quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Banco Master e o Teateo da Mídia Lavajatista

Não sei se vocês estão perdidos, mas é preciso lembrar que o escândalo do Banco Master diz respeito a bilhões de reais de dinheiro público alocados em operações financeiras temerárias, envolvendo bancos públicos, fundos de aposentadoria e governos estaduais. Isso é o essencial.

Todo o resto é distração. E distração, aqui, é estratégia preferencial das forças antidemocráticas. 

O caso é especialmente grave por envolver governadores e lideranças políticas ligadas ao bozismo institucional - entre eles, os governadores do Rio de Janeiro e de Brasília - que autorizaram investimentos massivos em títulos de alto risco, comprometendo recursos que pertencem à população - a nós, à você.

Quando o castelo começou a ruir, tentou-se socializar o prejuízo: determinado senador bolsonarista quase conseguiu emplacar a ampliação do Fundo Garantidor de Crédito para cobrir rombos privados com dinheiro coletivo. Foi quase.

Mas o debate público foi rapidamente deslocado. E muitos embarcaram na onda…

De repente, o “escândalo” deixou de ser o uso criminoso do Estado pelos bozistas e passou a ser um suposto contrato de advocacia envolvendo a esposa de um ministro do STF - aquele que foi relator do processo que condenou, justamente, o chefe da organização criminosa.

Um contrato discutível? Sim, é possível. Eticamente questionável? Pode ser. Ilegal? Até agora, não.

E, sobretudo, irrelevante diante da dimensão do dano financeiro em curso.

Essa inversão não é inocente. O escândalo, hoje, é uma arma política que as forças antidemocráticas manejam com destreza ao menos desde o lavajatismo. E o fato de o lavajatismo ter saído quase ileso dos crimes que cometeu cobra seu preço na sua repetição sempre que a situação dos canalhas de sempre aperta.

A distração na forma de escândalo de estilo lavajatista, plantada pela grande mídia, funciona como instrumento de ocultação. Em vez de revelar a verdade, fragmenta-a, moraliza-a e personaliza-a. Troca-se o crime estrutural pela indignação seletiva. Enquanto se discute o contrato e o parentesco da advogada com o juiz, os responsáveis pelo desaparecimento de bilhões do erário convenientemente desaparecem do noticiário.

A cereja do bolo desse lavajatismo redivivo é o chamado para uma CPI - proposta, não por acaso, por setores do congresso que são inimigos do povo diretamente implicados no caso - e apoiada por figuras que se dizem de esquerda, mas que fizeram parte do lavajatismo.

O mais curioso é o crime investigando a si mesmo: escolhendo o roteiro, inventando fatos e invertendo acusações - como no caso dos desvios no INSS, crime perpetrado em conluio com a mesmíssima organização criminosa do presidiário.

Essa CPI ou CPMI seguirá claramente a mesma lógica da CPMI do INSS e cumprirá, sem muita dúvida, o objetivo central da estratégia: reorganizar o espetáculo, controlar o foco da opinião pública e produzir equivalências falsas. E tudo isso em ano eleitoral.

Além disso, last but not least, figuras como o Governador de São Paulo surgem como atores indiretos no caso Master.

Ele recebeu doações de campanha de empresários ligados ao conglomerado do Banco, criando uma relação política e financeira que merece atenção. Até o momento, não há registro de investigação formal contra ele, mas o interesse da mídia antidemocrática em transformar o debate pode estar justamente em embaralhar o enredo e desfocar a verdade, desviando o foco do público das relações entre Tarcísio e o Master.

Tinha era que ter uma CPI sobre o lavajatismo da grande mídia…

Na montagem abaixo, identifiquem os personagens envolvidos… A grande imprensa não o fará por você.

TEXTO DE:
Sérgio Alarcon

Havaianas todo mundo USA, será?

Está acontecendo o falecimento da interpretação munido pelo discurso do ódio; a cada semana se prega uma nova narrativa abastecida pela semântica dos algoritmos.

É só termos um raciocínio simples; a Havaianas, amada e consumida que agrega valor no mundo todo, vai perder seu tempo com polarização?

E mesmo se alguém internamente levantasse essa hipótese alguém acha mesmo que a Itausa permitiria isso com o grande risco de diminuir o seu share?

Money, business!

A Fernanda Torres aparece dizendo que não quer começar o ano com o pé direito. Começar o ano com o pé esquerdo foi associado a ter azar, e é uma frase recorrente no fim do ano. Essa campanha se conecta a uma outra campanha clássica das Havaianas. É uma campanha de 2014 onde Romário compra Havaianas e pede para separar a esquerda e a direita em dois embrulhos, e ele manda o pé esquerdo para o Diego Maradona. Então, Fernanda Torres complementa.

Eu não quero começar o ano com o pé direito, porque você tem que começar com os dois pés. Dois pés é a união. Dois pés na porta, os dois pés na estrada, os dois pés no chão para que você tenha equilíbrio.

E Natal, normalmente, que era conhecido como uma época de harmonia, virou uma época de desarmonia.

E se vem aquele tema tabu, todo mundo começa a brigar. E é mais um ano a família sem se falar.

Exceto no lugar que a família mais se encontra, que é nos grupos de WhatsApp, essa campanha, na verdade, é um plot twist.

Ela não traz valores de esquerda ou de direita.

Ela não fala sobre liberalismo econômico, ela não fala sobre pautas morais, ela não fala sobre privatizações, ela não fala sobre justiça social, não fala sobre desigualdade, não fala sobre distribuição de renda.

Ela não fala sobre meritocracia ou não fala sobre acessibilidade.

E seria um tipo de liberdade de expressão que não tem nenhum motivo de boicote.

Aliás, se a gente fosse fazer uma análise semiótica dessa campanha, ela tem inclusive valores até mais voltados para a direita, porque ela inclusive fala que depende de você o seu ano.

E é justamente a ideia do liberalismo que vai defender essa responsabilidade única e pessoal pelo seu próprio sucesso. E aí, a paranoia generalizada em forma de vergonha alheia faz as pessoas se unirem para devolver as Havaianas que ganharam, pois dessa marca não mais consumirei.

Imagina se toda marca e pessoa começasse a fazer isso, né?

Você tá cancelando a Havaianas porque ela tocou no nome proibido?

Mas você tá cancelando todo mundo da sua família, todo mundo da sua sala de aula, todo mundo do seu círculo de trabalho?

E imagina se as marcas fazem isso de volta, colocam a estrelinha na testa de todo mundo?

Desculpa, senhor consumidor, na minha empresa você não pode entrar, porque eu identifiquei que você tem certos valores que não condizem com a minha marca. O que a gente vê são culturas do cancelamento seletivas.

A gente pode escolher as marcas que a gente consome que nos representam. Se a marca, por exemplo, tiver propagando racismo, tiver propagando homofobia, se tiver propagando ódio para qualquer um dos lados, se tiver uma intolerância religiosa, se tiver fazendo apologia ou incentivo a crimes. Mas acho que não foi o caso, né?

