quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Havaianas todo mundo USA, será?

Está acontecendo o falecimento da interpretação munido pelo discurso do ódio; a cada semana se prega uma nova narrativa abastecida pela semântica dos algoritmos.

É só termos um raciocínio simples; a Havaianas, amada e consumida que agrega valor no mundo todo, vai perder seu tempo com polarização?

E mesmo se alguém internamente levantasse essa hipótese alguém acha mesmo que a Itausa permitiria isso com o grande risco de diminuir o seu share?

Money, business!

A Fernanda Torres aparece dizendo que não quer começar o ano com o pé direito. Começar o ano com o pé esquerdo foi associado a ter azar, e é uma frase recorrente no fim do ano. Essa campanha se conecta a uma outra campanha clássica das Havaianas. É uma campanha de 2014 onde Romário compra Havaianas e pede para separar a esquerda e a direita em dois embrulhos, e ele manda o pé esquerdo para o Diego Maradona. Então, Fernanda Torres complementa.

Eu não quero começar o ano com o pé direito, porque você tem que começar com os dois pés. Dois pés é a união. Dois pés na porta, os dois pés na estrada, os dois pés no chão para que você tenha equilíbrio.

E Natal, normalmente, que era conhecido como uma época de harmonia, virou uma época de desarmonia.

E se vem aquele tema tabu, todo mundo começa a brigar. E é mais um ano a família sem se falar.

Exceto no lugar que a família mais se encontra, que é nos grupos de WhatsApp, essa campanha, na verdade, é um plot twist.

Ela não traz valores de esquerda ou de direita.

Ela não fala sobre liberalismo econômico, ela não fala sobre pautas morais, ela não fala sobre privatizações, ela não fala sobre justiça social, não fala sobre desigualdade, não fala sobre distribuição de renda.

Ela não fala sobre meritocracia ou não fala sobre acessibilidade.

E seria um tipo de liberdade de expressão que não tem nenhum motivo de boicote.

Aliás, se a gente fosse fazer uma análise semiótica dessa campanha, ela tem inclusive valores até mais voltados para a direita, porque ela inclusive fala que depende de você o seu ano.

E é justamente a ideia do liberalismo que vai defender essa responsabilidade única e pessoal pelo seu próprio sucesso. E aí, a paranoia generalizada em forma de vergonha alheia faz as pessoas se unirem para devolver as Havaianas que ganharam, pois dessa marca não mais consumirei.

Imagina se toda marca e pessoa começasse a fazer isso, né?

Você tá cancelando a Havaianas porque ela tocou no nome proibido?

Mas você tá cancelando todo mundo da sua família, todo mundo da sua sala de aula, todo mundo do seu círculo de trabalho?

E imagina se as marcas fazem isso de volta, colocam a estrelinha na testa de todo mundo?

Desculpa, senhor consumidor, na minha empresa você não pode entrar, porque eu identifiquei que você tem certos valores que não condizem com a minha marca. O que a gente vê são culturas do cancelamento seletivas.

A gente pode escolher as marcas que a gente consome que nos representam. Se a marca, por exemplo, tiver propagando racismo, tiver propagando homofobia, se tiver propagando ódio para qualquer um dos lados, se tiver uma intolerância religiosa, se tiver fazendo apologia ou incentivo a crimes. Mas acho que não foi o caso, né?

Uma mulher que recentemente inclusive foi símbolo de patriotismo, levando o seu nome e o nome do seu país em escala internacional.

Em vez de a gente se cancelar, a gente poderia dialogar mais, ter um pouco mais de educação. Até porque eu acredito firmemente que a maioria das pessoas não sabem a diferença entre esquerda e direita.

Elas simplesmente se dividiram em times de futebol, que gritam enlouquecidamente. Quanto mais desinformação, mais caos, mais as pessoas brigando, mais as pessoas divididas.

E aí é mais fácil de manipular e controlar.

Por exemplo, enquanto a maioria das pessoas tá brigando, o Congresso faz a festa com as emendas parlamentares. E na calada da noite votam um monte de projetos. A maioria não vai beneficiar nenhum de nós dois.

TEXTO DE:
Thiago Muniz

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