Arquidiocese de Juiz de Fora publicou um artigo em seu site oficial questionando o vandalismo de evangélicos direcionados a símbolos católicos, um problema que seguiu existente, como comprova a ação do pastor paranaense Miguel Moreira, que quebrou a marteladas a imagem da mesma santa (e outra de Buda), queimando-as em seguida.

Assim, por mais que surjam negativas de ódio ao catolicismo por parte de evangélicos bolsonaristas (notem como, em uma de suas manifestações afastando-se do tema, o candidato não consegue sequer pronunciar o nome da santa), o histórico desse movimento já ofereceu inúmeras evidências do contrário.

E, como dito anteriormente, quando há uma figura extremista no poder, os radicais se sentem ainda mais empoderados para atacar os “inimigos”.

TEXTO DE:
Pablo Vilaça

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