Uma mulher que recentemente inclusive foi símbolo de patriotismo, levando o seu nome e o nome do seu país em escala internacional.

Em vez de a gente se cancelar, a gente poderia dialogar mais, ter um pouco mais de educação. Até porque eu acredito firmemente que a maioria das pessoas não sabem a diferença entre esquerda e direita.

Elas simplesmente se dividiram em times de futebol, que gritam enlouquecidamente. Quanto mais desinformação, mais caos, mais as pessoas brigando, mais as pessoas divididas.

E aí é mais fácil de manipular e controlar.

Por exemplo, enquanto a maioria das pessoas tá brigando, o Congresso faz a festa com as emendas parlamentares. E na calada da noite votam um monte de projetos. A maioria não vai beneficiar nenhum de nós dois.

TEXTO DE:
Thiago Muniz

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Higher Ground



Higher Ground” foi escrito por Stevie Wonder sobre ter uma segunda chance e aproveitar ao máximo.

O que é mais surpreendente nessa música é que Stevie a gravou três meses antes de quase ser morto a caminho de um concerto beneficente. Stevie ficou em coma por três meses.

No verso “I'm so darn glad he let me try it again / 'Cause my last time on earth I lived a whole world of sin” ( Estou tão feliz que ele me deixou tentar de novo / Porque da última vez na Terra vivi um mundo inteiro de pecado ), Wonder expressa a crença de que a vida oferece oportunidades para aprender e evoluir espiritualmente.

Esse significado ganha ainda mais profundidade ao considerar que, pouco depois do lançamento da música, Stevie Wonder sofreu um grave acidente de carro e entrou em coma.

Durante sua recuperação, a canção foi usada como estímulo, simbolizando literalmente uma nova chance de viver e crescer.

A letra também alterna entre críticas sociais e mensagens de perseverança.

Em “Powers keep on lyin' / While your people keep on dyin'” ( Os poderosos continuam mentindo / Enquanto seu povo continua morrendo ), Wonder denuncia injustiças e a persistência de problemas sociais.

Apesar disso, ele contrapõe essas dificuldades com esperança, especialmente no refrão: “Gonna keep on tryin' / Till I reach the highest ground” ( Vou continuar tentando / Até alcançar o ponto mais alto ).

Assim, a música se transforma em um hino de superação, fé e busca constante por crescimento, tanto individual quanto coletivo, com a espiritualidade servindo como fonte de força.

#steviewonder #music #world #groove #r&b

TEXTO DE:
Thiago Muniz

De Jesus às Havaianas, só não pode matar o Mensageiro

Antes de tudo, um fato: em tempos de mimimi - y “del no me toques”, convém lembrar que meu Pai era de Direita.

Filiou-se nos anos 80 à Ação Popular (hoje Partido Popular) e foi Concejal del Servicio Público y Fomento em As Neves, cidade de Galícia, na Espanha — algo como vereador-secretário.

Divergíamos sempre. Nunca houve grito, nem cara atravessada. Hoje, treze anos após sua morte, está cada vez mais difícil engolir certas coisas — e mais difícil ainda ficar calado.

Em 1973, a Pepsi lançou um jingle nas rádios que virou polêmica: QUEM TEM AMOR PRA DAR (composição de , Rodrix & Guarabira): 

"Hoje existe tanta gente que quer nos modificar, não quer ver nosso cabelo assanhado com jeito.
Nem quer ver a nossa calça desbotada, o que é que há? Se o amigo está nessa ouça bem, não tá com nada!
Só tem amor quem tem amor pra dar, quem tudo quer do mundo sozinho acabará.
Só tem amor quem tem amor pra dar, só o sabor de Pepsi lhe mostra o que é amar"...


Houve quem enxergasse ali uma ameaça ao regime militar. Não havia. Mas a paranoia falou mais alto. Até que saiu o comercial na televisão. Não passava de uma mensagem aos jovens, na onda do movimento hippie. Os hippies pregavam o amor livre, o respeito à natureza, ao pacifismo e a uma vida mais simples – MAKE LOVE, NOT MONEY.

Pouco depois, veio o clássico da Bamerindus: “o tempo passa, o tempo voa e a poupança Bamerindus continua numa boa” — e passou mesmo. Só a ignorância cricri continua, permaneceu intacta.

Em 2025, repetimos o filme. Um surto coletivo se volta contra a campanha de fim de ano das Havaianas, estrelada pela premiadíssima Fernanda Torres. Um ataque neurótico, beirando o delírio.

A pergunta é simples: se a protagonista fosse a Regina Duarte, a Cássia Kiss, a Antônia Fontenelle ou a Luiza Tomé, com o mesmo texto, haveria a mesma gritaria? Ou o problema é o CPF de quem calça a sandália?

Outra: os mesmos que gritam contra a propaganda recusariam uma transfusão de sangue “vermelho” ou preferem uma overdose de anilina?

Cancelariam Milton Nascimento por causa de Canção da América – e o amigo guardado no lado esquerdo do peito?

Ou César Menotti & Fabiano por Do Lado Esquerdo?

No fundo, o que mudou nesses 52 anos entre a Pepsi e as Havaianas é pouco: a burrice virou hereditária.

E que me perdoem alguns amigos da esquerda: o povo tem direito de comprar o que quiser. Não dá mais para culpar o capitalismo por tudo. Ou vamos ressuscitar Georgi Dimitrov e o Congresso de 1935?

Já que falamos de extremismo, é urgente dar um basta ao deputado Paulo Bilynskyj — um misógino que agora resolveu posar de teórico separatista. Ao chamar o Maranhão de “bosta”, revela ignorância crassa sobre a cultura e o potencial econômico do estado. E, ao atacar a Bahia, transforma ACM em Fidel Castro, a velha ARENA em Sierra Maestra e a UDN em guerrilha revolucionária. Patético.

E não esqueçamos do nebuloso caso do Banco Master, que traz consigo a verborragia contaminada da Malu Gaspar. Como cidadão brasileiro desejo que se apure até o último centavo. Como torcedor do Fluminense me preocupa. Há boatos, supostamente com o BTG no meio, e silêncio demais.

Por fim, o Natal.

O Papa Leão XIV disse algo óbvio: negar ajuda aos pobres é negar Deus.

Já o Cardeal Dom Odilo mandou suspender as transmissões do Padre Júlio Lancellotti. Enquanto isso, quem aparece na TV são  os Padres das fanfarras, Marcelo Rossi e Fábio Melo — cujas práticas cristãs não chegam a 5% da obra social de Júlio.

Que igreja é essa? Dois pesos, duas medidas.

Um mês sem Paulo Andel me deixou mais ácido, mais atento. Especialmente em dezembro, mês do nascimento de Jesus — que, convenhamos, usava sandálias, as Havaianas da época. 

Não esqueçam:

Jesus se escreve com J.

J de Padre Júlio Lancellotti.

FELIZ 2026!!!


TEXTO DE:
Antonio Gonzalez

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

2025: quando o bolsonarismo encontrou o Código Penal

Não foi um ano qualquer. 2025 foi o ano em que a política brasileira resolveu sair do teatro de absurdos e encarar a realidade — aquela que vem com lei, consequência e despacho judicial.

A prisão de Jair Bolsonaro e de parte relevante de seus asseclas não caiu do céu nem foi “vingança do sistema”, como repetem seus fiéis órfãos políticos.

Foi o resultado previsível de uma trajetória construída sobre ataques às instituições, flertes explícitos com o golpe e a ideia delirante de que vontade pessoal se sobrepõe à Constituição

Descobriu-se, tardiamente, que democracia não é playground ideológico.

Enquanto o bolsonarismo se especializava em vitimização, o governo Lula fez o que governos são eleitos para fazer: governar.

A isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil não é revolução socialista, como bradam os apocalípticos de sempre. É apenas uma correção mínima num país que tributa demais o salário e de menos o patrimônio. O Brasil, por um instante raro, decidiu aliviar quem trabalha.

O Congresso, contudo, preferiu manter sua imagem pública em baixa. Ganhou — e fez por merecer — o rótulo de “inimigo do povo”.

Não por radicalismo retórico, mas por prática cotidiana: chantagem orçamentária, sabotagem de políticas públicas e um apetite insaciável por emendas como se o Estado fosse um caixa eletrônico particular. Representatividade virou detalhe.

Nesse ambiente, o comportamento de Hugo Motta ajudou pouco e atrapalhou muito. Imaturo, errático e frequentemente mais preocupado com disputa de poder do que com responsabilidade institucional, confundiu liderança política com birra. O resultado foi um Congresso mais ruidoso do que produtivo e crises fabricadas para consumo interno.

No plano internacional, o Brasil deu um recado claro ao derrotar a tentativa de aplicação da Lei Magnitsky contra ministros do STF.

A ofensiva, patrocinada por setores da extrema direita global, era menos sobre direitos humanos e mais sobre vingança política. Ao resistir, o país afirmou algo básico: divergência judicial não autoriza intervenção estrangeira nem sanção sob encomenda ideológica.

As cassações de mandatos de deputados bolsonaristas completaram o cenário. Não houve perseguição. Houve consequência. Mandato não é salvo-conduto para atacar a democracia por dentro, nem licença para conspirar contra o próprio regime que garante o cargo.

No fim das contas, 2025 não foi um ano de harmonia — foi um ano de ajuste. 

Doloroso para quem apostou no caos como projeto político. Pedagógico para quem ainda duvidava que instituições, apesar de lentas, funcionam.

A realidade venceu. E, ao contrário das fake news, ela não precisa gritar para se impor.

Mas convém não se iludir: a luta está longe de acabar.

Nos últimos meses, parte da imprensa passou a mirar o ministro Alexandre de Moraes não por súbito zelo garantista, mas como peça de uma barganha política mal disfarçada.

O ataque seletivo ao STF aparece como moeda de troca num acordo tácito com a família Bolsonaro: reduzir a pressão judicial em troca da retirada de Flávio Bolsonaro da disputa, abrindo caminho para um projeto mais “palatável” do bolsonarizmo,encarnado por Tarcísio de Freitas.

É a velha política travestida de pragmatismo editorial. O enredo muda, os personagens também, mas a tentativa de acomodar o golpismo dentro do sistema persiste.

A democracia venceu batalhas importantes em 2025 — mas a guerra contra o oportunismo, o cinismo e a chantagem institucional segue em curso.

Que venha 2026...

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Natal: festa do que?

O Natal, no Brasil, já não é uma celebração cristã. É um evento antropológico.

Não se cultua o Cristo; cultua-se o EU.

Jesus aparece apenas como álibi retórico, um selo religioso para legitimar a festa do excesso, da autopermissão e da hipocrisia social.

A cena é conhecida: mesas monumentais, álcool em abundância, música alta — não raro com letras que fariam corar qualquer catequista — e discursos inflamados sobre “o verdadeiro sentido do Natal”.

O verdadeiro sentido, ao que parece, é não se conter. A virtude teológica do domínio próprio foi substituída pela virtude pagã do “mereço”.

Cristo nasce pobre, discreto, fora do centro do poder.

O Natal moderno nasce barulhento, autocentrado e profundamente vaidoso. 

Não é o culto ao Deus que se faz homem; é o culto ao homem que se faz deus por uma noite.

O cristianismo do presépio foi trocado pelo cristianismo do espelho.

Fala-se em Jesus, mas pratica-se outra religião: a da satisfação pessoal. O mandamento não é “amar ao próximo”, mas “não me julgue”.

A ética do Evangelho, que exige renúncia, virou um detalhe inconveniente. Afinal, quem quer um Cristo que confronte hábitos, denuncie excessos e exponha incoerências?

O curioso — ou trágico — é que essa hipocrisia não é percebida como tal. O discurso religioso serve como anestésico moral.

Brinda-se “ao menino Jesus” enquanto se ignora tudo o que ele ensinou depois de crescer. O nascimento é celebrado; a mensagem, arquivada. O presépio é montado; o Evangelho, silenciado.

Trata-se de um cristianismo sem cruz, sem exigência e sem transformação. Um cristianismo de ocasião, domesticado, que não incomoda consciências nem desafia estruturas.

Jesus, nesse contexto, não é Senhor — é figurante. Serve para enfeitar, não para governar.

Talvez por isso o Natal precise ser tão barulhento. O silêncio, como sempre, é perigoso. No silêncio, alguém poderia lembrar que aquele que nasceu numa manjedoura jamais confundiu fé com festa, espiritualidade com excesso ou amor com autopromoção.

No fim, o problema não é a ceia, nem a música, nem a celebração em si.

O problema é chamar de cristão um culto que tem o homem no centro e Cristo na moldura. Isso não é Natal. É apenas mais uma reunião em homenagem a nós mesmos — com Jesus como convidado que ninguém escuta.


Ao culto do eu soma-se outro fenômeno ainda mais grave: a instrumentalização da  por um projeto político que transformou o cristianismo em plataforma de ressentimento.

Não se trata mais apenas de esquecer Jesus — trata-se de usá-lo contra tudo o que ele ensinou.

bolsonarismo não criou essa hipocrisia religiosa, mas deu a ela método, linguagem e agressividade. Onde o Evangelho propõe amor ao próximo, introduziu-se o ódio como virtude cívica. Onde Jesus ensina misericórdia, vendeu-se a crueldade como sinal de coragem. O que era mandamento virou slogan; o que era ética virou arma retórica.

No Natal desse cristianismo deformado, Cristo continua figurante. A centralidade é do homem ressentido, armado de certezas morais e vazio de compaixão.

Não é mais o Deus que se faz servo; é o fiel que se faz juiz. A cruz foi substituída pelo palanque, o sermão pelo ataque, a  pelo alinhamento ideológico.

Criou-se, assim, um cristianismo sem Cristo, mas com inimigos muito bem definidos.

Ama-se “a família”, desde que ela caiba num modelo autoritário. Defende-se “a vida”, desde que ela não seja a do pobre, do indígena, do negro, do migrante ou do adversário político.

Fala-se em “valores cristãos” enquanto se justifica a violência verbal, simbólica e, não raro, física.

Natal, nesse contexto, vira o ápice da contradição. Celebra-se o nascimento daquele que disse “bem-aventurados os mansos” com discursos que glorificam a força bruta.

Louva-se o príncipe da paz embalado por uma retórica de guerra cultural.

Brinda-se ao amor enquanto se legitima o ódio — desde que esteja bem justificado, de preferência em nome de Deus.

Essa perversão não é acidental; é funcional. Um cristianismo exigente, que cobra coerência moral, solidariedade concreta e limites ao poder, não serve a projetos autoritários. Por isso, precisa ser domesticado, reduzido a símbolo identitário e esvaziado de conteúdo ético.

Jesus, assim, vira marca, não mensagem.

O resultado é um Natal ruidoso, agressivo e profundamente autocentrado. Muito barulho para abafar a consciência. Muito discurso religioso para esconder a ausência de prática cristã. O presépio permanece, mas agora como peça decorativa de uma  que já não reconhece o carpinteiro de Nazaré.

No fim, a questão não é política — é teológica. Quando o ódio passa a ser virtude e a exclusão vira princípio, já não se trata de cristianismo, mas de idolatria.

Idolatria do homem, do poder e da própria raiva. E isso, convém lembrar, foi precisamente o tipo de culto que Jesus jamais abençoou — nem no Natal, nem em qualquer outro dia.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

A inversão do ônus da prova e os boatos contra o STF

O jornalismo não foi inventado para adivinhar intenções nem para transformar cochichos de bastidor em manchetes respeitáveis.

Quando isso acontece, não estamos diante de informação, mas de narrativa interessada. E narrativa, quando veste a fantasia de notícia, deixa de ser inocente.

- Foi esse tipo de espetáculo de horrores, travestido de jornalismo, que alimentou a desgraça chamada Lava-Jato e pavimentou a chegada do satanás Bolsonaro à presidência. -

Circula por aí — com direito a aspas seletivas e fontes invisíveis — a versão de que Alexandre de Moraes teria conversado com Gabriel Galípolo sobre o Banco Master.

O verbo é revelador:

Teria”.

Não conversou, não há prova de que conversou, não se sabe se conversou.

Mas publica-se. Porque, no Brasil recente, o “teria” passou a funcionar como atalho para o linchamento moral.

Convém lembrar um detalhe que certos colunistas parecem esquecer: ministros do Supremo Tribunal Federal não estão proibidos de conversar com autoridades do Executivo, muito menos quando não há qualquer indício de interferência, pressão ou vantagem indevida.

Conversa, em si, não é crime, não é improbidade, não é infração administrativa.

O Direito ainda exige ato, nexo causal e tipicidade — conceitos básicos do artigo 5º, inciso II, da Constituição: ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei.

Onde está a lei violada?
Onde está o ato ilegal?
Onde está o prejuízo à coisa pública?

Silêncio.

A Constituição de 1988, no artigo 102, confere ao STF o papel de guardião da Constituição.

Alexandre de Moraes, goste-se ou não dele, exerceu esse papel quando enfrentou tentativas explícitas de ruptura institucional, investigou crimes contra o Estado Democrático de Direito (Lei nº 14.197/2021) e enquadrou quem achava que a democracia era um detalhe ornamental.

Desde então, virou alvo fixo.

Não é coincidência que qualquer ruído envolvendo Moraes ganhe proporção industrial. Trata-se de estratégia de desgaste, velha conhecida da política brasileira: não se derrota a instituição, então se tenta desmoralizar o indivíduo. O método é conhecido: insinuação primeiro, dúvida depois, suspeição permanente por fim.

E a imprensa? Toda ela entra no jogo.

Não por convicção ideológica, necessariamente, mas por uma mistura de pressa, preguiça investigativa e submissão a fontes que operam nas sombras. Além, é claro de submissão aos donos da notícia.

Todo canal de TV, toda estação de Rádio, todo jornal impresso ou digital, tem Dono.

O jornalismo vira correia de transmissão de interesses que jamais se assumem como tais.

É nesse contexto que surgem especulações ainda mais reveladoras. Coincide — sempre as coincidências — que o bombardeio contra Moraes caminhe junto com rearranjos no campo da direita, tentativas de “desbolsonarização” sem autocrítica e o esforço para viabilizar um nome mais palatável ao mercado.

A pergunta incômoda, que não aparece nos editoriais, é simples:
desgastar o STF serviria como moeda de troca política?

Algo do tipo:
reduz-se a pressão institucional, normaliza-se o discurso golpista, tira-se Moraes do centro do debate — e, em contrapartida, reorganiza-se a direita em torno de um projeto “mais apresentável”, com bênção tácita de setores do mercado financeiro.

- Mais diretamente: nós ajudamos a retirar Alexandre de Moraes do STF, e vocês retiram a candidatura de Flávio Bolsonaro em favorecimento da candidatura de Tarcísio de Freitas.

O próprio Eduardo Bolsonaro disse em alta voz: Tarcísio é um autocrata do Mercado, o ungido pelo sistema que quer acabar com Bolsonaro. -

Não se afirma. Questiona-se. Porque o papel do colunista não é proteger poderosos, mas iluminar zonas cinzentas.

O que se sabe com certeza é isto: não há prova de conversa ilícita, não há indício de interferência, não há fato jurídico relevante. Existe apenas o uso político da suspeita. E suspeita não é categoria jurídica; é ferramenta retórica.

No Estado Democrático de Direito, instituições não se regem por boatos. Regem-se por provas, leis e devido processo legal — artigo 5º, incisos LIV e LV, da Constituição. Tudo o que escapa disso é ruído. Ou manipulação.

E manipulação, como a História ensina, costuma cobrar um preço alto de quem brinca com ela achando que controla o roteiro.

No caso do Brasil, este tipo de manipulação custou, repito, a eleição de Jair Bolsonaro, a pior desgraça que houve nesse país desde a chevada doa portugueses.

sábado, 20 de dezembro de 2025

O Cazuza, a AIDS e o meu Tio Lorenzo

Dizia o poeta Agenor, universalmente conhecido como Cazuza, que “o tempo não para”.

Aos meus 64 anos, a minha saúde paga o preço do verbo — não parar. O meu agora significa mais uma noite na emergência hospitalar, aqui em Taubaté.

A Globoplay lançou recentemente a série Cazuza – Além da Música, magnífica coleção de informações e depoimentos sobre a vida, a passagem e a obra deixada pelo eterno filho de Lucinha e João Araújo.

Assim como ele, estudei no Colégio Santo Inácio; 5 anos mais novo, certamente nos cruzamos em algum momento por aqueles corredores imensos, sob o sino de bronze do jardim: “Eu sou um cara cansado de correr na direção oposta, sem pódio de chegada ou beijo de namorada”.

A série, em 4 capítulos, vai além da caricatura do sex, drugs & rock and roll. Mostra uma juventude da Zona Sul carioca dos anos 1980 que escolhia novas formas de viver e amar, rompendo conceitos herdados do antidemocrático 1964.

Cazuza surge como elemento transformador desde a largada. Do Barão Vermelho para a eternidade. Com ele, o dia nasceu feliz e a Beth balançou. 

No Rock in Rio de 1985, a maturidade chegou diante da multidão que aguardava a posse de um presidente civil, após mais de 20 anos de um verde sem esperança.

Na mesma década, apaixonei-me, fui para a Espanha, casei. Em Madrid, capital cultural da Europa, vivi 5 anos e meio mágicos trabalhando numa multinacional, base profissional para toda uma vida.

Para o Cazuza, a AIDS que o acompanhava há três anos causou a sua morte em 7 de julho de 1990, aos 32 anos. No mesmo dia, em Roma, acontecia o primeiro concerto dos Três Tenores. Morreu a carne, eternizou-se o poeta. A notícia correu entre os brasileiros em Madrid. Foi difícil dormir. Voltei aos shows do Circo Voador: “Todo dia a insônia me convence de que o céu faz tudo ficar infinito”. Maldita AIDS.

Regressei ao Brasil no final de 1993, sem vontade - por amor. “E por você eu largo tudo”.

Em 26 de dezembro o meu Tio Lorenzo foi diagnosticado com AIDS. De 95 quilos, restavam 55. Tornei-me o seu único apoio no Rio. Essa guerra era minha.

Ao vasculhar o apartamento – como de uma cena de algum filme de suspense se tratasse - um choque: cartas de um namorado, fotos de homens, camisinhas gays. Aos 32 anos descobri que o meu Tio, de 54, era homossexual.

Dediquei-lhe um ano inteiro; vi vagão do metrô esvaziar-se, por preconceito – estava em pele e osso, uma caveira. 

Faleceu a 4 de dezembro de 1994 nos meus braços. Durante meses temi ter-me contaminado pois tive contato com o seu sangue. Deus não quis. Morreu sem revelar a sua condição sexual. Nunca me importou. Eu o amava. Se havia em mim qualquer traço de homofobia, deixou de existir: “É que eu preciso dizer que eu te amo”.

Esta noite, já madrugada do dia 20 de dezembro, o conta-gotas do soro acompanha minhas palavras. Sinto saudades do amor do meu tio Lorenzo.

Cazuza segue atual: “A tua piscina tá cheia de ratos”. Sempre foi assim: “Eu vejo o futuro repetir o passado, eu vejo um museu de grandes novidades”. Serve para o Congresso Nacional, serve para a ALERJ.

Estou cansado do pedágio do meu corpo, às vezes falta gasolina. Hoje, o portador de HIV tem perspectivas. A ciência dá vida.

Finalizando: “Eu não tenho datas pra comemorar”.

TEXTO DE:
Antonio Gonzalez

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

PL da Dosimetria: rasgar a Constituição e reclamar do STF

O Brasil é mesmo um país admirável. 

Consegue produzir jabuticaba, orçamento secreto e, agora, uma nova modalidade de ficção jurídica: a dosimetria sem juiz.

A Câmara aprovou, o Senado confirmou e o governo — sim, o governo — patrocinou o acordo que resultou no famigerado PL da Dosimetria. Sob a coordenação política de Jacques Wagner, diga-se. Não é detalhe. É agravante.

Comecemos pelo básico, já que o óbvio anda precisando de aula de reforço.

O artigo 59 do Código Penal estabelece que o juiz fixará a pena “conforme seja necessário e suficiente para reprovação e prevenção do crime”, considerando culpabilidade, antecedentes, conduta social, personalidade do agente, motivos e circunstâncias do crime.

Isso não é poesia. É técnica jurídica. É individualização da pena — princípio consagrado no artigo 5º, inciso XLVI, da Constituição Federal.

Pois bem.

O PL aprovado decide que tudo isso é… exagero.

O magistrado, coitado, estaria “livre demais”. Melhor amarrá-lo. Afinal, juiz pensando é sempre um perigo, não é mesmo? Melhor que ele apenas some frações, ignore o contexto e finja que um assaltante ocasional e um líder de organização criminosa são quase primos distantes.

O texto aprovado faz o milagre inverso ao do Direito Penal moderno: desconstitucionaliza a dosimetria sem dizer que está fazendo isso. Engessa a primeira fase da pena, transforma circunstâncias judiciais em itens decorativos e cria um sistema de pontuação que faria inveja a campeonato de futebol de botão. Só falta o VAR penal.

E tudo isso sob o argumento nobilíssimo do “combate a abusos”. Ora, abusos se combatem com controle, recursos e jurisprudência — não com a mutilação do poder jurisdicional.

O STF já decidiu reiteradas vezes que a dosimetria é matéria de discricionariedade vinculada do juiz, desde que fundamentada (vide HC 118.533, HC 176.473, entre tantos outros). Mas quem liga para a Corte Constitucional quando há acordo político em jogo?

A pergunta incômoda é: quem ganha com isso? O pequeno infrator? Não.

O réu primário? Já tem benefícios legais. 

Quem ganha é o reincidente profissional, o criminoso organizado, o corrupto serial — aquele que sabe navegar como ninguém entre brechas legais, bons advogados e prazos prescricionais. A eles, o Congresso oferece previsibilidade. Ao cidadão comum, oferece discurso.

E aqui entra o componente tragicômico. Parte da esquerda institucional, que passou anos denunciando o “Direito Penal do inimigo”, agora ajuda a criar o Direito Penal do amigo. O amigo certo, claro. O que tem foro, recursos e tempo. O punitivismo era um problema quando atingia os “nossos”. Agora, a leniência virou virtude republicana.

Jacques Wagner sabe disso tudo. Não estamos falando de um neófito.

Wagner conhece a Constituição, conhece o Código Penal, conhece o STF e conhece, sobretudo, o Congresso que tem.

Se articulou o acordo, não foi por ignorância. Foi por cálculo. O problema é quando o cálculo político atropela o cálculo constitucional. E atropela o próprio Governo do qual faz parte da base.

No fim, sobra a ironia maior: vendem o projeto como avanço civilizatório, mas ele afronta o princípio da individualização da pena, esvazia o artigo 59 do Código Penal e convida o Judiciário a atuar como mero carimbador de sentenças pré-fabricadas. Isso não é garantismo. É comodismo legislativo travestido de técnica.

Depois, quando a criminalidade organizada agradecer — em silêncio, claro — ninguém sabe por quê.

No Brasil, a lei continua sendo dura.
Não para todos. Apenas para quem não senta à mesa do acordo.


TEXTO DE:

Tarciso Tertuliano

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

O Evangelho Segundo os Canalhas: o uso da Bíblia para justificar política suja

A Bíblia, esse livro milenar que sobreviveu a impérios, cismas, concílios e heresias, finalmente encontrou no Congresso Nacional brasileiro seu mais improvável destino: o de manual jurídico alternativo, usado entre um aparte e outro para justificar ilegalidades com verniz celestial.

O problema não é a . O problema é o golpe hermenêutico.

Deputados e Senadores descobriram que citar versículos no microfone tem um efeito curioso: suspende o constrangimento.

Onde deveria haver Constituição, entra o Levítico; onde se exige legalidade, surge Deuteronômio arrancado do contexto; onde a lei pede provas, apresenta-se uma parábola pervertida.

O Estado é laico, diz a Constituição. Mas, no plenário, ele se converte com facilidade suspeita.

A Bíblia virou álibi retórico.

Serve para justificar ataques ao Supremo, deslegitimar eleições, negar direitos civis, atacar minorias e relativizar crimes — tudo em nome de um Deus que, curiosamente, nunca é citado quando o assunto é justiça social, honestidade administrativa ou amor ao próximo. Esses versículos, ao que parece, ficaram fora do pacote.

E então entra em cena o bolsonarismo, esse fenômeno político-teológico que misturou ressentimento, antipolítica e messianismo barato.

O ex-capitão não apenas foi adotado por setores do meio evangélico: foi ungido, elevado à condição de instrumento divino, apesar de uma biografia que desaconselharia até um cargo de síndico. 

Milagre? Não. Marketing religioso.

Pastores viraram cabos eleitorais; púlpitos se transformaram em palanques; cultos, em comícios.

A Bíblia passou a ser lida como panfleto ideológico, e Jesus, se resolvesse aparecer, provavelmente seria acusado de comunista. Afinal, amar inimigos, defender pobres e condenar hipócritas nunca foi muito popular entre os novos fariseus de Brasília.

O mais grave não é o uso político da religião — isso é velho como o Império Romano. O escândalo é a banalização do sagrado para justificar o profano: ataques à democracia, desprezo pela ciência, flerte com o autoritarismo e, em alguns casos, a tentativa explícita de blindar condutas que a lei penal descreve como sendo crime com clareza suficiente para dispensar exegese bíblica.

Não se trata de perseguir evangélicos — seria intelectualmente desonesto e moralmente baixo. Eu inclusive sou um deles.

Trata-se de denunciar a instrumentalização da por lideranças religiosas e políticas que confundem Deus com projeto de poder e a Bíblia com código penal seletivo.

A Constituição não é um apêndice das Escrituras.

O Congresso não é uma igreja.

E o Estado Democrático de Direito não se submete a revelações particulares, muito menos às que surgem convenientemente em véspera de votação ou investigação.

Se a Bíblia ensina alguma coisa — e ensina muitas — é que falsos profetas existem.

E costumam falar alto, com a Bíblia aberta na mão e a Constituição fechada na consciência.

Na esteira de toda essa confusão, vem a participação das igrejas. Pastores deixaram de lado a pregação do Evangelho e passaram a atuar como cabos eleitorais.

Sempre usando versículos de vingança e punição divina. Porque afinal de contas, o adversário político merece a morte.

Mas quando os crimes e falcatruas de seus ungidos vêm à luz, surgem como de uma cartola mágica justificativas espirituais: perseguições do Inimigo, provas e tentações espirituais.

E caso o crime seja muito grave e a justiça acaba por colocar seu aliado atrás das grades, o discurso de punição é substituído por perdão e amor.

Tudo devidamente homologado com trechos de passagens bíblicas mesmo que um pouquinho deslocadas, pois afinal, os ouvintes nem mesmo lêem mesmo.

Aliás, observando a quantidade de citações bíblicas usadas de maneira indiscriminada, chego a pensar que nem mesmo os pastores andam lendo a tão usada Bíblia.

Isso promete piorar em 2026, ano eleitoral. Pois esses pastores "tomarão o reino de Brasília à força" se for preciso.

E para cristãos como eu, que prefere ouvir o Evangelho no púlpito e não no palanque, a saída vai ser abandonar a igreja, pois nela, o púlpito, o palanque e a hipocrisia se levantarão como a santíssima trindade da política brasileira.


TEXTO DE:

Tarciso Tertuliano

Padre Júlio Lancelotti: a voz que tentam calar

O arcebispo de São Paulo, Dom Odílio Scherer, determinou que o Padre Júlio Lancelotti não pode mais usar redes sociais e não pode mais transmitir missas pela internet.

Isso foi confirmado pelo próprio Padre Júlio. Não é boato, não é fofoca, não, é fato.

Lembrando que Dom Odílio, apoiou veementemente a ração humana criada por João Dória quando era prefeito de São Paulo, tentou distribuir para quem estava em situação de vulnerabilidade.

Uma igreja que vem perdendo fiéis ano após ano decide proibir transmissões que alcançavam pessoas do Brasil inteiro e até de fora do país. É uma escolha pelo silêncio. É a igreja escolhendo se esconder.

O Padre Júlio Lancelotti não é um padre qualquer. Ele dedica a vida à frente da pastoral do povo de rua.

Enquanto muita gente prefere aquele discursinho confortável sobre amor ao próximo, ele está lá na rua todos os dias, distribuindo comida, escuta, acolhimento, um mínimo de dignidade. 

Recentemente, ele inaugurou uma biblioteca no bairro do Belém, em São Paulo, dedicada a pessoas em situação de rua. Três mil livros, rodas de conversa, incentiva a leitura.

Não é só matar fome, é devolver à humanidade aquelas pessoas que a sociedade insiste em tratar como se fossem invisíveis.

E é exatamente isso que faz o padre Júlio incomodar. Ele incomoda porque ele age, porque ele mostra a realidade das ruas. Incomoda porque ele usa as redes sociais para dar voz a quem não tem voz. Incomoda porque a mensagem chega longe demais.

E é aí que entra a censura.

Primeiro você tira a câmera, depois tira a rede social. Ninguém diz que você está proibido de existir, mas se garante que ninguém mais te veja.

Se você incomodar demais, se você der visibilidade demais aos pobres, se você levar o evangelho a sério demais, você vai ser silenciado. É um convite a se conformar, que ninguém ouse ser cristão demais.

Mas eu digo uma coisa para vocês. O padre Júlio vai continuar fazendo o que sempre fez, porque o que move esse homem não é cargo, não é status, não é instituição. É , é compromisso com os esquecidos. E isso nenhuma proibição vai calar.


TEXTO DE:

Thiago Muniz

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Zezé Amargo e a ignorância de um bolsonarista de ocasião

Zezé Di Camargo (o Mirosmar) resolveu falar — e, como costuma acontecer quando certas celebridades resolvem opinar fora do microfone do karaokê, falou demais e pensou de menos.

Ao atacar as filhas de Silvio Santos e o SBT, não produziu crítica; produziu sintoma.

Sintoma de um bolsonarismo que não educa, não refina, não complexifica — ao contrário, embrutece.

É curioso observar como o bolsonarismo funciona como uma espécie de solvente moral: dissolve a capacidade de discordar com civilidade, corrói o senso de limite e transforma qualquer divergência em ofensa pessoal.

Não se debate decisões empresariais, não se analisa linhas editoriais; parte-se direto para o ataque. É a política reduzida ao grito, à grosseria, ao “ou está comigo ou é inimigo”.

Zezé (o Mirosmar) não criticou o SBT como quem exerce cidadania. Criticou como quem foi treinado a reagir por impulso, como se o mundo fosse uma arquibancada e ele estivesse obrigado a xingar o juiz.

O bolsonarismo ensina isso: pensar é coisa de fraco; intolerância é prova de caráter.

O resultado é esse festival de opiniões mal digeridas, ditas com a convicção de quem confunde franqueza com grosseria. Uma prova de imbecilidade completa.

Atacar as filhas de Silvio Santos, herdeiras legítimas de um grupo privado, por decisões que dizem respeito à gestão e à sobrevivência de uma empresa, revela algo ainda mais grave: a incapacidade de aceitar que o mundo não gira em torno da seita ideológica do momento. O bonde passou, Zezé (o Mirosmar), e você nem viu 

O bolsonarista típico não tolera a autonomia alheia. Se não obedece, “traiu”. Se discorda, “se vendeu”. Se pensa diferente, “virou comunista” — esse espantalho eterno usado por quem não sabe nomear a própria ignorância.

O caso é didático. O bolsonarismo não forma cidadãos críticos; forma idiotas profissionais, sempre prontos para atacar pessoas, nunca ideias. E quando artistas aderem a esse modo de ver o mundo, passam a confundir palco com púlpito e opinião com revelação divina.

No fim das contas, Zezé (o Mirosmar) fez um favor ao debate público — ainda que involuntariamente. Sua fala confirma, com a eloquência de um tropeço, que o bolsonarismo não apenas empobrece a política brasileira. Ele empobrece as pessoas. Intelectualmente, moralmente e, sobretudo, humanamente.

E isso, convenhamos, não é desafinação passageira. É método.

Justo ele quer cobrar moral? O cara pobre, que quando ficou rico, humilhou a esposa chamando de feia publicamente diversas vezes? E depois a trocou como se troca de roupa? Que moral tem esse senhor?

O cérebro de Zezé (o Mirosmar), deve ter acabado junto com a voz, que aliás, nunca foi nem longe, boa o suficiente.

Ele é apenas mais um dos milhares de artistas medíocres que passaram pelo Brasil, e não conseguiram realizar nada de concreto pelo país.

E não, não se trata de dizer que artistas são obrigados a ser de esquerda. Trata-se de ter cérebro, seja de esquerda ou de direita.

Mas Zezé, (o Mirosmar) optou por não ser nem um, nem outro. Ele escolheu ser bolsonarista, que virou sinônimo de ignorância.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Marco Temporal, A PEC do genocídio permitido

O Senado Federal decidiu, em mais uma atitude vergonhosa, aprovar o marco temporal — essa tese jurídica que já nasceu inconstitucional, foi declarada inconstitucional e insiste em circular por Brasília com a vitalidade de um morto-vivo fedorento legislativo.

Nada combina mais com a República do que a tentativa de criar lei para derrubar decisão do Supremo Tribunal Federal, como se a Constituição fosse um catálogo de sugestões e o Judiciário, um departamento de atendimento ao consumidor: “Não gostou da decisão? Protocole um projeto de lei e tente novamente!

O problema (para quem ainda leva o Estado de Direito a sério) é que o texto constitucional não dá margem para interpretações agrárias da ancestralidade.

O artigo 231 continua lá, inabalável, afirmando que os direitos indígenas são originários. A expressão não significa “a partir de 5 de outubro de 1988”, nem “condicionado ao humor da bancada ruralista”. Significa (e sinto desapontar alguns senadores) anteriores ao próprio Estado brasileiro.

Mas Brasília, terra fértil em ficção jurídica, decidiu que os povos que estavam aqui antes de Portugal agora devem provar presença em data posterior à Constituição. E, se possível, com documento carimbado. De preferência reconhecido em cartório do século XVI.

Raposa Serra do Sol: o caso que eles fingem não conhecer

O Senado finge ter sofrido uma súbita amnésia institucional. Em 2009, no julgamento da Raposa Serra do Sol, o STF estabeleceu parâmetros claros para demarcação de terras indígenas e, ainda que a tese do marco temporal tenha sido ventilada no caso, o próprio Supremo tratou depois de esclarecer que aquela condicionante não se aplicava de forma geral, muito menos vinculante. O Tribunal reafirmou isso com todas as letras em 2023, no RE 1.017.365.

Mas o Senado, sempre tão sensível a nuances constitucionais, decidiu que sabe mais do que o Supremo e que o precedente serve quando convém — e quando não convém, vira mera nota de rodapé. É como estudar para a prova decorando apenas as respostas que favorecem o próprio grupo de interesse. Brilhante método educativo; péssimo método legislativo.

A fábula da “segurança jurídica”

Os defensores do marco temporal adoram repetir a expressão “segurança jurídica”.

No Brasil, poucas frases são tão elásticas. A segurança jurídica defendida aqui é aquela que se aplica ao proprietário sem título que virou dono por decibéis; ao grileiro que virou empreendedor; ao invasor que virou investidor.

Já a segurança jurídica dos povos indígenas, prevista na Constituição e reiterada pelo STF? Essa, infelizmente, continua em falta no estoque.

Cláusulas pétreas: o detalhe inconveniente

Ao tentar limitar direitos originários a uma data arbitrária, o Senado esbarra em um problema nada pequeno: o marco temporal viola cláusulas pétreas, como a proteção a direitos e garantias individuais (art. 60, §4º). Mas Brasília tem um talento inexplicável para fingir que cláusula pétrea é apenas uma metáfora. Como se dissesse: “Pétrea, sim, mas dá para dar uma alteradinha…

É a tentativa explícita de fazer por via legislativa o que o STF já proibiu por via judicial. E isso, no jargão técnico, se chama inconstitucionalidade. Mas, como se sabe, certas maiorias parlamentares acordam todos os dias prontas para desafiar a Constituição.

A farsa do progresso

Tudo é vendido em nome do “desenvolvimento”.

Desenvolvimento, no vocabulário desse grupo, tem um cheiro inconfundível: gasolina, motosserra e títulos fundiários de origem duvidosa.

O país ainda trata território indígena como obstáculo, não como patrimônio ambiental, histórico e jurídico. É o tipo de atraso que só encontra paralelo em governos que tentam modernizar a legislação enquanto caminham para trás.

O Brasil que pisa no próprio passado

O marco temporal não é só um erro técnico. É um erro civilizatório. É a tentativa de reduzir povos inteiros a um calendário conveniente e transformar esbulho em política pública. Mas a Constituição persiste teimosa, incômoda, lembrando que direitos originários não caducam por conveniência ruralista.

O Senado pode aprovar o que quiser. Pode até reinventar a História. Mas não conseguirá revogar o fato básico:
os povos indígenas estavam aqui antes do Brasil — e estarão aqui depois de mais essa vergonha legislativa.

domingo, 7 de dezembro de 2025

Blindar-se contra o golpismo: não pode?

Em 2016, quando o Supremo Tribunal Federal admitiu prisão após condenação em segunda instância — com alvo certo, voto de Gilmar Mendes e ao arrepio da Constituição de 1988 —, explodiram em palmas o Jardim Botânico, o solar dos Civita e a alameda Barão de Limeira, e deu para ouvir também o jornaleiro Bernard Gregoire soprando sua corneta, montado em seu cavalo, anunciando a boa-nova na capa do Estadão.

O Brasil vivia, na época, a farra das “medidas excepcionais” fabricadas na 13ª de Curitiba e nos gabinetes da task force mancomunada com o DoJ; “medidas excepcionais” para “tempos excepcionais” engendrados nos jardins, solares e alamedas da mídia corporativa.

Agora, quando Gilmar Mendes despacha para proteger o STF da tentativa do produto daquela época, o fascismo à brasileira, de repetir no Brasil o que a internacional fascista já fez na Hungria e na Polônia, ou seja, pôr a Justiça prostrada no âmbito do mais excepcional dos tempos desde a Segunda Guerra; agora, dizíamos, as redações explodem, muito republicanas, em fúria jurisprudencial.

O Estadão corneta: “decisão teratológica”. Na Folha: “Gilmar Mendes põe ministros entre autoridades acima da lei”. No jornal O Globo, jornalista e notório professor isentão da USP cravam, respectivamente, que “blindagem por canetada de Gilmar é golpe na democracia” e “Gilmar Mendes implode sistema de freios e contrapesos”, como se na Hungria e na Polônia restasse breque ou contramedida a quem tem como projeto reduzir a democracia a pó.

Na Globo News, comentarista de política reconhece que o Brasil vive um golpe continuado, que isto não é de hoje e que o próximo golpe dentro do golpe já está anunciado, é este e pode ser o de misericórdia: um strike em ministros do STF não sancionados por Trump, começando por Alexandre de Moraes, derrubando Flavio Dino, quem sabe Edson Fachin e por que não um último pino, o próprio Gilmar Mendes.

Mesmo assim, o comentarista comenta que, se criticou a PEC da Blindagem do Legislativo, agora tem de criticar também o que chama de “PEC da Blindagem do Judiciário”.

Que apenas uma das duas seja coisa de bandidagem, quem se importa?

Que diferença faz que o que revelou nesta sexta-feira, 5, no Uol, o repórter Fábio Serapião?

Isto: o homem que tem a caneta para fazer andar impeachments de ministros do STF recebeu canetas emagrecedoras não liberadas pela Anvisa das mãos de “Beto Louco”, empresário acusado pela Polícia Federal de ligação com o PCC e hoje foragido da Justiça. Quem se arrisca, quem bota a cara para esclarecer que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa, se a bacia do isentismo, do doisladismo, do encimadomurismo está sempre ali, à mão, para lavar as mãos?

Blindar-se contra o golpismo: não pode? 

Segundo a mídia corporativa, não. O que pode é o fascismo tomar o Senado da República via emendas Pix, deep fakes de IA, via chacinas, nas eleições de 2026, para depois pôr o Supremo de joelhos.

O problema do Brasil”, como se sabe, é legião, mas um dos demônios que andam por aqui em grupos do quinto dos infernos é a pusilanimidade que grassa na mídia corporativa, em regra. 

Ou, como disse Luis Nassif no GGN a respeito da “interminável discussão sobre a decisão do ministro Gilmar Mendes”, uma “multidão de semi-juristas espalhados pela mídia” que têm dificuldades com o “mundo real”.

Quando Gilmar Mendes despacha contra os direitos dos povos indígenas, por exemplo, nenhum jornal sai gritando “implosão por canetada da democracia!”.

Quando Gilmar opera como promoter de surubadas juscorporativas no exterior, orgias de conflitos de interesses entre o Judiciário, o capital e o Centrão, nenhuma emissora dá à coisa o nome que ela merece, e sim “Gilmarpalooza”.

Mas quando o decano do Supremo atua, como disse Moisés Mendes no Brasil 247, em “legítima defesa de um patrimônio institucional ameaçado”, ameaçado por golpistas, aí, senhoras, senhores, não pode, não. Aí é “golpe”…


Artigo publicado no Come Ananás sob o título "Blindar-se contra o golpismo: não pode?".


TEXTO DE:

Hugo Souza

Apoie agora: https://www.comeananas.news/p/apoie


A democracia agradece.

sábado, 6 de dezembro de 2025

O DESincrível Huck e os indígenas

A frase de Luciano Huck pedindo que os indígenas limpassem a cultura de vocês aí ao retirar celulares e roupas modernas não é apenas um deslize verbal.

É a manifestação de uma lógica que permanece viva no imaginário brasileiro e que transforma povos originários em personagens fabricados para consumo público.

Essa fala revela a continuidade de um olhar colonial que enxerga culturas indígenas como peças de museu e não como realidades vivas, dinâmicas e em constante transformação.

Quando um apresentador multimilionário se sente autorizado a determinar como um povo deve se apresentar diante das câmeras, ele repete a antiga hierarquia que sempre colocou a branquitude no centro da definição do que é legítimo.

A orientação para que celulares fossem escondidos não busca autenticidade. Ela busca reforçar a fantasia de um indígena congelado no tempo.

Essa exigência ignora que toda cultura muda e incorpora elementos novos ao longo das gerações. Ao negar essa mudança, a fala de Huck atua como um tipo de patrulha identitária colonial que tenta controlar a autoimagem de comunidades historicamente silenciadas.

A frase limpem a cultura não limpa nada. 

Ela revela um gesto de sujeira simbólica que distorce a relação entre quem filma e quem é filmado. 

Huck não queria mostrar a cultura indígena como ela é. Queria uma versão estetizada e exotizada que se encaixa no imaginário confortável da televisão. É a tentativa de ajustar vidas reais ao roteiro que a branquitude espera ver. 

Essa prática esvazia sujeitos e os transforma em cenário. A violência simbólica está justamente nessa transformação. A autonomia indígena é substituída pela estética que o entretenimento considera vendável.

A assimetria de poder fica evidente. Um comunicador com alcance nacional molda identidades alheias de acordo com o interesse da indústria televisiva. 

Enquanto isso, os mesmos povos que o país insiste em representar como figuras folclóricas continuam lutando por terra, respeito e direitos básicos.

O Brasil deseja indígenas para a fotografia, mas não para a política. Quer adorno, mas não quer escutar suas demandas. Quer rituais, mas não quer reconhecer demarcações.

O problema não está apenas na frase de Huck. Está no que ela escancara sobre a sociedade brasileira.

Ainda se espera que indígenas performem uma pureza inventada enquanto a população que consome entretenimento se recusa a enxergar a complexidade desses povos.

A fala revela a preferência nacional pela fantasia em vez da realidade.

Indígenas que usam tecnologia ou que transitam pelo mundo contemporâneo são frequentemente tratados como se tivessem perdido sua identidade, o que é uma completa distorção sociológica.

No fim, a gravação apenas confirma algo que o país insiste em não admitir. Não é a cultura indígena que precisa ser limpa.

É a nossa dificuldade histórica de aceitar que ela é plural, contemporânea, potente e resistente apesar de séculos de apagamento.

TEXTO DE:
Beta Bastos